Zacuto, Abraão

Zacuto, Abraão

Abraão ZacutoMuitos foram os médicos e astrólogos, na sua grande maioria de origem hebraica, que deram o seu contributo para a realização das navegações oceânicas portuguesas, ao longo dos séculos XV e XVI. O seu trabalho centrou-se quase exclusivamente no campo da astrologia e das observações astronómicas. Abraham bar Samuel bar Abraham Zacuto, mais conhecido por Abraão Zacuto, foi precisamente um dos muitos Mestres que estiveram em contacto com o meio náutico português. Nascido muito provavelmente em Salamanca, por volta de 1450, onde terá feito os seus estudos de astrologia e matemática, depressa granjeou respeito e admiração entre o corpo docente salamantino. Aí teceu laços de amizade com alguns professores, entre os quais Juan Selaya e Diego Ortiz de Villegas. Abraão Zacuto entrou em Portugal por volta de 1492, fugindo às perseguições de que era alvo o seu povo no outro lado da fronteira. Pagando, decerto, alguma quantia de dinheiro a troco da sua permanência em terras lusitanas, por aqui estanciou ao serviço de D. João II e de D. Manuel I. A primeira referência da presença do astrólogo salmanticense em Portugal é datada de 9 de Junho de 1493, tratando-se de uma ordem de D. João II para que se pague ao «Rabi Abraão X espadins douro». Ao que Zacuto assina, em hebraico, com o título de «matemático do rei». Também Gaspar Correia refere, nas suas Lendas da Índia, que D. Manuel I, muito dedicado à «Estrolomia», pedia frequentemente informações ao astrólogo acerca das condições em que se iriam realizar as navegações portuguesas. De facto, parece restarem poucos dúvidas sobre a utilidade dos conhecimentos de Abraão Zacuto, que tudo indica foram desde logo aproveitados para o aperfeiçoamento da náutica, que passava por uma fase crucial do seu desenvolvimento, naquele final de século (XV). Um outro judeu ao serviço da Coroa portuguesa, José Vizinho, traduziu do hebraico para português uma das obras mais emblemáticas de Zacuto, o Almanach Perpetuum, composto nas oficinas de Thomás de Orta, em Leiria, no ano de 1496, e que tantos e tão decisivos serviços iria prestar à náutica astronómica portuguesa. Com efeito, como demonstrou de forma brilhante Luciano Pereira da Silva, todas as tábuas quadrienais calculadas em Portugal, a partir de finais do século XV e até Pedro Nunes (1537), para obtenção da posição do sol na eclíptica (tendo em vista a consecução, a bordo dos navios, de uma coordenada geográfica – a latitude) tiveram por base as tabelas e os cálculos astronómicos elaborados pelo astrólogo sefardita. Recusando converter-se ao cristianismo, depois de em 1496 D. Manuel ter ordenado a expulsão de todos aqueles judeus que não adoptassem a religião cristã, Abraão Zacuto parte em direcção ao norte de África, primeiro, tendo mais tarde procurado refugiu na Síria, onde terá falecido por volta do ano de 1522.


Carlos Manuel Valentim


Bibliografia
ALMANACH Perpetuum de Abraão Zacuto, fac-símile do exemplar da Biblioteca Nacional, introdução de Luís de Albuquerque, Lisboa, Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1986.
BURGOS, Francisco C., Abraham Zacuto, Siglo XV, Madrid, M. Aguilar
Editor, S/dt.
CHABÁS, José, Goldenstein, Bernard R., Astronomy in the Iberian Peninsula: Abraham Zacuto and Transition from Manuscript to Print, Philadelphia, Transactions of the American Philosophical Society, volume 90, pt. 2, 2000.
SILVA, Luciano Pereira da, Obras Completas, 3 vols., Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1943-1946.