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Bernardo Marques, por Marina Bairrão Ruivo
Bernardo Marques (1898-1962) foi autor de uma obra vastíssima e multifacetada que lhe confere um lugar de destaque na arte portuguesa contemporânea. Natural de Silves, nasceu no seio de uma família abastada. Veio para Lisboa em 1918 frequentar a Faculdade de Letras em Lisboa, que abandonou em 1921, juntamente com a sua colega de curso Ofélia Marques (1902-1952), pintora modernista que viria a ser sua mulher. No percurso da sua prática artística, que abrange o período de 1920 a 1962, é possível – apesar da diversidade das suas atividades – descortinar uma evolução inteligível, cujo fio condutor é o seu meio de expressão privilegiado, o desenho. Bernardo Marques preferiu, na sua opção pela prática do desenho, uma aprendizagem vivencial a uma formação académica e iniciou-se através do desenho humorístico, das caricaturas - de grande riqueza gráfica e decorativa - partilhando com os artistas “novos” da sua geração o desenvolvimento do modernismo durante a década de vinte. As imagens dos magazines não coincidiam com as imagens da realidade lisboeta. Lisboa, povoada de novos-ricos, era uma pequena cidade cheia de campos e lugares híbridos que Bernardo Marques retratou com um misto de ternura e de ironia. No final da década, a elegância daria lugar a uma temática mais social, e a estilização gráfica seria substituída por um traço mais violento e expressionista. Uma estadia em Berlim, em 1929, para além de lhe aguçar a perceção da estagnação da vida artística em Portugal, facultou-lhe novos meios de expressão. Os desenhos e as aguarelas de Berlim são registos de um impiedoso observador da sociedade urbana, resultam do contacto que teve com o expressionismo alemão e refletem já um certo desencanto e amargura associados a um traço mais violento e expressionista que caracterizaram a produção dos anos que se seguiram. Ao nível da ilustração, a sua produção deste período confina-se quase exclusivamente à sua colaboração nas revistas de cinema. A influência que o cinema exerceu e o mimetismo que provocou foram explorados com humor, ironia e algum ridículo em inúmeros desenhos de Bernardo Marques: a acutilante série de cinéfilas não foi com certeza feita para ser publicada numa revista da especialidade. Estadias por outras terras (Paris, Nova Iorque, São Francisco) condicionaram, de diferentes modos, a linguagem plástica e alimentaram o poder criador do artista. De Paris resultaram desenhos mais poéticos, de registo mais atmosférico. Depois de várias viagens e experiências plásticas e humanas diversificadas, Bernardo Marques regressa a Lisboa, iniciando um percurso mais solitário e particular. Apurando-se em técnica e solidão, vai passar gradualmente da análise dos homens à análise das coisas e concentrar a sua atenção na paisagem, rural ou urbana. É assim que nasce o paisagista dos anos quarenta. Nesses anos, a sua atividade desdobrou-se entre a ilustração, as artes gráficas e a decoração, colaborando com várias editoras e aceitando encomendas oficiais do S.P.N./S.N.I., participando na renovação do gosto artístico sem por isso se enquadrar na “Política do Espírito” protagonizada por António Ferro. Nestes anos, encontramos ainda outro tipo de desenhos, de caráter onírico, simbólico e até surreal. São exemplos pontuais que demonstram o interesse por vários tipos de correntes, sem as explorar, no entanto, até à exaustão. Na década de 50 volta ao desenho como atividade autónoma, de caráter íntimo, centrando-se essencialmente na análise da paisagem urbana e rural. Esta última fase, que culminou com a sua morte em 1962, corresponde à mais íntima e é acompanhada, tecnicamente, por importantes variações de registos, cada vez mais atmosféricos. É em Lisboa, a sua cidade de eleição, que uma mudança visível do relacionamento com o que rodeia vai ter lugar. Desinteressado dos homens, Bernardo Marques transferiu para a paisagem uma atenção cada vez mais seletiva e depurada. Percorreu o país de norte a sul, numa ânsia de ao mesmo tempo conhecer toda a terra portuguesa e de encontrar, quando lhe apetecia, o isolamento e a distância que procurava. As suas errâncias afetivas são pretextos para uma riquíssima e constante experimentação plástica. Mais sensível a valores como a forma, os volumes e a luz, os seus desenhos tornam-se mais sintéticos e depurados e transmitem uma impressão de calma e de recolhimento. A delicada caligrafia de signos, em que predomina a tinta da china, como que aprisiona a essência da paisagem através de uma sobreposição de linhas e da vibração colorística do preto e branco. Ignorando as formas estéticas que surgiam, Bernardo Marques assumiu uma postura simultaneamente sensível e distanciada, transferindo para a paisagem o seu espaço de intimidade.
A variação dos meios técnicos utilizados, nomeadamente a aguarela de tradição paisagística e os pictóricos desenhos caligráficos a preto e branco, sugeridos pela sua atenção imediata à paisagem, tornam a obra de Bernardo Marques ambígua e original. É uma postura sincera e legítima, surgida de circunstâncias pessoais, que se ajusta ao lirismo íntimo e contemplativo que lhe convinha e que confere modernidade à sua obra. O percurso que se isola e se matura no silêncio da paisagem, alheio a correntes plásticas e ideológicas, confere-lhe um certo sentido de liberdade e de independência, fator que o torna, hoje em dia, mais atual e interessante. Contemporâneo da segunda geração modernista, Bernardo Marques participou ativamente na difusão do gosto moderno, sem por isso prescindir de formas de expressão muito pessoais que não se enquadravam nos padrões dominantes. Foi acima de tudo um grande desenhador. |





