Cláudia Maria das Graças Chaves
Universidade Federal Fluminense
Esta comunicação tem por objectivo reflectir sobre a cultura mercantil a partir da introdução da formação profissional no Império Luso-brasileiro. Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, as actividades mercantis ganharam maior projecção social dos dois lados do espaço Atlântico, principalmente em decorrência das mudanças promovidas pelo Marquês de Pombal, tais como a criação da Junta de Comércio e a valorização social e política da classe mercantil. Com a criação de estatutos, aulas de comércio e com a ampliação de fóruns representativos - a exemplo da elevação da Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação à categoria de tribunal em 1788 -, houve uma maior profissionalização de negociantes e mercadores, aumentando, assim, os debates sobre as práticas e os costumes da actividade mercantil. Na América portuguesa, essa mudança reflectiu-se nas reivindicações de mercadores e de negociantes para serem tratados com iguais privilégios concedidos aos mercadores das praças de Portugal. Entre tais privilégios, estavam a organização de classes especializadas de mercadores, os arruamentos e a aposentadoria de lojas, mesmo que isso contrariasse os novos princípios" liberais de economia política. A partir da transferência da Corte para o Rio de Janeiro e da abertura dos portos do Brasil, são também introduzidas as aulas de comércio. Essas aulas na América seguiam as mesmas directrizes curriculares de Portugal, com a aprendizagem de noções gerais de contabilidade, direito mercantil e condutas de mercado. À maior profissionalização, seguia-se também a elitização das categorias mercantis que rejeitavam todas as formas de comércio ambulante, principalmente quando realizado por mulheres, embora os membros da Junta de Comércio estabelecida no Brasil considerassem que essa era uma particularidade das práticas e dos costumes na América. Dessa maneira, o savoir-faire dos Homens de Negócio e dos mercadores tornou-se não apenas uma forma de fazer fortuna, mas também distinção e reconhecimento social. O bom negociante era aquele que detinha os conhecimentos específicos requeridos pela profissão. Por essa razão, manuais e dicionários sobre os temas correntes foram intensamente escritos ou traduzidos em Portugal e divulgados na América. "