oslusiadas__dev3bwew3ohzi7yqnm9ŃرŃرTEXtREAd& ~ )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9IYiy  Ɏ َ   )9IYiyɎَ  )!9"I#Y$i%y&'()*Ɏ+َ,-. /0)192I3Y4i5y6789:Ɏ;َ<=> ?@)A9BICYDiEyFGHIJɎKَLMN O P )Q 9R IS YT iU yV W X Y Z Ɏ[ َ\ ] ^ _ ` )a 9b Ic Yd ie yf g h i j Ɏk َl m n o p )q 9r Is Yt iu yv w x y z Ɏ{ َ| } ~   ) 9 I Y i y Ɏ َ  ) 9 I Y i y Ɏ َ  )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9IYiyɎَ )9I@%----------------------- Page 1----------------------- Lus DE Cames Os Lusadas LEITURA, PREFCIO, E NOTAS DE LVARO JLIO DA COSTA PIMPO APRESENTAO DE ANBAL PINTO DE CASTRO ----------------------- Page 2----------------------- Os Lusadas de Lus de Cames /prefcio de lvaro Jlio da Costa Pimpo; apresentao de Anbal Pinto de Castro - 4.a ed. - Lisboa: Ministrio dos Negcios Estrangeiros. Instituto Cames, 2000 - LIX, 560 p.; 16 x 23 cm. ENSINO DE LNGUAS - LNGUA PORTUGUESA ? LITERATURA Ttulo OS LUSADAS DE LUS DE CAMES 1.a Edio, 1972 2.a Edio, 1989 3.a Edio, 1992 4.a Edio, 2000 INSTITUTO CAMES MINISTRIO DOS NEGCIOS ESTRANGEIROS Instituto Cames Diviso de Edio, Documentao e Equipamentos Rua Rodrigues Sampaio, n. 113 ? 1159-279 LISBOA Direitos de traduo, reproduo e adaptao reservados para todos os pases Tiragem 3000 exemplares Capa Jos Brando Composio, Impresso e Acabamento Estrada de Mem Martins, 4 ? S. Carlos, Apartado 113 2726-901 Mem Martins ? PORTUGAL Tel. 219 266 600 Fax. 219 202 765 Internet: www.eme.pt E-mail: geral@eme.pt ISBN 972-566-187-7 Depsito Legal N. 156 600100 II ----------------------- Page 3----------------------- GUISA DE APRESENTAO No querendo ficar alheio s comemoraes do IV Centenrio da publicao d?Os Lusadas, decidira o Instituto de Alta Cultura promover em 1972 uma edio do Poema e organizar um colquio de Estudos Camonianos. Para assumir a responsabilidade de ambas as tarefas, convidava o saudoso Professor lvaro J. da Costa Pimpo, por carta de 10 de Setembro de 1970, subscrita pelo Prof. Eng. Manuel Jos de Castro Petrony de Abreu Faro, ao tempo esclarecido e dinmico Presidente daquela prestigiosa instituio, cuja aco na formao dos quadros da Universidade portuguesa, ao longo de vrias dcadas, nunca ser demais lembrar e agradecer. Tinha j o Prof. Costa Pimpo concordado em encarregar-se da edio, mas no aceitou a organizao do colquio, consciente como estava da magnitude do trabalho a desenvolver para a preparao crtica do texto d?Os Lusadas, cuja dificuldade e delicadeza bem conhecia. Nesse sentido e invocando essas razes, respondia ao Prof. Abreu Faro, em carta de 18 daquele mesmo ms de Setembro. A ideia da edio mereceu-lhe, porm, imediato e entusistico aplauso e no tardou em consagrar-lhe toda a ateno que ela exigia, mesmo a quem, como ele, viera acumulando um precioso cabedal de saber e de experincia no domnio dos Estudos Camonianos em geral e da crtica textual em particular, desde que, por 1942, 1 comeara a trabalhar no estabelecimento do texto da Lrica . Quando, no entanto, no auge desse entusiasmo, se preparava para a etapa final da tarefa, viu-se obrigado a interromp-la durante vrios meses, em consequncia de graves perturbaes da viso, que o levariam Clnica Barraquer, de Barcelona, para, nos primeiros dias de Junho de 1972, ser operado a um descolamento de retina. Com um misto de amargura e de ironia, escrevia-me o velho Mestre, a 5 de Maio desse ano, seis escassos meses antes da sua jubilao universitria: ?Vou acabar a minha vida acadmica com Cames; e, para melhor me assemelhar ao pico, resolvi manquejar do olho direito. S que no fui atingido pela ?fria rara de Marte?, mas pelo terrvel poder dos Fados, que resolveram III ----------------------- Page 4----------------------- prejudicar-me quando eu me preparava para me entregar em cheio s minhas tarefas urgentes!? Vencida a crise, o trabalho iria prosseguir, sem desnimo nem interrupo, mas sob a enervante premncia do tempo. O ano jubilar de 1972 passaria sem que o volume pudesse sair dos prelos da Imprensa Nacional; e s nas vsperas do Natal de 1973, Costa Pimpo podia acompanhar as Boas Festas dirigidas a colegas e amigos com os primeiros exemplares da nova e almejada edio. Ao partir para a realizao do encargo que recebera do Instituto de Alta Cultura, no ignorava Costa Pimpo as dificuldades que o esperavam, independentemente dos problemas de sade que viriam depois apoquent-lo. Apresentar uma nova edio d?Os Lusadas assinalando-a com a marca visvel da forte personalidade crtica e cientfica do novo editor, depois de to longa srie de comentrios ao Poema, desde Faria e Sousa a Augusto Epifnio da Silva Dias, requeria na verdade uma garra e um saber difceis de reunir. O Doutor Costa Pimpo, todavia, conseguiu dar no mais uma edio, mas a sua edio da Epopeia camoniana, orientando todo o seu labor, segundo dois objectivos primaciais - o estabelecimento de um texto capaz de oferecer uma slida segurana crtica e o desenvolvimento de uma hermenutica sobre esse mesmo texto, merc da qual pudesse clarificar a sua interpretao, sem repetir coisas ditas ou sabidas, antes corrigindo, sempre que necessrio e justo, leituras deficientes ou erradas dos comentadores que o haviam antecedido, e aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para trazer a pblico as concluses a que, fundamentado na anlise intrnseca da obra camoniana (e de outros elementos no dispomos!) chegara quanto 2 poca em que o Poema fora escrito . Para o estabelecimento do texto baseou-se na edio A ou Ee, de 1572 (aquela em cuja portada o pelicano da gravura apresenta o colo virado para a esquerda do leitor), considerando a B ou E (que tem o pelicano com o pescoo voltado para a direita) como imperfeita contrafaco daquela. No fez tal opo de nimo leve; bem pelo contrrio, baseou-se para ela num aturado cotejo das lies de ambas, e de ambas com a de Manuel Correia, de 1613, sem esquecer ainda a de Faria e Sousa, de 1639. IV ----------------------- Page 5----------------------- Cabe sublinhar e louvar to flagrante preocupao de exaco, bem patente no captulo II do Prefcio, sobretudo se considerarmos a extrema raridade da edio E, que s viria ao fcil alcance dos investigadores em 1982, quando a Comisso Camoniana da Academia de Cincias de Lisboa publicou na Imprensa Nacional- Casa da Moeda a reproduo paralela das duas verses de 1572, com uma nota preambular de Bernardo Xavier Coutinho. E convm no esquecer ainda que a exaustiva investigao posteriormente desenvolvida por este Professor, assinalando a existncia de vrias outras contrafaces ou, pelo menos, de diferentes tiragens, no ps em causa o essencial da posio assumida em 1972 por Costa 3 Pimpo . O estabelecimento do texto obedeceu finalidade primacial do colocar Os Lusadas imediata disposio do grande pblico, sem com isso o privar dos traos mais caractersticos do idiolecto potico camoniano, considerado num determinado momento da histria da lngua e da linguagem potica portuguesas. Tal preocupao, que no pode deixar de merecer incondicional aplauso, assumiu, porm, no esprito do Editor to grandes propores, que o levou a contrariar algumas vezes os critrios de fidelidade ao texto princeps, por ele prprio estabelecidos e defendidos. Rejeitou assim, sem justificao convincente, formas como artefcio, infiado, insinar, fruito (a 4 rimar com muito!), menh, mintiroso, etc., apesar de perfeitamente intelegveis para o leitor actual; e uniformizou indevidamente grafias como dezia, em alternncia com dizia, no texto camoniano, baseado apenas nos ndices de ocorrncia, quando tal oscilao pode significar ? e creio que significa ? uma simples hesitao na realizao fontica, prpria dos perodos de transio, na variao diacrnica da lngua. No obstante este seno, encontramos nesta edio um texto inteligentemente modernizado, em funo de uma rara sensibilidade estilstica e de um slido saber lingustico. O intuito de o tornar acessvel no fez perder ao responsvel por essa modernizao o respeito pela histria da lngua, pela peculiaridade da linguagem camoniana e pelos efeitos estilsticos obtidos pelo Poeta mediante certos traos da fontica ou da sintaxe do portugus quinhentista. De fundamental importncia para a qualidade e acessibilidade desta lio d?Os Lusadas a pontuao. Sendo impossvel e contraproducente manter a pontuao original, cuja V ----------------------- Page 6----------------------- responsabilidade no pertenceu decerto, pelo menos em exclusivo, a Cames, Costa Pimpo conjugou de maneira exemplar o rigor, a sobriedade e a clareza, de modo a evidenciar os valores semnticos em jogo, simultaneamente com as formas de expresso que lhes correspondem. Por muito perfeito que o texto se apresentasse, uma edio d?Os Lusadas destinada ao leitor comum estaria muito longe de satisfazer a sua curiosidade, os seus interesses, ou as suas necessidades, se aparecesse desprovida de notas e comentrios que o ajudassem no seu trabalho de interpretao. Considerando, no entanto, o nmero, a qualidade e a variedade dos comentrios j existentes, no se torna fcil ao exegeta hodierno trazer dados originais e seguros nesse campo, sentindo embora que muitos passos do Poema continuam obscuros e que cada poca reclama explicaes novas ou diferentes, de acordo com a sua cultura, com as suas perspectivas de leitura ou com a sua sensibilidade esttica. A forte e original personalidade do Mestre venceu, porm, esse escolho e pde, graas a um trabalho aturado e profundo, que eu ento acompanhei com viva admirao, at pelas precrias condies de sade em que o desenvolveu, carrear novos e numerosos contributos para uma inteleco mais perfeita do texto e, por conseguinte, para a sua mais completa valorizao esttica. A riqueza e novidade de muitos dos seus comentrios so, com efeito, notveis. Bastar, para disso nos darmos conta exacta, atentar em notas como as que consagrou ao verso inicial do Poema ? As armas e os bares assinalados ? quele (I.26.8) em que o Poeta, referindo-se a Sertrio, afirma que Fingiu na cerva esprito divino, ou estrofe 2 do Canto IX, onde menciona as cidades de Suez e de Meca, e comparar depois os dados a reunidos com os que, para os mesmos passos, aduzira Epifnio da Silva Dias. Pena foi que a preocupao de originalidade o no tivesse deixado ir mais longe. Ateno muito especial lhe mereceram os intertextos histricos de muitas sequncias do Poema, a explicao de inmeras aluses mitolgicas que no estavam ainda completamente clarificadas e a determinao das variantes estilsticas, atravs das quais Cames exprimiu alguns dos seus temas dominantes. O volume encerra com um ndice de nomes prprios que, alm de muito completo, oferece a grande vantagem de no se limitar a um simples registo, para agrupar, a propsito de cada um deles, os VI ----------------------- Page 7----------------------- adjectivos que por vezes os qualificam e as metforas ou as perfrases que no raro os substituem. Se, pela novidade e exaustividade de grande parte das suas notas esta edio emparceira, completando-as, com outras que a precederam, em especial com a de Epifnio da Silva Dias, pela mesma altura reimpressa no Brasil, graas ao empenho e devoo do 5 Prof. Maximiano de Carvalho e Silva, esta edio de Costa Pimpo leva-lhes grande vantagem pela segurana crtica do texto, visto que, com fidelidade e rigor, soube modernizar Cames sem o desfigurar. 6 Apresentando-a agora de novo ao pblico ? em sintonia de propsitos e intenes com o Instituto de Alta Cultura que h quase 16 anos a patrocinou e promoveu ? o Instituto de Cultura e Lngua Portuguesa averba mais um alto servio causa, que sua, de defender e difundir os valores que melhor definem o espao espiritual lusada, lembrando ao mesmo tempo o exemplo de saber e probidade intelectual do grande camonista que foi o Doutor lvaro J. da Costa Pimpo, para quem estudar Cames foi sempre uma tarefa to aliciante que com ela quis verdadeiramente acabar a sua operosa carreira de Mestre da Universidade portuguesa. Anbal Pinto de Castro Coimbra, Pscoa de 1989 Notas 1 Merc desse trabalho, pudera publicar em 1944 a monumental edio das Rimas, Autos e Cartas, na Portucalense Editora, depois aperfeioada na edio das Rimas (Coimbra, ?Acta Universitatis Conimbrigensis?, 1953; 2. ed., revista, ib., Atlntida Editora, 1973). 2 A esta questo voltou na sua lio jubilar (Cf. A Elegia segunda ?Aquela que de amor descomedido? e a chamada gloga primeira ?Que grande VII ----------------------- Page 8----------------------- variedade vo fazendo? de Lus de Cames. Coimbra, Centro de Estudos Romnicos, 1973). 3 Cf. Nova hiptese de soluo para o problema da edio ?princeps? de ?Os Lusadas? ? no houve duas mas quatro edies datadas de 1572, in ?Revista da Universidade de Coimbra?, vol. XXXIII, 1985. pp. 221- 240. Sobre a questo das edies de 1572, veja-se ainda Roger Bismut, Encore le problme de l?dition ?princeps? de ?Os Lusadas?, in ?Arquivos do Centro Cultural Portugus?, vol. XIII, 1978, pp. 435- 521; e Bernardo Xavier Coutinho, A edio ?princeps? de ?Os Lusadas?. Um problema complexo e difcil (ou insolvel?). Muito provavelmente houve 3 edies ?princeps?, e no apenas 2, com a data (simulada) de 1572, in ib., vol. XVI, 1981, pp. 571-720. 4 Cf. infra, p. LIII. 5 Os Lusadas de Lus de Cames comentados por Augusto Epifnio da Silva Dias. 3. ed. Reproduo fac-similada da 2. ed. ... Prefcio de Arthur Cezar Ferreira Reis. Estudos prvios de Maximiano de Carvalho e Silva. Rio de Janeiro, Ministrio da Educao e Cultura, 1972. 6 O texto agora apresentado reproduz exactamente o de 1973. Apenas se corrigiram manifestos lapsos de composio tipogrfica. VIII ----------------------- Page 9----------------------- PREFCIO I A Elaborao do Poema Manuel de Faria e Sousa, cuja reabilitao na Europa cis e transpirenaica parece iminente, escreveu, como sabido, duas vidas de Cames: uma impressa frente de Os Lusadas e outra frente das Rimas Vrias, muito modificada. (Deve dizer-se que nem em todos os exemplares das Rimas aparece esta Vida.) A primeira das Vidas notvel por diversos ttulos, e ainda pelos dislates que aquele comentador acumulou sobre o incio da redaco do Poema, pois diz (col. 35) que el creerse que la mayor parte deste Poema (?la mayor parte?, note-se) iva escrito de Portugal qudo pass a la India, no es difficil; i menos el ver que desde sus primeros aos le com?. E mesmo que tivesse comeado o seu Poema aos 20 (concede Faria e Sousa), trouxe-o entre mos trinta anos, pois tendo nascido em 1517 (Faria e Sousa mudou depois de opinio) e imprimido o Poema em 1572 ficam 55, e deduzindo os tais 20 ficam 30 e quando menos 20. E se algum argumentar que o Poema s poderia ter sido comeado (ou, pelo menos, concebido) depois da leitura das duas primeiras Dcadas de Barros e do primeiro livro da Histria do Descobrimento e Conquista da ndia pelos Portugueses, por Castanheda, poder objectar-se com Faria e Sousa que Cames poderia ter conhecido aquelas obras em manuscrito. Mas ainda que no fosse assim, havendo a primeira Dcada de Barros sido impressa em 1552 e tendo o Poeta partido para a ndia em 1553 aun queda en pie lo que diximos de q} el primero bosquejo se hizo en Portugal en este tiempo que corri desde la impression de las Decadas a sua partida; o tres aos primero que le imprimiese el de 1572; e assi quando menos, son veinte los que truxo consigo este Poema. Uma to penetrante conjectura devia por fora ter o auxlio da Providncia. E teve! O buen Dios, como favoreces las honestas ocupaciones! E vieram ter-lhe s mos, ao comear a impresso dos seus Comentrios, dois manuscritos, um deles de primacial importncia para o seu ponto de vista: es una copia de los primeros seis cantos, escrita antes que el Poeta passasse a la India: ?con que I ----------------------- Page 10----------------------- PREFCIO me hallo mas contento que un ignorante; mas loco que un enamorado, i mas sobervio que un rico? (na corte de Madrid, acrescente-se). Eis como termina a cpia manuscrita: Estes seys cantos se furtara a Luis de Cames da obra que tem comeado sobre o descubrimento, e conquista da India por os Portugueses: Vam todos acabados, excepto o sexto, que posto que vay aqui o fim delle, faltalhe hua historia de amores que Leonardo contou estando vigiando, que ha de prosiguir sobre a Rima 46 onde logo se sente bem a falta della; porque fica fria, e curta a conversaam dos vigiantes, e o propio canto mais breve que os outros (col. 37). E assim se fundamentava uma redaco incompleta do Poema, antes de o Poeta ter partido para a ndia! histria de cavalaria de Ferno Veloso faltava a histria de amores de Leonardo, esquecendo que no fim dos Doze de Inglaterra a companha pedia a Veloso mais histrias de cavalaria! (VI.69.5-8). Na segunda Vida, frente das Rimas, dir Faria e Sousa no n. 28: En la vida del P. que escrivimos en los Comentarios a la Lusiada, desde el numero 16. hasta el 21. hemos procurado mostrar en que tiempos, y en que partes del mundo avia el P. escrito los ms de sus Poemas; y despues hallamos que en mucho nos aviamos equivocado, porque tuvimos mejores noticias. E mais no disse! Ora o n. 16 referido justamente aquele em que se ocupa das circunstncias de tempo e de lugar em que redigiu Os Lusadas! (1) No h qualquer notcia de que o Poeta tenha tido a ideia de escrever um Poema sobre o descobrimento de Vasco da Gama antes de partir para a ndia. Pode supor-se, interpretando alguns versos lricos, que vrias ideias hericas lhe passaram pela mente quando estava ainda em Lisboa, mas no concretizou nenhuma. certo que o primeiro livro de Castanheda estava sua disposio desde 1551 e a primeira das Dcadas da sia desde o ano seguinte. Mas a elaborao de um plano pico no dependia apenas de duas ou trs leituras. Cames no ia escrever uma narrativa histrica; ia escrever uma obra de arte, servindo-se de um grande acontecimento histrico. Decidir-se a optar pela fbula pag tambm no lhe teria sido fcil, mas, alm do exemplo do Mantuano, havia em Cames uma verdadeira idolatria pela beleza do paganismo. Sobre esta matria estava Cames bem informado ainda antes de partir para a ndia, mas faltava inseri-la num grande campo de aco, que s a experincia martima lhe daria. E quando falo de experincia martima no quero referir-me apenas dura vida de bordo, nem aos grandes fenmenos presenciados, mas s imagens visuais e auditivas II ----------------------- Page 11----------------------- PREFCIO que a prpria vida do mar ps ao alcance da sua retina e do seu ouvido e que vieram a transformar-se em versos imortais, como o famoso Cortando o longo mar com larga vela (I.45.4) analisado por Tasso da Silveira (2). A est. 19 do Canto I, que marca o incio da narrao, s poderia ter sido escrita por um nauta que v de bordo as outras naus recortando-se num poente solar: J no largo oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas cncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vo cortando As martimas guas consagradas, Que do gado de Prteu so cortadas, (I.19) Nem a aluso mitolgica vem empanar a beleza do quadro. sua experincia martima pertence a tormenta do cabo da Boa Esperana, que lhe daria a inspirao para a tormenta (irreal) sofrida por Vasco da Gama. Inseriram-se na sua experincia martima os ecos surdos do mar, que depois foram transformados em arte: Bramindo o negro mar de longe brada Como se desse em vo (= no vo) nalgum rochedo ... (V.38-3-4) ... e cum sonoro Bramido muito longe o mar soou. (V.60.3-4) Em minha opinio ? e fossem quais fossem as meditaes do Poeta sobre o assunto ?, o Poema, tal como o temos, comeou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatria a D. Sebastio foi redigida na hora de iniciar o seu Poema, portanto, por fins de 1554, quando chegou ndia a notcia do prodigioso nascimento do neto de D. Joo III, em 20 de Janeiro de 1554. No s o Poeta se dirige em toda a Dedicatria ao tenro infante [Vos tenrro & novo ramo florecente (I.7); Que nesse tenrro gesto vos contemplo (I.9); Que afeioada ao gesto bello & tenro (I.16)], mas ? circunstncia para mim muito importante ? no procurou alinh-la na esfera temporal com o ano em que acabou o Poema. A III ----------------------- Page 12----------------------- PREFCIO Dedicatria ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses (maravilha fatal) - e s o poderia ter sido no longe de 1554. Os versos E vs, bem nascida segurana Da lusitana antiga liberdade, (I.6.1-2) marcam uma segurana presente, que acaba de surgir. Muito mais tarde, em 1575, dir a D. Sebastio Assi vs, Rei, que fostes segurana da nossa liberdade ... Eram j outros os termos dessa segurana, que o prprio rei, alis, se encarregaria de destruir. No me resta dvida de que foi por 1554 que o Poeta tratou de elaborar o plano da epopeia (poderia escrever-se um poema sem plano?) e de delinear os principais episdios que, entressachados no Poema, mas fazendo corpo com ele, o encheriam de atractivos estticos. Dizer quando o Poeta pousou pela primeira vez a pena sobre o papel no parece muito difcil; mas a quando remonta o pensamento da epopeia? Para Storck o propsito de cantar os feitos hericos do seu povo e da Ptria tomou, contudo, forma decisiva e amadureceu durante os seis meses de vida no oceano (3). uma tese que podemos aceitar. E acrescenta o historiador alemo: Se o grmen da epopeia ainda no estendera at ento razes vivazes e tenazes, se na mente do Poeta ainda no se definira claramente o descobridor do caminho da ndia como figura principal, se a primeira e feliz navegao ao Oriente, a empresa do forte capito, ainda no se revelara no seu esboo e na primeira traa como ponto culminante e foco de irradiao, no qual convergem as aces hericas dos Portugueses, foi, sem dvida alguma, durante a travessia que o gnio criador do Poeta tomou o seu voo de guia. (4) Infelizmente, Storck terou armas pela criao de dois poemas: um, histrico, elaborado ainda em Portugal e em Lisboa e de que o Poeta teve quase prontos os Cantos III e IV, e, depois, a epopeia martima, em que vem entretecer-se a histria do Reino. Mas isto, a meu ver, destruir a unidade dos Cantos III, IV e V, que constituem a narrativa dos feitos do Reino ao rei de Melinde e inserem-se na epopeia martima. Tal narrativa tem muito pouco de histrica: foi sobretudo ideada pelo Poeta. Cames aproveitou muito bem o momento em que aparece pela primeira vez um rei amigo, o de IV ----------------------- Page 13----------------------- PREFCIO Melinde, para iniciar a narrativa pica desde as origens at aquele momento em que chegou a Melinde. No se v como se podem separar estes trs cantos e inserir os dois primeiros numa epopeia do Reino. Prefiro ver a elaborao da epopeia segundo um plano preestabelecido, apenas modificado nesta ou naquela estncia por acontecimento posterior navegao e portanto tendo o seu lugar em qualquer profecia. No creio que o Poeta tenha levado longos anos a elaborar a sua epopeia intensamente ? e h uma efemride que mostra bem que em quatro ou cinco anos o Poeta avanara bastante. O trecho insere-se na descrio do orbe terrestre: Este receber, plcido e brando, No seu regao os cantos que, molhados, Vm do naufrgio triste e miserando, Dos procelosos baxos escapados ... (X.128.1-4) Refere-se ao rio Mecom, que recolheu os nufragos do navio de Leonel de Sousa, que se afundou nos mares da China nos fins de 1558 (ou princpios de 1559). Entre eles contava-se Cames (5). O Poeta fala dos seus cantos molhados ? o que significa que se tratava j de um volume aprecivel, cuja perda seria irreparvel. O principal da obra estava feito. Mas o Poeta ainda a limou e testemunha do facto o historiador Diogo do Couto, seu amigo, que em Moambique o viu dedicado a essa tarefa (1568-1569). De novo em Lisboa, em 1570, o Poeta deu-se pressa em arranjar forma de publicar o seu Poema e deve ter encontrado um interessado intercessor em D. Manuel de Portugal (6). Em 23 de Setembro de 1571 a obra estava na impresso, conforme consta do alvar respectivo. No alvar que concede a Lus de Cames uma tena de 15$000 ris pela publicao de Os Lusadas (datado de 28 de Julho de 1572) diz-se que a merc ser dada por trs anos, a comear em doze de maro deste ano presente de mil quinhentos setenta e dous em diante. Esta tena foi dada pelo conhecimento que o rei tem do engenho e habilidade do Poeta e pela suficincia que mostrou no livro que fez das cousas da ndia (7). A data de 12 de Maro de 1572 uma data assinalvel porque deve corresponder do lanamento da obra. V ----------------------- Page 14----------------------- PREFCIO Como que Cames, errante por tantas partes do Mundo, dependente, como soldado, das ordens de marcha que lhe impunham e de que naturalmente descansava a bordo dos navios em que embarcava, como pde ele arrumar no seu crebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou? Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vo as serenas guas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade. Nem mesmo sabemos quando o Poeta saiu definitivamente de Coimbra. Mas se na 1. carta da ndia se queixa de, sem pecado que o obrigasse a trs dias de Purgatrio, ter passado (em Lisboa) trs mil dias de ms lnguas, piores tenes, danadas vontades, nascidas de pura inveja de verem su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida, podemos admitir que chegou a Lisboa por 1546. Cames deve ter assistido a certos conflitos de jurisdio entre os cnegos regrantes de Santa Cruz e a Universidade, transferida de Lisboa para Coimbra. Impossvel me afirmar (porque a presena de Cames em Coimbra coincidiu com uma fase de transio) se Cames j foi ouvir o ensino artstico Universidade ou se se manteve nos colgios de Santa Cruz, protegido por algum parente daquela congregao (8). curioso que na narrativa ao rei de Melinde (III.97), falando das obras do rei D. Dinis, o Poeta escreveu: Fez primeiro em Coimbra exercitar-se O valeroso ofcio de Minerva E de Helicona as Musas fez passar-se A pisar do Mondego a frtil erva. Quanto pode de Atenas desejar-se, Tudo o soberbo Apolo aqui reserva, Aqui as capelas d tecidas de ouro, Do bcaro e do sempre verde louro. Vasco da Gama quem informa, mas a verdade que nesse momento (em 1497-1498) a Universidade estava em Lisboa. Vasco da Gama transmite ao rei de Melinde uma impresso de Cames, que aproveitara com o estudo de Coimbra e com a reforma do ensino ali operada. Os poetas lidos por Cames foram numerosos. Nem s Virglio, nem s Homero, ainda que do primeiro teve um conhecimento profundo, que se revela no nmero de passos imitados, s vezes por forma bastante literal. Por exemplo: VI ----------------------- Page 15----------------------- PREFCIO Como isto disse, manda o consagrado Filho de Maia Terra, por que tenha Um pacfico porto e sossegado, (II.56.1-3) Haec ait et Maia genitum demittit ab alto, Ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces hospitio Teucris... (En., I.297-299) Quando a me de Eneias interroga ansiosamente o Pai dos deuses sobre o futuro do filho, Jpiter oscula libavit natae e diz-lhe: Parce metu, Cytherea, manent immota tuorum / fata tibi ... (I.256-258). Em Os Lusadas tambm Jpiter, ainda mais aceso de amor As lgrimas lhe alimpa, e acendido Na face a beija e abraa o colo puro (II.42.5-6) para lhe dizer ... no temais Perigo algum nos vossos Lusitanos (II.44.1-2) No entanto, se Cames reconhece a suserania destes dois (V.94.7 e V.98.2), no desconheceu nem deixou de aproveitar outros: Ovdio, Horcio, Valrio Flacco, Lucano, Claudiano e quantos mais ... Conhece-ospor dentro e invoca-os com toda a preciso. A primeira vez que Eneias invocado o Troiano. Em I.12.8 compara-o ao Gama; em II.45.5 lembra que o piadoso Eneias navegou / de Cila e de Carbdis o mar bravo; em III.106.1-8 compara a tmida Maria implorando o favor do rei de Portugal a Vnus quando implora a Jpiter o favor para seu filho Eneias, navegando. Cames recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finssimas, fez o permetro de Cartago, por indstria de Vnus. E de Ovdio no tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No incio da Elegia III d- nos um belo retrato moral de Ovdio desterrado, em confronto com o seu caso pessoal: O Sulmonense Ovdio, desterrado na aspereza do Ponto, imaginando ver-se de seus parentes apartado; sua cara mulher desamparando, seus doces filhos, seu contentamento, de sua ptria os olhos apartando; no podendo encobrir o sentimento, aos montes e s guas se queixava VII ----------------------- Page 16----------------------- PREFCIO de seu escuro e triste nacimento. O curso das estrelas contemplava, como por sua ordem discorria o cu, o ar e a terra adonde estava. Os pexes pelo mar nadando via, as feras pelo monte, procedendo com o seu natural lhes permitia. De sua fonte via estar nacendo os sadosos rios de cristal, a sua natureza obedecendo. Assi s, de seu prprio natural apartado, se via em terra estranha, a cuja triste dor no acha igual. S sua doce Musa o acompanha, nos versos sadosos que escrevia e lgrimas com que ali o campo banha. ............................................................... E que leu dos prosadores? Plutarco, com certeza. Em grego? Conheceu a Bblia. Dos gegrafos e naturalistas algum conhecimento teria. Pelo menos, cita-os em fiada: Eu sou aquele oculto e grande cabo Que nunca a Ptolomeu, Pompnio, Estrabo, Plnio, e quantos passaram, fui notrio. Acerca de Plnio parece no haver dvidas. Da histria geral tambm no estamos bem informados. Utilizou a Enneades ou Rhapsodiae historiarum, de Sablico, volumoso tratado que foi parcialmente traduzido em portugus por D. Leonor de Noronha, prima co-irm do amigo e protector do poeta D. Francisco de Noronha, 2. conde de Linhares (9). Da traduo s so conhecidos os dois primeiros volumes, impressos em Coimbra (1., 1550; 2., 1553). A obra geral de Sablico foi continuada por Paulo Jove e outros. notvel a prontido e a frequncia com que o Poeta invoca paralelos para pr em evidncia os feitos dos Lusitanos ou os seus defeitos em relao a outros: Codro, por que o inimigo no vencesse, Deixou antes vencer da morte a vida; Rgulo, por que a ptria no perdesse, Quis mais a liberdade ver perdida. Este, por que a Espanha no temesse, A cativeiro eterno se convida! VIII ----------------------- Page 17----------------------- PREFCIO Codro, nem Crcio, ouvido por espanto, Nem os Dcios leais fizeram tanto. (IV.53.1-8) No matou a quarta parte o forte Mrio Dos que morreram neste vencimento, Quando as guas co sangue do adversrio Fez beber ao exrcito sedento; Nem o Peno, asperssimo contrrio Do romano poder, de nascimento, Que tantos matou da ilustre Roma, Que alqueires trs de anis dos mortos toma; E se tu tantas almas s pudeste Mandar ao Reino escuro do Cocito, Quando a santa cidade desfizeste Do povo pertinaz no antigo rito, Permisso e vingana foi celeste E no fora de brao, nobre Tito, Que assi dos vales foi profetizado, E despois por JESU certificado. (III.116 e 117) Do pecado tiveram sempre a pena Muitos que Deus o quis e permitiu: Os que foram roubar a bela Helena, E com pio tambm Tarquino o viu; Pois por quem David santo se condena? Ou quem o tribo ilustre destruiu De Benjamim? Bem claro no-lo ensina Por Sarra Fara, Siqum por Dina. E, pois, se os peitos enfraquece Um inconcesso amor desatinado, Bem no filho de Almena se parece Quando em nfale andava transformado. De Marco Antnio a fama se escurece Com ser tanto a Clepatra afeioado. Tu, tambm, Peno prspero, o sentiste, Despois que ua moa vil na Aplia viste. (III.140 e 141) Teve muita influncia no Poeta o poema Argonautica de Valrio Flacco e talvez o de Apolnio Rdio. A partida dos mercantes de Belm associada dos Mnias: IX ----------------------- Page 18----------------------- PREFCIO "Foram de Emanuel remunerados, Por que com mais amor se apercebessem, E com palavras altas animados Pera quantos trabalhos sucedessem. Assi foram os Mnias ajuntados, Pera que o Vu dourado combatessem, Na fatdica nau, que ousou primeira Tentar o mar Euxnio, aventureira. (IV.83) Os Portugueses so os segundos Argonautas (IX.64). No faltam as referncias ao Veo (=Velo) dourado (III.72 e IV.83), nem rica pele de Colcos (V.28) (10). A partida das naus de Belm suscita ao Poeta este smile: Elas prometem, vendo os mares largos, De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos (IV.85) E efectivamente a constelao Argo figura, entre outras, nestes versos: Este, por sua indstria e engenho raro, Num madeiro ajuntando outro madeiro, Descobrir pde a parte que faz clara De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara. (VIII.71) Dos poetas estrangeiros no pode negar-se-lhe o conhecimento de Petrarca, Ariosto, Tasso, Sannazaro, Garcilaso, Boscn. Teve de munir-se de livros auxiliares de estudo, como as Genealogiae deorum, de Boccacio, o Dictionarium poeticum, de Tormentino, a Officina, de Ravisio Textor, os Lectionum antiquarum libri triginta, de Clio Rhodigino. Conhecia bem as lendas mitolgicas e a histria geral da Antiguidade, mas no fcil determinar as suas fontes. Para alm de Sablico, que conheceu da histria romana? Para a histria geral dos tempos posteriores queda do imprio romano ocidental ? lembra Epifnio (11) ?, valeu-se Cames dos trabalhos de vulgarizao que j no seu tempo existiam, tais como: a Historia rerum ubique gestarum, de Eneas Silvio, o Catalogus annorum et principum, de Valerio Ryd, que chega at 1540, o De vitis ac gestis summorum pontificum, de Pltina, os Commentariorum libri, de Raffael Maffei de Volaterra, as Historie del mondo, de Tarchagnota. Os conhecimentos cosmogrficos podem ter sido hauridos na enciclopdia que tem por ttulo Margarita X ----------------------- Page 19----------------------- PREFCIO philosophica . A descrio do sistema do mundo ptolemaico foi extrada do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes (1537). Storck, referindo-se aos conhecimentos de Cames, escreve: Os seus conhecimentos filosficos derivam, quanto a pormenores, na aparncia, da leitura de Digenes Larcio, Plutarco, Ccero, Valrio Mximo, Aulo Glio, Plnio Snior e das Antologias. Encontram-se a mido reminiscncias destes escritores em passagens camonianas ... Mas os autores clssicos que enumerei no so os nicos gregos e romanos que Cames manuseava frequentemente. As suas poesias so testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa srie de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virglio, Lucano, Ovdio, Horcio, Plauto, Lvio, Eutrpio, Justino, Ptolemeu e outros, ficando indecisa a questo se lia obras gregas no original. (12) Mas, antes de tudo, Cames teve de possuir portentosa memria, porque lhe seria difcil ter mo ao mesmo tempo tantas obras. No naufrgio salva o Poema; mas, o material bibliogrfico de que se servia? E no se esquea o costume dos escolares de ento de reunir alfabticamente sentenas e exemplos em cadernos escolares que lhes serviam pela vida fora. Muitos livros prticos desta feio foram publicados na Europa. Escusado seria dizer-se que Cames conheceu todas as crnicas do Reino, alm das ultramarinas de Castanheda, Barros e Gaspar Correia (esta em manuscrito). Conversou com Diogo do Couto. Conheceu opsculos de Andr de Resende, mormente o seu poema Vincentius. As crnicas ultramarinas deram-lhe o fio da histria: a viagem do Gama; as crnicas do Reino deram-lhe a histria poetizada do Reino e sobretudo os episdios com que reala a narrativa. Muito se discutiu a legitimidade da interveno dos deuses do Olimpo, mas nunca se explicou como que o Poeta havia de deificar os Lusitanos sem que os prprios deuses interviessem na aco. Os Portugueses ? ainda antes de Cames ? sentiam-se verdadeiramente ufanos da descoberta de tudo o que no era Europa (um mundo imenso de que a Europa no tinha notcia) e colocavam as faanhas dos descobridores e conquistadores acima de tudo o que fora feito pelo mundo greco-romano. Alexandre, Csar e Trajano aparecem em Os Lusadas como grandes monarcas ofuscados pelos Portugueses. Este dado fundamental para se XI ----------------------- Page 20----------------------- PREFCIO entender o que o Poeta quis fazer. No basta afirmar-se que quis exaltar os Portugueses. pouco. Quis deific-los; quis fazer deles uma nova raa de deuses. Baco ? magnfica aceitao por Cames dos direitos de Baco sobre a ndia ? ser o grande vencido ? e aps porfiada luta. Os direitos de Baco sobre a ndia vinham de longe. Arriano conta, a propsito da inteno de Alexandre de dominar os rabes, que estes s adoravam dois deuses: o Cu e Baco. O Cu, porque, contendo os astros e o Sol, era causa dos maiores, mais visveis e numerosos benefcios dos homens; Baco, por ter conquistado os ndios. (Baco submetera a ndia pela fora das armas.) Pois eu, afirmou Alexandre, posso ser a sua terceira divindade, pois as minhas faanhas de modo algum so inferiores s do semideus (13). Cames escolheu como inimigo dos Portugueses aquele mesmo que os rabes tinham adorado. E o dio de Baco aos Portugueses vem de saber que h-de ser destronado por eles. Todos os ardis postos em execuo por Baco no atingem o seu objectivo. O ltimo ? ter aparecido em sonhos a um sacerdote maometano para indisp-lo contra os Portugueses (VIII.47-50) ? precede a apoteose dos heris. Baco desaparece obscuramente antes, sem deixar qualquer rasto da sua insatisfeita vingana. Pensamos hoje que Baco no merecia tais honras, mas no tempo de Cames Baco era uma entidade muito importante. Barros, no princpio da sia, ao falar dos feitos dos Portugueses, diz que estes, alm do mais, foram despregar aquella divina & real bdeira da milicia de Christo (que elles fundaram para esta guerra aos infieis) nas partes Orientaes da Asia, em meyo das infernaes mesquitas da Arabea, & Persia, & de todolos pagdes da gentilidade da India daquem, & dalem do Gange: partes onde (segundo escriptores Gregos & latinos) excepto a illustre Semirames, Bacho, & o grande Alexandre, ninguem ousou cometeras (I, fol. 3). Se Baco o grande inimigo, Vnus a grande e solcita companheira dos Lusitanos, seguida das suas Nereidas, no menos solcitas e prestantes. O oceano de Cames est coalhado de ninfas. So no Poema a encarnao da beleza pag. Obedecem a Vnus e substituem-se no Poema s foras naturais, e com to invisvel traa que os Nautas s se daro conta da sua existncia muito mais tarde, na Ilha dos Amores. A presena de Vnus no sexto cu, queixando-se a Jpiter das insdias de Baco, a interveno de Vnus e das suas Nereidas para XII ----------------------- Page 21----------------------- PREFCIO impedir a entrada das naus em Mombaa, onde seriam destrudas, a seduo dos Ventos para os impedir de prosseguirem a tempestade so trechos de uma beleza formal insupervel, em que a pena do Poeta atinge a visualizao de um verdadeiro pintor. Com que simplicidade o Poeta une a realidade e o mito nestes versos: Destarte despedida a forte armada As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhadas, Fiel, alegre e doce companhia ... (I.96.1-4) Um mundo familiar, a facilitar a empresa dos nautas! Com a Ilha dos Amores Cames atinge o clmax da voluptuosidade pag. Creio no ser preciso subtilizar a exegese para converter o deleite carnal em gozo filosfico. Vnus no Plato! A Ilha levada por Vnus ao encontro dos mareantes, os segundos Argonautas, para que estes possam refocilar a lassa humanidade (IX.20) porque a deusa quer ... que haja no reino neptunino (onde nasceu) prognie forte e bela (IX.42.1-2) S possvel dar origem a novos seres pela gerao. Uma raa valorosa vai nascer deste conbio entre os fortes bares e as nereidas. Sou dos que pensam que o Poeta, no seu regresso Ptria, foi convidado pela censura a dar um sentido espiritual (as deleitosas honras) s delcias carnais da Ilha de Vnus. A verdade, porm, que no Poema tudo toma um ar esponsalcio: As mos alvas lhe davam como esposas; Com palavras formais e estipulantes Se prometem eterna companhia Em vida e morte, de honra e alegria. (IX-84.5-8) Ainda no aparecera a alegoria. O mito no se corrompe pelo facto de o Poeta ter sublimado a carnalidade do episdio, como no se corrompe o sentido da palavra amante pelo facto de se tratar de uma unio sensvel: Quando as fermosas ninfas cos amantes Pela mo, j conformes e contentes, Subiam pera os paos radiantes ... (X.2.1-3) Ali em cadeiras ricas, cristalinas, Se assentam dous e dous, amante e dama; XIII ----------------------- Page 22----------------------- PREFCIO (X.3.1-2) O mundo antigo continuava-se na gente lusitana! E no esqueamos que ao despedirem-se da Ilha de Vnus os nautas, entre eles os j nossos conhecidos Veloso e Leonardo Levam a companhia desejada Das ninfas, que ho de ter eternamente, Por mais tempo que o sol o mundo aquente. (X.143.64) O eixo do Poema evidentemente a viagem do Gama, mas Os Lusadas no so a viagem do Gama. Os Lusadas so todos os seus reis, todos os seus heris, todos os seus gloriosos bares. Ora o Gama, na sua notcia ao rei de Melinde, s poderia dar conta dos que enobreceram a Nao at aquele momento em que fazia a sua exposio ao rei de Melinde, comeando naturalmente pelos reis e pelos que estiveram mais prximos dos reis. Foi uma narrativa poetizada da histria antiga de Portugal, a comear em Luso e a acabar em 1497, com D. Manuel! Ficariam esquecidos muitos bares. Tal como Virglio, Cames aproveitar os rogos de Vnus a Jpiter, a favor do seu Eneias, para que o pai dos deuses possa predizer alguns feitos hericos (II.44-54); vir depois o Adamastor, tambm dotado de terrfico dom proftico e que anunciar ao Gama e seus companheiros a morte de Bartolomeu Dias (1500), de D. Francisco de Almeida (1510) e o naufrgio de Manuel de Sousa Seplveda (1552). Em Calecute, o Catual ouvir de Paulo da Gama as explicaes acerca das figuras que esto pintadas nas bandeiras das naus. Aqui no se trata de predies; e curioso acentuar que, comeando nos fabulosos Luso e Ulisses, como antepassados dos Portugueses, se estender at os condes D. Pedro e D. Duarte de Meneses, fronteiros de Ceuta, ficando includas na descrio uma srie de figuras medievais. Mais tarde, uma ninfa vai vaticinar os feitos futuros dos Portugueses, particularmente dos heris e governadores da ndia (at D. Joo de Castro e seus filhos). Com a descrio do orbe terrestre, especialmente as terras de frica e da sia que os Portugueses viro a possuir, ficam nomeados todos os grandes ilustres e os lugares que foram teatro de seus feitos. So estes Os Lusadas. Georg Weise, professor emrito de Tubinga, publicou em 1965, em Itlia, L'ideale eroico del Rinascimento ? Diffusione europea e tramonto, em dois volumes. Neste excelente livro no se pronuncia o nome de Cames. Mas no nos devemos considerar afligidos por isso, porque XI V ----------------------- Page 23----------------------- PREFCIO os Espanhis tambm l no esto. O mesmo acontece no livro de Robert M. Durling, professor da Cornell University, intitulado The Figure of the Poet in Renaissance Epic, 1965 (14). Cames tardio em relao ao que costuma considerar-se como Renascimento e que Weise adopta: Ne consegue che di Rinascimento si suole parlare soltanto a partire dal passaggio al secolo XV (II.1). O poema de Cames veio luz em 1572! No entanto, parece-nos que a raa forte e bela que Vnus deseja procriar (mticamente, embora) se ajusta a esse ideal herico que Weise formula: ... mi sembra sia da considerarsi, gi nel Petrarca, l'aspirazione ad innalzare a un livello semidivino gli uomini e le gesta dell'antichit, a prenderli come modello di una idealizzazione croicheggiante, conferira persino alle persone del proprio tempo (II.5-6). Cames quer que os Portugueses se tornem divinos no s pela fortaleza de nimo, mas pelo exerccio das mais altas virtudes. No s pela coragem fsica, diante do inimigo ... com forar o rosto que se enfia, A parecer seguro, ledo, inteiro Pera o pelouro ardente, que assovia E leva a perna ou brao ao companheiro (VI.98.1-4) mas pela lealdade firme e obedincia (V.72) para com o rei: Olhai que ledos vo por vrias vias, Quais rompantes lies e bravos touros, Dando os corpos a fome e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regies, a plagas frias, A golpes de Idolatras e de Mouros, A perigos incgnitos do mundo, A naufrgios, a pexes, ao profundo, Por vos servir a tudo aparelhados, De vs to longe sempre obedientes A quaisquer vossos speros mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. (X.147-148) E j o Gama dissera ao rei de Melinde: Grandemente por certo esto provados, Pois que nenhum trabalho grande os tira Daquela portuguesa alta excelncia De lealdade firme e obedincia. (V.72.5-8) XV ----------------------- Page 24----------------------- PREFCIO Por esta via tomaro lugar no Olimpo estelante, empalidecendo o fulgor de Jpiter, Mercrio, Febo, e Marte, Eneias e Quirino e os dous Tebanos, Ceres, Palas e Juno com Diana. Os Lusadas esto destinados a substituir a fama dos Antigos, porque as suas proezas os excedem. O culto da Antiguidade no cega o Poeta ao ponto de lhes sotopor os feitos dos Portugueses como pedestal dos heris mediterrneos: Que se o facundo Ulisses escapou De ser na Oggia ilha eterno escravo, E se Antenor os seios penetrou Ilricos e a fonte de Timavo; E se o piadoso Eneas navegou De Cila e Caribdis o mar bravo, Os vossos, mores cousas atentando, Novos mundos ao mundo iro mostrando. E tudo sem mentir, puras verdades. II A Edio Princeps Para compreenso do que se segue fixe-se desde j que designamos por A a edio que apresenta o pelicano com o colo para a nossa esquerda, e por B a que apresenta o pelicano com o colo para a nossa direita. A edio A tambm pode ser designada por Ee (em lembrana do penltimo verso da 1. estncia do poema que em A E entre gente remota edificaro) e a edio B por E (em virtude de o mesmo verso ser s Entre gente remota edificaram). Portanto, A=Ee e B=E. H sculos que se discute o problema das duas edies de 1572. Faria e Sousa, na segunda vida que escreveu de Cames e que XVI ----------------------- Page 25----------------------- PREFCIO paradoxalmente se encontra frente de alguns exemplares das Rimas Vrias (no de todos), diz no n. 27 o seguinte: Aviendo, pues, llegado el P. a Lisboa el ao de 1569 el de 1572 public por medio de la Estampa su Lusiada, aviendosele concedido privilegio Real en 4 de Setiembre de 1571. Di con el un gran estallido en todos los oidos, y un resplendor grande a todos los ojos ms capazes de Europa. El gasto desta impression fue de manera, que el mismo ao se hizo otra, Cosa que aconteci rara vez en el Mundo; en Portugal e ninguna ms de esta. Y porque esto ha de parecer nuevo, y no facil de creer, yo asseguro que lo he examinado bien las mismas ds ediciones que yo tengo; por diferencias de caracteres; de ortografia; de erratas que ay en la primera, y se ven em?dadas en la segunda; y de algunas palabras con que mejor lo dicho. Portanto, em 1685 havia duas edies diferentes de 1572: a difuso da obra tinha sido to grande que o editor se lanara ao empreendimento de uma nova tiragem, melhorada. Mas nas suas Lusadas comentadas (1639), em comentrio est. 21 do Canto IX (col. 31), Faria e Sousa diz isto: Es verdad que en la primera impression deste Poema, a la qual yo llamo original (como dize Correa) falta el madre [trata-se do clebre verso Da my primeyra co'o terreno seyo]. Dirn agora los escrupolosos; con que autoridad se le aadi despues? Yo no s quin lo hizo, pero s que est bien hecho: i assi presumo que la segunda impression se bolvi a hazer por el manuscrito del Poeta, o por alguno de los impressos enmendados por ele, no solamente en este lugar, sino en otros muchos en que avia sobra, i falta de palabras evid?te. Lo mismo sucedi a la impression de las Rimas, que la primera vez truxeron muchas cosas diferentes del manuscrito del Poeta, i en la segunda salieron muy mejoradas. Per viniendo a los yerros deste Poema, cometidos en la estampa por falta, o sobra de palavras, har alguna observacion para que se vea claro, que pudo salir esta enmienda de donde salieron las otras no menos acertadas que ella. Empecemos por las sobras. En la est. 54 del c. 2 dezia; Idololatra por Idolatra en la 56, de Maria, por de Maia. En la 53 del c. 5 dezia un verso, Como fosse cousa impossibil alcanala, por Como possibil alcala; en la 38 del c. 6, Eolo, por Eoo. En la 30 del 8, Que lhe dizem que lhe falta: por que lhe dizem que falta i en la 32 (de 8), Capitam, por Cipiam. Las faltas, que es exemplo que hazo ms a mi proposito. En la 75 del c. 1, E Romano, por e co'o Romano; en la 89, Nos bateis fogo, por nos bateis o fogo. En la 17 del ct. 2, e nesta, por X VII ----------------------- Page 26----------------------- PREFCIO e com esta. En la 103, Que de Luso, por que os de Luso; en la 95 del 3, Liberdade, por liberalidade; en la 70 del 7, Rio Tejo, por rico Tejo. En la 11 del 8, No Estigio jura a fama, por no Estigio lago jura, etc., faltando el lago, que devi aadirse por el original(1) i yo le aado, conformandome con el verso 1 de la estanc. 40 del ct. 4 y es falta pontualmente, como esta del madre aqui. i no ay duda que este madre se aadi por el mismo original que se aadieron, o quitaron essas palabras, i otras que omito(2): dexando a parte las introduzidos por otras, como en la est. 34 del c. 3, trabalha, por batalha; i en la 65, serras della, por senhor della; i en la 41 del 6, nam fosse, por nam sofre; en la 30 deste [IX], ondas, por obras: & otras ... Esta enorme e enredada transcrio no pode deixar de apresentar-se ao leitor como um indecifrvel quebra-cabeas. Refere-se a falta e sobra de palavras nos versos, mas onde? Tivemos algum trabalho, mas encontrmos tudo o que pretendamos: trata-se de emendas, ou de Manuel Correia (1613) ou da edio B (=E). De Manuel Correia, Faria e Sousa registou as seguintes emendas: Que eu co gro Macedonio, & co Romano, (I.75) em vez de: Queu co gram Macedonio, & Romano, (Ed.A) Levando o Idolatra & o Mouro preso (II.54) em vez de: Levando o Idololatra, & o Mouro preso (Ed.A) Sentio o a villa, & vio o senhor della (III.65) em vez de: Sentio o a Villa, & vio a serra della (Ed.A) E com esta treio determinavo, (II.17) em vez de: E nesta treio determinavam (Ed.A) Da edio B, Faria e Sousa regista: ...manda o consagrado Filho de Maria aa terra, porque tenha X VIII ----------------------- Page 27----------------------- PREFCIO (II.56) em vez de: Filho de Maia aa terra porque tenha (Ed. A) Como fosse cousa impossibil alcanalla (V.53) em vez de: Como fosse impossibil alcanalla (Ed. A) Do Eolo Emisperio est remota (VI.38) em vez de: Do Eoo Emisperio est remota (Ed.A) Que lhe dizem que lhe falta resistencia (VIII.30) em vez de: Que lhe dizem que falta resistncia (Ed.A) Portugues Capitam chamar se deve. (VIII-32) em vez de: Portugus Cipio chamar se deve (Ed.A) Eis nos bateis fogo se levanta (I.89) em vez de: Eis nos bateis o fogo se levanta (Ed.A) O menos que de Luso mereceram (II-103) em vez de: O menos que os de Luso merecero (Ed.A) Da liberdade alexandrina (III.96) em vez de: Da liberalidade alexandrina (Ed.A) Do rio Tejo, & fresca Goadiana, (VII.70) em vez de: XIX ----------------------- Page 28----------------------- PREFCIO Do rico Tejo, & fresca Goadiana, (Ed.A) Por quem no Estigio jura a fama (VIII.11) em vez de: Por quem no Estigio lago jura a fama (Ed.A) Em trabalho cruel, o peito humano, (III.34) em vez de: Em batalha cruel, o peito humano, (Ed.A) Nam fosse amores, nem delicadeza (VI.41) em vez de: No soffre amores, nem delicadeza (Ed.A) Esto em varias ondas trabalhando (I.30) em vez de: Esto em varias obras trabalhando (Ed. A) Todas estas emendas so da edio B (colo do pelicano para a direita). Apesar de ser esta, para o Morgado de Mateus, a edio princeps, nenhuma das emendas citadas passou para o seu texto! As lies adaptadas foram as lies de A ? o nosso verdadeiro texto princeps. O Sr. Dr. Francisco Dias Agudo, que ltimamente se tem ocupado deste assunto e ainda agora publicou uma brochura com o ttulo expressivo de A Edio d'Os Lusadas de 1572, diz o seguinte: A palavra QUE, mudada em QUT, figura tanto em 1P (colo do pelicano para a direita) como em 3P (p. 178 v., est. 108, verso 8) e inicial de um verso. Ns consideramos francamente improvvel repetir por cpia aquele t, autntica espada de guerra ofensiva da nossa inteligncia. Esta no admite que, finda uma edio e destrudo este tropeo, ele seja restaurado na edio seguinte. A palavra profundo, mudada em profnndo do mesmo modo figura em 1P e 3P (p. 185, est. 147, verso 8) e final de um verso. Devo dizer que o Sr. Dr. Dias Agudo foi muito moderado na escolha dos seus exemplos. Poderia oferecer aos seus leitores um XX ----------------------- Page 29----------------------- PREFCIO pradrupedante, X.72 (assim em A e B); um Vam, IX.62 por Tam (em A e B); poderia oferecer-lhe o caso de palavra comeada em princpio de verso por minscula em A e B (nuas, IX.66). Poderia oferecer uma estncia mal revista em A e fielmente copiada em B: Pois a tapearia bella & fina, Com que se cobre a rustico terreno, Faz ser a de Achemenia menos dina: Mas o sombrio valle mais ameno: Ali a cabea o flor Cyfisia inclina, Sobollo tanque lucido & sereno, Florece o filho & neto de Cyniras, Por quem tu Deosa Paphia inda suspiras. (IX.60) Infelizmente o tipgrafo nem sempre se lembrou de que a sua obrigao era copiar o que lia; se o tivesse feito, a edio B teria sado igual a A e ns poderamos servir-nos dela com confiana. Em X.6 o compositor de B d-nos uma Minfa por Nimpha (na edio A Ninfa). Sendo pexe forma sistemtica em Cames, o compositor de B traiu-se com a formapeixe em I.42 e IV.90. Para diante reabilitou-se: ou ele ou outro mais atilado! Cames escreveu sempre apousentar (3); mas em B, IV.60, figura aposentou! E que fazermos a cilado (I.80) por cilada (em A), a Neptonino (IX.42) por Neptunino (em A), a Maurilano (VIII.20) por Mauritano, a perjuro (VIII.34) porperjurio (em A), a tom (IX.17) por tam (em A), a horendo (X.43) por horrendo? O compositor de B foi um operrio desatento. No tm limite as diferenas que estabeleceu com o texto de A. Vejamos mais alguns exemplos: 1) Comeram a seguir sua longa rota (I.29) em vez de: Tornaro a seguir sua longa rota (Ed.A) 2) Quando as fingidas gentes se chegaro (II.1) em vez de: Quando as infidas gentes se chegro (Ed.A) 3) Como j o forte Huno o foy primeiro (IV.24) em vez de: Como j o fero Huno o foy primeiro XXI ----------------------- Page 30----------------------- PREFCIO (Ed.A) 4) Se quem com tanto esforo em Deas se atreve (VIII.32) em vez de: Se quem com tanto esforo em Deos se atreve (Ed.A) 5) Que as almdias todas lhe tolhia (VIII.84) em vez de: Que as almdias todas lhe tolhia (Ed.A) 6) Os mouros de Marrocos & Trudante (X.156) em vez de: Os muros de Marrocos & Trudante (Ed.A) 7) Lhe andar armada, que por em ventura (VIII.90) em vez de: Lhe andar armando, que por em ventura (Ed.A) 8) Pera lhe descobrir da vinda esphera (IX.86) em vez de: Pera lhe descobrir da unida esphera (Ed.A) 9) Cantando a bella Deosa, que viriam (X.10) em vez de: Cantava a bella Deosa, que virio (Ed.A) 10) Todos fars ao Luso obedentes (X.44) em vez de: Todos fars ao Luso obedientes (Ed.A) 11) De seres de Candace & Sob ninho (X.52) em vez de: De seres de Candace & Sab ninho (Ed.A) 12) Mas alembrote hua yra que o condena XXII ----------------------- Page 31----------------------- PREFCIO (X.45) em vez de: Mas alembroulhe hua yra que o condena (Ed.A) 13) Batical, que vir ja de Beadala (X.66) em vez de: Batical, que vir ja Beadala (Ed.A) 14) Este erro grave: Responde lhe do ramo Philomena (a rimar com bella e gazella) (IX.63) em vez de: Responde lhe do ramo Philomela (Ed.A) 15)Qual ferida lha tinha ja Eiricina (IX.66) em vez de: Qual ferida lha tinha ja Ericina (Ed.A) 16) Que o mundo encobre aos homes imprud?t s (IX.69) em vez de: Que o mundo encobre aos hom ?s imprud?tes (Ed.A) 17) Por feitos mortais & soberanos (IX.91) em vez de: Por feitos imortais & soberanos (Ed.A) 18) Dividos os fizeram, sendo humanos (IX.91) em vez de: Divinos os fizeram, sendo humanos (Ed.A) 19) De sangue o tingir no andar sublime (X.17) em vez de: De sangue o tingir no andor sublime (Ed.A) XXIII ----------------------- Page 32----------------------- PREFCIO 20) Sabia bem que se com fe formoda (X.112) em vez de: Sabia bem que se com fe formada (Ed.A) At nas cabeas de pgina se revelou o dedo do contrafactor: na edio A a cabea CANTO QUINTO transitou para o canto sexto nos flios 97 r. e 103 r.; na ed. B encontra-se CANTO QUINTO nos f1ios 97 r., 99 r., 100 r. e 103 r! No se pode conceber mistificao mais grosseira . . .(4) Infelizmente o Morgado de Mateus, que h pouco vimos to prudente, colheu para a sua edio princeps (lio B) os exemplos de 1, 2, 3, 6, 7 e 9 dessa mesma lio, acabados de citar. Sem dvida, os piores! Depois desta anlise, que ainda poderia ser mais minuciosa (basta considerar na lio B o verso de III.113 Os feridos com grita ao Ceo feriam que na lio A Os feridos com grita o Ceo ferio), no podemos admitir a tese de que em 1572 saiu da oficina de Antnio Gonalves uma, e s uma, edio do famoso Poema Os Lusadas, se por tal se entender os exemplares da edio A e da edio B. Isto significa que no vemos razo para rejeitarmos as concluses de Tito de Noronha, que, j em 1880, estabeleceu a existncia de uma contrafaco, elaborada na oficina de Andrs Lobato, a seguir impresso da vergonhosa edio dos piscos (1584) (5). E no falamos do alvar e das caractersticas da data, nem do tipo usado na composio do parecer do censor. No falamos da ortografia, nem das desinncias verbais, nem da pontuao. Isso poder ser objecto de um estudo especial. A convico, em que por muito tempo se esteve, de que a edio B que era a princeps teve desastrosas consequncias. A edio do Morgado de Mateus o caso mais retumbante de erro na opo; e se mais grave se no tornou esse erro que o, alis benemrito, autor da edio se serviu largamente da edio A, a verdadeira princeps, ento conhecida como 2. edio. Jos do Canto, na sua coleco camoniana, fala do assunto perfeitamente s avessas, admitindo a edio B como princeps . Tefilo Braga, na sua edio fotolitografada de Os Lusadas, feita por ocasio do jubileu nacional do quarto centenrio do descobrimento martimo para a ndia(6), leva o caso XXIV ----------------------- Page 33----------------------- PREFCIO ao ponto mais alto da confuso. Diz ele: Prova-se que a segunda, de 1572, que tem na portada a cabea do pelicano voltada para a esquerda que a autntica, impressa sob as vistas do Poeta; e que a outra foi uma reproduo intencional para escapar s delongas da censura, e restaurar o texto deturpado na edio de 1584, designada pelo nome de Piscos. Pois, apesar desta advertncia to clara, Tefilo Braga reproduziu a lio B (colo do pelicano para a direita)! Creio que fica suficientemente estabelecido que s a edio A saiu em 1572; e que a edio B uma contrafaco intencional, justificado pela inexistncia de exemplares da edio A e que deve ter vindo luz, discretamente, em 1584 ou 1585, uma vez terminada a impresso da desastrosa edio dos piscos (1584). Que tenha sido feita por Lobato, como pretendeu Tito de Noronha, ou que tenha sido Manuel de Lira o patritico impressor da edio apcrifa, conforme mais tarde concluiu Eleutrio Cerdeira(7), o certo que A e B so inconfundveis: A, a edio que Cames viu, e B, a que ele j no pde ver. III O Nosso Texto Teria sido impossvel, por escrpulo de exactido, elaborar uma edio de Os Lusadas com a pontuao e a ortografia que Cames adoptou ou deixou adoptar no seu Poema. Para se ter uma ideia da forma como o Poeta escreveu e pontuou existem as edies fac- similadas. Para o pblico no podemos pensar numa edio desta natureza. Quisemos, no entanto, dar-lhe uma edio fiel, em que se respire um ar camoniano e isso s se consegue evitando dar ao Poeta uma linguagem que no era a sua nem a do seu tempo: se ele s conheceu a forma despois, no h que impor-lhe a forma depois. Em segundo lugar, evitando a incongruncia, registando num lado o que se rejeita noutro, por causa da rima; em terceiro lugar, evitando pr na mente do Poeta uma preocupao etimologizante, que ele XX V ----------------------- Page 34----------------------- PREFCIO no teve. A edio nacional elaborada por Jos Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira (EN) no se preocupou em modernizar para alm de Cames e escreveu, por exemplo: Naquele por quem morro ... (III.129) forma que Cames no conheceu nem na pica, nem na lrica. curioso, porm, que aqueles autores no modernizaram a forma correspondente do conjuntivo: mas moura, enfim, nas mos das brutas gentes (II.41) Eis um caso de incoerncia ntida. XX VI ----------------------- Page 35----------------------- PREFCIO Cames escreveu sempre (com uma s excepo) inico e inica. E quando uma vez escreveu iniqua f-lo dando a qu o valor de c e pronunciando, portanto, inica. No este o caso de EN. Onde o Poeta escreveu O Regedor daquela inica terra (I.94) ou Do padastro e da inica my levava (III-33) escreveram os editores de EN: O Regedor daquela inqua terra ou Do padrasto e da inqua me levava Mas em posio de rima no se esqueceram, evidentemente, da forma camoniana: Assim Vnus props; e o filho inico (IX.43) a rimar com rico e impudico. O caso do grupo -sc- (verbos latinos em -scere) mais delicado. O Poeta escreveu algumas vezes nascer e crescer (s uma vez em crescendo, VIII.72). Em caso algum escreveu descer e pascer (mas decer e pacer). Mas a prova de que mesmo escrevendo nascer o Poeta pronunciava nacer est em que rimava nascer com decer (II.19). Ora em EN fez-se rimar nasceu com desceu e ilgicamente nace compace! Antes de c (ce ou ci) o som surdo x do s tinha desaparecido por completo, ainda que o representassem por vezes na escrita. Temos, por exemplo, o lascivo de Cames que est representado com s em No ar lascivos beijos dando (IX.24) ou Mas cua escrava vil, lasciva e escura (X.47) mas sem s em Sendo das mos lacivas mal tratada (III.134) Em EN encontra-se, j se sabe, lascivas. O mesmo com ressuscitar, que em EN est por resucitar (resucitassem, resucite). XXVII ----------------------- Page 36----------------------- PREFCIO Em Cames a forma dino, dina muito mais frequente do que a forma digno, digna. Nenhuma influncia esta escrita tinha na pronncia, porque digno aparece a rimar com cristalino e divino; mas, embora a forma dino aparea mesmo no princpio ou meio do verso, em EN foi substituda por digno: O caso triste, e digno da memoria (III.118) Outro caso de modernizao grave o tratamento do prefixo sub, que no existe em submeter nem em subjugar (subjugada em IV.61). Cames no escreveu Tanto poder que tudo submetesse (I.75) como est em EN, mas Tanto poder que tudo sometesse A EN chega a juntar as duas modernizaes na mesma estncia A estas nobres vilas submetidas (III.56) e Subjuga a fria Sintra o duro brao (III.56) quando Cames escreveu A estas nobres vilas sometidas e Sojuga a fria Sintra o duro brao O Brasil acaba de prestar uma justa homenagem ao douto comentador de Os Lusadas Augusto Epifnio da Silva Dias, publicando em edio fac-similada a segunda edio, de 1916-1918. Epifnio no seguiu a ortografia oficial, mas a que se usava antes da reforma da ortografia de 1911. As suas divergncias com a edio princeps so muito maiores do que pode imaginar-se. Cames nunca escreveu damno, phantasia, accender, acceso, prophetizado, crystal, crystallino, blasphemo, deshonesto, deshonrado, columnas. Se alguma vez escreveu triumphar, triumpho, tropheo, socceder, occeano, tambm escreveu triumfar (sic), trofeo, soceder ou suceder, oceano. Umas vezes a ortografia de Epifnio coincide com a do Poeta, como em cabello, capella, prompto (em VIII.55 o Poeta escreveu pronta), offender, offerecer, officio, bellico, belleza, bello, mas outras no: o Poeta escreve em geral belicoso, belacssimo, belgero, calada, Calope, Calipso, Calisto, calo, Apolo, Baco, ctara, Prometeo. O nosso texto mantm as seguintes formas de Cames: XXVIII ----------------------- Page 37----------------------- PREFCIO Abaxar, abaxo (e abaixo), acrecentar, acudir (acude, imperativo), afeito, afeitar-se, agardecer (e agradecer), lemo, algua, Alanquer, Alexandro, alfrezes, amoesta, anto (e ento), antre (e entre), Antrtico, apacentar, apousentar, apousento, artelharia, assi, assoviar, aspeito, aventajar, avorrecido; Bautizado (e baptizado), baxo/a e baixo, benino (e benigno), bvoras, bocijando; Csi, ceptro, cereija, contino, contrairo, Costantino, cousa, crecer, crecimento, coluna; Dantre, debaxo (e debaixo), decer, desemparo, desemparar, despois, dino/a, des (pl. de dom), dous, doudo; Embaxador (e embaixador), embaxada (e embaixada), emparo, ennobrecer, enveja, escuitar, estmago, experimentar (II.104) (1), exprimentar (III.85), extremo, est, esteis (formas do v. estar), estrui (v. estruir); Federico, fermoso/a, fermosura, fermosssima, florecente, florecer, Frandes, fruito e fruto, fuge (imperativo de fugir); Giolhos (geolhos), grandiloco/a; Horrisono/a; Imigo (e inimigo), impidas, indino, indinado, ingrs (e ingls), inico; Jocundo/a; Lianor, lio, lions, longinco (e longico), Lua; Mrtire, masto, mi, milhor, mortindade, mouro (morro), moura (morra); Nacer, nenhua, noda, noute; Orfindade, oucioso (e occioso), ouliveira; Pacer, pntem, Perineu, perclaro, perguntar, perla, pexe, piadoso/a (e piedoso/a), pranta, prantar, prum a, produze, pubricar, pbrico (epblico) (2), preminente, preminncia; Qusi; Razo (s num caso empregou rezo), recrecer, relmpado, reluze, reposta, reprender, represria, ressucitar, revelde; Saluo, samear (e semear), sanguino, sembrante, sigue-me, simpres, sinos (por signos), somnolento, someter, sojugar, subjeito, superficia, sutil, sutileza, sutilmente; Tarquino, tarado, Tavila, trasunto, terrestre, tornu, tredores, treio, trdoros; Ua; Valeroso/a, val (por vale), voudas. Devamos ter conservado a forma exos (eixos), representada uma s vez n'Os Lusadas (VI.84.7). XXIX ----------------------- Page 38----------------------- PREFCIO Rejeitamos formas como as seguintes: Accidentes, adquerir, arteficio, artilheria, Balduuino, ceremonia, dereito, desposto, deligencia, dezia (a forma dizia tambm camoniana), dirivar, eccessivo, eccelencia, embarado, encenso, esperiencia, esprimentar, estremo (adj.), humicidas, hypocresia, iazmim, insinar, mesturar, mezquinha, menh, mintiroso, misilhes, occeano, opremido, otono, plouro, porpurea, prompto/s, rezo, sancto/a, septima, soccedeo, soccedessem, Suamqum, succedido (ao lado das formas modernas), temido (por tmido), tremolar, vertude, vezinhana, victorioso. Outras se encontraro do mesmo gnero. Na normalizao da ortografia tivemos de eliminar formas como sciencia, sciente, mas n'Os Lusadas existem as formas modernas ciencia e ciente. O mesmo sucedeu a Scipio, Sctia, etc. No adoptmos as formas geanalosia (que tem, alis, exemplo literrio) e sururgio. Admitimos as formas correctas genealogia e cirurgio. Entendemos que foi desastre do compositor a forma pradrupedante (X.72.4) e que horrissimo (II.96.6) erro por horrsono, que aparece logo em II.100. Conservmos um erro irreformvel porque deve tratar-se de um deslize do Poeta: venerando em VII.77.4, a rimar com Mauritano e humano. Alguns tm posto soberano em lugar de venerando. Tambm em II.100.5, a edio princeps tem bramando, que est evidentemente por bramavam: As bombardas horrsonas bramavam Em X.88 turbulento apenas rima assonante. Em X.128, molhados e escapados rimam com executado. um caso de rima imperfeita que, naquele caso, no deve ser alterada. Em VI.5, houve lapso do Poeta, que escreveu duas vezes camares numa enumerao. Uns substituem por briguiges (FS) outros por birbiges (MC). Conservmos todas as formas em -bil: abominbil, afbil, inexpugnbil, impossbil, insensbil, insofrbil (insufrbil), invisbil, terrbil, imbil, implacbil, incansbil, instbil, invencbil, possbil, vendbil, visbil, volbil. Deste grupo s abominbil apresenta uma vez a forma moderna (VII.47.5). Mantiveram-se, principalmente no plural, os representantes latinos de -ax, -ix e -ox: audace, atroce, felice, feroce, fugace, sequace, veloce, pertinace, rapace, tenace. Na EN escreveu-se Mui velozes, estreitas e compridas XXX ----------------------- Page 39----------------------- PREFCIO (I.46) e Sabendo ser sequazes da verdade (I.71) Em outros lugares manteve-se a forma directamente derivada do latim. Cames escreve frequentemente desta arte e destarte. Se lermos com hiato erramos a medida do verso. Julgmos por isso prefervel uniformizar. Cames chega a escrever Desta arte o Malabar, destarte o Luso (VII.45) quando a verdade o que o verso tem de ser lido Destarte o Malabar, destarte o Luso. Em alguns casos fez-se uma opo: dino/a no s est mais representado do que digno/a, mas a nica vez que digno/a est em posio de rima esta faz-se com imagina, ensina (insina) ? o que mostra que a ortografia erudita no correspondia pronncia. Das cinco vezes que o Poeta escreveu Lua s uma no nasalou o u (Lua em III.56.3). Por lapso tipogrfico, sem dvida. E o caso de Lua serve-nos para apontar os perigos da modernizao. Em IX.48.1 Lua est em posio de rima e as rimas escolhidas foram nenhua e algua. Os editores da EN foram obrigados a respeitar estas formas ? o que no fizeram em outros casos: Alguns traidores (3) houve algumas vezes (IV.33.8) Desta arte a Deusa a quem nenhuma iguala (II.38.7) O que se diz para Lua diz-se para o plural antigo de dom-des. Em V.95 o Poeta colocando des em posio de rima serviu-se das palavras Cipies e opresses. portanto desaconselhvel utilizar a forma moderna dons. Levassem prmio digno e dons iguais que Cames no conhecia. evidente que h casos em que a modernizao no prejudica a rima. Por exemplo, sembrante. Mesmo que se mude em semblante no h perigo rimtico. Resta saber se moralmente legtimo faz-lo. Quando Cames rima nace (de nascer) com pace (de pascer) e comface est dentro dos seus hbitos lingusticos. Se em vez de nace escrevesse nasce e pasce e mantivesseface, isso significaria que o grupo -sc- nenhuma influncia teria na pronncia daquele tempo. E o caso ... No crvel que escrevendo aqui nascido (II.10.2) e ali nacido XXXI ----------------------- Page 40----------------------- PREFCIO (V.47.2) o Poeta hesitasse na pronncia e se preocupasse com a etimologia. Poderamos multiplicar os exemplos. Mas o nosso objectivo apenas o de defender um critrio adoptado, que poderia ter sido levado com mais rigor ainda. Para finalizar, apresento apenas um exemplo significativo: o Poeta empregou benino e benigno. A forma benigno foi utilizada duas vezes em rima: benigno ? Alcino ? divino; benigno ? destino ? fino. evidente que para o Poeta benigno era o mesmo que benino. A restaurao humanstica no influiu durante muito tempo nos hbitos lingusticas. XXXII ----------------------- Page 41----------------------- PREFCIO A' Luso, unde Lusitania dicta est, Lusiadas adpellavimus Lusitanos, & a Lysa Lysiadas, sicut ab nea neadas dixit Virgilius. Nec male subcessit. Nam video id multis adlibuisse, prsertim autem Georgio C?lio, Lusitani nostr ornamento, sive poeticam facultatem, sive Ciceronian orationis mulationem spectes. In L. Andr. Resendii Vincentium Adnotationes (48). XXXIII ----------------------- Page 42----------------------- PREFCIO Ev el Rey fao faber aos que efte Aluara virem que eu ey por bem & me praz dar licena a Luis de Camo?s pera que poffa fazer imprimir nefta cidade de Lisboa, hua obra em Octaua rima chamada Os Lufiadas, que contem dez cantos perfeitos, na qual por ordem poetica em verfos fe declaro os principaes feitos dos Portuguefes nas partes da India depois que fe defcobrio a nauegao pera ellas por mdado del Rey dom Manoel meu vifauo que fancta gloria aja, & ifto com priuilegio pera que em tempo de dez anos que fe comearo do dia que fe a dita obra acabar de empremir em dite, fe no poffa imprimir n? vender em meus reinos & fenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas partes da India pera fe vender fem lic?a do dito Luis de Camo?s ou da peffoa que pera iffo feu poder tiuer, fob pena d? que o contrario fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volumes que imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Cames, & a outra metade pera quem os acufar. E antes de fe a dita obra vender lhe fera pofto o preo na mefa do defpacho dos meus Defembargadores do pao, o qual fe declarar & por impreffo na primeira folha da dita obra pera fer a todos notorio, & antes de fe imprimir fera vifta & examinada na mefa do confelho geral do fanto officio da Inquifio pera c fua licena fe auer de imprimir, & fe o dito Luis de Cames tiuer acrecentados mais algus Cantos, tambem fe imprimiro auendo pera iffo licena do fanto officio, como acima he dito. E efte meu Aluara fe imprimir outrofi no principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha fora & vigor, como fe foffe carta feita em meu nome por mim afsinada & paffada por minha Chancellaria sem embargo da Ordenao do fegundo liuro, tit. xx. que diz que as coufas cujo effeito ouuer de durar mais que hum ano paffem per cartas, & paffando por aluaras no valho. Gafpar de Seixas o fiz em Lisboa, a . xxiiij : de Setembro, de M. D. LXXI. Iorge da Cofta o fiz efcreuer. XXXIV ----------------------- Page 43----------------------- PREFCIO VI por mandado da santa & geral inquisio estes dez cantos dos Lusiadas de Luis de Cames, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizero em Asia & Europa, & no achey nelles cousa algua escandalosa, nem contraria fe & bs custumes, somente me pareceo que era necessrio aduertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade da nauegao & entrada dos Portugueses na India, vsa de hua fio dos Deoses dos Gentios. E ainda que sancto Augustinho nas suas Retractaes se retracte de ter chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas. Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, no pretenda mais que ornar o estilo Poetico no tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal. & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que todos os Deoses dos G?tios sam Demonios. E por isso me pareceo o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito engenho & muita erudio nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui. Frey Bertholameu Ferreira XXX V ----------------------- Page 44----------------------- PREFCIO Notas (parte I) (1) As estncias desprezadas ou omitidas podem ler-se no tomo I, parte 2., pp. 267 e segs., da edio de Os Lusadas de MDCCLXXXII (na offic. de Simo Thadeo Ferreira) e na ed. de Leipzig (1873), pp. 205 e segs. Nesta edio incluram-se as emendas de um terceiro manuscrito (ms. de Lus Franco). Podem ler-se tambm na edio de Os Lusadas do Porto (MDCCCLXXX), pp. 397 e segs. Incluem-se tambm nesta edio as emendas do ms. de Lus Franco. V. a crtica feita a Manuel de Faria e Sousa pelo Morgado de Mateus na sua Advertncia, pp. XVIII a XXIII. (2) V. Miscelnea Filolgica em Honra Memria do Prof. Clovis Monteiro (Rio de Janeiro, 1965), pp. 171-174. (3) Wilhelm Storck, Vida e Obras de Lus de Cames. Primeira parte. Verso do original alemo, anotado por Carolina Michalis de Vasconcelos, Lisboa, MDCCCXCVII, p. 460. (4) Id., ibid., pp. 460-461. (5) V. Jordo de Freitas, O Naufrgio de Cames e dos Lusadas, Lisboa, 1915. (6) ............................................................... Por Mecenas a vs celebro e tenho; XXX VI ----------------------- Page 45----------------------- PREFCIO e sacro o nome vosso farei, se alg ua cousa em verso posso. O rudo canto meu, que ressuscita as honras sepultadas, as palmas j passadas dos belicosos nossos Lusitanos, para tesouro dos futuros anos, Convosco se defende da lei Leteia, qual tudo se rende. (Ode a D. Manuel de Portugal) (7) Juromenha, Obras ..., vol. I, Doc. F, p. 169. (8) Pelo menos umprimo dos Cames de Coimbra. A tese do tio D. Bento renasceu com o aparecimento da Cronica de Santa Cruz, de D. Fr. Timteo dos Mrtires, Coimbra, edio da Biblioteca Municipal, 1955-1960. (9) V. Jos Maria Rodrigues, Fontes dos Lusadas, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1905, pp. 247 e 248. (10) Sobre Os Lusadas e o tema das Argonuticas, ver Antnio Salgado Jnior, Ocidente, n. 38, 1950, pp. 277 e segs., e n. 40, 1951, pp. 261 e segs. Do mesmo autor, Cames e a viso humanstica da geografia da Europa de Quinhentos, Ocidente, n. 36, 1949, pp. 281 e segs. Sobre o papel da Argonautica, de Valrio Flacco, ver, de H. Howens Post, A cronologia da composio de vrias passagens de Os Lusadas, Ocidente, Novembro de 1972 e separata. (11) Introd. sua edio de Os Lusadas, p. XIX (1916-1918). (12) Storck, ob. cit., pp. 224 e 225. XXXVII ----------------------- Page 46----------------------- PREFCIO (13) V. Arriano, Historia de las expediciones de Alejandro, cap. XX, p. 319. Madrid, 1897. (Trad. directa do grego por D. Federico Baraibar y Zumrraga.) (14) Em contraste com C. M. Bowra, autor de Virglio, Tasso, Cames e Milton. Trad. port. por Antnio lvaro Dria em 1950. Notas (parte II) (1) o caso inverso de madre: Esta falta na edio A; e lago foi suprimido na edio B, mas existe em A. (2) erro. My falta em A e em B. Manuel Correia protestou contra a emenda, escrevendo Da primeyra co terreno seyo e acrescenta: Assi fez Luis de Cames este verso, & no como anda impresso: da my primeyra co terreno seyo. A ed. de Correia de 1613. (3) E uma s vez aposento (X.87). (4) As modificaes ortogrficas no tm conto na ed. B: abaixo, por abaxo (VI.63); agradeceo, por agardeceo (VI.93); baixo, por baxo (VI.99); embaixada, por embaxada (VII.64); embaixador, por embaxador (VII.64); abaixa, por abaxa (VIII.11); este, por est (VIII.54), etc. (5) Tito de Noronha, A primeira edio dos Lusadas. Com quatro phototypias. Livraria Internacional de Ernesto Chardron ? Editor. Porto e Braga, 1880. (6) O exemplar de que me servi pertenceu a Carolina Michalis de XXXVIII ----------------------- Page 47----------------------- PREFCIO Vasconcelos (exemplar n. 63), est encadernado e no tem a capa da prpria edio. (7) Eleutrio Cerdeira, Duas Grandes Fraudes Camonianas, documentadas com ilustraes. Edio da Companhia Editora do Minho. Barcelos, 1946. Notas (parte III) (1) No nosso texto, exprimenta, por causa da medida do verso (2) Em IV.52.8 devia estarpbrico. (3) Alis, tredores. XXXIX ----------------------- Page 48----------------------- OS LUSADAS OS LUSADAS I 1 AS armas e os Bares assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda alm da Taprobana, Em perigos e guerras esforados Mais do que prometia a fora humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E tambm as memrias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A F, o Imprio, e as terras viciosas De frica e de sia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vo da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sbio Grego e do Troiano As navegaes grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitrias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 1 ----------------------- Page 49----------------------- OS LUSADAS 4 E vs, Tgides minhas, pois criado Tendes em mi um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandloco e corrente, Por que de vossas guas Febo ordene Que no tenham enveja s de Hipocrene. 5 Dai-me ua fria grande e sonorosa, E no de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se to sublime preo cabe em verso. 6 E vs, bem nascida segurana Da Lusitana antiga liberdade, E no menos certssima esperana De aumento da pequena Cristandade; Vs, novo temor da Maura lana, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Pera do mundo a Deus dar parte grande; 2 ----------------------- Page 50----------------------- OS LUSADAS 7 Vs, tenro e novo ramo florecente De ua rvore, de Cristo mais amada Que nenhua nascida no Ocidente, Cesrea ou Cristianssima chamada (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitria j passada, Na qual vos deu por armas e deixou As que Ele pera si na Cruz tomou); 8 Vs, poderoso Rei, cujo alto Imprio O Sol, logo em nascendo, v primeiro, V-o tambm no meio do Hemisfrio, E quando dece o deixa derradeiro; Vs, que esperamos jugo e vituprio Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio: 9 Inclinai por um pouco a majestade Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que j se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no cho: vereis um novo exemplo De amor dos ptrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da ptria, no movido De prmio vil, mas alto e qusi eterno; Que no prmio vil ser conhecido Por um prego do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente. 3 ----------------------- Page 51----------------------- OS LUSADAS 11 Ouvi, que no vereis com vs faanhas, Fantsticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas so tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte e o vo Rugeiro E Orlando, inda que fora verdadeiro. 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei e ao Reino tal servio, Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero A ctara par' eles s cobio; Pois polos Doze Pares dar-vos quero Os Doze de Inglaterra e o seu Magrio; Dou-vos tambm aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de Frana, Ou de Csar, quereis igual memria, Vede o primeiro Afonso, cuja lana Escura faz qualquer estranha glria; E aquele que a seu Reino a segurana Deixou, com a grande e prspera vitria; Outro Joane, invicto cavaleiro; O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. 14 Nem deixaro meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos l da Aurora Se fizeram por armas to subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortssimo e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terrbil, Castro forte, E outros em quem poder no teve a morte. 4 ----------------------- Page 52----------------------- OS LUSADAS 15 E, enquanto eu estes canto ? e a vs no posso, Sublime Rei, que no me atrevo a tanto ?, Tomai as rdeas vs do Reino vosso: Dareis matria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que polo mundo todo faa espanto) De exrcitos e feitos singulares, De frica as terras e do Oriente os mares. 16 Em vs os olhos tem o Mouro frio, Em quem v seu excio afigurado; S com vos ver, o brbaro Gentio Mostra o pescoo ao jugo j inclinado; Ttis todo o cerleo senhorio Tem pera vs por dote aparelhado, Que, afeioada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos pera genro. 17 Em vs se vm, da Olmpica morada, Dos dous avs as almas c famosas; Ua, na paz anglica dourada, Outra, pelas batalhas sanguinosas. Em vs esperam ver-se renovada Sua memria e obras valerosas; E l vos tm lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas, enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vs favor ao novo atrevimento, Pera que estes meus versos vossos sejam, E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que so vistos de vs no mar irado, E costumai-vos j a ser invocado. 5 ----------------------- Page 53----------------------- OS LUSADAS 19 J no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas cncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vo cortando As martimas guas consagradas, Que do gado de Prteu so cortadas, 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo est da humana gente, Se ajuntam em conslio glorioso, Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Cu fermoso, Vm pela Via Lctea juntamente, Convocados, da parte de Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Cus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que s co pensamento Governa o Cu, a Terra e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado E os que o Austro tm e as partes onde A Aurora nasce e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali, sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano; Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com ua coroa e ceptro rutilante, De outra pedra mais clara que diamante. 6 ----------------------- Page 54----------------------- OS LUSADAS 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses, todos assentados Como a Razo e a Ordem concertavam (Precedem os antigos, mais honrados, Mais abaixo os menores se assentavam); Quando Jpiter alto, assi dizendo, Cum tom de voz comea grave e horrendo: 24 ? Eternos moradores do luzente, Estelfero Plo e claro Assento: Se do grande valor da forte gente De Luso no perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente Como dos Fados grandes certo intento Que por ela se esqueam os humanos De Assrios, Persas, Gregos e Romanos. 25 J lhe foi (bem o vistes) concedido, Cum poder to singelo e to pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra que rega o Tejo ameno. Pois contra o Castelhano to temido Sempre alcanou favor do Cu sereno: Assi que sempre, enfim, com fama e glria, Teve os trofus pendentes da vitria. 26 Deixo, Deuses, atrs a fama antiga, Que co a gente de Rmulo alcanaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra Romana, tanto se afamaram; Tambm deixo a memria que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capito, que, peregrino, Fingiu na cerva esprito divino. 7 ----------------------- Page 55----------------------- OS LUSADAS 27 Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, no temendo de frico e Noto a fora, a mais s' atreve: Que, havendo tanto j que as partes vendo Onde o dia comprido e onde breve, Inclinam seu propsito e perfia A ver os beros onde nasce o dia. 28 Prometido lhe est do Fado eterno, Cuja alta lei no pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar que v do Sol a roxa entrada. Nas guas tm passado o duro Inverno; A gente vem perdida e trabalhada; J parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra que deseja. 29 E porque, como vistes, tm passados Na viagem to speros perigos, Tantos climas e cus exprimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa Africana como amigos; E, tendo guarnecido a lassa frota, Tornaro a seguir sua longa rota. 30 Estas palavras Jpiter dizia, Quando os Deuses, por ordem respondendo, Na sentena um do outro diferia, Razes diversas dando e recebendo. O padre Baco ali no consentia No que Jpiter disse, conhecendo Que esquecero seus feitos no Oriente Se l passar a Lusitana gente. 8 ----------------------- Page 56----------------------- OS LUSADAS 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Ua gente fortssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da ndia tudo quanto Dris banha, E com novas vitrias venceria A fama antiga, ou sua ou fosse estranha. Altamente lhe di perder a glria De que Nisa celebra inda a memria. 32 V que j teve o Indo sojugado E nunca lhe tirou Fortuna ou caso Por vencedor da ndia ser cantado De quantos bebem a gua de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu to clebre nome em negro vaso D' gua do esquecimento, se l chegam Os fortes Portugueses que navegam. 33 Sustentava contra ele Vnus bela, Afeioada gente Lusitana Por quantas qualidades via nela Da antiga, to amada, sua Romana; Nos fortes coraes, na grande estrela Que mostraram na terra Tingitana, E na lngua, na qual quando imagina, Com pouca corrupo cr que a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que h-de ser celebrada a clara Deia Onde a gente belgera se estende. Assi que, um, pela infmia que arreceia, E o outro, pelas honras que pretende, Debatem, e na perfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 9 ----------------------- Page 57----------------------- OS LUSADAS 35 Qual Austro fero ou Breas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vo da mata escura Com impeto e braveza desmedida, Brama toda montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto, levantado Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De antre os Deuses em p se levantava: Merencrio no gesto parecia; O forte escudo, ao colo pendurado, Deitando pera trs, medonho e irado; 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer se ps diante De Jpiter, armado, forte e duro; E dando ua pancada penetrante Co conto do basto no slio puro, O Cu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado; 38 E disse assi: ? Padre, a cujo imprio Tudo aquilo obedece que criaste: Se esta gente que busca outro Hemisfrio, Cuja valia e obras tanto amaste, No queres que padeam vituprio, Como h j tanto tempo que ordenaste, No ouas mais, pois s juiz direito, Razes de quem parece que suspeito. 10 ----------------------- Page 58----------------------- OS LUSADAS 39 Que, se aqui a razo se no mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vm, seu to privado; Mas esta teno sua agora passe, Porque enfim vem de estmago danado; Que nunca tirar alheia enveja O bem que outrem merece e o Cu deseja. 40 E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinao que tens tomada No tornes por detrs, pois fraqueza Desistir-se da cousa comeada. Mercrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve e seta bem talhada, Lhe v mostrar a terra onde se informe Da ndia, e onde a gente se reforme. 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabea inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso E nctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lcteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Pera os determinados apousentos. 42 Enquanto isto se passa na fermosa Casa etrea do Olimpo omnipotente, Cortava o mar a gente belicosa J l da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etipica e a famosa Ilha de So Loureno; e o Sol ardente Queimava ento os Deuses que Tifeu Co temor grande em pexes converteu. 11 ----------------------- Page 59----------------------- OS LUSADAS 43 To brandamente os ventos os levavam Como quem o Cu tinha por amigo; Sereno o ar e os tempos se mostravam, Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontrio Prasso j passavam Na costa de Etipia, nome antigo, Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte Capito, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo corao, A quem Fortuna sempre favorece, Pra se aqui deter no v razo, Que inabitada a terra lhe parece. Por diante passar determinava, Mas no lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batis, que vm daquela Que mais chegada terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroa e, de alegria, No sabe mais que olhar a causa dela. ? Que gente ser esta? (em si diziam) Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcaes eram na maneira Mui veloces, estreitas e compridas; As velas com que vm eram de esteira, Duas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira Que Fton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado e no prudente (O Pado o sabe e Lampetusa o sente). 12 ----------------------- Page 60----------------------- OS LUSADAS 47 De panos de algodo vinham vestidos, De vrias cores, brancos e listrados; Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraados; Das cintas pra cima vm despidos; Por armas tm adagas e tarados; Com toucas na cabea; e, navegando, Anafis sonorosos vo tocando. 48 Cos panos e cos braos acenavam s gentes Lusitanas, que esperassem; Mas j as proas ligeiras se inclinavam, Pera que junto s Ilhas amainassem. A gente e marinheiros trabalhavam Como se aqui os trabalhos s' acabassem: Tomam velas, amaina-se a verga alta, Da ncora o mar ferido em cima salta. 49 No eram ancorados, quando a gente Estranha polas cordas j subia. No gesto ledos vm, e humanamente O Capito sublime os recebia. As mesas manda pr em continente; Do licor que Lieu prantado havia Enchem vasos de vidro; e do que deitam Os de Feton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente, perguntavam, Pela Arbica lngua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas repostas que convinham: ? Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 13 ----------------------- Page 61----------------------- OS LUSADAS 51 Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antrtico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado; Diversos cus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, to amado, To querido de todos e benquisto, Que no no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 E, por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele o mar remoto navegamos, Que s dos feios focas se navega. Mas j razo parece que saibamos (Se entre vs a verdade no se nega), Quem sois, que terra esta que habitais, Ou se tendes da ndia alguns sinais? 53 ? Somos (um dos das Ilhas lhe tornou) Estrangeiros na terra, Lei e nao; Que os prprios so aqueles que criou A Natura, sem Lei e sem Razo. Ns temos a Lei certa que ensinou O claro descendente de Abrao, Que agora tem do mundo o senhorio; A me Hebreia teve e o pai, Gentio. 54 Esta Ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos, De Quloa, de Mombaa e de Sofala; E, por ser necessria, procuramos, Como prprios da terra, de habit-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena Ilha ? Moambique. 14 ----------------------- Page 62----------------------- OS LUSADAS 55 E j que de to longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sbiamente. Tambm ser bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja E do mais necessrio vos proveja. 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batis com toda a companhia; Do Capito e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas guas encerrou Co carro de cristal, o claro dia, Dando cargo Irm que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria e no cuidada, Por acharem da terra to remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer ento consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam. 58 Da Lua os claros raios rutilavam Polas argnteas ondas Neptuninas; As Estrelas os Cus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Polas covas escuras peregrinas; Porm da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 15 ----------------------- Page 63----------------------- OS LUSADAS 59 Mas, assi como a Aurora marchetada Os fermosos cabelos espalhou No Cu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperinio, que acordou, Comea a embandeirar-se toda a armada E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das Ilhas, que partia. 60 Partia, alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que so aquelas gentes inumanas Que, os apousentos Cspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram e, por ordem do Destino, O Imprio tomaram a Costantino. 61 Recebe o Capito alegremente O Mouro e toda sua companhia; D-lhe de ricas peas um presente, Que s pera este efeito j trazia; D-lhe conserva doce e d-lhe o ardente, No usado licor, que d alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe, E muito mais contente come e bebe. 62 Est a gente martima de Luso Subida pela enxrcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso E a linguagem to brbara e enteada. Tambm o Mouro astuto est confuso, Olhando a cor, o trajo e a forte armada; E, perguntando tudo, lhe dizia Se porventura vinham de Turquia. 16 ----------------------- Page 64----------------------- OS LUSADAS 63 E mais lhe diz tambm que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito ou f, Pera ver se conforme sua seja, Ou se so dos de Cristo, como cr; E por que tudo note e tudo veja, Ao Capito pedia que lhe d Mostra das fortes armas de que usavam Quando cos inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capito, Por um que a lngua escura bem sabia: ? Dar-te-ei, Senhor ilustre, relao De mi, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da gerao Das gentes enojosas de Turquia, Mas sou da forte Europa belicosa; Busco as terras da ndia to famosa. 65 A Lei tenho d' Aquele a cujo imprio Obedece o visbil e invisbil, Aquele que criou todo o Hemisfrio, Tudo o que sente e todo o insensbil; Que padeceu desonra e vituprio, Sofrendo morte injusta e insofrbil, E que do Cu Terra enfim deceu, Por subir os mortais da Terra ao Cu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros que tu pedes no trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as vers, porque eu me obrigo Que nunca as queiras ver como inimigo. 17 ----------------------- Page 65----------------------- OS LUSADAS 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vm arneses e peitos reluzentes, Malhas finas e lminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de ao puras, Arcos e sagitferas aljavas, Partazanas agudas, chuas bravas. 68 As bombas vm de fogo, e juntamente As panelas sulfreas, to danosas; Porm aos de Vulcano no consente Que dm fogo s bombardas temerosas; Porque o generoso nimo e valente, Entre gentes to poucas e medrosas, No mostra quanto pode; e com razo, Que fraqueza entre ovelhas ser lio. 69 Porm disto que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento, Um dio certo na alma lhe ficou, Ua vontade m de pensamento; Nas mostras e no gesto o no mostrou, Mas, com risonho e ledo fingimento, Trat-los brandamente determina, At que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capito, Por quem pudesse ndia ser levado; Diz-lhe que o largo prmio levaro Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com teno De peito venenoso e to danado Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 18 ----------------------- Page 66----------------------- OS LUSADAS 71 Tamanho o dio foi e a m vontade Que aos estrangeiros spito tomou, Sabendo ser sequaces da Verdade Que o filho de David nos ensinou! segredos daquela Eternidade A quem juzo algum no alcanou: Que nunca falte um prfido inimigo queles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se nisto, enfim, co a companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos e fingido. Cortaram os batis a curta via Das guas de Neptuno; e, recebido Na terra do obseqente ajuntamento, Se foi o Mouro ao cgnito apousento. 73 Do claro Assento etreo, o gro Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destrudo; E, enquanto isto s na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 ? Est do Fado j determinado Que tamanhas vitrias, to famosas, Hajam os Portugueses alcanado Das Indianas gentes belicosas; E eu s, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei-de sofrer que o Fado favorea Outrem, por quem meu nome se escurea? 19 ----------------------- Page 67----------------------- OS LUSADAS 75 J quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder que tudo sometesse Debaixo do seu jugo o fero Marte; Mas h-se de sofrer que o Fado desse A to poucos tamanho esforo e arte, Qu' eu, co gro Macednio e Romano, Dmos lugar ao nome Lusitano? 76 No ser assi, porque, antes que chegado Seja este Capito, astutamente Lhe ser tanto engano fabricado Que nunca veja as partes do Oriente. Eu decerei Terra e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via ir direita Quem do oportuno tempo se aproveita. 77 Isto dizendo, irado e qusi insano, Sobre a terra Africana descendeu, Onde, vestindo a forma e gesto humano, Pera o Prasso sabido se moveu. E, por milhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moambique conhecido, Velho, sbio, e co Xeque mui valido. 78 E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas, A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras Estas que ora de novo so chegadas; Que das naes na costa moradoras, Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 20 ----------------------- Page 68----------------------- OS LUSADAS 79 ? E sabe mais (lhe diz), como entendido Tenho destes Cristos sanguinolentos, Que qusi todo o mar tm destrudo Com roubos, com incndios violentos; E trazem j de longe engano urdido Contra ns; e que todos seus intentos So pera nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 E tambm sei que tem determinado De vir por gua a terra, muito cedo, O Capito, dos seus acompanhado, Que da teno danada nasce o medo. Tu deves de ir tambm cos teus armado Esper-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Caro facilmente na cilada. 81 E se inda no ficarem deste jeito Destrudos ou mortos totalmente, Eu tenho imaginada no conceito Outra manha e ardil que te contente: Manda-lhe dar piloto que de jeito Seja astuto no engano, e to prudente Que os leve aonde sejam destrudos, Desbaratados, mortos ou perdidos. 82 Tanto que estas palavras acabou O Mouro, nos tais casos sbio e velho, Os braos pelo colo lhe lanou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Pera a guerra o belgero aparelho, Pera que ao Portugus se lhe tornasse Em roxo sangue a gua que buscasse. 21 ----------------------- Page 69----------------------- OS LUSADAS 83 E busca mais, pera o cuidado engano, Mouro que por piloto nau lhe mande, Sagaz, astuto e sbio em todo o dano, De quem fiar se possa um feito grande. Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares co ele ande, Que, se daqui escapar, que l diante V cair onde nunca se alevante. 84 J o raio Apolneo visitava Os Montes Nabateios acendido, Quando Gama cos seus determinava De vir por gua a terra apercebido. A gente nos batis se concertava Como se fosse o engano j sabido; Mas pde suspeitar-se fcilmente, Que o corao pres[s]ago nunca mente. 85 E mais tambm mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessrio, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrrio. Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se cr de seu prfido adversrio, Apercebido vai como podia Em trs batis smente que trazia. 86 Mas os Mouros, que andavam pela praia Por lhe defender a gua desejada, Um de escudo embraado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos j postos em cilada; E, por que o caso leve se lhe faa, Pem uns poucos diante por negaa. 22 ----------------------- Page 70----------------------- OS LUSADAS 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co a hstea perigosa, Os fortes Portugueses incitando. No sofre muito a gente generosa Andar-lhe os Ces os dentes amostrando; Qualquer em terra salta, to ligeiro, Que nenhum dizer pode que primeiro: 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a fermosa dama desejada, O touro busca e, pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte corngera inclinada, Bramando, duro corre e os olhos cerra, Derriba, fere e mata e pe por terra. 89 Eis nos batis o fogo se levanta Na furiosa e dura artelharia; A plmbea pla mata, o brado espanta; Ferido, o ar retumba e assovia. O corao dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. J foge o escondido, de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 No se contenta a gente Portuguesa, Mas, seguindo a vitria, estrui e mata; A povoao sem muro e sem defesa Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro j lhe pesa, Que bem cuidou compr-la mais barata; J blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte e a me que o filho cria. 23 ----------------------- Page 71----------------------- OS LUSADAS 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem fora, de covarde e de apressado, A pedra, o pau e o canto arremessando; D-lhe armas o furor desatinado. J a Ilha, e todo o mais, desamparando, terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito brao Que a Ilha em torno cerca em pouco espao. 92 Uns vo nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado, diligente; Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar e o deita juntamente. Arrombam as midas bombardadas Os pangaios sutis da bruta gente. Destarte o Portugus, enfim, castiga A vil malcia, prfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos pera a armada, Co despojo da guerra e rica presa, E vo a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistncia nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No dio antigo mais que nunca acesa; E, vendo sem vingana tanto dano, Smente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda, arrependido, O Regedor daquela inica terra, Sem ser dos Lusitanos entendido Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a m teno no peito encerra, Pera os guiar morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 24 ----------------------- Page 72----------------------- OS LUSADAS 95 O Capito, que j lhe ento convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Pera ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado, E respondendo ao mensageiro, a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Destarte despedida, a forte armada As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capito, que no cala em nada Do enganoso ardil que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da ndia toda e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instrudo nos enganos Que o malvolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que ndia chegue, lhe prepara. Dando razo dos portos Indianos, Tambm tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, co falso pensamento Com que Snon os Frgios enganou, Que perto est ua Ilha, cujo assento Povo antigo Cristo sempre habitou. O Capito, que a tudo estava atento, Tanto co estas novas se alegrou Que com ddivas grandes lhe rogava Que o leve terra onde esta gente estava. 25 ----------------------- Page 73----------------------- OS LUSADAS 99 O mesmo o falso Mouro determina Que o seguro Cristo lhe manda e pede; Que a Ilha possuda da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e foras muito excede Moambique esta Ilha, que se chama Quloa, mui conhecida pola fama. 100 Pera l se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte no cuidada, No consente que em terra to remota Se perca a gente dela tanto amada, E com ventos contrairos a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, no podendo Tal determinao levar avante, Outra maldade inica cometendo, Ainda em seu propsito constante, Lhe diz que, pois as guas, discorrendo, Os levaram por fora por diante, Que outra Ilha tem perto, cuja gente Eram Cristos com Mouros juntamente. 102 Tambm nestas palavras lhe mentia, Como por regimento, enfim, levava; Que aqui gente de Cristo no havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capito, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a Ilha demandava; Mas, no querendo a Deusa guardadora, No entra pela barra, e surge fora. 26 ----------------------- Page 74----------------------- OS LUSADAS 103 Estava a Ilha terra to chegada Que um estreito pequeno a dividia; Ua cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifcios fabricada, Como por fora, ao longe, descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaa o nome da Ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capito chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo baptizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vm batis da terra com recado Do Rei, que j sabia a gente que era; Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem de amigos, Mas debaxo o veneno vem coberto, Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. grandes e gravssimos perigos, caminho de vida nunca certo, Que aonde a gente pe sua esperana Tenha a vida to pouca segurana! 106 No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde ter segura a curta vida, Que no se arme e se indigne o Cu sereno Contra um bicho da terra to pequeno? 27 ----------------------- Page 75----------------------- OS LUSADAS NOTAS 1.1 ?As armas e os bares assinalados?: desde o primeiro verso o Poeta revela o seu grande inspirador, Virglio: ?arma virumque cano...? (hendadis). Cames rejeitou o emprego pouco expressivo da forma correspondente a vir e adoptou ?baro? (j usado na Idade Mdia ? barom e varom ? no sentido de vir). ?Bares? no foi escolhido apenas para designar o indivduo do sexo masculino, mas homem ilustre e esforado (ttulo nobilirquico, provavelmente do germ. Baro: ?homem livre, apto para a luta?, aparentado com o escand. ant. beriask: ?pelejar? segundo Corominas, s. v. ?Barn?). Cames aplicou o termo mesmo a S. Tom, ?baro sagrado? (X.108.7). No poema a forma ?baro? alterna com ?varo?, embora esta seja usada com menos frequncia (v. VI.37.4, IX.91.3 e X.7.2). ED escreveu sempre ?baro? na sua ed. de Os Lusadas. Gaspar Barreiros, na sua Chorographia, fl. 197 v., escreve: ?Nicolao Leoniceno, doctissimo baram? e ?Nunca fama de baram illustre, por mais celebrado que fosse, teve tal fortuna (Hrcules)?. 1.2 ?Que da ocidentalpraia lusitana ?: isto , de Portugal. O emprego ?ocidental? refora a situao geogrfica de ?praia lusitana?. Cames chama aos Portugueses ?Lusitanos? (e, frequentemente, ?os de Luso?). A que poca remonta o uso deste etnnimo? TB, na obra Cames, a Obra Lrica e pica, p. 401, citando Herculano, Hist. de Portugal, t. I, 10, lembra o discurso latino recitado pelo bispo D. Garcia de Meneses em 1481 diante de Sisto IV (e do clebre humanista Pompnio Leto). Lus Anriques, poeta do Cancioneiro Geral, na sua ?Lamentao morte del rei D. Joo? (II) (GG, III, 65-68), emprega Lusitnia e lusitanos. Mas muito antes, no chamada Crnica de Cinco Reis (de 1419), escreveu-se no cap. xv: ?... e quando o prior de S.ta Cruz a que chamavao D. Theotonio ... vio que lhe tomara aquelle lugar que lhe elrei D. A. avia dado ouve em grande pesar & se partio do m ro [mosteiro] e foisse as terras de Lusitania que os 28 ----------------------- Page 76----------------------- OS LUSADAS mouros possuia e andou tanto ateesque filhou arrches.? [Duarte Galvo, que copiou este (e outros captulos), substituiu ?Lusitnia? por ?Alentejo?.] Sobre a origem de ?Lusitnia? v. VIII.2.7-8. Ort.: valeroso (por valoroso). 1.3 ?Por mares nunca de antes navegados?: cf. I.27.3: ?Por vias nunca usadas?; II.45.8: ?Novos mundos ao mundo iro mostrando?; V.4.1-2: ?Assi fomos abrindo aqueles mares / que gerao algua no abriu?; V.37.3: ?cortando / os mares nunca d?outrem navegados?; V.41.8: ?Nunca arados d?estranho ou prprio lenho?; V.66.3: ?No largo mar fazendo novas vias?; VII.25.5-6: ?Abrindo, lhe responde, o mar profundo, / Por onde nunca veio gente humana?; VII.30.7: ?Por mares nunca d?outro lenho arados?; VIII.4.6: ?Despois de ter to largo mar arado?; IX.86.5-7. ?Para lhe descobrir da unida Esfera / Da terra imensa e mar no navegado / Os segredos ...?; X.138.3: ?Abrindo a porta ao vasto mar patente?. A grandeza do feito est evidenciada nesta ideia mestra, to insistentemente repetida. 1.4-7 ?Passaram ainda alm da Taprobana? (por Taprbana): identificada com a ilha de Ceilo (v. X.107.4 e X.51.1). Barros, na 3. Dcada, liv. II, enuncia assim o seu cap. I: Em que se descreve o sitio & cousas da ilha Ceilo a que os antigos chamo Taprobana; ?E entre gente remota edificaram?: sobre a conservao da copulativa inicial no v. 7 (?E entre gente?), e no no v. 5 (?Em perigos?), v. JMR, em BCL, vol. XIII, pp. 724 a 728. 2.3-7 ?... e as terras viciosas?: terras corrompidas (na f). O sentido esclarece-se pelos vv. de VII.17.6-7: ?... alguns o vicioso / Mahoma...?; ?De frica e de sia andaram devastando?: assolando, destruindo, arruinando; ?Se vo da lei da morte libertando?: da lei do esquecimento; ?... espalhareipor toda parte ?: Cames emprega indiferentemente ?por toda parte? e ?por toda a parte?. Usa ?toda parte? em I.2.7, em IV.15.4, em IV.25.7, em IV.84.8, em VIII.89.3 e em X.67.3; e ?toda a parte? em I.51.2, em II.37.7, em III.51.6, em III.79.8, em IX.77.6 e em X.67.3. Em X.78.7 diz por duas vezes: ?Por toda a parte tem, e em toda a parte [Comea e acaba ... ]?. 29 ----------------------- Page 77----------------------- OS LUSADAS 3.1 ?Cessem do sbio grego e do Troiano?: o sbio grego Ulisses, cujo longo e aventuroso regresso a taca faz o assunto da Odisseia. Na Ilada e na Odisseia, alm de ?divino? e ?dilecto de Zeus?, Ulisses , sobretudo, o ?prudentssimo? e o ?ardiloso?. Para Cames ser, sobretudo (como em Ovdio, M, XIII.92), o ?facundo? (II.45.1, V.86.3-4 e VIII.5.1-2), em virtude da actividade diplomtica do rei de taca, de que d conta a Ilada. Em X.24, porm, Cames toma o partido de Aiace (Ajax) e fala na ?lngua v? e ?fraudulenta? de Ulisses (v. comentrio a esta estncia, vv. 3-4). O Troiano Eneias, cujas navegaes foram cantadas por Virglio na Eneida. Apesar de se tratar de ?fbulas vs, to bem sonhadas? (V.89.6), Cames pergunta ao rei de Melinde: ?Crs tu que tanto Eneias e o facundo Ulisses pelo mundo se estendessem?? (V.86.3-4), tornando reais estas fabulosas viagens. 3.3 ?Cale-se de Alexandro e de Trajano?: Alexandre Magno, rei da Macednia (356-323 a. C.), falecido em Babilnia. Grande figura de cabo de guerra, de poltico e de chefe civilizador. Derrotou Dario e chegou ao oceano ndico. J antes de 1470 o cronista Zurara estabelecia o confronto das conquistas e navegaes portuguesas com as de Alexandre e as de Csar: ?Por certo eu dovido?, diz o autor, ?se despois do grande poderyo de Alexandre e de Csar foe algum principe no mundo que tan longe de sua terra mandasse poer os malhes de sua conquista!? (cap. 63.); ?e nom sey se Alexandre, que foe hum dos monarcas do mundo, bebeo em seus dyas augua que de tam longe lhe fosse trazida? (cap. 65.). Neste poema, em VIII.12.1, Alexandre associado a Csar. Trajano (Marcus Ulpius Trajanus Crinitus), imperador romano (52- 117). Comandou as legies da Baixa Germnia, combateu os Dcios (no Baixo Danbio), criou uma provncia de Arbia e empreendeu uma expedio contra os Partas, povo cita. Perseguiu os Cristos. Lus Anriques, a propsito da morte de D. Joo II, escreveu no CG: Em sua bondade trespassa Trajano, & outro Alexandre ? grande frqueza (Ed. GG, III, p. 68) 30 ----------------------- Page 78----------------------- OS LUSADAS Ort.: Cames emprega a forma ?Alexandro? em I.3.3, V.93.2, V.95.2, V.96.7 e X.156.7 e ?Alexandre? em VIII.12.1 e X.48.1. 3.5-7 ?... opeito ilustre Lusitano?: a palavrapeito empregada pelo Poeta noventa e sete vezes (v. IAVL, s. v.) e em sete sentidos diferentes. (Dicionrio dos Lusadas, por Afrnio Peixoto & Pedro A. Pinto, 1924). Neste lugar est por valor, coragem: o valor, a coragem dos Portugueses; ?A quem Neptuno e Marte obedeceram?: Neptuno (Posdon, na mitologia grega), filho de Cronos (Saturno) e de Ria (ou Cbele), deus do elemento hmido e, mais restritamente, do mar. Irmo de Zeus; Marte, deus romano (identificado com o deus Ares helnico, que tem como principal atributo a guerra). Era filho de Zeus e de Hera. V. I.36.1; ?Cesse tudo o que a Musa antiga canta?: Cesse, com o sentido do v. 1: cessem. MC e FS em seus comentrios evocam estes dois versos de Proprcio (lib. 2, eleg. 33) como possvel fonte do Poeta: ?Cedite Romani Scriptores, cedite Grai! / Nescio quid maius nascitur Iliade?, que MC traduz desta forma: Estem (=estejam) de parte os escriptores Latinos & Gregos, que agora novam?te sae a luz, hum no sei qu, maior que a Iliada de Homero?; Musa antiga, a poesia dos Gregos e Romanos. Ort.: Antigua (gu=g). 4.1 ?E vs, Tgides minhas ...?: Tgides so as ?ninfas? ou ?filhas? do Tejo, a quem o Poeta solicitar a ?fria?, isto , a inspirao potica e s quais associar em VII.78.3 as ?filhas do Mondego?. No deve estranhar-se esta associao, visto que D. Dinis ... de Helicona (Hlicon) as Musas fez passar-se A pisar do Mondego a frtil erva (III.917.3-4) No entanto, a partir de III.1.1 o Poeta invoca tambm Calope, (no incio da grande narrativa ao rei de Melinde) e ser a ?minha Calope? (X.8.5), mais ainda a ?gram Rainha / das Musas? (X.9.7-8), como poderia ter dito Hesodo ou Virglio. Esta ser associada s ?filhas do Tejo? (V.99.6-7) e sem esquecer o suserano das nove Musas clssicas, Febo ou Apolo. Em VII.87.5 pede a Apolo e s Musas que o 31 ----------------------- Page 79----------------------- OS LUSADAS acompanharam (a ele, Poeta) que lhe dobrem a ?fria? concedida. A criao da palavra ?Tgides? foi vindimada por Andr de Resende numa anotao (liv. II, v. 195, nota 48, p. 79) ao seu poema Vincentius (1545). O carme sobre a morte de D. Beatriz de Sabia, em que o Poeta pela primeira vez teria usado aquele vocbulo, ou se perdeu ou desconhecido. (CMV, O Instituto, vol. 52., 1905, pp. 241-250.) 4.5-7 ?Dai-me agora um som alto e sublimado?: dai-me ... uma voz que atinja o sublime; ?Um estilograndloco e corrente?: um estilo elevado, mas fluente; ?Por que de vossas guas Febo ordene?: para que Febo (epteto deApolo) ordene a respeito de vossas guas (sintaxe latina, mas vigorosa em nossos clssicos). Ort.:grandloco , nica grafia utilizada pelo Poeta. 4.8 ?Que no tenham enveja s de Hipocrene?: Hipocrene etimolgicamente a Fonte Cabalina ou a Fonte do Cavalo. Cames chamou-lhe Fonte Cabalina na gloga IV e guas cabalinas no soneto 153. Hipocrene uma das nascentes (a mais celebrada pelos poetas) que brotam na ?grande e divina montanha?, o Hlicon (Hesodo) (v. ?Preldio? da Teogonia), nos confins da Fcida e da Becia, entre o lago Cpais e o golfo de Corinto. O cavalo ?Pgaso? feriu a rocha com o casco e assim brotou a fonte. Outra nascente do Hlicon Aganipe, citada por Cames (III.2.4). A escolha das ?musas heliconianas? por Hesodo justifica-se porque este, nascido em Ascra, vivia perto do Hlicon e do vale das Musas. Cames refere ainda outras moradas de Apolo e das Musas: o Pindo (cadeia de montanhas que separa o Epiro da Tesslia) (III.2.5) e o Parnaso, monte da Fcida, perto de Delfos, sede de um importante santurio consagrado a Apolo, onde brotava a gua da fonte Castlia (I.32.4). Ort.: enveja (por inveja). 5.1 ?Dai-me uafria grande e sonorosa?: dai-me um entusiasmo criador; sonoroso (de sonoro+oso), ressonante, fragorosa (mais usada por Cames do que sonoro). Os comentadores, desde MC, comparam a fria aofuror latino e citam vrios exemplos, como este, de Ccero: ?Poetam bonum neminem ... existere posse sine quodam afflatu quasi furoris?, De Or. 2.194. No entanto, a palavra foi estranhada, no 32 ----------------------- Page 80----------------------- OS LUSADAS tempo de Cames. Entre os epigramas de Pero de Andrade Caminha encontra-se este: Dizes que o bom Poeta de ter furia; Se nom de ter mais, s bom Poeta. Mas se o Poeta de ter mais que fria, Tu nom tens mais que furia de Poeta. (CXLV) (Poezias ..., Lisboa, MDCCXCI) 5.2 ?E no de agreste avena oufrauta ruda ? (a mesma ideia expressa por palavras diferentes: avena efrauta ). Estilo humilde e simples (o das glogas). Esta ideia j foi expressa em o ?verso humilde? do v. 3 da estncia anterior. A palavra avena foi provvelmente tirada de Virglio; cf. o suposto incio da Eneida: ?Ille ego qui quondam gracili modulatus avena / carmen ...?; Frauta ruda, flauta rstica. Ort.: Cames s conheceu a formafrauta . 5.3-5 ?Mas de tuba canora e belicosa?: tuba, trombeta; canora (de canora < canor) harmoniosa, melodiosa; belicosa (de bellicosus < bellicus) guerreira; ?Que opeito acende e a cor ao gesto muda?:peito , como em I.3.5: valor, coragem; gesto , muito frequente em Cames no sentido geral de fisionomia, feies e, s vezes, modo; ?Dai-me igual canto aos feitos da famosa?: igual canto, ? altura de? (1.par). 5.6-7 ?Gente vossa, que a Marte tanto ajuda?: esta a sintaxe da edio princeps . No entanto, o primeiro comentador, MC, alterou o sentido do verso s com alterar o lugar da preposio a: ?... a que Marte tanto ajuda?, mas no comentou nem lhe fez qualquer referncia. FS voltou forma da edioprinceps . Os modernos comentadores tm mantido a forma da edioprinceps , com excepo de MR, que seguiu MC. No nos parece que ED tenha razo quando diz que ajudar na edioprinceps tem o sentido de ?glorificar?. Pode entender-se que a 33 ----------------------- Page 81----------------------- OS LUSADAS gente portuguesa, belicosa, favorece Marte com as suas empresas; ?Que se espalhe e se cante no universo?: sujeito, a fama da gente vossa. 6.1-2 ?E vs, bem nascida segurana / Da Lusitana antiga liberdade?: comea a dedicatria a D. Sebastio, nascido em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, pouco depois de Cames ter chegado ndia. Toda a dedicatria foi redigida na menoridade do rei, como se verifica em I.7: Vs, tenro e novo ramo florescente; em I.9:Que nesse tenro gesto vos contemplo; em I.16:Que, afeioada ao gesto belo e tenro . 6.6-7 ?Maravilha fatal ...?: prodgio fixado pelo destino (fatum ); ?Dada ao mundo por Deus, que todo o mande?: a orao ?que todo o mande? no tem explicao segura, apesar dos esforos dos intrpretes. Se lermos dada (a maravilha fatal) ao mundo por Deus / Pera do mundo a Deus dar parte grande no h dificuldade nenhuma. Parece-nos, pois, ?que todo o mande? depende de Deus, e no de maravilha, como um anseio de que Deus (o Deus catlico, a Igreja) mande todo (o mundo). 7.1 ?Vs, tenro e novo ramo florecente?: tenro ? juvenil. Ort.:florecente (porflorescente ). Cames nunca escreveu de outra maneira. 7.4 ?Cesrea ou Cristianssima chamada?: rvore (ou famlia) cesrea, a que fundou o Segundo Imprio do Ocidente (Carlos Magno), tornado Santo Imprio Romano-Germnico, de que foi fundador Oto I, o Grande (? em 973), e durou at 1806 (com Francisco II, imperador germnico, depois Francisco I, imperador da ustria); cristianssima: Le roi Trs Chrtien ou Sa Majest Trs Chrtienne, ttulo usado pelos reis de Frana em alguns actos pontifcios do sculo XIV e atribudo a estes prncipes exclusivamente a partir de meados do sculo XV. 7.5-8 ?Vede-o no vosso escudo ...?: v. ttulo do captulo XV da Crnica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvo: ?Como Nosso Senhor apareceu aquela noite [vspera da batalha] ao prncipe D. Afonso 34 ----------------------- Page 82----------------------- OS LUSADAS Henriques posto na cruz como padeceu por ns?. Sobre este assunto v. III.53-54. 8.5-8 ?Vs, que esperamos jugo e vituprio?: v. ED, SHP (ed. de 1933, p. 45): ?Alguns verbos podem construir-se com um nome predicativo do complemento directo, em vez de terem ligada a si uma orao substantiva de ser ou estar?: ?Vs, que esperamos (que sejais) jugo e vituprio?; ?Do torpe Ismaelita ...?: dos rabes, descendentes de Ismael; ?Que ainda bebe o licor do santo rio?: aqui licor (do 1. liquor, oris) significa gua ? a gua do rio Ganges, grande rio da ndia, que desce do Himalaia e desagua no golfo de Bengala. um rio sagrado, onde se banham os peregrinos. Ort.: dece (por desce). 9.3-8 ?Que j se mostra qual na inteira idade?: inteira idade (1. integra aetate) significa na fora da vida; ?Em versos divulgado numerosos?: ritmados, cadenciados. 10.6 ?... senhor superno?: superior, colocado no alto (latinismo). 11.7-8 ?Que excedem Rodamonte e o vo Rugeiro / E Orlando, ainda que fora verdadeiro?: personagens do Orlando Furioso, de Ariosto. 12.1-7 ?Por estes ...?: ?um Nuno fero?, D. Nuno lvares Pereira; ?um Egas, Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques; ?um Dom Fuas?, D. Fuas Roupinho, figura meio lendria do nosso sculo XII. Desbaratou os Mouros na terra e no mar, at que foi deles vencido nas guas de Ceuta. Venceu os Mouros em Porto de Ms, de que tinha o castelo D. Fuas, aos 22 de Maio de 1180; derrotou os Mouros numa batalha naval no cabo Espichel em 15 de Julho do ano citado. A derrota de D. Fuas em Ceuta, depois de ter a alcanado alguns xitos, foi em 17 de Outubro do mesmo ano (mas Frei A. Brando diz 1182). A fonte destas notcias a Crnica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvo. Cames volta a falar de D. Fuas em VIII.16-17; ?Doze Pares? segundo a Chanson de Roland, os Doze Pares foram: Roland, 35 ----------------------- Page 83----------------------- OS LUSADAS Olivier, Samson, Ansis, Grin, Grier, Brenger, Othon, Girard de Roussillon, Ivon, Ivoire, Engelier; ?os doze de Inglaterra e o seu Magrio?: doze, incluindo o Magrio; ?o ilustre Gama? ? o descobridor da ndia. 13.1-7 ?Pois se a troco de Carlos, Rei de Frana?: Carlos, Carlos Magno, imperador do Ocidente (800-814); ?Csar?, Jlio Csar (101-44), conquistador das Glias (59-51), assassinado no meio do Senado, aos idos de Maro. Recorda-se a sua frase para um dos mais activos dos conjurados, seu filho adoptivo, Bruto: ?Tu quoque, fili!?; ?aquele que a seu Reino a segurana / Deixou ...?: D. Joo I, vencedor de Aljubarrota; ?Outro Joane ...?: D. Joo II. 14.4-7 ?Vossa bandeira sempre vencedora?: (e fizeram) vencedora vossa bandeira; ?vencedora?, nome predicativo de ?bandeira?; ?um Pacheco fortssimo ?, Duarte Pacheco Pereira (v. X.12-25); ?os Almeidas?, D. Francisco de Almeida e seu filho D. Loureno de Almeida (v. X.26- 38); ?Albuquerque terrbil?, Afonso de Albuquerque (v. X.40-49); ?Castro forte?, D. Joo de Castro (v. X.67-72). Terrbil latinismo. 16.1-2 ?Em vs os olhos tem o Mourofrio ?:frio (de medo) por ver afigurado em D. Sebastio seu excio, isto , a sua runa (latinismo). 16.5-8 ?Ttis todo o cerleo senhorio?: Ttis, filha do Cu e da Terra, esposa do Oceano, reserva em dote a D. Sebastio ?todo o cerleo (=da cor do cu) senhorio? porque ?deseja compr-lo para genro?. Imitao do verso de Virglio: ?teque sibi generum Tethys emat omnibus undis (porventura Ttis, pelo preo das suas ondas, pagar a honra de te ter por genro) (G, I.31). MC foi o primeiro a indicar a fonte virgiliana. 17.1-2 ?Olmpica morada ...?: olmpica, de Olimpo, montanha entre a Macednia e a Tesslia, residncia dos deuses; ?Dos dous avs ...?: D. Joo III, pai do prncipe D. Joo, e Carlos V, pai da princesa D. Joana. 36 ----------------------- Page 84----------------------- OS LUSADAS 18.5-6 ?... o salso argento?: argento, latinismo que significa prata; ?Os vossos Argonautas ...?: o Poeta evoca os conquistadores do Velo de Oiro, na Clquida, a bordo do navio Argo. Apolnio Rdio e Valrio Flacco escreveram poemas sobre este assunto: Argonutica. 19.1-8 ?J no largo Oceano navegavam?: princpio da narrao; ?Que do gado de Prteu so cortadas?: Proteu , na Odisseia, um deus do mar, que tem o especial encargo de fazer pastar os rebanhos de focas e outros animais marinhos pertencentes a Posdon (v. VI.20.5-6). Proteu possua o dom proftico (v. VI.36.1-4). Tinha o poder de se metamorfosear em todas as formas que desejasse (v. VII.85.4). Acent.: o acento em Prteu exigncia mtrica. 20.7-8 ?Convocados, da parte de Tonante?: Tonante, epteto dado aJpiter como deus das trovoadas; ?Pelo neto gentil do velho Atlante?: neto do velho Atlante, ou Atlas, era Mercrio, filho deJpiter e de Maia, a mais nova das Pliades. Estas eram filhas de Atlas, o Gigante, e de Plione; esta, por seu turno, filha do Oceano e de Ttis. Mercrio era um mensageiro deJpiter . 21.1-8 ?Deixam dos sete Cus o regimento?: os sete Cus so as sete esferas planetrias do sistema de Ptolemeu; ?Os que habitam o Arcturo congelado?: o Arcturo a estrela mais brilhante da constelao do Boieiro ou Bootes. Foi considerada por vezes como fazendo parte da Ursa Maior e Arcturo significa literalmente guarda da ursa ; ?E os que o Austro tm ...?: os que moram no Sul; ?... e as partes onde / A Aurora nasce e o claro Sol se esconde?: vieram, portanto, os deuses do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste ao conclio. 22.1-2 ?Estava o Padre ...?: Jpiter; ?Que vibra os feros raios de Vulcano?: Vulcano, filho de Jpiter e de Juno , era o deus do fogo e fabricava os raios para seu pai. Ort.: dino (por digno). 37 ----------------------- Page 85----------------------- OS LUSADAS 23.2 Ort.:perlas (porprolas). 24.2 ?Estelfero Plo e claro Assento?: Plo, cu (l.polus); claro Assento: brilhante morada; ?De Luso ...?: Jpiter afirma a descendncia dos Portugueses. Estelfero, estrelado (latinismo). 24.6 ?Como dos Fadosgrandes ...?: grandes em poder. 25.8 ?Teve os trofus pendentes da vitria?: teve pendentes os trofus da vitria; trofu era propriamente o tronco de rvore do qual se dependuravam as armas dos vencidos. 26.2-4 ?Que co a gente de Rmulo alcanaram?: gente de Rmulo, os Romanos; o sujeito de alcanaram a forte gente de Luso (os Lusitanos); ?Quando com Viriato, ...?: Viriato (v. VIII.5.6-7 e VIII.6.2-6), pastor lusitano, que acaudilhou os guerrilheiros lusitanos, infligindo grandes perdas aos Romanos. Quinto Servlio Cipio, em vez de aliana e amizade, preferiu comprar trs amigos de Viriato, que o assassinaram traio (139). 26.6-8 ?... quando alevantaram / Um por seu capito, que, peregrino, / Fingiu na cerva esprito divino?: Sertrio, tendo recebido como presente uma cora branca, que ele dizia ter sido um presente de Diana, afirmava que ela lhe revelava todas as coisas ocultas (ver em Plutarco, Sertorius, 11). Peregrino (latinismo), estrangeiro. 27.1-4 ?Agora... a mais s?atreve?: por a mais se atrevem; frico, vento de sudoeste; Noto, vento do sul; ?Que havendo tanto j que as partes vendo / Onde o dia comprido e onde breve?; o Poeta indica as navegaes de norte a sul pelo Oeste de frica. 27.7-8 ?Inclinam seu propsito ...?: o Poeta volta concordncia lgica: 38 ----------------------- Page 86----------------------- OS LUSADAS sujeito os Lusitanos; ?A ver os beros onde nasce o dia?: a ver o Oriente. Ort.:perfia (porporfia). 28.1-4 ?Prometido lhe est . . .?: lhe por lhes era corrente; ?Do mar que v do Sol a roxa entrada?: perfrase para designar os mares orientais. No tempo de Cames preferia-se dizer roxo a vermelho: ?roxa entrada?, em I.28.4 e I.59.3; ?a roxa fronte?, II-13.8; o ?Mar Roxo?, II.49.1; ?roxa Aurora?, IV.60.7, etc. 29.1-3 ?... tmpassados ... [tm] experimentados?: note-se a concordncia do particpio passivo em gnero e nmero com o complemento directo. 30.3-5 ?Na sentena um do outro diferia?: diferia no concorda com Deuses (v. 2), mas com o aposto um; ?Opadre Baco ali no consentia?: aparece pela primeira vez o grande inimigo dos Portugueses a dar as razes do seu desacordo. Baco (Dionysos) filho de Jpiter (Zeus) e Smele. Descobriu a vide e o seu uso. Conquistou a ndia no decorrer de uma expedio semiguerreira, semidivina. 31.4-8 ?Da ndia tudo quanto Dris banha?: Dris, filha do Oceano e esposa de Nereu. a me das Nereidas; ?De que Nisa celebra inda a memria?: para furtar Baco aos cimes de Hera,Jpiter transportou Baco para longe da Grcia, para um pas chamado Nisa, que uns situam na sia, outros na Etipia ou na frica, e deu-o a criar s Ninfas desse pas. V. comentrio a VII.52.5. 32.1-7 ?V que j teve o Indo sojugado?: Indo (ou Sindh), grande rio da ndia e do Paquisto, que se lana ao mar de Om, formando um vasto delta; ?De quantos bebem a gua de Parnaso?: o Parnaso, monte da Grcia, na Fcida, consagrado a Apolo e s Musas. A nasce e corre a fonte Castlia; ?D?gua do esquecimento ...?: gua do Lete, um dos rios dos Infernos, que significa em grego esquecimento. Ort.: sojugado (por subjugado). 39 ----------------------- Page 87----------------------- OS LUSADAS 33.1-6 ?Sustentava contra ele Vnus bela?: aparece agora a protectora dos Portugueses, afeioada gente lusitana pelas razes que se invocam nesta estncia e se repetem na est. IX.38. Vnus foi assimilada Afrodite dos Gregos no segundo sculo a. C. Afrodite a deusa do amor e da beleza. Vnus foi me de Cupido e de Eneias e esposa de Vulcano. Tem n?Os Lusadas um papel intercessor fundamental; ?Nos fortes coraes, na grande estrela?: na coragem e na fortuna; ?Que mostraram na terra Tingitana?: Mauritnia Tingitana ou Marrocos. a parte da Mauritnia onde se situa Tinge ou Tingi (Tnger). 34.1-3 ?Estas causas moviam Citereia?: Citereia uma das designaes de Vnus por ter um santurio em Citera, ilha do mar Egeu. O Poeta s volta a invocar Citereia em IX-53; ?E mais, porque das Parcas claro entende?: As Parcas so as divindades do Destino, equiparadas s Morai dos Gregos: Cloto, Lquesis e tropos; a clara Deia?: a distinta Deusa. Ort.:perfia (porporfia). Porfia em 36.2. 35.1 Qual Austro fero ou Breas na espessura?: tal como o vento do sul ou do norte. 36.1 ?Mas Marte ...?: deus da guerra, tambm conhecido por Mavorte. Sobre os amores de Vnus e de Marte veja-se Lucrcio, De rerum natura, I.33-40. Recorde-se que Vnus era esposa de Vulcano e atente- se nestes versos de Ovdio: ?Solis referemus amores / Primus adulterium Veneris cum Marte putatur / Hic vidisse deus; videt hic deus omnia prima.? (M, IV.170-172.); e em V, G, IV. vv. 345-346: ?Inter quas curam Clymene narrabat inanem Vulcani, Martisque dolos et dulcia furta.? 37.7 ?O Cu tremeu, e Apolo, de torvado?: Apolo, filho de Zeus e de Leto. Esta, perseguida por Hera, foi ter a uma ilha chamada Ortgia, flutuante e estril. A nasceu Apolo. Este, em reconhecimento, fixou a ilha no centro do mundo grego e deu-lhe o nome de Delos, ?a brilhante?. Entre os seus mltiplos atributos conta-se o de ser o deus da luz e de conduzir o carro do Sol. 40 ----------------------- Page 88----------------------- OS LUSADAS 38.3-5 ?Se estagente ... / No queres quepadeam ...?: concordncia do colectivo do singular com o verbo no plural. 39.3-4 ?Bem fora que aqui Baco os sustentasse, / Pois que de Luso vm, seu to privado?: neste lugar Luso foi privado de Baco; em III.21.5-7 diz o Poeta: ?Esta foi Lusitnia, derivada / De Luso ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram, ... ou companheiros?; em VIII.2.7-8 diz de ?... Luso, donde a Fama / O nosso Reino Lusitnia chama [Filho e companheiro do Tebano]?. E insiste em VIII.4.4: ?... companheiro e filho amado?. Portanto: 1., privado; 2., filho ou companheiro; 3., filho e companheiro. Ort.: estmago (por estmago, ndole). 41.4-7 E nctar sobre todos esparziu?: o nctar era a bebida e o perfume dos deuses; ?Pelo caminho lcteo glorioso?: a Via Lctea; ?Fazendo seus reais acatamentos?: fazendo suas profundas reverncias. Ort.: valeroso (por valoroso); apousentos (por aposentos). 42.1-6 ?Enquanto isto se passa ... ?: o Poeta retoma a narrao; ?Ilha de So Loureno ...?: Madagscar. 42.7-8 ?[e o Sol ardente] Queimava ento os Deuses que Tifeu / Co temor grande em pexes converteu?: Tifeu, gigante, filho de Tit e da Terra, inimigo de Jpiter , chefe daqueles que pretenderam escalar o Cu. Os deuses quando viram este monstro escalar o Cu fugiram para o Egipto e metamorfosearam-se. Vnus mudou-se em peixe, como diz Ovdio, M, V.331: ?Pisce Venus latuit?. Diz LPS, em AL: ?O Sol entrava no signo dos Peixes a 10 de Fevereiro e levava a percorr-lo at 11 de Maro, em que passava para o de ries. A gente belicosa cortava o mar desde 24 de Fevereiro e ia chegar ilha de Moambique, que avistaram em 1 de Maro. Esteve durante este trajecto sempre o Sol no signo dos Peixes?. Ort.:pexes (porpeixes). 41 ----------------------- Page 89----------------------- OS LUSADAS 43.5 ?Opromontrio Prasso j passavam?: ?O principio da qual comeando na ori?tal parte della he o Prasso promontorio, q} elle Ptholomeu sitou em quinze graos contra o Sul & em tantos est per ns verificado: ao qual os naturaes da terra chamam Moambique, onde ora temos hua fortaleza que serve de escala das nossas naos nesta navegao da India? (Barros, I.VIII.IV). 45.7 ?Agente se alvoroa ... /... / (em si diziam)?: sujeito colectivo a concordar com o verbo no plural. 46.6-8 ?Que Fton, nas terras acendidas?: a lenda de Feton admirvelmente contada por Ovdio, em M, II.1-366; ?(O Pado o sabe e Lampetusa o sente)?: o corpo de Feton foi precipitado no Erdano, identificado com o rio P (Pado). Foi sepultado por suas irms, as Helades, uma das quais se chamava Lampcia. Na Odisseia (XII.132) aparece uma outra filha do Sol, ao lado de Lampcia: Faetusa. Em V.91.6 aparece o nome de Lampcia. Lampetusa parece ser a juno de Lampcia e Faetusa: Lampe+tusa. Ort.: veloces (por velozes). 47.1-8 ?De panos de algodo vinham vestidos?: Castanheda, I.V: ?A gente }q vinha dentro er hom?s baos & de bs corpos, vestidos de panos dalgodo listrados & de muytas cores, hus cingidos at o giolho, & outros sobraados como capas: & nas cabeas fotas c vivos de seda lavrados de fio douro, & trazio terados mouriscos & adagas?; ?anafis sonorosos?: anafil (pl. anafis ou anafiles), trombeta dos Mouros. 48.5-8 ?A gente e marinheiros trabalhavam?: trabalhavam todos; ?Da ncora o marferido em cima salta?; bela imagem do Poeta para pr em relevo o efeito da ncora a cair no mar e a ?espirrar? a gua para cima. 49.6-8 ?Do licor que Lieu prantado havia?: Lyaeus, um dos nomes de Baco, 42 ----------------------- Page 90----------------------- OS LUSADAS o deus que liberta dos cuidados; ?Os de Feton queimados nada enjeitam?; os queimados por Feton, os negros. Ort.:prantado (porplantado). 50.7 ? ? Os Portugueses somos do Ocidente?: aposio explicativa de Portugueses. 51.2-8 ?Toda a parte do Antrtico e Calisto?: Antrtico o Plo; Calisto a Ursa Maior. Calisto, filha de Licon, rei da Arcdia. Amada de Zeus, foi mudada em ursa por Hera e morta na caa por rtemis. Zeus colocou- a no cu, onde se tornou a constelao da Ursa Maior. O sentido do verso , pois, o de que os Portugueses tm navegado toda a parte setentrional e meridional do Oceano; ?Mas no lago entraremos de Aqueronte?: os Portugueses so to fiis e obedientes a seu Rei que, a seu mandado, sero capazes de entrar no Aqueronte, que um rio dos Infernos. 52.4 ?Que s dos feiosfocas se navega ?:feios focas (m.) se navega,por navegado. 53.6-8 ?O claro descendente de Abrao?: o clebre Mafoma ou Mafamede; ?A me Hebreia teve e o pai, Gentio?: Cames conhecia o passo de Barros, II.X.VI: ?Nasceo em Itrarip lugar pequeno de Arbia, seu pae (segundo dizem os Mouros) era de hua linhagem, a que elles chamo Corax, & vem de Ismael, & avia nome Abedel G?tio, sua me Enima, a qual era Hebrea, ambos pessoas do povo ...? 54.1-4 ?... certa escala?: escala certa; ?De Quloa, de Mombaa e de Sofala?: Vasco da Gama, na sua segunda viagem ndia, sujeitou o rei de Quloa obedincia do rei de Portugal (1502); Mombaa foi assaltada por D. Francisco de Almeida em 1505; neste ano Pero da Nhaia, de origem castelhana, conseguiu do xeque o incio de uma improvisada fortificao em Sofala (v. X.94.8). 43 ----------------------- Page 91----------------------- OS LUSADAS 55.2 ?Buscando o Indo Idaspe ...?: O Hidaspe, grande rio da ndia, afluente do Indo, actualmente o Jelam ou Djelem. A tiveram termo as conquistas de Alexandre Magno no Oriente. 56.5-7 ?Nisto Febo nas guas encerrou?: em grego, literalmente ?o brilhante?. Epteto e nome de Apolo; ?Dando cargo Irm ...?: Diana. Os Antigos interpretaram rtemis (identificada a Diana) como uma personificao da Lua, que vagueia pelas montanhas. 58.2-3 ?Pelas argnteas ondas Neptuninas?: pelas ondas do mar (de Neptuno); ?As Estrelas os Cus acompanhavam?: as estrelas fixas acompanhavam o firmamento; os planetas so levados nos cus respectivos. V. LPS, AL, p. 35. 59.4 ?Ao claro Hiperinio, que acordou?: Hiperon ou Hiperinio, um dos Tits, filho de rano e de Gaia. Casado com sua irm, a titnida Teia, gerou o Sol, a Lua e a Aurora. Toma-se por vezes, como neste verso, pelo prprio Sol. Ort.:fermosos (porformosos ). 60.4-5 ?Que so aquelas gentes inumanas?: isto , gentes brbaras; ?Que, os apousentos Cspios habitando?: os Turcos comearam por habitar as regies banhadas pelo mar Cspio, depois vieram descendo e apossaram-se da maior parte do Imprio Romano do Oriente e acabaram, com Maomet II, por tomar a prpria capital, Constantinopla, em 29 de Maio de 1453. No terrvel assalto final morreu o imperador Constantino, Palelogo. Ort.: apousentos (por aposentos). 61.6 ?No usado licor, ...?: dos Maometanos. Castanheda, I.VI: ?& apos isto lhe mandou dar muy b? de comer dessas conservas q} levava: & do vinho: & ele [o Regedorl comeo & bebeo de boa vtade: & assi os q} hio coele ...? 44 ----------------------- Page 92----------------------- OS LUSADAS 62.8 ?Se porventura vinham da Turquia?: Castanheda, I.VI: ?Ho olto preguntou a Vasco da Gama se vinha de Turquia, porq} ouvira dizer }q ero brcos assi como os nossos, & dizialhe que lhe mostrasse os arcos de sua terra, & os livros de sua ley. Ele lhe disse que no era de Turquia se no du grande reyno q} confinava coela; & que os seus arcos & armas lhe mostraria & os livros da sua ley no os trazia, porq} no mar no tinho necessidade deles ...? Ort.: na edioprinceps , nesta est. exrcia. Em VI.84.4 enxrcia. 64.2-4 ?Por hum que a lngua escura bem sabia?: Castanheda, loc. cit.: ?E isto lhe dezia pelo lingoa Ferno martinz. O Poeta fala dele em V.77.2. Lngua escura a lngua arbica; ?De mi, da Lei, das armas que trazia?: trazia, por trago. O mesmo em 66.2-6. Ort.: valeroso (por valoroso). 65.1 ?Aquele que criou todo o Hemisfrio?: ?O Poeta em geral designa por Hemisfrio a meia esfera que se apoia sobre o horizonte?. LPS, AL, p. 153. 65.2,4,6,7 ?Visbil?, ?invisbil?, ?insensbil? e ?insofrbil? so latinismos. Ort.: deceu (por desceu). 66.2-6 ?Os livros que tu pedes no trazia?: por no trago; ?Em papel o que na alma andar devia?: por andar deve; ?Cumprido esse desejo te seria?; por te ser. 67.2 ?Ministros ...?: servidores (latinismo). Outros exemplos do mesmo sentido em II.96.3, III.125.4 e IX.29.5. 67.3-8 ?Vm arneses e peitos reluzentes?: arns, armadura completa, mas em especial do tronco; malhas finas, armaduras de malha; escudos de pinturas diferentes , arma defensiva, geralmente circular, com as empresas e divisas que cada um adoptava;pelouros , balas, em geral de 45 ----------------------- Page 93----------------------- OS LUSADAS metal, empregadas em bombardas e peas de artilharia; espingardas de ao puras (caso de trajectio epithetorum): no espingardas puras, mas de ao puro; arcos, bestas; sagitferas aljavas, coldres ou carcases portadores de setas. Sagitfero latinismo;partazanas (fr.pertuisane), arma de hstea, com ferro de gldio, cortante, mais largo na base e terminando em ponta; chuos, pau armado de aguilho ou choupa. 68.2-4 ?As panelas sulfreas ...?: arma muito danosa, por ser preparada com plvora e enxofre candentes; ?... aos de Vulcano ...?: os bombardeiros ou artilheiros, que manejavam as bombardas e peas de artilharia. 69.3-5 ?Um dio certo . . .?: um dio firme; ?Nas mostras e no gesto o no mostrou?: no tratamento, no no rosto. 71.4-6 ?Que ofilho de David nos ensinou?: ?... Jesus Cristo, filho de David, filho de Abrao? (?Ev. de S. Mateus?, I.I.1); ?A quem juzo algum no alcanou?: negativa reforada. Ort.: sequaces (por sequazes). 72.6-8 ?Das guas de Neptuno...?: v. I.3.5-7; ?... recebido / Na terra do obseqente ajuntamento?: recebido em terra pela servial multido de mouros. Obseqente latinismo; ?Se foi o Mouro ao cgnito apousento?: ao conhecido aposento. 73.1-2 ?Do claro Assento ..., o gro Tebano?: outro nome de Baco, por sua me, Smele, ser de Tebas; ?Que da paternal coxa foi nascido?: Baco, ?Ignigenamque satumque iterum solumque bimatrem, como diz Ovdio, M, IV.12, porque sua me, Smele, quis que Zeus se lhe mostrasse em toda a sua potncia; mas, no podendo suportar a vista dos raios que o cercavam, caiu fulminada. Zeus apressou-se a arrancar o filho que ela trazia no seio, apenas com seis meses, e coseu-o imediatamente na sua coxa. Quando chegou o termo, saiu de l perfeitamente formado e vivo. por isso o ?duas vezes 46 ----------------------- Page 94----------------------- OS LUSADAS gerado?, ?o nico que teve duas mes?. Ort.: avorrecido (por aborrecido). 74.6 ?... qualidadesgenerosas?: no sentido latino de generosus : de boa raa, nobre. 75.2-7 ?O filho de Filipo nesta parte?: Alexandre Magno, ?o gro Macednio? (I.75.7), que submeteu uma parte da ndia (356-323 a. C.); ?Romano? Trajano (v. I.3.3). Ort.: sometesse (por submetesse). 76.4 ?Que nunca veja as partes do Oriente?: que nunca ver ... Ort.: decerei (por descerei). 77.4-8 ?Pera o Prasso sabido se moveu?: para o conhecido promontrio Prasso (v. I.43.5); ?... e co Xeque mui valido?: Xeque o governador, chefe de tribo arbica. 78.4 ?... de novo?: ltimamente. 80.1-8 ?E tambm sei que tem determinado?: v. Castanheda, I.VII; ?Porque, saindo agente ... / Caro ...?: concordncia com o sujeito colectivo no singular. 81.3-5 ?Eu tenho imaginada no conceito?: concordncia com o compl. directo; ?Outra manha e ardil ...?: pleonasmo; ?Manda-lhe dar piloto, que dejeito ?:jeito rima comjeito do primeiro verso da mesma estncia. 82.1-7 ?Tanto que estas palavras ...?: o sujeito Baco; ?... nos tais casos sbio e velho?: sbio e experimentado; ?Pera que ao Portugus se lhe tomasse?: lhe pleonasmo. Belgero latinismo. 47 ----------------------- Page 95----------------------- OS LUSADAS 83.7 ?Que, se daqui escapar, que l adiante?: repetio anacoltica do segundo que. 84-1-3 ?J o raio Apolneo ...?: o singular pelo plural; ?Os Montes Nabateios acendido [o raio]?: habitados pelos Nabateus, descendentes de Nabath, primognito de Ismael, tribo do Noroeste da Arbia, entre o mar Vermelho e o Eufrates. Aqui os Montes so tomados pelas partes do Oriente; ?Quando Gama ...?: caso de fontica sintctica. 85.2 ?De antes, pelo piloto necessrio?: por antes. 86.3-5 ?Um ... / Outro ...?: uns ... outros; ?... de azagaia?: azagaia, lana curta; ?... seta ervada?: seta envenenada com sucos de ervas; ?Outros muitos j postos em cilada?: estando outros muitos postos em cilada. 87.3-5 ?Com a adarga e co a hstea perigosa?: adarga, escudo oval, de coiro (adarga nada tem que ver com adaga); a gente generosa ?: como em I.74.6. 88.1 ?Qual no corro sanguino ...?: esta estncia pertence para a anterior (87), e no para a seguinte (89). necessrio que a pontuao o torne evidente. Corngera: latinismo. Ort.: atroce (lat.) (por atroz). 89.3-7 ?Aplmbea pla mata, o brado espanta?:plmbea pla , bala de chumbo; brado, estrondo; ?J foge o escondido ...?: os Mouros escondidos em cilada. Ort.: assovia (por assobia). 91.3 ?A pedra, o pau e o canto arremessando?: canto como sinnimo de pedra talhada era usual no tempo. Cames usa-o tambm na Lrica. 48 ----------------------- Page 96----------------------- OS LUSADAS 91.4-8 ?D-lhe armas o furor desatinado?: em Virglio, E, I.150: ?jamque faces et saxa volant, furor arma ministrat?; ?... e todo o mais,?: ... e tudo o mais; ?Passa e corta do mar o estreito brao / Que a Ilha em torno cerca em pouco espao?: empouco espao pertence para Passa e corta. Cames condensa e transforma nestas estncias a narrativa de Castanheda (I.VII) e de Barros (I.IV.IV). 92.1-6 ?Uns vo nas almadias carregadas?: embarcao ligeira, de duas proas, feita, de um tronco de rvore escavado. Movida a remo e por vezes com uma vela em duas hastes, dispostas em forma de V; ?Um corta o mar ...?: uns ...; ?Quem se afoga ...?: uns ...; ?Quem bebe o mar ...?: outros ...; ?Os pangaios sutis ...?: pequena embarcao de tbuas unidas por cordas. Sutis, pequenos e leves. 94.2 ?O Regedor daquela inica terra?. Ort.: inica (por inqua). 95.1-8 ?... que j lhe ...?: a quem j; ?... a tento?: acauteladamente; ?As velas manda dar ao largo vento?: a edioprinceps tem ?Aas velas manda dar ...? No impossvel esta construo no tempo. 96.2-3 ?As ondas de Anfitrite dividia?: Anfitrite era a rainha do mar. Pertence ao grupo das Nereidas. Casou com Neptuno (Posdon); ?Das filhas de Nereu acompanhada?: as Nereidas. 97.5 ?Dando razo dos portos ...?: dando notcia ... 98.2 ?Com que Snon os Frgios enganou?: Snon, o clebre grego de que fala Virglio, que conseguiu introduzir o cavalo de pau dentro dos muros de Tria (E, 57-267). Os Frgios eram os Troianos, pois que Tria era na Frgia. 49 ----------------------- Page 97----------------------- OS LUSADAS 99.1-6 ?O mesmo o falso Mouro determina / Que o seguro Cristo lhe manda e pede?: o mesmo (que o confiado Capito lhe manda e pede) o falso Mouro determina; ?Porque em poder e foras ...?: pleonasmo; ?Aa Moambique, esta ilha ...?: na edioprinceps . Ort.: malina (por maligna). 100.2 ?Mas a Deusa em Citere celebrada?: Vnus ou Citereia. Esta salva a armada dos perigos naturais da entrada de Quloa (cf. Castanheda, I.VIII). Ort.: contrairos (por contrrios). 101.7-7 ?... cuja gente / Eram Cristos ...?: concordncia do colectivo singular com o verbo no plural. Ort.: inica (por inqua). 102.7-8 ?Mas, no querendo a deusa guardadora, / No entra pela barra, e surge fora?: Vnus defendeu os Portugueses em Quloa e volta a defend-los em Mombaa (v. Castanheda, I.IX). 105.2 Ort.: debaxo (por debaixo). 106.2-8 ?... a morte apercebida?: aparelhada; ?Contra um bicho da terra to pequeno??: Cames repete o verso que usou na canoJunto de um seco, fero e estril monte ... Ort.: avorrecida (por aborrecida). 50 ----------------------- Page 98----------------------- OS LUSADAS II 1 J neste tempo o lcido Planeta Que as horas vai do dia distinguindo, Chegava desejada e lenta meta, A luz celeste s gentes encobrindo; E da casa martima secreta Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo, Quando as infidas gentes se chegaram s naus, que pouco havia que ancoraram. 2 Dantre eles um, que traz encomendado O mortfero engano, assi dizia: ? Capito valeroso, que cortado Tens de Neptuno o reino e salsa via, O Rei que manda esta Ilha, alvoraado Da vinda tua, tem tanta alegria Que no deseja mais que agasalhar-te, Ver-te e do necessrio reformar-te. 3 E porque est em extremo desejoso De te ver, como cousa nomeada, Te roga que, de nada receoso, Entres a barra, tu com toda armada; E porque do caminho trabalhoso Trars a gente dbil e cansada, Diz que na terra podes reform-la, Que a natureza obriga a desej-la. 51 ----------------------- Page 99----------------------- OS LUSADAS 4 E se buscando vs mercadoria Que produze o aurfero Levante, Canela, cravo, ardente especiaria Ou droga salutfera e prestante; Ou se queres luzente pedraria, O rubi fino, o rgido diamante, Daqui levars tudo to sobejo Com que faas o fim a teu desejo. 5 Ao mensageiro o Capito responde, As palavras do Rei agradecendo, E diz que, porque o Sol no mar se esconde, No entra pera dentro, obedecendo; Porm que, como a luz mostrar por onde V sem perigo a frota, no temendo, Cumprir sem receio seu mandado, Que a mais por tal senhor est obrigado. 6 Pergunta-lhe despois se esto na terra Cristos, como o piloto lhe dizia; O mensageiro astuto, que no erra, Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria. Desta sorte do peito lhe desterra Toda a suspeita e cauta fantasia; Por onde o Capito seguramente Se fia da infiel e falsa gente. 52 ----------------------- Page 100----------------------- OS LUSADAS 7 E de alguns que trazia, condenados Por culpas e por feitos vergonhosos, Por que pudessem ser aventurados Em casos desta sorte duvidosos, Manda dous mais sagazes, ensaiados, Por que notem dos Mouros enganosos A cidade e poder, e por que vejam Os Cristos, que s tanto ver desejam. 8 E por estes ao Rei presentes manda, Por que a boa vontade que mostrava Tenha firme, segura, limpa e branda, A qual bem ao contrrio em tudo estava. J a companhia prfida e nefanda Das naus se despedia e o mar cortava: Foram com gestos ledos e fingidos Os dous da frota em terra recebidos. 9 E despois que ao Rei apresentaram Co recado os presentes que traziam, A cidade correram, e notaram Muito menos daquilo que queriam; Que os Mouros cautelosos se guardaram De lhe mostrarem tudo o que pediam; Que onde reina a malcia, est o receio Que a faz imaginar no peito alheio. 10 Mas aquele que sempre a mocidade Tem no rosto perptua, e foi nascido De duas mes, que urdia a falsidade Por ver o navegante destrudo, Estava nua casa da cidade, Com rosto humano e hbito fingido, Mostrando-se Cristo, e fabricava Um altar sumptuoso que adorava. 53 ----------------------- Page 101----------------------- OS LUSADAS 11 Ali tinha em retrato afigurada Do alto e Santo Esprito a pintura, A cndida Pombinha, debuxada Sobre a nica Fnix, virgem pura; A companhia santa est pintada, Dos doze, to torvados na figura Como os que, s das lnguas que caram De fogo, vrias lnguas referiram. 12 Aqui os dous companheiros, conduzidos Onde com este engano Baco estava, Pem em terra os giolhos, e os sentidos Naquele Deus que o Mundo governava. Os cheiros excelentes, produzidos Na Pancaia odorfera, queimava O Tioneu, e assi por derradeiro O falso Deus adora o verdadeiro. 13 Aqui foram de noite agasalhados, Com todo o bom e honesto tratamento Os dous Cristos, no vendo que enganados Os tinha o falso e santo fingimento. Mas, assi como os raios espalhados Do Sol foram no mundo, e num momento Apareceu no rbido Horizonte Na moa de Tito a roxa fronte, 14 Tornam da terra os Mouros co recado Do Rei pera que entrassem, e consigo Os dous que o Capito tinha mandado, A quem se o Rei mostrou sincero amigo; E sendo o Portugus certificado De no haver receio de perigo E que gente de Cristo em terra havia, Dentro no salso rio entrar queria. 54 ----------------------- Page 102----------------------- OS LUSADAS 15 Dizem-lhe os que mandou que em terra viram Sacras aras e sacerdote santo; Que ali se agasalharam e dormiram Enquanto a luz cobriu o escuro manto; E que no Rei e gentes no sentiram Seno contentamento e gosto tanto Que no podia certo haver suspeita Nua mostra to clara e to perfeita. 16 Co isto o nobre Gama recebia Alegremente os Mouros que subiam, Que levemente um nimo se fia De mostras que to certas pareciam. A nau da gente prfida se enchia, Deixando a bordo os barcos que traziam. Alegres vinham todos porque crm Que a presa desejada certa tm. 17 Na terra cautamente aparelhavam Armas e munies, que, como vissem Que no rio os navios ancoravam, Neles ousadamente se subissem; E nesta treo determinavam Que os de Luso de todo destrussem, E que, incautos, pagassem deste jeito O mal que em Moambique tinham feito. 18 As ncoras tenaces vo levando, Com a nutica grita costumada; Da proa as velas ss ao vento dando, Inclinam pera a barra abalizada. Mas a linda Ericina, que guardando Andava sempre a gente assinalada, Vendo a cilada grande e to secreta, Voa do Cu ao mar como ua seta. 55 ----------------------- Page 103----------------------- OS LUSADAS 19 Convoca as alvas filhas de Nereu, Com toda a mais cerlea companhia, Que, porque no salgado mar nasceu, Das guas o poder lhe obedecia; E, propondo-lhe a causa a que deceu, Com todos juntamente se partia Pera estorvar que a armada no chegasse Aonde pera sempre se acabasse. 20 J na gua erguendo vo, com grande pressa, Com as argnteas caudas branca escuma; Cloto co peito corta e atravessa Com mais furor o mar do que costuma; Salta Nise, Nerine se arremessa Por cima da gua crespa em fora suma; Abrem caminho as ondas encurvadas, De temor das Nereidas apressadas. 21 Nos ombros de um Trito, com gesto aceso, Vai a linda Dione furiosa; No sente quem a leva o doce peso, De soberbo com carga to fermosa. J chegam perto donde o vento teso Enche as velas da frota belicosa; Repartem-se e rodeiam nesse instante As naus ligeiras, que iam por diante. 22 Pe-se a Deusa com outras em direito Da proa capitaina, e ali fechando O caminho da barra, esto de jeito Que em vo assopra o vento, a vela inchando; Pem no madeiro duro o brando peito, Pera detrs a forte nau forando; Outras em derredor levando-a estavam E da barra inimiga a desviavam. 56 ----------------------- Page 104----------------------- OS LUSADAS 23 Quais pera a cova as prvidas formigas, Levando o peso grande acomodado As foras exercitam, de inimigas Do inimigo Inverno congelado; Ali so seus trabalhos e fadigas, Ali mostram vigor nunca esperado: Tais andavam as Ninfas estorvando gente Portuguesa o fim nefando. 24 Torna pera detrs a nau, forada, Apesar dos que leva, que, gritando, Mareiam velas; ferve a gente irada, O leme a um bordo e a outro atravessando; O mestre astuto em vo da popa brada, Vendo como diante ameaando Os estava um martimo penedo, Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo. 25 A celeuma medonha se alevanta No rudo marinheiro que trabalha; O grande estrondo a Maura gente espanta, Como se vissem hrrida batalha; No sabem a razo de fria tanta, No sabem nesta pressa quem lhe valha: Cuidam que seus enganos so sabidos E que ho-de ser por isso aqui punidos. 26 Ei-los sbitamente se lanavam A seus batis veloces que traziam; Outros em cima o mar alevantavam Saltando n? gua, a nado se acolhiam; De um bordo e doutro sbito saltavam, Que o medo os compelia do que viam; Que antes querem ao mar aventurar-se Que nas mos inimigas entregar-se. 57 ----------------------- Page 105----------------------- OS LUSADAS 27 Assi como em selvtica alagoa As rs, no tempo antigo Lcia gente, Se sentem porventura vir pessoa, Estando fora da gua incautamente, Daqui e dali saltando (o charco soa), Por fugir do perigo que se sente, E, acolhendo-se ao couto que conhecem, Ss as cabeas na gua lhe aparecem: 28 Assi fogem os Mouros; e o piloto, Que ao perigo grande as naus guiara, Crendo que seu engano estava noto, Tambm foge, saltando na gua amara. Mas, por no darem no penedo imoto, Onde percam a vida doce e cara, A ncora solta logo a capitaina, Qualquer das outras junto dela amaina. 29 Vendo o Gama, atentado, a estranheza Dos Mouros, no cuidada, e juntamente O piloto fugir-lhe com presteza, Entende o que ordenava a bruta gente; E vendo, sem contraste e sem braveza Dos ventos ou das guas sem corrente, Que a nau passar avante no podia, Havendo-o por milagre, assi dizia: 30 ? caso grande, estranho e no cuidado! milagre clarssimo e evidente, descoberto engano inopinado, prfida, inimiga e falsa gente! Quem poder do mal aparelhado Livrar-se sem perigo, sbiamente, Se l de cima a Guarda Soberana No acudir fraca fora humana? 58 ----------------------- Page 106----------------------- OS LUSADAS 31 Bem nos mostra a Divina Providncia Destes portos a pouca segurana, Bem claro temos visto na aparncia Que era enganada a nossa confiana; Mas pois saber humano nem prudncia Enganos to fingidos no alcana, tu, Guarda Divina, tem cuidado De quem sem ti no pode ser guardado! 32 E, se te move tanto a piedade Desta msera gente peregrina, Que, s por tua altssima bondade, Da gente a salvas prfida e malina, Nalgum porto seguro de verdade Conduzir-nos j agora determina, Ou nos amostra a terra que buscamos, Pois s por teu servio navegamos. 33 Ouviu-lhe estas palavras piadosas A fermosa Dione e, comovida, Dantre as Ninfas se vai, que sadosas Ficaram desta sbita partida. J penetra as Estrelas luminosas, J na terceira Esfera recebida Avante passa, e l no sexto Cu, Pera onde estava o Padre, se moveu. 34 E, como ia afrontada do caminho, To fermosa no gesto se mostrava Que as Estrelas e o Cu e o Ar vizinho E tudo quanto a via, namorava. Dos olhos, onde faz seu filho o ninho, Uns espritos vivos inspirava, Com que os Plos gelados acendia, E tornava do Fogo a Esfera, fria. 59 ----------------------- Page 107----------------------- OS LUSADAS 35 E, por mais namorar o soberano Padre, de quem foi sempre amada e cara, Se lh? apresenta assi como ao Troiano, Na selva Ideia, j se apresentara. Se a vira o caador que o vulto humano Perdeu, vendo Diana na gua clara, Nunca os famintos galgos o mataram, Que primeiro desejos o acabaram. 36 Os crespos fios d? ouro se esparziam Pelo colo que a neve escurecia; Andando, as lcteas tetas lhe tremiam, Com quem Amor brincava e no se via; Da alva petrina flamas lhe saam, Onde o Minino as almas acendia. Polas lisas colunas lhe trepavam Desejos, que como hera se enrolavam. 37 Cum delgado cendal as partes cobre De quem vergonha natural reparo; Porm nem tudo esconde nem descobre O vu, dos roxos lrios pouco avaro; Mas, pera que o desejo acenda e dobre, Lhe pe diante aquele objecto raro. J se sentem no Cu, por toda a parte, Cimes em Vulcano, amor em Marte. 38 E mostrando no anglico sembrante Co riso ua tristeza misturada, Como dama que foi do incauto amante Em brincos amorosos mal tratada, Que se aqueixa e se ri num mesmo instante E se torna entre alegre, magoada, Destarte a Deusa a quem nenhua iguala, Mais mimosa que triste ao Padre fala: 60 ----------------------- Page 108----------------------- OS LUSADAS 39 ? Sempre eu cuidei, Padre poderoso, Que, pera as cousas que eu do peito amasse, Te achasse brando, afbil e amoroso, Posto que a algum contrairo lhe pesasse; Mas, pois que contra mi te vejo iroso, Sem que to merecesse nem te errasse, Faa-se como Baco determina; Assentarei, enfim, que fui mofina. 40 Este povo, que meu, por quem derramo As lgrimas que em vo cadas vejo, Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo, Sendo tu tanto contra meu desejo; Por ele a ti rogando, choro e bramo, E contra minha dita enfim pelejo. Ora pois, porque o amo mal t