Dez Quilos de TrutasJCM4[€[€TEXtREAdÿÿÿ´†”” ”0”@”P”b€Title: Dez Quilos de Trutas Author: Tomaz de Figueiredo CreationDate: Thu Jun 25 11:11:00 BST 2009 ModificationDate: Wed Mar 11 11:40:00 GMT 1970 Genre: Description: Dez Quilos de Trutas Tomaz de Figueiredo Um Senhor Triste e Dez Quilos de Trutas foram extraídos do livro A Outra Cidade. © 1998, Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8396-51-1 Lisboa, Fevereiro de 1998 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** DEZ QUILOS DE TRUTAS UM SENHOR TRISTE Pouco mais podia ser do que ossos e usava uns bigodes caídos, de tártaro ou de triste, o senhor que entrou no apeadeiro e ficou encalhado no corredor. Vou adiantar-me, porém, pois que, do meu poiso no compartimento e à janela para o mar, só depois reparei que este senhor de preto ruço, escovado e assim magro usava bigodes taciturnos. Ia eu olhando o largo deserto de paquetes, mas onde, a parecerem tombadas, entre cor de tijolo, e sangrentas, ou brancas simplesmente -asas de pássaro irreal, ou só de cisne -velas de lancha animavam o horizonte. Na ourela da costa, por vezes quase rente à linha, areais, se não cachopos e mais cachopos emergindo, por ser maré vazia, brilhantes de glauco gelatinoso de algas ensopadas. Ah!, o cheiro de mar e este possível atavismo marinheiro que sempre me faz sedento de mar como de água, quando se tem sede! Parece que o mar chama os netos daqueles que afogou e lá tem. Encantamento? Mistério de herança na carne? Ia o senhor de preto voltado aos pinheiros, à gandra indefinida que desse lado marginava a linha. Só por isso notei que usava bigodes de tártaro ou de triste, quando o meu filho mais novo, que se havia descuidado em anunciar uma inadiável necessidade, já, aliás, satisfeita à lei da inocência, passou pelo corredor, a toque de caixa, esfogueteado por minha mulher, demandando certo retiro onde a mãe lhe remediasse o sucedido. Esbarrou o pequeno com o senhor de preto, e foi quando este se virou, acima de impaciente, perto de furioso, que lhe reparei nos bigodes desconsolados. Ia eu a levantar-me, para defender o meu sangue, e, nisto, ao ver um menino, a sua expressão alterada serenou, e logo passou a mão seca, mão de esqueleto ainda com veias, pela cabeça do pequeno. Depois, virou-se de novo para o pinhal. De seco, até o pescoço mostrava descarnado, com um rego fundo a sumir-se-lhe pelo crânio. Ao tornar o pequeno, olhou-o fundamente, e, no jeito perto de instintivo de passar pela cara as costas da mão, entendi que esmagava uma lágrima. -Ele, o senhor gosta de mar!? -atirou-se a perguntar-me, num tom muito perto de quem tira satisfações. -Se gosto de mar, eu?! Falou quase sem se torcer, de olhos sempre nos pinheiros. Nem querendo responder -pois a que propósito me interrogaria, e assim a despropósito, assim perto de à má cara? -a boca adiantou-se-me, puxando para a ironia. -Ora essa, e porque não?! Porque não hei-de gostar!? Mudou o tom ríspido agressivo. -Pois oxalá não venha ainda a arrepender-se... Eu, também... Estacara o comboio. Apregoava mexilhões e lingueirões uma rapariga de braços tostados e peitos em búzio, de sereia: de sereia arremessada à praia e ainda cheirosa a sargaços de gruta submersa, de floresta marinha. Aquilo era o mar. E os mariscos são carne e água de mar. Comendo-os, come-se e bebe-se mar. Do compartimento, e pela centésima vez, que pouco menos, o meu filho a querer saber: -Ó pai! Ainda falta muito? Ansioso por chegar à nossa praia de sempre. Como eu, a gostar de mar, de apanhar conchinhas, de esperar o que não se espera. -Ainda, ainda. Ainda um bom bocado... -Pois que lhe preste, o mar! -insistiu o senhor de bigodes tártaros. Atirei o cigarro. Dei um passo para o compartimento. O comboio arrancava, e o senhor de preto, quase impertinente: -Não, não se vá embora! Há-de ficar a saber que não gosto do mar... Sei bem o que pensa, que sou um maníaco e um atrevido pensam todos assim, de começo –, e, se eu não fosse um velho, era capaz de me descompor. Se lho leio nos olhos! Concordei, também com os olhos. Teimava: -É que eu dantes gostava de mar, entende o senhor?! Tanto como o senhor! Quem não gosta do mar?! E tive também um filho, um filho como o do senhor, que também gostava do mar... E João, também, como o filho do senhor... Entendi e senti a dor distante e sempre da hora do velho que nem podia ver mar, decerto porque lhe afogara esse filho. -Alguma onda... Acontece... Virado sempre a pinhais e a terra, o senhor de bigodes murchos foi-me contando uma história muito comprida. Que risonho e gorducho não era o seu João! E o retrato dele, que, nesse tempo, havia para cima de trinta anos, era aprumado e valente: nada que se parecesse com o fantasma que eu via agora... Assim fantasma, do sofrimento, que pouco passava dos cinquenta... Acreditasse eu que ainda não fizera cinquenta e quatro anos... Ia fazê-los... Bem que lhe importavam luxos, vaidades... O João brincava na praia... De tão calmo e chão que o mar estava, ninguém a vigiá-lo... Perto, muito perto do toldo, o João a brincar com outros... -Trago sempre o retrato dele... Na cigarreira, e não fumo... Deixei de fumar... A cigarreira, assim como um caixãozinho de oiro... E de oiro, sim, a cigarreira! O caixãozinho de oiro que dizia! -Veja! Veja! Tremia-lhe a mão, ao estender-me e abrir-me o caixãozinho de oiro esverdeado, oiro antigo, onde quase só uma sombra amarelada anelava caracóis de cabelo. -O João! O meu João! Os olhos que ele tinha! Veja os olhos que ele tinha! E pronto…E pronto…E acabou-se... Arredado o grotesco inicial do senhor de luto, apanhou-se-me a garganta. Levado pelo mar, por alguma dessas ondas que de súbito alagam tudo, como se a ver brincar o menino que a morte fixara na indefinida infância e que, se vivo fora, andaria pela minha idade. -Uma ressaca, não? -Antes uma ressaca! De volta ao meu lugar e olhando praias que umas nas outras se emendavam -toldos garridos, nalgumas, banhistas folgando nas ondas ou tostando ao sol, crianças a molharem os pés –, acompanhavam-me a história do senhor triste que lá seguia no corredor. E a ver, como se de carne e alegria, embora já tão desmaiado no retrato, o pobre menino morto. A vê-lo, no meu filho, como se ele fosse. Lá o via também na areia, ele, o mais pequeno, brincando com uma nuvem de outros. A afundarem na areia duas buracas fundas. Mineiros, a ligarem as buracas: um túnel. O túnel do comboio! O túnel do comboio! Era o túnel do comboio, e de comboio a servir o João, o que melhor cabia e porque só engatinhava. O túnel a aluir, com o comboio lá dentro! E os meninos a remexerem a areia, a remexerem a areia... Os meninos a gritarem, e sem o João aparecer... E sem já atinarem com o sítio... -Quando apareceu, estava morto... - dissera eu ao senhor triste. -Nunca mais apareceu! -tinha-me respondido. Lisboa, 1942 DEZ QUILOS DE TRUTAS Entrado Junho e em anos secos, dão os rios e ribeiros de trutas a minguar, dec1ivosos que são. Minguam saltos, cachoeiras, galeiras. Entram de ficar a nu, pardacentas de ossada, penedias donde se arrebatavam e arrojavam, donde espumavam. Poços, além e além, vão restando, fundões de águas quase mortas aonde as trutas se recolhem, lá metidas em lojas e fisgões, a sustentarem-se do escalo, da boga, da panchorca, do peixe pequeno e imprudente que lhes não espera a bocarra e a dentuça, o líquido voo de frecha. Desconfiadas, femininas, de noite, só, a caçar, saem as trutas das suas acolheitas. Entrado Junho, quando muito, Julho, o pescador artista, o de raça, o da mosca fingida, o da pluma, pendura pela ponta o bambu inteiriço, para não empenar. Também daí ser exacto que o pescador de truta nunca passa de pobre, porque também nada mais sabe do que pescar, poeta das águas correntes e frias que nasceu, quer morrer e morre. Se formos a meditar e a concluir, porque das paixões não se vive, morre-se, posto que a paixão a única vida dos que nasceram vivos, e lá reza um rifão ainda não recolhido que homem truteiro, nem casa nem palheiro. O homem truteiro vive e acaba por morrer entre uma efeméride e uma ambição. Efeméride, cimo de uma vida, a maior das trutas grandes que pescou, vai um ano, vão dez, vai um ror deles, exactamente a tantos de tal, pela tardinha, abaixo das poldras de tal e num redondo assombrado por um salgueiro, ou mesmo à boca do cachão dum moinho, quase entre as penas da roda. Três a quatro palmos, rés-vés ... Sete arráteis bem pesados... Negra, de cerro negro, e que lhe demorou coisa de meia hora a cansar... Abeirou-a, por fim, meteu-lhe um dedo pela guelra e só arquejou num derradeiro suspiro, como de uma pessoa, ficou estendida na erva... Uma tal senhora truta... E mandada de presente ao senhor Administrador, que a mandara de presente ao doutor de medicina, que a mandou de presente ao senhor Reitor, que era para a mandar de presente ao senhor Arcipreste, mas que ele Reitor a tinha comido às postas e de escabeche, saindo-se a dizer que não se fizera o mel para a boca do asno. Florão de uma vida, essa truta, somente mal empregada... Ambição, e poderá seguir e morrer satisfeito, a da possível próxima truta grande, pelo menos do tamanho da outra, mas porque não maior? Que as há de doze arráteis e acima, já houve quem as tirasse O Damião do...Toural... O Zeferino do Picão... Também eram outros tempos, mas quer não… A truta das trutas, essa nunca chega a tirá-la -e nem que imortal nascido –, porque às trutas, e aos sonhos não limita a imaginação. Tudo isto, e que nada é, aos que de trutas entendem e não desesperam -isso sim! -de ainda tirar a ideal truta grande, para contar que na cidade fronteiriça aparecia frequente um galego já entrado na idade e de bigodes virgens -duas lesmas amarelas e penduradas –, truteiro emérito, a vender as suas trutas: o Gavilan, Pepe Gavilan y Gavilan -Gavilan por pai e por mãe, primos carnais: gavião pelas duas bandas: um gavião das trutas. A gorra galega nunca a tirava, nem ao Rei a tiraria, e veremos que acima disso podia acontecer. Um desses grandes senhores de calças com cuadas sobre cuadas que nos caminhos de Pontevedra, de Lobios, de Verin, de onde seja Galiza, a par e além do Minho e de Trás-os-Montes, ainda se topam nas carreteiras, Grandes da Galiza, que desdenham sê-lo de Espanha: Grandes de Espanha, pois que não é Espanha nação mas península. Dos que matam fome e sede tanto ao lorde extraviado quanto ao pedinte andarilho, fidalgos. Nascer galego é nascer-se fidalgo, por muito que possa não parecer. E sempre vem um sinal. Entendê-lo é que muito raros. Aparecia na cidade raiana o Pepe Gavilan y Gavilan, a rogar com as suas truitas, pois galego falava, sem caldeia castelhana, a amigos afreguesados. Um desses, o coronel do regimento de cavalaria, a quem sempre tratava por Dom Paco, e Dom Pepe Gavilan y Gavilan, neto dum coronel carlista morto em combate, ele o dizia, apessoando-se e batendo tacão -a borracha das senda lhas azuis e rotas –, de braços tesos e prolongados com a bombazina das pantalonas. Ia o coronel do regimento passar à reserva, e, na véspera dessa primeira morte, na de entregar o comando, ofereceria uma ceia a toda a oficialidade: a de se despedir de vivo. Uma ceia em que haveria trutas, porém -nisso timbrava, seu derradeiro cavalo de batalha -, e na mesma a despedir-se o Julho de um ano excepcionalmente seco: o rio fronteiriço já abatido, já os ribeiros afluentes a negarem-lhe águas, de penedias calvas dos cabelos verdes dos olheiros serranos, somente algum regatinho de voz apagada coleando entre fisgas de rochas e rente às touças das beiras. O coronel queria trutas, e trutas para vinte pessoas, tinham de aparecer trutas, nem que Dom Pepe Gavilan y Gavilan as fosse cavar nas pedras. -Serão possíveis, Pepe, aí uns dez quilos de trutas, aí meio quilo por cabeça, e já uma miséria?... Dom Pepe Gavilan y Gavilan coçou a gorra. Dez quilos... Eh! Eh! Dez quilos de trutas... -Dez quilos, ou acima... Ou acima, Pepe! E o dobro é que dava jeito, que os meus oficiais, lá essa rapaziada muito competente para se purgar de véspera! Bem sei que também há-de haver cabrito, e leitão, e peru, e feijoada... Esses diabos têm uma tal moela, um tal bucho... Mas o negócio das trutas é que vem ao começo... E de bucho ainda a dar horas, os patifes... Uns vinte lobos... Uma ceia sem trutas, Pepe?! Uma ceia sem trutas nem é ceia! E tu, desonrado! Perdidos os galões de truteiro-mor destes rios em dez léguas à roda! Sempre quero ver! Tu, o rei das trutas, desonrado... A teres de partir a cana aos joelhos... Um militar desonrado quebra aos joelhos a espada! Um truteiro quebra a cana! Hein, Pepe?! Ao menos os dez quilos! Dom Pepe Gavilan y Gavilan meditava, ia-lhe correndo ao dentro do caco e da gorra o sistema hidrográfico do seu povo, de su pueblo, ia correndo cada lesma do bigode com os dedos pensativos e cépticos. Dez quilos... -Pelo menos, Pepe! Pelo menos, Dom Pepe Gavilan y Gavilan, Rei das Trutas e Adiantado-Mor do Reino da Galiza! Do Reino da Galiza, dizia Dom Paco muito bem... Porque era um reino, Galiza, sim senhor... E ainda esperava o dia... -O dia da independência? O da independência do Reino da Galiza, Dom Pepe? E porque não?.. E porque não?.. O seu Reino da Galiza... -Pois bem, Dom Pepe de todos os Gavilanes! E posso contar com as trutas? A tua honra de pescador em perigo... Eh... Eh... -A tua honra! Até ali, sim, defendera-a... E, se não andara com sorte, podia agora, em vez de por ali andar, pássaro livre, gavião com asas, penar a ferros por toda a vida, ou ter morrido no garrote. Porque, em primeiro, a honra. E contou. Pois, dessa vez, ainda no tempo das trutas grandes -tempo, que tempo! -vinha a constar que lá num ribeiro de longe andava uma tal senhora truta que ninguém jamais vira uma assim. Já pescadores de muitas bandas, e mestraços, refartos de a namorar, e nada. Velha, muito velha, lá nalgum dia ferrada e que se pusera ao fresco do anzol. Sabida, nem se bolia, e moscas de todas as cores a tentá-la. Uma truta encantada! Encantada! Porque não se alargava do fundão em que vivia, ou lá pelo escuro ou à tona, à babugem, a botar de fora o focinho e o lombo -um lombo preto de carvão – e a abocar e mastigar todo o bicho que descesse na água, mas a conhecer o que eram bichos verdadeiros e bichos fingidos, arisca, manhosa e a sumir-se, de raio, mal que ouvisse uma sombra. Quisera ele também ver como aquilo era, mas a esperar a Lua forte, no crescente, e um dia de céu encoberto e sereno, a ameaçar chuvisco. Prevenido! Ia prevenido com um ror de penas de galo, da ruiva à de negro-azul, penas de calcaré e a milagrosa do cuco. Chegado ao ribeiro, ele a perguntar novas da truta enfeitiçada. Moleiros que esperavam enredá-la quando as águas avagassem, mas sem medo que ele à cana a desfrutasse, até a desanimarem-no. Aquilo nem era truta, era o diabo em feitio de truta, e daquele tamanho não havia memória. Aí truta para alcançar uns quinze a vinte arráteis, uma bicha, uma pescada. Nas que ele se ia meter! Mas fosse, fosse! Fosse, que tornava de beiça. Já outros, mais pintados, ali tinham vindo e tinham ido de beiça caída, os lambões. Tivesse juízo! Assim rapazinho, mal passante dos vinte, se os passara, tivesse juízo. Já homens de barbas ali tinham vindo, todos bazófias, todos treteiros, e ala, embora, a darem ao diabo a cardada. Ele, que ainda se ia ver... Que, novato que era, lhe tinham nascido os dentes à beira da água e a reparar em como o pai fazia, já velho, esse, até a pescar de óculos. Um moleiro, e uma trave de homem, a não se ficar pelos conselhos de ter juízo. A dizer-lhe, à risada: -Pois, se caçares a truta grande, não te esqueças de ma vir mostrar, que eu como-a crua, com tripas e tudo! Com tripas e tudo, fica sabendo! Dizia-lhe uma coisa dessas?! Dizia-lhe tal coisa?! Pois ainda havia de se ver! Questão de honra, carago! Questão de honra! Até que alcançasse o fundão da truta grande -o chamado Poço Mau, a pontos de haver quem jurasse que furado até ao mar, porque lhe apareciam à tona madeiras, como que restos de navios –, pois, até lá chegar, buscando pescar o que pudesse, e nem trutinha palmeira, qual! Sem perder a fé, entretanto, porque lhe parecia ouvir o coração dizer-lhe: <> Mas nada, mesmo nada. Falto já de paciência para mudar de pluma, que nem ao castanho nem ao pedrês nem... Era preciso que houvesse mais cores do que as que há. Nisto, e calhando de olhar para o chão, a ver uma pena de gaio, e tão azul que lhe pareceu o azul de uma flor, o azul gaiteiro de algumas blusas de raparigas de aldeia em dia de Cruz. Se nada ganhasse, também nada perdia, e talvez o seu Anjo da Guarda teria sido quem lhe virara a vista para aquela peninha de gaio. Pescar com penas de gaio, nunca ouvira que se pescasse, mas lembrou-lhe que também havia carrapatinhos e balboretas daquela cor, e as trutas a gostarem de carrapatinhos e de balboretas e de toda a bicharia assim. Tomando todo o ourelo, pois com trutas todo o ourelo é pouco, a armar a mosca num anzol maior e reforçado, um anzol de barbo, e novo, de farpa bem revirada. E a arrochar antes a sediela com um nó que aprendera do pai e que mais ninguém sabia dar. Logo, à vista do Poço Mau. Aquele grande malandro do moleiro que desfizera dele, que se comprometera a comer crua a truta grande, com tripas e tudo! Pois ainda se ia ver! A olhar o Poço Mau, a estudá-lo, a estudar árvores e sombras... A estudar tudo, a carvalheira rente à borda e que botava uma grossura desconforme: nem meia dúzia de homens a abraçariam… Sim…Pois...Chegar-se ao Poço Mau a coberto dela... Seguindo pela sombra como por uma passadeira... Já calculada a linha necessária para alcançar a outra beira, e lançar de esguelha, de viés, tinha de ser... Ruim de lançar, mas que remédio! A pluma a cair sereninha, como as balboretas atordoadas... Lançou, de coração a galope. A pluma a cair bem sereninha, a dar duas voltas num rodopio que mal se percebia, e, nisto, uma bocarra a abrir a água, ele a dar a pancada bem a tempo e na devida conta, muito doce, e na água um reboliço, uma revolução! A truta, a truta grande, a dar umas poucas de rabanadas e uns poucos de saltos, a sair a pino da água mais alto que aí dois côvados, pouco menos, por fim a afundar, cada guinada, cada fiada! E outra vez à tona, um sabre de cavalaria a romper da água, a reluzir como um sabre! Suava. Ele a suar e a tremerem-lhe os joelhos. Mas de mão firme, sempre a sentir a truta, a não deixar que se metesse nalguma loca, nalguma touça ou na fisga dalgum fragão, porque, depois, boa noite! A tê-la o mais que podia à mão tente e a deixá-la arrancar à vontade, sem fazer força, ou ela arrebentava a linha que, embora de meia dúzia de c1inas de rabo de cavalo entrançadas, e eram da égua do senhor cura, não era para uma bicha daquele feitio. Almas santas do Purgatório! A apegar-se com as almas santas do Purgatório com a alma do pai, que, mesmo no Purgatório, ou que nem já no Céu, não se devia ter esquecido qual! -do que fosse uma truta grande enganchada e aos sacões, a fazer força que nem uma burra. Por que tempos assim a lutar com a bicha, sem se dar conta, mas nunca por menos de meia hora, e para riba: ui, para riba. Até que sem a sentir... Ai, a grande filha da puta, que se lhe soltara do anzol! Ai, a grande filha da puta! E não. Cansada. Cansara-a. Um peso na linha, a recolher a linha com todo o jeito, não fosse ela ainda armar forças para um arranco mais, e lá se lhe ia embora a grande filha da puta. A bicha, ao fim, a aparecer, a revirar a barriga: uma barriga mais branca, ainda mais que o luar. Devia estar bem ferrada, ferrada no céu da boca, não na barbela, por sorte, porque então se teria arrebentado a barbela, mas ele a calcular para onde a arrastaria, para uma entrada de areia, mesmo ao rés do Poço Mau, sem precisão de a suspender. Quando a viu bem no seco e lhe botou as mãos, a calcá-la contra a areia, a embrulhá-la em areia, para não lhe escorregar! E quando a viu numa escocha de amieiro, enfiada pela guelra, porque não cabia no cacifro, qual caber, que nem metade! A sua honra de truteiro, ofendida... Pois, agora, a ver se o outro comia crua e com tripas e tudo a truta grande! Havia de comê-la! Caminho fora, tupa-que-tupa, só queria ter asas. Chegado, a bater à porta do moinho, o outro a abrir e a sair. A apresentar a truta, que lhe chegava do peito aos pés. Então!? Ali lha apresentava! Era aquela? Bem aquela?! Ou ainda haveria outra maior?! E toca ali a comê-la, em continente! Sem sal nem nada! Só com o tempero das tripas! Depressa! Uma pressa! O outro a gabá-lo, mas nada ele para gabos, para lampanas. Comia, ou não comia?! Comia, ou não comia?! Com mais parabéns, o outro, mais emboras, e ele, cheio de raiva, rabioso, a abrir a navalha e a fincar-lha à barriga. Comia, ou não comia? Com tripas e tudo! A truta vinha a comê-la o senhor Alcaide, que o levara à Pia e aos Santos óleos, porque o moleiro se lhe botou de joelhos, sentindo já na barriga a ponta da navalha e sem que mais pudesse recuar, arrumado a uma parede. -Pois aí tens, Pepe! A tua honra! A tua honra de truteiro, outra vez, agora! Essa história da truta grande já ma contaste meia dúzia de vezes, uma dúzia! Arranjas outra assim, agora, e pronto! Já dá, já dá muito bem! Assada no forno, com bata tinhas novas! E a peninha... Arranjas outra peninha de gaio... Mando-te matar um gaio, uma dúzia deles... Ficas com peninhas de gaio para toda a vida! A tua honra, Pepe! Eu falo à tua honra! Dez quilos de trutas, ou uma truta de dez quilos, tanto vale! O Pepe das trutas queixou-se. Bom tempo, o das trutas grandes... E, em Julho, nem das pequenas... E isso da peninha de gaio... Nunca, nunca mais! A primeira e a derradeira vez em que a uma pluma de pena de gaio picara uma truta. Farto de tentar a peninha de gaio, e descoroçoado. Um milagre daquele dia... Deus a acudir-lhe à honra... Dom Paco era ainda coronel de cavalaria. -Pepe, eu não te digo mais palavra. Só olho para ti! Dom Pepe Gavilan y Gavilan, Truteiro-Mor do Reino da Galiza, cedeu. Contasse. Contasse com as trutas Dom Paco. A sua honra! Apertaram-se as mãos Dom Paco e Dom Pepe. Na véspera da ceia e já escuro, Dom Pepe Gavilan y Gavilan, de cacifro às costas, à porta de armas do regimento e a perguntar pelo comandante. A sentinela a apontar-lhe a Sé. -Acolá! Já fora do quartel, o senhor comandante!? -Na Sé, acolá! Caído para o lado, redondo, hoje, o nosso comandante! Morto, redondo, o nosso comandante! E agora no caixão, acolá, na Sé! O pescador galego, a um tempo nem queria crer, mas também a considerar que com a morte não se brinca. Morto! -Morto! À procura de pensar alguma coisa, ficou parado. -Era amigo dele, do nosso comandante? Era. Só respondeu isto e deu costas. Aquela Sé onde nunca entrara... Toda armada de panos pretos... Ao cimo, na capela-mor, e numa essa de ouro -parecia de ouro! -, o caixão do morto. Direitos, como de pedra, a cada canto e de espada nua, quatro oficiais. Quatro tocheiros, de mais perto, alumiavam o morto: uma guarda de honra de espadas e outra de luzes: as luzes a deitarem fogo às espadas. No veludo de almofadas, o quépi e a espada, as medalhas do morto, e na mesma as luzes a arderem na espada, nos ouros e nos esmaltes. Sem que tirasse a gorra, nele um segundo cabelo -talvez que até dormiria de gorra deu o Pepe das trutas umas passadas até à cabeceira do caixão. Embora de olhos fechados, o morto parecia ver, entender. Pepe, estacado, a olhá-lo. E vagaroso, muito vagaroso, a rodar para o peito o cacifro, a abri-lo e a levantar em cada mão sua truta, a apresentá-las ao morto. A sua honra de pescador de trutas, descarregá-la... E dirigiu-se ao morto como nos tempos de vivo. -Don Paco! Las truitas venieron, mais... otro las comerá... Buen viaje! Ainda uns momentos, à luz dos tocheiros que também as iluminavam, húmidas e limosas, a brilharem, ergueu as trutas. Depois e arremessando-as ao cacifro, foi muito vagaroso saindo e a esmagar o choro com as costas das mãos. Lisboa, 1970