E tais Pancadas tem a Costa da CJCa˜6î€6î€TEXtREAd–ÆÔÔ Ô0Ô@ÔPÔ`ÔpԀԐԠ԰ÔÀÔÐÔîrTitle: E tais Pancadas tem a Costa da China Author: Fernão Mendes Pinto CreationDate: Thu Jun 25 12:38:00 BST 2009 ModificationDate: Wed Feb 11 17:00:00 GMT 1970 Genre: Description: "Peregrinação" E tais Pancadas tem a Costa da China Fernão Mendes Pinto A publicação dos capítulos 1 e 59 a 67 do livro Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, foi gentilmente autorizada por Maria Alberta Menéres. © 1996, Maria Alberta Menéres e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8127-76-6 Lisboa, Fevereiro de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** E TAIS PANCADAS TEM A COSTA DA CHINA Do que passei em minha mocidade neste reino até que me embarquei para a Índia Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida. Com António de Faria pelejou com o corsário Coja Acém e do que com ele lhe sucedeu Velejando nós pelo rio acima com vento e maré que Nosso Senhor então nos deu, em menos de uma hora chegámos onde os inimigos estavam, que até este tempo nos não tinham ainda sentido; mas como eles eram ladrões e se temiam da gente da terra, pelos males e roubos que ali cada dia lhe faziam, estavam tão aparelhados e tinham tão boa vigia que em nos vendo tocaram um sino muito apressadamente, ao som do qual foi tamanho o rumor e revolta de gente, tanto da que estava em terra como da que estava embarcada, que não havia quem se ouvisse com eles, o que vendo António de Faria, bradou logo, dizendo: -Eia, senhores e irmãos meus, a eles, com o nome de Cristo, antes que as suas lorchas lhes acudam! Santiago! E disparando toda a nossa artilharia, prouve a Nosso Senhor que se empregou tão bem que dos mais esforçados que já neste tempo estavam em cima do chapitéu, veio logo abaixo a maior parte, feitos em pedaços, o que foi um bom prognóstico do nosso desejo. Após isto, os nossos atiradores, que seriam cento e sessenta, pondo fogo a toda a arcabuzaria, conforme o sinal que lhes fora feito, os conveses de ambos os juncos ficaram tão vazios da multidão que antes neles se via, que já nenhum dos inimigos ousava aparecer. Os nossos dois juncos, abalroando então os dois dos inimigos assim como estavam, a briga se travou entre todos, de maneira que realmente confesso que não me atrevo a particularizar o que nela se passou, ainda que me achasse presente, porque ainda neste tempo a manhã não era bem clara, e a revolta dos inimigos e nossa era tamanha, juntamente com o estrondo dos tambores, bacias e sinos, e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados de muitos pelouros de artilharia e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que as carnes tremiam de medo; e durando assim esta briga por espaço de um quarto de hora, as suas lorchas e lanteas lhes acudiram de terra com muita gente de reforço, vendo o que, um tal Diogo Meireles, que vinha no junco de Quiay Panjão, e que o seu condestável, dos tiros que fazia nenhum acertava, por andar tão pasmado e fora de si que nenhuma coisa acertava, estando ele então para dar fogo a um camelo, meio turvado, o empurrou tão de rijo que deu com ele da escotilha abaixo, dizendo: -Guar-te daí, vilão, que não prestas para nada, porque este tiro neste tempo é para os homens como eu, e não para os tais como tu! E apontando o camelo por suas miras e regra de esquadria, de que sabia razoavelmente, deu fogo à peça que estava carregada com pelouro e roca de pedras, e tomando a primeira lorcha que vinha na dianteira, por capitânia das quatro, a descoseu toda de popa à proa pelo a1catrate da banda de estibordo, com o que tudo ficou raso com a água, de maneira que logo ali a pique se foi ao fundo, sem dela se salvar pessoa nenhuma, e varejando a munição da roca por cima, deu no convés de outra lorcha que vinha um pouco mais atrás, e lhe matou o capitão e seis ou sete que estavam junto dele, do que as outras duas ficaram tão assombradas que querendo tornar a voltar para terra, se embaraçaram ambas nos guardins das velas de maneira que nenhuma delas se pôde mais desembaraçar, e assim presas uma na outra estiveram ambas estacadas sem poderem ir para trás nem para diante. Vendo então os capitães das nossas duas lorchas (os quais se chamavam Gaspar de Oliveira e Vicente Morosa) o tempo disposto para efectuarem o desejo que traziam, e a inveja honrosa de que ambos se picavam, arremeteram juntamente a elas, e lançando-lhes muita soma de panelas de pólvora, se ateou o fogo em ambas, de maneira que assim juntas como estavam arderam até ao lume da água, com o que a maior parte da gente se lançou ao mar, e os nossos acabaram ali de matar a todos às zargunchadas, sem um só ficar vivo; e somente nestas três lorchas morreram passante de duzentas pessoas; e a outra que levava o capitão morto, tão-pouco pôde escapar, porque Quiay Panjão foi atrás dela na sua champana, que era o batel do seu junco, e a foi tomar já pegada com terra, mas sem gente nenhuma, porque toda se lhe lançou ao mar, de que a maior parte se perdeu também nuns penedos que estavam junto da praia, com a qual vista os inimigos que ainda estavam nos juncos, que podiam ser até cento e cinquenta, e todos mouros lusões, e bornéus, com alguma mistura de jaus, começaram a enfraquecer, de maneira que muitos começavam já a se lançar ao mar. O perro do Coja Acém que até este tempo não era ainda conhecido, acudiu com muita pressa ao desmancho que via nos seus, armado com uma coura de lâminas de cetim carmesim franjada de ouro, que fora de portugueses, e bradando alto para que todos o ouvissem, disse por três vezes: -Lah hilah hilah lah muhamd roçol halah, ó massoleimões e homens justos da santa lei de Mafamede, como vos deixais vencer assim por uma gente tão fraca como são estes cães, sem mais ânimo que de galinhas brancas e de mulheres barbadas? A eles, a eles, que certa temos a promessa do livro das flores, em que o profeta Noby abastou de deleites os daroeses da casa de Meca. Assim fará hoje a vós e a mim, se nos banharmos no sangue destes cafres sem lei! Com as quais malditas palavras o Diabo os esforçou de maneira que fazendo-se todos num corpo, amoucos, tornaram a voltar tão esforçadamente que era espanto ver como se metiam nas nossas espadas. António de Faria então bradando também aos seus, lhes disse: -Ah, cristãos e senhores meus, se estes se esforçam na maldita seita do Diabo, esforcemo-nos nós em Cristo Nosso Senhor posto na Cruz por nós, que nos não há-de desamparar, por mais pecadores que sejamos, porque enfim somos seus, o que estes perros não são. E arremetendo com este fervor e zelo da fé, ao Coja Acém, como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu com ambas as mãos com uma espada que trazia, uma tão grande cutilada pela cabeça, que cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão, e tornando-lhe com outro revés lhe decepou ambas as pernas, de que se não pôde mais levantar, o qual sendo visto pelos seus, deram uma grande grita e arremetendo a António de Faria se igualaram com ele uns cinco ou seis com tanto ânimo e ousadia que nenhuma conta fizeram de trinta portugueses de que ele estava rodeado, e lhe deram duas cutiladas, com que o tiveram quase no chão, o que vendo os nossos, acudiram logo com muita pressa, e esforçando-os ali Nosso Senhor, o fizeram de maneira que em pouco mais de dois credos foram mortos, dos inimigos ali sobre o Coja Acém, quarenta e oito, e dos nossos catorze somente, de que só cinco foram portugueses, e os mais moços escravos muito bons cristãos e muito leais. Já neste tempo os que ficavam começaram a enfraquecer, e se foram retirando desordenadamente para os chapitéus da proa, com a tenção de se fazerem aí fortes, a que vinte soldados dos trinta que estavam no junco de Quiay Panjão, acudiram com muita pressa, e tomando-os de rosto antes que se assenhoreassem do que pretendiam, os apertaram de maneira que os fizeram lançar todos ao mar, com tamanho desatino que uns caíam por cima dos outros. Animados então os nossos com o nome de Cristo Nosso Senhor, por quem chamavam continuamente, e com a vitória que já conheciam, e com a muita honra que tinham ganho, os acabaram ali de matar e consumir a todos, sem ficarem deles mais que só cinco que tomaram vivos, os quais, depois de presos e atados de pés e mãos, e lançados em baixo na bomba para com tratos se lhes fazerem algumas perguntas, se degolaram às dentadas uns aos outros com receio da morte que se lhes podia dar. E estes também foram feitos em quartos pelos nossos moços e lançados ao mar, em companhia do perro do Coja Acém, seu capitão e caciz-mor de el-rei de Bintão, e derramador e bebedor do sangue português, como se ele intitulava nos começos das suas cartas, e publicamente pregava a todos os mouros, por causa do que, e pelas superstições da sua maldita seita, era deles muito venerado. Do mais que António de Faria fez depois que houve esta vitória e da liberalidade que aqui usou com os portugueses de Liampó O processo desta cruel e áspera peleja, cujo fim foi esta gloriosa vitória que tenho contado, quis escrever assim brevemente e em resumo, porque se me pusera a contar por extenso todas as particularidades dela, tanto do muito que os nossos fizeram, como do grande esforço com que os inimigos se defenderam, além de não ter eu cabedal para tanto, me fora necessário fazer um processo muito mais largo e uma história muito mais comprida que esta; porém, como minha tenção é somente tocar estas coisas como de corrida, trabalho sempre quanto posso para ser breve em muitas coisas em que porventura outros engenhos melhores que o meu se alargaram muito e fizeram muito caso delas, se as viram ou as escreveram; e por isso eu não tocando agora mais que aquelas coisas que de necessidade se hão-de escrever, me torno ao de que ia tratando. A primeira coisa a que António de Faria atendeu, depois desta vitória, foi a cura dos feridos, que por todos seriam noventa e dois, de que os mais foram portugueses e moços nossos. Após isto, querendo saber o número dos mortos, achou dos nossos quarenta e dois, entre os quais foram oito portugueses, o que António de Faria mostrou sentir mais que tudo, e dos inimigos trezentos e oitenta, de que só cento e cinquenta foram a ferro e fogo, e todos os mais afogados. E ainda que esta vitória fosse de todos muito festejada, não deixou de haver nela assaz de lágrimas públicas e secretas pela morte dos companheiros que ainda estavam por enterrar, e os mais deles com as cabeças feitas em quartos pelas machadinhas com que os inimigos pelejavam. António de Faria, ainda que estivesse com três feridas, desembarcou logo em terra com toda a gente que estava boa para o poder acompanhar, onde primeiro que tudo se tratou do enterramento dos mortos, na qual obra se gastou a maior parte do dia. Após isto, foi logo António de Faria correr toda a ilha em roda, para ver se havia nela alguma gente, e foi dar num vale muito aprazível de muitas hortas e pomares de muita diversidade de frutas, no qual estava uma aldeia de quarenta ou cinquenta casas térreas que Coja Acém tinha saqueado, e dado a morte a alguns dos moradores dela que não puderam fugir. Mais abaixo do vale, cerca de um tiro de besta, ao longo de uma fresca ribeira de água doce em que havia muita quantidade de mugens, e trutas, e robalos, estava uma teracena ou casa grande que parecia ser templo daquela aldeia, a qual estava toda cheia de doentes e feridos que Coja Acém ali tinha em cura, entre os quais havia alguns mouros parentes seus, e outros também honrados que ele trazia a soldo, que eram, por todos, noventa e seis; estes, em vendo António de Faria, deram uma grande grita como que a pedir-lhe misericórdia, a qual ele então não quis usar com eles, dando por razão que se não podia dar a vida a quem tantos cristãos tinha morto, e mandando-lhes pôr fogo por seis ou sete partes, como a casa era de madeira breada e coberta de folha de palmeira seca, ardeu de maneira que foi uma espantosa coisa de ver, e em parte piedosa, pela horribilidade dos gritos que os miseráveis davam dentro quando a labareda começou a se atear por todas as partes; alguns deles se quiseram lançar pelas frestas que a casa tinha por cima, porém os nossos como magoados os receberam de maneira que no ar eram espetados em muitas chuças e lanças. Acabada esta crueza, tornando-se António de Faria à praia onde estava o junco que Coja Acém tomara havia vinte e seis dias aos portugueses de Liampó, entendeu logo em o lançar ao mar, porque já neste tempo estava consertado, e depois de estar na água o entregou a seus donos, que eram Mem Taborda e António Anriquez, ( ... ). E fazendo-os pôr a mão a ambos num livro que tinha na mão, lhes disse: -Eu, em nome destes meus irmãos e companheiros tanto vivos como mortos, a quem este vosso junco tem custado tantas vidas e tanto sangue como hoje vistes, vos faço esmola como cristão, de tudo, para que Deus Nosso Senhor no-la receba por essa no seu santo reino, e nos queira dar nesta vida perdão de nossos pecados, e na outra a sua glória, como confio que dará a estes nossos irmãos que hoje morreram como bons e fiéis cristãos, por sua santa fé católica; porém vos peço e recomendo muito e vos admoesto por este juramento que vos dou, que não tomeis mais que a vossa fazenda somente, digo, toda a que trazíeis de Liampó, tanto vossa como de partes neste vosso junco, porque nem eu vos dou mais, nem é razão que vós a tomeis, porque faremos ambos nisso o que não devemos, eu em vo-la dar e vós em a tomardes. Mem Taborda e António Anriquez, que quiçá não esperavam aquilo dele, se lhe lançaram aos pés com os olhos cheios de água, e querendo com palavras dar-lhe as graças pela mercê que lhes fazia, o ímpeto das lágrimas lho impediu, de maneira que se tornou ali a renovar um lastimoso e triste pranto pelos mortos que ali estavam já enterrados, e com a terra que tinham em cima de si, ainda banhada pelo seu fresco sangue. Os dois começaram logo a entender em cobrarem sua fazenda, e foram por toda a ilha com cerca de cinquenta ou sessenta moços que os senhores deles lhes emprestaram, a recolher a seda molhada que ainda estava a enxugar, de que todas as árvores estavam cheias, fora mais de duas casas em que estava a enxuta, e a mais bem acondicionada, que como eles tinham dito eram cem mil taéis de emprego, no que tinham parte mais de cem homens, tanto dos que ficavam em Liampó, como de outros que estavam em Malaca, a quem se ela lá mandava. E a fazenda que estes dois homens ainda recolheram valeria de cem mil cruzados para cima, porque a mais, que podia ser a terça parte, se perdeu na podre, na molhada, na quebrada, e na furtada, de que nunca se soube parte. Recolhendo-se após isto, António de Faria, para a sua embarcação, não atendeu aquele dia a mais que visitar e prover os feridos, e agasalhar os soldados, por ser já quase noite; e quando ao outro dia foi manhã clara, foi ao junco grande que tinha tomado, o qual estava ainda cheio de corpos mortos do dia anterior, e mandando-os lançar todos ao mar, da maneira que estavam, só ao perro do Coja Acém, por ser mais honrado e merecer mais fausto e cerimónia nas suas exéquias, o mandou tomar assim vestido e armado como ainda jazia, e feito em quartos o mandou também lançar ao mar, onde a sepultura que então teve o seu corpo, por assim o merecer sua pessoa e suas obras, foram buchos de lagartos, de que andava grande quantidade a bordo do junco, à carniça dos mortos que se lançavam, e ao qual António de Faria, em lugar de oração que lhe rezava pela alma, disse: -Andar, muiti eramá para esse inferno, onde a vossa enfuscada alma agora estará gozando dos deleites de Mafamede, como ontem com grandes brados pregáveis a essoutros cães tais como vós. E fazendo logo vir perante si todos os escravos, cativos, tanto sãos como feridos, que trazia em sua companhia, mandou também chamar os senhores deles, e a todos lhes fez uma fala de homem bom cristão, como na verdade o era, em que lhes pediu que pelo amor de Deus tivessem todos por bem lhes darem liberdade, da maneira que ele lhes tinha prometido antes da peleja, porque ele de sua fazenda lhes satisfaria muito à sua vontade; ao que todos responderam que pois sua mercê assim o havia por bem, eles eram muito contentes, e os haviam como forros e livres daquele dia para sempre. E disto se fez logo um assento, em que todos assinaram, porque por então se não pôde fazer mais, e depois em Liampó lhes deram a todos suas cartas de alforria. Após isto, se fez inventário da fazenda que liquidamente se achou, tirando a que se deu aos portugueses e foi avaliada em cento e trinta mil taéis em prata do Japão e fazendas limpas, como foram cetins, damascos, seda, retrós, tafetás, almíscar e porcelanas de barça muito finas, porque então se não fez mais receita do mais que este corsário tinha roubado por toda aquela costa de Sumbor até ao Fuchéu, onde havia passante de um ano que continuava. Como António de Faria se partiu deste rio Tinlau para Liampó, e de um desventurado sucesso que teve na viagem Depois de haver já vinte e quatro dias que António de Faria estava neste rio de Tinlau, dentro dos quais os feridos todos convalesceram, se partiu para Liampó onde levava determinado invernar, para daí na entrada do Verão cometer a viagem das minas de Quãogeparu, como tinha assentado com o Quiay Panjão que levava em sua companhia. E estando tanto avante como a ponta de Micuy, que está em altura de vinte e seis graus, lhe deu um rijo contraste de noroeste, pelo que, por conselho dos pilotos pairou à trinca, para não perder o caminho que tinha andado; este tempo carregou sobre a tarde, com chuveiros e mares tão grossos que as duas lanteas de remo, por o não poderem sofrer, se fizeram já quase noite na volta da terra, com o propósito de se meterem no rio de Xilendau que estava dali a uma légua e meia. António de Faria, também temendo que lhe acontecesse algum desastre, se afastou o mais depressa que pôde, e marcando-se pela sua esteira as foi seguindo com cerca de cinco ou seis palmos de vela somente, tanto para as não escorrer, como por ser o ímpeto do vento tão rijo que não era possível apará-lo. E como a cerração da noite era muito grande, e o escarcéu rebentava todo em flor, não enxergou o baixo que estava entre o ilhéu e a ponta do recife, e varando por cima dele deu tamanha pancada que a sobrequilha lhe rebentou logo por quatro lugares, com parte do couce da quilha debaixo; e querendo então o seu condestável dar fogo a um falcão para que os outros juncos lhes acudissem naquele trabalho, ele o não quis consentir, dizendo que já que Nosso Senhor era servido de eles ali acabarem, não queria nem era razão que também os outros por sua causa ali se perdessem, mas que pedia e rogava a todos que o ajudassem, a trabalharem em público com as mãos e em secreto pedirem a Deus perdão dos seus pecados, e graça para emendarem a vida, porque se assim o fizessem de todo o seu coração, ele lhes dizia que muito cedo se veriam a salvo e livres, daquele trabalho. E com isto, arremetendo ao mastro grande, o fez cortar junto dos tamboretes da segunda coberta, e em este caindo ficou o junco algum tanto quieto, ainda que a sua queda custasse a vida de três marinheiros e de um moço nosso, porque ao cair os colheu debaixo e os fez em pedaços; e após este, mandou também cortar todos os outros mastros de popa e de proa, e arrasar todas as obras dos gasalhados, de modo que tudo foi fora até à primeira coberta, e conquanto estas coisas se fizessem com grande presteza, quase que nada nos aproveitava, por ser o tempo tamanho, o mar tão grosso, a noite tão escura, o escarcéu tão alto, o cheiro tão forte, e o ímpeto do vento tão incomportável e de refregas tão furiosas que não havia homem que as pudesse esperar com o rosto direito. Neste mesmo tempo os outros quatro juncos fizeram também sinal de como se perdiam, ao que António de Faria, pondo os olhos no céu e apertando as mãos, disse alto, que todos o ouviram: -Senhor Jesus Cristo, assim como tu meu Deus, por tua misericórdia tomaste sobre ti satisfazer na Cruz pelos pecadores, assim te peço por quem és, que permitas por castigo da tua divina justiça que eu só pague as ofensas que estes homens te fizeram, pois eu fui a principal causa de eles pecarem contra a tua divina bondade, porque senão, vejam nesta triste noite a maneira em que eu por meus pecados agora me vejo, pelo que, Senhor, te peço com dor da minha alma, em nome de todos, ainda que não seja digno de me ouvires, que tires os olhos de mim e os ponhas em ti e no muito que te custámos todos por tua infinita misericórdia. Após estas palavras, deram todos uma tamanha grita de <>, que quer dizer: <>. E com isto choravam e tremiam de tal maneira que não podiam pronunciar palavra nenhuma. Vendo então António de Faria sua miséria e simplicidade, não os quis por então mais importunar, mas dissimulando com eles por um grande espaço, rogou a uma mulher china cristã que ali levava o piloto, que os agasalhasse e os segurasse do medo que tinham, para que respondessem a propósito ao que lhes perguntassem, o que ela lhes fez com tantos afagos que em menos de uma hora disseram à china que se o capitão os deixasse ir livremente naquela sua embarcação assim como lha tinham tomado, que eles confessariam toda a verdade do que viram pelos olhos, e do que ouviram dizer, e António de Faria lhes prometeu o fazer assim, e lho afirmou com muitas palavras. Então um deles, que era o mais velho e parecia ser entre eles de mais autoridade, disse: -Não me fio ainda muito da liberalidade dessas tuas palavras, porque te estendeste tanto nelas que temo que me faltes no efeito do que elas prometem, pelo que te peço que mo jures por esta água do mar que te sustenta em cima de si, porque se mentires jurando, crê certo que o Senhor da mão poderosa com ímpeto de ira se inclinará contra ti de tal maneira que os ventos por cima e ela por baixo nunca cessem em tuas viagens de te contrariar a vontade, porque te juro pela formosura das suas estrelas que é a mentira tão feia e aborrecida diante de seus olhos, como a inchada soberba dos ministros das causas que se julgam na terra, quando com desprezo e descortesia falam às partes que requerem diante deles o que faz a bem de sua justiça. E jurando-lhe António de Faria com toda a cerimónia necessária a seu intento, que ele lhe cumpriria a sua palavra, o chim se houve por satisfeito e lhe disse: -Esses teus homens por quem perguntas, eu os vi há dois dias prender na chifanga de Nouday, e botar-lhes ferros nos pés, dando como razão que eram ladrões que roubavam as gentes do mar. Com isto ficou António de Faria suspenso e assaz enfadado, parecendo-lhe que podia ser aquilo assim; e querendo logo com muita pressa prover no remédio da soltura deles, pelo perigo que entendia que podia haver na tardança, lhes mandou uma carta por um destes chins, ficando por ele, como reféns, todos os mais, o qual se partiu logo pela manhã muito cedo. E como a estes chins lhes tardava verem-se fora do em que se viam, este, que era o marido de uma das duas que foram tomadas na barca da louça e então ficaram no junco, se deu tanta pressa que quando veio ao meio-dia tornou com a resposta escrita nas costas da carta, e assinada por todos cinco, em que brevemente lhe relatavam a cruel prisão em que os tinham, e que sem falta nenhuma os haviam de matar por justiça, pelo que lhe pediam pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo que os não deixassem ali perecer ao desamparo, e que lhe lembrasse sua fé e verdade, pois como sabia, por sua causa vieram ter àquele triste estado, e outras piedades a este modo, como de homens que estavam cativos em poder de gente cruel e fraca como são os chins. António de Faria leu esta carta perante todos e lhes pediu conselho sobre o que nisto se devia fazer, e como eram muitos os que davam seus pareceres, assim foram também muitas e diversas as opiniões, de que ele não ficou nada satisfeito, pelo que, depois de haver sobre isto uma longa altercação, vendo ele que pela variedade dos pareceres se não tomava resolução nos negócios, lhes disse quase agastado: -Eu, senhores e irmãos meus, tenho prometido a Deus com juramento solene de me não ir daqui até não haver à mão estes pobres soldados e companheiros meus, por qualquer via que seja, ainda que sobre isto aventure mil vezes a vida, quanto mais com despesas de minha fazenda que eu estimarei muito pouco, pelo que, senhores, vos peço a todos muito, muito, muito, por mercê, que ninguém me contrarie isto de que tanto depende minha honra, porque juro à casa de Nossa Senhora de Nazaré que qualquer que o contradisser me terá por tanto seu inimigo, quanto eu entendo que o será de minha alma quem for contra isso. Ao que todos lhe responderam que o que sua mercê dizia, isso era o melhor e o mais acertado, e que para sua consciência por nenhum caso deixasse de o fazer assim, porque eles todos o acompanhariam até porem as vidas por isso. Ele lho agradeceu então muito e os abraçou a todos com o barrete na mão e lágrimas nos olhos, e muita cortesia nas palavras, e de novo lhes tornou a certificar que pelo tempo em diante lhes satisfazia por obras o que então lhes prometia só com palavras, com o que todos ficaram de todo conformes e muito satisfeitos. Como António Faria escreveu uma carta ao mandarim de Nouday sobre o negócio destes cativos, e a resposta que teve a ela, e o que ele fez sobre isso Tornada esta resolução, se pôs logo em conselho que maneira se havia de ter no proceder deste negócio, e se assentou que a primeira coisa fosse fazer-se pacificamente diligências com o mandarim, mandando-lhe pedir aqueles cativos, e prometer-lhe pelo resgate deles o que fosse razão, e que com a sua resposta se determinaria o que se havia de fazer. E com isto se fez logo uma petição conforme o estilo com que no auditório se costuma falar, e a mandou António de Faria ao mandarim, por dois chins dos que se tomaram, os que pareciam de mais respeito, e com ela lhe mandou um odiá que valia duzentos cruzados, parecendo-lhe que entre gente de primor aquilo bastava para não querer mais, o que foi muito pelo contrário, como logo se verá. Partidos os chins que levavam a petição e o presente, tornaram logo ao outro dia com a resposta escrita nas costas da petição, a qual era um despacho que dizia desta maneira: -Venha a tua boca diante de meus pés, e depois de seres ouvido, te proverei se tiveres justiça. Vendo António de Faria o mau despacho do mandarim, e a soberba e desconcerto das palavras dele, ficou algum tanto triste e melancólico porque entendeu daquele princípio que já havia de ter trabalho em libertar aqueles cativos, e discutindo este negócio particularmente com alguns que para isso foram chamados, não deixou ainda de haver algumas diversidades de pareceres, mas no fim delas se veio a concluir que todavia lhe tornasse a mandar outro recado, em que com mais eficácia lhe pedisse os seus homens, e que lhe daria por eles dois mil taéis em prata e fazenda, e senão que falasse muito claro e o desenganasse, que se não havia de ir dali até que lhos não mandasse, porque quiçá certificado desta determinação, o medo lhe faria fazer o que pelas outras vias lhe negava, tanto mais que pela via do interesse poderia ser que se rendesse. Os mesmos dois chins se tornaram a partir logo com este recado escrito em uma carta cerrada, como de uma pessoa a outra, sem cerimónia de petição nem outras vaidades que eles entre si nestes casos gentilicamente costumam, para que visse o mandarim na isenção da carta, quão determinado estava no que lhe dizia. Porém, antes que vá mais por diante, quero dizer só dois pontos do que ia na carta, que foram causa de este negócio se danar de todo, os quais foram: um, dizer-lhe António de Faria que ele era um mercador estrangeiro, português de nação, que ia de veniaga para o porto de Liampó, onde havia muitos mercadores residentes na terra com suas fazendas que pagavam seus direitos costumados, sem nunca fazerem nela roubos nem males como ele dizia; e o outro ponto foi dizer-lhe que porque el-rei de Portugal, seu senhor, era com verdadeira amizade irmão de el-rei da China, vinham eles à sua terra, como também os chins por esta causa costumavam ir a Malaca onde eram tratados com toda a verdade, favor e justiça, sem se lhes fazer agravo nenhum. E ainda que o mandarim ambos estes pontos não sofresse, todavia este derradeiro de dizer que el-rei de Portugal era irmão de el-rei da China, tomou tão a mal que, sem ter mais respeito a coisa alguma, mandou açoitar os dois que levaram a carta, e cortar-lhes as orelhas, e os tornou assim a mandar com a resposta para António de Faria, escrita num pedaço de papel roto que dizia assim: -Bareja triste, nascida de mosca encharcada no mais sujo monturo que pode haver em masmorras de presos que nunca se limparam, quem deu atrevimento à tua baixeza para parafusar nas coisas do céu? Porque mandando eu ler a tua petição, em que, como a senhor me pedias que houvesse piedade de ti que eras miserável e pobre, à qual eu, por ser grandioso já me tinha inclinado e estava quase satisfeito do pouco que davas, tocou no ouvido de minhas orelhas a blasfémia de tua soberba, dizendo que o teu rei era irmão do filho do Sol, leão coroado por poderio incrível no trono do mundo, debaixo de cujo pé estão submetidas todas as coroas dos que governam a terra com real ceptro de mando, servindo-lhe continuamente de brochas de suas alparcas, esmagados na trilha do seu calcanhar, como os escritores das bralas de ouro testemunham na fé de suas verdades em todas as terras que as gentes habitam. E por esta tamanha heresia mandei queimar o teu papel, representando nele por cerimónia de cruel justiça a vil estátua de tua pessoa, como desejo fazer a ti também por tamanho pecado, pela qual te mando que logo e logo sem mais tardar te faças à vela, para que não fique maldito o mar que em si te sustenta. Acabando o intérprete (que lá se chama tansu) de ler a carta e declarar o que ela dizia, todos os que a ouviram ficaram assaz corridos, e António de Faria mais corrido e afrontado que todos: e estiveram um grande espaço algum tanto confusos, porque de todo perderam as esperanças de resgatarem os cativos. E discutindo o desconcerto das palavras da carta e o mau ensino do mandarim, se determinou no fim de tudo que saíssem em terra e acometessem a cidade, porque Nosso Senhor os ajudaria conforme à boa tenção com que o faziam, e para efeito disso se ordenaram logo embarcações em que saíssem de terra, que foram quatro barcaças de pescadores que aquela noite se tomaram. E fazendo-se alarde da gente que podia haver para este efeito, se acharam trezentos homens, de que setenta eram portugueses e os mais escravos e marinheiros, com a gente de Quiay Panjão, dos quais cento e sessenta eram arcabuzeiros, e os mais com lanças, e chuças, e bombas de fogo, e outras muitas maneiras de armas necessárias para o efeito deste negócio. Como António de Faria acometeu a cidade de Nouday e o que lhe aconteceu Ao outro dia quase manhã clara, António de Faria se fez à vela pelo rio acima com três juncos e a lorcha, e com as quatro barcaças que tinha tomado, e foi surgir em seis braças e meio pegado com os muros da cidade; e amainando as velas sem salva nem estrondo de artilharia, pôs bandeira de veniaga ao costume dos chins, para que com as mostras destas pazes lhes não ficassem nenhuns cumprimentos por fazer, ainda que soubesse que, como isto da parte do mandarim estava danado, nenhuma coisa daquelas lhes havia de aproveitar. Daqui lhe tornou a mandar outro recado com promessa de mais interesse pelos cativos, e cumprimentos de muitas amizades, com o que o perro se indignou de tal maneira que mandou aspar o coitado do chim e mostrá-lo do muro a toda a armada, com a qual vista António de Faria acabou de perder as esperanças que ainda alguns lhe faziam ter. E crescendo com isto a cólera aos soldados lhe disseram que pois tinha assentado sair em terra, não esperasse mais, porque seria dar tempo aos inimigos para juntarem muita gente. Ele, parecendo-lhe bem este conselho, se embarcou logo com todos os que estavam determinados para este feito, que já estavam presentes para isso, e deixou recado nos juncos que não deixassem nunca de atirar aos inimigos e à cidade, onde vissem maiores ajuntamentos de gente; porém isto havia de ser enquanto ele não andasse travado com eles. E desembarcando abaixo do surgidouro cerca de um tiro de berço, sem oposição nenhuma, se foi marchando ao longo da praia para a cidade na qual já a este tempo havia muita gente por cima dos muros com grande soma de bandeiras de seda, capeando com muitos tangeres e grandes gritas, como gente que se estribava mais nas palavras e nas mostras de fora, que nas obras. Chegando os nossos a pouco mais de tiro de espingarda, das cavas que estavam por fora do muro, nos saíram por duas portas cerca de mil até mil e duzentos homens, segundo o esmo de alguns, dos quais cento até cento e vinte eram a cavalo, ou para melhor dizer, de sendeiros bem magros. Estes começaram a escaramuçar de uma parte para outra, e o fizeram tão bem e tão despejadamente que as mais das vezes se encontravam uns com os outros, e em muitas delas caíam três e quatro no chão, por onde se entendeu que devia ser gente do termo que viera ali vinda mais por força que por sua vontade. António de Faria esforçou alegremente os seus para a peleja, e fazendo sinal aos juncos esperou os inimigos fora no campo, parecendo-lhe que ali se quisessem averiguar com ele, segundo a fanfarronice das suas mostras prometia; eles, tornando de novo à escaramuça, andaram um pedaço à roda como se debulhassem calcadouro de trigo, parecendo-lhes que só aquilo bastava para nos desviarem do nosso propósito, porém vendo que nós não voltávamos o rosto como lhes pareceu ou porventura desejavam, se juntaram todos num corpo e assim juntos e mal concerta dos se detiveram um pouco sem virem mais para diante. O nosso capitão, vendo-os daquela maneira, mandou disparar a espingardaria toda junta, a qual até então estivera sempre quieta, e prouve a Deus que se empregou tão bem que dos de cavalo que estavam na dianteira, mais de metade vieram logo ao chão. Nós, com este bom prognóstico arremetemos todos a eles, bradando sempre pelo nome de Jesus, e quis ele por sua misericórdia que os inimigos nos largaram o campo fugindo tão desatinadamente que uns caíam por cima dos outros, e chegando a uma ponte que atravessava a cava, se embaraçaram de maneira que não podiam ir para trás nem para diante. Nesta conjunção chegou até eles o corpo da nossa gente, e os trataram de maneira que mais de trezentos ficaram logo ali deitados uns sobre os outros, coisa lastimosa de ver, porque não houve nenhum que arrancasse espada. Nós, com o fervor desta vitória arremetemos logo à porta e nela achámos o mandarim com cerca de seiscentos homens consigo, o qual estava em cima de um bom cavalo, com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um tal Tomé Pires, que El-Rei D. Manuel da gloriosa memória mandara como embaixador à China, na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o Estado da Índia, Lopo Soares de Albergaria. O mandarim, com a gente que tinha consigo nos quis fazer rosto ao entrar pela porta, com o que entre eles e nós se travou uma cruel briga, em que por espaço de quatro ou cinco credos se iam eles já metendo connosco com muito menos medo que os outros da ponte, se um moço nosso não derrubasse o mandarim do cavalo abaixo com uma espingardada que lhe deu pelos peitos, com o que os chins ficaram tão assombrados que todos juntamente voltaram logo as costas, e se começaram a recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, e nós todos de volta com eles, derrubando-os às lançadas, sem nenhum ter acordo de fechar as portas, e levando-os assim como a gado por uma rua muito comprida, saíram por outra porta que ia para o sertão, ao qual se acolheram todos sem ficar nem um só. António de Faria, recolhendo então a si toda a gente, para não haver algum desmancho, se fez todo num corpo e se foi com ela à chifanga, que era a prisão onde os nossos estavam, que em nos vendo deram uma tamanha grita de .. Senhor Deus misericórdia>>. que fazia tremer as carnes. E mandou logo com machados quebrar as portas e as grades. e como o desejo e o fervor disto era grande. em um momento foi tudo feito em pedaços. e os ferros com que os cativos estavam presos. logo tirados. de maneira que em muito breve espaço os companheiros todos estavam soltos e livres. E foi mandado aos soldados e à mais gente da nossa companhia que cada um por si apanhasse o que pudesse. porque não havia de haver repartição nenhuma. senão que o que cada um levasse havia de ser tudo seu. mas que lhes rogava que fosse muito depressa. porque lhes não dava mais espaço que só meia hora muito pequena. ao que todos responderam que eram muito contentes. Então se começaram logo uns a meter pelas casas. e António de Faria se foi às do mandarim. que quis por seu quinhão. onde achou oito mil taéis de prata somente. e cinco boiões grandes de almíscar que mandou recolher. e o mais largou aos moços que iam com ele, que foi muita seda, retrós, cetins, damascos, e barças de porcelana finas, em que todos carregaram até mais não poderem. de maneira que as quatro barcas e as três champanas em que a gente desembarcara, por quatro vezes se carregaram e descarregaram nos juncos, tanto que não houve moço nem marinheiro que não falasse de caixão e caixões de peças, fora o secreto com que cada um se calou. Vendo António de Faria que era já passada mais de hora e meia, mandou com muita pressa recolher a gente, a qual não havia coisa que a pudesse desapegar da pressa em que andava, e na gente de mais conta se enxergava ainda isto muito mais. Pelo que, receoso ele de lhe acontecer algum desastre, por se já vir chegando a noite, mandou pôr fogo à cidade por dez ou doze partes, e como a maior parte dela era de tabuado de pinho e de outra madeira, em menos de um quarto de hora ardeu tão bravamente que parecia coisa do inferno. E retirando-se com toda a gente para a praia, se embarcou sem oposição nenhuma, e todos muito ricos e muito contentes, e com muitas moças muito formosas, que era lástima vê-las ir atadas com os morrões dos arcabuzes, a quatro e quatro, e cinco a cinco, e todas chorando, e os nossos rindo e cantando. Do mais que António de Faria passou até chegar às portas de Liampó Sendo António de Faria embarcado com toda a gente, como era já tarde, não se atendeu por então a mais que a curar os feridos, que foram cinquenta, de que oito eram portugueses, e os mais escravos e marinheiros, e a mandar enterrar os mortos que foram nove, em que entrou um português. E passando a noite com boa vigia, por causa dos juncos que estavam no rio, logo que a manhã foi clara se foi a uma povoação que estava da outra parte à borda da água e a achou despejada de toda a gente, sem se achar nela uma só pessoa, mas achou as casas com todo o recheio de suas fazendas e infinitos mantimentos, com os quais António de Faria mandou carregar os juncos, receoso que pelo que ali tinha feito lhos não quisessem vender em nenhum porto onde fosse. E com isto se determinou, com parecer e conselho de todos, ir invernar os três meses que lhe faltavam para poder fazer sua viagem, a uma ilha deserta que estava ao mar de Liampó quinze léguas, que se chamava Pulo Hinhor, de boa aguada e bom surgi douro, por lhe parecer que indo a Liampó poderia prejudicar a mercancia dos portugueses que lá invernavam quietamente com suas fazendas, a qual determinação e bom propósito todos lhe louvaram muito. Partidos nós daqui deste porto de Nouday, havendo já cinco dias que velejávamos por entre as ilhas de Comolém e a terra firme, um sábado ao meio-dia nos veio acometer um ladrão de nome Prematá Gundel, grandíssimo inimigo da nação portuguesa, e a quem já por vezes tinha feito muito dano, tanto em Patane como em Sunda e Sião e nas mais partes onde acertava de os achar a seu propósito, e parecendo-lhe que éramos chins, nos acometeu com dois juncos muito grandes em que trazia duzentos homens de peleja, fora a equipagem da mareação das velas; e aferrando um deles o junco de Mem Tarborda, o teve quase rendido; porém o Quiay Panjão, que ia um pouco mais ao mar, vendo-o daquela maneira voltou sobre ele e abalroou o junco do inimigo assim enfunado como vinha, e tomando-o pela quadra de estibordo lhe deu tamanha pancada que ambos ali logo se foram ao fundo, com o que Mem Taborda ficou livre do perigo em que estava. A isto acudiram com muita pressa três lorchas nossas que António de Faria levara do porto de Nouday, e quis Nosso Senhor que chegando elas, salvaram a maior parte da nossa gente, e os da parte contrária se afogaram todos. Neste tempo chegou o Prematá Gundel ao junco grande em que ia António de Faria, e aferrando-o com dois arpéus atados em cadeias de ferro muito compridas, o teve atracado de popa e de proa, onde se travou entre eles uma briga muito para ver, a qual depois de durar espaço de mais de meia hora, os inimigos pelejaram com tanto esforço que António de Faria se achou com a maior parte da sua gente ferida, e com isto por duas vezes em risco de ser tomado; porém, acudindo-lhe então as três lorchas e um junco pequeno em que vinha Pêro da Silva, prouve a Nosso Senhor que com este socorro tornaram os nossos a ganhar o que tinham perdido, e apertaram os inimigos de tal maneira que em pouco espaço se acabou o negócio de concluir de todo, com morte de oitenta e seis mouros que estavam dentro do junco de António de Faria, e o tinham posto em tanto aperto que os nossos não tinham já mais nele do que o chapitéu da popa. E daqui, entrando no junco do corsário, meteram à espada todos quantos acharam nele, sem a nenhum conservarem a vida, e a equipagem se tinha já toda lançado ao mar. Mas não se houve esta vitória tão barata que não custasse as vidas de dezassete dos nossos, nos quais entraram cinco portugueses, dos melhores soldados e mais esforçados de toda a companhia, e quarenta e três muito feridos, dos quais um foi António de Faria que ficou com uma zargunchada e duas cutiladas. Concluída assim esta briga, se fez inventário do que o junco dos inimigos trazia, e foi avaliada a presa em oitenta mil taéis, de que a maior parte era prata do Japão que o corsário tinha tomado em três juncos de mercadores que vinham de Firando para o Chinchéu, de modo que só nesta embarcação trazia este corsário cento e vinte mil cruzados, e no junco que se foi ao fundo disseram que trazia quase outro tanto, com o que muitos dos nossos ficaram bem magoados. Com esta presa se recolheu António de Faria a uma ilha pequena chamada Buncalou, que estava dali a três ou quatro léguas para a parte do oeste, de boa aguada e de bom surgidouro, e desembarcando em terra esteve nela dezoito dias agasalhado em choças que aí se fizeram, por causa dos muitos feridos que levava, onde quis Nosso Senhor que todos tiveram saúde. E dali seguimos nossa rota para onde levávamos determinado, António de Faria no seu junco grande e Mem Taborda e António Anriquez no seu, e Pêro da Silva no pequeno que se tomou em Nouday, e o Quiay Panjão com todos os seus no que se tomou ao ladrão, em satisfação do que tinha perdido, com mais vinte mil taéis que se lhe deram do monte maior, com o que se ele deu por bem pago e satisfeito, e todos os nossos foram também contentes com isso, por lho António de Faria pedir com grande instância, e muitas promessas para o diante. E navegando nós desta maneira, chegámos dali a seis dias às portas de Liampó, que são duas ilhas a três léguas donde naquele tempo os portugueses faziam o trato de sua fazenda, que era uma povoação que eles tinham feito em terra, de mais de mil casas, com governança de vereadores, e ouvidor, e alcaides, e outras seis varas de justiça e oficiais da república, onde os escrivães no fim das escrituras públicas que faziam, punham: -<> -como se ela estivera situada entre Santarém e Lisboa, e isto com tanta confiança e ufania que havia já casas de três mil cruzados de custo, as quais todas tanto grandes como pequenas, por nossos pecados foram depois de todo destruídas e postas por terra pelos chins, sem ficar delas coisa em que se pudesse pôr os olhos, como mais largamente contarei em seu lugar. E então se verá quão incertas são as coisas da China, de que nesta terra se trata com tanta curiosidade, e de que alguns enganados fazem tanta conta, porque em cada hora estão arriscados a muitos desastres e desventuras. Do que fez António de faria chegando às portas de Liampó, e das novas que aí teve do que se passava no reino da China Por entre estas duas ilhas a que os naturais da terra e os que navegam aquela costa chamam as portas de Liampó, vai um canal de pouco mais de dois tiros de espingarda, de largo, com fundo de vinte até vinte e cinco braças, e em partes tem angras de bom surgidouro e ribeiras frescas de água doce, que descem do cume da serra por entre bosques de arvoredo muito basto de cedros, carvalhos e pinheiros mansos e bravos, de que muitos navios se provêem de vergas, mastros, tabuado e outras madeiras, sem lhes custarem nada. Surgindo António de Faria nestas ilhas uma quarta-feira pela manhã, Mem Taborda e António Anriquez lhe pediram licença para irem adiante dar recado à povoação de como ele era chegado, e saber as novas que havia na terra, e se se dizia ou soava por lá alguma coisa do que ele fizera em Nouday, porque se a sua ida lá prejudicasse em alguma coisa a segurança e quietação dos portugueses, se iria invernar à ilha de Pulo Hinhor, como levava determinado; e que de tudo o mandariam avisar com muita brevidade, ao que ele respondeu que lhe parecia muito bem e lhes deu a licença que pediam, e escreveu também por eles algumas cartas aos mais honrados que então governavam a terra, em que lhes dava relação de todo o sucesso da viagem, e lhes pedia por mercê que o quisessem aconselhar, e lhe mandassem o que queriam que fizesse, porque ele estava muito prestes para lhes obedecer em tudo, e outras palavras a este modo, que sem nenhum custo resultam às vezes em muito proveito. António Anriquez e Mem Taborda se partiram aquele mesmo dia à tarde, e António de Faria se deixou ali ficar surto até ver que recado lhe mandavam. Chegados os dois à povoação, já com duas horas de noite, logo que a gente dela os viu e soube deles as novas que traziam e todo o sucesso da sua viagem, ficaram tão espantados quanto a novidade do caso o requeria, e juntando-se a som de sino tangido na igreja de Nossa Senhora da Conceição, que era a matriz de seis ou sete que havia mais na terra, trataram entre si sobre o que aqueles dois homens tinham dito; e vendo a liberalidade que António de Faria usara com eles e com todos os mais que tinham sua parte no junco, assentaram em lhe satisfazer em parte com mostras de amor e agradecimento, o que por sua pouca possibilidade em todo não podiam; e respondendo-lhe às suas cartas com uma geral, em que todos assinaram como consulta de câmara, lha mandaram com duas lanteas de muito refresco, por um tal Jerónimo do Rego, homem fidalgo e com cãs, e de muito saber e autoridade, na qual lhe relataram com palavras de grande agradecimento, a muita obrigação em que todos lhe estavam, tanto pela mercê que lhes fizera em lhes livrar suas fazendas das mãos dos inimigos, como pelo muito amor que lhes mostrara na liberalidade que usara com eles, a qual esperavam que Deus Nosso Senhor lhe pagaria com abundantíssimos bens na sua glória. E que quanto a se temer de invernar ali pelo que fizera em Nouday, estivesse nisso muito descansado, porque não andava a terra ao presente tão quieta que isso se pudesse lembrar, tanto pela morte do rei da China como pelas dissensões que havia em todo o reino em treze opositores que pretendiam o ceptro dele, os quais todos estavam já postos em armas com seus exércitos em campo, para pela força averiguarem o que se não podia determinar por justiça; e que o tutão Nay, que era a suprema pessoa depois do rei em todo o governo com mero e místico império da majestade real, estava cercado na cidade de Quoansy, pelo Prechá Muão, imperador dos conchins, em cujo favor se tinha por certo que vinha o rei da Tartária, com um exército de 900 mil homens; assim, que a coisa andava tão baralhada e dividida entre eles, que ainda que sua mercê assolasse a cidade de Cantão, se não faria caso disso, quanto mais a cidade de Nouday, que na China em comparação com muitas outras, era muito menos que em Portugal pode ser Oeiras com Lisboa. E que, pela certeza de tão boa nova pediam todos a sua mercê, alvíssaras, que se deixasse ali estar surto seis dias, para que neles tivessem eles tempo de lhe negociarem umas casas em que se agasalhasse, já que não prestavam para mais, nem por então podiam mostrar o muito que lhe deviam, conforme o desejo que todos tinham disso, e outras palavras de cumprimentos muito copiosos a que ele respondeu como entendeu que era razão, e lhes quis fazer a vontade no que lhe pediam. E nas duas lanteas em que lhe trouxeram o refresco, mandou os feridos e os doentes que havia na armada, os quais os de Liampó agasalharam com muita caridade, e os repartiram pelas casas dos mais abastados, onde foram curados e providos de tudo o necessário muito cumpridamente sem lhes faltar nada. E em todos estes seis dias que António de Faria aqui esteve, não ficou homem de nome na povoação ou cidade, como todos lhe chamavam, que o não viesse visitar com muitos presentes de muitas invenções de manjares e refrescos, e frutas, em tanta abundância que todos pasmávamos do que víamos, e principalmente do grande concerto e aparato que estas coisas traziam consigo.