Marés de MarJ[IÔ··TEXtREAdkÆÔÔ Ô0Ô@ÔPÔ`ÔpԀԐԠ԰ÔÀÔÐÔã Title: Marés de Mar Author: Luísa Dacosta CreationDate: Mon Jul 13 15:51:00 BST 2009 ModificationDate: Tue May 19 22:20:00 GMT 1970 Genre: Description: Marés de Mar Luísa Dacosta Marés de Mar resulta de uma compilação de crónicas extraídas dos livros A-Ver-O-Mar e Morrer a Ocidente, de Luísa Dacosta, que gentilmente autorizou esta publicação. © 1997, Luísa Dacosta e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8127-89-8 Lisboa, Maio de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** MARÉS DE MAR A-VER-O-MAR De que cor é este mar, nunca igual e sempre diferente, de ritmos vários, cadenciado como o bater certo dos remos, inquieto como a ansiedade dos que trazem os afectos sobre as ondas, fervente como um cachão raivoso, quieto, quieto, marginado pela linha, rubra, do crepúsculo? De que cor é este mar, onde se miram nuvens e gaivotas, onde se esfriam e se apagam as estrelas da madrugada? Azul. Azul, como o manto das imagens milagrosas. Azul, como o olhar perdido dos náufragos. Azul da cor da noite. Verde fel. Verde da cor dos limos. Verde da cor dos barcos. Loiro cor de areia, das tranças e do cordame. Ferrugem, cor das âncoras e das redes. Castanho cor do sargaço. Palhetado de sol e luz. Irisado, como as escamas dos peixes. Rosa, como certas algas e corais, como a garridice das blusas em dias festivos. Rosa, como as flores de papel do altar do padroeiro. Vermelho da cor das guelras. Sanguíneo. Violáceo, cor de tinta. Roxo, como uma quaresma líquida. Cinzento. Brumoso de névoa e mistério. Metálico, como uma roda de navalhas. Branco de sal e espuma. Branco da cor das velas. Negro, como as faixas das mulheres e o luto das viúvas. Sem cor, como a angústia das que não têm sequer um cadáver para velar. Por ele navegam, sem destino, como bússolas doidas, para lá da linha do horizonte, do que a vista alcança, tentando rondar o desconhecido de outras paragens e ilhas, as saudades das noivas, das mulheres, cujo leito arrefece durante os seis meses de safra do bacalhau ou durante anos, à espera do emigrante que se foi e não voltou ainda. Nele se perde o olhar do Manuel Neto, todos os dias ancorado na areia, como um barco inútil, agora que o genro lhe tirou o comando do Temos Fé. Indiferente à nortada, alheio ao cigarro apagado, longamente se despe de deste mar traiçoeiro, que lhe roubou três filhos – <> -deixando que os olhos se lhe encham de azul e distância e se lhe ceguem, de todo, na noite que desce, primeiro arroxeada, como um coração pisado, depois negrume e névoa, até que uma voz infantil o acorde: <<Ó Bô! Ó Bô! venha cear!>> Nele se concentram, teimosamente, enxutos e duros, os pesares da Fátima que há três meses espera carta e todas as noites tem de amassar a certeza dessa mágoa com a esperança dumas letras, que alentem a sua carne viúva. De que cor é este mar, de ondas que se britam nas Pedras do Canto e se desfazem em milhões e milhões de gotas translúcidas, frias como lágrimas? De que cor é este mar de saudade? -É o que lhe digo. O mar tem jardins... Jardins, cheios de búzios, corais e concheiros…A areia é lá tão fina como o pó do oiro. As árvores são maores que pinheiros velhos e os peixes andam de galho em galho, como aqui os pássaros. Como sei? Ora sei, porque sei. Há coisas que a gente sabe com o coração, sem precisar de as ver. Mas olhe, que já uma vez andava com o Joaquim Poixo a pescar a mais de sessenta braças e me saiu enleado na nassa um ramo prufeito, mais lindo que uma palma, vindo dos jardins do mar. Bem olhei para o fundo, bem tentei descobrir, mas quê? Olhos de vivo não profundam segredos. E os mortos, mesmo os que dão à costa, são mudos como peixes. Aqui há anos perigaram três homens num barquito ali ao norte, pró Quião, pai, filho e sobrinho. Morreram sem tempo de um padre-nosso, à vista de terra, com a boquinha cheia de água. Passados dias, quando lhes rebentou o fel, o pai e o filho apareceram aboiados, de bruços, enormes, como barris à tona. Vieram encalhar aqui nas Pedras do Canto. Mas o outro nunca mais apareceu. As correntezas levaram-no para o alto, para lá da Forcada, para lá do rumo das traineiras, que andam à sardinha. Ninguém mais o viu. Ninguém mais soube dele. Mas eu futuro que devia ter descido aos jardins do mar, onde o sol não chega e onde não há escuridão de bréu. Os olhos dos peixes são como farolins e as cores tão fortes que alumeiam mais do que o lume, vivo, das estrelas. Os vermelhos espilram como sangue, as brancuras brilham como sal. E as algas são mais verdes do que o milho depois da chuva. E tudo bule, movido pelo vento das funduras, tudo lavado pelo cristal das águas... Será tolear de velho, será, e Deus me perdoe se nisto peco, pois sou cristão baptizado, mas se não fosse por ter de morrer com a boca cheia de água, que é morte ruim, não se me dava de ver aqueles jardins. Não deve de haver nada mais alindado. Olhe que até no rebotalho que o mar nos atira se conhecem aquelas prufeições. Já viu as cores do sargaço, quando sai à beirada? É mais macio que cabelo de mulher. A francelha, então, é uma penugem! E aquele encrespado do botelho? Não há coisa semeada por mão de homem que com aquilo tenha comparança. Eu até quando preparo a isca prá faneca cismo naquele azul do mexilhão aberto. Não há azul d'olhos que lhe faça sombra. Nem os da minha neta Deolinda e mais parecem contas de vidro. Ah! o mar tem lindezas ...mas quem as conhece? Quem se pode gabar de as ter visto com os olhos que a terra há-de comer? Ao deslado da enseada ergue-se, solitária, a pedra. As marés submergem-na, mas todos os dias vem uma hora que descobre sua beleza, hirta, lavada e só. Manhã de vento. Limpa de névoas e de nuvens. Na janela de terra, onde nasce o Sol, coroada de asas. Na janela do mar, onde o Sol se afoga, salina e azul. São poucos os colmeiros de sargaço que bordejam a estrada, logo acima do acampamento, colorido e buliçoso, dos ciganos. Anesa escassa. Por isso se semeiam muitos pelas traineiras e pelos bancos de bacalhau. Ainda outro dia o Joaquim Serrinha, que se me tinha chegado para uma fala de boas-vindas, rematou judiciosamente à despedida: -I-isto é b-boa t-t-terra para se c-comer o ga-g-ganhado, m-mas má p-pró g-ganhar! Felizmente chegaram as marés vivas. E tem havido faina desde o amanhecer. Todos têm querido valer-se da fartura para terem com que culturar a batata do próximo ano. A praia tem estado transformada numa assembleia de famílias até lá para o norte, para o Quião, onde a azáfama não é de barcos nem de nassas -as grandes redes em forma de saca -de que aqui se servem os pescadores de adubo, porque o fundo é arenoso, mas de cortiços, que habilmente governam entre a penedia, enquanto segam o sargaço com o foicinhão. Hoje é um louvor a Deus de barcos, que andam no baloiço das ondas. Senhora das Neves. S. Pedro. Sagrada Família. Vamos com Deus. E outros. Só o Fliz Ventura se quedou, abandonado à minha porta. E uma rapariguinha solitária, sem irmãos que a tornem mãe, balança-se numa corda, que lhe passou pela proa. Os rapazes divertem-se fazendo deslizar as canelas, como se fossem trenós, sobre os paus rolados. Mas às vezes um ou outro abandona a brincadeira à voz imperiosa da mãe: -Ó desgraçado! Vai pegar na menina que está a chorar! -Já aí vêm os nossos! Despacha-te, António! A areia está toda revolvida pelo vai-e-vem carregado das carrelas que as mulheres, faixa preta a cingir-lhes os rins, transportam afanosamente. Já há quem estenda as primeiras colheitas e um ventinho fresco despenteia, nas gravetas, o dourado húmido e marinho do sargaço que, assim ao sol, tem a ondulação do cabelo das sereias. Uma família traz um barco para riba, rolando-lhe a quilha ensebada sobre os paus anavalhados com a marca familiar. Outros esperam ainda o regresso dos seus. Mas quase não há palmo de areia que não tenha um talhão a enferrujar-se e a acastanhar-se ao sol. Almoça-se, em grupos. Carrelas ao alto. Nassas e cordame a secar. Muitos não voltarão a fazer-se às ondas. Gente anfíbia, pés nos lameiros e braços nos remos, a tarde vão dá-la às leiras. O Maçães deu o trabalho por findo. Pita um cigarro e limpa o barco com o vertedouro. Ainda quer ir dar uma olhadela ao milhão. -Pois que remédio! O dinheiro não chega para enfrentar tudo e a terra com zelo e cuidado sempre dá. Sempre são os feijões, as batatas, as couves pró caldo e o milhinho e o pão que se forram. Olhe os que só têm a arte! Lá andam na sardinha e no bacalhau, e se as coisas correm de feição, vêm cheios. Mas quê? Enquanto eles por lá andam as mulheres e os filhos passam nacidade e até fome. Quando chegam estão empenhados. Têm de comprar o comer e o vestir. Não chegam a forrar nada. Depois, sem ocupação, consumem o resto na taberna. O mar não chega para ocupar um homem. É só faina de Verão. Este é o arrazoado do Maçães que tem terras, mas os que as não têm? Muitos nem leiras nem barco. São forçados a assoldadar-se aos dias e às manhãs e, como o ano tem sido falheiro, nem os pobres fazem uma mantinha de sargaço com a ajuda do ganha-pão. Fim de tarde. Chegam as primeiras carroças que vêm recolher o sargaço estendido a secar. De súbito, uma voz rasga a praia: Arga-a-a-a-aço! Arga-a-a-a-aço! É como um toque a rebate. Vindas de todos os lados da aldeia acorrem mulheres armadas de ganha-pão e graveta. Parece um motim. Metidas na água até aos peitos, sem medo da viveza das ondas, nem do frio da nortada, dispõem-se a arrancar o pão ao mar. Indiferentes, os das carroças continuam a carregar o sargaço que os familiares vão empadelando num jeito, todo agrícola. São os donos dos barcos e das terras. Podem desprezar aquela luta pelo sargaço da beirada. Podem deixá-la à Rosária que tem o homem empregado vai para dezoito meses. À Fé, à Elisa, à Fátima que deve na farmácia e tem a filha cada vez mais desolhada pela desinteria e pela rabugem dos dentes. Os filhos ajudam-nas e só os mais pequenos ficam na areia, embiocados em xailes. Alguns afoitam-se querendo mostrar-se adultos, até que as mães os repreendem: -Arreda daí, alma danada! Não vês que o mar espanca muito?! -Corá-á-á-lia! Corá-á-á-lia! Prá trás! O Sol está a desaparecer sobre o mar, oleoso, castanho e violáceo, grosso ainda de ondas altas. As mulheres são, agora uma chusma escura, da cor dos penedos. Já poucas carroças estão na praia. Todos se apressam para a ceia. A nortada torna-se mais fria. Passam, também, as primeiras mulheres de regresso. Derreadas pela enorme corcunda do ganha-pão a escorrer, transformadas em animais de quatro patas, de tal maneira a carga as força a inclinarem-se. Assim vão até casa, pois aquele migalho nem vale a pena ser estendido na areia, secam-no à soleira. As águas começam a morrer e embatem já com menos fragor na Forcada. Em breve o sargaço desaparecerá. Passa outra mulher. Uma outra. Outra ainda. Procissão de animais, baços, na contraluz. O mar é cada vez mais uma quietação carregada de sombras que a nortada parece acumular. Os barcos e os remos, ao alto, ganham uma imobilidade estática e nocturna. Pela praia, deserta, galopa um potro novo, que dois ciganos incitam na corrida. Não tarda que a luz nasça. Era neta e filha de pescadores. As suas raízes, como as das algas, estavam naquela imensidão de águas sem fim. Rosina sabia o mar como os seus dedos. Seu regalo eram as conchinhas, estrelas, ouriços, tintureiros, buzinas, que marcavam o rasto das ondas, onde, paciente, descobria seus tesouros. Seus brincares as fontes, os corguinhos, os jardins da maré vaza, transparentes de areia lavada e quieta, riscados por cardumes gelatinosos, onde floriam, roxas, vermelhas, verdes, as anémonas e o mexilhão, aberto, oferecia o ferrete, azul, das suas conchas naufragadas. Quando ia ajudar a varar o barco, o avô entregava-lhe a gamela das fanecas, que não iam à lota, as da ceia. E, quando no caminho de casa, ele lhe pegava ao colo, Rosina pedia: -Vocemecê não me leva ao mar, avô? -Tu és da terra. O nosso Quim é que se há-de afazer a ir connosco, quando deitar mais corpo. -Ó avô, mas eu também queria ir... E o avô ria daquela teimice de menina. Rosina amuava: já tão espigada e fazedeira e ninguém a tomava a sério... À hora da ceia, esquecida do amuo, insistia: -Ó avô, como é o mar longe? -Como queres tu que seja, rapariga! Como o daqui. Azul, sempre igual. Aquilo dizia o avô para lhe calar a boca e poder falar à vontade com o pai das más pescarias e do tempo. O avô não era mentideiro e sabia que o mar não era sempre azul. E então o mar cinza, pescoço de pombo? E o mar branco, asa de gaivota? E o mar lombo de ruivo, ao entardecer? E o mar azul, azuis muitos, de mexilhão aberto? E o mar verde, verdes limos? Perigos teria. Havia de ter, pois sempre rezavam pelos que andavam sobre as ondas. E marés havia que não eram marés de mar, quando o avô e o pai rondavam a praia, se sentavam ao pé do barco, mas não se faziam às ondas, que rebentavam, ferventes, na enseada do sul, toldada pela ceguidão da névoa. Depois clareava. Longe, passavam os navios, ao rés da linha, em que o mar tocava o céu. Que haveria para além? Nisso cismava Rosina. Deixara, porém de fazer perguntas. À noite, fechava-se, como uma anémona, quando se lhe toca e punha-se a sonhar. Fantasiava a outra margem da imensidão, onde molhava os pés à beirada. A barranha do penedo seria loura, como um favo. Lapas empenachadas de limo e botelho abririam boquinhas sôfregas, com o movimento das ondas, miúdas, de flor branca, empurradas por um ventinho brincalhão, que despenteasse as guelras vermelhas e denteadas das algas. Cardumes de peixes viriam comer-lhe à mão, como pintos. E brincaria aos quatro cantinhos com as pulgas que eternamente jogam aquele jogo no areal. Todas as noites, como quem acrescenta um beijinho novo à fiada de antigo colar, afeiçoava aquele sonho. Partia, numa barca de espumas feita, a todo o vento, para a outra margem do mar, para o longe sem fim, de além e distância. Todas as noites deixava a enseada, as camas de sargaço, estendidas a secar e se fazia às ondas e ao sonho. Como encontraria o caminho? Ora, as estrelas subiriam à tona para lhe indicar seu rumo, sem norte nem sul. E se friasse? Os peixes ruivos ou as fanecas lhe trariam um xalinho, arrendado, de chorão do mar, para agasalho e acabaria por chegar à outra margem, cheia de rochas-grutas, onde o seu nome: Rosina-ina-ina, som de bazio ficasse. Quando o avô e o pai fumavam, cismentos, a menina desdobava, lenta, o novelo dos sonhos e partia na sua barca de espumas. E todas as noites adormecia, antes de chegar à outra margem do mar. Duas pancadas, conforme o combinado. Vi o relógio. Cinco menos um quarto. Quando a mãe da Rita e eu saímos para a noite, a nortada varria um mar cinzento de espuma batida, mas não as estrelas, altas e claras. -Bom dia! -Bom dia! Boa pesca! Eram os que partiam para a faneca, na escuridão. Os cães dormiam ainda, mas a Rita já nos esperava. E, como a Clemência não tinha aparecido desandámos, ambas para o norte a chamá-la, pois pegavam a trabalhar às seis e até à Póvoa era um estirão. A Clemência bem o sabia e não demorou. Agora era andar a passo certo. Chegadas ao cruzeiro metemos a uma azinhaga -a do rio das cavaleiras que parecia um roteiro de estrelas. - Não se podem contar – preveniu a Rita. Pois não, eram tantas! Mas não era isso explicou: contar estrelas fazia crescer cravos nas mãos, conforme acreditava a credulidade dos seus quinze anos, tão causticados no trabalho. É duma família onde se trabalha duro e não tinha hesitado em aceitar aquele serviço, apesar da hora e das caminhadas, para ajudar ao pão comum. Ao meu lado, aconchegava-se na mantinha, que trouxera: acha que fria e que o tempo a pede. Em A-Ver-O-Mar diz-se: <> e às vezes a nortada parece confirmá-lo. À nossa frente segue outro grupo, pois são cerca de vinte as contratadas pela câmara para varrerem as ruas no mês em que os banhistas tomam a praia de assalto. A Rita conta: quatro do sul, quatro da beira da igreja, treze do norte, afinal vinte e uma, ao todo. As casas escurecem a noite escura, mal lavada pelo caiado, baço, das paredes. Já na estrada nacional, ouvem-se os sinos de Amorim: a primeira missa. Raros faróis sangram o empedrado. Às vezes, por espaço breve, acompanha-nos o baguinho de luz das lanternas das carroças, que passam a caminho da praça. Já à entrada da Póvoa colhe-nos um cheiro a pão quente e como que uma mancha, luarenta, de farinha, logo escurecida pelos vultos, embuçados, à porta da igreja, ainda fechada. O casario dorme. E as luzes acesas dos candeeiros, ao rés das árvores dum jardim, tornam o céu distante. É ali que têm de apresentar-se. Um grupo corre e as saquitas dos almoços oscilam e alegram a madrugada. Surgem com as vassouras ao ombro a Maria da Graça, que tem cinquenta anos e vai para os lados do cemitério, a Joaquina Machado, também de cinquenta anos e a filha, Josefina, de dezassete. Para a Av. Mouzinho, a Carolina Rodrigues e a filha Dores de vinte e dois. a Ana Torres de dezasseis, a Maria Vitória de quinze, a Irene da Conceição de vinte e quatro, a Zulmira Sencadas de dezoito, a Lourdes de vinte e nove e outras que se espalharão por essas ruas. A Rita e a Clemência partem para a Junqueira. Acompanho-as. E as vassouras começam a arranhar aquele túnel, deserto, onde bóia um cheirinho a pão saído do forno, que quase se pode trincar nos dentes. Tenho a certeza que a Rita é mais pequena que a vassoura. -E já ma trocaram. Esta, agora, é mais ao meu tamanho, mas não sou a mais nova... A mais nova é a B1andina, que tem catorze anos e anda na praia do peixe no grupo da Maria do Alívio, a mais velha: sessenta e seis anos, tão gastos! -Quem fez a Póvoa? Os pescadores. Aquele que além está (aponta a estátua do cego do Maio) salvou muita gente de morrer afogadinha, mas que boga?! A Póvoa já não é dos pescadores. Nasci aqui e aqui fui criada e fui botada fora. O prédio, onde morava, na Rua latino Coelho, foi vendido prós ricos, prós praiantes, e escorraçaram-nos: uns pràs Caxinas, outros pra Matosinhos. Eu que já não tenho ninguém fui prà Abremar, pró pé duma sobrinha. A sina que me toca é andar, desta idade, a varrer ruas. Tanta gente a dormir, de nascente a poente, e nós pràqui a esgadanhar uma côdea seca! -E mostra o pão de véspera, que traz no bolso do avental para o desjejum. Um pão a que falta uma bucha, que repartiu com uma criança. -Quanto ganha? -Vinte cinco mil-réis…e ela (com o dedo espeta a Blandina) que ainda não tem dezoito, ganha só vinte. Isto devia de ser botado a um jornal a ver se nos chega a reforma! -Ri-se. Um riso trágico, descrente e desdentado. Às seis e meia, as estrelas empalidecem e o meio anel, dourado, da lua, azula-se e esfria. As vassouras levam na frente bilhetes de camionete, de automotora, invólucros de cigarros, nacionais e estrangeiros, bocados de jornal, cascas de banana, de melancia, pauzinhos de sorvete. Os vendedores de melão, que dormiram ao relento, abrigados por uns caixotes e um guarda-chuva, sacodem o sono e o inconforto da vida. O emadeirado das barracas e dos toldos veste-se de riscas azuis, verdes, vermelhas, cor de canela. Passam carroças de sargaço. Passam, caem as sete na torre de S. José, as primeiras banhistas, as que se banham vestidas, agarradas à corda, sentadas ou de joelhos, aos gritinhos, sob a vigilância do banheiro -céus, como há trinta anos na infância!... A estas horas a Rita e as companheiras já varreram a Junqueira, a Rua do Paredão, a Rua dos cafés. Devem andar no Passeio Alegre. Outras na Rua Serpa Pinto, na Avenida dos Banhos ou na estação. Algumas comem o pão com o presigo de peixe, trazido nas saquitas, ao fundo da esplanada. É a pausa das oito para o desjejum. Que irão fazer, quando forem dispensadas daquele serviço? -Isto não é certo é trabalho de pouco mais e menos, não presta! A gente não tem emprego, porque se tivesse já se sabe que ninguém deixava o que tem pelo que lhe vem! Temos que nos agarrar. Roubar é que não! -afirma a Maria do Alívio. -Olhe, esfolhar milho, que vem aí o tempo, lavar casas, o que calhar... A maior parte, como a Blandina e a Ana Torres, voltarão ao sargaço. A Vitória e a Maria da Graça ao campo. A filha da Joaquina à costura. A Clemência vai tentar a fábrica da sardinha. E aquele dinheiro a que o destinavam? -É para a minha mãe, diz a Rita. -É para a côdea! afirmam outras. -Pouco é ele nem chega a luzir! Vai para quem se deve -queixa-se outra voz. -Pra que há-de ser? A gente come ao som do que ganha... Por essa uma hora, voltarão, a pé, para A-Ver-O-Mar. E a Rita com os seus quinze anos, maneirinhos, terá de fazer mais duas caminhadas, quando vier vender à lota a faneca, o ruivo, ou o badejo que o pai e o irmão tiverem pescado. Que lhe dará a vida como prémio? O amor físico, que terá de pagar, como a mãe, com a dor de dezoito filhos e a angústia de ter perdido dez? Um trabalho que, começa com estrelas e madrugada, e afinal as não tira do lixo? Amanhã é um novo dia. E a Rita sorri. Mar chãozinho. Águas azuis de tinta entornada. A vela, vermelha, do Monelhas que anda à faneca, é como um erro marcado na massa compacta dum ditado. Por entre os penedos, assomam as cabeças castanhas, ruças ou açafroadas dos lenços, da Lisabete, da Cintra, do Ção, da Júlia, que andam ao botelho. <>, e o botelho corre a três mil-réis o quilo. Por isso, quando a Lisabete e a Júlia, numa tentação, se distraem a apanhar uma estrela ou a perseguir um caranguejo entre os limos, a Cintra corta, cerce: <> O Nelo e o Beto gozam a sua liberdade de homens pequenos e botam traineiras de lata. Outros chapinam os corpos brancos e nus, nas poças soalhentas, alheios à névoa que o Quim faz nascer com seus mugidos, longos, de ronca da Póvoa. Enquanto ajeita um gigote de mexilhão, para isca, a Zira canta: O meu amor é José e eu queria um Joaquim. Com tanto home no mundo Algum há-de ser pra mim. Um bando de gaivotas perde-se para lá do Quião, a caminho do norte. A noite afeiçoa as areias, torna-as ondulantes, suaves dunas. Dá brilho à Lua e torna mais polida a lâmina das águas. -Noite, formosa noite, fala-me, não emudeças! Contenta-me! Diz-me que nasces dos meus olhos! MORRER A OCIDENTE Penélope incansável, a madrugada destece a urdidura dos filtros da noite, apaga a magia das sombras, esfria as estreias. Mas não cala o apelo mítico, que sobe dos abismos e se desgarra. Como lamento de ave, ecoa. Paira sobre as águas. Chega até mim. Longe no tempo e no fundo do mar, era uma sereia. Espuma de sonho e de impossível, habitava, sozinha, os abismos azuis. Os seus cabelos, que eram negros como a noite, enfeitava-os ela com escamas de sol e de luar, caídas nas águas que recolhia nas tardes quentes ou nas noites, luarentas e brancas. Entre corais, grutas, misteriosas funduras, vivia livre e feliz, baloiçando, nas correntes, o seu corpo de rapariga que era ao mesmo tempo, afuselado, como o dos peixes. A sua alegria dançava-a em prados de anémonas, entre o voo borboleteado das raias, esquivando-se ao abraço, frio, dos polvos com quem jogava ao esconde-esconde, naquela imensidão do mar, que as montanhas, as vastas planícies de areias finas e as florestas de algas tornavam maior. Tinha seus jardins privados com renques de górgonas, leques de delicadas nervuras, ondulantes, por onde evolucionavam bandos de peixes -semelhando migrações de pássaros que, mudamente, cantassem o silêncio. Mas amava acima de tudo o bailado das águas-vivas com suas umbelas translúcidas, acesas nas águas, como lunárias dos abismos. E os barcos naufragados, dormidos há séculos no fundo do mar, com o mistério do mundo dos homens que ela não conhecia e lhe estava vedado. Um dia, quando explorava um velho galeão doutras eras e nadava por entre as câmaras, que tinham sido os quartos, encontrou ao levantar a tampa de um baú ferrugento um pedaço de água-fixa, onde um rosto, extraordinariamente belo a olhava. De quem poderia ser? Em redor não havia ninguém -só ela e o rosto que parecia mirá-la interrogativa mente e com uma boca, coral-vivo, desabrochada e a sorrir. Seria o de uma mulher de antigas idades que ali ficara prisioneira? Não, era impossível. Quando se desviava o rosto desaparecia e o pedaço de água-fixa tornava-se uma lua desabitada. Mas se ela se debruçava, curiosa, sobre aquele luar líquido o rosto voltava também a debruçar-se e a sorrir-lhe, com o voo, nocturno, das sobrancelhas erguendo-se sobre uma palidez, ferida pelo coral-vivo da boca! -Quem és tu? -perguntou. O espelho reflectiu os movimentos da sua boca, mas não os ecos da sua voz. -És muda? Não podes falar? -apiedou-se. Com um gesto tentou afagar o rosto e foi nessa altura que reconheceu, dobrados, os movimentos, familiares, da sua mão. Aquele rosto era o dela! Que sensação estranha! E ninguém com quem poder partilhá-la. Ninguém para dizer: -olha! Ninguém a quem pedir: -vem! E o mar que até ali sempre lhe parecera um mundo maravilhoso de infindáveis surpresas, tornou-se-lhe, súbito, uma imensidão hostil e fria, onde se sentia perdida. Ah! como invejava os peixes! Tinham irmãos e irmãs e passeavam, em bandos, enxameando as florestas castanhas, verdes, rubras, das águas. Só ela era sozinha. Passou, então, a vir mais vezes à flor do mar invejando as aves, que fugiam na liberdade das suas asas, ou olhando a fixidez das estrelas, como ela presas no azul doutros abismos. Tinha braços e mãos, graciosas, mas de que lhe serviam? Ramos, hastes inúteis a que ninguém se prenderia. Tinha uma boca, mas não havia ninguém para chamar ou para beijar. E quando olhava, triste, o pedaço de água-fixa, o espelho não lhe fazia companhia, como que dobrava ainda a sua solidão. Nas noites de lua, enquanto penteava os seus cabelos com uma concha denteada -cantava aquela dor de ser sozinha, pois aprendera a transformar, em canto, a sua mágoa. Quem poderia ouvi-la? Ninguém acreditava já em sereias. E a sua canção, que gemia no vento e na noite, vinha quebrar-se na orla da praia, juntamente com o canto, partido, das ondas e com ele se confundia. Aquela orla tinha a forma de um crescente largo e aberto. Na ponta sul do crescente havia uma correnteza de penedos -e nessa direcção varavam os pescadores os seus barcos. A outra ponta, que se desfiava em enseadas pequenas e bocejantes, terminava duma forma selvagem e ciclópica. Nessa ponta, deserta, havia ninhos de rochas que se erguiam no meio das águas e as gaivotas sobrevoavam. Na maré vaza, o mar tinha uma ondulação, quase quieta, sem bainha de espumas, de ondinhas curtas que faziam um barulhinho moído e cantante. As águas de azul real ficavam aprisionadas na penedia da beirada, fazendo lantejoular o anil aquoso e escuro das conchas abertas do mexilhão naufragado, tornando de cristal os jardinzinhos de algas frisadas, de anémonas e de ouriços. Mas quando as ondas cresciam, os cavalos da maré com as suas crinas brancas, soltas ao vento, escarvavam furiosamente o areal, como se quisessem apossar-se da enseada, que se tornava uma corola, viva, de espumas bilradas. Nos dias de névoa, o horizonte cerrava-se perto e fechava as portas do mar, búzio ressoante, mistério e bruma -a que ninguém se atrevia. Ora nessa praia, vivia um rapaz, órfão de pai e mãe, que ajudava os pescadores a varar os barcos, e às vezes lhes vendia o peixe. Mas o seu maior gosto era mergulhar nas águas profundas, onde, desde cedo, aprendera a procurar conchas que levava também ao mercado. Numa manhã em que seguia um brilho lucilante afoitou-se mais fundo e ficou com um pé preso numa fenda de rocha. Em vão, procurou desprender-se. Debatia-se desesperadamente e já se dava por perdido, quando lhe pareceu ver um rosto entre as algas. Tentou estender os braços. Teria esboçado o gesto? Sentia-se morrer... Ao abrir os olhos, viu-se no ninho de rochedos que se erguiam no meio do mar, para além do extremo norte da enseada. Quem o teria libertado? Quem o teria arrastado até ali? O seu pé, ainda dorido, sangrava, mas estava salvo. Respirava o ar marinho e forte. Via, de novo, a orla nua e familiar da praia. Foi, então, que ouviu uma voz tilitante e grácil, vinda das águas. -Sentes-te bem? -Sinto -e ergueu, rápido a cabeça. Mas quem és tu? -Sou uma sereia... E o rapaz reconheceu o rosto que vira entre as algas, quando estava a perder o fôlego. -Foste tu que me salvaste? A sereia acenou que sim e os cabelos choveram-lhe sobre o rosto, escondendo aquela palidez que o rosa-coral dos lábios fazia sangrar. -Lembro-me, agora -continuou o rapaz -mas como estava quase a perder os sentidos pensei que eras uma visão. Entre as algas, moventes, com o teu rosto e os teus cabelos a flutuar parecias uma estranha flor irreal. E depois eu pensava que tu não existias, julgava que eras um sonho meu... -E sou -disse a sereia. Existo por que tu me sonhas. Só quando deixares de sonhar-me, deixarei de existir. O rapaz não comentou aquelas estranhas palavras. Sentia-se realmente dentro de um sonho, apesar da manhã já ter aberto todo o leque da sua luz. O Sol ia alto. Os homens que tinham partido para a pesca, de madrugada, não tardariam a regressar. Essa certeza chamou-o à realidade. -Os barcos não tardarão a entrar na enseada. Preciso de regressar à aldeia. Mas gostaria de te voltar a ver... -Quando puderes mergulhar, de novo, estarei à tua espera -prometeu a sereia. E desapareceu nas águas, que se fecharam sobre ela, maternas e suaves, como lábios. Os dias que se seguiram passaram vagarosos para a impaciência do rapaz. Enquanto consertava as redes e esperava que a sua ferida cicatrizasse pensava constantemente naquele mundo submerso que, súbito, ganhara um rosto. E custavam-lhe aqueles crepúsculos, lentos, que cintavam o horizonte de fogo, tornavam róseas as areias da beirada e demoravam a arrastar a noite com a sua malha de estrelas e a esperança de <>. Finalmente o amanhã chegou. Apenas os barcos partiram na madrugada e se perderam na direcção do norte o rapaz começou as suas tarefas e, mal as deu por findas, dirigiu-se para o extremo mais selvagem da enseada. Nadou até ao ninho dos rochedos que as gaivotas sobrevoavam. O Sol erguia acima do horizonte a sua crista de fogo, penetrando a terra com os seus esporões de luz e iluminando a aldeia. O rapaz estendeu-se sobre as rochas, descansou um pouco e deixou que o Sol lhe revigorasse os membros. Depois, mergulhou nas águas, azuis, profundas e frias. E nadou na direcção da gruta, onde tinha ficado preso. Entre as algas a sua amiga esperava-o. De mãos dadas, vieram ao lume d'água e o rapaz confessou à sereia a sua impaciência e o quanto se sentia atraído por aquele mundo submarino que era o dela. Havia de mostrar-lho um pouco todos os dias, já que ele não era peixe e não suportaria permanecer muito tempo na água. -... E depois, não se pode conversar -acrescentou, rindo, festejando a alegria de ter um companheiro. Felizes, nadaram, fizeram projectos e depois ela veio trazê-lo ao ninho rochoso, onde se despediram. A sereia mergulhou e o rapaz nadou em direcção à praia, pois os barcos não tardariam a regressar. Ao outro dia, mal os pescadores desapareceram na curva, suave, do horizonte, o rapaz nadou na direcção dos rochedos. Mas nem precisou de voltar a mergulhar. O rosto da sua amiga nascia nas águas. -Vieste esperar-me? Ali estava para cumprir a sua promessa. Então, a uma velocidade que pareceu vertiginosa ao rapaz, começaram a descer os abismos azuis. Planícies infindáveis acompanhavam a curva da terra. Filas cerradas de picos formavam cadeias de montanhas maiores do que as que existiam acima do nível do mar. Rochas trabalhadas pelas águas, semelhantes a catedrais, erguiam-se majestosas nos seus flancos, abruptos, velhas de milhares de anos, musguentas de líquenes rosa, azul, turquesa, assalmonados. Correntes plácidas, deslocando-se, lentamente, levantavam nuvenzinhas de areia fina que voltavam a cair, chuva dourada, sobre os jardins submersos, onde brincavam peixes-balões, peixes-luas. Um deslumbramento! Como bolhas, felizes, a sereia e o seu companheiro subiam à tona d'água para o rapaz respirar. -É maravilhoso o teu mundo -não se cansava ele de repetir, pois não encontrava palavras à medida da sua felicidade. E a sereia ria, por vê-lo tão encantado e feliz. De novo, voltaram a mergulhar. Passaram renques de coral, azuis-cinza, vermelhos-guelra, brancos-ramagens de sal petrificado. Ali, os cavalos-marinhos com o lequezinho, aberto, das suas barbatanas dorsais, exercitavam um estranho giroflé para a frente e para trás, para cima e para baixo, como puxados por elásticos invisíveis. As lesmas do mar sem concha pareciam farrapos de algas, flutuando. E a beleza das anémonas a despetalarem-se com o movimento das águas? Eram como flores de sonho. Umas de pétalas curtas e carnudas lembravam chorina, outras longas e filamentosas, estranhas actínias não da cor do fogo como as dos jardins da terra, mas azuis e translúcidas de luar coalhado. Agora que a sereia vinha todos os dias esperá-lo, depois da partida dos barcos e o levava naqueles voos rápidos e flechados até aos jardins do mar, abriam-se para o rapaz as portas daquele mundo que ele sonhara, mas não sabia. Tornaram-se-lhes familiares os polvos, dormindo confundidos com as pedras, as estrelas-do-mar roxas, amarelo-milho, azuis, sanguíneas, deixando-se arrastar pelas correntes, como pedras do caminho a um vento mais forte, as raias, ora borboletas cansadas, ora erguendo-se num voo, rabichado, semelhando papagaios de papel. E que divertida era a carapaça guerreira dos caranguejos com as suas tesouras dianteiras, ameaçadoras! Às vezes, um exército de espadartes avançava, cortando as águas com as espadas, afiadas. Outras um golfinho, pastoreando um rebanho brincalhão, dirigindo-se à superfície assobiando pelos irmãos, que se atrasavam, cambalhotando. Fitas, dançantes, de safios, de moreias, enlaçavam-nos, prendiam-nos, por momentos. Atravessavam a cortina gelatinosa de cardumes-bebés, acabados de nascer. Olhavam juntos as bolhas preciosas e flutuantes dos náutilos e em águas menos profundas os caramujos, lavados pelo cristal, movente, das águas. Aquele mundo estava sempre diante dos olhos do rapaz, mesmo quando consertava a redes e o Sol descia no horizonte, estendendo sobre as águas o seu tapete de brilhos. Mesmo, então, o rapaz lembrava os peixes, abrindo e fechando a boca, lentamente, como se respirassem cansados, com os seus olhos de lápis-lazúli, de topázio, negros como alfinetes de ónix e as suas barbatanas, penas delicadas de ave, florindo preguiçosamente. Sentia-se entre aquela vegetação ora curta, frisada, carnuda e crespa, ora emborbulhada, capilar e filamentosa, ora longa, lanceolada, fendida em delta, plumenta, veludosa, ora viva e desgrenhada, mítica, de cristal e luar. Era como se nadasse entre aqueles tons que iam do castanho-terra aos verdes vidrentos, passando pelos roxos ma cera dos, os coral, os rosa e os violeta. Passavam diante dos seus olhos aquelas formas espiraladas, ovóides, de fuso, denteadas e tentaculares, mas sempre levemente boleadas como se todas contivessem o enrolar da onda. Aquelas sombras limosas, fosforescentes, densas e misteriosas, diáfanas, com transparências veladas e fantasmais, daquele mundo grácil, sem peso, ondulante. Para agradecer à sua amiga a beleza, que ela todos os dias lhe entregava, o rapaz comprou-lhe um presente, no mercado, onde ia vender o peixe e as suas conchas. E quando, ao pé do ninho dos penedos, onde se encontravam, abriu sob as águas a sua mão fechada soltou-se dela um filamento vivo, ondulante e escarlate. -O que é? -perguntou a sereia. É uma fita para atares os cabelos, como as raparigas da Terra. -Que linda cor! -É a cor do sangue e da vida. A mais preciosa da terra e do mar. É a cor dos teus lábios -disse o rapaz. Então, a sereia ergueu com os braços os seus longos cabelos e ele prendeu com aquele laço de sangue as algas nocturnas, que lhe afogavam o rosto. -Nunca mais o tirarei -prometeu. -Só quando me transformar em espuma. -E por que havias de te transformar em espuma? -Tudo o que é terra voltará à terra. Tudo o que é água se tornará em espuma. -Isso não acontecerá nunca -afirmou, convicto o rapaz. Tu mesma disseste que eras um sonho. Os sonhos não envelhecem e por isso não morrerás nunca. E foram os dois nadar, felizes, por estarem juntos. Ao outro dia a sereia disse-lhe: -Hoje também tenho um presente para ti. Vou levar-te às raízes mais secretas do mar, onde dormem, ancorados para todo o sempre, os veleiros naufragados. E de mãos dadas, numa vertigem, desceram às águas cada vez mais profundas. Das entranhas das funduras jorravam caudais quentes formando oásis que tornavam luxuriantes, como palmeiras, as algas, naqueles desertos subaquáticos e sem sol. Ali a luz filtrava-se já dificultosamente e o azul adensava-se, céu nocturno, onde as medusas, ofélicas, luas de seda velha, puída e esgarçada, flutuavam. E súbito, entre centáureas gigantescas, estremecentes e apesar disso irreais, os veleiros surgiram das brumas líquidas, verdoengas, com as suas proas trabalhadas, os seus mastros nus, derrotados e partidos. Lá estava o velho galeão com as suas câmaras esventradas, que cardumes viajavam. Ali, tinha a sereia aprendido a solidão na água-fixa do espelho. Ali, sabia agora o rapaz a felicidade do sonho -e ambos a alegria de ter com quem partilhá-lo. O tempo parecia imobilizado por aquele contentamento, igual, que se repetia, mas os dias passavam, irrecuperáveis. Numa manhã, o rapaz anunciou à sua amiga que ao outro dia ia fazer-se às águas e partiria com os pescadores, pois já não era mais um rapazinho e precisava de ganhar o seu sustento. Na terra os alimentos não floriam como no mar?! estranhou a sereia. O rapaz explicou-lhe que a terra também florescia em frutos, mas que precisava de ser semeada e tratada para produzir. Havia homens que se dedicavam àqueles trabalhos, mas ele vivera sempre à beira da água e tinha a paixão do mar. Ia tornar-se pescador. Trocaria depois o produto da sua pesca por alimentos da terra. -Então, vou deixar de te ver... -disse a sereia, triste. É como deixar de existir. -Não, não -garantiu o rapaz. -Virei sempre que puder, ao fim da tarde. Não te esquecerei. E assim passou a ser. O rapaz andava em companha, na pesca, ia ao mercado vender o peixe, consertava as redes e a vela, tratava do barco, mas o seu maior gosto era mergulhar e estar com a sua amiga. -Como vês nada mudou. E contava-lhe, longamente, o mar sem fim, cinza e bruma, azul e verde, grosso e pesado de águas-vivas, escamoso dos brilhos da superfície, o esforço para vencer a foice das ondas, o trabalho dos remos e das redes, os perigos que o espreitavam: as tempestades, a névoa e os rochedos. -Tem cuidado! -recomendava-lhe ela, sempre que vinha trazê-lo até onde se despediam. -Preciso de ti para respirar! -Não te aflijas! Amanhã, aqui, estarei! E para a sossegar pousava a mão sobre a flor de sangue que lhe atava os cabelos, solenizando com um gesto de jura as suas palavras. O Sol começava a arrastar sobre as águas o seu manto de brilhos e despediam-se. E assim continuaram numa eternidade, sem margens, envolta em maresia e no perfume nupcial e branco dos lírios das dunas -que o rapaz lhe trazia para ela enfeitar os cabelos. Uma tarde a sereia veio, inquieta, espreitar a orla da praia. Não era ainda a hora de se encontrar com o seu amigo, mas na raiz dos abismos estava a formar-se um temporal que subia das profundezas, em cachões revoltos e ela temia por ele. Os barcos, como receara, não tinham ainda recolhido. Nenhum estava varado na ponta sul. As nuvens acastelavam-se, ameaçadoras, o vento começava a rugir e a enraivar-se, como se o céu quisesse dobrar e reflectir a revolta do mar. Então, mergulhou novamente e nadou em direcção ao largo, espreitando as vagas, altas, espumosas, lequeadas pelo vento. Não havia sinais de barco na linha do horizonte. O seu amigo ia ser apanhado pela tempestade no longe e na distância. Com aflição redobrada, mergulhava para logo em seguida vir espreitar ao cimo das vagas, inquirindo as voltas do mar, escurecido, fervente, tempestuoso. Fitas de luz cortavam o céu que se fendia com fragor. E foi a um clarão desses relâmpagos que ela avistou o barco, já sem vela e sem governo, a desconjuntar-se, quase a ser engolido pelos vagalhões. Precisava socorrer o seu amigo, pois o coração dizia-lhe que era ele. O vento assobiava e quase lhe arrancava o laço dos seus cabelos empurrando as ondas, cavadas, alterosas que se entrechocavam num rolar surdo e espancado, enquanto ela nadava, rapidamente, na direcção do barco que já não conseguiria atingir as águas mais macias e mais protegidas da enseada. Por baixo do cutelo das vagas, tentava ela vencer a distância que os separava. Mas, quando veio à superfície para poder ser vista pelo rapaz, uma onda atirou-a de encontro à quilha do barco, que entretanto se desconjuntara, e lhe rasgou o peito. Apesar da dor lancinante, que a frieza das águas como que anestesiava, tentou manter-se perto dos destroços. O rapaz, perdidos já os companheiros, mantinha-se agarrado à cana do leme, mas as águas violentas submergiam-no e sufocavam-no. <> -pensou em deixar de lutar. Foi nessa altura que a sereia conseguiu alcançá-lo, tentando mantê-lo ao lume d'água, encostado ao peito, que lhe sangrava com o esforço. A chuva desabara, torrencial. Os relâmpagos cegavam-na, o vento fustigava-lhe os cabelos que lhe chicoteavam o rosto. Reunindo as últimas forças que lhe restavam, pois se sentia morrer e o rapaz desmaiado era um fardo pesado, sorvia o ar, dilatadamente, tentando respirar ainda, tentando conseguir entrar nas águas mais protegidas e menos violentas da enseada... tentando salvar o seu amigo... Quando abriu os olhos, o rapaz viu-se deitado no extremo norte da praia onde costumavam despedir-se. As gaivotas, em terra, pinçavam o ar de gritos, como se pranteassem uma dor que as águas, já aplacadas, adormentavam. Lentamente, como se retomasse a custo a consciência, o rapaz respirou o ar marinho, forte e familiar. E percorreu o corpo com as mãos para se sentir. As mãos, porém, vieram-lhe encharcadas em sangue que também lhe ensopava o peito e a camisa. Curioso, não sentia nenhuma dor, apenas um enorme cansaço. Novamente, voltou a correr-se com as mãos à procura de uma ferida ou golpe que explicasse todo aquele sangue, mas não estava ferido. Tentou, então, erguer-se e ao fazê-lo viu na borda da rocha, quase a ser lambida e levada pelas águas, a fita vermelha que tinha oferecido à sua amiga para ela atar os cabelos. <>, pensou com uma dor, que o rasgava, à medida que compreendia. Não, não, não lhe devolvia o presente. Aquele sangue era o dela. Fora ela quem mais uma vez o salvara e o trouxera até ali, ali deixando aquele penhor de amizade a que só ele conhecia o significado. <>, prometera. Com desespero, compreendeu que desta vez ela tinha pago com a vida a vida dele. E apesar de exausto, mergulhou, sondando o mar e os abismos. Mas, em vão! Sem ela não podia descer até aos jardins mais belos e mais secretos, onde repousaria, antes de se transformar em espuma. Nunca mais a veria. As lágrimas toldavam-lhe a vista da praia, onde certamente todos o dariam por perdido e ninguém já o esperava. Que difícil era respirar sem ela! Então, desesperadamente, do fundo da lembrança e das lágrimas trouxe a sua amiga à flor das águas e pareceu-lhe ouvi-la dizer-lhe uma outra vez <> Não, não, nunca deixaria de a sonhar. Agora, ela era realmente um sonho dele, uma respiração sua. Enquanto ele respirasse ela respirava. Existia nele e por ele. Nunca mais estariam separados. Até à morte. Então, a tempestade da sua dor acalmou -asa de vento colhida na névoa. E o rapaz nadou em direcção a terra. A tarde caía. E a maré, jade, rosa e anil, recomeçava a subir, recobrindo os jardins da maré vaza, apagando os rastos das ondas minguantes. No areal, desfolhavam-se rolos de espuma branca e, sobre as águas, o último voo das gaivotas. As estrelas furam a noite com mil olhos de fogo debruçados sobre as águas. Sondam os abismos? Ou i1udem-se, nos ecos do seu próprio sonhar? Que pastor d'águas buzina, longamente, chamando ondas e espuma por entre a cerração e a névoa da antemanhã? Vai já alto o dia, mas vestido de cinzas. O vento começa a levedar as ondas que se despenham, grossas de espuma e com cintas de sargaço, aboiadas. A velha Olinda lá anda entre os poucos praiantes, que a nortada não assustou. -O argaço derramou-se mais pró sul, pra lá da Fragosa e da Lagoa, onde o mar tem mais achegos e onde ele se prende mais. Aqui é menos, mas temos que ir aproveitando o que o Senhor dá. Os velhos não se podem dar ao luxo de o desperdiçar. É assim que provam que ainda ajudam à panela da família. E a velha Olinda, que ainda conheci formosa e desempenada, arrasta-se pela beirada, com a graveta, prendendo as fitas fugidias. -Que remédio! A velhice é muito triste. Ninguém nos quer, já não temos préstimo, mas temos boca e por isso andemos com todo o tempo... Já pouco posso coa graveta e o ganha-pão, as minhas forças gastaram-se. Mas é preciso comprar tudo tão caro que não se registe... Salve ao menos o Sagrado Coração as nossas almas! Indiferentes aos cuidados humanos, as pombas fazem ao moinho velho uma auréola de asas. Maré-cheia. Até Santo André o mar é uma manta revolta de espumas. Um som fraguento que se desdobra pela praia e ecoa pela abóbada cinzenta do céu. Só estão a descoberto as balizas da enseada: Forcada e Forcadelo. Tudo o mais é uma massa inquieta d'água, que sobe costa acima. -Acudide aos barcos! -ouve-se barregar. O Alcindro, o Maiato e a mulher, a Ermelinda e o rapazio tudo vem acautelar aprestos e embarcações. -O mar traz muito mau tempo co ele! Nunca se viu uma maresia de mar assim, neste tempo! Isto foi temporal lá fora a muitas milhas daqui e que agora, vem dar à costa. É um fogo vivo! Num instante como se pus! Rechãozinho e acarinhado pela manhã e agora, ingole a praia... É assim cuma nós, tão depressa vivo como morto... Os barcos ficam no varadoiro de cima, quase recolhidos ao bafo do meu telhado. A maré continua a subir, violenta, espumosa, espancada. As ondas formam-se às cinco e às seis, pouco depois da linha do horizonte, explodindo em cachões na Forcada, rolando e caindo com um rugido de trovão, entre rexios galopantes, inesperados e falsos. A beirada continua submersa de espumas ameladas – incontinência, inundante, de esperma. A praia erma-se de gente e de vozes. Todos se recolhem a terra, onde o trabalho aperta. -Os milhos estavam muito desmedrados, sem calor que os puxasse e agora veio tudo ao mesmo tempo: o serôdio e o temporão. Tem sido uma lufa -queixa-se a Maria Repas -e pró quê? Pra se vender tudo por preços de nonada. Os figurões da cidade é que engordam com o nosso suor! Súbito o norte começa a varrer a cinza e o mar torna-se leitoso e laminado de sol. O céu abre-se e azula-se, lavado. E o mar azulesce também, mais e mais. As espumas tornam-se crinas, selvagens e brancas, duma pureza salina. E aquelas brancuras, insondadas dos abismos oceânicos, submergem momentaneamente Forcada e Forcadelo e espraiam-se numa extensão de quilómetros. -Já vaza! Já vaza! -grita, atento, o rapazio, que se diverte a negacear as ondas. E a casa-concha, que esteve cercada e foi ilha, deixada agora pela maré, refracta-se, qual miragem, no braço de águas azuis, entradas pelo abremar. Não, não é o vento da tarde. É a tua lembrança que se ergue em mim. Tua existência-sonho, teu perfume-ausência insinuam-se neste morrer do dia. Na terra, ainda algumas, poucas, coisas te referenciam. Os lírios continuam a florir. E o seu odor, secreto, intenso, sensual, atinge a fímbria das águas, mas a sua carne leitosa apodrece, entre o sargaço estendido a secar. Ninguém tos leva. Nem tu podes já enfeitar com eles os teus cabelos. As estrelas continuam pregadas na noite, mas é muda a tua canção. Só o vento a geme longa, longamente -e tu jazes, inacessível, nos frios paraísos do coração do mar. Imensamente fundo. Entre as flores, lunares, das centáureas, sempre vivas, como sonhos respirados, dormes tu -a que foste amada, e sobre ti o tempo não tem poder. O meu coração, e só ele, te sabe sob as águas e as espumas, que te sepultam -floração de asas e aloendros... Longa, longa, longamente, um gemido perfurante, que não finda, incuba-se no nevoeiro, nebulosa algodoada e cinza, que amassa terra e mar. Fria, mas não lubrina. Terra adentro o dia terá começado, terá, mas não agora que não há fainas e os primeiros praiantes ainda tardarão. Paira uma quietude de antemanhã, ainda de pios e de asas adormecidas. Só eu e a minha janela, que a névoa cega, estamos abertas ao marulhado das águas. A névoa dissipou-se. Céu azul, transparente -um oceano de luz. Dois bandos de gaivotinhas novas andam a loló, ao sabor das águas mansas e, de vez em quando, erguem-se num voo, baixo, de borboletas. Desassossegada, a Natália espreita o norte, pois o Joaquim não se sofreu mais e saiu com o Cindro e foram pescar à cana. -Já le andava a puxar faz dias... e o mar tem estado muito em modo. Mas cada um teme pelos seus. A esta hora já cá deviam de estar. Tardam. Já tardam. E a Natália corre novamente a casa, não vá o neto acordar e ver-se sozinho. Também eu faço contas às horas. O Fernandinho deve estar a vir desafiar-me para a beirada. Mal me sento na areia, mete-se logo na água, donde só sai para me entregar tesouros: estrelas, conchinhas, pedras glicerinadas como sabõezinhos de bonecas, amarelinhas como tremoços, ardósias do país dos anões, luazinhas translúcidas, fitas de sargaço para as minhas sandálias gregas, ou para colares com pingentes de chorão do mar, algas verdes e frisadas para jardinzinhos empedrados, que desenho na areia. Já sabe juntar as letras e cresceu, mas não tanto que deixe de chorar, quando o levam de mim. Duas gaivotinhas afoitaram-se a poisar nas dunas do telhado, por breves, brevezinhos instantes, sem tempo de lhes pedir que ficassem. Um barco corta as águas em direcção às Pedras do Canto. Sossega, enfim, o coração da Natália que acorre ao varadoiro. Só o meu companheirinho não aponta ainda. O Sol aguilhoa as areias escaldantes e espelha-se em brilhos no mar liso, liso -como se tivesse sido afeiçoado à plaina. É difícil acreditar que este mar de bilhete-postal, com festões de espumas junto aos penedos, possa tornar-se naquele outro de Inverno, convulso e fervente, naufrágio de nuvens, que longe destas costas, muito ao sul de Lisboa, os engoliu para sempre. -Como é que assim desaparece um navio pesqueiro, sem deixar rasto, nem destroços?! -estranhei eu ao Afonso, o genro do Zé, que perdeu dois irmãos. -Aquelas águas são de temer e posso dizê-lo, porque também lá andei embarcado. O mar é cheio de remoinhos, em parafuso, traiçoeiro. E lembro-me, então, que em Casablanca lhe chamavam <>. Lá ficaram Francisco Figueiredo Marques, Joaquim Sencadas da Torre, Hernâni da Silva André, Manuel da Silva André, André Manuel da Silva Serra com os outros companheiros do Driss. Senti sobretudo a dor da Guida, minha vizinha, que envelheceu anos desde Novembro, quando posto de parte o apresamento pela Polisário, e tendo passado dezanove dias, se perderam as esperanças, se deram por findas as buscas e eles por perdidos. -Desabafar?! Desabafar praquê? O desgosto tolhe-me a fala. E ninguém está interessado em queixas... Na altura sim, por curiosidade, mas a morte dos oitros esquece depressa. E o meu filhinho só a mim faz falta e ao desinfeliz que deixou sem pai. A mim imparou-me até à idadinha de vinte e seis anos e mesmo despois de casado estava sempre a vir ver se eu precisava de uma mãozinha, se tinha que comer... Era muito amorável!...Como foi? Abalramento? Naufrágio? Golpe de mar? Estes supores foram todos escrevidos nos jornais com os retratos deles, alguns de cando eram inda inocentes de primeira comunhão, mas os desgostos não cabem em nenhum papel, só no coração da gente. Andemos uns poucos de tempos com o coração nas mãos: agora tinde esperança qu'inda estão vivos, logo chorai, porque estarão mortos. E mortos estavam, sepultados nas águas. Já lá vão nove meses! A televisão deu naquela altura que houve um alevante de mar práquelas bandas. Haveria, mas o certo, certo é que Deus não os levou a porto de salvamento, despois que a 25 de Outubro saíram de Lisboa. Nunca chegaram a Agadir, onde iam dar começo à faina da pesca ao Largo da Mauritânia. Diz que, era bô e ele que estava em prencípios de vida, pois tinha casado há um ano lá foi, na esperança de trazer dinheiro limpo, dinheiro forro, por mor de indireitar a vidinha. Mas a sinas e destinos ninguém fuge e lá ficou na primeira viage, ele e os companheiros, sem tempo de ai ou socorro. Foram ingolidos pelas águas marditas, sem sinal. Nada aboiou, nem tábua, nem balsa salva-vidas, ou corpo. Nada veio à deriva. O mar não deu siquer um farrapinho de camisa. Lá ficaram no profundo sem vir a chão sagrado. Meu filhinho! Minha saudade! Foi o Natal mais negro da minha vida de viúva. Sem home, sem filho e sem esperança! Verti muita lágrima. Desafoguei-me em gritos como oitras, mães e viúvas. Mas despois sequei. Era só um afrontamento, uma agonia, como se tivesse engravidado novamente, mas de dor. Aquele lugar à mesa sempre vazio a olhar para mim. Sozinha. Só co desamparo do netinho sem pai e que à medida que cresce é um retrato vivo que ali está a lembrá-lo, sempre a lembrá-lo... Pobre Guida! Já não a verei mais apegada à migalha do <>, agora velha, doente e sem um braço de <> que a ampare! Falei depois com a Reina sobre as viúvas, mas ela sempre realista, comentou: -Naquela altura foi um pranto corrido. Tantas vidas ceifadas na flor, pois nenhum era velho. Algumas diziam que se matavam. Mas foram falas, desesperos. Tudo passa. A vida está sempre a cobrir a morte. Já há quem ande grávida doutro home e inda não passou um ano que isto foi! Os desgostos não duram sempre. O corpo tem fome todos os dias e mais do que uma vez! Mar verde, rajado de azuis, com algumas pétalas de rosa, esparsas, agora que a tarde se fina. A praia, quase sem gente, começa a mostrar a ondulação das dunas, a larga concha líquida e a vastidão do horizonte, que um veleiro desenha e sublinha. Mas não é mais a mesma. Não se vê uma carreia, um farrapinho de sargaço, nem poitas, nem nassas, nem cordame. Da beirada desapareceram a Ermelinda, a Joaquina, a tia Olinda, o António Neto, o Zé e o Joaquim Russo, a Guida, a Maria Perica. Só três barcos continuam a resistir e a não querer morrer. Antigamente, ai antigamente, a esta hora subiam na noite, juntamente com as chamas do acampamento, cantigas e sons de viola, que respondiam da terra ao cântico da maré. E as ciganas mais novas, ainda a sonhar a vida, vinham varrer com as suas saias dançantes e longas, as espumas da beirada. Já não é mais assim. Para lá do abremar não há burricos regalados daquele verde, cravejado de macela, nem a boémia das carroças, nem fogaréus festivos. Só o campo de futebol, enquadrado pelo colmeal dos prédios, que bordejam a estrada, corrida dos lumes dos carros, na ida ou na vinda da Póvoa. A noite não é mais um convite ao jardim das estrelas. Vai longe o tempo em que eu ninhava no telhado, fechada pela abóbada lucilante das estrelas. Agora as luzes da terra fazem esquecer aquelas flores de fogo e a face, misteriosa e dolorida, da lua. Ninho cada vez menos no telhado e recolho-me, cada vez mais, a mim. Como a Guida, que a esta hora está a <> o terço e a sufragar a alma dos seus mortos, que a esperam para lá do desconhecido, já que tudo finda menos a morte e a vida que se alimentam uma da outra. Amanhã será outro dia. O Sol nascerá como sempre na janela de terra e morrerá na janela do mar. -Solucem-me, águas da maré, solucem-me, porque também eu morro um pouco todos os dias!