Nos Mares do Fim do MundoJ_ÌAÓ@AÓ@TEXtREAds ¶ÄÄ Ä0Ä@ÄPÄ`ÄpĀĐĠİÄÊë Title: Nos Mares do Fim do Mundo Author: Bernardo Santareno CreationDate: Thu Jul 16 12:41:00 BST 2009 ModificationDate: Tue Oct 17 21:00:00 BST 1972 Genre: Description: Nos Mares do Fim do Mundo – (Doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses, por bancos da Terra Nova e da Gronelândia) Bernardo Santareno A publicação das crónicas ,aqui presentes, extraídas do livro Nos Mares do Fim do Mundo, foi gentilmente autorizada pelos herdeiros de Bernardo Santareno © 1997, Herdeiros de Bernardo Santareno e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8396-33-3 Lisboa, Dezembro de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** NOS MARES DO FIM DO MUNDO As peias do balanço Mar bom, marzinho: Um cinzento bonito e brilhante, ternamente ondulado. A estibordo, lá longe, a costa, píncaros de neve c1aríssimos, luminosos e amáveis como um riso. E Sol: um solzito semiacordado que, friorento, tenta, neste começo de Primavera, espreguiçar-se por aqui, sobre os bancos da Terra Nova. Cem, milhares de blocos de gelo, pequenos uns, outros maiores, oscilam graciosamente ao sabor das ondas. E sobre um destes minúsculos icebergues, a bizarria inesperada de uns dez ou doze patos-mergulhões, grotescos, buliçosos, simpatiquíssimos…Passam agora mesmo junto do David Melgueiro: olham-nos sem sobressalto, alegremente, sem sequer quebrarem a ininterrupta cadeia das suas cabriolas, cómicas e tão comunicáveis... que parecem humanas! - <> - <> E o rapaz, suado apesar do frio, mais vermelho pelo esforço, deixou pesadamente cair, sobre o convés, aquele saco enorme que o trazia vergado: - <> E o Zé Claro abria para mim uns olhos deliciosamente inocentes, dum castanho muito leve, quase amarelos, aqui e além salpicados por pintas escuras...: Como os dum bichito novo, um gato bravo lá da serra. Tinha, quando muito, dezoito anos e fazia a sua primeira viagem. Um pouco atarracado, musculoso, o moço era loiro, de carne naturalmente avermelhada, os dentes puros sem mácula... Então, eu não resisti e deixei-me rir: O rapaz, um tanto surpreendido e envergonhado, embora desconhecendo a causa, riu-se logo também... - <> - <> E, subitamente sério, o Zé Claro preparava-se já para pegar, ainda uma vez mais, naquele saco monstruoso: Eu tive pena dele... - <> Uma vez mais, abriu para mim uns olhos intrigados e confusos. Depois, estrondosamente, deixou cair os tijolos. Estava rubro, violáceo, a tremer de ira: - <> E sentou-se em cima do saco, agora triste, quase a chorar: - <> Eu tentei acalmá-lo: Que não, que todos os anos faziam a mesma graça aos <>, que aquilo era coisa para rir... - <> Recomeçara a nevar. Levei-o então para a proa e, abrigados, continuámos a conversar: O Zé Claro era das bandas da serra da Estrela, sempre vivera de apascentar ovelhas e nunca, até agora, pusera os olhos no mar... Mas aconteceu ter uma sua irmã, criada de servir no Porto, casado com um pescador: - <> Interrompeu-se, brusco, e ficou-se a olhar o mar, outra vez encolhido, como um cãozito espancado: - <> E calou-se de novo. Olhei-o bem de frente, na face: Duas lágrimas corriam, grandes e puras, pela larga cara afogueada…Era uma verdadeira criança! Depois, a voz entre cortada, apontou-me a costa: - <> - <> - <> Deixei-o. Anoitecia. Então o Zé Claro foi buscar uma flauta de cana (trouxera quatro, qual delas a mais bem acabada, todas feitas por ele!) e, sempre virado para os montes brancos de <>, tocou, tocou...encheu o mar e o vento com as saudades que lhe mordiam no peito: Ai, minha rica serra da Estrela! Estou com o Zé Claro: ele não é homem para o mar. Não há névoa, nem brisa, nem espuma que se lhe pegue! Ele todo, a sua carne virgem, a verde música da sua flauta, a claridade das suas lágrimas, o cheiro das suas pragas... tudo isso fala de terra negra, de giestas e de rochedos, de ventos secos que nem facas afiadas, de fontes frescas e airosas, de bailaricos sapateados em chão firme de tojo e alecrim... Como, homem do mar? O Zé Claro?! Nunca o será: Nunca a sombra ondeada das vagas escurecerá os seus olhos, nunca as estranhas árvores do fim do mundo darão flor em seus dedos, nunca a sua alma será habitada pela lua dos marinheiros -aquela terrível lua sangrenta, cortada de negro pelo vulto erecto dos mastros... Antigamente Antigamente... Como eu gosto de ouvir aos mais velhos pescadores, as histórias – <>… - dos tempos bárbaros da pesca do bacalhau!... Juntamo-nos ali na pequena enfermaria (quatro leitos, alguns armários e uma marquesa improvisada), eu sentado na velha cadeira de coiro e eles em redor, na berma dos beliches: Pela porta, entre as baleeiras carregadas de mantimentos (prontas para sair, se necessário for!), uma nesga de mar verde escuro e um pedaço de céu emaranhado em cinzas e negro... E vem à baila o caso daquele capitão que encerrou dois moços de convés, adolescentes ainda, no frigorífico, por os ter surpreendido a furtarem não sei que guloseimas aí guardadas: Quando enfim de lá os tiraram, vinham quase mortos, os pobres! E o daquele outro capitão que, quando os homens lhe apareciam com um dedo doente por panarício, osteíte ou moléstia congénere (ainda não havia médicos de bordo, nem sequer enfermeiros...), se lhes dirigia paternalmente: - <> E pronto! lá se ia o dedo, cortado rente sob o golpe súbito e brutal dum pesado cutelo. Mas o pior, o pior de quantos capitães têm governado navios bacalhoeiros, morreu ainda há pouco tempo: - <> Tantos e tão cruéis agravos fez, que um dia, durante uma das suas últimas viagens, a tripulação revoltou-se. E tendo-o amarrado de pés e mãos, prestes a baldeá-lo, mantinham-no deitado e seguro sobre a amurada do navio: Hesitavam... Logo o velho capitão, num golpe de audácia: - <> Surpreendidos e dominados pela coragem do velho, os homens abrandaram: e puseram-no dentro. Uma vez em terra, nenhum fugiu ao castigo do terrível capitão: um a um, desgraçou-os a todos, inexoravelmente. - <> Um silêncio. Pensativo, com as asas do terror a crisparem-lhe o fluido melancólico, o mais velho, o tio Zé da Avó, juntou: - <> O bobo Foi no Granja, um velho lugre de três mastros, ao que me dizem já desaparecido. O Albino <> era o bobo do veleiro: não havia ninguém na companha, desde os moços de convés até aos oficiais da ponte, que não gostasse de <>. Uns puxavam-lhe a camisola, outros tiravam-lhe o barrete e todos o feriam com graçolas pesadas, achincalhando-o com alcunhas e risos destemperados. O Albino ia sofrendo em silêncio e às vezes, que remédio!, chegava mesmo a emprestar aos lábios um sorriso dolorosamente pregueado. Mas no interior, lá por dentro, era uma chaga viva, um cancro que, sem tréguas, o vinha roendo: Malvados! Se lhes pudesse ser bom... Mas não podia. Enfim, uma desgraça: ele, ali no navio, era o fantoche, o bombo onde todos malhavam, o escarrado iro para onde, sem cerimónia, os outros cuspiam! Mas tantas lhe faziam que um dia... ora, ora, um dia... nada, sempre nada! Estava sozinho, não tinha ninguém por ele: como um bicho desprezível e feio... Feio! Todos lho chamavam. E cabeçudo, e torto, e marreco... Feio: de tudo, seria talvez o que mais o fazia sofrer! Por duas ocasiões já, em acessos de raiva, calcara a pés juntos o espelhinho de algibeira. Ah, mas eles não sabiam ainda quem era o Albino! E daí talvez tivessem razão: em muitas horas, quase sempre!, sentia-se manso e receoso como um boi capado. Até um dia, só até um dia!... Que se acautelassem, pois uma vez o palonça, o pobre diabo, podia perder a cabeça e... Um mar de gargalhadas apagava sempre as suas ameaças: Como os odiava, nestas alturas! E passava as noites a remoer planos de vingança, arrepios de terror e lágrimas de abandono. Então ele, Albino, não seria um homem como os outros?! Tinha que o provar, tinha que lhes mostrar do que era capaz. Era um homem, ele era um homem! Mas os dois piores, os mais verdugos, seriam o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante, o Mazorro: Ganhara-lhes medo, só de vê-los ficava com febre! Inda ontem o Ricoca, à saída da cozinha, lhe passara uma rasteira de tal jeito, que ele fora estatelar-se no convés, no preciso momento em que uma volta do mar galgava a amurada: Ficara todo encharcado, da cabeça aos pés. Em redor, os outros apertavam o ventre, de tanto rirem... Ná, não podia continuar assim: perdera o gosto pela vida e sentia-se como um espantalho de eira, como uma vela esfarrapada ao vento. Os outros faziam-lhe tudo quanto queriam e ele nem reagia, sempre se ficava quedo e mudo: Verdade, verdadinha, ao cabo e ao resto, não passava dum reles cobarde. Só de pensar na mulher e no filho, sentia a cara arder de vergonha e o corpo alagado em suores frios: Rico chefe de família, não haja dúvida! Ah, mas aquele Ricoca!...A raiva que lhe tinha! E o outro, esse Mazorro do diabo, não era melhor... Pudesse ele! Tinha que poder: ou arranjava coragem para tirar vingança daqueles dois, ou deitava-se ao mar. E, noite após noite, foi acumulando projectos, imaginando torturas, sonhando com os olhares admirativos dos outros da companha ao saberem o que, enfim, fizera... Mas vinha a manhã e era como se o vento marítimo lhe apagasse o lume das veias: cada dia mais amarfanhado, mais triste. Uma miséria, uma vergonha I Aquilo tinha que acabar: ou ele, ou os outros dois! Daquela noite não passaria. Mas como? Sozinho, apenas com as suas próprias forças, não podia: estava mais que visto. E, contra o seu costume, naquela tarde, logo ao jantar, bebeu fartamente. E depois continuou... até sentir fósforos de lume acenderem-se-lhe na cabeça e ondas de sangue correrem-lhe pelos olhos. Os da companha, admirados, riam e davam-lhe palmadas nas costas. Então, veio o Ricoca: - <> E os risos chocarreiros apertaram-no, como um círculo de chumbo a ferver. Um pouco cambaleante, o Albino conseguiu erguer-se à altura do cozinheiro: olhos nos olhos do inimigo, as mãos contraídas nos bolsos, os dentes arreganhados como os dum lobo, o <>, por momentos e em silêncio, bafejou com o seu hálito azul espesso a cara surpreendida do Ricoca; depois, de súbito, soltou uma gargalhada impressionante, estridente e sacudida como um soluço e, sem palavra, afastou-se precipitadamente dali. Desta vez os pescadores não chicanaram: antes ficaram calados, inquietos, num vago pressentimento de perigo. E realmente foi nessa mesma noite (quantos, passados já mais de quinze anos, ainda a recordam angustiados!) que o Albino, mais conhecido no mar pelo <>, esfaqueou barbamente, enquanto dormiam nos beliches, o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante Mazorro: Cego de fúria, bêbado de vinho e de sangue, deu facadas à toa, no peito, no pescoço... por onde achou carne penetrável! Quando, enfim, conseguiram arrancar-lhe a lâmina das mãos, o Albino mostrava a face tinta de vermelho e, em uivos lamentosos, chorando e rindo convulsivamente, repetia baixinho: - <> E o <> foi logo amarrado ao mastro do meio, com guarda permanente. Toda a noite ondeou, em volta do assassino, uma vaga crepitante de archotes. O vigia recebera ordem para disparar, contra quem quer que tocasse no preso: Só por isso, o Albino não foi estrangulado naquele anel de lume, movediço e feroz. Quando a madrugada veio, o Albino, esfarrapado, sujo de sangue, estava roxo de frio e de terror! A cada ameaça, a cada impropério, a cada escarro que lhe lançavam os da companha, o homem só gemia: - <> Mais não dizia. E, nem a neve que incessantemente caía, nem as ondas do mar que mais duma vez o cobriram, puderam limpá-lo daquele sangue. Depois levaram-no para o Gil Eannes. Aí, mais compreensivos, deixavam-no andar à solta pelo navio. Mas ele nunca mais quis falar. E mal comia. De noite, ouviam-no chorar. O comandante, condoído, tentava animá-lo: o Albino sorria tristemente, abanava a cabeça e, sem palavra, punha os olhos no chão. Assim sempre. Foi ainda com este mesmo sorriso triste, sem ódio nem fúria, que, naquela manhã de procela, o Albino galgou a amurada do Gil Eannes para se lançar ao mar revolto. Houve quem o tivesse visto, neste preciso momento: e todos afirmam que ele cumpriu o acto serenamente, sem a costumeira precipitação desesperada, sem a mínima atitude ritual, nada disso...simples, naturalmente, com o tal sorriso triste e infantil a chorar-lhe nos lábios. Lá ficou. Não foi possível salvá-lo. O ciclone Aquilo levantou-se de repente e durou uma noite inteira. O Infante de Sagres atirado ora acima, ora abaixo, pelos dedos descomunais do mar, lambido ferozmente pelos cabelos zumbidores do vento, era uma coisita, a fugir entre os urros da deusa Fúria! Foi em 1949, na Terra Nova, no mês dos ciclones Setembro. E ninguém ainda pôde esquecer. Perto, enredemoinhados na mesma leva pavorosa, o Cruz de Malta (foi ao fundo em Agosto de 1958), o Lavrador, o Paços de Brandão (que se abriu nestes mares, em 1951) e o veleiro Ana Maria... Entre os lugres, pela telefonia, o terror escorria nas vozes aflitas dos capitães: ciclone assim, tempestade tão bruta, não havia memória! Até o comandante João Campos, do Infante de Sagres, conhecido pelo seu feitio animoso e folgazão, corria agora febrilmente do desânimo para o desespero: Tudo perdido! Tudo perdido! A vaga entrava pela casa da máquina, com uma violência incontível, livre! como no convés. Impossíveis as comunicações entre a proa e a ré: Nesta última, não havia água potável. No rancho, os pescadores, inibidos pelo medo para a acção, escondiam-se acossados na fé: com as velas que, dolorosamente, acendiam, iam gastando as últimas esperanças... O Infante de Sagres lutava por atingir a costa e refugiar-se em St. John's: Mas como?! Com um vento assim, o lugre seria naturalmente arremessado de encontro às rochas e, é claro, desfeito num ai!: - <> Quando o Fernando de Ílhavo se arriscou no convés, a tentar a travessia, um bote, erguido em peso pela força do vento e logo atirado pela borda fora, atingiu-o mesmo na cara, rasgando-lhe brutalmente uma das faces!: Mais vivos os gritos e as rezas pungentes, à proa. O contramestre Domingos, um homenzarrão batido por mais de trinta anos destes mares, a certa altura, não teve mão em si: era vê-lo, a chorar, numa convulsão de amor e de medo, agarrado ao filho, o António, que vinha pela primeira vez ao bacalhau, de moço... Pobre rapazito!: ele, ele, seu pai! é que era o culpado. Tão novinho, a bem dizer uma criança... E nunca mais acabava aquele abraço frenético, transido de espasmos viris. Coisa assim!: era de arrepiar. Foi então que o velho Joaquim Rico, meio louco, entrou pela casa da máquina dentro e, pondo-se de joelhos, deu em pedir, com uma insistência alucinada, ao motorista Almeida que acabasse com ele, que o matasse!! - <> Apenas o cozinheiro João Perqueixo (quem tal havia de dizer?!), geralmente anafado e molengão, mantinha e cimentava a sua calma: seguido pelo ajudante Eurico, em pleno convés devastado, estupendo de energia, sempre meticulosamente sereno, o homem ia cortando, um a um, os cabos das velas esfarrapadas... Que valente, que verdadeiro valente! E os choros, as promessas gritadas, as orações rastejantes, as blasfémias do desespero...iam furando o vento com agulhas de sangue: - <> Nada: o céu, negro de nuvens, duro e calado como uma parede. Madeiras, mastros, todo o navio, rangiam perigosamente: A violência do mar, agora, era um paroxismo mostruoso e desgrenhado! O Tó Rito, um moço morenote e alegre como uma papoila, rasgado o juízo, desatou a correr pelo convés, diteito à borda: se lhe não deitam logo a mão, atirava-se ao mar! E uivava, como um cão ferido. A baía de St. John's estava à vista: Mas quem podia atracar lá?! O vento soprava cada vez mais rijo. - <> Foi então que... isto só visto, só quem lá esteve: doutra maneira como se há-de acreditar?!... foi então que, de repente, o vento mudou de direcção: - <> Todos caíram de joelhos: em farrapos, sedentos e esfomeados, triturados pelo terror... Com um círio ainda aceso, ao nível dos olhos, o ti 'João Borba, encolhido num canto, chorava silenciosamente: e as suas grandes lágrimas mudas cintilavam lâminas vermelhas, como se fossem de lume. O João Perqueixo, ainda com a faca ferozmente eriçada na mão, completamente nu (rasgada e levada toda a roupa pelo vento e pelas ondas!), quedava-se imóvel, ansioso, como que em expectativa dolorosa: nem podia acreditar! - <> Quando, enfim, o Infante de Sagres entrou em St. John's, era esperado por algumas centenas de pessoas emocionadas: O lugre aparecia desconjuntado, as velas esfarrapadas, o convés drasticamente varrido de tudo quanto o ocupava, os homens ainda lívidos de angústia, miseráveis…E todos que tal viam, incontivelmente, choravam. Foi então que o Zé Rocha, mal postos os pés em chão firme, num ímpeto, se lançou de joelhos: e, assim, humildemente, o coração líquido de gratidão, beijou a terra negra! Funeral marítimo Foi no Santa Mafalda. O homem apareceu morto de manhã, no beliche: Doença súbita. O navio estava no alto mar, a mais de vinte e quatro horas de navegação para terra: Era pois indicado preparar-lhe um funeral marítimo. Assim, o cadáver foi envolto em serapilheiras e ligado com ferro, como manda a lei. Depois colocaram-no sobre um estrado improvisado no meio do convés. Pesarosos e confusos, os homens da companha, todos presentes, olhavam o camarada morto… Só a liberdade bulhenta e garrida das gaivotas rasgava, com roucos gritos quase ferozes, o silêncio total e lívido. Na ponte, o capitão leu e fez assinar por oficiais e mestres <>. Finalmente, quem sabia ou sentia rezou pela salvação daquela alma. Tinha começado a nevar: os homens, de cabeça descoberta, mostravam já largas madeixas brancas. Também o vento soprava mais forte: E o pano que embrulhava o morto ondulou, mais vivamente pregueado. Muitos dos presentes, ajustando os abafos, contraíram-se arrepiados. E o grito das gaivotas tornou-se impudico, como um foguete de festa. Era o momento: - <> Num movimento geral de recuo, os homens adensaram a sombra dos rostos. Depois, insistentemente, os olhares caíram sobre aqueles três ou quatro que o acaso tinha colocado mais perto do estrado... Estes, num primeiro impulso, estenderam os braços para o morto, esboçando a flexão do tronco... Mas de repente fizeram-se hirtos e foram esconder-se atrás dos outros. O capitão, da ponte, instigava-os com o olhar... Ninguém cumpriu a ordem. Um brado mais violento e autoritário, ou uma qualquer imprecação, quebraria a solenidade da cena. Por isso, o capitão, duro e pausado, repetiu: - <> Todos se encolheram mais ainda, bisonhos e lúgubres. O grito das gaivotas, agora, parecia um riso gutural e cruel. Isto durou, penosamente, dois ou três minutos. O capitão, rubro de cólera, mal se continha... Então, lá do fundo, da proa, o Chico de Alcântara avançou, por momentos olhou sobranceiro, quase trocista, os companheiros, e depois, em passos seguros dirigiu-se para o cadáver, prendeu-lhe o gancho e, decidido, fê-lo descer para o mar. Quando, passados dias, o Chico começou de inchar -os pés primeiro, depois as pernas e por fim o corpo todo não houve ninguém na companha que não pensasse o mesmo: Foi castigo! O médico bem falou em insuficiência cardíaca e coisas quejandas, mas... - <> E o Chico de Alcântara começou a empreender: pensando bem, aquela acção não a fizera ele por caridade para o morto... não senhor!... Foi orgulho, alarde de valentia. Mas uma coisa destas!... E o Chico -tão distraído até então dos caminhos do Céu! -deu em rezar, fez penitência rija, cumpriu promessas custosas... Nada. Sempre a piorar. Foi então que ele resolveu deixar a vida de pescador. Duma vez para sempre. E assim fez: estabeleceu-se em terra. Pois vão lá vê-lo agora: de novo gordo e abastado, que é um louvar a Deus! - <> E o ti'Tó Ruço, os lábios trémulos, nos olhos um lume alto, olhou em redor: Todos baixaram a cabeça, como quem reza. Só eu, no meio dos pescadores, tentei um sorriso incrédulo... logo cortado pela profunda e dolorosa gravidade com que os outros me isolaram. E o silêncio envolveu-nos a todos. Igual, monótona a voz do mar?! Nunca, como neste momento, eu senti que tal não é verdade: Antes variada, rica, cheia de incidências, de músicas longínquas, de carícias rolantes, de ocultas ameaças... Frederikshaabs Pescamos a 63° de latitude norte, em frente do maior glaciar do mundo -o Frederikshaabs. Gelos eternos. No mar sereno, na neve que cai em silêncio, no ar límpido e calmo, oculta-se não sei que segredo branco e cruel, não sei que perdido gesto dum deus impassível e gelado... E passam, lentamente, os grandes icebergues: Poderosos, na realidade terríveis, a matéria de que são feitos, grácil e imaculada, fá-los parecerem só decorativos, mesmo amáveis... Mentem! Erguidos com a substância do riso, no fundo escondem os olhos da violência. Um desses blocos de gelo parece uma grande mão decepada e lívida: nem sequer lhe faltam as veias, em complicadas nervuras dum azul belíssimo... Outro é como uma máscara fúnebre, adolescente e nobre, em cujos olhos brancos o sol fez ninho. E passa ainda um cisne hierático e real vogando sereno sobre a orla do tempo... Diluídos em finíssima neblina, esquecidos no eco (antigo de mil anos!), os anjos do Silêncio impregnam tudo com a penumbra da sua natureza. É como que um pressentimento desgrenhado no fundo de nós, como uma lágrima viva e cálida num rosto de gelo, como um traço de sangue na fronte do vento... Se levado pela brisa que, sem rugas nem cor, nasce nos montes desta costa, ainda virgens de pegadas humanas, eu fosse até um dos icebergues e se por ele, pelo coração do seu centro, passasse incorrupto e nítido, eu sinto, sei!, que, depois de tal travessia, qualquer poderia ler nos meus olhos a primeira palavra dita no mundo, ou aspirar no meu sorriso o perfume da primeira flor da Terra, ou sentir na bênção dos meus gestos o frémito que fez no ar a primeira asa de pássaro ... E que todas as raízes, as mais profundas, da minha sombra, todas as cicatrizes do meu pecado, toda a macia adiposidade do meu medo, tudo isto lá ficaria no icebergue branco e gélido, de tudo isto eu me libertaria para sempre: enquanto das veias azuis do gelo, negros e medonhos, fugiriam peixes monstruosos que jamais alguém viu... Frederikshaabs: a paisagem que Deus criou, quando pensou a humana virtude da pureza! Os fantasmas da Gronelândia - <> O velho que assim arengava, o ti'Rufino, estava no meio. À volta, os outros todos, alguns ainda meio despidos. No mar, mal começava a luzir a madrugada. Lá onde os homens conspiravam, à proa, apenas a luz débil de duas lâmpadas. E o velho, caído o lábio inferior, trémulo de indignação, mostrava os dois incisivos, grandes e amarelos, ornamentos únicos da mandíbula ossuda... - <> Os rostos miseráveis dos pescadores assustados tornaram-se mais duros, os maxilares mais tensos de violência, os olhos semicerrados luziram ferozes... E o Tó Petinga, afastando abruptamente a basta madeixa loira que sempre lhe cobria a testa, ajuntou com voz embargada: - <> E logo o Zé Cravo: - <> Enquanto ouvia a fala dos moços, o ti'Rufino, mais enrugado o velho rosto, apoiava, acenando com a cabeça: - <<É como dizem, rapazes. Falaram dirêto! Parece qu'o gelo é tanto que, mais duma vez, lá têm ficado barcos prisionêros: nunca mais voltaram, nunca mais ninguém lhes pôs a vista em cima!>> - <> -gritava o Tó Petinga. A manhã ia abrindo, nas altas vagas, brancas pétalas de espuma; o vento, fugindo ao frio, enrodilhava-se nas nuvens cinzentas. À proa, o alarido crescia, rouco e surdo como um rugido. O Tó Petinga escarrou ruidosa, virilmente. O Zé Cravo acabou de vestir a roupa oleada e, agora roxo de presságio, veio outra vez ao centro: - <> E o Zé Cravo, com as costas da mão, assoou-se estrepitosamente. Os outros, excitados, gritavam agora francamente: Ouvia-se à ré. O Sol nascente, apanhando em cheio alguns dos homens, os que mais próximo estavam do convés, lavava-os num banho sangrento, dum vermelho vítreo. Então, o comandante do Rio Lima (era o nome do navio veleiro em que tais acontecimentos se passavam), alto e corpulento, um verdadeiro gigante, violáceo de fúria, desceu à proa: - <> E o homenzarrão, a tremer de cólera, batia com as botifarras nas tábuas do sobrado, que todas rangiam. Os tripulantes, acossados, recuavam, olhando-o rancorosos. Chamavam-lhe o capitão Caveira, estropiando maleficamente o nome de Cajeira. O velho Rufino, pálido como um morto, não arredou pé. Q comandante já mal se continha: - <> E crescia para o velho, sempre calado e imóvel. Foi então que o ró Petinga, vencendo o medo, conseguiu falar: voz rouca, húmida de sangue, mordida pelo ódio: - <> E todos, aquecendo, tomando ânimo, ulularam: - <> O capitão chegara ao auge: Num urro medonho, atirou-se ao rapaz agarrando-o pela gola do casaco e, abanando-o em frenesim, quase o mantinha levantado do solo... - <> A raiva sufocou-o. Todos esperavam que ele descarregasse o punho terrível sobre a cabeça do moço: Espasmodicamente, as mãos dos homens contraíram-se; alguns chegaram mesmo a dar um passo em frente; o ti 'Rufino, agora aflito, puxava o Petinga para trás... Mas, de súbito, o capitão afastou, brutal, o moço para o lado e avançou para o grosso da companha: - <> O ti'Rufino, de cabeça baixa, a olhar para o chão, a voz mais trémula, mas nítida ainda, obstinadamente, conseguiu articular: - <> - <> -volvia o capitão. - <> -ousou o Zé Cravo. - <> E o Cajeira, espumando de raiva, dava pontapés apocalípticos num molho de cordas para ali arrumado: Metia medo o homem! Com os grandes olhos congestionados e sangrentos a saírem das órbitas, fuzilava os pescadores, em relâmpagos duma violência selvagem: - <> - <> -choramingou o Toino da Zefa. - <> -insistiu o Manel do Rosário. - <> - gritou mais uma vez, de novo bravio, o Zé Cravo. Por momentos, o capitão olhou o moço em silêncio, cruelmente. Depois, num impulso incontível, foi-se a ele, arrastou-o como um boneco até ao mastro do centro e, com uma grossa corda, a este o amarrou, decidido, sem uma quebra na fúria. - <> E, dizendo tal, o Cajeira fixava o ti'Rufino, com um olhar odiento, estranho e sinistro. O homem, sempre em silêncio, aguentou-lhe por momentos a vista... Depois, abanando tristemente a cabeça, retirou-se do grupo. O capitão Cajeira, mais uma vez, vencera a batalha! Pouco a pouco, os outros, derrotados, afastaram-se também... E foi assim que o Rio Lima pescou, pela primeira vez para barcos portugueses, nas águas tenebrosas da Gronelândia. Cumpriu-se pois a promessa do capitão Cajeira: voltou a Portugal com o porão cheio de bacalhau. E com as grandes velas, sujas e rasgadas, ufanas de glória. Nas tardes soalheiras de Ílhavo, é certo e sabido que, mais uma vez, aquele velhote truculento, palrador e um tanto trôpego já, reunirá à sua volta uma assembleia doutros, tão idosos como ele, aos quais, novamente, contará alguma das suas façanhas... que não têm conto. Local da acção: um banco no jardim da vila. Pois este velhinho rabujento, que ainda gosta de rir com grandes gargalhadas sonoras, só cortadas pela tosse brônquica e impertinente... é quanto hoje resta do temido e glorioso capitão Cajeira! O lobisomem Porquê?! Era de desesperar o mais pachorrento: Todos os navios em redor com o convés repleto de peixe, e só aquele mais não fazia que somar lanços nulos com sacos meios,.. Que diabo, até parecia praga ou bruxedo! No mesmo mar, com os mesmos processos de pesca, com pessoal igualmente adestrado…O ambiente estava a tornar-se explosivo: em arco tenso os nervos, a lógica riscada pelos vidros, os olhos mais antigos do instinto de novo à superfície, Sim, a coisa não era natural: ali pesava uma qualquer influência estranha e demoníaca, urna estrela fria e terrível, um olhar sobre-humano e malsão, talvez um pecado oculto e nefando atraindo o castigo... - <> - <> - <> - <> -<> - <> - <> - <> - <<É um lobisome, Zé Grilo! Assim eu tenha certa a sarvação da minh'alma!. ..>> E, desde então, os dentes acerados a brilharem nos olhos sombrios, todos deram em se espiar mutuamente, reservados, atentos, ferozes... Ora aconteceu que uma noite, como antes em muitas outras, um dos ajudantes de máquina, rapazito ainda, acordou mais uma vez sobressaltado, ao ouvir o terceiro-maquinista que, no beliche de cima, sofria um dos seus espectaculares e ruidosos pesadelos... Aquilo era de fazer arrepiar um homem: uivos de lobo, gemeduras, pragas assanhadas!.. Este pensamento atravessou-o de repente, como um relâmpago: e se o lobisomem... sim, se fosse o terceiro? Sentou-se na cama. Cada vez mais colorida e corporizada, a suspeita, como um surto de febre, apossava-se do moço. O outro, lá em cima, gritava agora mais forte, mais aflito. <<É ele, é ele mesmo!>>, pensou o ajudante. Então, a tremer, receoso, o rapaz levantou-se pé ante pé e foi-se à proa: tinha que desabafar, com mil diabos!! Uma hora depois, não havia ali um só homem adormecido: as cabeças hirsutas dos pescadores, algumas ostentando grandes barbas selvagens, saíam dos beliches, apinhadas umas sobre as outras, como bagos dum gigantesco cacho, que a luz frouxa do local tornava sonâmbulo e o brilho fulgurante dos olhos perigoso: - <<É o tercêro-maquenista, digo-to eu! P'las Cinco Chagas de Cristo, tu já arreparaste bem nele? Anda p'r 'ali consumido, mais pisado qu'o grão no moinho…É ele! O lobisome é ele!>> Todos se vestiram, rapidamente. O rumor, surdo e contido, rastejava pela proa como uma bicha e a todos largava fogo: - <<É preciso picá-lo, rapazes! Um lobisome só deixa de fazer mal, depois de picado…>> Os homens agora já não se continham: gritavam, benziam-se, enrodilhavam-se uns com os outros, medrosos e odientos... - <> Um silêncio confuso e apavorado. Depois, sucessivamente, todos os olhares caíram sobre o ajudante de máquinas: o mocito, a voz presa na garganta, fez com a cabeça que não, recuando assustado... Mas os outros, um a um, botaram fala, foram dando as suas razões: Que tinha de ir ele, que não podia mesmo ser outro, até porque ninguém conhecia melhor o camarote do terceiro... Nesta altura, o rapaz já maldizia a ideia que tivera e quase tomava a escolha da sua pobre pessoa para tal façanha, como um castigo de Deus. Mas, enfim, não havia mais remédio: não podia escusar-se, porque os outros... E olharam bem, ansiosamente. Um arrepio fê-lo estremecer dos pés à cabeça: à sua volta ia-se apertando, cada vez mais, um círculo de olhos implacáveis, de dentes cerrados, de mãos contraídas... Não podia escolher. Lá foi. Em silêncio, engolindo a própria respiração, os olhos alucinados, entrou no camarote: O terceiro dormia, agora calmamente. A luz que passava pela porta entreaberta, deixava-o ver, pendente do beliche, em braço nu: ali mesmo, naquele braço é que tinha de picar! E o moço preparava uma espécie de forquilha de arame, para tal empresa improvisada… <<É agora, tem que ser agora!.. E se ele acorda, se o reconhece e logo ali o mata, ou lhe faz encanto mau?... <> Lembrou-se então de que, uma vez picado, o lobisomem perderia todo o seu poder. Por outro lado, mal lhe tocasse, ele trataria de fugir e o outro nem sequer o veria... Suspirando, o terceiro deu uma volta na cama: O rapaz, com o susto, tropeçou numa cadeira... E quedou-se assim, encolhido, o coração a saltar-lhe pela boca: esteve quase para gritar. Lá se conteve. Olhou: o terceiro dormia ainda, o braço outra vez de fora... Pronto, tinha que ser, c'um raio! Agora, ou nunca! Estendeu a forquilha para medir a distância, verificou que a porta do camarote se mantinha aberta... Por segundos, fechou os olhos: <> - <> E o rapaz, chorando alto, atirou-se para cima dos beliches, logo cobrindo a cabeça com as mantas. Ainda mal acordado, o terceiro-maquinista examinou o ligeiro arranhão que tinha no braço: fez um gesto de surpresa? Depois, ao ver o arame caído no chão, sorriu com bonomia e, voltando-se para o outro lado, adormeceu de novo: brincadeira do segundo, ou do piloto... O mais estranho é que, logo no dia seguinte, a sorte da pesca mudou: E, com a abundância do peixe, voltou a claridade ao riso. Coincidência? Vão lá dizer isso aos homens do convés!... Não acreditam, é claro. E eu também não. As mulheres dos <> O ti'Fausto tem quatro filhos: três rapazes e uma rapariga. Os moços já andam ao bacalhau nos navios de linha: um deles no Ilhavense, o outro no Creoula, o terceiro no Senhora da Vida. Quanto à pequena, já em idade casadoira, essa fica na Fuzeta com a mãe, a ti'Deolinda. No coração do velho, um grande desgosto: que os filhos tenham escolhido também a vida do mar! Bem bastava O que ele, Fausto, tinha passado em quarenta anos de Terra Nova e Gronelândia... Bem bastava! Mas enfim, é o destino da gente. - <> E logo juntava apreensivo: - <> No coração do ti'Fausto, este desgosto; e uma grande inquietação: a filha. Sente-se velho, a mulher cada vez mais acabada e a rapariga ainda em casa, solteira: Terá que casá-la bem, para que fique amparada, senhora do seu próprio lar. Mas para tal -é o costume da Fuzeta -o ti'Fausto precisa de juntar dinheiro que chegue para lhe comprar o enxoval e uma casita também: Será capaz, terá ele ainda forças para isso? É certo que a ti'Deolinda -um cavaco, sempre roída de moléstias, coitada! -e a rapariga, lá na terra, sempre vão ajudando: As mulheres da Fuzeta não ficam ociosas, enquanto os homens se arriscam ao mar, não senhor! Todas trabalham: nas fábricas de peixe que há em Olhão, ou preparando o biqueirão pescado nas costas do Norte de África... seja no que for. Mas, pensando bem, que vale o ganho de duas mulheres, uma delas já com os pés para a cova? Além disso, sempre havia as despesas da casas, do dia-a-dia... Enfim, vidas! Os filhos não lhe davam já cuidados: casados e bem entregues. Pudesse ele dizer o mesmo da <>! Lá jeitozinha era ela, benza-a Deus! Mas até isto, esta mesma formosura, é um perigo: Ele, Fausto, não é cego, bem via os olhos dos mais pescadores, quando a filha vinha com a mãe ao bota-fora do navio, na largada para a Terra Nova... - <> Nas Gafanhas da Nazaré e da Encarnação, na d'Aquém, na do Carmo, na Vagueira... em todas as Gafanhas de Í1havo, as mulheres amanham a terra, durante o tempo (às vezes, dez meses por ano!) em que os homens pescam o bacalhau nos mares distantes da Terra Nova, da Gronelância, da costa do Labrador. Elas cavam, semeiam, ceifam e colhem: duramente, com sanha viril. E assim se bastam e aos filhos. Quando o marido vier da campanha, encontrará a casa cheia como um ovo; e branquinha, sem sombra de dívida: Então, com a ajuda de Deus, ele poderá comprar mais um pedaço de terra. É assim com o Ribau, com o Chibante... com muitos outros. Com o Sarabando, também gafanhão e dos sete costados, não será bem assim: muitos filhos e todos pequenos ainda. Mas já alguém o viu triste, ao nosso Sarabando? Eu cá, nunca. Pobrete, mas alegrete. O Adolfo Malhão é um homem alto e moreno (verde-negro, como diz o Félix), de longos cabelos e grandes barbas pretas de azeviche. Perfil bíblico, figura do testamento antigo. Trinta e cinco anos, uns olhos escuros de iluminado, um sorriso lunar e doce. É de Caminha: Contrabandista, pois claro. - <> Pois tem; o Malhão tem uma filhita já com onze anos, perfeitinha de corpo e de feições, esperta, compreendendo tudo muito bem, mas... que não fala: meningite, com a idade de meses. Acontece todos os anos: na época em que o pai costuma voltar da viagem (e ela sabe muito bem qual é!), não se passa um só dia sem que a menina muda, vestida a roupita domingueira, deixe de ir esperá-lo à estação: com os olhos ansiosos muito abertos, trémulas de excitação as pernitas magras, a criança corre de carruagem para carruagem... até que, num certo comboio, ele enfim chega! Então... - <> O Cristóvão Robalo Moço é nazareno. Há bocado mostrou-me o retrato, em ponto grande, das duas filhas: Quase mulherezinhas (apesar do Cristóvão ter só trinta anos!), vestidas a rigor (sete saias, à moda da Nazaré), as moças ostentam, no pescoço e nas orelhas, um carregamento de oiro... Com duas filhas assim, daqui a pouco casado iras, o Cristóvão não se pode descuidar. E a mulher, lá em terra, vai ajudando, está bem de ver: Vende peixe, pois então! Como as do Félix, do Formiga, do Chita, dos primos Murraças... Que há-de fazer a mulher dum pescador, senão vender o pescado? Na Nazaré, é assim. E, na arca grande do Cristóvão, as saias, as blusas multicolores, as arrecadas e os cordões, os lençóis bordados, cada vez ocupam um espaço maior... - <> - <> - <> Adúltera? Mulher de pescador? É caso raro, falado e banido por essa costa além, desde a Fuzeta algarvia até à Nazaré, desde a Figueira à Póvoa. Mulher adúltera, na borda de água?! - <> O nosso capitão Viana recebeu hoje uma boa-nova: o filho passou para o segundo ano do liceu. Está muito contente, é claro. A propósito confidenciou-me que, todo somado o tempo de terra, talvez ainda não tivesse vivido quatro meses com o filho: e o rapazinho, agora, já tem onze anos! Se ele no próprio dia em que se casou (às dez horas da manhã), logo teve que sair (às quatro da tarde) para o mar! Ai, a vida dum pescador... Assim, os pequenos foram crescendo, ele envelhecendo, e a companheira de sempre também: Separando-o da mulher, das crianças, o mar. Isto, uma vida inteira. Foi <> quem educou os filhos de ambos, quem lhes escolheu caminhos de vida, quem lhes serviu de exemplo impecável. Ela, sozinha: humildemente, em silêncio, como coisa natural e simples. O António Cruz enviou, há dias, para os filhos, o seguinte telegrama: <> A mulher do Cruz, a <>, está, desde há dois meses, internada no manicómio. À testa da casa, cuidando dos quatro ou cinco pequenitos, a filha mais velha: velha de treze anos. O Cruz vive crucificado. De quando em quando, deixa-se cair, doente de depressão. Depois, lá vem uma carta da filha e ele recobra alento. É um homem atlético, enorme e brutal de aspecto, quase antipático. Pois é este bruto quem, ternamente, pede aos <>: o Cruz anda consumido de angústia, doente de saudades e de apreensão. A carta que, há bocado, ele me veio mostrar, era da filha mais velha: <> E o Cruz, enorme e desajeitado, a chorar como uma criança, apenas podia dizer: - <>  Alan Williers.