O Capitão PassanhaJe¼ ReÀReÀTEXtREAdÿÿÿÉÆÔÔ Ô0Ô@ÔPÔ`ÔpԀԐԠ԰ÔÀÔÐÔæ3Title: O Capitão Passanha Author: Mário de Carvalho CreationDate: Tue Jul 21 14:01:00 BST 2009 ModificationDate: Wed Mar 04 13:00:00 GMT 1970 Genre: Description: O Capitão Passanha Mário de Carvalho Os textos aqui publicados foram extraídos do livro Contos da Sétima Esfera, de Mário de Carvalho, que gentilmente autorizou a sua publicação. © 1997, Mário de Carvalho e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8127-91-X Lisboa, Junho de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** O CAPITÃO PASSANHA Do problema que o capitão Passanha houve de resolver quando, em circunstâncias atribuladas, comandava o Maria Eduarda no estreito de Malaca e do bom despacho que lhe deu com a cooperação de todos ou O enigma da estátua mutilada encontrada nos fundos de Shandenoor Há meses, o navio oceanográfico Scania, pesquisando espécies marinhas entre Samatra e Ceilão, não longe dos baixios a que chamam de Shandenoor, trouxe à tona um estranho achado, decerto há muito afundado nas profundas geladas daquelas paragens. Tratava-se de uma estátua de gesso, quebrada em três partes, representando o corpo de um homem de que nunca se conseguiu encontrar a cabeça. As características da estátua, muito maltratada de corais e algas, com seus braços finos, encurvados e mal pegados ao corpo, suas sugestões de vestuário inidentificável. seus pés juntos e grandes, lembrando os dos sarcófagos, são actualmente estudadas por uma equipa de especialistas nos armazéns do museu de Kuala-Lumpur. Busca-se uma hipótese, minimamente rigorosa, para o aparecimento da estátua naquele ponto e com aquele talhe, diverso de tudo o que é conhecido nas civilizações em volta. Alertados, os esotéricos, parasitas do mistério, escreveram já rios de tinta sobre o que consideram ser o primeiro vestígio do continente desaparecido de Mu. Porém, neste particular, como em todas, as coisas não são o que parecem. Tudo se passou há muito ano, no tempo dos navios veleiros, quando o Maria Eduarda sulcava o estreito de Malaca, no regresso a Lisboa ... Saltos bruscos do vento anunciaram a samatrada e a bordo tudo se preveniu e conformou-se a mareação para frustrar o rebate da natureza. Ninguém contava, todavia, que a tempestade viesse tão brava. Durante horas, o Maria Eduarda foi sacudido entre vales, montanhas e túneis líquidos e mesmo a marinhagem mais afeita aos mares do estreito cuidava ser aquela a derradeira tempestade que via e evocava instintivamente as velhas orações da infância. O comandante Passanha não se deixou impressionar. Tinha já visto muito mundo, a sua vida estava recheada de contenciosos com a natureza e não era uma samatra vulgar que lhe ia aquentar o sangue-frio. Tanto mais que tinha confiança no navio, lenho rijo, de boas madeiras, há pouco querenado nos estaleiros de Viana. Assim se fez amarrar à roda do leme, logo aos primeiros rompantes do vento, e decidiu dar tino à marujada, porque o cumprimento rigoroso das ordens, mesmo inúteis, é boa cura para o medo e a desesperança. Os homens do mar -sabia-o o capitão -têm de ter sempre que fazer, em quaisquer circunstâncias, ou é mais que certo sair dislate. E foi neste espírito, na maior crise dos mares e dos ventos, quando no meio das pancadas de água já ninguém atinava ao certo se o navio ia ou não submerso, que o comandante mandou que se vazassem no mar os barris de óleo e as talhas de azeite carregadas no porão. Não ignorava o capitão que, no estado daquele mar, nenhum alívio traria a manobra. Mas a verdade é que a ideia deu ânimo à marinhagem que, num frenesi salvador, se obstinou em cumpri-la, agarrada aos cabos de vaivém. Mais tarde, recordando a tempestade, diriam com grande exagero que, não fora aquela ordem do comandante a domar as águas, e elas teriam abafado o navio sem que ninguém sobrasse para contar a história. A tempestade passou, porque é da natureza das tempestades passarem. As ondas desistiram dos céus e três ou quatro repelões secos de vento vieram limpar os ares e deixar um aviso final aos homens para que não se metessem noutra. No dia seguinte, o Sol veio resplandecer um mar largo e brandamente verde, sob um céu despido de nuvens, pousado, tranquilizador. Mal o contemplaram os marinheiros, que o dia foi dedicado à bomba e às tarefas de reparação do aparelho avariado e de limpeza do navio, até que rebrilhasse, em consonância com a paisagem. Nisto, um marinheiro deu sinal de vela a estibordo. O imediato indagou com o óculo e veio dar parte ao capitão. Era um junco em apuros, maltratado da tempestade, com dois mastros em baixo e água a dar pelas amuras. De bordo, faziam acenos que pareciam, ao imediato, desesperados. O capitão hesitou, de mãos atrás das costas, se sim, se não, havia de dar salvamento aos chins, que os mares eram inseguros e todos os cuidados poucos. Optou pelo que lhe ditavam o sentimento e os olhares condoídos do imediato e da tripulação, mas não pôs de lado os ditames da prudência. <>, diziam os antigos, e bem lembrado estava o comandante destes e doutros avisos quando, depois de ordenar a manobra de atracação ao junco, dispôs o seguinte: Que a velha caronada que jazia envolta em esteiras a um canto dos alojamentos fosse trazida para o convés e atacada; Que o imediato e dez marinheiros, armados de sabres e de machados, se escondessem atrás da amurada, à alheta de estibordo, para o que viesse; Que todas as armas de fogo se dispusessem no convés, carregadas e prontas, ao alcance de mão; Que ninguém fizesse alvoroço nem modos de estranheza, para que as manobras, vistas de fora, se mostrassem desacauteladas. E com o mestre calafeteiro ao lado, de mecha acesa, ali promovido a bombardeiro, zelou para que a caronada, disfarçada entre rolos de cordame, segurasse sempre o junco na linha de fogo. Muito perto, o junco era um cafarnaúm de massame, pranchas e canas quebradas, que parecia sem governo, ao som do mar. Alguns corpos, vestidos de vagos trapos rotos, andavam de rojo pelo convés e uma meia-dúzia de chins esquálidos fazia sinais lânguidos do tombadilho. Chegados à fala, o capitão, por meio do porta-voz, bradou perguntas em português, repetidas em inglês de cais, com alguma mistura de palavreado chim e malaio. De bordo do junco levantou-se uma algaraviada incompreensível, envolta em indiscernível gesticulação oriental. O comandante deduziu que precisavam de reboque e de alimentos e mandou aprestar latas de corned beef e três barris de quinto, enquanto se operava a atracagem por lançamento de uma amarra com ancorete. Estava firmemente determinado a manobrar um reboque de popa, não permitindo, em nenhum caso, que alguém do junco subisse a bordo. De súbito, dois arpéus vieram pelo ar, amarrados a cabos de cairo, e o embate com o junco deu-se mais cedo do que seria de esperar. Um tiro ribombou e abateu um marinheiro que se debruçava duma enxárcia, atento à manobra. No meio do estralejar das detonações, uma chusma de chineses, em grande alarido, galgou a amurada e invadiu o convés, brandindo cimitarras e piques. Logo o imediato lhes fez frente, muito de rijo, à testa do seu grupo, e todas as armas aprestadas a bordo, num estrondear medonho que encheu o convés de fuma raça, alvejaram a piratagem surpreendida. A luta foi muito sumária e os invasores recuaram de atropelo, despenhando-se os poucos sobreviventes pelo portaló que lhes deu entrada, sem cuidarem dos cadáveres dos companheiros que ali ficaram prostrados. Na confusão de fumos, tiros e urros, o capitão lobrigou o imediato seguro a um dos ovéns do mastro grande, pés na mesa da enxárcia, a fazer pontaria de revólver para o junco. Nessa altura, um pirata magricela, pendurado nos enfrechates, volteou num gesto largo a cimitarra e logo foi abatido por um dos de bordo. Na confusão, o capitão não distinguiu pormenores, mas suspeitou de que o imediato tivesse sido fortemente golpeado. Mas já os derradeiros piratas se refugiavam, mal feridos, a bordo do junco, em esbaforida algazarra e estrépito de tiroteios perdidos e, cortadas as amarras a golpes frenéticos de machado, o xaveco distanciou-se ao sabor das ondas, obra de trinta braças. Das amuradas e gáveas do Maria Eduarda, a marinhagem insistia numa fuzilaria cerrada, a coberto dos vapores de pólvora que iludiam os disparos incertos dos do junco. Então, o capitão viu chegado o momento de usar a caronada. Regulada a culatra pelo calafate, pareceu a todos bem feita a pontaria e logo se chegou a mecha à escorva e o tiro partiu, rasante. A granada deu cheio a meia-nau, levantou estilhas, revolveu confusões, fez esvoaçar cordames e balouçar moitões e deixou um rombo hiante e fumarento no convés do junco. Mais certeiros, menos certeiros, os tiros de caronada sucederam-se até que o pequeno canhão ficou quase em brasa, ameaçando ruptura, e as granadas apenas levantavam grandes cachões de água, muito para aquém do amontoado caótico e inerte do junco, visto já muito à distância. O comandante mandou então que se suspendesse o tiroteio, tornado inútil, e deu-se a inventariar danos e baixas. Um pequeno foco de incêndio que lavrava junto à escotilha dos alojamentos prestes foi abafado a baldes de areia e, para além de alguns furos e rasgões no velame, apenas se registaram arranhões de balas nas amuras e na ponte. Meia-dúzia de cadáveres de piratas seminus que se atravessavam no convés em posturas bizarras foram, sem mais preparos, atirados borda fora, sem que alguém curasse de saber se lhes ia sopro de vida. Sobraram os corpos do piloto e de um marujo lascar, muito passados de golpes, que logo foram cobertos com um oleado. E um marinheiro contrito, muito compungido, veio trazer a cabeça do imediato, que fora encontrada debaixo da enxárcia de bombordo, meio escondida por um rolo de cordoa lha. Deu o capitão ordens para que se varejasse o navio e se revolvessem todos os esconsos, mesmo os mais absurdos, em busca do corpo que complementava aquela cabeça. Mas as pesquisas deram em nada. Da observação do mar também nada resultou. Caída a noite, ainda se avançavam lanternas sobre as águas e se tocava o sino, mais numa demonstração de reverência e num descargo de consciências do que na esperança de que o corpo viesse à tona e se oferecesse aos que o procuravam. Nessa noite, o capitão Passanha viria a adormecer com a responsabilidade de dois corpos, alinhados na tolda em padiolas de lona, e de uma cabeça sem corpo, disposta sobre um caixão de arroz, entre velas acesas e sob a guarda respeitosa de marinheiros em turnos. O próximo porto de escala, Lourenço Marques, a um mês da derrota ronceira do Maria Eduarda, punha de lado a possibilidade de conservação dos corpos para posterior funeral em terra. Aliás, pensava o capitão, funeral de homem do mar morto no mar quer-se no mar, em conformidade com as regras e praxes da marinharia, e soava como deslustre à memória dos finados a ideia de alterar o rumo e desembarcá-los em qualquer porto de gentios. Acudia, é certo, ao capitão aquela superstição portuguesa de que os cadáveres lançados ao mar no hemisfério norte flutuam sempre apontados a Oeste, por mais lastro que se lhes amarre, mas o capitão já tinha visto muito mar, presenciado muito lançamento e confiava mais nas leis físicas da imersão dos corpos do que nas lendas dos antigos. Porém, assente a cerimónia do lançamento ao mar dos defuntos, um problema de esquiva solução se apresentava agora ao arguto capitão Passanha. Os cadáveres dos dois marinheiros, vá que não vá, deslizariam do passadiço para as profundas, envoltos em panos de velas, com duas bigotas de ferro aos pés, encharcados de água benta pela marujada formada, depois de competentemente lido o Veni Creator. Mas que trato dar à cabeça do imediato? Inconcebível a ideia de um pequeno fardo redondo a rebolar pela prancha e a despenhar-se nas águas com um ruído pífio, entre farrapos minúsculos de espuma. Já o sol vermelho daquelas paragens tingia de tons púrpura a cabina do capitão, quando este tomou a decisão definitiva e irrevogável. Havia que arranjar um corpo para aquela cabeça e proceder dignamente ao lançamento. Cedo, na manhãzinha seguinte, o capitão, homem afeito a decidir sozinho, sem contas prestadas a Deus ou ao Diabo do que lhe ia nas decisões. resolveu aconselhar-se com o contramestre e o mestre calafate, os mais graduados que vinham a bordo. E durante a primeira manhã os passos dos três homens, circunspectos, ressoaram entre o traquete e o tombadilho, num passeio compassado de quem sopesa resoluções graves. Tratava-se de encontrar meio de dar um corpo condigno à cabeça do imediato. Rejeitada a sugestão de afeiçoar a cabeça a um fardo de estopas, cordame e desperdícios de velame, por ser material perecível que mal poderia sofrer a água, alguém lembrou os santos de pau acondicionados no porão, embarcados em Timor. Cortar-se-ia a cabeça a um deles e em seu lugar adaptava-se a cabeça do imediato. Ao capitão não sorriu o alvitre, por várias razões: porque os santos eram de madeira, com pendor para flutuar, porque o seu tamanho não excedia o côvado e meio, o que desde logo desajustava a cabeça e finalmente, porque não considerava trato decente para os despojos do imediato o fornecer-lhe um corpo pintado, envolto em túnicas ou saios garridos, lavrados de ouropéis e estrelas de purpurina, muito à afeição de roupagem de entrudo. Então o mestre lembrou que o cozinheiro já tinha sido imaginário, no Minho da sua juventude, e sugeriu pô-lo a trabalhar nas cantarias de mármore, longas e pesadas, que transportavam para Lourenço Marques. Porém, por maior empenho que mostrasse e pressa que desse a malho e escopro, não havia santeiro que despachasse pedra tamanha em menos de um mês, tempo suficiente para corromper os corpos e empestar todo o mar Índico. Em todo o caso, chamaram o homem, que lá veio, atarantado, desbarretado, a limpar as mãos ao avental imundo e a confirmar a impossibilidade da obra em tempo tão escasso. E de passeio a três passou a sorumbática deambulação a passeio a quatro, com a figura cinzento-esbranquiçada do cozinheiro a saltitar, para cá e para lá, ao lado dos outros. Ora foi precisamente o tatebitate do cozinheiro quem, depois de muita titubeação e palavras em falso, veio com a sugestão luminosa: gesso, que se fizesse um corpo de gesso de presa. O carpinteiro escavaria um molde de madeira, no que ele, com a sua experiência de santeiro também prático em trabalhos de pau, ajudaria como pudesse, vertia-se o gesso húmido dentro da figura e depois havia só que limar e dar-se-lhe o jeito final. Chamado o carpinteiro à conferência, logo este apreendeu a ideia e se declarou competente e cooperante em todo o necessário. E, disposto no convés um largo fuste de madeira, os dois homens aplicaram-se com grande rumor de marteladas e rangeres de serra. O rancho desse dia, amanhado pelo moço de cozinha, veio ainda mais infecto e intragável que o habitual, mas ninguém a bordo protestou, sabedores todos das transcendentes tarefas ora atribuídas ao mestre de cozinha. Também o capitão, que convidou o contramestre e o calafate a almoçar na sua cabina, teve boa boca, sentindo-se já aliviado do problema que o atormentava, ao som das pancadas enérgicas com que os dois artistas castigavam a madeira. Ao pôr do Sol, perante a tripulação formada no convés, o capitão podia, enfim, dirigir a cerimónia fúnebre. Um a um, os três corpos deslizaram pela prancha inclinada e despenharam-se solenemente no mar. Cada baque foi sublinhado com um tiro seco de caronada, numa derradeira homenagem aos desaparecidos. De todos estes eventos foi lavrado o competente termo. Dizem que na véspera do Juízo Final todos os segredos escondidos serão desvendados e revelados enfim todos os mistérios, como nas paradas finais dos jogos. Então, seria também explicado aos homens o porquê daquele corpo tosco de gesso, talhado ingenuamente, ao modo rústico do Minho, que se encontrava plantado a grande profundidade perto da costa de Samatra. Assim, pequei eu, antecipando-me a mostrar desde já o que estava reservado para saberdes muito depois. Que todos ficassem bem ... Nos meus últimos dias de férias no arquipélago de Shandenoor vieram procurar-me dois sujeitos escuros, muito magros, bisonhos, que se diziam enviados do rei de Carvangel. Acontecia que ao príncipe lhe tinha dado para a melancolia e passava o tempo a fabricar papagaios de papel colorido, sem nenhum interesse pelas coisas da governação, o que deixava o velho e gotoso monarca preocupado quanto ao futuro do reino. Assim me foram descobrir naquelas ilhas e reclamar os meus cuidados, sem olhar a despesas. Comecei por recusar polidamente e indicar-lhes um médico meu conhecido de Bombaim, o Dr. Shantana Lagador, muito reputado em psiquiatria. Mas os homenzinhos não se convenceram. Queriam-me a mim. E durante todo esse dia seguiram-me os passos, como dois cães cabisbaixos. Um deles, soube-o mais tarde, era o próprio primeiro-ministro e o outro um dignitário importante, <> ou coisa que o valha. Não creio que no caso de inêxito lhes estivesse preparada uma recepção particularmente festiva, porque ambos ficavam muito sérios quando encaravam a hipótese -decerto remota, diziam -de regressarem ao país sem a minha companhia. Fosse por que fosse -e a verdade é que nem sempre somos senhores das nossas decisões -acabei por tranquilizar os cavalheiros e garantir-lhes que estaria em Carvangel na próxima quinzena, podendo eles, desde já, seguir adiante e levar a nova ao reino. Os homens ficaram jubilosos, agradeceram-me com grande alarde de reverência oriental e lá os levei à porta meio contrariado e confundido, quer pela resolução que acabava de tomar e de que já me tinha arrependido, quer pelas manifestações de reconhecimento subserviente que me incomodavam, com tanta vénia e beijares de mão. Resolvi, pois, ficar mais uns dias em Shandenoor e aproveitar para bisbilhotar algumas ilhas que ainda não conhecia. E durante uma semana, a escalar cumeadas montanhosas cobertas de arvoredo, ou aos baldões, em paraus de aluguer por entre as cavas do mar, nem me lembrei do principezinho neurótico nem da estranha embaixada que me enviaram. Ao cabo deste tempo, soube que tinha perdido a oportunidade de voar para Carvangel ainda nesse mês. As carreiras eram mensais e o último táxi aéreo havia descolado na véspera, aliás em condições de navegação precárias. Indicaram-me o ferry-boat em que se transportavam, nesta época, os trabalhadores sazonais que iam a Carvangel trabalhar nas plantações de sisai, a largar por um desses dias, e recomendaram-me, no hotel, que falasse pessoalmente ao capitão se queria um tratamento mais cuidado. Soube que ele era português, como eu, que se chamava Andrade e que poderia encontrá-lo à noite razoavelmente sóbrio, se comparecesse cedo, num bar do porto chamado O Néctar do Sétimo Pingo Luminoso da Lua Cheia. Tratava-se de um botequim meio escondido, numa rua miserável, mal assinalado por uma lanterna de papel, imunda, que estremecia ao vento. O capitão Andrade sentava-se a uma mesa em que orientais apinhados, luzidos de transpiração, apostavam desvairadamente ao Fan-Tan. O capitão não pareceu muito entusiasmado em levar-me, e foi de má catadura que me deu alguma atenção, por entre as exclamações ruidosas dos jogadores. Num falar lento, arrastado, mortiço, procurou dissuadir-me e remeter-me para o voo de avião do próximo mês. Era um cinquentão pesado, meio calvo, de boca torcida por um eterno cigarro, que vestia um dólman, outrora branco, muito apertado, e se exprimia com uma forte pronúncia alentejana, num falar expressivo, em que, de quando em quando, se insinuavam palavras malaias ou chinesas. O facto de sermos patrícios [ele tinha nascido em Sines, eu em Santiago] e de eu viajar por conta do reizete de Carvangel, mais este que o primeiro, por certo, lá o convenceram a alojar-me na sua cabina. Despediu-me com um aceno mole e voltou ao seu jogo, de olhos a brilhar. Antes, a rematar o ajuste comigo sobre transporte e alojamento, dissera-me mecanicamente, a propósito de nada, uma frase que eu ainda lhe havia de ouvir muitas vezes durante a viagem: -Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem ... Quando no dia seguinte, muito cedo, cheguei ao porto, já o ferry-boat, alardeando a sua brancura por entre a massa pardo-castanha dos milhares de sampanas e juncos que coalhavam as águas, pastosas, do rio, roncava o seu terceiro aviso. Dentro, retirada logo a prancha do passadiço com os protestos de uma multidão de cúlies lazarentos que se apinhavam no embarcadouro, tive de me movimentar por entre um molho apertado de gente seminua, de turbante garrido, aglomerada em todo o espaço disponível. Ao cimo das escadas que davam para a ponte, cobertas de pessoal alegre e palrador e suas trouxas, que mal deixavam espaço para subir pé ante pé, um sipaio de má catadura, de trabuco pesadíssimo a tiracolo, abriu-me uma cancela de ferro, com gestos lentos, cheios de autoridade. Depois veio-me indicar, solene, o camarote do capitão, onde arrumei as minhas malas debaixo de um divã improvisado, junto a uma janela rectangular que se reflectia onduladamente no tecto de madeira. Entre a minha precária cama e o beliche do capitão mediariam uns vinte centímetros e, para além de uma escrivaninha de cânfora, atafulhada de papéis de bordo, uma prateleira com escassos livros de mareação e um lavatório de louça colorida, pouco mais cabia na cabina. Por cima do beliche do capitão, uma gravura emoldurada, em vidro fosco, muito trabalhado e colorido, continha N.ª S.ª dos Navegantes a observar serenamente tudo. Ele, entretanto, encontrava-se na cabina do comando, dirigindo a manobra, decerto complicada pela densidade do tráfego indígena que obrigava a muito golpe de roda o piloto grego, e a um silvar quase constante do apito. Ao fim de algumas horas passávamos, enfim, o farol do velho forte português de Shandenoor, que nos salvou com um tiro de peça, a que respondeu de bordo uma tremenda algazarra, em meio de grande agitar de panos coloridos. O navio ia pouco boieiro, atochado de gente e de fardos. Os embornais quase rasavam a água, de ondas mansas e espessas do muito aluvião que arrastavam para o mar. O nosso reduto na ponte era relativamente tranquilo, isolado da turba multa que se comprimia no convés e nos porões, de que nos chegavam o alarido e o rumorejar constantes. O percurso demorava uma semana, sem escala, pelo mar nu. Durante esse tempo, pelos primeiros três dias, o navio não fornecia alimentação e todos os emigrantes teriam de se haver como pudessem. Ao quarto dia, distribuía-se àquela gente uma sopa de ervas e arroz, em grandes latas. A água estava racionada a duas canadas por pessoa em toda a viagem. Eu era tratado como membro graduado da tripulação. O capitão e eu tomávamos as refeições na ponte superior, com o piloto grego, muito moreno, que só falava chinês, e o maquinista irlandês que sabia tocar canções melancólicas numa gaita-de-beiços. O resto da tripulação, uns oito homens, ou eram sipaios indianos encarregados de manter a ordem, ou moços de convés, cúlies ágeis, diligentes e prestáveis. Durante os primeiros tempos a viagem correu bonançosa, sem história. De dia, o capitão dava ordens na ponte, de barretina atirada para a nuca, um braço descaído sobre o pavês, molemente. Depois do jantar, os três oficiais jogavam um jogo chinês, o Mah Jong, de que logo me escusei, preferindo ler umas notas debaixo de um fanai, enquanto eles praguejavam na ponte em idiomas vários, entre os estalidos das peças de marfim na mesa desmontável. No final de cada jogo eu ouvia a voz do comandante, por sobre o estralejar das peças recolhidas: -Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem! O capitão, de vez em quando, vinha falar comigo. Lamentava-se de que a viagem fosse monótona e desejava-me melhor sorte que este enfado. Sabia muito sobre aquelas paragens, costumes, gentes, tipos. Industriou-me com pormenor sobre os hábitos e protocolos da corte de Carvangel, não deixando nunca de insinuar, disfarçadamente, a sua estranheza por me ter prestado a visitar um reizete tão obscuro. Uma vez por outra, eu decidia dar uma volta pelo navio. Aproveitava a altura em que o irlandês, já tocado de genebra, descia até às profundas da casa das máquinas e o sipaio lhe abria a porta muito respeitador e orgulhoso do bacamarte com que assegurava a ordem a bordo. O capitão não aprovava estas minhas surtidas. No primeiro dia de viagem chegou a opor-se com energia a que eu descesse. Que era para não ver o que eles comiam dizia-me -, para não ficar agoniado. Depois houve um parto complicado, e o próprio capitão me veio chamar para dar assistência. Enquanto eu trabalhava, com a ajuda de mulheres escuras e tristes, o capitão fumava, olhando os longes do mar. -Em todas as viagens nasce pessoal a bordo. Às vezes sou eu próprio a assistir, imagine o doutor. Os indígenas têm confiança. Mas este era um caso arrevesado, e ainda bem que o doutor estava. Não sei aonde é que esta gente quer ir parar, com tanta ninhada. Olhe, é preciso é que todos fiquem bem. E o capitão ajudava-me a subir à ponte, carregava-me a maleta, segurava a cancela para eu passar, e já depois, no camarote, expendia largas observações sobre aqueles modos de vida e ouvia deleitado as notícias que eu lhe ia dando do nosso país natal. Adormecia de repente, depois de um <> suspirado. Um dia vi-o muito tenso, de mãos crispadas na bitácula, a olhar o horizonte, sobrolho carregado. O grego piloto mascava melancolicamente o que quer que fosse e, de quando em quando, alteava um dos ombros, num tique que lhe não era habitual, tocando as malaguetas com impulsos bruscos. Ao almoço, os três oficiais mantinham-se silenciosos, tratavam-se cerimoniosamente, interpunham grandes pausas entre as raras palavras. Perguntei ao capitão o que ia no ar. Ele respondeu com um discorrer vago, queixando-se do irlandês que, a seu ver, tinha mau feitio quando bebia, não se fazia respeitar pelos dois cúlies que trabalhavam com ele, e deixava sempre a casa das máquinas coberta de uma camada pegajosa de óleo e poeira. Além disso, tinha mau perder ao jogo confidenciava-me, entre baforadas vivas de genebra. Os outros, entretanto, esbugalhavam os olhos, tentando adivinhar uma ou outra palavra da nossa palestra, e quedavam-se muito graves, o grego aplainando vagamente com a faca as rugas da toalha, o irlandês assobiando para o lado, enquanto fazia rodar distraidamente um abacate mirrado na mão. Percebi que o capitão, na sua perlenga, enquanto descascava a fruta com método, escolhia as expressões, ia buscar regionalismos, termos arrevesados, para evitar que os outros compreendessem alguma coisa do que dizíamos. E rematou o aranzel, quando o criado índio, respeitoso, trazia o chá, com um profundo: -Olhe, doutor, sabe? Isto é preciso é que todos fiquem bem ... Mas algum tempo depois surpreendi-o sozinho, debruçado na amurada, a contemplar as águas. De novo insisti. O que é que realmente se passava? O comandante riu-se das minhas apreensões. Disse-me que não havia tempestades [samatradas, como ele lhes chamava] nesta altura do ano. Quanto a investidas de piratas, que me foram sugeridas pelos enormes juncos, de tombadilho alteado, que nos cruzavam, eriçados de canhões de bronze, o capitão garantiu-me que depois do reforço da frota de Lah-Shong os piratas tinham desaparecido daquelas águas. De resto, observava, quem poderia estar interessado em abordar um ferry-boat decrépito cheio de emigrantes mais pobres que Job? Ora os piratas queriam-se era para os ricos viajantes entre Hong-Kong e Macau, para os visitantes milionários de Bali, capazes de proporcionarem carteiras recheadas e resgates pródigos. Agora ali, naquele ponto, ná! E cuspinhava desprezivamente para as ondas. Assim me deixou, sem mais explicações, e foi reunir-se ao grego, na cabina do comando. Mas o nervosismo continuou durante o resto do dia. O maquinista gesticulou durante todo o jantar, entretendo uma complicada discussão em chinês com o grego, que alisava soturnamente o guardanapo, entre os remoques. O capitão fazia tamborilar os dedos por sobre a mesa, sonhador, o dólman suado entreaberto sobre o peito, até que deu por finda a discussão com um rugido de impaciência e um murro na mesa. Nessa noite, porém, enquanto deitado na minha desconfortável cama de campanha tentava decifrar o sânscrito tosco de um manuscrito que me havia fornecido o professor Telles Paula, residente em Lah-Shong, com a ajuda de uma multidão de dicionários e livros de notas alinhados sobre o lençol. ainda ouvi até tarde o palavreado áspero dos três homens. Estranhamente, a bordo ia o silêncio. Durante todo o serão não se ouviu o fervilhar habitual da multidão, nem os gritos, nem os choros das crianças, nem as conversações dos velhos, nem as casquinadas das mulheres, nem a algazarra dos homens. Nada. O sipaio de turno passeava tranquilamente na ponte. Ouvia-lhe as botas compassadas no tabuado, por sobre um convés dormente, tranquilo. De manhã, acordei num repelão, sobressaltado. Sentado na cama, de coração aos saltos, olhei para cima, para a vigia. Um olho enorme, de íris dourada e raiada de finos veios de sangue, espreitava-me pelo vidro. Precipitei-me para fora do mosquiteiro que rasguei com a brusquidão. O navio balouçava fortemente e lá fora soava um grande clamor uivado como se toda a gente gritasse, à uma. Vesti-me atabalhoadamente com os movimentos dificultados pelos baldões do barco e pela inquietação de ver que o tal olho descomunal não me desfitava, colado à vigia. O olho deslizou e vi escorrerem pelo vidro grossos fios de cabelo louro, solto, e, depois, fugaz, o lóbulo de uma orelha gigantesca. Na ponte concentrava-se toda a tripulação, com excepção dos homens das máquinas. Tinham as mãos fixas no pavesame e o olhar fito ao longe. O capitão tomou-me pelo braço e, com uma sacudidela seca, intimou-me a que não me mexesse. Por toda a extensão do mar, à vante do navio parado, espadanando nas águas quietas e escuras, passeava-se um deus, no seu carro. Nesse momento deslocava-se, lento, descrevendo um grande arco na nossa frente, obra de cem braças afastado do navio. Estava em pé, conduzindo um carro dourado, de que as rodas, raiadas, levantavam cachões de água dum e doutro lado, e que era tirado por dois cavalos marinhos que faziam ondear graciosamente as suas retorcidas caudas de peixe. O corpo do deus, nu, resplandecia e os olhos brilhavam-lhe de um fulgor branco que por vezes se fazia vermelho e frio. Na mão livre alçava um tridente, com majestade. Os longos cabelos e barbas louras flutuavam à brisa. Quando o carro do deus estacou na nossa frente e ali, parado, se manteve durante alguns instantes, caiu um grande silêncio, expectante, por sobre o navio. Mas logo o carro cresceu, num chispar de chamas rubras, e veio contra o barco. O deus, de tridente bem levantado, avantajou-se pela proa. O corpo agigantado excedia agora a altura da chaminé e, no meio de um vento zunidor e dos gritos aterrados da multidão, atravessou o navio e foi parar do lado da ré, já num tamanho de homem. Instintivamente, todos na ponte nos baixámos, à passagem daquele vendaval luminoso. O capitão, de quépi tombado sobre a nuca, praguejava baixinho, despejando o repertório desbocado de todos os portos do mundo. No meio das intermináveis imprecações só consegui distinguir: -Eu bem adivinhava, co'a breca, bem calculava que isto ia acontecer ... O irlândes tinha-se ficado de joelhos e rezava. O grego tossia baixinho, mão perto da boca, olhos de susto. Os marinheiros e sipaios indígenas espreitavam acocorados a monte, num pasmo. O deus, entretanto, guiava o seu carro, ultrapassando-nos pela alheta de bombordo. Deu várias voltas em redor do navio, levantando espuma, sempre a fitar em nós os olhos resplandecentes de fria luz. Sensivelmente, este movimento foi-se fazendo cada vez mais rápido, até que se tornou num corropio luminescente, mal discernível entre borbotões de espuma. Lentamente, o navio entrou a rodopiar, primeiro de mansinho, depois num giro crescente que nos fez agarrar às amuras e levantou um grande alarido de pavor lá para baixo. De novo o deus se ficou, parado, no meio do mar, os seus cavalos em movimentos vagarosos de sustentação à tona das águas. O grego e o irlândes, de volta da roda do leme, conseguiram com muito esforço dominar o navio, endireitando-o ao rumo que vinha seguindo. Por um instante, as máquinas reboaram a ajudar a manobra e o navio, a custo, voltou a imobilizar-se. Agora de braços cruzados, tridente pousado ao lado, no carro, o deus, de olhos fulgurantes, parecia esperar o que quer que fosse. -Bom, vamos a isto -resmungou o capitão, e fez um sinal ao irlândes para que o acompanhasse. Seguidos por sipaios, de arma engatilhada, os dois homens abriram a cancela e desceram da ponte, para o meio dos emigrantes. Do convés vieram rumores confusos, alguns gritos. Interpelei o grego, que, meio dependurado da roda do leme, encolheu os ombros com displicência. E foi um dos cúlies, meio enfarruscado de óleos e enodoado de massas consistentes, que num português torto me deu uma explicação. Quando naquela rota fazia bom tempo, e sensivelmente sempre nas mesmas coordenadas, aparecia uma divindade, como a que agora nos defrontava, que exigia um sacrifício para que a viagem pudesse prosseguir. Nem sempre, porém, isso acontecia, o que levava certos comandantes a afoitar-se, fiados em que o mar, dessa vez, estivesse franco. Para azar nosso, ali nos víamos encrencados - e julguei discernir, por entre o grande fluxo de palavreado malaio, uma cerrada crítica ao governo do navio de permeio com maldições. O comandante e a sua equipa abriam entretanto a cancela e traziam para a ponte um velho famélico, de longa barba branca, imunda, turbante esfarrapado, que, de olhos em alvo e mãos sobre o peito, desfiava uma interminável ladainha pelos lábios semicerrados, ao jeito dos visionários orientais. Interceptei o capitão, à passagem, mas ele afastou-me para o lado, impaciente, e resmoneou: -O amigo doutor agora não se mete nisto, entendido? E deixa-me conduzir as coisas porque aqui quem manda sou eu. Ora ponha-se manso, sim? E, com os dois si paios, escoltou o velho até junto da amurada, onde o empurraram e deixaram só, a engrolar as suas rezas, frente ao deus que, lá longe, aguardava. O irlândes, nesse meio tempo, explicava-me laconicamente que o próprio velho se tinha oferecido para ser sacrificado com a anuência da família, pelo que o procedimento se fazia com o consenso de todos. Mas o deus, pelos vistos, não aceitou o oferecimento e rejeitou o sacrífico daquele pobre diabo. Num ímpeto, tomou e enristou o tridente que, de lá de onde ele estava, se veio alongando, alongando e crescendo, deixando uma sombra negra sobre o mar. Fomos todos sacudidos pelo embate do navio com o tridente e segurámo-nos onde pudemos. Depois ouvimos um ranger medonho, como se o navio estalasse por todas as juntas e sentimo-nos levantados no ar, a grande altura. A algazarra, a bordo, transformou-se num urro uníssono, de entremeio com gritos agudos, estalidos das madeiras, e o matraquear da hélice rodando em seco. Alcandorados às alturas, víamos o deus muito pequeno, lá ao fundo, segurando o barco na ponta do tridente. Os olhos fulguravam-lhe dum vermelho vivo que feria o tom esmeralda-verde do mar. Depois de algum tempo, foi baixando devagar o navio que após um embate pesado na água se ficou a balouçar. Na ponte, estávamos todos encharcados. O capitão tinha perdido o quépi. Afortunadamente, ninguém caiu à água. Quando pudemos levantar-nos já o deus esperava de novo, a umas trinta braças. O capitão, irritado, sacudiu o dólman molhado, chamou o irlândes, os sipaios e ordenou: -Não haja dúvida! É preciso ir lá abaixo outra vez! Aproveitei a abertura da cancela e passei com o comandante e os outros para a escada, apinhada de indígenas aterrorizados. Movimentávamo-nos com dificuldade ao longo daquele aglomerado, que os sipaios mal conseguiam romper à força de encontrões e coronhadas: No percurso, ousei perguntar ao capitão: -Mas o que é isto agora? Não me diga que vai mesmo fazer a vontade daquele bruxo chamuscado, capitão. Há que nos portarmos como gente civilizada, c'os diabos! Por quem é! Sacrifícios humanos é que não ... O capitão parou um instante e olhou para mim, iracundo. A boca tremia-lhe, no esforço para não romper a praguejar inconsideradamente. Volveu-me, com um esgar maligno: -Civilizado, hem, doutor? É fácil falar, mas eu é que tenho a responsabilidade por esta passarada toda que aqui vai. Civilizado, se calhar, foi o checo Minnianic que mandou disparar um tiro de peça contra aquilo e teve o navio desfeito, trituradinho, moído em pedacinhos pequenos salpicados pelo mar. Era isto que o doutor queria? Ou civilizado como o chinês Tao Ling que se meteu a fazer um discurso pelo porta-voz, a propor negociações, e o navio se lhe abrasou todo em fogo e foi ao fundo feito em torresmos? Pois, se é preciso sacrificar uma criatura para salvar uma remessa delas sacrifique-se. Isto, sim, é que é justo. Pelo menos é cá a minha ideia de civilização ... E, dizendo isto, olhava para o irlândes, que, muito sério, sacudia a cabeça em aprovação, embora só tivesse podido adivinhar o sentido geral do discurso. Estávamos agora no sujo convés, cheio de gente. De vez em quando, por uma fugaz brecha entre os corpos escuros, encadeava-me o resplendor do deus, faiscando como uma réstea instantânea de sol. Passando o olhar em volta, o capitão media o círculo de gente que o olhava suspensa, agora em silêncio. Corpos e vestes estavam ainda repassados de água, dos baldões do barco. Restos de espuma borbulhavam com um ruído cavo, pelos embornais, pontuando a expectativa tensa, apavorada. A custo, o comandante deu uns passos. Aos seus movimentos, todos se comprimiam ainda mais uns contra os outros. De súbito, o capitão levantou o braço e apontou uma adolescente que, aninhada contra a mãe, nos fitava com grandes olhos de medo. -Tragam-me aquela além -disse ele. Os dois sipaios adiantaram-se e agarraram brutalmente a jovem por um braço. A mãe debateu-se e alguns nativos esquálidos gesticularam em volta com ar ameaçador. E foi de roldão, no meio de uma grande grita que todos subimos as escadas até à ponte. Os sipaios distribuíam coronhadas quase ao acaso, o capitão de mãos abertas, debatendo-se, forcejava contra a mole de gente. Eu defendia-me dos golpes que vinham de todos os lados e tentava, ao mesmo tempo, libertar a rapariga dos sipaios, o que dava um grande e confuso sarilhar de gestos. Finalmente chegámos à cancela, onde o resto da tripulação, de armas em riste, nos ajudou a passar à ponte, à custa de alguns lenhos em corpos mais atrevidos. Estávamos todos ofegantes. Mal contida pelas armas aperradas e pelos sabres que os cúlies brandiam, uma turbamulta parda concentrava-se pelas escadas, insultando-nos, alçando gestos ameaçadores. Choveram restos de cordoa lha, pedaços de pau, detritos. Entre nós, muito encolhida, a rapariguinha tremia de medo, a cara encardida corrida de lágrimas. Aproveitei a breve pausa, enquanto todos nos entreolhávamos, para me dirigir ao capitão, que se me antecipou, limpando o suor com um grande lenço vermelho debruado a azul. -Eu já tinha avisado o doutor para que não se metesse nisto. Ai tinha, tinha ... Veja lá. Olhe que isto é preciso é que todos fiquem bem .. . Neste momento, a figura do deus, gigantesca, cobria uma grande parte do céu pairando por sobre o navio. De semblante crispado, braços cruzados, parecia continuar à espera. O seu carro dourado, entretanto, caracoleava sozinho por entre as águas, conduzido pelos insólitos cavalos de tiro. -Ouça capitão -insisti eu -, você quer, com um sacrifício humano, aplacar um deus, mas o que vai fazer, no fundo, é sacrificar-nos a todos através dessa rapariga. Compreenda a responsabilidade que tem, homem! Essa moça que você quer entregar àquele monstro iluminado está a representar-nos a nós todos. Com ela somos todos, percebe, todos, você, eu, os passageiros, todos, que pagamos o tributo. Todos ficamos sujeitos à vontade daquele figurão despótico, à mercê do que ele queira. Não o autorizo a entregar-me a mim, a entregar esta gente toda na figura daquela moça! -Olhe, doutor -e o capitão falava muito depressa, alteando a voz. -Olhe, doutor, agora não tenho tempo para doutrinas. Eu cá sou um homem prático, ou não tinha chegado a esta idade. Isto aqui é como se fosse a raposa a roer a pata presa, entende? O que é preciso é que todos fiquem bem, ou pensa que é com gosto que dou a catraia? E, empertigando-se, de sobrolho derribado: -Ora arrede-se para lá, se faz favor, ou têmo-la armada ... Ainda tentei dar mais razões, argumentar, convencer, mas, a um gesto enérgico do comandante, os dois sipaios levaram a mocinha submissa para o ponto em que antes estivera o velho. A sua pequena silhueta escura, enfezada e encolhida, contrastava com o corpo resplandecente do deus, em fundo. Então atirei-me para diante, aos gritos. Da balbúrdia que se seguiu, apenas recordo o grego, muito fleumático, pirisca ao canto da boca, a alçar uma bigota de ferro sobre mim, que desmaiei com a pancada. Acordei na cabina com o capitão a meu lado, a humedecer-me a testa com um trapo molhado. Demorou algum tempo antes que a cara gorda, mal barbeada, me aparecesse nítida, focada. Ele sorria, prazenteiro: -Então, já arribou? Olhe que tem os ... bem ... a pele dura, doutor. O gajo chegou-lhe forte, hem? Ele manda-lhe pedir muitas desculpas. E, bem vê, dadas as circunstâncias ... O navio singrava agora célere, a toda a força das máquinas, num ruído atroador. Soerguido na cama, com a cabeça a latejar, os acontecimentos de há pouco voltavam-me lentamente à memória. Segurei bruscamente o capitão por um braço: -Que se passou? Que é da rapariga? -Calma, doutor -recomendou o capitão com brandura -, não se amofine que ficaram todos bem. A gaiata está rija e sã, lá em baixo, com os pais. E, oferecendo-me um cigarro, contou-me que, na altura da zaragata, logo depois de o grego me ter batido, deu-se um grande estrondo nos ares e a aparição sumiu-se, de repente, sem deixar rasto. Eles ainda aguardaram um pouco, na ponte, não fosse a avantesma regressar, com as suas exigências. Mas nada mais se passou e tudo voltou à normalidade. O mar estava desimpedido e a rota prosseguia, sem mais percalços, as máquinas muito lançadas para recuperar o tempo perdido. -Caprichos lá dos céus, ou do que quer que seja comentou o capitão encolhendo os ombros. -Vá-se lá saber ... Insisti para que me deixasse ver a moça com os meus próprios olhos. Ele acedeu, cheio de paciência, e amparou-me até aos primeiros degraus da escada da ponte, de onde pude observar a rapariguita, que dormia tranquilamente enroscada no tabuado, junto a um magote de gente que falava baixo e fumava ervas equívocas. A viagem durou ainda mais dois dias em que recuperei menos mal do hematoma que a pancada me causou na testa. À mesa dos oficiais pouco se falou nos acontecimentos de antes. Em todo o caso, pude apurar que o deus, que, com a minha formação clássica e jacobina, eu tinha identificado vagamente com Posídon, havia sido visto pelo capitão e pelo irlândes como uma espécie de S. Pedro, de túnica arregaçada, içando o navio na sua rede de pescador, pelos sipaios, como Káli, a deusa sangrenta, com sua multidão de braços, sorrindo hediondamente, pelos cúlies como um imenso dragão ondeante e espanador de águas e, provavelmente, por cada um dos passageiros, em conformidade com as suas reminiscências próprias. Confesso que não cheguei, enfim, ao cais de Carvangel ostentando o porte digno e impoluto que esperariam de mim os pequenos dignitários maquilhados e vestidos de compridas túnicas coloridas que me esperavam em terra. Em vez do capacete de cortiça, muito decoroso, que decerto queriam ver os surpresos cortesãos, rodeava-me a cabeça uma compressa de linho, sofrivelmente limpa, mal amanhada pelo capitão. Este veio despedir-se de mim, com um aperto de mão efusivo, dizendo-me: -E desculpe se tem alguma razão de queixa. Aconselho-o, na volta, a esperar pelo avião de carreira. Já vê, doutor, sempre é mais cómodo, e, nestas coisas, é preciso é que todos fiquem bem ... -E, hesitando: -Estive a pensar, sabe, e parece-me que o amigo, no meio disto tudo, se portou a preceito ... Recusei a cadeirinha que os do séquito me ofereciam e dirigi-me a pé para o palácio, acompanhado da minha vistosa escolta. As três notícias do Diabo À espera de transbordo, um amigo meu atardou-se numa tasca fedorenta de San Pelayo, bebendo tequilla e jogando ao Modelo. O Modelo é um jogo de cartas a dois que lembra o Crapaud. Em cada vaza, uma carta lançada obriga a mudar todas as outras dispostas na mesa, pelo que o jogo exige uma sagaz capacidade de cálculo. Nessa noite, o meu amigo jogou com o Diabo, que se apresentava sob a forma de um marujo hirsuto, baixo e grosso, de dente de ouro e idioma compósito. O meu amigo sabia que o outro era o Diabo porque chispava faíscas o tampo de mármore sempre que o roçavam os cotovelos peludos do seu adversário. Tanto bebeu o Diabo que entrou a perder e a fazer confidências. No último jogo, apostou um segredo que sabia e a derrota levou-o a cumprir a indiscrição. Assim, revelou ao meu amigo que, na infinita trama de causalidades que se operam no mundo, três quadros há tão possíveis de ocorrer como qualquer outro, desde que certo pequeno evento chame os perigos e solte as catástrofes. Poderá assim ser que, uma noite, a sampana do mestre pescador Tao Li, a lidar nas águas de Malaca, muito ao largo, arraste uma rede derivante, cujo arraçaz, aos baldões pelas areias do fundo, irá deslocar uma carga explosiva de profundidade, lançada em tempos pelo destroyer australiano Glorious Flag, em manobas de fogo real naquela zona. Regulada para eclodir a 60 braças de profundidade, a carga não deflagrou então e foi pousar tranquilamente nas profundezas, entre uma formação de coral e um banco de anémonas, não longe do lugar em que se abre uma ravina abrupta, estreita e funda. Impelida pela rede, a carga deslizará por um ligeiro declive, hesitará entre o encalhar num troço de rocha ou continuar caminho e precipitar-se-á, enfim, pela fenda profunda e escura, despovoada de vida. No tombo, dará de si o mecanismo de explosão, há muito inerte, e a sampana de Tao Li, sacudida pelos borbotões das ondas de choque, cabriolará à toa por entre o relampejar das escamas de milhares de peixes mortos. Não terão os chins, porém, muito tempo para se espaventarem, porque os movimentos das águas não se aquietarão. E já um boqueirão, hiante e negro, se abre em redemoinho cada vez mais largo e faz a sua primeira vítima do xaveco pesqueiro e sua companha. É que a explosão virá fender a fina parede rochosa que, no fundo do mar de Malaca, dá para os imensos refegos ocos da terra, capazes de comportar mil oceanos nos seus côncavos labirintos. Então, num rugido medonho, correrá o avassalador redemoinho, engolidor de navios e portos, destruidor de faróis e diques, arrasador de ilhas e roubador de praias. Todos os oceanos serão sulcados de correntes vertiginosas, em carreiras de escuma, e não sobrarão mais navegações. E todas as águas em tumulto acorrerão ao porto em que ficava o estreito de Malaca, para se precipitarem, troando, nas profundas em aberto. Os ares acompanharão o turbilhão das águas e por todo o lado se revolverão, em torvelinho, furacões nunca vistos e ventos zunidores zurzirão, em correria, arvoredos e edificações. Descompassados jogos de pressão farão borbulhar vulcões insuspeitados, soltar-se-á o enxofre pelas fracturas nos campos antes cultivados, a terra enrugar-se-á e estremecerá a som dos elementos sem norte. Cinquenta e dois imensos dias perdurarão as convulsões. Ao quinquagésimo segundo dia, aquietados os ares e varridos os últimos restos de nuvens, o Sol virá a brilhar, escaldante, sobre charcos pantanosos, fétidos, de águas paradas e negras, num caldo borbulhante, viscoso de podridões, ao fundo de vales abruptos e limosos, nos sítios em que antes verdejavam oceanos. Aturdidos, no alto das montanhas, os poucos sobreviventes preparar-se-ão para enfrentar os desertos. Ou pode ser que nas Pampas de Gexficoatl, privadas de chuva por muito ano, a terra grete e os peões se arrastem esquálidos por entre as ossadas brancas dos animais mortos e nas aldeias abrasadas se levantem tumultos urdidos em raiva e fome. O coronel Frank Galahad, comandante da base militar americana de Sanadolor, suspeitará de que para bom sossego das populações não bastarão os fardos de víveres, nem sempre acertados, avidamente disputados por multidões famélicas, que o seu governo haverá por bem enviar em bojudas aeronaves. Há muito tempo desterrado naquelas paragens, o comandante ver-se-á profundamente afectado por aquela melancolia a que os médicos chamam <> e passará muitos serões insones a interrogar as pedras de gelo do scotch sobre a forma de sair daquilo e tornar de novo às planícies serenas, sem fomes, sem mortes, sem ameaças ao paulatino sossego daquela base perdida, que oxalá, pensará o coronel, o continue a ser, para tranquilidade de todos e, sobretudo, sua. Um dia, esquadrinhando os campos desolados, crestados do sol, verá ao longe passar uma procissão de gente maltrapida atrás de dois monges de cruz em riste e olhos no céu, ladainhando para que ele se abra. O coronel lembrará as danças da chuva dos índios do seu país e lamentará que os descendentes dos índios das pampas há muito tenham perdido memória das encantações ancestrais, talvez mais eficazes do que as ingénuas orações que ora bradam num castelhano cantado. E será talvez por ter posto o pensamento nas vias de comunicação com o que está em cima que ao comandante ocorrerá mais tarde, numa evidência fulminante, uma sobrevivência longínqua das aulas de West Point. Recordará o velho major Rumbolt Payne, a coxear pausadamente por entre as filas de cadetes sonolentos e a explicar aos berros, como era seu hábito, que depois de uma batalha inevitavelmente chove e nunca ninguém conseguiu saber porquê. logo o coronel saltará da cama e decidirá pôr em prática o ensinamento. Inspirado, naquela exaltação de alma a que não valem as prevenções do bom senso nem as censuras da transgressão, estará, em pouco, o coronel, de mãos na ilharga, a meio da parada, perante a tropa estremunhada. Gritam-se vozes de graduado em graduado, as fileiras desfazem-se num grande reboar de botas, as sirenes uivam e, abertas as portas, numa azáfama alarmada, colunas motorizadas e de pé, estrondeando rumor de motores e ladrar de ordens, saem do perímetro e vão ocupar um outeiro próximo. Ainda virá longe a manhã, já todas as armas existentes na base estarão aprontadas, com mim num certo ponto do céu que o coronel há-de determinar, com base em cálculos tão arbitrários quanto pormenorizados, ajudado daqueles instrumentos militares foscos e inúteis que dão apenas a ilusão de que se pode pôr coisas a mandar em coisas. Ao romper do Sol será dada ordem de fogo e a batalha fingida começará, numa deflagração tremenda, em emaranhada pirotecnia de luminárias corredias, até dois terços das munições da base terem sido consumidas. Interessantes seriam as imediatas consequências disto, com o alvoroço das populações em volta, as crateras abertas na pampa, um campanário destruído e um forno de pão perfurado, inúmeros casos de surdez entre os militares, um cão morto e a perspectiva mais que certa de processo marcial para o coronel Galahad. Porém, importa dizer que não choverá e que aquela espiral de fumos avermelhados que se deslocará a caminho do mar, não será por certo a resposta esperada dos céus à provocação do coronel que, cessado o fogo e antes de ser detido, perscrutará em vão os ares, na mira de uma gota de água que seja. Será, porém, perfurado o ponto em que se geram os tornados e as consequências não tardarão. Nessa mesma manhã, ao largo da costa, assistir-se-á à formação de um estranho tornado, a partir de um turbilhão de nuvens vermelhas no céu. Quem o vir, de bordo de qualquer embarcação, não terá muito tempo para se maravilhar com o fenómeno que, depois de serpentear à toa pela tona do mar, de haste mais e mais engrossada por um borbulhar de águas, virá ao encontro do navio observador, contrariando as normas habituais dos tornados, que sempre tendem a fugir das navegações, e engoli-lo-á em dois credos. A trompa, revolvedora de ares e de ondas, muitas outras demonstrações dará de inconformidade com os preceitos a que os tornados acostumaram os homens. O ténue filamento coleante que a primeira testemunha verá projectar-se no céu há-de estar transformado, pelo meio-dia, numa rotunda coluna de águas, obra de vinte milhas de diâmetro, com quatro cargueiros, um palhabote, uma vedeta de costa, dois aviões e um balão meteorológico a chocalharem-lhe no bojo. Ao meio da tarde, será já enxergada da costa, onde os habitantes aterrados verão o horizonte emparedado por um muro de água irisado, movente, fervilhante, de que se poderá ouvir o ronco longínquo, e que esconderá o Sol duas horas mais cedo. Nessa noite, nos portos, verificar-se-á que todas as marés vão loucas e que o nível do mar, basto picado, se situará muitos metros abaixo do normal. As docas ficarão a seco, descobrem-se os lodos em volta dos diques e dos cais e, muito ao longe, nas praias deitadas a perder de vista, abrem-se abismos abruptos, em que as águas, tensas, se agitam. Correrão alarmes por todo o mundo e não faltarão tentativas para entender e debelar a inusitada ocorrência, que lavrará imparável e imperturbada, revel a todas as intervenções. Um sistema inteiro de leis físicas e químicas suspenderá a sua rotina, derrocando com fragor, perante a confusão dos cientistas e das universidades. Nos dias próximos, num turbilhão crescente que envolverá terras e ares e nada deixará levantado no seu percurso, os mares serão sugados pela desconforme tromba e o nível das águas irá progressivamente baixando até que dos oceanos mais profundos restem apenas charcos lodosos e apodrecidos, à espera que o Sol os queime e leve. Numa estranha partenogénese, um pequeno planeta líquido ir-se-á distanciando da terra e deslizará, verde, tombado no infinito. Então romper-se-á a tromba, num rebate súbito, com uma final aspersão de poalha líquida que o Sol e os solos logo absorverão. Os homens, ainda incrédulos, sairão então dos seus esconderijos e pensarão que fazer do deserto. Ou pode ser que o alquimista de Dassvidânia um dia encontre enfim a palavra. Desde muito novo, o alquimista dedicou a vida à transmutação dos metais, na convicção de que ela ocorreria quando fosse pronunciada a palavra certa. E, em frente de um lingote de ferro, pousado na grande mesa do seu velho solar, perto de uma janela donde se alcançam a Lua e os astros e as tempestades, aplicou-se com método ao seu projecto. Começou por séries de três letras, a partir de AAB, ABA, BAA, sem excluir as palavras gastas pelo uso corrente e, uma vez esgotadas as séries, passava meticulosamente às seguintes, registando-as uma a uma, por ordem, em túrgidos cadernos. Quando, ao fim de muitos anos, as paredes dos salões se encontrarem cobertas de cadernos, contendo o registo das palavras até meio da série de sete letras, o alquimista pronunciará e lançará ao papel a palavra certa. Logo ouvirá um estalido seco e olhará sobressaltado o lingote de ferro que se manterá, porém, tranquilo e inalterado, no seu lugar habitual, sobre a mesa. Um sentimento inquieto de incomodidade levará o velho a esquadrinhar o salão, em busca da origem do ruído. Então verificará que o vaso de vidro, pousado no peitoril da janela, onde recolhe chuvas e orvalhos, há pouco meio de água pura, estará agora meio de mercúrio. Esquecerá o velho o trabalho de uma vida, e desprezará a transmutação procurada por aquela que encontrou. O caderno ficará aberto sobre a mesa, mostrando as sucessivas aproximações da última palavra registada, e o velho dirigir-se-á, trôpego, para a praia próxima, com o coração em desordem. Aí pronunciará a palavra, sentado numa rocha. Reboará por toda a terra um grande estrondo e os céus serão sulcados demoradamente de raios. Quando o alquimista, lançado à areia pelo impacte dos elementos, se levantar e olhar de novo o oceano, vê-lo-á pesado e negro, a brilhar metalicamente ao luar. Destoarão da massa compacta e grossa os reflexos claros dos peixes mortos à superfície. No mar de mercúrio, os navios adernarão e as aves definharão, tristemente. Consternados, e sem esperar pelo deserto, os homens pensarão em emigrar. Estas, as três confidências que o Diabo fez ao meu amigo, antes de se desvanecer, num bar imundo da costa das Américas. Aqui as reproduzo para que fiquem avisados o pescador Tao Li, o coronel Galahad e o velho alquimista de Dassvidânia. Vem-me, porém, o pressentimento de que, ao ser lida a última letra deste texto ...