O Pescador UrashimaJhIôI>I>TEXtREAdÿÿÿR –¤¤ ¤0¤@¤P¤`¤p¤‡GTitle: O Pescador Urashima Author: Venceslau de Moraes CreationDate: Thu Jul 23 12:31:00 BST 2009 ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970 Genre: Description: O Pescador Urashima Venceslau de Moraes A Alforreca, Ninguyo e O Pescador Urashima foram extraídos do livro Paisagens da China e do Japão. © 1997, Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8396-28-7 Lisboa, Dezembro de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** O PESCADOR URASHIMA A ALFORRECA A Henrique Carvalhosa Fala a lenda japonesa. Antigamente – e quem sabe se ainda hoje! - no seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. Por longos anos, o senhor deste reino, o dragão real, viveu celibatário, numa existência descuidos a; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do shamicen e lhe iam servindo saqué em ricas taças, quantas noites ele passou em travessas intimidades amorosas!... Verdores, que passam breve. Um belo dia, resolveu casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida foi uma jovem dragoazita, dezasseis anos apenas, adorável, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz de tal senhor. Explêndidas foram as bodas por essa ocasião, segundo consta: sem já falar na corte íntima, toda a bicharia aquática, peixes, mariscos, moluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em belos quimonos de sedas encarnadas, oferecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em danças, em músicas, em banquetes... Mas nem os dragões escapam às duras provações da existência! Ainda bem um mês se não passara, quando a augusta soberana caiu doente; e tais cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lástima observar as trombas compungidas dos fidalgos, comentando baixinho, em lamentações do seu ofício, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferência; falaram muito, discutiram muito, sem chegarem a acordo, como sempre sucede; consultaram-se abalizados alfarrábios de terapêutica; as barbatanas incansáveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sábios, num trejeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a ciência -já naquela época se enchia a boca com a ciência -que a ciência nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se. Do seu leito de enferma, de entre os futon, as fofas colchas de cetim, agita as trémulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas palavras ao ouvido: -Uma só coisa me salvará: arranquem o fígado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saúde... -O rei não pôde reprimir um gesto de surpresa, quase de enfado, e todo se lhe eriçou o bigode façanhudo: -Um fígado de macaco! estás louca, minha querida!...-Ela prontamente retrucou: -Louca, porquê? Vossa majestade esquece porventura, que nós, o grande povo dos dragões, no mar vivemos sempre, enquanto que os macacos, muito longe daqui, vivem na terra, nos bosques, entre as árvores, nutrindo-se de frutos... No fígado do mono alguma coisa virá que participe desse mundo, tão diverso, tão outro; e essa partícula estranha, senhor, me salvaria!...-E a rainha, a quem as lágrimas acodem, prossegue num tom repreensivo e lastimoso: -Uma insignificância, um nada, pedi, e esse nada vossa majestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais afectos. Dispa-me destas pompas de soberana, não as quero; dê a coroa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso de meus pais…-A voz sufoca-se em soluços, não pode mais proferir uma só queixa… O rei dos dragões não queria passar, entre damas, por um dragão cruel; por demais conhecia ele os caprichos pueris do sexo frágil, mas perdoava-os complacentemente, por sistema; e sobretudo adorava a esposa, cujas lágrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a alforreca, e disse-lhe o seguinte: -Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que empreendas uma longa viagem, que nades até junto da terra, e ali covenças um macaco a vir contigo a estes meus reinos; fala-lhe, para o resolveres, da mágica beleza destes sítios, tão diferentes dos seus, e da gentileza destes meus súbditos felizes; mas o que eu realmente quero neste caso, é que se arranque o fígado das entranhas de tal mono, e se sirva como medicamento à tua jovem ama, que, como decerto sabes, se acha em perigo de vida, a desditosa. Lá vai, oceano fora, vento em popa, a alforreca, emissária obediente e ufanosa do encargo. Por aqueles tempos, a alforreca, como qualquer bicho das águas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com cabecinha, com olhinhos, com mãozinhas, e com a competente cauda titilante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vai, oceano fora, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do país onde vivem os macacos; por felicidade, um além está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo, dependurando-se das árvores que enraizam nos penedos e se debruçam sobre o mar. -Bons-dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para falar-lhe de um país longínquo, muito mais belo do que o seu; é ele situado além das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; ali, não há estações, é eterna a amenidade do clima; ali, nas copas das árvores repolhudas, constantemente amanhecem aveludados frutos saborosos, é colhê-los, não há outra tarefa; para cúmulo do conforto, essas criaturas malfazejas, homens chamados, não pisam tais paragens. Se lhe agrada vir comigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar desse tronco para cima do meu lombo... -O macaco achou gracioso isso de ir ver novos países. Vá lá mais esta extravagância à conta da boémia simiesca. -Ao largo, amiga! -E lá foram os dois; porém, a meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbítrio de um estrangeiro, e abandonando a sua pátria. Decidiu-se enfim a perguntar: -Que pensa você que vão fazer de mim na sua terra? -A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas em evasivas; mas oiçam lá o que ela deu em troco: -Eu lhe digo: meu amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o próprio fígado, o qual vai ser servido à nossa soberana, hoje enferma, e salvá-la da morte. -Então o mono, guardando para si os comentários que o caso sugeria, disse cortesmente, que era para ele uma alta honra e um inesperado prazer, o assim tornar-se útil a sua majestade; acrescentou, porém, que agora se lembrava de ter deixado o fígado dependurado num tronco de árvore, aquele mesmo castanheiro donde saltara para as costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de orador emérito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o fígado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quase alforje de peregrino, um empecilho que ele costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar mais à vontade aos seus exercícios de acrobata; hábitos de família, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que tinham a fazer neste momento, era voltarem para trás, e na árvore encontrariam o fígado em questão. Não pôs objecções a nadadora. Voltando à terra, o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando o pulo de uma alegre careta e de um gesto que traduzia o júbilo do bestunto, coisa que passou estranha à alforreca. Procurou entre as folhas o seu fígado. Não o encontrou. Explicou então do alto, à alforreca, que provavelmente algum companheiro o levara para longe, o que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fosse ela contar o caso ao seu senhor, que devia estar ansioso por vê-la chegar antes da noite. Assim procedeu o bicho. El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha ingenuidade -para não lhe chamar coisa mais feia –, mandou logo vir da maladia um bando dos seus mais soberbos samurais, e ordenou-lhes que malhassem no bicho à pancada, até cansarem. O castigo foi cumprido, e com esse vigor de braços de vilões, que miram aos aplausos do monarca. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda nem barbatanas; tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta miséria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando despresivelmente à mercê do turbilhão das vagas. Com respeito à soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se boa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores. A história da alforreca está contada, na sua simplicidade comovente. É verídica esta história, como tudo que o povo relata de memória; creia nela quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto –, e é isto de um proveitoso ensinamento –, que os Japoneses tão prodigamente propensos ao perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas. Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no país do Sol nascente, era inevitável; e o caso presta-se a interessantes comentários, que eu vou resumir em poucas linhas. Os Japoneses -povo de artistas são os grandes amorosos da criação, da forma, da vida; ninguém como eles conhece os segredos da ave, do insecto, do réptil, do peixe, dos moluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa desses seres, estudada com percepções especiais, que nos escapam, constitui o tema mil e mil vezes variado, dos seus primores de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se apresenta como única excepção da lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em si o enfado inteiro de um dia de mau humor do Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros japoneses que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do fenómeno, e é a que ficou descrita nestas linhas. É ainda interessante recordar de passagem a aproximação, pela desdita, da alforreca japonesa com a medusa mitológica da Grécia, não merecendo esta melhor tratamento dos deuses olímpicos. Curiosa coincidência! NINGUYO Mukashi, mukashi (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam estes bons japoneses, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon no Mukashibanashi (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um simples, de índole bondosa, de quem se poderia dizer que passara a mocidade em desejos de matrimónio; mas como desejos e realização deles são duas coisas mui diferentes, atingiu o pobre a meia idade sem ter levado a efeito essa firma... -comercial não é talvez o termo próprio -em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas. As alegrias dele consistiam principalmente em entregar-se à pesca, pesca à linha durante os longos ócios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, ao recolher à noite a casa, derreado, cambaleando de sono e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse à porta, e em saudações o convidasse a entrar; nem mãos prestimosas que lhe tomassem o peixe e o amanhassem, e fossem depois levá-lo ao fogo do braseiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos íntimos da alma -júbilos de pescador à linha e desalentos de solteiro -são bem justificáveis. Com efeito, para um temperamento vagabundo e impressionável aos enlevos da paisagem, como se dá com todo o Japonês, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos passeios de boémio, penedos e praias fora, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos cenários serenos, todos verde, frescuras, espelhos de águas e murmúrios... e como as horas voam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora afeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em comovente espectativa, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espírito voando, como as horas, alheio ao ofício, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das quimeras... Mas à noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se dói e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e papel, e vir à entrada ajoelhar-se em cortesias a figura gentil de uma esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãozitas rosadas em posição submissa, as mãozitas tão hábeis em corarem nas brasas as trutas saborosas... Ora, um belo dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte, quando... zás! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fora do comum haveria de colher. Por pouco se lhe não vão, linha e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então com muitas manhas que são próprias da arte, pôs-se a cansar a presa, já alongando o braço e deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repouso para trazê-la à praia; até que enfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe aos pés. O peixe? o peixão!...Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos; face de mulher, de uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara formosura, disse-o eu, e não me engano: esse contorno doce de oval, de urizanegao, de pevide de melão, tão querido em estética japonesa; os bastos cabelos negros flutuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de veludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de angústia; chorava certamente pela dor, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de ver-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando um pecado de lambarice, indefesa, nua diante de um estrangeiro!... O pescador porém era de uma índole bondosa, como ficou notado um pouco atrás; e vai-se agora ver como o provou. Compreende-se, é claro, o seu primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Pudera não! Acalmado, sacou cautelosamente o anzol da bela face em sangue; e tomando nas mãos o estranho ser, pôs-se a cismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se ele fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do país; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se exibem salamandras, crocodilos, crianças sem pés e sem mãos, cães sábios e muitas outras coisas, que abundantíssima chuva de sapecas lhe não cairia em cima, quer dizer, dentro das mangas do quimono!... <>, e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se à plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se ele comesse a carne da sereia, cozinhadinha, feita em postas...e sabem todos que a carne da sereia tem a virtude de conservar perpétuas a vida e a juventude a quem dela provou... Mas a sua índole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter numa tina, em exposição, ou pior ainda, de levar à degola aquele pobre bicho, que sobre a suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como se fora uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia às vagas, donde viera, e onde mergulhou e desapareceu sem mais cerimónias, após um acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento. O nosso pescador voltou à sua faina. Consta que, naquele dia memorável, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. À tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos lábios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e também da boa acção que praticara. Quando pela noite, na cozinha, mangas do quimono arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre as pernas, selha ao lado, se dispunha a preparar a sua ceia, ouviu que de fora, e junto à porta, uma falinha mansa lhe ia dizendo: -Dá licença! dá licença?...-Corre o homem a abrir a corrediça, ainda com a faca da cozinha, e um carapau na dextra adunca; e à luz frouxa de um luar de quarto minguante, pôde distinguir um vulto de mulher em nada extraordinário, porém doce e cortês, que lhe confessou ser uma viajante extraviada no caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada só para aquela noite. -Entre depressa, menina –, acode-lhe o sujeito –, e venha partilhar do pouco que aqui tenho. -Então, dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fê-la descansar sobre a esteira, e junto do braseiro, foi-lhe servido o chá tradicional. -Muito obrigada. O homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por sinal, que ele ia amanhar sem perda de um minuto. -Permite-me que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o nessa lida? -Disse que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hóspedes trabalhassem na cozinha. Em réplicas e tréplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que ela conhecia as melhores receitas de cozinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se ocupava; e tanto ela teimou, sabem todos o que são teimas de mulheres, que sempre foi levando a sua avante. O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia igual, todas as noites. A companheira observou então modestamente, a meias falas, que lhe parecia não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua frase, acrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Compreendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ela consentir em ser esposa do sujeito. Antes, porém, impôs as suas condições. -Danna, meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de água salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto? Ele acenou que sim. -E jura-me -agora vão ouvir os pudores da pequerrucha... -que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer espreitar-me? -Ele jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal tesoiro. Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos meses. O peixe, o prato querido dos Nipónicos, foi sempre excelentemente preparado pela esposa, activa, inteligente, a rir-se sempre. O pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com arroz, uma delícia! O caldinho de amêijoas, superfino! As trutas assadas sobre o lume, sem igual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz à moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que alguém olhava por ele com desvelo... Mas o banho? Melhor fora não falarmos nele… Ai que pândega que era esse tal banho!...Ela passava a manhã inteira preparando-o, afinando o apetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofrezinhos misteriosos, era a interminável tarefa de fazer-se bela, ora branqueando as faces, ora avermelhando os lábios, ora compondo o penteado. O esposo chegara mesmo a esta conclusão não muito lisonjeira: que a companheira mais queria à água salgada do que a ele; mas perdoava-lhe, outros há que bem menos inocentes caprichos vão perdoando... e nunca a sombra sequer de um arrependimento viera turvar a paz do seu viver. Uma bela tarde -tarde de banho por sinal chegou o homem a casa, e, como se diz em português... cheio de fome. -Tardará muito para a ceia? -resmungava. -Irá o banho em meio ou em princípio? A esposa, é claro, achava-se invisível, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonesas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso é que ele espreitou. Surpresa! Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo, que nadava, em demoradas circunvoluções de regalo ao longo da tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do mar, canções das praias... Pobre marido! -Ah! canta-me assim -exclamou ele –, canta-me assim, grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com peixes, lidas com os teus parentes, grande mostrengo!... Melhor fora, sem dúvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com apetite os teus guisados, intrujona... A porta, abriu-se então e apareceu a esposa. Chorava, caíam-lhe as lágrimas a punhos; chorava, mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma resolução fatal. Falou assim, ajoelhando: -Danna, meu dono, foi a sua benevolência para mim, um dia, extrema, tirando-me das águas, podendo fazer da minha vida o que quisesse, e salvando-me. Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenizar a sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, um bicho, um monstro que mete medo a toda a gente, compreendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco importa!...Danna, meu dono, adeus. Do céu lhe chovam bençãos... – E correu para a praia e desapareceu nas ondas. Pobre marido!... Por um acto impensado, perdeu para sempre uma companheira carinhosa; e, como das núpcias com a sereia lhe resultava o dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martírio... A fábula, segundo observa, e com critério, o autor japonês que consultei a tal respeito, oferece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve cativá-lo pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estômago é o órgão mais sensível, e porventura o mais grato, do homem, o rei da criação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette íntima da consorte; porque, isto de damas -com sua licença -todas lá têm o seu rabo, ou escama, ou barbatana, coisa enfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o código inédito do amor, capítulo <>, artigo…esqueceu-me agora o artigo, meus senhores. 1899. O PESCADOR URASHIMA A Joaquim Costa Viveu em remotos tempos, num lugarejo da costa do Japão, Urashima, um moço pescador. Deste simples, pouco ia tagarelando a vizinhança: que tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguém o igualava, tratando-se de artes de linhas e de anzóis; nada mais, mas já não era pequeno o elogio. Ora, um belo dia, saiu ele a pescar, sozinho no seu barco. E que pescou Urashima dessa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora ...pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notório que as tartarugas vivem muito; vivem mil anos, no Japão. Era um opíparo jantar que o acaso oferecia ao pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fora os lucros que a casca lhe trouxesse, mas o moço pôs-se a cismar na crueldade que ia cometer, roubando assim talvez longos séculos de vida àquele bruto, fadado pela sorte ao gozo da existência, durante gerações e gerações da tribo humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefesos... É certo que as mãos abandonaram a presa, num largo gesto de bondade; e a tartaruga, volvendo à água sem se fazer rogada, lépida mergulhou no azul e se safou das vistas. Fazia então tanto calor!... Era um desses dias abrasadores de Agosto, embebidos de paz, de luz, de tórpidos aflúvios. Além, a aldeia quedava-se na sesta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as árvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os corpos nus, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido também pelos ardores daquela hora, largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se à bancada e adormeceu. Entretanto, eis que surge das águas um vulto feminino, encantador. O episódio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, pode agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convés do esquife, poisa esse vulto, essa fada adorável de feitiços, envolta em roupas carmesins, solto o cabelo às brisas e coroada a fronte com o diadema de oiro, que é apanágio das princesas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas palavras: -Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano imenso, habito com meu pai o palácio do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda há pouco colheste e restituíste à liberdade, era eu própria; meu pai impôs-me um tal disfarce, para que assim pudesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me quiseres; mil anos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palácio do dragão, sob o azul das águas… Lá seguem os dois pelo mar fora. Urashima empunha a esparrela da popa, maneja-a com denodo, dá-lhe -pudera não! -forças hercúleas a ânsia de chegar; a princesa poisa no outro remo as mãos franzinas, e vai sorrindo ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de longe o palácio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes recortados. Que encanto! que prodígio! nem mesmo a fantasia ousara imaginar tantos primores!...As paredes do palácio são de renda de coral; as árvores do jardim têm folhas, esmeraldas, e frutificam em pérolas e rubis; as escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, de oiro lavrado… Então, toda a bicharia do oceano acode à praia, vestindo quimonos de cerimónia, e vêm saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos laudatórios que prescreve a etiqueta em casos tais, a princesa, seguida do cortejo, entra no palácio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza indescritível, as plantas alvas dos seus pezinhos deliciosos; descansa num salão que mais lhe apraz, pela delícia dos adornos e pela paisagem que se avista, e a seu lado oferece um lugar ao companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba enfim dos escravos jubilosos corre a prostrar-se em frente da princesa; e de joelhos, barbatanas erguidas em ofertório, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cozido, os licores, os frutos, os manjares. Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa. Durante três anos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem enfados, sem nuvens de tristeza no céu dos seus amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos húmidos que se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se dão; ora perscrutando os mistérios do oceano, em excursões pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquática, de plantas, de animais, se multiplica em maravilhas que a ninguém é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as árvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das pérolas e rubis. Três anos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte: que a adora e se sente ditoso, mas cresce-lhe o desejo de ir ver a sua aldeia, o velho pai, a doce mãe, os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promete voltar após curta visita. Então, pela primeira vez sem dúvida, uma ligeira nuvem de tristeza, um vago pressentimento angustioso turvaram o olhar sereno da princesa. -Vai -diz-lhe –, vai, Urashima, porque assim o desejas, embora bem me pese, pois imagino que vais expor-te a grandes riscos; leva contigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém, que te pertence; sirva-te ele de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do nosso amor... E partiu, e abordou o solo pátrio… O que quer que era de bem estranho se passara durante a ausência de Urashima. Aonde estava a sua aldeia? Aonde se erguia a cabana de seus pais? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos cerros sobrepondo-se, ali lhe apareciam, bem tais como os deixara, na fria impassibilidade das coisas imutáveis; mas os povoados ofereciam outro aspecto, os campos outro amanho; mas as árvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas troncos secos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras árvores medravam noutros sítios, projectando outras sombras, frutificando em outros frutos. Aonde fora a sua aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda agora a água cristalina ia correndo, e sussurante, como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das musumés que tinham por costume ir ali lavar a roupa, entre elas as suas três irmãs, quimonos arregaçados, pernas nuas, braços nus, lidando, palestrando e rindo umas com as outras. Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e interpela-os: -Bons-dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da família de Urashima? Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça, buscando recordar-se. -Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? Tem graça tal pergunta: há já quatrocentos anos pelo menos, como contam, se afogou ele quando pescava no seu barco, pois nunca mais apareceu; o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos dormem todos além no cemitério, há muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó dela sequer existe por aqui... Então, como um relâmpago que acode subitamente pela noite, a iluminar a estrada, uma ideia acudiu de súbito ao pensamento de Urashima, a alumiar-lhe o espírito. Ele ali estava, volvido à pátria, poisando os pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paisagem em que por tantos anos a vista se poisara, e a recordação lhe gravara para sempre na memória. O palácio do deus do Mar, no abismo das ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e frutos de pérolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia à terra, era do mundo dos prodígios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos anos, dos nossos anos; e assim, sem que Urashima o supusesse, séculos sobre séculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os indivíduos à fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruínas outros aspectos e outros seres... O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate anacrónico da situação em que se via, incutiu-lhe no ânimo não sei que horrível opressão de angústia e de pavor. Pátria? Sim, a mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o cativava aquela terra. O anseio de fugir, de volver ao esplendor do seu palácio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da princesa multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemitério, esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de fregueses; e ia partir, deixar em paz a aldeia morta... Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princesa. Porquê? Talvez leviandade, talvez mofino sestro, que tantas vezes guia o homem a seguir pelo caminho proibido... Do cofre aberto, que continha nada menos do que a essência dos longos anos corridos, e ao mesmo tempo descontados na existência de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado à razão, ao sentimento da desobediência em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde. De pronto, as próprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo lugar nas páginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos seus contemporâneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabelos, a barba, branquearam como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pele do corpo, os ossos romperam para fora, as costas dobraram-se num arco, viu-se como um micróbio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada... 1900.