Viagem à Ilha de SatanásJqŠÈø<@ø<@TEXtREAd¡ ž¬¬ ¬0¬@¬P¬`¬p¬€¬˜ý Title: Viagem à Ilha de Satanás Author: José Cardoso Pires CreationDate: Thu Jul 30 12:58:00 BST 2009 ModificationDate: Thu Feb 10 20:00:00 GMT 1972 Genre: Description: Viagem à Ilha de Satanás José Cardoso Pires © 1997, José Cardoso Pires e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8396-16-3 Lisboa, Novembro de 1997 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** VIAGEM À ILHA DE SATANÁS BREVE NOTÍCIA DO ACHAMENTO DA ILHA DE SATANÁS E DOS VERDADEIROS SUCESSOS QUE NELA OCORRERAM agora postos a escrito segundo os testemunhos dos navegantes e dos registos que os certificam Em Descobrimentos Portugueses Jaime Cortesão refere que a ilha dos Satanases se situava em relação à costa portuguesa conforme a Carta Náutica de 1424. Aos vinte e oito dias de Julho de 1969 largou deste porto de Lisboa o iate Ponta de Sagres cuja descrição é como segue: Navio à vela e a motor diesel Penta Volvo 120 hp. com navegação electrónica GPS Auto-Helm, piloto automático e giroscópico de aileron. Comprimento: 65 pés. Mastros genoa e grande de enrolar. Data de construção: 1963. Matrícula LS-J26, da Capitania do Porto de Leixões. Era proprietário e skipper da embarcação Álvaro Vaz, engenheiro e empresário da praça de Lisboa que levava sob o seu comando o licenciado João de Viana, armador em Viana do Castelo, Gonçalo Soares Pontevel, beneditino do Mosteiro de Singeverga a quem competia redigir o relato desta viagem de recreação, e Inácio Rita ou Inácio da Rita José, marinheiro com carta de patrão de costa. Como convidada seguia a bordo Naia (Maria do Aires) Garcia Valdez, decoradora e antiquária com estabelecimento na Rua Dom Pedro V em Lisboa. A ela e a toda a tripulação do veleiro estendeu Deus a sua benção numa missa celebrada na ermida de Nossa Senhora do Restelo pelo referido irmão beneditino, horas antes da partida. Desse templo na colina de Belém onde teve lugar a cerimónia desceram até à doca do Bom Sucesso os navegantes e os amigos que os acompanhavam em despedida. Ali se encontrava o Ponta de Sagres devidamente aparelhado para a largada numa brancura por assim dizer festiva, como regista, logo a abrir, o diário de bordo que frei Gonçalo redigiu com dedicação, colando-lhe fotogramas em cercaduras de ornatos e desenhos como se de iluminuras se tratasse. Movido pela paixão da fotografia, o frade, que, anos, antes tinha renunciado ao curso de arquitecto para se devotar à Regra de São Bento, juntou ao seu relato da viagem algumas centenas de metros de filme a cores e ainda bem que usou desse gosto, reconhecemos nós agora, porque se do justo escrito se fazem muitas vezes leituras de má fé, do retrato do real se toma o rigor incontestável. Assim sendo, congratulemo-nos por a imagem se ter juntado aqui à palavra para que se aclare a visão do mundo como verdade e razão ad perpetuam memoriam. Largaram os navegantes e águas espelhadas e logo a meio do Tejo se levantaram dois golfinhos à frente deles como que a abrirem-lhes caminho até à Barra em festejos inocentes. "Foi a primeira vez que vi golfinhos neste rio que eu conheço desde a infância", escreveu frei Gonçalo no diário. De camisola e barba curta apontada ao horizonte, parecia um universitário em regata de férias; ou então um velejador de consciências pelo silêncio meditado do olhar, como podia ter observado Naia Valdez com aquele seu tão privado humor felino. O farol do Bugio viu passar o iate com todos os viajantes à proa. Era um esqueleto a escorrer limos de sentinela ao oceano, aquela torre. Para trás ficava Lisboa pousada num estuário de escamas cintilantes que o frade imaginou ter sido um dia percorrido, Tejo fora, por Messere Damião de Gois (1502-1594), embaixador das artes e das ideias, a caminho do Atlântico, Holandas, Germânias e outras Europas, montado num delfim de bronze. DE UM FANTASMA NA CORRENTE QUE ANUNCIAVA A IRA DAS PROFUNDEZAS E OUTROS AVISOS AOS NAVEGANTES Iam de rota traçada com destino às Bermudas, esse arquipélago de esmeraldas depostas sobre um banco de corais que Álvaro Vaz conhecia de leituras e que durante a viagem antecipava aos companheiros numa geografia de surpresas. No mar e no navegar está o sonho de chegar, e o skipper do Ponta de Sagres sempre que demandava portos desconhecidos figurava-os para lá da proa do veleiro em representações que conhecera deles através de álbuns, vídeos e enciclopédias ou das reportagens do National Geographic. Navegava assim a duas cartas, a duma Imago Mundi umas vezes científica, outras vezes aventureira, e a da Orbis Rigorosa da arte de marear, e nada disto serviria de estorvo à sua navegação, uma vez que um comandante de mão pensada é capaz de levar o navio até ao cume duma montanha. Adiante, portanto, e que São Cristóvão Viajante lhes abrisse caminho com o bastão da sua augusta providência. Adiante, isto é, rumo a SW, logo ao largo da costa apanharam dois dias de nortada com ondas de quatro metros e vento de força cinco que os obrigou a amuras curtas. Dois dias em cavalgada de vaga alta é coisa medonha de vencer, mas felizmente que, de garras ao leme e velas firmes, se guardaram de estragos e desesperos e entraram de consciência cumprida em mar de feição, mar brando, mar estanhado e sempre mais brando à medida que se aproximavam do paralelo 30 entre a Madeira e as Canárias e guinavam para oeste como mandava a carta de bordo. Deus abrira a sua mão de luz sobre o oceano, apaziguando-o, e conduzia o veleiro num chão de milagres donde de levantavam bandos de peixes voadores, escreveu o monge de Singeverga, sentado na cabine frente à imagem duma Virgem de Neptuno que ele jamais conhecera do Livro dos Benditos. Esta virgem, Sancta Virgen de Neptuno Mar y Furias, lia-se num arco de letras douradas por cima dela, era uma litografia popular em moldura de madeira pobre que Álvaro Vaz descobrira em tempos numa feira de trastes e velharias de Port of Spain e que, na qualidade de skipper, capitão e mestre, declarara padroeira do Ponta de Sagres. Mexicana, a avaliar pelo calor das cores e pela pujança carnal, segundo o parecer de Naia Valdez, ou peruana, segundo Álvaro Vaz, seria uma santa apócrifa, disso não tinha a antiquária-decoradora a menor dúvida e talvez por não ter é que às vezes vinha até ela e se benzia. Sabe-se que a discutiu com o monge Gonçalo de Singeverga para quem a imagem tinha algum sal camponês de certas figuras índias. Descalça mas coroada como uma imperatriz, a Virgem mostrava-se de pé sobre uma onda de espuma donde espreitavam cabeças de serpentes marinhas e embalava nos braços um peixe prateado. O peixe ali podia ser um símbolo de fecundidade, observava Naia; ou mesmo um símbolo fálico como acontecia em certas tribos da Centro-América, na Guatemala, salvo erro. Possível, frei Gonçalo não dizia que não mas a contrapor a essas figurações lembrava o peixe como símbolo primitivo da cristandade e da Eucaristia. A ele, o que mais o impressionava naquela virgem era as longas tranças negras que lhe caiam sobre o mandondo, matriarcal. Naia via e confirmava, mas, mais do que as tranças, o seio, a maternidade fecunda, isso é que lhe parecia claramente simbólico; e mais do que o seio, o que ela admirava ou, melhor, o que a seduzia era o ar terreno e pagão da santa, com aquele olhar negro muito denso e com umas sobrancelhas fortes e quase unidas que lhe faziam lembrar a Frieda Kahlo de Diego Rivera. A Khalo, a deusa do Rivera dos murais dos pobres e das cavalgadas dos camponeses, Gonçalo certamente que a conhecia mas para Naia essa mulher era única e deslumbrante, alguém que valia a pena. Um caso, verdadeiramente um caso. Há três dias que singravam a vento manso e a céu limpo, o odómetro marcava velocidades de 6-7 nós, não mais. No varandim da proa Álvaro Vaz e João de Viana conversavam de política e de negócios, sobrevoados por peixes voadores que se levantavam à passagem do veleiro. No convés, estendida ao sol sobre um roupão vermelho aberto, Naia ouvia a Carmina Burana, de Carl Orff, na rádio-cassetes de Gonçalo: a magia dessa cantata e a largueza dos seus ecos gregorianos, in trutina, in trutina, ab umbrata et velata, percorriam-na como uma brisa muito íntima, um Coro do Destino tocado a címbalos e a harpa, Fortuna, O Fortuna, O Cantiones Prophanae. Em biquíni e a fumar Gitanes lá muito para longe, mostrava um corpo consciente de si mesmo, um corpo vivido mas sereno como uma consagração solar, se assim se pode dizer. Pelas únicas imagens que hoje se têem dela, e que são as das fotografias tiradas no cais pelo frade pouco antes do embarque, vemos-lhe um rosto de distância ou de indiferença, desses que chegam e olham e jamais se interrogam. O marinheiro Inácio, por exemplo, como criatura de navio e solidão, passava por ela com uma ausência calculada, pois distância com distância se paga e ele nunca fora homem para dar vento a velas trancadas. Assim ia o Ponta de Sagres. Riscando o oceano com um lento fio de espuma, seguia paralelo ao trópico para, vinte graus mais a oeste, ascender em direcção aos Sargaços, essa pradaria flutuante a que os navegadores de Mil e Quinhentos chamavam o Mar da Baga, dizia João de Viana prolongando o olhar no fumo do charuto. À noite, com céu de veludo e luar atento, ele e todos os viajantes do iate faziam serão a céu aberto, conversando o tempo com humores e apropósitos, bem como dando relato de acasos vividos em terra e outras curiosidades de circunstância. Uma paz, direis, o céu pululava de anjos. E cá em baixo, no convés dum veleiro, ouvia-se a voz de Naia -um fado, quase sempre, Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, desmorece e cai no mar e era uma voz áspera mas racée, comentava Álvaro Vaz, vachement racée, uma voz recortada ao luar com um travo de destino e desafio. Naia, a do cantar áspero e do rosto soberano, roguemos a Deus para que a tenha a esta hora à sua guarda na corte dos querubins porque, dali a poucos anos, a levaria a morte noutra viagem e dessa vez em terra firme. Curiosamente, não se encontra uma única referência a esta personagem no diário do Ponta de Sagres, de tal modo que nos podemos hoje perguntar se ela não terá sido apenas uma sombra perdida a sulcar o oceano. Também não a vemos nas fotos e nos filmes da viagem, só agora nos apercebemos disso. Fora do iate sim: a Asahi-Pentax do frade fixou-a no cais a despedir-se dos amigos mas uma vez a bordo resumiu-a a sinais de ausência. Algures, um tanto desfocado, aparece um braço a acenar junto ao mastro grande do iate, por trás do skipper, do monge e do armador de Viana num instantâneo da largada, um braço, diz-se, que seria dela, Naia. Na verdade, porquê dela e não do marinheiro Inácio que também não está presente na fotografia? Por outro lado, no filme aparece um roupão vermelho estendido no convés; que era dela, está mais que provado; que vamos reencontrar num outro plano, aberto ao comprido numa cadeira de lona ou pendurado na porta da cabine como se fosse o vulto do corpo dela deixado à pressa para trás. E há uns óculos de sol e um maço de Gitanes esquecidos nalgum retrato que são outros restos da presença desta dona. Anotemo-los como sinais duma figura que a objectiva não conseguiu apreender por inteiro, encandeada pela autonomia que vinha dessa mulher. Um roupão vermelho, uns óculos de sol, um aceno solto no ar: fragmentos de pessoa, denúncias. Apesar disso, as fotos e o filme que o beneditino de Singeverga legou à posteridade são "providencialmente esclarecedoras" conforme sublinha Montezuma na já referida Comunicação e, como tal, constituem matéria de crédito para quaisquer investigações sobre a ilha de Satanás. A muitos parecerão de sobrexagero as dificuldades que os cronistas afirmam ter encontrado nesse trabalho, pois não só o diário de frei Gonçalo é pontual e de grande clareza na narração do Descobrimento como, graças ao Altíssimo, estão ainda vivos e disponíveis quase todos os que o participaram. Atente-se porém nos silêncios e nas imprecisões, nos sublinhados de sombra ou nas contradições que ocorrem no confronto dos pareceres de cada um deles e teremos como legítimos os reparos que os eruditos apontam. Em particular, as declarações de Naia Valdez e as do religioso beneditino são de algum modo enigmáticas. Sobrepõem-se sem se tocar e ajustam-se divergindo ou ignorando-se. Nem por escrito nem em filme, nem em qualquer fotografia podemos ver juntas tais personagens, já o sabemos -e todavia são as imagens do real e os lançamentos do diário que nos dão a marcha quotidiana que as conduziu à nova ilha. Cenas de tempestade, cenas de benesse; cenas de faina e de convívio, Inácio a dar escota às velas ou, em sorriso largo, a mostrar à câmara o tacho do almoço a fumegar; Álvaro Vaz ao radiotelefone ou o licenciado Viana a jogar xadrez com alguém que se encontra fora da foto (Naia?); Gonçalo à ponta da proa, em quimono de judoca e de binóculo apontado ao infinito. O azul atlântico. A luz. O fio da espuma. Mais algumas imagens e a objectiva muda de cenário e foca uma mancha escura à flor da corrente. Um manto enorme, a planar. Surgiu-lhes a barlavento na passagem do meio dia e o skipper Álvaro Vaz correu a manobrar o leme para se aproximar do achado. Qualquer coisa em viagem, enorme de facto e cada vez maior e mais concreta na transparência em que vogava, aquilo era um monstro à deriva, pareceu-lhes. E todos atentos puseram-se à borda e viram. Viram, e documentaram em filme, uma raia gigante ou jamanta, assim chamada, de uns cinco a seis metros de comprido por oito ou nove de largura a pairar na corrente. Estava morta. Com cabeça de chifres moles e olhos brancos, arrastava a cauda de esporões com que chicoteara tantos mares. Já não adejava o manto com a tenebrosa lentidão da majestade com que se deslocava antigamente. Ia à desventura como uma mensagem de maus avisos, assim a teriam olhado os do iate, uma mensagem negra; e com esse pressentimento a filmou o frade. Daí a pouco, no rasto dela, começou a passar pelo Ponta de Sagres uma extensa toalha de peixes mortos a caminho do anoitecer. CUMPRE-SE A MENSAGEM. DEPOIS DELA O MAR ROMPERÁ EM CHAMAS, NÃO TARDA MUITO E na verdade, passadas que foram cerca de quatro milhas de algas e de cadáveres de peixes à tona, depararam ao despontar da madrugada com um acenar de labaredas na linha do horizonte. Ao mesmo tempo chegavam até eles estertores secos, abafados, e quanto mais avançavam mais os ouviam crescer em estrondos de abalar o mundo e mais iradas se levantavam as chamas que saíam do oceano, projectando pedras e lamas incandescentes pelos ares. Era a separação entre águas e águas de que dá conta o sagrado livro do Génesis. E em temor e deslumbramento o frade navegador pôs-se a filmar toda aquela revelação que a Providência lhes estava a conceder, o desmantelar das profundezas submersas, as explosões que rasgavam a secreta lógica da Orbis Oceanica, o engrossar das nuvens em clarões ensanguentados, tudo isso, Senhor, tudo isso, desmando e clamor. E disse Deus: ajuntem-se as águas num lugar e apareça a porção seca. E assim foi. Diante do frade e dos companheiros, subiam às alturas rochas e lavas chamejantes que, despenhando-se depois no mar, arrefeciam e se transformavam numa extensa massa endurecida e bordejada de areia . E chamou Deus a essa porção Terra. E eles ilha. A formação do jardim de Éden? De pronto, Álvaro Vaz e João de Viana tentaram comunicar em HF com as possíveis estações marítimas que lhes dessem explicação daquilo que os seus olhos presenciavam, mas foram mal ouvidos e sem resposta. Porque, como vieram a entender muito mais tarde, a ilha àquela altura estava ainda como que em segredo do planeta, era um começo de terra em parto de fogo e agonia. Assim, se Deus dá a Fortuna a quem a sabe meditar, cumpria-lhes esperar com lucidez pelo fecho do Destino e ter intento. Esperaram, pois. Velejando a vários rumos, agora à bolina, agora com vento na popa ou de través, puseram-se a tornear aquela turbulência a marcha retardada e a distância conveniente, assistindo ao sismo' e ao fogo a abrirem uma ferida no oceano, uma ferida que sendo blasfémia era também redenção por se fazer espaço firme para a primeira pegada dum humano. Estavam a testemunhar, tinham essa consciência, o nascimento dum ponto novo do mapa. Por enquanto uma larva de rocha escura, a crescer e a respirar em repuxos de vapor lançados às nuvens, mas em breve, na fase adulta, uma ilha que, se agora já contava uns largos quilómetros de extensão, quando chegasse ao estado perfeito atingiria quase o dobro dessa estimativa. Na presença daquele espectáculo reuniu Álvaro Vaz todos os companheiros e, avaliada a natureza da descoberta, concertaram algumas decisões com vistas à ocupação da ilha, tão pronto ela serenasse e se mostrasse aberta ao homem. A pouco mais de uma milha de distância viam-na a crescer num bailado de labaredas envolto numa chuva de cinzas. Sacudia-se em abalos fumegantes, libertando um cheiro sulforoso que chegava até ao Ponta de Sagres e ressequi a o ar. Eram por isso obrigados a aproximações e a desvios conforme o vento, na sua ronda constante àquele território em tormenta. Ao correr das margens o mar revolvia-se em cachões terrosos mas, para espanto de todos, retomava logo adiante uma tranquilidade celestial. Tempo sem vento, diz o livro de bordo naqueles dias, profundidade entre 400 e 500 braças, o que fazia supor que se encontravam sobre uma elevação submersa. Continuavam a tornear. Continuavam presos àquela ínsula que em boa hora lhes tinhas aparecido. Depois de voltas e demoras resolveram colher o pano e navegar a motor. Pairavam a curta distância da ilha, de guarda a ela. Vigiavam-na a ponto morto ou quase. Pairavam. Durante meses e meses o que ali os tinha não passaria de um rochedo vulcânico, esvoaçado por milhares de aves marinhas que um dia a tivessem descoberto. Seria uma pausa árida no oceano, já o era, um deserto onde os fumos brancos que agora se viam brotar dariam lugar mais tarde a regatos de água a ferver com plantas a verdejar no fundo. Por enquanto resumia-se a uma plataforma em bruto, assim a olhavam e a discutiam os viajantes do iate dobrados sobre o mapa de bordo. Plataforma atlântica, a designação correcta seria essa e por aí já Álvaro Vaz e o armador de Viana justificavam a importância que um tão minúsculo grão do Globo poderia vir a atingir. Na economia, antes de mais nada. Na estratégia militar, provavelmente, como escala operacional. No turismo como fonte de águas sulfurosas e o mais que Deus acontecesse. Nesta conformidade já Álvaro Vaz se tinha agarrado ao radiotelefone para comunicar com o seu advogado em Lisboa pondo-o ao corrente da descoberta e dando-lhe instrução para actuar sobre o registo de posse do novo território nos termos do Direito Internacional. Enquanto isso Naia, o frade e o armador revezavam-se na escuta dos rádios de onda marítima que emitiam vozes do outro mundo a tremularem no vento e ondulação. Vozes essas que não tardaram muito a dar notícia do aparecimento da ilha, seja dito. E diga-se também que daí não veio surpresa ao Ponta de Sagres, posto que no segundo dia da descoberta já dois aviões da força costeira americana tinham sido vistos a sobrevoar a erupção e a seguir a eles outros forasteiros, entre os quais um monstruoso helicóptero a filmar mesmo em cima das labaredas da lava e a lampejar cifras obscuras, um navio do Instituto Geofísico Soviético, um cargueiro com bandeira panamiana, um submarino, uma corveta TI23, enfim um desfilar de peregrinos à babugem que, na maioria dos casos, eram de pouco demorar. Chegavam, viam e partiam, levando muito para com eles as mais ardilosas conjecturas. Ao ver Álvaro Vaz a comunicar com Lisboa, Gonçalo de Singeverga costumava dizer que não se admirava nada se ali perto já andasse o pirata-almirante Francisco Drake de caveira no mastro real e bombardas a assoprar. Foi a altura de o fax de bordo começar a receber relatos das estações meteorológicas sobre a localização do fenómeno. Crise sísmica e actividade eruptiva, noticiavam de Nassau, de Miami ou de CTRK Key West, e Gonçalo apontava no diário, voltado para a ilha em labaredas que lhe estava a pouco mais de uma milha da cabine. Em determinada data escreveu: "Esta manhã um acalmar gradual das convulsões. Agora já quase não se sentem aqueles movimentos submarinos a que o Inácio chamava o arreganhar dos dentes da fera". "Trovoada a NNE. Fumarolas espalhadas pelo mar a toda a volta", lê-se mais adiante (mas aqui na letra de Álvaro Vaz). " Mudança do vento de NE para ESW. Rumo 1-0-5. 4 nós. " E noutro dia: "Balanço comunicado pela estação de Miami às 05.30: mais de 300 milhões de toneladas de pedra e de lava até agora. Quantos milhões faltarão para dar a ilha por concluída?" Noutro dia ainda: "Estamos suspensos do sossego que continua a reinar. " E noutro: "Agora no topo do céu apareceu um cogumelo de fumo branco. De Lisboa não nos chega nada de concreto sobre o direito à posse da ilha quando pudermos desembarcar nela." Um boletim, uma contacorrente dum território em construção. De tempos a tempos o frade acrescentava-lhe notícias apanhadas à maré sobre um outro mundo a novas dimensões, ontem a NASA nos caminhos espaciais, hoje a Mining Corporation nas rotas dos diamantes das novas Áfricas, dados breves destinados a lembrar ao Ponta de Sagres o seu lugar contemporâneo, apesar da solidão em que se encontrava muito algures no Atlântico. De repente, em sublinhado com uma foto a ilustrar: "Como identificação oficial e como declaração de presença, decidimos hastear a bandeira portuguesa no pau da popa. Filmámo-la e fotografámo-la com a ilha bem visível em fundo." Todavia, por alguma razão que não importa aqui considerar o Ponta de Sagres não deve ter ostentado por muito tempo o pavilhão das cinco quinas e disso fazem prova as últimas imagens do documentário de frei Gonçalo que mostram a ilha em formação acabada, vista da popa do navio sem qualquer sinal de bandeira. Nesses planos finais passa sempre uma sombra fugidia que não pode deixar de nos intrigar porque se repete sem se definir por trás duma cortina de cinzas. É um vulto, a mancha de alguém que estaria apagado na paisagem e que, ao revelar da película, emergiu na câmara escura, a tremular, a tremular, e passa à nossa frente como uma interrogação. É Naia Valdez, não há que duvidar. Naia Garcia Valdez a avançar para a ilha como se fosse desembarcar. ONDE SE FAZ MENÇÃO DE UM NEPTUNO QUE ARRIBOU À NOVA ILHA E DOS PRIMEIROS CRISTÃOS QUE NELA SE ESTABELECERAM Agora estava Naia assente em rocha escura e a toda a volta era mar. Tinha a dar-lhe sombra um cenário de árvores pintadas num pano de vela por não haver plantas nem quaisquer outros viventes naquela ilha, e junto a uma pedra ainda fumegante olhava-a a Virgem de Neptuno em moldura de madeira índia. Perto andava um homem de barba curta em peito nu e boné de praia que era nada mais nada menos que frei Gonçalo de Singeverga a interrogar os horizontes. Esperava ver regressar o Ponta de Sagres à frente da prometida frota de navios que, em cumprimento do que ficara resolvido em assembleia de navegantes, viria carregada de terra para cobrir a rocha crua e criar plantas destinadas a dar sombra e nutrição, além dos animais povoadores para sustento e companhia de quem ali se estabelecesse. Como é de razão, acima de tudo trariam água, a água era-lhes essencial enquanto as chuvas não chegassem àquele novo território e se acumulassem em regatos e dessem vida às sementes; e quando assim fosse as sementes multiplicar-se-iam animadas por essa benção, e chamariam a elas tanto os roedores e os insectos como as aves; e as aves, com o colorido dos seus voos e do seu canto, trariam alegria à terra e deste modo de tudo resultaria a essência e o estrume que são os dois cristais donde nasce o sal da vida. A isto se chamava, disse João de Viana, fabricar um mundo por conta própria a partir duma rocha sem alma. Mas mesmo reduzida a pedra morta, aquela descoberta representava um valor estratégico que importava desde já acautelar, palavras de Álvaro Vaz em conselho dos navegantes do iate, um património e um investimento de civilização, palavras outra vez do armador de Viana, e certos que estavam do reconhecimento internacional que lhes iria ser conferido, todos os presentes tinham acordado em deixar a ínsula novíssima à guarda do frei Gonçalo Soares de Singeverga e de Naia Garcia Valdez como pessoas testemunhais de descobrimento e ocupação enquanto o Ponta de Sagres se deslocava a Lisboa para buscar não só as competentes licenças e abonamentos oficiais como os meios humanos e técnicos indispensáveis à empresa que pretendiam estabelecer. Mais concluíram ser de urgência a contratação de serviços de electricidade e telecomunicações e bem assim o povoamento imediato da ilha. Este, por sugestão de frei Gonçalo, seria confiado em grande parte às levas de emigrantes guineenses que andavam à divina por Lisboa sem trabalho e sem fé, fugidos à guerra colonial. Não passavam, pobres deles, de maometanos longínquos que aceitariam de coração aberto a conversão a Cristo Redentor para recomeçarem a vida num mundo novo como aquele. Naia Valdez: Mundo novo? Na realidade aquilo era nada, pedra de nada, dizia ela com o olhar. Tinham-na deixado numa solidão de rocha cercada de água e à sombra de duas árvores pintadas num pano de vela; acrescentaram (ou ela acrescentara) um leitor de cassettes com música contínua e a imagem da Virgem de Neptuno ao lado duma pedra fumegante que lhe dava o ar de santa em altar de incenso, de enxofre, esse cheiro a vulcão ainda não tinha desaparecido -e pronto, ali estava ela no nada. Tudo à sua volta era nada. Só que ao pôr do Sol ou com as sombras do luar aquele universo começava a ser ocupado por figuras bárbaras talhadas no rochedo. Carrancas primitivas, enormes, um deserto povoado de estátuas dispersas por entre penachos de fumo sulfuroso a que ela chamava Satanases porque tinham nascido do fogo que as expulsara dos infernos mais profundos. Algumas pareciam leões-marinhos, outras aves monstras em sono falso. Todas elas Satanases em diferentes figurações. E num amanhecer de cinzas, ao passear-se pelo meio daquelas máscaras, ela descobriu um gigante com cabeça de peixe e peito revestido de escamas. Parou e aguardou com curiosidade. Naia Valdez: Estou a sonhar. Tudo a sonhar, bem sei. De pé e apoiado numa alga seca com o feitio dum tridente, o gigante de cabeça de peixe, em vez de mãos, tinha dois molhos de tentáculos como os dos polvos a escorrerem-lhe dos braços. A todo o comprimento do dorso descia-lhe uma barbatana ondulada como se fosse de cabelos endurecidos e entre as pernas escamosas pendia-lhe um volumoso falo. Uma ser triste, tristérrimo, contou ela num fim de tarde ao monge-irmão que a acompanhava em exílio. Com semelhante aspecto, disse então, aquela criatura só podia ser o Neptuno ou um híbrido do Neptuno. E apontando para a imagem de Virgem a embalar o peixe de prata: De agora em diante, irmão, só consigo ver esta santa como a virgem que concebeu de um deus pagão e que mesmo assim continuou virgem. Naia Valdez: Palavras, palavras, tudo sonho, tudo sonho. Vejamos, ela falava ao irmão-frade duma virgem que concebera em pecado de carne e que virgem permaneceu, e isso não se resumia a palavras, isso, dizia, era muito mais sobrenatural do que a conceição imaculada que nos ensina a Santa Madre Igreja. Tão sobrenatural, pela carga da heresia, que Deus tinha castigado aquela virgem dando-lhe um filho em forma de peixe. O monge ouvia-a num silêncio doloroso. Não faça caso, padre, cortou ela, com um encolher de ombros, estes rochedos à noite metem-me medo. Não faça caso, padre. Não faça caso, irmão. Só ali, no purgatório duma ilha ainda quente das convulsões do parto e ainda incerta se triunfaria viva, só ali, coisa sem sentido, é que ela tratava o frade daquele modo. Padre, irmão. Coisa estúpida, de facto. Andava cada um para seu lado, ele quase sempre na estreita praia preenchida pelas areias cuspidas do fundo do mar, ela em biquíni, a fumar Gitanes e a ouvir a música dum leitor de cassetes à sombra de duas árvores de cenário. Era nesse enquadramento que o frade a encontrava cada dia mais mudada, cada dia mais inesperada nos comentários que fazia por tudo e por coisa nenhuma. Irmão, estamos no Génesis, disse ela uma vez. Reduzidos ao tudo-nada. já reparou? Só não andamos nus porque não temos a sombra de Deus. Porque estamos em pecado. respondeu-lhe ele. Deus num deserto de estátuas rochosas e com penachos de fumo pelo meio como repuxos de jardim. Ela olhava à volta e dizia: Num mundo onde não há vida. o único remédio é pensar em Deus. Verdade. irmão. Verdade. padre. Quanto mais perto da morte. mais medo de Deus. Não. Quanto mais perto da morte mais perto de Deus. disse o frade. Ali. entre os infinitos do céu e do mar. ela lembrou-se então de lhe pedir que a confessasse. O padre-irmão fez uma pausa talvez de surpresa. não se sabe. depois ajoelhou na rocha e juntou as mãos em Confiteor, Deo omnipotente, beata Mariae Virgini et omnium sanctorum. Naia: Em latim, que estranho. Mas já ela, em voz alta e no meio do oceano, se confessava pecadora por há muito ter andado arredia da palavra do Senhor, ausente até dEle, padre, tão ausente e tão culpada que se perguntava se não teria ido parar àquela ilha em expiação das faltas que lhe pesavam na alma, nojos, padre, ofensas sem remissão, padre, maus pensamentos, corrupções do corpo mais do espírito, e tendo chegado onde chegou suspendeu-se. Suspendeu-se, pronto. Diga, ordenou o frade passados instantes, e ficou de cabeça baixa, à espera. Pecados da carne, disse ela então. Fodas. Silêncio. O sol a baixar, a baixar, e ela num olhar de silêncio para lá do confessor e da ilha que se cobria de sombras e de satanases excomungados em rocha bruta. Entretanto o padre-monge levantava-se. Viu-o, tenso, rosto fechado, a afastar-se depois em direcção à praia. Seja, murmurou. Deu uma volta sobre si mesma e achou-se diante do pano das árvores pintadas onde o leitor de cassetes há muito que transmitia o "Ave Formosissima", da Carmina Burana. Ave ave decus virginum virgo generosa, mas quando deu por aquele cântico celestial fizera-se dia, não se percebe como, e no chão crescia uma sombra a aproximar-se dela. Era o confessor, depois duma noite de insónia atormentada. Vinha com qualquer coisa de pensado, era a ideia que dava, mas ao parar para lhe falar viu que ela tinha um tufo de pêlos do púbis a espreitar por baixo do slip do biquíni. Desviou o olhar, sentindo naquilo um aceno de vício ou de impudícia e por certo que ela se deu conta disso pois se compôs de imediato embora sem revelar qualquer perturbação. O inquietante porém é que, na presença do monge, tudo o que de mais secreto exibiam as suas palavras ou o seu corpo acontecia, não era determinado, e essa circunstância sobressaltava ainda mais porque mostrava que toda a perversidade lhe era natural. Ars demoniaca, pensaria o frade. Irmão, irmão, implorava-lhe ela. Queria que a ouvisse em sigilo de fé e a perdoasse. E ele contorcia-se e recusava porque tinha como certo que era no acto da confissão que ela pecava mortalmente, entregando-se a aventurar, perdendo-se a transformar o verbo em carne, perdendo-se, misericórdia, em rompimentos solitários e em luxúrias, em desvios contranatura, desmandos, coisas loucas, abjecções, misericórdia, ave Deus misericórdia. Ela que fizera a adolescência num colégio de freiras de sociedade, passe a expressão, sublimara o ofício da confissão num exercício de si própria ou num pacto de libertação para desafiar o pecado, e disso mesmo se advertia o padre-irmão, recusando-se a absolvê-la. Mesmo assim tornava a ouvi-la e a recusá-la, ouvindo-a na esperança milagrosa de a levar ao arrependimento e por sacrifício dele próprio contra a provocação e a insídia de que a sabia portadora. Mais ainda: ouvia-a de joelhos e de costas para ela, obrigando-a a ficar de pé. Naia Valdez: De pé? Impossível saber-se quantas vezes esta oratória se repetiu. Ela de pé e ele de joelhos para sua humildade maior, um virado a norte, outro virado a sul para mais se isolarem e se desconhecerem durante o ofício, era numa postura assim que se celebrava a penitência duma mulher de alma aberta e verbo cru, uma puta, Deus Poderoso, pulchra corrupta gloriosamente puta e gloriosamente à mercê, que o Senhor lhe perdoasse, alguém que se apresentava salgada de esperma ao castigo do Senhor, vêde só, crestada do fermento do sémen desde o salivar do gosto até ao travo da voz, crestada, irmão, nos olhos e no imundo da loca infecta, Basta, protestava o frade, de dentes cerrados, mas a confessante ia de calvário corrido e de danação em danação, era uma mulher à mercê, já o tinha confessado, alguém que ali mesmo se entregava à satanização do corpo, Deus Eterno, Deus Bendito, enquanto, de costas para ela, o sacerdote-irmão, murmurava Basta, basta, e cravava as unhas no peito até sangrar. Naia acordou com os gritos que ela, com o frade ajoelhado a seus pés, dirigia à omnipresença de Deus tanto na alma como na carne. Algum tempo depois de abrir os olhos e de se reconhecer no seu beliche do Ponta de Sagres ainda se sentiu esvoaçada por algumas dessas imprecações e olhou à volta, inquieta por alguém a poder ter ouvido na voz da mulher que tinha acabado de deixar no sonho. Mas não, na cabine estava ela e mais ninguém, toda a tripulação se encontrava lá fora num vaivém de mastro a mastro em, manobras de partida, dado que, por vontade de Deus, as promessas da ilha da Fortuna tinham dado em experiência vã e de nenhum porfiar. Naia, quando saiu à porta da cabine, a primeira coisa que viu foi o roupão vermelho aberto em cima duma cadeira de lona como se fosse a sombra dela própria que a aguardasse depois do sonho. E com o sonho acabara-se a Ilha dos Satanases, pensou ela com os olhos nos rochedos, vendo-os, já não como perfis de maldição mas como massas informes a afastarem-se para qualquer lado secreto do oceano. Com efeito, Álvaro Vaz e os companheiros tinham renunciado por inteiro à viagem de recreação que traziam de preparo com destino às Bermudas ao depararem com essa ilha que a Providência lhes interpôs em caminho e que eles passaram a chamar dos Satanases depois das notícias cada vez mais amargas que lhes chegavam sobre o naufrágio a que ela estava destinada. Ilha dos Satanases, também, porque à vista se lhes afigurava como que habitada por monstros de pedra que exalavam o cheiro a inferno do vulcão que os tinha expulsado. Porém, ao dizerem-lhe adeus para todo o sempre entenderam mudar-lhe o nome, averbando-o no livro de bordo como ilha de Satanás "por naquela data ser o dia de São Bartolomeu que o povo diz do Diabo à solta" e é essa designação que lhe cabe hoje na História dos Mareantes, na cartografia fantasma e na memória vivida. Desistiram, como é sabido, da ilha. Sabiam de certeza certa que a arrogância das profundezas que a vomitara em labaredas e em estrondos infernais a iria engolir em breve, corroída pela vingança e pelo sal do oceano. Mas tinham-se demorado tanto à guarda dela na esperança de a abordarem e a demarcarem como sua que, mesmo que agora quisessem retomar a rota das Bermudas. iriam confrontar-se com os ciclones tropicais que por todo o mês de Setembro investem naquelas paragens. Nessa conformidade, consulte-se o diário de bordo e anote-se que a 24 de Agosto do ano de 69, pelas sete e trinta da tarde, rumou o Ponta de Sagres direito a Lisboa com vento brando e mar de temperança, abandonando a ilha à sua sorte. No calor das manobras frei Gonçalo tirou a T-shirt e Naia descobriu, assombrada, que ele tinha o peito todo rasgado com as unhas. INSTRUÇÃO FINAL PARA USO DOS MAREANTES E DOS CURIOSOS DA HISTÓRIA Ilhas destas já noutros tempos enlouqueceram navegadores de agulha visionária que as tomaram uns como primeiros sinais dum novo Apocalipse, outros como prefácios à Terra da Promissão. Está nos livros que, doze graus a norte da Satanás de que aqui se faz crónica, se levantou há século e meio para logo se apagar a lendária ilha de Sabrina no mar a que comumente se chama dos Açores. Morreu mas andou errante anos e anos por outros quadrantes e por outras latitudes, aparecendo em figura desgrenhada no meio de certas neblinas. De vida breve como esta e nascida das mesmas águas, vem a propósito citar também a ilha dos Cape linhos que Montezuma, in Comunicação, compara à Myosin-Syo ou Rochedo das Lágrimas Ardentes de Sua Alteza Nipónica. Mas não façamos da História um arquipélago de aparições e fechemos esta expedição à ilha Perdida com a última imagem que os nau tas do Ponta de Sagres guardaram dela: um monstruoso vulto de pedra a lançar jactos de vapor em agonia. Finalmente: Em 1986, a caminho do Golfo do México, J. K. Duskin fez passar o seu iate Norma III pelo ponto exacto onde, na expressão de Montezuma, "houvera lugar e nome a ilha de Satanás". Naturalmente que já não encontrou qualquer sinal dela, reconheceu o presidente do US Guaranty Trust na entrevista que concedeu ao Yachting Quaterly. Mas em contrapartida, disse ele, impressionou-o a quantidade de jactos de baleias que havia ali. Álvaro Vaz, ao ler aquilo, suspendeu o charuto: Pouco provável, baleias naquela zona e naquela época? E João de Viana, com um sorriso muito intencional: Baleias? Porque não jactos de vapor?  Prof. Gonçalves Montezuma. Comunicação sobre a Descoberta da Ilha de Satanás. Sociedade de Geografia, Lisboa 1972.  Letra de Alexandre O'Neill e música de Alain Oulman  Conhecem-se pelo menos duas versões deste sonho que os cronistas designam por "Exorcismos da ilha de Satanás". Segundo Montezuma, obra cit., admite-se que tenha sido a própria Naia Valdez que o teria transmitido a um amigo confidencial pouco antes da sua morte na auto-estrada Verona-Veneza, em Setembro de 1973. Tê-lo-ia inventado quando lho contou?