{\pwi, TahomaCourier NewÐ/à=ð      â=â@DŸŸÿ#8 '####o##-#####"#############M######0#Ï#w#Ú#ZF #>†#È#râ ##H#Ù#Ñ#è#Cß#h#o#k# "#Ç#ï#####k #MÕ#,y#°#z#7°#####Sµ#O# #;##"#å#j#/ñ# ë# !#I£#g#M#4Z#¢#Z# ü#z##### Q#—¤# @#,¥#S##-###)#'#YC #ž#¯#K#&#b~ #j# ô#6#T#A# ì#Ø# #G##t#|#r#Õ#&æ##Ë#k#U#›#6# #T#5##ª#P#J#V# â#####F#$º#¥#8¾##A#8Ó#Ï#=S# #;/#(5#S#<#­##h# â#E####A#'.ÿÿ"åæ A Grã-Canária “Oceano Atlântico, 1938”ÄB"ô @ A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ Jorge de SenaÄB"Ô A# ÿÿ"åæ ÄB" A#$ovÿÿ"åæ A publicação de Grã-Canária, extraída do livro Os Grão-Capitães, foi gentilmente autorizada por Mécia de Sena.ÄB" ð Ð ˆ ¨ ø A# ÿÿ"åæ ÄB" A#-4ÿÿ"åæ © 1997, Mécia de Sena e Parque EXPO 98. S.A.ÄB"< Ð A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ISBN 972-8396-12-0ÄB"ˆ A#ÿÿ"åæ Lisboa, Agosto de 1997ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#")ÿÿ"åæ Versão para dispositivos móveis: ÄB"`   A#$ÿÿ"åæ 2009, Instituto Camões, I.P.ÄB"ð A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ ***ÄB"l A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ A GRÃ-CANÁRIAÄB"Ô A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#MTÿÿ"åæ Canaries(iles), archipel espagnol de l’Atlantique, au nord-ouest du Sahara. ÄB"` ð  A# ÿÿ"åæ Larousse de Poche ÄB"ˆ A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ IÄB"$ A# ÿÿ"åæ ÄB" A#L0ÿÿ"åæ O navio entrou pela manhã no porto. As entradas matutinas eram, decididamente, uma mania do comandante, como as saídas ao cair da tarde. Quando a marcha do navio não lhe saía certa com as contas que fazia, era sabido que se ficava pairando, navega para trás, navega para diante, suficientemente longe para não cruzar a rota dos outros que saíssem ou entrassem, e às vezes à distância de apenas ver-se a arrumação da terra. Raiando a manhã, era um polvorinho de ordens e de apitos, tlintintins de sinais para as máquinas, um assestar solene de binóculos, e o comandante, sem dizer palavra, com um sorriso apertado nos lábios pálidos, retraídos como os de uma velha desdentada, passeava na ponte, pelo meio daquilo, a sua altura curvada e a sua pele moreno-esverdinhenta que o engomado da farda branca, imaculada, fazia mais negra. Dizia-se que toda aquela superioridade desdenhosa, aqueles caprichos férreos com que dominava sem explicações e só por virtude do título, e aquele silêncio irónico, eram o escudo com que ele encobria uma arte de navegar, praticada sobretudo nos corredores mais escusamente políticos do Ministério e na administração de várias empresas rendosas. Mas dizia-se muito em segredo, por causa desses mesmos corredores. O caso é que só entrávamos nos portos ao amanhecer. ÄB"xð ð ` ð ` ð ð ð ð „ ¨ ð Ì < ð Ì ð   ` ô < ð `  Ì ¨  Ì ð ` „  ð    Ð < Ì ð <  ¨ < Ì `  Œ A#¼ÏÖÿÿ"åæ E a tripulação estava bem ansiosa por entrar naquele. Os dias e as noites, desde o último porto, haviam sido exaustivos. Apesar da chegada iminente, aquela mesma noite o havia sido também, com turnos às bombas, porque o rompimento de um tubo inundava continuamente a casa das máquinas. E nem por isso, é claro, o navio deixou de ficar pairando, com o cheiro da terra a misturar-se nas narinas ao da pegajice da água suja do óleo, que empapava escorrida mente O convés, e ao da raiva impotente, iracunda, de continuar-se a dar à bomba, com a possibilidade de conserto do tubo escondida na noite, ora pela proa, ora a bombordo, ora pela ré, ora a estibordo, enquanto o navio dava as largas e ronceiras voltas do ritual. ÄB"D„ Ì ð „  ð ` ¨ ô   ¨ ð ¨ „  ¨ ô < Ì   Ì ð Ì ¨ ˆ A#¦w~ÿÿ"åæ Era ainda noite, quando os que dormiam a sua exaustão enodoada de mazout foram despertos pelos toques de clarim, as sinetas, o tropel no convés. Ensonados e tontos, erguidos sobre um cotovelo, os dos beliches superiores torciam-se espreguiçadamente nos colchões duros para espreitarem pelas vigias que, espaçadas, corriam àquela altura. Não se via nada, a não ser uma vaga fosforescência no dorso liso da ondulação tranquila que, por sob as corrimaças e estridências lá em cima, e sob o tum-tum-tum ensurdinado dos motores, era, no cheiro de mazout e de corpos suados e dormentes, um ranger suave e embalador de madeiras ocultas. ÄB"?¨ ¨ ` „ ð  „ „ ô ô ¬  „ ¨ @ ð Ì < ¨  Ì ð ð <  D A#¿Úáÿÿ"åæ Alguém correra, num estralejar de pés descalços, a acender a luz. E, um a um, iam ficando todos sentados na beira dos beliches, os de cima pendendo as pernas para as cabeças dos de baixo, os de baixo resmungando contra os pés dos outros, enquanto um ou outro se estirava ainda, sem se atrever a adormecer, alongando a sua nudez maliciosamente desperta pelas ideias de terra próxima. Diálogos esparsos se estabeleciam, de cima para baixo, e de lado a lado do dormitório, entrecortados de chalaças que seriam, noutra madrugada menos densa de noites mal dormidas, um nervosismo expectante, alegremente curioso de novas terras e novas prostitutas, e demasiado ansioso na sua virilidade obsessiva para não ser, como era, adolescente. ÄB"D¬ ð ð  „ ð Ì Ì Ì < < ¨  ô  ¨ ¨ ð Ì ` <  ð  `  ð A#ZF M Zÿÿ"åæ Mais tarde, na memória deles, os portos confundir-se-iam numa descorada névoa, em que havia quase sempre um cais com alguns guindastes, a correnteza dos armazéns, ruas que do cais partiam extensas e desertas, lojas transbordando de quinquilharias que era preciso regatear, e, numa penumbra profissional, camas sem o gosto da aventura. Mesmo isso, na monotonia idêntica dos dias, quando deitados na proa conversavam, ou encostados à amurada contemplavam o fugir das águas, mesmo isso, se delia, se simplificava, para concentrar-se amplificadamente numa só imagem, às vezes compósita de recordações alheias, cujas semelhanças e coincidências as amalgamavam, criando uma imaginação risonha e sensual sem nada de característico a individualizar o porto de origem. Santos era uma francesa magra, cuja boca, com o passar do tempo, se apertava sugante no sexo de quase todos que viam, em tremuras de passivo gozo, os cabelos louros dela saltitando sobre as barrigas. São Vicente de Cabo Verde era uma crioula de olhos verdes que alçava as pernas, exibindo um sexo infantil, húmido e rosado, com esparsos cabelos impúberes, e que um deles, forçado pelos outros, lambera, entre as gargalhadas que sacudiam, em frente à cama de ferro que rangia e desabou, os sexos erectos. Luanda era uns seios gigantescos e negros, duros, que as mãos não conseguiam apertar. O Rio de Janeiro era uma praia nocturna, onde uma polaca, cujas nádegas rotundas fora preciso abrir, brilhavam saltando à luz da lua. Dakar era um «cabaret» cheio de fumo e de ruído, com compartimentos separados da sala por cortinas de vidrinhos enfiados, para fora das quais os pés saíam num movimento sacudido e desapoiado, e onde um italiano gordo e de bigodes, sacudindo as ancas, descalçava esses pés para fazer-lhes cócegas. As inibições, as repugnâncias, o esgueirar-se constrangido de muitos, o anseio de uma intimidade solitária, mesmo a impotência provisória e exasperante de quem a promiscuidade às vezes não excitava, tudo isso, que era, com pequenos segredos de um prazer fingido ou de um jeito pessoal de preparar o amor, o mais individual nas memórias de cada um, sumia-se recatadamente, reprimidamente, ante a onda imaginosa e colectiva como um mar cerúleo, tépido e silencioso, em que as cidades e as gentes eram braçadas lentas encrespando as águas de que emergiam, por escassos dias, indistintas noites. ÄB"á ¨ ð ¨ `  ð d @  „ ð ` ` „  < ` ð ô Ô `  ¨ Ì Ì ð ð „  ¨ „ Ì ` ð ¬   Ì ô ¨  Ì ð  „ ¨ ¨ Ð ð ¨  ð ô ð Ì Ì  Ì Ð  ¨ Ð ô ð ¬ „   ð <  < ô ¨  Ì   ð Ð ø Ì  ô  „ Ì  ¨ A#ª†>ÿÿ"åæ Um novo toque de clarim, à boca da escotilha, estalando pelas escadas abaixo, e repetido, logo após, à própria porta do dormitório, foi recebido a botas atiradas e gritos de protesto. Era rara a manhã em que aquilo não sucedia. O clarim ripostou, devolvendo as botas com violência, e, entretanto, ia dando, ofegante e risonho, as novidades. O porto era Las Palmas, de certeza. As conjecturas acerca de para onde ia o navio constituíam um dos temas sempre vivos ao longo da viagem, de porto para porto, na misteriosa incerteza em que o comandante mantinha todos, mesmo os oficiais, como se o cruzeiro fosse não uma viagem de rotina, mas uma empresa bélica, envolta em perigos e responsabilidades, guiada de Lisboa a telegramas cifrados que só ele entendesse. Muitas vezes, rumo a um porto, se passava afinal diante dele, com a tripulação apinhada nesse bordo, e os oficiais disfarçando, numa superioridade altiva, a perplexidade que também sentiam vendo o navio esgueirar-se por entre pequenos barcos pesqueiros, e a terra, onde às vezes numa encosta se distinguiam casas, esfumar-se inatingível na curva, que lenta se recompunha, do horizonte extremo. Nessas ocasiões de decepção geral, o comandante descia da ponte e percorria o convés, de mãos atrás das costas, sem fitar ninguém nem corresponder às continências que desviavam sucessivamente todos da contemplação absorta da terra a dissolver-se, e, parando a meio da escada, antes de novamente regressar à ponte, circunvagava por cima das cabeças um olhar espraiado, em que havia, como no suspiro fundo de que mais o alargava, a satisfação digestiva de haver deglutido atentamente a decepção toda que pairava no ar. ÄB"›¨ ð <  ð  „ ¨ ô      ¨ Ì ð „ „  ` ð < < ð ð ð  ¨ Ì „ ¨ d < < ô   Ì  „ ¬ ` Ì ð  „  ð ð  Ì „ ð „ „  ð ` ð Ì ¬ A#zÈÏÿÿ"åæ Desta vez, porém, Las Palmas era certo. A reparação do tubo exigia que o navio aportasse; e em Tenerife não havia recursos. O perigo da situação do barco, que nos dias anteriores fora uma esperança maldosa, transformava-se numa certeza garantida. O clarim ouvira o comandante dar as ordens. Ele conhecia Las Palmas, já lá estivera, sim, antes da guerra. Agora seria diferente. Mas as casas de putas estariam no mesmo sítio, se é que não haveria até mais. ÄB"-ð „ < ð Ì ¨ ` ˆ ð ð  ¨ < ¬ ¨ < Ì  h A#â é rÿÿ"åæ Quando emergiram todos, uns atrás dos outros, no convés, depois de enfiadas as calças e lavadas apressadamente as caras na única torneira que deitava água na casa de banho, o dia clareava já, e a tripulação ia formando em frente da ponte. O clarim avisara que havia formatura geral, sem uniforme determinado. Na ponte, os oficiais circulavam em magotes, afastados do meio, onde o comandante, sozinho como sempre, passeava para cá e para lá, ora mostrando à formatura, que se organizava, o corpo quase inteiro, ora sumindo-se de costas em direcção à popa, como quem mergulhava balanceadamente, de boné e tudo, para emergir de novo junto à escada. Os apitos dos contramestres deram o sinal de que se estava a postos. O comandante parou ao cimo da escada, pousou as mãos nos topos do corrimão, e voltou a cabeça à esquerda e à direita. Imediatamente os grupos de oficiais se concentraram perto dele, a um lado e outro, olhando para baixo, cruzando olhares com a formatura. Uma inquietação era patente no navio inteiro, parecia comunicar-se mesmo aos mastros, ao casco, ao próprio mar. Era raríssimo aquilo; acontecera só, numa tão longa viagem, duas ou três vezes, e nunca desses sermões ladrados numa voz de falsete saíra qualquer coisa agradável. À partida, servira para avisar, com uma minúcia ameaçadora, do que podia ou não podia acontecer num navio que ele comandasse. À chegada ao Brasil fora uma curta alocução, explicando que, embora o Brasil fosse um país irmão, a visita era de cortesia para com um governo que modelara a sua conduta pelo exemplo de Portugal, e de amizade para com a colónia portuguesa que esperava ansiosamente o barco para fortificar-se no seu patriotismo, pelo que seriam severamente punidas quaisquer faltas ou quaisquer abusos que lhe chegassem aos ouvidos. As faltas e os abusos não tinham sido enumerados, e a estadia fora longa. Depois da partida, já em pleno mar, os castigos (que incidiriam nos desembarques em portos da transatlântica África) haviam chovido, como que distribuídos ao acaso, sem motivo aparente. E, à surpresa de cada qual ante o que lhe cabia em sorte, alguns oficiais mais compassivos condescenderam em revelar motivações ocultas, quase sempre provenientes da origem incerta e anónima que era a espionagem existente no navio, entre toda a gente, e que tivera largas oportunidades de estabelecer contactos com a outra, mais profissional, que se organizava em terras de Santa Cruz. Essa espionagem, que tornava todos suspeitos uns aos outros, era do que mais contribuía para confinar os homens no que lhes poderia ser mais exteriormente e seguramente comum, quase sem distinção de graduação, levando mesmo os dotados de alguma vida interior a uma dormência cauta, em que os dons da reflexão autónoma se estio lavam receosos. A inquietação, que se permutava de olhar para olhar, não era, portanto, uma inquietação comunicada, mas um sentimento de fraternidade inerradicável, cujos motivos podiam ser, e eram para cada um, muito diversos, ainda que quase inconfessos no próprio foro íntimo. ÄB"Ì ð ð Ì Ì <  „ „ Ì ¬ „  Ì ¨  ¨  ¨ < ¨ Ì ð ¨ ` <  ` Ì  ô ¨ ` < ¨  ¨  ¨ „ ¨ Ì „ ¨ ð ð  ð Ì   ` „   ð ¨ Ì  < „ Ð ð  ¨ ô <  ð ð „ ¬ „  d ¨ ô ð < Ð  Ì ð ð  ð d ð Ì Ð  ¨ Ì Ì Ì ¨ ` ð < Ì ¨ ¨ ð <   „   ð ð  ð Ô A#Ð$ÿÿ"åæ -Este navio, por absoluta necessidade de reparação urgente de uma avaria, vai atracar no porto de Las Palmas. A Grã-Canária faz parte de um arquipélago tão tradicionalmente espanhol como os Açores são portugueses. A Espanha encontra-se empenhada numa luta de libertação, sangrenta e impiedosa, contra as forças desencadeadas do comunismo internacional, cujos perigos Portugal foi o primeiro a compreender e denunciar. Que esta luta nos diz respeito muito particularmente, sabem-no todos, desde que, há bem pouco, o Governo Português se viu forçado, e o fez sem um minuto de hesitação, a afundar a tiro alguns desses navios que simbolizam a restauração da Armada que servimos, e cujas tripulações, ou alguns traidores nelas, tentaram revoltar-se contra a Nação e os seus interesses mais sagrados. ÄB"N„ ` ¨ < „ Ì „ ˆ  ¨   ¨ ð „ ð ¨   Ð  Ð Ì ` Ì ð  „ ð <  h A#šHOÿÿ"åæ Um burburinho irreprimível percorreu as fileiras, e mesmo se propagou entre os oficiais, interrompendo-o momentaneamente. Falar, e naqueles termos, do episódio da "Revolta dos Barcos», era de uma audácia ou de uma inconsciência incríveis. O episódio, muito recente, esmagado com uma ferocidade sem limites, em que os próprios náufragos haviam sido caçados à metralhadora, quando pareciam tentar escapar-se a nado para as margens do Tejo, era tabu entre o pessoal da Armada, uma humilhação dolorosa a que nem mesmo os mais declarados partidários da Situação se atreviam a referir-se. ÄB"7¨ ` ¨ „ „ ð ð ` ¨ ` Ì  „ ð  „ „ ¨  ð ¨ < A#Ùàÿÿ"åæ O comandante sorriu imperceptivelmente, e continuou: -Vamos atracar no porto de um país em guerra, embora a guerra não tenha chegado aqui. Portugal não é neutro nesta guerra, e, apesar de não ser oficial a nossa visita, mas forçada pelas circunstâncias, eu quero que o generoso povo espanhol sinta e saiba, no respeito e no apreço manifestados pelo nosso aprumo e pela nossa reserva, que as nossas simpatias estão com ele, e que partilhamos dos seus heróicos sofrimentos. ÄB"0¬ ô ð Ì „ ð < Ì „ ` „ ¨ Ð < ð  ¨ d Ô A#=ÑØÿÿ"åæ Levantando as mãos dos topos da escada, endireitou, quanto as costas curvadas lho permitiam, a magra altura. Um suspiro de alívio, muito suave e subtil, perpassou entre a tripulação. Mas não era ainda o fim. ÄB"ð    ` „ Ì d A#Âèïÿÿ"åæ -Este navio representará Portugal aqui, e estou informado de que assim é, pois que nenhum navio de guerra português veio às Canárias depois de rebentar a guerra que está em vias de vitoriosa conclusão. Não podemos esperar, chegando de emergência a um país empenhado numa luta sem quartel, recepções especiais, como as que tão imerecidamente tiveram noutros portos. Mas podemos apresentar-nos com decência e dignidade. Este navio está um chiqueiro vergonhoso. Há mazout até na ponta dos mastros. Não entraremos no porto, nem se dará às bombas, enquanto houver, neste barco, um pingo de óleo. E fundearemos no porto exterior, até que a limpeza de tudo, navio e pessoal, seja impecável. A ordem é: lavar o navio, lavar as ventas e lavar a roupa. ÄB"I`  „ ` `  ¨ ` ð Ð <    Ì   ` < ¨   ¬ Ð Ì „ ¨ < ` A#ÀßæCÿÿ"åæ E assim foi. Ancorado o barco à vista do porto, cujo longo quebra-mar nascia de uma fortaleza arredondada e baixa na ponta da baía, lavou-se o navio, lavaram-se as ventas e lavou-se a roupa, numa apoteose de água e sabão jorrando pelo convés adiante, e escorrendo por toda a parte e para toda a parte, enquanto a tripulação, nua em pelota, se agitava endemoninhada mente com vassouras, e o oficial das máquinas, ora de mãos na cabeça, ora de mãos postas, circulava encharcado no meio do tumulto, suplicando que se apressassem todos, depressa, porque os veios se inutilizavam, os veios se inutilizavam, com mais de duas horas de água entrando como entrava. Mas ele era a encarnação física de meia dúzia de dias e noites da tripulação patinhando em água suja de óleo, dando àquelas bombas malditas, por a grande -velha e desconjuntada -não funcionar. E toda a gente o atropelava, baldeava para os pés dele, sobre ele varria, de cima das estruturas, aquela poeira ensalitrada que os ventos delicadamente pousam nos navios. O comandante, após a fala, desaparecera, e atrás dele quase todos os oficiais que por certo haviam descido aos camarotes respectivos, para, com os impedidos, os limparem, certos de que ele também lá iria esquadrinhar um "pingo de óleo». Os oficiais de quarto, debruçados da balaustrada sobre o convés, riam à gargalhada. E, nisto, o comandante, afastando-os para o lado com um abrir dos braços, apareceu entre ambos. Um silêncio se propagou pelo tumulto fora, a ponto de ouvir-se, com escândalo, uma vassoura varrer ainda, um balde entornar-se. E o oficial das máquinas foi o último a aquietar-se, ainda de mãos levantadas, e voltou-se devagar para a ponte, com o rosto transtornado de fúria. Todos os olhos o evitaram, e à ponte também. ÄB"¨ ð `  ð   `    ð ` ` ð Ì ð ¬  ¨ „ ¨ ¨ ¨ Ì < Ð ¨ ¨  Ð Ì ð Ì <  < Ð ` ¨ Ì ð ð Ð Ì Ì  ¬ „  <  <  ð ` ð „  ¨ Ì ô ` ˆ ð ` ø A#"hoÿÿ"åæ -Aproveite, Mendonça, aproveite -ouviu-se no falsete irónico. -Deixe que o lavem, um dia não são dias. ÄB" ô   ð A#$ovÿÿ"åæ A tripulação entreolhou-se, sem saber se aquilo era para rir. E o tenente Mendonça baixou lentamente as mãos. ÄB" Ì ð „ Ì A#£krÿÿ"åæ -Você estava tão bem de mãos ao alto!... Só lhe faltavam as castanholas. Olé! -e o falsete acabou numa casquinada. Os dois oficiais riram. A tripulação entreolhou-se e começou a rir. E foi um delírio de gargalhadas, com o comandante a acenar corno um rei aos súbditos que o aclamam junto à varanda do palácio, quando o Mendonça ergueu os braços, deu estalinhos com os dedos, bateu com força os tacões nas tábuas, e começou a rodar num sapateado a capricho, as nalgas em bico, o rosto de banda, os olhos em alvo, e logo acompanhado por urna orquestra de palmas e baldes-pandeiros, e por um coro de «olês» desabalados. ÄB":ð Ì „ ¬ ð ¬ „ `  „ ð ð ð ð   ` ¨ ¨ „ ô ¨  A#Ñ") ÿÿ"åæ Quando, acabada a limpeza, que incluíra por parte de especializados a limpeza furiosa dos metais, a tripulação desceu para banhar-se nos chuveiros, cuja abertura havia sido anunciada, tornar café e fardar-se, todas as superstruturas do navio, cheirando a tábua molhada e com os metais brilhando ao sol, haviam ficado embandeiradas em arco, transformadas em estendal de roupa. Eram calças, blusas, lenços, toalhas, num branquejar dançando ao sol, em tudo o que era cordame ou em cordas expressamente esticadas, que se cruzavam e recruzavam, sobrepostas. Ainda muitos lutavam para enfiar-se nas blusas marinheiras, que outros camaradas ajudavam a descer pelo corpo abaixo, quando soaram os sinais de levantar ferro, os t1intintins para a casa das máquinas, e o navio estremeceu no estrondo das hélices. ÄB"P¨ „ ` ô   ¬ ` ¬ ` Ì ¨ ˆ  ð Ì Ð Ì ð < ð ` „ Ð < Ì „ ð ð ð ¨  D A#:ÇÎÿÿ"åæ -A roupa! -alguém gritou. E quantos não haviam subido precipitaram-se para cima, e, saltando por sobre as correntes que corriam, os cabos que se desenrolavam, começaram a desprender algumas cordas. ÄB"Ì „  ô „ ¨  @ A#Äïöÿÿ"åæ -Não tiram coisa nenhuma. -Reboou o falsete, ecoando roufenho e portentoso no porta-voz que o comandante segurava numa das mãos. Nem tempo houve de reflectir, que logo tocou a formar, e depois a sentido. As peças de salva começaram a disparar tiros secos, cavos, a que um fuminho correspondia alternadamente de entre as ameias da velha fortaleza agachada na sua ponta, e ante a qual o navio ia passando. As salvas reboavam na baia. Bandeiras de sinais saudando o barco, que outras içava também, subiam numa pequena canhoneira espanhola, ancorada à entrada do porto interior. E, embandeirado de roupa branca, com a tripulação formada ao longo das amuras e trepada nos mastros, o navio entrou, ligeiramente adornado a um bordo, no porto de Las Palmas. ÄB"I„ ¨ ` ¨ Ì   ð ¨  Ð ¨ „  Ì Ì ð „ Ì ô Ì ð ¬ Ì ` ` ¨    A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ IIÄB"H A# ÿÿ"åæ ÄB" A#Í  kÿÿ"åæ O navio atracou a um cais deserto, onde autoridades, com muitas botas altas, muitos uniformes, esperavam para subir a bordo, de braço erguido, vozeando orfeonicamente “Arriba Espana”. Só então, com esses vivas a rarear e os braços descaindo, o comandante mandou que, em cinco minutos, a roupa fosse recolhida. Postas as pontes, as autoridades subiram, houve apitos, continências, e depois abraços cordiais, olhares em volta e para o cordame do navio, e, quando se enfiavam todos para o «vinho de honra» que estaria posto no salão dos oficiais, pudemos desembarcar. Até ao meio-dia o tempo era já pouco, e ao meio-dia devíamos estar concentrados na Praça da Catedral, para um almoço e um passeio, tendo, para tanto, ao portaló, recebido um cartão de convite, em que as bandeiras de Portugal e da Espanha franquista, atadas pelo pé com um lacinho, apareciam ao alto, ladeadas por uma grinalda protectora de fáscios e cruzes gamadas, e em baixo a legenda: "Por una Espana Mayor.» Deambulámos um pouco pelas ruas, vagueadamente, sem que os grupos se afastassem muito da praça logo encontrada, e que era uma acumulação de arbustos, de laguinhos, de banquinhos, e de palmeiras enormes abrindo pendurada mente em leques que escondiam a mole baixa e avermelhada, com a pedra toda em torcidos e tremidos, da catedral que, demasiado nova ou reconstruída, não justificava a reverência pasmada com que se aguardava, a qualquer momento, Cristóvão Colombo saindo dela, papada a missa, rumo às Américas. Enquanto ali passeávamos, espreitando janelas, em que vultos se recolhiam, não foi Colombo quem saiu, mas um compacto bando de sotainas negras que, de mãos atrás das costas e ventre empinando os botõesinhos que iam pela barriga abaixo, ficaram olhando para nós de sob os chapéus redondos e lustrosos, de aba larga, com que se cobriam. Um outro bando fardado, mas da Falange, apeou-se de um automóvel aberto que parou junto deles. Os falangistas aproximaram-se, e parecia que cada um, como para dançarem a quadrilha, escolhera um padre para ajoelhar-se e beijar-lhe a mão. Depois ficaram todos em magote, olhando os nossos grupos que passeavam a cautelosa distância. Entretanto, começavam a parar, à volta do jardim e nas ruas que confluíam na praça, carros diversos. Pouco a pouco, reparámos no que era sem dúvida a mobilização de todos os veículos disponíveis em Las Palmas e arredores. Havia Fords de calças incrivelmente arregaçadas, com rodas de bicicleta de criança, outros automóveis dos mais variados tamanhos e modelos, e mesmo um carro estranho que podia ter sido, noutra encarnação, um eléctrico daqueles abertos e de estribo corrido. Os motores roncavam, fumegavam, e os veículos iam quedando imóveis, mas tendo ainda nas rodas umas tremuras e uns sacões de quadrúpedes moribundos que exalavam, pelos radiadores, o último suspiro. ÄB" „ ¨ < Ì ð d  ð ¨ <  ` Ð ¨ < ` „ Ì `  ð Ì <  Ì  < Ì ð  ¨ < Ì Ì ð ¨ ¬ ¨ ð  Ì „ ¨ ¨ „  Ì ð ð d  ð ` ¨ ð ¨ ð „ ¨ ¨  ¨ ¬ ` < ¨  ` < ` `  ø     Ì ð  Ð < ¨ „   Ì  ¨ ô ¨ „ ¨ ð „ ð ô ð  ð ¨ ð „ ô ` ¨  D A#þÕÜMÿÿ"åæ O nosso comandante fez então, a pé, a sua entrada na praça, acompanhado pela oficialidade e pelas autoridades que tinham visitado o navio; e o magote parado à porta da catedral precipitou-se para o pequeno cortejo e absorveu-se num voltear de sotainas, em meio das quais branquejavam pedacinhos soltos de farda branca. Houve, a seguir, um movimento geral, com corridinhas que separavam grupos, em direcção aos transportes. Os espanhóis discutiam acaloradamente uns com os outros, e, à medida que os grupinhos se refaziam junto das viaturas, nós parados atrás dos oficiais, e estes atrás do comandante, à espera que eles se decidissem, as discussões acaloravam-se mais, era como se fossem passar a vias de facto. Ao mesmo tempo, as discussões interpolavam-se de vénias respeitosas aos curas que eram cónegos e discutiam em brados igualmente desabridos. Por fim, chegaram a acordo, e todos à uma avançaram decididos para um dos automóveis, contra as portas do qual se atropelaram vários num redemoinho de cotovelos, sem poderem abri-las. Refluíram como uma onda que embate, e uma das portas veio, aberta, atrás deles. Arreganhando os lábios, o nosso comandante avançou por entre eles, curvou-se, entrou, e sentou-se. Ao lado dele apareceu sentado um dos padres, e logo a seguir um dos altos funcionários forçou-lhes o colo e sentou-se no meio de ambos. Em curva corrida, outro falangista, por certo mais subalterno, deu a volta ao carro e foi sentar-se no lugar da frente. Não soubemos de que maneira tudo acabou sentado nas várias viaturas, e, pouco a pouco, o préstito foi deixando a praça, traquitanando ruidosamente numa fumaragem de gasolina mal queimada à mistura com óleo, e a marcha era encerrada pelo veículo estranho que fora carro eléctrico e balanceava perigosamente, lá dentro, como se no dorso de um elefante, uma formatura de cabeças, à frente das quais se distinguia a do oficial de máquinas, cujas mãos defendiam o boné contra as investidas das abas dos chapéus dos padres que o ladeavam. ÄB"Á   < ð `   Ì Ì ¨ Ì Ð „ < „ ð ¨ ð <  ð ˆ „ ð ¨ „  ð ð Ð  < Ì „  `  ð ¨ ¨  ¨ < Ð < < ¨  Ð Ì < ¨ ¨ `  ¨ ð ð ô ¨ ¨ ¨ Ð  <  „  ¨ Ì  Ð ¨ < `  h A#'y€,ÿÿ"åæ A procissão motorizada, num tiroteio dos motores que se esbaforiam de arrancos, e levantando nuvens de poeira amarela, saiu da cidade e subiu sinuosamente a encosta da montanha. Subindo sempre, entrou pela montanha, onde vales verdes, profundos, tinham pequeninas casas esparsas. No nosso carro, éramos seis: três cadetes, um dos nossos oficiais, dois padres, não contando o "chauffeur". Sentado à frente, um dos padres ia constantemente voltado para trás, e falava com volubilidade, ciceronando, interrompido pelas frases secas e metálicas, de dedo espetado, que o outro padre, sentado num dos «strapontins», interpolava, como se estivesse fazendo uma edição crítica e anotada, com variantes e correcções, do que o outro dizia. Quando as versões de ambos não concordavam de maneira alguma, o da frente sentava-se direito por momentos e olhava para fora. O outro, então, baixava o dedo e pousava a mão, com esse dedo sempre prestes a erguer-se arrastando a mão, no braço de um de nós, sentado ao lado dele, no outro «strapontin». O oficial e os dois cadetes sentados no fundo do carro cabeceavam de incomodidade, de balanços, de poeira e sono. ÄB"nÌ Ì „ Ì „ ð ð ¨ ` < „  „   ` Ì ˆ ¨ „ ¨ ð  Ì   ¨ ð Ð  ¬  ð „ „ ¨ Ì  `   ð   A#´°·ÿÿ"åæ O almoço, no «parador de la sierra", foi uma interminável circulação de leitões assados, galinhas, pernas de cabrito, arrozes amarelos de açafrão com pimentões vermelhos, e canecas e garrafas de vinho das Canárias, enquanto o sol declinava num dourado suspenso sobre as sombras cinzentas que já enodoavam a verdura sem árvores das encostas distantes, e nós íamos ficando adormentados nas cadeiras de vime, de alto espaldar, sentindo nas pernas e nos rabos o entrançado duro. Enfim, num tinir de copos, as cadeiras foram pesadamente arrastadas, e houve saúdes e saudações aos caudilhos respectivos, com muito espreguiçar de pernas e de torsos, a terminar tremulamente nos copos erguidos. ÄB"DÌ  ô ð ð ô  ô ` ô „ ð < „ ¨   ` „ ` „ ð ¨  ô   h A#gzÿÿ"åæ Até à beira do terreiro extenso, para que dava o alto envidraçado do jardim de inverno, cheio de trepadeiras e de enormes vasos com palmeiras minúsculas e falsas, vieram vários dos convivas, em agrupamentos esparsos, de ocasião, que se debruçavam no parapeito, saboreando uma frescura que subia dos vales. Braços se estendiam perguntando ou explicando um acidente da paisagem. ÄB"&<  `    „ „ ð ` Ì ¨ ` „  h A#t°·7ÿÿ"åæ No fundo de uma imensa cratera, um extenso edifício, cercado de outros, branquejava na neblina. Era uma cratera? Sem dúvida que era uma cratera, as ilhas eram vulcânicas, e o padre, a nosso lado, lançou-se em considerações sobre a origem dos vulcões, sinais certos da ordem natural e da providência divina. E que era aquele edifício? Qual edifício? Aquele muito comprido, lá no fundo. O padre debruçou-se, com a mão em pala sobre os olhos. Qual? Aquele grande, rodeado de outros mais pequenos, e de um muro -era um muro? -alto à volta deles todos. Ah! Aquele. Era a leprosa ria, obra importante. Leprosaria?! Sim, leprosaria. Mas havia leprosos na ilha? Havia lepra? Lepra, não havia já, porque os leprosos tinham sido encerrados todos ali, estavam isolados do mundo. O perigo tinha passado. O clero, a Falange, o exército, de mãos dadas, haviam trabalhado energicamente contra a resistência da população. A falta de médicos e de remédios é que fazia sentir-se, mas era um efeito da guerra. De resto, a falar verdade, leprosos da carne, não estavam lá muitos. Da carne? O padre ergueu os olhos, e as mãos quase postas, ao céu que empalidecia; e abanou a cabeça melancólico. -La lepra dei alma es la peor. No es el comunismo la lepra dei alma? -e suspirou, pousando as mãos no parapeito. E, no silêncio que se estabeleceu, ficou contemplando o edifício que se diluía na sombra; e os olhos dele pousavam graves, comovidos pelo almoço e a contumácia humana. ÄB"Š  ˆ Ì Ì „  ` ð  ˆ  ô  ` ð  „  ¨  ¨  ¨ < Ì „ ¨ ð <  ô ` <  „ ð ð Ì „ `  ˆ <   ð  ð „ Ì „ Ì „ ¬ A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ IIIÄB"l A# ÿÿ"åæ ÄB" A#6µ¼Sÿÿ"åæ Era noite, quando as viaturas nos largaram na Praça da Catedral, e me apeei trôpego e tonto, inquieto e agoniado. Havia dispensa de jantar e de recolher a bordo, mas nem eu nem os dois camaradas que se me juntaram tínhamos vontade de comer. As recomendações expressas eram para que não nos afastássemos muito do centro da cidade e que nenhum, mais afoito, se separasse de outros. Pesados ainda do almoço, a nossa sede, sim, era grande. E fomos sentar-nos num botequim sombrio, que encontrámos vazio numa rua lateral. Em cima do balcão, havia uma velha máquina, que fora niquelada, de fazer café; e, nas paredes, cartazes de touradas anunciavam matadores eminentes em corridas muitos anos atrás. Do tecto pendiam, à volta das lâmpadas fracas, e também em grinaldas passadas de uma a outra, festões de papel de seda, em elos de cores alternadas, e que eram mais pouso convencional das moscas do que ornamentos perpétuos. Embora aqueles dois fossem, dos meus camaradas, os que me mereciam maior simpatia e confiança, e com os quais, como eles comigo, estabelecera certa intimidade, não me atrevi a comentário algum, mantendo-me naquela reserva inarticulada em que o extraordinário, não sendo julgado por palavras, e o banal da vida, que parecia extraordinário às nossas descobertas de adolescentes, se confundiam numa realidade fantástica que era, ao mesmo tempo, a da juventude, a da nossa experiência do isolamento que é o mundo marinho, a do nosso mergulhar súbito e irreal na vida terrestre do nosso tempo. E o fantástico, delindo-se na confusa interpretação destes planos, perdia por um lado a sua condição de fabuloso, e ganhava, por outro, no silêncio mental, aquela imagem de aventuras sensuais, portentosas e imensas, destituídas de sentimento ou de sentido, e que eram o desbarato dissipado das nossas energias juvenis. Possivelmente, no jeito com que afagavam os copos, os meus dois camaradas sentiam isto; mas nenhum de nós três sabia ainda, ou mesmo, segundo as circunstâncias, o saberia nunca. Éramos, de resto, muito moços. O mais novo, que era eu, tinha dezassete anos. Dezoito tinha um deles; e o outro, com vinte anos, não seria mais velho, apesar da malícia experimentada que, a pretexto de tudo, exibia sempre. ÄB"Ð ` ð   ð ð ð ¨ Ì „  < ð ` `  ` ¨ „ < ð `  ð  ð ô ` ð Ì ¬ ¨ „ Ì  „ ¨ d ˆ Ì  ð ð  ð ` ð ð ð Ì Ð `  <  „ ð ð Ì  <   ð ` < ` Ì „ Ì ð  ð „ ¨ <  ` ¨ `  ` A#œOVÿÿ"åæ Estávamos, e conscientemente, embora o não disséssemos, fazendo horas, na superstição higiénica de que devíamos esperar pela digestão do nosso almoço, para, escolhendo com ares de entendidos, percorrermos os dois ou três endereços que havíamos obtido, e acabarmos nos braços de uma prostituta qualquer sem outro atractivo que o nosso desejo acumulado, farto de hesitar e de apenas lembrar-se de si mesmo e do dos outros. E era o que tornava tão pouco saborosa a primeira mulher em terra, e fazia que, raríssimas vezes, ela contribuísse, com um seio ou com uma anca, para o museu colectivo. ÄB"7 „  „ ` ¬  Ì ¨ ð ð ð  ð Ì < ð Ì ð    Œ A#K  ÿÿ"åæ Pouco a pouco, bebendo e falando, nos reanimámos; e nos excitávamos devotamente, com indirectas e risadas, numa preparação espiritual para a peregrinação, até que o mais velho de nós se levantou e espreguiçou, e propôs que passeássemos um pouco «a ver as vistas». ÄB"` ¨ ð „ ¨ ð  „ ¨ „ A#‘#*;ÿÿ"åæ A primeira casa em que entrámos estava cheia de gente, cadetes, oficiais e falangistas, enchendo a sala de gritos e de fumo. Saímos, perdemo-nos nas ruas que se enovelavam escuras, com raros lampiões pendentes de um braço de ferro, nas esquinas. O movimento de fardas a uma porta atraiu-nos, e entrámos noutra. Era maior, e na sala não havia aperto. Alguns camaradas nossos, e entre eles um que detestávamos, aguardavam vez. A patroa veio, de mantilha preta pela cabeça, muito sorridente, segurar-nos os braços, puxar-nos para o centro, dizendo ou parecendo que dizia que as meninas estavam todas ocupadas mas não demorariam, e era cedo ainda, algumas ainda não tinham chegado, já mandara chamá-las. E revirava os olhos, louvando as qualidades das suas meninas, todas muito dóceis, de boas famílias. O nosso camarada que detestávamos gritou: -Eles também são de boas famílias, mas o que querem é um quarto para dormirem juntos. Os meninos de boas famílias, ou os comunistas, dormem sempre ... -mas não concluiu, porque nos atirámos a ele, tombando uma mesa e arrastando-o do sofá para o chão. Os outros que lá estavam, e a patroa também, interpuseram-se, houve ainda socos e pontapés e insultos, e ficámos, com a mesa de permeio, em dois grupos a cada canto da sala. -Vamos embora daqui -disse eu. -Ou pomos esse tipo na rua. -A patroa, apertando as mãos, pedia que nos congraçássemos, aquele senhor oficial já lá estava, e a vozearia era imensa. Saímos. No corrimão de uma escada que subia para o andar superior, mulheres e homens nus debruçavam-se para ver o que era. ÄB"” ` ¨ ð ð Ì  `  Ì ð ð ` „ „ ` ð „  ` ` ð   ` ¬ `   Ì ˆ ¨ ð ð ` ð ð  ð ¨ Ì ¨ ` ð ð ` ð ¨ ¨ ð ¬  „ ð  ð ô ð ´ A#쐗"ÿÿ"åæ Na rua, quando compúnhamos as nossas fardas, eu disse: -Filho da puta! -E o meu camarada que não era o mais velho acrescentou: -E paneleiro. Faz-se muito homem, mas não perde ocasião de se roçar, no chuveiro -. E o mais velho, quando já íamos pela rua adiante, disse: -Uma vez, ouvi-o declarar que não havia melhor do que ir a uma mulher por um lado, enquanto outro marmanjo ia pelo outro, e sentir lá dentro os dois paus a esgrimirem. Onde ele gosta da esgrima, sei eu. -Rimo-nos os três, e continuámos a nossa peregrinação. Mas o mais velho, quando já tínhamos percorrido mais duas casas, sem encontrarmos nada de jeito, parou e disse: -Macacos me mordam, se não hei-de foder aquele gajo, se não hei-de rebentar com ele -. E a nossa fúria de não termos continuado o combate, a nossa humilhação de termos saído, expandiram-se em gargalhadas, à ideia de que o instrumento dele rebentaria mesmo o cu mais gasto. ÄB"U ` ` Ì ô < ð    ð ð ð  ¨ Ì „ Ð ¬ ` „ Ì ` ô ¨ ð Ì „ ð ð <  Ì < A#Båìÿÿ"åæ Um relógio, que devia ser da catedral, deu horas, e as badaladas desciam connosco a rua, misturando-se aos nossos passos, num badalão rachado, e deram-nos a noção do tempo, o das horas e minutos, que se dissolvera no longo dia. ÄB"ð „ ð  ð   „ A##jqÿÿ"åæ -Afinal -disse o que não era mais velho nem mais novo -, das três moradas que tínhamos, ainda falta uma. ÄB" ð Ì Ð Ì A#Eñø/ÿÿ"åæ -Mas onde é que será? Onde raio será? -e ficámos parados numa encruzilhada, sob o lampião da esquina, a decifrarmos o nome das ruas. Tínhamo-nos perdido de facto e não se via ninguém. Portas e janelas cerradas. As pedras da calçada brilhavam húmidas. Ao acaso, escolhemos uma das ruas, e fomos por ela adiante. Sentimos passos atrás de nós, passos leves que corriam. Parámos e voltámo-nos. Um rapazito descalço ofegava ao pé de nós, e entre cortada mente, puxando-nos os braços, encarecia as excelências de uma casa que ele conhecia, e era ali mesmo mui cerca, havíamos passado por ela, não perdíamos nada por ir ver, as meninas não se tinham acostado, era temprano ainda. Nós, em círculo à volta do rapaz, ríamos uns para os outros e para ele que não parava de falar e de puxar-nos, rindo também. Era um garoto dos seus onze anos, muito magro, com uns calções que lhe deixavam de fora as pernas todas, descalço. A boca abria-se-lhe até às orelhas. Tamanha volubilidade imobilizava-nos, divertidos, que não o acordo tácito em segui-lo. E ele insistia, arregalava os olhos para descrever particularidades das meninas, a especialidade de cada uma, com a mesma inocência do aldrabão de rua, que, vendendo remédio para o fígado, aplica os termos técnicos da medicina. ÄB"v¨  ` ô ð ð ð   ð ô ` ¨  ` „ Ì  Ì ð `   ô  ¨ „ „ Ð ð  ð Ì „ `  ð ¨ „ ` ¨ ð `  ð `  A#Cëò ÿÿ"åæ -Mas onde é isso? -perguntei. Ele apontou com a mão, explicou vagamente. E fomos atrás dele, que dava corridas e saltos à nossa frente e se atrasava para o apanharmos, como um cão acompanhando os donos. À porta, pediu-nos um cigarro. ÄB"  Ì  ð Ì Ì ð  D A#Q!( ÿÿ"åæ -Seu malandro, você tem a escola toda -disse o mais velho de nós. Ele não entendeu; explicámos. E ele, encostado à ombreira da porta que se abrira ao empurrão que ele lhe dera, cruzou uma perna, levantou a mão com a palma virada para cima, e declarou: -Que quieren ustedes, es la guerra! ÄB"„ „ ô ð   ` Ì „  < A#ñ£ªIÿÿ"åæ Dei-lhe um cigarro e acendi-lho. Esgueirou-se pelo corredor de mosaico, onde havia, escurecidas por uma luz muito alta, plantas em vasos. Voltou logo a aparecer ao fundo do corredor, fazendo sinal que avançássemos, e cruzou por nós, empurrou a porta, e sentou-se no chão, atravessado ao pé dela, a fumar, com a cabeça encostada à parede. Nós avançámos. O corredor terminava noutro que, à nossa esquerda, se prolongava numa correnteza de portas, só à esquerda também. Na primeira das portas, duas mulheres, uma delas de vasta cabeleira loura, espreitavam sorridentes, e desviaram-se para entrarmos na sala, com o mais velho de nós agarrando-as pela cintura que elas dobravam sobre os braços dele. Lá dentro havia a toda a volta divãs forrados de cores vivas, naqueles desenhos acumuladamente geométricos, a preto, amarelo e vermelho, que eram parte do cubismo doméstico dos anos 30. Grandes almofadas semelhantes se amontoavam dispersas pelos divãs afora, e, perdidas no meio delas, mais duas mulheres em camisa de rendas, como as primeiras duas, sob os roupões também abertos, tinham os pés suspensos da largura dos divãs, e suspensas dos pés chinelas vermelhas debruadas de arminho branco, pele de coelho. Não havia mais ninguém, senão, nas paredes, um retrato do general Franco com bivaquinho de borla, uma Nossa Senhora da Conceição, que devia ter sido muito colorida, o retrato de uma senhora, a carvão, de carrapito no alto da cabeça, e um espelho muito grande, de moldura dourada, partido de meio a meio. Entre as duas janelas, em frente da porta, os divãs interrompiam-se para um étagère de pernas cambaias, onde dois solitários verdes, muito esguios, tinham flores de cera, e ladeavam uma redoma que encerrava conchinhas, flores secas, e um Menino Jesus ou João Baptista, de resplendor espetado no alto da cabeça. A meio da sala, três banquinhos ou mesinhas de madeira recortada ao modo árabe tinham no tampo um azulejo. O chão estava esteirado. ÄB"·Ð  „ ¨ ¨   „ ¨ Ì „  ¨ „ „   ð ð ð Ì  d   ð „ ô <   ¨ ô „ ð ¨ ð ð Ì  ` ¨ ð ¨  ð ð ð Ì ` ¨ ô ð  Ì ¨ ð  Ð ¬ ` „ Ì „ „ ¨ Ì ¨ Ì ð `   Œ A#bgnÿÿ"åæ -Muy buenas, muy buenas -disse uma voz atrás da gente, e era a patroa que, com um gesto autoritário, mandou que as duas mulheres sentadas se levantassem. -Vão a oferecer umas cervejas às meninas que estão sedentas. Recebam estes senhores oficiais que estão mui cansados. Haja alegria. Estejam à vontade. A casa é vossa. E as meninas também. -E bateu palmas. ÄB"#< < ¨ „ Ì  Ì Ì   < Ì Ì d A# Mÿÿ"åæ Apareceu uma velha de preto, com um lenço atado na cabeça, trazendo uma bandeja grande, com um castelo de copos enfiados uns nos outros e garrafas de cerveja. Pôs as garrafas nas mesinhas, e, ajudada pela patroa que examinava os copos contra a luz do lustre de vidrinhos, suspenso a meio da sala, e os bafejava e limpava à écharpe de seda, distribuiu os copos por elas e por nós. Depois, abriu as garrafas, serviu a cerveja, deitou cerveja num copo, e levou-o embora numa das mãos, enquanto na outra levava o castelo dos copos sobrantes. A bandeja ficou no chão. A seguir, a velha voltou, pousou na bandeja mais cervejas, e parou a olhar o meu camarada mais velho que se sentara no divã, com as pernas abertas, fizera sentar, uma em cada perna, e de costas uma para a outra, as duas mulheres, e conversava, inclinando-se a um bordo e outro, alternadamente com ambas. A patroa, com um gesto de cabeça, despediu a velha, e aproximou-se de mim e do outro, que nos tínhamos sentado mais adiante, e ao lado de cada um de nós, mas entre os dois, as outras duas que lançavam por diante de mim olhares reprovadores para o grupo, e bebiam repousadamente as suas cervejas. Olhando também para o grupo e depois para nós, a patroa sorriu, levantou o copo numa saúde, e começou imediatamente a lamentar-se das dificuldades da vida. Era muito dura, muito. Apesar de a sua casa ser das melhores, não era cara, veríamos que não era cara. Mas os impostos eram mui altos. E o pior não eram os impostos, eram as despesas com os visitantes que não pagavam, porque em tempo de guerra é necessária a protecção dos poderosos, dos que têm influência. Ela via que nós éramos bons chicos, ia-se já embora para ficarmos à vontade, mas era costume da casa pagarem-lhe as cervejas. Eu puxei da carteira e dei-lhe dinheiro. Ah, ela agradecia muito a generosidade, e o dinheiro português valia mais. Se quiséssemos alguma coisa era só bater palmas. E muy buenas, que nos divertíssemos, a vida é triste, nós éramos novos e não sabíamos, hay que aprovechar-la. Muy buenas. Ficámos sós os sete. ÄB"Áð  ð < „ Ì „ < Ì Ì  ð ð Ì Ì Ì Ì Ì ¨  < „ ` „   ð Ì ¬ Ì d Ì < Ì ` < ¨ Ì  ¨  d   ð „ ¨ Ì  ð ð ¨  ð „ ¨ ¨ ð ¨ Ì < ð Ì Ì ` ð „ ¨ ` ð   < ¨ ô ¨ ô A#_Za4ÿÿ"åæ A mulher que estava a meu lado, e cujo seio direito eu apertava com a mão do braço que passara pelo busto dela, levantou-se de repente, tirou-me o copo da outra mão, e foi pousá-lo, junto com o dela, na bandeja. Voltou, parou diante de mim e, afastando dos olhos o cabelo castanho, num sacudir de cabeça, estendeu-me as mãos. Não era uma mulher, mas uma rapariga da minha idade, morena e magra, de olhos largos, com a boca grande ridiculamente pintada. O pescoço era esguio, viam-se-lhe os tendões esticados, quando deixou pender para trás a cabeça, depois de eu lhe ter pegado nas mãos. Estas eram longas, com os nós dos dedos, ainda ossudos da adolescência, como joelhos. E os joelhos eram ainda as protuberâncias desajeitadas interrompendo a harmonia das coxas e das pernas. A cintura, o umbigo, a sombra negra do sexo distinguiam-se sob a camisa fina e rendilhada que lhe ficava muito acima dos joelhos. Eu não me levantei e puxei-a para mim. Deixou-se cair, com os cotovelos nos meus ombros, e as mãos, ao alto da minha nuca, segurando-me a cabeça contra o intervalo dos seios que, pequeninos e duros, eram redondezas a comprimir-me as faces. O cheiro dela era um perfume horrível, enjoativo, acre, mas logo havia, desfigurado por ele, uma doçura fresca de pele tenra, um pouco adocicada, suavemente tépida. Gritos agudos a afastaram e me fizeram voltar a cabeça. ÄB"‚„ ð Ì ð <  Ì „  ð ` ð Ì ` ` „ ` ¬  ` ¨ Ì ð Ì  ¨ < ð ` ð  Ì „   Ì ¨ ¨ ¬ ð ¨ ` ð Ì ð ô ` ð ¬ „ < „ A#q¢©ÿÿ"åæ O meu camarada mais velho sentara as duas mulheres de frente uma para a outra, e o sexo dele, de fora, enorme e teso, dançava solene aos toques que elas lhe davam. A cada salto, elas riam agudamente, com os dedos próximos, como quem mexe a medo num bicho inofensivo. O terceiro de nós levantou-se abraçado à mulher que estava com ele, parou rindo à porta da sala, e disse: -O primeiro que sair pergunta pelos outros. ÄB"(„ Ì ð ð ` ð ô ` ¨ ð Ì ð ð  <   A#_Zaÿÿ"åæ Eu levantei-me, abracei dobrando-a -e como era frágil a cintura -a rapariga, sentindo contra mim, que me roçava, a leve altura crespa do triângulo negro. Ela empurrou-me num gesto que pretendia ser profissionalmente provocante, e deu-me a mão, arrastando-me para a porta. Os outros três riam envoltos numa luta fingida. Eu perguntei: -Eh, e tu? ÄB"#<   Ì ð < „ Ô   ð <   A#Gü ÿÿ"åæ O meu camarada emergiu a cabeça de entre os roupões e a cabeleira loura de uma das mulheres: -Eu, o quê? ... -e, a um gesto interrogativo que lhe fiz com o queixo, acrescentou: -Eu vou com as duas, que qualquer delas tem medo de ficar sozinha comigo. ÄB"` ð ð  ð ô Ì ð  A#§zÿÿ"åæ No corredor, segui a rapariga que percorreu, experimentando-as, duas portas, e abriu a terceira; sem entrar, estendeu um braço e acendeu a luz; e, quando eu, abraçando-a, a empurrava para dentro, desenvencilhou-se de mim, largou as chinelas, e correu, com o roupão a esvoaçar, pelo corredor fora. Ao pé do rapazito que agora dormia, uma das mãos estendida sobre os mosaicos, a cabeça pendida no ombro, despiu o roupão e, agachando-se, cobriu-o. E voltou correndo, risonha, nas pontas dos pés. Eu, à porta, perguntei: -Por que hás feito isso? -Ela envolveu-me o pescoço nos braços, encostou a face à minha, e disse: -Es mi hermanito. ÄB"< ø < Ì  ¨ ð  ° „   < ¨ ð  ð „  ð  ` ð ð ø A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ IVÄB"H A# ÿÿ"åæ ÄB" A#ÝQX ÿÿ"åæ Ela apagou na pêra ao pé da cama a luz do tecto, e acendeu o candeeirinho que estava em cima da mesinha-de-cabeceira. Dando, por diante de mim, uma volta bailada, foi ao corredor, apanhou os chinelos, entrou, fechou a porta à chave, e ficou encostada à porta, com os chinelos na mão. A penumbra fazia reflectidamente que os seios, alteando a camisa, brilhassem. Eu pousei o boné numa cadeira, despi o casaco da farda, que, como as calças que tirei a seguir, trazia em cima da pele, sentei-me na cama a descalçar os sapatos, sem conseguir desatacá-los, e acabei arrancando-os dos pés. Ela veio, nesse momento em que eu acabava de arrancar o último, deu a volta à cama, pousou os chinelos, e deitou-se ao comprido. E, quando eu me voltava, puxou para baixo a curta camisa. Levantando um braço para o candeeirinho, perguntou-me se podia apagar a luz. ÄB"PÌ  ¨ d ð ð „ ð „ ð ô ø  ˆ ð ð   ¨ ð   ¨ ð Ì ô „ Ì ¨ ¨  Ð A#ñ¤«—ÿÿ"åæ Eu respondi que não, que queria vê-la, e que ela podia olhar para mim, não era assim tão feio. Não era feio, até gostava de mim, gostava muito de mim, e repetiu profissionalmente que eu era o seu querido. Mas as mãos com que me apertou as faces não eram profissionais, embora eu só tivesse entendido como não eram, na ternura com que me abati sobre ela, sem a cobrir inteiramente, e lhe afaguei a testa, desviando os cabelos. De olhos semicerrados, abanando a cabeça, ela passeou a testa sob a minha mão. Ia beijá-la, hesitei, e amaciei a voz para pedir-lhe que limpasse os lábios. Abriu os olhos com as sobrancelhas alteadas, sorriu, levantou-se obediente, e foi ao lavatório que havia a um canto, lavou a cara. Voltou, ajoelhou-se na cama, onde eu por minha vez me estendera ao comprido, perguntou se assim eu gostava mais dela, desviando os olhos para não fitar o meu corpo. Puxei-a para mim, contra mim, com força, e ela principiou a agitar-se, a roçar-se, a dar às ancas, o que não era preciso. E afagava-me os flancos. Eu sentia instintivamente a distância que havia entre as contorções convencionais que eu nunca, na absorção de satisfazer o desejo, sentira tão convencionais, e uma espontaneidade juvenil e retraída, que aflorava no desencontro dos gestos precipitadamente feitos. Era uma sensação que me envelhecia, me tornava mais homem, dissociando, na minha carne, mais do que na experiência automática da carne, ou na consciência do prazer explorado com a carne e nela, as contorções profissionais que falsamente conquistam e a que, passivo, se assiste, das mesmas contorções que, espontâneas e naturais, são provocadas pela atracção dos gestos e dos corpos esquecidos de si mesmos. Ao mesmo tempo que me envelhecia, a sensação tornava-a a ela magra, de formas ainda hesitantes em localizarem-se-lhe no corpo, despintada, com a boca entreaberta, muito larga, abaixo das maçãs do rosto salientes, e dos olhos em que restos de pintura se pegavam como escamas -mais jovem do que eu, quase uma criança. Havia, no jeito com que a abracei, rolei sobre ela, a penetrei, um respeito, um enleio sereno, atento, que não eram comuns à indiferença egoísta, e no entanto pretensamente viril, a que prostitutas mais velhas, mais amplas e opulentas, me haviam habituado, nem à audácia ansiosa e petulante com que tivera satisfações apressadas e exteriores contra as pernas de «meninas sérias» que me levavam ou eu levara para recantos escusos. Ela fechava os olhos num tremer de pálpebras, e imobilizava-se, primeiro as mãos que se soltaram das costas e caíram na cama, depois as pernas que ficaram semiapertadas, a seguir o ventre que dançava sobre as nádegas; aquietava-se toda, uma imobilidade distendida e flácida, que pouco a pouco senti que se inteiriçava, retesava, contraía, arqueava, e latejava sob o meu corpo e era como um respirar que palpitasse lento contra o vaivém roçado do meu sexo. Numa expectativa que me activou o movimento e me punha pruridos mesmo nos músculos das ancas, a penetração ia mais fundo, e quase, no salto que me erguia, bordejava. Ela torceu-se num sacão, senti no sexo como um chuveiro quente, e, desviando a cabeça que rangia os dentes, ela, descaindo bruscamente o corpo, uivou gorgolejada mente um uivo longo que se interrompeu de súbito, e, num derradeiro espreguiçar, ficou-se como desmaiada sob mim. A minha assustada surpresa ergueu-se nos braços, suspendeu-me os movimentos, adiou o prazer iminente que eu sentia, como se não fosse meu, na tensão dura do meu sexo molhado e das virilhas húmidas. Que as mulheres «se vinham» não era para mim novidade: as «meninas sérias», bem apalpadas, vinham-se até por conta própria. Que as prostitutas simulassem isso, quase era secundário no prazer que se tirava delas. Mas que tudo se juntasse, comigo e por mim, num tal paroxismo, aterrorizou-me num misto de pânico, vendo-a inanimada, e de orgulho, porque a via inanimada, possuída, entregue. Daí em diante, eu possuiria, poderia possuir quando quisesse, que maravilha. ÄB"z`   Ì  d ð ¨ Ì < Ð Ì ` <  ð   Ì ð ð  ð    ð Ì „   Ì   ð < ` ˆ Ì  Ì Ì ¬ Ð ` „  ð ¬ Ì ð ô „ Ì ð ô ð ð    „ <   „ ¨ ð  „ „  ð Ì ¨ „ Ì „ ¨  ô ¨   ` Ì   ¨ „   ð < ð  ` Ì d  ` ¨ „  ð ` „ ¨ < ` ` ô Ì     „  < ` ¨  < Ì   < ¨ ð Ì ¨ ð ð ô ô ð ô ð < Ì „ „  ` ` < ¨  ð  Œ A#Ø@G ÿÿ"åæ Mas o receio surpreso, na demora em que ela ficava inerte, levou, sem que eu soubesse, a melhor, e senti que me retirava dela. Despertou de súbito, sorriu, abriu para mim uns olhos que brilhavam e estavam, sim, marejados de lágrimas, e, abraçando-me, apertou-me contra ela, em quem entrei de novo, profundamente, num deslizar tranquilo de que os nossos movimentos se conjugaram. Creio que ríamos; e não tinha importância que um ardor nos meus olhos fosse lágrimas também, ante chegarmos ambos ao fim, ao mesmo tempo, esperando cada qual, solícito, pelo outro, como se, num caminho percorrido de mãos dadas, um se atrasasse, enquanto o outro estugava o passo, e outro se adiantasse para, atrasando-se, aguardar por ele, e o passeio se prolongasse na contemplação de uma paisagem em que os próprios passos quase eram o maior prazer. ÄB"P„ ` „ Ì ô ð ð „ „ `  ` ð Ð  Ì  ô ¨ Ì Ì Ð ð ` „ „ ¨ ¬ Ì „ ð ø A#2¥¬,ÿÿ"åæ Ficámos, depois, estirados lado a lado, trocando silenciosamente, ao longo dos corpos, serenas carícias. Apaguei a luz do candeeiro, e vinha, pela bandeira envidraçada da porta, uma claridade que era, difusa, a do corredor mal iluminado. Não se ouvia nada, a não ser, como um calor nas faces, o compasso do nosso respirar. Eu não sabia que tempo tinha passado, não me apetecia consultar o relógio de pulso. Ela aninhou-se contra mim, e, entre nós, o perfume enjoativo e acre esvaía-se na volúpia suada que o fazia uma memória incompreensível de mundo obsoleto. Apertei-a nos braços, e ela, revolvendo-se dentro deles, voltou-me as costas, e encolheu-se encostada a mim, numa inocência em que o meu sexo ficava comprimido nas nádegas dela, distraído e calmo como o suspiro fundo que a acochou ainda mais. No sono que ascendia, que era também uma névoa morna pousando sobre os nossos corpos, e também uma treva que fazia recuar de nós, para os cantos do quarto, a vaga claridade nele suspensa, ouvi que uma porta no corredor se abria, mas era longe, como as vozes e os passos. Soaram pancadas na porta do quarto. -Então, ainda demoras? -e era a voz do outro, do que saíra primeiro da sala. ÄB"n¨ ô  „  Ð „ ð ¨  ¨ Ì ð `   Ð   ¨  ð ¨ ô ô Ì  ð  < ð  Ì „   ð  „ ¨ ` Ì  ˆ A#SZÿÿ"åæ A rapariga deu uma reviravolta, pegou-me numa das mãos, pediu: -Não te vás ainda. ÄB" ˆ ¨ ð ü A#!ÿÿ"åæ Eu disse alto: -Eu fico. ÄB"„ A#-4ÿÿ"åæ -Não sejas idiota. Anda daí, que eu espero. ÄB"ð  A#%ÿÿ"åæ A rapariga apertou-me a mão. ÄB" A# ÿÿ"åæ Repeti: -Eu fico. ÄB"ˆ A#)0ÿÿ"åæ -Então até amanhã. O Bravo também fica. ÄB"¨ Ô A#'.ÿÿ"åæ E os passos afastaram-se no corredor. ÄB"Ì  h A#YC J Yÿÿ"åæ O diálogo dissipara a modorra, e espreguicei-me, sorrindo comigo mesmo, ciente de que a súplica dela não fizera mais que levar-me a afirmar prontamente a decisão esparsa nos meus membros e que era apenas a pura superioridade de mim sobre mim mesmo, que eu sentia, descontraída e calma. Ela levantou-se, atirou-se por cima de mim, que a agarrei, acendeu o candeeirinho, libertou-se, e endireitou-se ajoelhada ao meu lado, olhando-me. Apertou-me a cara com as mãos, e disse: -Ficaste ... -Eu sorri-lhe, exagerando o ar travesso com que sorria. Ela abaixou-se e deu-me um longo beijo, cujo balancear lhe encostava ternamente a face à minha. Endireitou o corpo, sorriu com um ar que imitava o meu, e, trocando as mãos, pegou na fímbria da camisa, virou-a pela cabeça, e despiu-a. A luz do candeeirinho, ténue e velada, i1uminava-lhe os seios, cujo colo se sombreava, como lhe punha sombras na barriga, junto das ancas e no umbigo; e as sombras acentuavam-lhe a magreza juvenil, em que as formas de mulher começavam a ondular. Ergueu as mãos à cabeça, arrepanhando para trás os cabelos, e mostrando os pêlos dos sovacos, que escorriam ralos e pálidos dentro do côncavo ensombrado; e as mãos, depois, vieram pelo torso e pela cintura, até às ancas, onde se demoraram, e às coxas, onde ficaram pousadas. Depois, sempre sem desfitar de mim os olhos que se abriram húmidos como para comer-me, estendeu as mãos sobre o meu corpo e pousou-mas no peito. E, inclinando-se para diante, começou, com elas e com os olhos, uma inspecção minuciosa, anatómica, absorta, que tomou conhecimento, atentamente, de mim todo, desde a cabeça, em que as orelhas foram objecto de especial exame, até aos pés, de que me descalçou as meias. Eu, depois que o estudo me libertara a cabeça, acompanhava com os olhos, sem mover-me, aquele perpassar de mãos que pousavam, repassavam, e, com as pontas dos dedos, chegavam a beliscar-me ligeiramente, avaliando a pele, a humidade desta ou a secura, e voltavam atrás para confirmar-se numa impressão que fora fugidia de mais. Não entendia a razão daquilo, mas docilmente me deixei observar, e mesmo me voltei de costas, quando me pediu que me voltasse e a operação se repetiu. Senti então cócegas nos pés, e era que mos beijava suavemente. Dobrei-me sentado e trouxe-a para cima. Chorava e ria. E disse: -Desculpa... Mas nunca mais me hei-de esquecer de ti. ÄB"ßô ¨  „ ¨  ¨ ô ¨ „ „ ¨ Ì < ð   ô Ì ð ð Ì < ¨ ¨ ð  ¨ ¨ ð ` ¬ „  < ` ¨ ð „ „ ð „ „  „ ¨ ô Ì „  ð ð Ì < ¨ ¨ Ð ô ˆ  ð ð ¨ Ì <    ˆ ð ô „ ð  ð  ¨ ¨ Ì Ì „ ¨ ð Ì ð Ì  ¨  A#°ž¥ÿÿ"åæ Apertei violentamente, num beijo em que lábios, língua, dentes, se feriram, aquele rosto radiante, e ela veio sobre mim tremendo toda. Mas logo se libertou mais uma vez, para esgueirar-se agora por mim abaixo. E, com a cabeça pousada nas minhas coxas, e uma das mãos sobre o meu ventre, contemplava, numa atenção igual, o meu sexo. Ajoelhou-se em frente dele, e as mãos, não para excitá-lo mais, mas para ajudarem a memória a devorá-lo, percorreram-no ciosas e submissas. Então gatinhou até a cabeça lhe ficar à altura da minha, deitou-se de costas, e, fechando os olhos, recebeu-me em si, concentradamente, atentamente, registando -agora eu entendia -na memória tudo. ÄB"A¨ ð ¨ ¨ ð „ ð ` „   ¨  Ì „ Ð <  Ì   d d <  ø A#4¯¶ÿÿ"åæ Ficámos, depois, numa exaustão serena e momentânea, lado a lado, sem sono e sem carícias, calados. De súbito, eu ouvi-me perguntar-lhe se o rapazito era de facto irmão dela. ÄB"ô  Ì   Ì Ø A#›KRÿÿ"åæ Era irmão dela. E, respondendo a perguntas minhas ou acrescentando informes por que eu não perguntava, e numa voz ralinha, com laivos cristalinos e outros áfonos, mas sem o tom rouco e sensual de palavras que lhe ouvira antes, foi dizendo que era irmão dela, tinha doze anos, ela tinha dezoito, viviam ambos ali, ela chamava-se Assunción, embora na casa lhe chamassem Flora, ele chamava-se Juanito, a senhora deixava-o viver ali, era muito boa, porque ele não tinha aonde, ela nunca estivera noutra casa, mas agora eu tinha vindo, era tão bom para ela, nunca mais se esqueceria de mim. ÄB":ˆ < < <  ¬ ð  ¨ ¨ ð „ „  Ð  ` „  „  Ì ¬ A#&-ÿÿ"åæ Há quanto tempo estava naquela vida? ÄB" ø A#¨~ … bÿÿ"åæ Desde o princípio da guerra, logo que a guerra começara. A guerra tinha sido horrível, agora já tinha acabado, era só longe, na Espanha. Sim, nascera em Las Palmas, nunca saíra de Las Palmas. Eram três irmãos, uma mais velha e eles dois. A mais velha estava em Espanha, ela não tinha notícias nenhumas. Viviam com os pais, a mãe, e o avô. Eu não tinha visto do outro lado do porto e da cidade, um bairro onde havia uma fábrica muito grande? Era ali que viviam. Agora já não viviam lá. A guerra tinha começado no bairro. A polícia e os falangistas tinham assaltado o bairro, e o exército também, incendiando as casas. A casa dela ardera. O avô era republicano, toda a gente o conhecia, todos sabiam que era republicano. O pai também era, mas pouca gente sabia. Tinham fuzilado o avô, à porta de casa, o pai e a mãe estavam presos, a irmã mais velha levaram-na para Espanha, levou-a um oficial com quem ela já vivia, o avô nem a queria ver. E, quando tinham assaltado a casa, ela estava em casa, não tinha ido trabalhar na fábrica, a fábrica estava fechada, em greve, era de conservas, o avô trabalhava lá, o pai também, o avô era um dos maiorais da greve, tinha uma barba branca, era muito bonito. E ela estava em casa, e eles tinham amarrado o pai e a mãe, que não diziam nada, e o avô, que gritava «viva a República», e tinham-na atirado para cima da cama grande, e um tinha sido o primeiro, ela julgara que morria, e depois tinham ido os outros, mas não doíam tanto, e ela desmaiara, não se lembrava de mais nada. Quando acordara, não podia andar, a barriga ardia-lhe toda, o irmão estava ao pé dela, e ela veio à porta, e o avô estava morto na rua, com os olhos abertos e a boca aberta, e havia sangue no chão, à volta dele. E vinha pela rua acima uma carroça, e homens apanhavam do chão os mortos e atiravam-nos para a carroça. Agarraram no avô pelos braços e pelas pernas, e tinham-no atirado para cima dos outros. Ela entrou em casa e fechou a porta, o irmão veio sentar-se ao pé dela. Ouviam-se tiros, nessa noite ouviram tiros, e, pela manhã, o exército e a polícia e os falangistas vieram, e puseram-nos fora de casa, e ela fugiu pela rua fora, porque andavam a deitar o bairro abaixo a tiros de peça e a deitar-lhe o fogo. E depois a guerra tinha acabado ali, não houvera mais guerra. Ela e o irmão iam comer na sopa dos falangistas, muita gente ia lá, e um senhor tinha olhado para ela, era um dos chefes, e agarrara-a por um braço, e tinha-a trazido para aquela casa, a senhora recebera-a muito bem, e ele dava-lhe vestidos, e vinha visitá-la, e às vezes dormia com ela. E o irmão não saía de ao pé da porta, e a senhora tinha deixado que ele entrasse e dava-lhe de comer. ÄB"õð  Ì Ì ¨ ð „  < ¨ ` ð ð ` ð  ð „  < < ð   <  „ ð  „ ¨ ` < „ ô ð  < ¨ ¨ ` ` ð <  ð  ð < „ „ „ Ì ` Ì „ ¨ ¨ ¨  ð „ „ Ì  Ì ð „ ð  „ ` ¨ ð ð  ¨ Ì ` „  `   ¨ Ì `  ð Ì Ì Ì ¨ ð Ì    A##jqÿÿ"åæ -E os teus pais, onde estão os teus pais? -e, no arrepio que me percorria, eu quase já sabia a resposta. ÄB" Ì ð  ˆ A#Eôû ÿÿ"åæ Mas a resposta não veio. Foi preciso eu insistir, repetindo teimosamente. Mesmo assim, em face da minha insistência que queria ouvir da boca dela o que já era uma confirmação, a resposta, numa voz ainda mais infantil e ciciada, foi indirecta. ÄB"ð Ð  < ð   „ ` A#6=ÿÿ"åæ -Tu já sabes onde eles estão. Só queres que eu diga. ÄB" < A#T[ÿÿ"åæ Eu, erguido num cotovelo, debruçado sobre ela, respondi: -Não sei. Diz onde estão. ÄB" „ Ð ð ü A#AHÿÿ"åæ -Levaram-nos para lá. Eles estão lá. Estão lá muitos, na serra. ÄB"¨  ü A#Cìó ÿÿ"åæ Eu descaí de costas, aliviado, e numa agonia que a envolvia de horror, me dava uma ansiedade de fugir, de me lavar, de ficar sozinho no fim do mundo a ver se algum sinal de lepra aparecia em mim. Mas perguntei: -Tu vais lá visitá-los? ÄB"Ð  Ì  ¨ Ì ¨ ð  A#~Øßÿÿ"åæ -Eu tenho ido, às vezes. Mas não acerto com o dia das visitas. E é longe, custa muito caro lá ir, e o meu pai não quer ver-me. Ele está lá, mas não quer ver-me. A minha mãe, eu vi duas vezes. -E só então, com a voz tremente, aflita, sentiu inteiro o meu horror: -Mas nós não nos tocámos. Não nos tocámos. Nem eu podia. Falei com ela de uma janela para outra janela, e os guardas passam de permeio. Os guardas não entram lá dentro. Os guardas também não entram lá dentro. ÄB"+ð ` „   ð ð ¨ ð `  ¨   < ð  A#O! ÿÿ"åæ Encostou o rosto ao meu, acariciou-mo: -Como tu és bom! Eu não sabia, mas, quando te vi, achei que eras o melhor, que havias de gostar de mim. Tu gostas de mim, não gostas? És o primeiro, tu foste o primeiro, eu não sabia nada, agora vou esquecer-me de tudo e só lembrar-me de ti. ÄB"` „ < ð < Ì ô Ð ð  < A#GNÿÿ"åæ Ficámos em silêncio, ela a acariciar-me o rosto e o peito e o ventre. ÄB"¨ ` ˆ A#ÿÿ"åæ -Ouve, leva-me daqui. ÄB" A#%t{ÿÿ"åæ Não respondi, na imobilidade que era tumulto físico, sem palavras, dentro de um vácuo em que eu flutuava à deriva. ÄB" ð Ì ð  A#g|ƒÿÿ"åæ -Eu sei que tu não podes levar-me -e a voz, agora, não era infantil, mas segura, límpida, e adulta. -Eu sei que tu não podes. Mas diz que vais levar-me, que não te esqueces de mim. Eu não te pergunto nada. Nunca pergunto nada a ninguém. Não se deve perguntar. Os homens dizem o que querem dizer. Mas, contigo, eu não precisava perguntar. Eu sei tudo, não preciso perguntar nada. ÄB"#`  „ ¨  „ ¨  Ì ð  „ Ì ` A#eryÿÿ"åæ Um desejo abrupto, repentino, instantâneo, me percorreu o corpo todo até aos dentes cerrados, e foi num assalto brutal, violento, que a mordia e apertava, a torcia, a apunhalava no mais íntimo da carne, que a possuí de novo, e ela debatia-se e abraçava-me e uivava um uivo longo, ondulado, lamentoso, que se extinguia numa indistinta súplica: -Mais... mais... mais ... ÄB"# Ì „ Ì < ð Ì „ ` ð Ì ô ð d A#>ÕÜÿÿ"åæ Acordei estonteado, com pancadas numa porta que havia entre duas janelas gradeadas. O sol entrava no quarto, pelo quadriculado fosco dos vidros. As pancadas repetiam-se, e uma voz dizia: -Então? Abre essa porta. ÄB"<     ¬  „ A#æí&ÿÿ"åæ A meu lado, ela dormia profundamente, como um corpo esquartejado. Pernas abertas, sexo hiante, cabeça caída, cabelos esparsos, seios afastados, ventre retraído e desviscerado, e, no entanto, no respirar pausado e quase imperceptível, havia uma confiança imensa, a mesma que, afinal, lhe despedaçava, sem resguardo algum, o corpo todo. Aos pés da cama, estava dobrada uma colcha. Desdobrei-a e lancei-a sobre ela. E fui abrir a porta. O Bravo entrou, empurrou, para fora dois vultos que espreitavam, e fechou a porta. Estava vestido e pronto, de boné na cabeça. Olhou para ela que continuava a dormir, olhou para mim, sorriu levemente, e disse: -Que cara! Foi noite de núpcias? -E foi sentar-se na borda da cama, tornando a olhar, por cima do ombro, o corpo que mal avultava sob a colcha, e, estendendo o braço, apagou o candeeirinho. Depois, com os braços pousados nos joelhos, esfregou, num leve espreguiçar, as mãos uma na outra, levantou os olhos para mim, e disse: -Com que então é casamento? ÄB"_ ð  ¨ < ð ð Ì ` „  ð  ¬ ð Ì ð Ð < < ¨  „ ¨ < ð „ Ì ð <  ô ô ˆ Ì  ð Ô A# ÿÿ"åæ -E tu? ÄB"ü A#;ËÒÿÿ"åæ -Eu não tive trabalho nenhum. Pus as duas em competição –e, franzindo um sobrolho enjoado, calou-se por momentos. Levantou-se. -São mais que horas. Lava-te e veste-te. Vamos embora, são mais que horas. ÄB"  ô ô Ì „ Ì @ A#ckrÿÿ"åæ Eu fui ao lavatório, onde estava ainda a água em que ela lavara a cara, despejei a água para o balde, deitei do jarro outra. Lavei a minha cara. Depois, fui buscar ao bolso das calças o frasquinho de sabão líquido, que era distribuído a todos nós, deitei cautelosamente água num bidé de folha, ao lado do lavatório, e comecei a lavar-me com o cuidado prescrito. ÄB"#„ ¨  ð ¨ Ì  „ ` ¨     Œ A#U\ÿÿ"åæ O Bravo, de pé em frente de mim, disse: -Só agora pela manhã, há-de adiantar muito. ÄB"Ì ¨  A#o›¢ÿÿ"åæ Eu não respondi, nem o olhei; acabei de lavar-me, limpei-me, enfiei rapidamente as calças, procurei as meias, que estavam caídas no chão aos pés da cama, e calcei-as sem me sentar nela, encostado à porta. Depois, forcei os sapatos e calcei-os sem os desatacar. Tapei o frasquinho que estava no chão, ao lado do bidé, e guardei-o no bolso. Enfiei o casaco da farda, e fiquei hesitante, com os gestos suspensos. ÄB"& ¬   ¨ ð  ¨ ¨  Ì < „ ¨ „ A#6=ÿÿ"åæ -Deixa o dinheiro em cima da mesinha -disse o Bravo. ÄB"ð ` A#J  ÿÿ"åæ Puxei da carteira, tirei umas notas, pousei-as na mesinha. Peguei no boné, encostámos a porta, saímos ambos para o corredor, que estava vazio, e onde o sol, entrando pela porta entreaberta, fazia no mosaico um risco de luz que se quebrava para subir na parede. ÄB" ð ð ¨  „ Ì Ì „   A#T[ÿÿ"åæ Na rua, em frente da porta, levantei a cabeça e olhei o número. Era trinta e sete. ÄB"Ì Ì Ì A#5<ÿÿ"åæ O Bravo disse, com ironia seca: -Vais escrever-lhe? ÄB"„ ¨ A# ÿÿ"åæ ÄB" A#3ª±ÿÿ"åæ Descemos a rua que, na esquina, vi chamar-se «de las Dueñas». Procurei, no bolso do dólman, o papel. «Calee de las Dueñas, 37» era a terceira morada que nos haviam dado.ÄB"  Ì  ô <  ° A#PWÿÿ"åæ Eu perguntei: - Ouviste, lá em cima, no Parador, aquela conversa da leprosaria?ÄB"Ì Ì < A#JQÿÿ"åæ O meu camarada olhou para mim, desviou o olhar, fez que sim com a cabeça.ÄB"„  d A#V]ÿÿ"åæ - Os pais dela estão lá. O avô foi fuzilado. E o pequeno que nos chamou é irmão dela.ÄB"¨  ð A#Aâé ÿÿ"åæ O meu camarada continuou a nadar a meu lado, deu um pontapé numa caixa de fósforos que estava no meio da rua, tornou a dar um pontapé na caixa que caíra mais adiante, e disse, sem me olhar: - Pois é, e depois «Arriba España».ÄB"¨ ` ô Ì < ¨  „ @ A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ VÄB"$ A# ÿÿ"åæ ÄB" A#šFMÿÿ"åæ Quando chegámos ao cais, já perplexos de não vermos, entre os armazéns, os mastros do navio, o mar brilhava prateado ao sol da manhã, que reverberava nas ferragens dispersas. E não havia sinal de navio. Entreolhámo-nos, e eu disse: É que foi para a doca, eles levavam-no para a doca, se a reparação não pudesse ser feita aqui. -Um homem fardado, e de alpargatas, corria para nós, gesticulando. O navio tinha ido para a doca, e a doca era ali perto, saíamos do cais, seguíamos a avenida pelo lado de fora dos armazéns, não víamos nós, além, entre os edifícios, os mastros, era ali. ÄB"7Ì `  `  „ ð ð ¨ ð ` Ì ¬ ð Ì  Ì  „ ¨ ¨ ´ A#÷ºÁ$ÿÿ"åæ O navio estava atracado na doca e, à excepção da sentinela ao portaló, que nos piscou o olho, não se via ninguém. Descemos à enfermaria, para cumprir o ritual da inscrição no livro. Não havia lá pessoa alguma. Estava determinado, para controle das doenças venéreas, que aquela inscrição se fizesse mencionando data e a hora (aproximada) das cópulas. Isto dava margem, quando o navio se demorava num porto, ao mais descarado exibicionismo, sobretudo da parte dos cadetes, sabedores que o oficial-director tinha para si, como elemento altamente significativo para a classificação, o número de inscrições. E, é claro, as inscrições multiplicavam-se, embora se soubesse que ele as conferia por inquéritos oblíquos, com gargalhadinhas: -E foi? Estavas com ele? Foi para o quarto? -num gozo em que bebia as palavras dos inquiridos que aproveitavam a oportunidade para se vingarem dos que detestavam, lançando dúvidas sobre a veracidade das inscrições deles. ÄB"ZÌ ô  „ ¬ ¨  Ì ` Ð Ð Ð „ „ ¨ ð d Ì ð ð  ð ð ¨ ð  <  ð Ì „   ð ¨  A#r¥¬ÿÿ"åæ O Bravo, inscrevendo-se, observou: -Este livro está incompleto, tem colunas a menos. Deviam perguntar mais coisas. As posições, as variantes, etc. Para o «tenente» (era só como nos referíamos ao oficial-director) -era uma consolação. Já não tinha que puxar tanto pela cabeça, quando se fecha no camarote a batê-las por nossa conta. -Para ele era ponto assente esta explicação da vigilância a que o livro estava sujeito. ÄB"(` ¨ „ ð <  ¨ Ô ¨ ð `  „ Ì   A#x¾Å8ÿÿ"åæ Fomos depois tomar banho. Debaixo dos chuveiros, estavam dois dos nossos camaradas, lavando-se demoradamente, todos ensaboados, que logo nos festejaram com exclamações, perguntas, relatos minuciosos. Eu não encontrava nada que pudesse dizer, e começava a irritar-me com a reciprocidade que eles me exigiam. O Bravo interveio: -Vocês nem imaginam. Basta olharem-lhe para a cara. O quarto dele era ao lado do meu, e foi toda a noite um inferno, parecia que havia lá dentro uma matilha de cães aos pinotes, uivando como uns danados. -Eles riram. Viemos os cinco vestir-nos no dormitório, atravessando o refeitório, onde agora estavam sentados outros dois, um dos quais era aquele que detestávamos. Eu e o Bravo não lhe respondemos, nem o fitámos, quando ele nos gritou: -Bom dia. -Vestimo-nos, conversando vagamente uns com os outros, e eu fui para o refeitório e sentei-me na outra mesa corrida. Eram duas, uma de cada lado do compartimento que ia de um bordo a outro do navio estreito. Os outros dois vieram, e um sentou-se ao pé de mim, à mesa posta; o outro foi sentar-se com os outros dois, a conversar com eles. O Bravo entrou, parou adiante da porta, e olhou para os três. Aquele que detestávamos levantou a cabeça e eu fiquei, sem que o que estava a meu lado notasse, a olhar para ele e para o Bravo, alternadamente. O Bravo contraiu os ombros, a espreguiçar-se, disse: -Então, bom dia -e veio sentar-se na minha mesa. O despenseiro entrou, com a terrina da sopa. ÄB"Œ„  < ô Ð ` Ì ˆ  „ Ì „ Ì ¨ ¨ ¨ ¨  ¨  ð  ¨   Ì ¨ ¨ < d „ ð ð < ¨ ¨  „ Ì  ¨ ð Ì „ ` <  ô Ì    < ¨ „ d A#É ÿÿ"åæ O que se sentara ao pé de mim, enquanto comia a sopa, curvado sobre o prato e sorvendo as colheradas, contou que não estava quase ninguém, porque o almoço era livre, logo pela manhã tinha sido anunciado que os oficiais, mas só eles, teriam um almoço, e podíamos fazer o que quiséssemos o dia todo, a partida era às cinco horas da tarde, a reparação tinha acabado ainda de noite, quando ele voltara estavam a trabalhar, e a partida seria mesmo ali da doca, o navio não iria atracar, primeiro, no cais principal. Eu manifestei o meu espanto por ele saber tanta coisa, estar tão bem informado. Não estava, não senhor, reiterou inquieto. Umas coisas ele mesmo as tinha visto, e o resto eu próprio podia ler na «ordem» que estava afixada atrás de mim. Voltei-me, era verdade. ÄB"I„ Ì < < Ì ð ð ô     ` < ð ð ¨ Ì ô ð ð  ð „ „  ¨ ð  D A#ÙAHÿÿ"åæ Acabámos de almoçar, e saímos os seis. Estava calor, o sol dardejava esbranquiçado. Eu ia ensonado, seguia a contragosto, e furioso, no extremo do grupo em que os outros me arrastavam, porque não aceitava a presença daquele tipo miserável que ainda na véspera nos insultara com insinuações torpes. A minha fúria aumentava por eu ver que o Bravo não o repelia, antes conversava risonhamente com ele. E o outro correspondia pressuroso, procurando nitidamente conquistar-lhe a confiança, insinuar-se, e, ao que eu ouvia a espaços, fazendo-se muito íntimo, como quem se abre, inocente, por impulso de simpatia. A certa altura, parei, declarei categoricamente que tinha sono, voltava para bordo. O Bravo parou, afundou as mãos nos bolsos das calças, o que era contra as regras do aprumo, e perguntou: -Não te vais despedir da tua noiva? ÄB"N ð Ì ô ¨ ¨ ð < ¨ Ð „ ô ¨ ¨ Ì Ì  ð  <  Ì ð < „ Ì ð ð < ð ð A#}ÓÚ8ÿÿ"åæ Respondi com um palavrão, virei-lhes as costas, todos riam, e voltei para bordo. Despi-me, subi para o meu beliche, e deitei-me. Iria, não iria? A imagem do padre, no parapeito do «parador», interpunha-se à imagem de um vulto indistinto sob uma colcha que me apetecia levantar para contemplá-lo ainda. Os pais dela estavam lá; arrepios me percorriam, e, numa angústia infantil, sentava-me de cabeça baixa, porque o tecto não permitia que eu a levantasse, e olhava o meu corpo todo, à procura de uma mancha, uma malha suspeita. Ria-me então de mim mesmo, deitava-me, e espreguiçava-me num orgulho que me inundava de palpitações. E novamente a colcha de que emergiam cabelos confusos me aparecia, e eu tremia de desejo e da indignação que me causava uma história, cujos pormenores a memória, abrigando-se no sono, enleava e suspendia, e logo a indignação era porque o Bravo se rira de mim, ao lado daquele canalha, daquele filho da puta, um espião que nos denunciava a toda a hora e que não perdera ocasião de lançar sobre nós uma suspeita política que ele sabia plausível. O orgulho, a alegria, uma sensação de força reapareciam. A penumbra dourava-se, ensombrava-se, e vagos reflexos dançavam no tecto adiante da minha cabeça. Acordei sobressaltado, com um dos meus camaradas a sacudir-me: -Anda, já estamos formados, a gente procurou-te por toda a parte. -E, enquanto eu descia, já ele, numa precipitação, me ajudava a enfiar as calças, me dava os sapatos, e saía a correr à minha frente. ÄB"Œ„ Ì ¨ „ Ì ð ¨ ð `  ¨ Ì Ì ¨ Ì Ì  Ì `  Ð Ì ˆ ¨   ¨  ð ` ð ð ¨  ð ð ð   < `  ð ¨   „ ð  ð  Ð ¨ ð ¨ ø A#<ÏÖÿÿ"åæ Quando emergi da escotilha, fiquei estonteado com a claridade, e parei vacilante. Mas subi, por entre pessoas que não distingui, ao tombadilho, onde os meus camaradas estavam formados, e tomei o meu lugar. ÄB"Ì <  Ì ô `  ¬ A#SZ=ÿÿ"åæ Tudo estava a postos para a partida. No portaló, os cumprimentos e os apitos da ordenança eram já os últimos. De onde eu estava, dominava-se uma boa parte do cais da doca. No cais, havia um magote de fardas e sotainas pretas, que já acenavam com os braços e os chapéus, e não se via mais ninguém. A manobra começou, do navio atiravam para o cais os cabos de terra, e os armazéns por trás do grupo de sotainas e fardas afastaram-se ligeiramente. O comandante, atrás de nós, circulava silencioso, entre os oficiais que atentamente dirigiam a faina. Eu sentia uma agonia comovida que não se identificava com coisa alguma, pessoa alguma, e que era mesmo, contraditoriamente, uma sensação de alívio apenas perturbado pelos passos do comandante. A meu lado, quando o grupo negro e amarelo ia sendo encoberto pela amurada, e a esquina dos armazéns era outra empena, alguém me acotovelou. Olhei de esguelha, era o Bravo que, com o queixo, me apontava a empena do armazém. Rente à esquina, uma figurinha de azul com outra esbranquiçada ao lado, mais pequena, que lhe dava a mão, dizia adeus com um lenço. Eu não podia corresponder, sentia as mãos presas na posição de sentido. E apenas levantei a cabeça para trás, de olhos fechados, demoradamente, abaixando-a e levantando-a, num adeus que não era despedida, enquanto sentia que fungava. Abri os olhos que me ardiam nos cantos, e a empena, já muito distante, começava a ser coberta pela esquina de um outro armazém fronteiro. As duas figurinhas mal se distinguiam da parede em que se ocultavam. Acima delas, sozinho, em voos largos, o que devia ser um lenço ainda se agitava. ÄB"™Ì < Ì  ˆ ð ð ô < Ì ¨ Ì  <  d ð „ Ì Ì Ì Ì „ ð  h < „ ¨ <  ¨  ¨ Ì  Ì ¨ „ ð ¨ Ì ¨ ð  ¨  ð Ì Ì Ì < ð ` ¨ Ì  ð ¨ ¨ ð  ° A#‹ ÿÿ"åæ Apitou a destroçar, e eu avancei para a amurada. Alguém me pousou a mão no ombro, quando eu, absorto, nem olhava já para terra, e fitava a água deslizante em que iam cascas de laranja, papéis vindos não se sabia de onde. Não levantei logo a cabeça. -Era mesmo casamento, hem? -Desencostei-me da amurada em que mantive as mãos, e olhei então para o Bravo. Dentro de mim, pairava uma espécie de sorriso; e respondi: -Não, não era. Ele retirou a mão, olhou para mim, assobiou ciciadamente entre os lábios, e não disse nada. ÄB"2` < „ ¨ Ì Ì ¨  „  < „ ¨  „ ð „ ¨ ð Ø A#”/6;ÿÿ"åæ Nessa noite, navegávamos num mar calmíssimo, leitoso, de que parecia que névoas se levantavam, e o horizonte ao longe, sem estar coberto, era sombrio. As águas que o navio cortava ondulavam lentas, afastando-se em espelhamentos súbitos, sem brilho. Subi à proa, onde alguns camaradas meus, sentados entre as correntes, o cordame, ou deitados na rede do gurupés, conversavam com os marinheiros de vigia. Eram conversas que ora saltavam de grupo em grupo, ora se fechavam num círculo de vozes pastosas, murmuradas. Sentado no gurupés, eu olhava o horizonte e trocava umas palavras raras com os que estavam mais perto de mim, alguns sob os meus pés, na rede. Uma leve risada fez-me voltar a cabeça. Encostados à amurada, dois vultos contavam um ao outro anedotas, porque alternadamente cada um deles começava a rir. O Bravo e o nosso camarada detestado contavam anedotas um ao outro. Depois, balanceando o corpo, afastaram-se, desceram a escada, e eu, levantando-me, vi-os seguirem pelo convés fora. Tornei a sentar-me, e fiquei olhando o mar, sem vê-lo. E, de repente, levantei-me, andei por entre OS grupos, contei os meus camaradas. Todos, menos eles dois, estavam ali. Eu não pensava nada, mas percorri novamente os grupos, e descobri aquele que fora também comigo à Calle de las Dueiias. Chamei-o, e com ele veio outro. Desci rapidamente a escada, eles acompanhavam-me sem entenderem, e nem eu sabia porque os trazia comigo. Enfiei pela nossa escotilha abaixo, e atravessei o refeitório, que estava às escuras, em direcção ao dormitório iluminado, de onde vinham gritos abafados. ÄB"”ð Ì „ ð   „  Ì Ì < ` ð ˆ ¨     < ` „ ¨ ¨ ð   ð ð Ì ` < ð    ¨  ô Ì Ì „  `  ¨ ð ð  ø ¬ ¨ ` Ì  „ <  ` A#5<(ÿÿ"åæ Precipitámo-nos os três para os dois corpos sobrepostos que se agitavam atravessados na banqueta corrida a meio do dormitório. Lutámos para dominar o Bravo, arquejante, com espuma nos lábios, de sexo em riste, que se debatia rugindo ainda entre os dentes cerrados: -Seu leproso, seu filho da puta, quem é que é comunista? Hei-de rebentar-te. Hei-de rebentar-te. -O outro, com as calças deitadas abaixo e enrodilhadas nos pés, as mãos amarradas com um cinto atrás das costas, ficou dobrado na banqueta, torcendo-se, escorregando, e soltava roncos inarticulados. Enquanto eu e o que se juntara sem ser chamado continuávamos a segurar o Bravo que agora só arquejava encostado aos beliches, e passava a mão pela testa, o outro dos meus camaradas voltou o que estava deitado, ajudou-o a levantar-se. Tinha um lenço metido na boca, estava roxo, e vomitou quando lho tiraram. Mas, no mesmo instante, o que o ajudara fazia-o, com um empurrão, cair sentado na banqueta, e punha-lhe no pescoço a ponta de uma navalha de mola: -Nem uma palavra disto. Ou juro que te vi andar atrás dele. ÄB"dð ¨ ð  ` ð „   Ì Ì d ¬  `  ð ð  < ô  < „ ð „ Ì ` ð  `  ¨ „ „ Ì ð ð ¨ ð A#SZÿÿ"åæ Eu e o outro, o que se juntara a nós, arrastámos o Bravo para fora do dormitório, e ele deixou-se conduzir pela escada. À boca da escotilha soltou-se de nós, mas parou a guardar o sexo e a abotoar-se, não tinha os botões todos, reclamou o cinto. -Deixa lá o cinto -disse eu. E viemos encostar-nos os três à amurada, em silêncio, imóveis. Assim ficámos até que uma voz rachada sibilou nas nossas costas: -Cadetes é para vante do mastro grande -e voltámo-nos a tempo de ver o dorso recurvado e branco do nosso comandante que passara. Fomos caminhando em direcção à proa. O sino de bordo badalou. ÄB": Ì ˆ Ì ð „ ¨ `   „  ô ¨ Ì  Ì    ð <  D A#<Cÿÿ"åæ O terceiro de nós, então, disse: -Que raio de ideia a tua! ÄB"„ Ì ´ A#4­´ÿÿ"åæ O Bravo, que ia no meio, parou, deu um pontapé numa caixinha imaginária. -Eu tinha jurado que havia de rebentar com ele, e que depois ia inscrever no livro o dia e a hora. ÄB"` ¨ ` „ < ð @ A# ÿÿ"åæ -Mas porquê?! ÄB"ø A#bhoÿÿ"åæ O Bravo deu-me uma cotovelada: -Este é dos que ainda pef1:untam porquê! -e fez uma pausa. -Olhem, querem vocês saber uma coisa? A gente entrou em Las Palmas embandeirado a roupa lavada, não foi? Mas com as vassouras é que devia ter sido. -Riu-se, e agora era só para mim que falava: -Aquelas duas tanto se fartaram de me chupar que nem me vieram dizer adeus. ÄB"#ˆ Ì Ì  ` ¨ ð  ô ð  < ` Ô A#Aâé ÿÿ"åæ Senti um baque surdo dentro de mim. Endireitei-me, respirei fundo, um bem-estar me invadia em que uma dor finíssima vinha como claridade muito diminuta. Aproximei-me da amurada, e perguntei: -Para que lado estará Las Palmas? ÄB"Ì  ð „ Ð „ ¨ „ ¬ A#ELÿÿ"åæ E, apontando direcções diversas, os três ficámos discutindo o rumo. ÄB" „ ¬ A# ÿÿ"åæ ÄB" A##ÿÿ"åæ Assis, São Paulo, 16/5/61. ÄB"Ì A# ÿÿ"åæ åæÄB" ‚ ‚