{\pwi, TahomaCourier New/=  =@F  ## ##l#######"######## ##### ####"w#<S#!## ##,###6## 4#a #X? ## ####e ##O #!#10########## ##$#0###n#f#d # #D1#*#&##o#$### @#S# ###9###1#I# # # K#3d#K##=f##### ###,###2#:#-## #########.## ?##5#m####,##<[##8##K#2(###U# A####J#### #7#####%#.#I#/#%#;4###A# " A Ilha AzulB"  A# " B" A# " Raul BrandoB"  A# " B" A##ls" A Ilha Azul, O Pico, e A Pesca da Baleia, aqui publicados, foram extrados do livro As Ilhas Desconhecidas.B" `   d  A# " B" A#$" 1996, Parque EXPO 98. S.A.B" A# " B" A# " ISBN 972-8127-55-3B" A# " Lisboa, Novembro de 1996B"` A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A#  " B"$ A# " B" A# " B" A# " B" A# " A ILHA AZULB"  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " 16 de JulhoB"  A# " B" A# " A Cidade da HortaB"d A# " B" A#w~"" J vejo a Horta ao fundo da baa limitada por dois morros, Monte Queimado numa extremidade e na outra o Monte da Espelamaca. uma cidade de uma s rua, como eles dizem, a branco e cinzento. Alguns conventos, algumas igrejas pesadas, velhas e simpticas casas de provncia com varandas de madeira e reixas: s vezes na varanda um postiguinho para a mulher falar ao namoro acocorada no cho. -Cheguei-me ao ralo -dizem as meninas. Caladinhas desertas e ruas solitrias, atravessadas de quando em quando por um meteoro loiro: so as raparigas americanas do cabo, a galope de cavalo, com os cabelos ao vento. Onde a onde um solar de provncia com o granel ao lado. uma terra de gente ilustrada e hospitaleira. Em frente da Horta, o Pico formidvel... Do alto do Monte das Moas melhor se v a baa arredondada e o Monte Queimado que a separa de outra concha mais pequena o Porto Pim. B"U   `     `                       `    A#SZ<" O que d um grande carcter a esta terra o capote. A gente segue pelas ruas desertas, e, de quando em quando, irrompe duma porta um fantasma negro e disforme, de grande capuz pela cabea. So quase sempre as velhas que o usam, mas as raparigas, metidas na concha deste vesturio, que pouco varia de ilha para ilha, chegam a comunicar encanto ao capote monstruoso. um ser delicado e loiro e o contraste reala a figurinha que saltita em passo de ave condenada quele pesadelo, como certos bichos de aspecto estranho que trazem a carapaa s costas. Comeo a achar interesse a este fantstico negrume e resolvo que devia ser o nico trajo permitido s mulheres aorianas. sada da missa gosto de ver a fila de penitentes que se escoa pelas ruas... Tambm me explicam que uma coisa ao mesmo tempo monstruosa e cmoda: vai-se com ele pela manh missa, usam-no as velhas aferradas aos seus hbitos, e uma rapariga pode visitar uma amiga na intimidade, porque est sempre vestida: basta lan-lo sobre os ombros. Envolve todo o corpo, e, puxando o capuz para a frente, ningum a conhece. O que uma mulher que use o capote precisa, de andar muito bem calada, porque tapada, defendida e inexpugnvel, s pelos ps se distingue; pelo sapato e pela meia que se sabe se bonita a mulher que vai no capote. O capote herda-se, deixa-se em testamento e passa de mes para filhas. O capote numa casa serve s vezes para toda a famlia. Mulher que precisa de ir rua de repente, pega nele e sai como est. -Este j foi de minha av -diz-me uma rapariga. Era dum pano ingls escuro, dum pano magnfico que dura vidas. B" `       < <  `       <          `   `      `   `      <   `       `   @ A#!" A outra coisa que exerce aqui uma verdadeira fascinao o Pico -to longe que a luz o trespassa, to perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mgico de luz, um fantasma posto a de propsito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora est violeta, logo est rubro. A cada momento uma nova transformao. Todo o cu doirado e o Pico roxo. Tarde e a lua enorme a nascer por trs daquele paredo imenso que chega ao cu. majestoso e magntico. Est ali presente como um vagalho que vai desabar sobre o Faial. Esta noite um sonho: o cone muito ntido emerge de nuvens brancas que o rodeiam e parecem elev-lo num triunfo ao cu. s vezes, de Inverno, a neve brilha l no alto com reflexos de jias, outras so as nuvens que lhe do formas extraordinrias. Se eu vivesse aqui, queria uma casa e uma cama onde s visse o Pico. Ele enchia-me a vida. B"S      `   `  < @           <          A# " B" A# " 18 de JulhoB"  A#  " B"$ A#-," Do Cabeo Gordo v-se toda a ilha roda: os Flamengos no interior, e no litoral Praia do Almoxarife, Pedro Miguel, Ribeirinha, o Salo -celeiro da ilha dividido em retalhos de cores -Cedros, Praia do Norte, Capelo, Castelo Branco, Feteira, todas entre chs de centeio e trigo e farrapos esverdeados de milho. A propriedade est muito dividida e quase toda nas mos de remediados. O dinheiro da Amrica tornou estes homens independentes. A propriedade avalia-se por alqueires de terra -duzentas braas quadradas -produzindo, em mdia, cada uma trinta alqueires de cereal. A casinha limpa e aconchegada tem ao p a eira redonda de terra calcada, com pedregulhos de lava a circund-la para o gro no poder fugir; o eirado da cisterna, com o bocal por onde se tira a gua sempre caiado de fresco, e a casa de palha colmada para guardar o carro, os arados e s vezes tambm os bois. A terra d-lhes a bananeira, o anans, a laranja, o ch, e produes sucessivas de batatas; nas encostas algum vinho, nos vales trigo e milho. O campo, dum verde sossegado, claro e muito calmo, dividido em lavouras e pastagens, mas o homem do Faial muito mais lavrador do que pastor. B"n          <                `      <   <  `  `     A#" Vejo passar nas estradas esta gente afadigada, as raparigas com a lata do leite, os homens que regressam do trabalho de chapu de aba larga, jaleco e varapau, as moas que vm da fonte, vestidas, principalmente no Capelo e na Praia do Norte, com uma saia de l que elas prprias fabricam, de barras roxas, verdes ou vermelhas, casaquinho curto, leno na cabea e chapu de palha, de copa muito pequena e aba muito larga, afitado de preto. s vezes partem um cntaro e exclamam: -Mgoas tamanhas!...B"0  < <   <        ` <     A#" Riem to felizes e discretas como o campo, que meigo. Todos estes retalhos so encantadores com as rvores em mancha, o poo e a casinha. a terra dividida, a terra cultivada com amor pelo pequeno proprietrio que a ganhou com o suor do seu rosto e a disps sua feio, pequenina e ajeitada. No s a luz que lhe d esta cor o trabalho compensado - cada um no seu bocado de terra bem unido a si, o bocado para que se deita o primeiro olhar ao amanhecer e o ltimo, de despedida, ao ir para a cama quando tudo est regado, sachado e farto. Mas tambm a luz valoriza a paisagem, a luz que torna a paisagem delicada, plida, um pouco triste e sem nervos. O carcter de todo este verde, sempre verde, que adormece molhado, a mansido e a serenidade. B"I  `          <   `  `  `   `        A#p6" Vou pela estradinha entre abrigos de faias e moutas de incensos muito verdes, at freguesia dos Flamengos, junto a uma pontezinha de lava, sobre a ribeira da Conceio. O fio de gua corre l em baixo pelos rodilhes de hidrngeas. uma terra de lavadeiras, que encontro no caminho com cestos de carga cabea, cheios de roupa. Mesmo as casinhas pobres tm persianas e um ar de intimidade e conforto. Alguns moinhos holandeses batem as asas nas colinas. O fumo que sai das cozinhas cheira a incenso. Esta paisagem repousa como um banho morno. Nos campos, os bois deitados na erva olham para a gente, deixando os estorninhos que lhes pousam nas cabeorras catar-lhes a mosca. Satisfeitos e calmos no bolem -engordam. Aqui no h pardais, mas o estorninho faz com muita competncia o papel do pardal. Pousa nos telhados e anda no campo familiarizado com o lavrador. Outras aves alegram as culturas que descem at ao mar - o pombo-bravo, o torcaz e o pombo da rocha, mais pequeno, ambos eles cinzentos, o canrio, o tentilho, o melro preto, o pintassilgo, a vinagreira e a lavandeira, que cobriu as pegadas de Nossa Senhora. A ave negreira, a que o povo chama vinagreira e o pssaro mais pequeno da ilha, canta como um rouxinol. Difere da toutinegra, que tem poupinha preta, em ser escura at ao meio do corpo. Dizem os rapazes, que, quando a toutinegra, que em geral pe seis ovos, chega aos sete, do ltimo sai sempre ave negreira. B"   `  ` ` <   <    < `               `     `  <        <         h A# " B" A#U4; " Isto j foi muito mais animado e rico. Tudo volta da Horta e dos Flamengos eram casas, quintas cheias de laranjais, de plantas e flores, a quinta de S. Loureno, a quinta da Silveira, a quinta dos Dabney, depois abandonados quando a Inglaterra deixou de comprar os frutos no Faial indo busc-los ao Cabo. B"   ` <       ` A# # a" Entro ao acaso nalguns destes jardins. Primeiro no do Pilar, erguido ao alto pelo monte, terrao maravilhoso donde se apanha toda a luz do mundo. Jardim ao abandono, com grandes faias de Holanda, to unidas que ao princpio da tarde j noite fechada debaixo delas. daqui que eu gosto de ver as cores que toma o Pico. Espero. noite quase. Tudo desfalece em violeta, o semicrculo perfeito da baa, a sombra do pico l no fundo e, por trs da cidade plida as colinas dum verde-escuro recortadas no cu doirado. No terrao as hortnsias desfalecem ao mesmo tempo que a paisagem em volta desfalece. A tarde morre numa tinta to melanclica que a custo no grito para me deixarem s. um desmaio de tintas apagadas, de escurido que no ainda escurido, de roxo que a toda a hora se transforma e transe. O vale dos Flamengos adormece em bruma e o Pico no sai dali, como um grande fantasma minha espera. As cores da terra e do cu entranham-se umas nas outras em tons delicados que vo fundir-se em roxo escuro, mas que se aguentam diante de mim um momento nico, plidas e exangues, sufocadas ... Depois vou a uma casa abandonada, a um jardim ao abandono no Monte Queimado. Nos buracos dos muros crescem parietrias, uma raiz levantou a soleira da porta... O que me interessa nos jardins selvagens a atitude que tomam as rvores solta, o drama secreto, mas feroz, que se passa entre meia dzia de troncos crescendo em liberdade. Por fim, entro noutro, muito diferente, nos Flamengos. um velho jardim com ruas de enormes japoneiras. Os troncos torcidos pela poda, as pequenas folhas acamadas, formam sebes impenetrveis e espessas. Est um dia sem sol e o calor surdo pesa mais neste silncio entranhado entre as rvores metlicas e tristes. No fundo da rua principal fica um pavilho abandonado. Isto pertenceu talvez a um poeta ou a um contemplativo. O pavilho cai, nos muros muito altos a hera corre em desalinho. Das ruazinhas sempre fechadas e que tomam direces imprevistas, sai um cheirinho a humidade e sepulcro. Enegrece mais a luz subterrnea e verde que s entra pelos interstcios das folhas sem transparncia. Este homem de quem no sei o nome e que delineou os caminhos, as rotundas, as salas fechadas de sombra e flor, no consentiu no jardim seno camlias. Baniu daqui todas as outras flores. Camlias e sombra por toda a parte, camlias admirveis, brancas, vermelhas, rseas, flores geladas que amarelecem e de que as rvores se despojam devagarinho. Ergueu mais alto os muros, para que s a sombra se ceve nesta carne fria -de mortas, sem expresso. B" <           `       `  `              <    ` <              `           `                     <            A#X? F X" Este foi o sonho dum homem original... Querem-me dizer o nome, mas eu no quero saber-lhe o nome. Foi o sonho dum homem que passou a vida a plantar camlias, chegando a obter camlias com cheiro enxertadas em magnlias. Terminada a sua obra, morreu. A casa passou para outras mos, as japoneiras, na humidade da ilha, cresceram e atingiram propores desmedidas. Se as deixassem cobriam a casa, as mas, o cu. A falta do dono sente-se no desalinho, nas ervas, no musgo que invadiu o jardim, na melancolia das coisas solitrias. Mas eu gosto mais disto assim... Palpo a fragilidade dos nossos actos, sinto a tristeza da vida efmera, parece-me que todo este jardim de camlias se transformou num cemitrio de camlias onde se enterrou o sonho do poeta. O que me vale que saio e dou logo com o Pico, que eterno. Encontro-o sempre: ao voltar duma esquina, ao sair de casa, ao saltar da cama. Hoje decidiu morrer em violeta, mas, antes de morrer, passa por todos os tons do violeta. Desfalece e por fim envolve-se numa nuvem para o no vermos exalar o ltimo suspiro. Desconfio que foi posto ali de propsito e distncia para nos atrair e encantar. Nas noites de luar um fantasma branco e imvel. A gente espera que ele se mexa. Nas noites negras um fantasma negro e trgico que vai pregar na escurido. Passo dias a olhar para ele. No dia 19 est escondido por uma nuvem -por a nuvem -que lentamente se descerra, como a cortina dum altar onde se celebra todos os dias um mistrio. No dia 26 tarde corta-o a nuvem cinzenta pelo meio... Devo explicar que todas estas ilhas tm uma nuvem sua, uma nuvem prpria, independentemente das outras nuvens e do cu, e com uma vida parte no universo. Pode, por exemplo, estar o vento que estiver, vento que arraste todos os farrapos do ar, que a nuvem l est presente tomando vrias formas e feitios. Hoje branca e pequena. tarde muda de aspecto, ao mesmo tempo que o Pico muda de cor. No sei que posio toma a nuvem, que em cima fica azul e na base doirada. Espero a hora de assombro em que esta montanha enorme emerge toda vermelha do mar verde, num cu que empalidece e com a nuvem cor-de-rosa agarrada a um dos flancos. um espectculo extraordinrio delicado e extraordinrio: a vida da nuvem e a cor da montanha. Na base manchas roxas -verdura de pinhais, e no alto o barrete aguado at extremidade. B"       `   <        `    `         `              <    `        `         < < `               `     A# " B" A# " 24 de JulhoB"  A#  " B"$ A#" Sigo pela estrada, quase sempre beira-mar, que d volta ilha. No automvel tudo desfila como no cin: -Feteira e o seu branco campanrio, as tamargueiras beira do caminho, os campos de milho entre canaviais, e logo as casinhas de Castelo Branco... Quero, mas no posso, fixar um quadrinho que mal distingo: um homem de grandes barbas brancas, guiando duas juntas de bois que calcam o trigo no eirado, e ao p dele duas raparigas que riem s gargalhadas. S me fica a impresso alegre dos olhos e a boca do velho -e tudo desaparece na vertigem. Hortnsias, figueiras, um ou outro castanheiro -e ao fundo j avana para mim um grande monte -Capelo. Hoje, neste dia turvo as hortnsias parecem mais azuis e mais frescas. B"F`    <     `   <             <   D A#" uma estrada de sonho entre sebes interminveis. E o automvel corre... Dum lado j surge um grande monte escuro, Cabeo Verde, povoado na base, do outro o morro de Castelo Branco entrando no mar. Atravesso a cinza dos mistrios, sempre por entre alas de hortnsias cada vez mais azuis. O homem que teve a ideia de bordar as estradas com estas plantas devia ter uma esttua na ilha. Em nenhum outro lugar elas prosperam melhor: querem luz velada, humidade e calor -esto no seu meio. O seu azul o azul esmaltado dos Aores nos dias lmpidos. Nos dias turvos substituem a cor do cu: so o azul desta terra enevoada e uma das suas maiores belezas. Imaginem o cinzento que se derrete e alastra e torna o cu mais escuro, a atmosfera mais hmida, e sob isto o azul cada vez mais azul, as molhadas de flores duma cor cada vez mais intensa e mais fresca. H-as por toda a parte: nas estradas formando alas e nos campos formando sebes; servindo para dividir os terrenos e de tapagem aos animais pacficos. Enchem a terra de exuberncia e de azul. E o automvel segue... Onde vo dar estas estradinhas, orladas de neves e por onde no passa ningum? Parecem caminhos de sonho, abertos para jardins encantados. O automvel voa e eu tenho diante de mim montes que se erguem doirados no fundo do horizonte: a vegetao nova do incenso que parece oiro. Desfilam os mistrios cinzentos entre hidrngeas aos montes, cada vez mais hidrngeas, cada vez mais azul entrando-me em jorros pelos olhos. Esta linda estrada do Capelo fica-me para sempre na retina com o alteroso Monte Verde e o Cabeo de Fogo, todo vermelho, ao lado, paisagem estranha de biombo japons, que se prolonga pela esplanada at Entre Cabeos. Na base do Cabeo Verde mostra-me uma fonte que s destila a custo um fio de gua, que nunca aumenta nem diminui. a Fonte dos Namorados. Aqui vm as raparigas encher os cntaros, porque os cntaros levam muito tempo a encher... Mas tudo desaparece. A fita trepida e desenrola-se sempre: Norte Pequeno, a povoao mais pobre da ilha, meia dzia de casebres colmados, e uma rocha enorme, o Costado da Nau, tomando todo o horizonte. L est no alto o poleiro da baleia e no fundo o farol esguio, sobre pedras vermelhas e romnticas formando arco. Todas as falsias da ilha so estranhas e ameaam desabar sobre as guas. Torres enormes destacam-se no mar, assaltadas pelas vagas, cujo estrondo mete medo. Rasgam-se cavernas nas paredes talhadas em fatias, dilaceradas e trgicas, com tons amarelos, acinzentados e negros, ou descendo com suavidade at ao mar em campos cultivados para logo adiante reaparecerem coluna tas, ogivas, entradas de templos monstruosos, penedos negros e corrodos, boqueires amarelados de pedra esponjosa. S os garajaus e os pombos brancos habitam estas arribas atormentadas... Mas o automvel segue a sua carreira e fica-me nos olhos o veludo da paisagem sob o cu pardo e uniforme, com aquele monte vermelho, ao fundo, que parece vomitar ainda fogo, e um bocado de mar dum violeta muito leve. Seis horas. Passamos a Praia do Norte e outra povoao de que no sei o nome, estonteada entre o azul das hidrngeas. As raparigas arrancam flores das sebes e atiram-nos com elas. Agora o automvel s pra um momento na Ribeira das Cabras, diante dum abismo cortado a pique, de quatrocentos metros de altura. H l em baixo um plaino roxo e verde, junto gua avermelhada, cuja cor se harmoniza com o negrume da pedra e o violeta dos montes. uma coisa parada, uma coisa assombrada, l para o fundo do despenhadeiro, que se espraia em mosto at ao Monte Verde, numa extenso de quilmetros e que me faz estacar de imprevisto pela irrealidade da situao e da cor e pela luz dum poente delicado que morre com uma doena violeta e verde, entre arabescos de oiro e farrapos plmbeos, magoado, fantstico e febril. A pedra requeimada reluz como ardsia ou absorve a claridade como pedra-pomes. A plancie roxa, com pinceladas mais escuras, acaba no mar e num fundo de nvoa roxa, e toda ela esmorece sob a abbada dorida e fantstica, traada de raios decorativos. B"| `  `          < <  `     `     `     `         <       <  `    ` ` <        <       `  <  `         <        `       <  `                 `              `  < `            `    `  A# e" Na ltima luz do dia surpreendo de corrida Cedros, Salo, as freguesias ricas da ilha, a Ribeirinha, outro aspecto da estrada sempre azul, cada vez mais azul, sob olaias, fechadas em cima com montes azuis riscados de sebes, ao longe. So enormes, so anainhas e toda a mouta s numa flor. So redondas e acocoradas; formam paredes e novelos. Irrompem por toda a parte e apanham-se s braadas. Entrevejo de relance a Praia do Almoxarife, muito branquinha ao p do mar. Mas de estonteado j no reparo seno no azul que me deslumbra, em todos os tons do azul que me entram pelos olhos, o azul ferrete das hortnsias -o azul que enche a terra e nunca mais acaba e que talvez o verdadeiro cu dos Aores. De comeo no distingo seno uma mancha e acabo por no distinguir seno uma mancha. Uma mancha e frescura. Uma impresso de volpia e frescura: tinta imvel e viva que me atrai. E logo depois da impresso do azul, a maior impresso a vida que nos envolve em silncio e que espera de ns no sei o qu e quer comunicar connosco. Como possvel extrair da terra seca este jorro que nunca mais acaba? Sob a pele que calcamos corre um rio azul inesgotvel, que ascende superfcie pelas hastes das plantas. Sinto-me tentado a esfuracar a crosta at encontrar a tinta, que deve formar o ncleo da ilha, e que logo, amanh, vai explodir pelos vulces, numa fantasmagoria de azul. Azul puro que se amontoa, sai aos jorros da terra, cerca-nos, espera-nos por todos os cantos. Afoga-nos por todos os lados... Eu disse puro, mas creio que me enganei: esta carne delicada exposta nas ribanceiras, nua atravs dos campos, crescendo solta pelos atalhos; esta carne que nos circunda e acaba por invadir a ilha e subir ao cu - voluptuosa e exige de ns deslumbramento e beijos -exige talvez um estupro... Ao mesmo tempo cansa-me... Um sentimento novo pouco e' pouco se insinua, deixando-me alheado e confuso. Fico surpreso com o azul e cinzento? Esperem, esperem... Vejam como esta luz humedecida e vaga se infiltra no azul e o derrete. Azul e cinzento confundem-se. s vezes as hidrngeas reaparecem e gotejam -ou o cinzento em gases to transparentes que deixam ver por trs um fantasma azul e imvel... De novo a paisagem molhada e triste volta e se queixa, para logo devagarinho se dissolver magoada. O que eu sinto afinal apreenso ou receio?... tristeza e cansao que me vm mais da exuberncia que da cinza desfolhada em silncio sobre todo este azul frgil. um sentimento que goteja como o orvalho e ao mesmo tempo me acalma. Falta-me no sei o qu mas to longnquo, to areo como a paisagem. tristeza -mas no chega a magoar-me: a cinza empoeira tambm os meus sentidos e converte-a logo em saudade. B"       `           `          `       <                   <        `   <   `  <                   `       `     A# " B" A#\O V " Ao outro dia atravesso de novo os Flamengos pela estrada municipal, entre casebres e rocas-de-hrcules de florao amarelada. A estrada sobe e do alto vejo melhor o cncavo recolhido e verde, Farrobo, Santo Amaro, o largo vale da Praia e Cho Frio, dividido em talhes de milho e centeio -nota de abundncia e de paz dum verde sempre fresco e vioso, sob cu esmaltado dos Aores. Mal reparo nas casotas de madeira com matas, sebes arruadas, arcos rsticos de rosinhas de toucar, onde os da Horta vo passar os dias no Vero, porque a estrada logo me assombra, toda azul ferrete. um muro, dum lado e de outro, de hidrngeas em flor, um muro que nos acompanha e nunca nos larga. s vezes rasga-se diante de mim a amplido iluminada pelo sol, mas os meus olhos j se no destacam da parede azul que desce do alto em borbotes. No h uma falha: esta mancha fofa, azul, esplndida, aperta-nos e segue-nos at ao Cabeo Gordo, que se avista entre bosques de pinheiros, de accias negras e incensos, subindo a novecentos e cinquenta metros de altura. Um tentilho canta. Responde-lhe outro entranhado na carne verde das rvores ou na carne azul das sebes. Calco o cho onde nascem morangos silvestres cujo aroma inebria, para contemplar o vale de terra gorda e hmida. Verde apagado, verde sempre verde, acabado de borrifar pela chuva coada, dividida em tomos to leves, que fazem parte do ar que se respira quadros atenuantes, passados pelo tempo ou surpreendidos de manh quando a paisagem acorda. Depois olho o extraordinrio Pico irrompendo de entre nuvens magnticas, que parecem iluminadas por uma luz forjada no seu seio. E entranho-me mais neste azul parado, sob o cu um momento azul e a luz azul. E isto no tem fim. So quilmetros de hortnsias carregadas de flor, onde apetece a gente entrar at acabar a estrada e acabar o mundo... Subo at ermida de S. Joo. O mato severo, encostas revestidas de mofedos, de junco de vassoura, de rapa, que d uma flor roxa, de trevo bravo, de rosmaninho cheio de bagas vermelhas... Tenho diante de mim, dum lado a cratera, com duas lguas de circunferncia e trezentos metros de fundo; do outro o amplo panorama -mar e terra, montes e vales -o mar e o Pico, um Pico estranho, suspenso no cu e pousado num oceano de nuvens brancas. S cume, mas o cume uma montanha enorme e esguia, porque medida que fomos subindo, o Pico foi crescendo tambm. Volto-me e a meus ps abre-se o enorme buraco verde-negro revestido de cedros e de urze at ao charco de gua choca e lama esverdeada, donde irrompe um cabeo com outra cratera minscula dum tom acastanhado. O espectculo sombrio e belo. S a caldeira mais pequena, perfeita como miniatura, uma nota de ternura neste isolamento: parece a filha da outra. Est ali a cri-la sabe Deus para que destinos, naquele buraco ao mesmo tempo potico e feroz. Se arranco olhos da cratera encontro a amplido infinita, o altar majestoso do pico, as nuvens que ele apanha no cu e a que d formas imprevistas, e o mar liso at ao horizonte, fechado pela barra roxa de S. Jorge e pela mancha desvanecida da Graciosa. Violeta das guas imveis, verde plido da terra, cu de esmalte por cima... Despeo-me do abismo solitrio. Na parede fronteira a sombra negra e trgica cresce e avana at ao fundo. Recolhe a casa e, cosida com a parede, vai recomear com a cratera o concilibulo secreto de todas as noites!... B">  `  `      `        ` `  `    `      <          ` ` `     ` `         <       `      <          `    <         ` d    `     `     `     `         `    A#!(" A volta na luz da tarde um assombro. Vejo o Salo e Pedro Miguel todos azuis de hidrngeas; sigo extasiado pela estrada azul, com o Pico ao fundo e S. Jorge esquerda formando a enorme baa. o horizonte de Npoles mais escuro, a esta hora iluminado por uma luz rica de efeitos. Em baixo colinas, sempre colinas -no como as montanhas solenes das Flores em picos aguados pelo raio, mas arredondados e mansos. Borbotes de azul despenham-se por todos os lados. O Faial adormece em azul sob o cu de cinza e com o Pico todo violeta ao lado. B"2 `             `      A#T071" noite no posso dormir: estou encharcado de azul. Vou a p pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas. Nasceu, subiu a lua numa paz extraordinria, apagando o brilho dos diamantes, mas entre os ltimos reflexos vibram os fios das vagas quebrando na costa e desaparecendo logo no boqueiro todo negro. Mais luar e o silncio que espera de ns qualquer comunicao sobrenatural. Olho. Todas as hortnsias se puseram brancas, dum branco perfeito, todas as hortnsias no desfitam os olhos de mim, quietas e brancas, imveis e brancas. Avano com receio. uma paisagem sem mcula. Os melros enganam-se nestas noites de lua redonda e branca e desatam a cantar desvairados. O Pico entontecido, cheio de luz e enorme inchou e toma todo o horizonte. EscutoBem quero surpreender o mistrio destas flores que vivem no silncio hmido e branco. Fecho os olhos. A existncia obscura das plantas, que no tiram os olhos de mim, faz-me perder a conscincia da prpria personalidade; sinto outra vida estonteada, dispersa no mundo e mais lcida -talvez mais lcida ainda... caminho, caminho sempre, entre renques brancos, assombrados pelo espectculo de brancura e sonho. Uma senhora americana no teve mo em si que no desatasse a beij-las transportada... Eu, de mim no me atrevo. B"{        <          <     ` <                         A#u" Tenho agora medo delas, brancas e puras, oferecendo-se desmaiadas ao luar dum branco extraordinrio, dum branco mudo onde se sente um reflexo tnue e doirado do sol. Tudo parou; s o melro desvairado canta entre esta brancura virginal. No se cala at ficar exausto. E quando deixa cair do bico o fio de harmonia, logo outro melro escondido o apanha e ergue, continuando a tecer o arabesco musical sobre a paisagem branca e exttica. B"+< @              `  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " O PICOB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " 26 de JulhoB"  A#  " B"$ A#$" Isto que de longe era roxo e difano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do inferno. um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra at cair em pingos e desfazer-se em cisco. uma imagem a negro e cinzento que me mete medo. H por a buracos e furnas onde a lava formou colunatas e estalactites azuladas, grandes cachos pendentes, derretidos pelo calor e solidificados pelo resfriamento. Esta ilha -a maior dos Aores - negra at s entranhas, na prpria terra, na bagacina das praias, no p das estradas, nas casas, nos campos divididos e subdivididos por muros de lava, nas igrejinhas das aldeias, requeimadas e tristes. O aspecto dum grande luto, duma grande desolao. A fuligem caiu sobre a vasta terra e s de quando em quando um grande plaino cinzento, os mistrios, sucede ao negrume como a lepra ao incndio. B"Z            <     <    `       ` `       A#E0" Mas o azul mais azul nos stios em que um corredor de basalto tem uma sada para a amplido do mar (stio da Furna). O esguicho que entra por ali dentro tem uma vida extraordinria. De repente surge tambm neste inferno um souto verde de castanheiros, um campinho de milho, figueiras redondas e baixinhas, ou irrompe, por trs dum muro calcinado, uma trepadeira lils. Depois pedra, mais negrume e pedra. Mais desolao e negrume, mais pedra vulcnica e sinistra que d o ch e o caf e todas as culturas tropicais; os frutos do continente, e laranjas e nsperas mais deliciosas ainda pelo sofrimento. O dragoeiro enorme e copado, gigantescos os fetos e bambus. Cria-se a oliveira e o castanheiro ao lado do anans silvestre, que amadurece ao ar livre e enche a horta de perfume. A vinha tem fama no mundo. O vinho branco do Pico, feito de verdelho e criado na lava, um lquido, com um pique amargo, cor de mbar, e que parece fogo. Erguem' uma pedra, atiram um punhado de terra para o buraco e a videira deita razes como pode, abrigada no curral pelos muros e estendida no cho sobre calhaus. S lhe levantam um pouco as varas quando o cacho est perto de amadurecer. O Pico j deu milhares de pipas de vinho, que exportava quase na totalidade para a Rssia. B"x             `     ` < ` ` `    `     `  `  `  <  `         A#" As duas estradas que partem da Madalena pelo litoral e abraam a ilha, acabando uma um pouco adiante de S. Miguel Arcanjo e a outra nas Lajes, servem algumas das freguesias do Pico, quase todas beira-mar, e todas elas com a sua especialidade: Santa Luzia a freguesia das figueiras, S. Roque a dos vinhos, Prainha a do milho e do trigo, Santo Amaro, perita na construo de embarcaes, trabalha tambm em esteiras, e o cais do Pico e as Lajes passam por as duas grandes freguesias da pesca da baleia. Os picarotos so os mais destemidos homens do mar do arquiplago, tisnados, secos, graves e leais. Nos altos, no mastro com uma espcie de cesto de gvea, todo o dia um homem, de culo em punho, vigia o mar e espera a baleia. B"D        ` <             `   < d A# " B" A#dnu" Vai-se muito bem pelas estradas no carrinho de duas rodas puxado por uma mula, sobretudo de manh, quando cai do cu todo forrado o inevitvel orvalho, que as plantas, que vivem na secura e no negrume, esperam toda a noite e sorvem com volpia. O ar do Pico maravilhoso de finura e graa. Chove e seca logo. Esta pedra porosa absorve a humidade como uma esponja. B"#           <   D A#fm" Nas subidas o cocheiro salta a terra e fala ao bicho. O mar est espelhado e o cu to espelhado como o mar, com brancuras de algodo, e nuvens meio adormecidas, orladas de cinzento. Tudo to branco e parado que parece que o tempo suspendeu a sua marcha. Olho para o mar com rastejos de caracol e pedaos brancos iluminados por dentro. Ao longe vai aparecendo e acompanha-me sempre outra ilha, S. Jorge, estiraada a todo o comprimento. J percebi que o que as ilhas tm de mais belo e as completa, a ilha que est em frente -o Corvo as Flores, Faial o Pico, o Pico S. Jorge, S. Jorge a Terceira e a Graciosa...B":    < `                  A# d" Cada vez me seduz mais pela estrada fora um campo de milho sachado e arrendado com as hastes direitas e verdes e o quadradinho vulgar das hortas, pela cor de satisfao dos legumes, pelo fio de gua reluzindo em conversa com as couves, como se sentisse o benefcio que lhes presta: a gua parece inteligente e piedosa, e a vinha e o souto, neste grande deserto, entre a pedra devorada, representam o triunfo do homem sobre as foras brutas da natureza. H stios que parecem escondidos e receosos entre tanto negrume: a o verde ainda mais verde e mais vivos os malvos junto pedra queimada. Vi duas ou trs povoaes muito viosas ao lado de montes tremendos cor de chumbo, e entre todas S. Miguel Arcanjo, que chega a ser voluptuosa depois de tanta tinta negra metida pelos olhos dentro. Sentei-me num quintalrio com japoneiras envernizadas de fresco e do tamanho de rvores, num terrao muito alto sobre o mar e sobre o mundo. A fiquei horas esquecidas, envolto em poeira azul, absorto no mar cheio de reflexos de oiro, em S. Jorge estendido ao sol, doirado e longnquo, cheio de crateras inofensivas e roxas, abrindo as bocas diante de mim, com um pouco de azul l dentro. Avancei pela estrada, que d uma volta entre moutas de rvores e hortnsias dum azul ainda mais ferrete que as outras, criadas na fuligem duma chamin; sentei-me sombra dos castanheiros muito baixos e com uma copa enorme e fui at trgica baa dos Mistrios, silenciosa e cinzentada, abandonada e leprosa, e mais longe at Prainha, que avistei do alto da estrada, com as suas vinhas e adegas minsculas, na baa de Canas. A esta paisagem, mesmo quando pretende ser risonha, preside sempre a ideia da destruio e da morte. H aqui uma angstia que s se tem em Npoles, num quadro mais voluptuoso e perfeito, com o Vesvio a fumar do fundo. Estes montes oprimem-se. Esmaga-me esta negra solido. Procuro o oceano para desabafar: toda a costa, de penhascos negros como carvo, me mete medo. Acabo por regressar ao quintalrio com alguns degraus musguentos e o terrao esplndido. um stio para estar calado... Algumas casas sobem ao lado pela ruela ngreme e numa delas mora um velho baleeiro reformado, de pra branca armada em leque na cara seca e rapada. a nica nota humana deste dia, o encontro dum martimo que finda a existncia de olhos fixos num passado cada vez mais vivo diante dele. Comprou esta casinha nos rochedos. Ergueu um mastro com um catavento no quintal para acenar aos navios e vai acabar com os olhos turvos presos quela agitao infinita a que ligou para sempre a existncia. E na verdade s h uma coisa mais bela no mundo -o cu; mas esse est muito longe e o mar vive na nossa companhia. B" `   `   `       <             ` `                         < `   <  `    <  `   `     <   `       `  `      <         A# '" s seis da tarde regresso ao cais do Pico, enquanto este torresmo se afunda em mais tristeza e sombra. No tiro os olhos, no posso, de S. Jorge iluminado pelo ltimo sol, riscado de sombras e quase transparente. Sento-me nos degraus do antigo convento dos franciscanos, com a ilha etrea em frente. O Pico desapareceu, S. Jorge poeira e sonho, onde distingo algumas crateras escancaradas -uma delas derrubada e toda azul por dentro -e montes inclinados para o mar, at que tudo se dilui em cinzento e mergulha na escurido. Fica-me a tristeza do anoitecer numa aldeia incaracterstica. Sinto que a noite me hostil. Com a luz que se apaga todas as sombras se acolhem a este convento deserto metendo-se pelas portas escancaradas. Remexem ali no claustro. E quase grito de isolamento e de frio... B"N              <     <  `  `  < `  ` `   A#18D" A noite no cais do Pico, fiada de casas negras beira do mar onde biam carcaas de baleia, terra que cheira a uma lgua, besuntada de fumo e de gordura, aumenta-me a tristeza mortal. Vale-me algum que se pe a falar na extraordinria festa de S. Marcos, que se faz no Pico, no Faial, no Corvo no dia 25 de Abril... Eu j tinha estado na botica a olhar para os frascos, um a um, j contemplara as casas banais e as figuras banais, j descera ao barraco cheio de postas de gordura onde se destila a baleia -e o meu nico pensamento, mais fixo com o cerrar da noite, era fugir, fugir para muito longe destas pequenas terras de provncia, piores que a cadeia e o degredo, e onde a gente sente pesar-lhe a vulgaridade de todos os dias, o hlito mesquinho de todos os dias, as palavras que se empregam todos os dias, -quando tudo, de repente, se transfigurou diante de meus olhos atnitos, como se espelhos convexos deformassem as figuras apagadas, transformando-as em figuras de espanto e dor, de chacota e dor. Tudo est assolapado, tudo obedece mesma regra, tudo se subordina s mesmas leis -e no dia de S. Marcos acabam os gestos pautados, as palavras medidas, e vem outro mundo c para fora, mais grotesco que o entrudo, mais profundo que o entrudo, porque a aco neste dia representada pelos mortos -painel onde se vem as fisionomias gastas dos piteireiros e atrs delas outras caras em osso que teimam em vir superfcie; folia estranha, onde alm do homem h outro homem no tablado, onde os gritos e a chacota da malta pertencem mais aos fantasmas que aos vivos. A irmandade de S. Marcos, s de homens casados, armou um altar com coroa de cornos muito bem ornamentados e um corno maior em evidncia no alto. porta a malta espera e agarra-se ao primeiro que passa na rua lbrega e que obrigado a beijar o emblema retorcido. B"`      `     <  <          <   <       < d         `  <   <   `   <    `     `     A#*1" -Venha beijar o corno, que bem o merece! B"  A#&-" - da confraria este nosso compadre! B"  h A#)" E os outros riem-se, e toda a gente se ri, e, se algum protesta e se debate, a chacota aumenta, os risos alvares soam mais alto. B"  ` <  ` A#dov" Todas aquelas barrigas que se sacodem parecem maiores, todas aquelas ventas mais largas. Vejo nos olhos daquele diabo gordo uma claridade que no o vinho... Cuidado!... Esta chufa talvez sagrada, primeiro porque secular, depois porque representa o fundo grotesco da humanidade, a maldade assolapada que se ri, a desgraa que faz rir, a farsa que acaba em dor. B"# `   <   <      ` A#$" Esperem pela noite... noite sai tudo para a rua com fogarus, archotes, clamores, e no s as fisionomias a vermelho e a negro tomam outro relevo, como este povo enfumado redobra de propores e parece maior: todos os fantasmas acudiram chamada. O homem importante da confraria leva o corno erguido nos ares sob um plio armado com um lenol e quatro varas, a que se agarram outros tantos piteireiros que perderam a noo da realidade... Um frente bamboa um turbulo em que se queima a raspa de corno que o outro matula lhe oferece da naveta... Agora completem o quadro: a turba violenta e espessa a cair de bbeda -porque um dos devotos mais ricos do Pico pe neste dia a adega disposio da irmandade -a mescla de negrume, fumarada e labaredas vermelhas, a vociferao nocturna, o rodilho de mortos e de vivos que corre as ruelas at encontrar algum desgarrado, que tem por fora de beijar, entre risadas, aquele grande emblema conduzido em procisso. B"Z <   `         <   `      `      ` <      ` A#" -Este dos nossos! B" A#" -Beija-o outra vez! B" A#X@G " E a gritaria atinge o auge quando chegam em frente das casas apontadas a dedo -a malta nessa noite percorre toda a vila. Param. Reclamam o irmo que est l dentro e que eles entendem que pertence de direito confraria. -Venha! Venha! -A surge a mulher, furiosa, que abre de repente o postigo e os cobre de insultos: B"            A#SZ" -Malandros! O meu homem!... Eu nunca lhe preguei desfeitas -vocs que o so!... B"   `   A#L " Redobram os brados, os gritos, a risota, e o delrio cresce. Os archotes empunhados sacodem-se na noite, enfumam e incendeiam os farrapos escuros, que tomam corpo e se agitam e danam com os seres, fazendo parte da festa. As panas cheias de vinho rebolam-se de prazer. B"   `  `       A#" -Venha c para fora! B" A# " -Viva! viva! B" A#9@" -Ide para as vossas mulheres! Ponham as mos na cabea! B"  A#" Eu j vi isto -melhor que nas quermesses de Rubens, onde homens em plo se escancaram de riso -nos quadros flamengos do sabat, em que o diabo feito bode preside a cenas nocturnas de delrio e velhas feiticeiras chegam pelos ares montadas em cabos de vassoura. Foi l que me apareceu tambm um homem extraordinrio, que se ria com um riso doloroso -um homem que nunca mais esqueci, um morto a rir-se dos vivos. o estranho prazer de chafurdar na vasa que leva a besta, todo o ano dentro da regra e da lei, aos excessos de S. Marcos, ou so os primeiros habitantes flamengos da ilha que espreitam pelos olhos dos vivos e os obrigam a gestos seculares?... B"?          `  `       <      A#x" Uma pausa. Aquieta-se a canalha. Comea o sermo. Aquele sobe a um muro, a uma pedra, a uma mesa que puxada para a rua, e toda a multido espera em volta que aponte os podres ocultos da freguesia. E ele no recua... um homem bem-falante, que demonstra primeiro as vantagens de fazer parte daquela honrada confraria, embora certas pessoas o no queiram confessar... Ningum lhe escapa. Mas fulano -pergunta -de tanta considerao, que ?... B"+<   <       `      ` A#18" - cornudo! -brada num entusiasmo toda a turba. B"  A#IP" -Fulano, nosso vizinho e nosso amigo, onde devia estar, que o no vejo? B"` < < A# " -Aqui!... B" h A#M " E viva! e viva! E o sermo l segue, at que a canalha, com toldo, a tripea e o coro de piteireiros, se esgueira por uma ruela mais escura e a primeira luz da madrugada dissolve o quadro, de que no ficam vestgios, como se pertencesse ao domnio do pesadelo ou do sonho. B"       `   A#[KR " E isto que eu acho mais extraordinrio. Acaba sem deixar vestgios e s dura algumas horas. Cumpre-se como um dever -desaparece como uma sombra. Durante algumas horas perderam por arte mgica a noo da realidade. Aquela injria noutro dia dava uma morte. Nesse dia a loucura e a dor andam de mos dadas a passear em plena rua. B"            A#adk3" De manh tudo est nos seus lugares, cada um retomou os seus hbitos e no se diz uma palavra mais alta. Esta extraordinria galhofa, esta arruaa da noite de S. Marcos, alucinada e violenta, sumiu-se num sopro. Resta a fiada de casas escuras do cais do Pico, o mar ensanguentado onde biam carcaas e o horrvel cheiro a gordura que nunca passa... Era uso antigamente nas terras alarpadas da provncia algum ir para cima dos montes clamar por um funil os escndalos da vila cheia de terror -Fulano dorme com fulana I -e o eco amplificava o som no cncavo dos vales. Talvez o acto fosse a maneira de corrigir os costumes e de obrigar as mulheres a terem tento na bia. Mas aqui, a coisa outra. No se trata dum acto individual; todo o povo que toma parte na festa extraordinria, compenetrado e como quem cumpre um rito . Ponham esta cena nas vielas da Flandres e a populaa desvairada entre archotes e negrumes agitados e entre a populaa aquele homem que ri -o homem que no pode reprimir o riso de maldade que vem da treva amontoada no fundo da lama humana -o riso que fao por repelir, mas que tambm ouo c dentro, como se um estranho parentesco me ligasse a mim e a ele, a mim e ao mal, apesar de todos os esforos para dominar o egosmo e a animalidade brutal. Apupos, chufas, e a figura que nunca mais esqueo. Tenho feito tudo para a matar, sem o poder conseguir. B"   <       `   <  <   `             `             < <       A#K" O Pico perdi-o. A maravilha em negro e cinzento sada das entranhas do mar, nunca mais, desde que pus os ps em terra, a tornei a ver. Tudo se reduziu a fragmentos, a quadros restritos e recantos de paisagem. Ansioso rebusco aquela primeira impresso de conjunto e no a encontro. No a encontro mais? No se encontra na ascenso que se faz s duas horas da manh, da trrida Madalena ao alto do Pico, com o cu puro e limpo, como so quase sempre as noites dos Aores. Negrume e estrelas. Dois vultos acompanham as bestas, o mestre Narciso e o homem que leva os mantimentos. Meio adormecida, a caravana mergulha no ar gelado da manh, na amplido imensa que a envolve e s as patadas das cavalgaduras lascam a calada. claridade ou poeira que se levanta na frente, quando se toca na regio das pastagens, vasta extenso at ao Cabeo Vermelho? Depois de quatro horas de marcha chega-se Pedra Mole -ermo com mato, urze, queir e uma florinha dum branco azulado - para l do mar indeciso de nvoa leitosa a que a claridade d aco, fluidez e vida. Um momento parece que se concentra e depois, com a luz aberta, toma o aspecto estranho de mar branco, nuvens brancas, de mar fofo, que, de quando em quando, se descerra e mostra um pico severo, uma rocha isolada flutuando. Para l deste oceano vaporoso, mal se distingue outro todo violeta. Mais perto nuvens todas brancas e imveis, de gelo, ao norte estendidas como banquises, escorrendo fios de gua azul pelos interstcios. Nesta grande solido algodoada, ergue-se ao longe uma montanha toda branca, e l em baixo ascende mais fumarada enquanto o sol ilumina nos altos os montes escuros. Por momentos o nevoeiro mais denso, que veio de baixo e ascende com o sol, cada vez mais cerrado, forma um estranho mar unido at ao horizonte, um mundo branco e polar que nos isola do mundo. Imobilidade e frio. Espero, e de repente ouo...? -ouves?... Do fundo do abismo branco, chega at ns, nesta grande solido, o tanger dum sino debaixo de gua, chamando para a missa. B"   <              < <    `    < `         `      <     ` <  <  `      ` <  <             < A#s" talvez na freguesia de S. Mateus, na Candelria, em qualquer das terrinhas submersas na extenso unida e branca. Outro... outro mais longe, to cristalino e puro que me surpreende e encanta. um som que d uma impresso extraordinria de vida, como se os sinos encantados da Atlntida comeassem a chamar por ns. Ouves? ouves? -E quase logo a cortina vaporosa se descerra para desvendar toda a paisagem na manh violeta...B"(              `  h A#fm=" Dorme-se numa furna para ver amanh o nascer do sol no alto do Pico. Quem quer dorme s estrelas. Vamos... O que eu procuro, pela ltima vez na minha vida, no o panorama - a exaltao da vida livre. Acende-se a fogueira, sobre a qual se curvam sombras iluminadas, cheira ao fumo da urze, no acampamento em desordem. Tudo adquire um sabor novo, os olhos rebuscam como aos vinte anos os blocos desrticos, o ouvido aguado recolhe o menor rudo da noite, a vista encontra a acuidade da vida primitiva. Mais, melhor, a alma encontra a plenitude vital na existncia selvagem para que fomos criados, e aspira para os cimos. Mais uma vez a luz antes do mergulho definitivo na escurido! Vamos!... A spera subida leva outras quatro horas a p cortando a direito e calcando pedra dura, at base da caldeira, coberta de bagao vermelho e da cheirosa erva de Santa Maria. A vegetao rasteirinha diminui de tamanho: uma rapinha muito mida como se a tivessem tosquiado. L de dentro da caldeira, que tem trinta metros de fundo, sai o Pico pequeno, de pedra vermelha e queimada. A sua ascenso s possvel pelo lado ls-sueste. A cratera pequena e as fendas deitam um fumo tnue. Dum grande rochedo do lado norte desabam de quando em quando pedregulhos. Faz aqui frio em pleno Vero. Espero toda a claridade para ver o mar e o Pico, o Faial, S. Jorge, a Graciosa, e no fundo a Terceira quase a desaparecer. E mais que isto, a sombra imensa e azulada deste grande monte talhada no mar para o lado da freguesia de S. Mateus. extraordinrio fantasma que ali est presente desde que nasce o Sol at passar uma hora depois de ele aparecer. B"       <        `                                        < `   < ` A#" O mistrio o resultado de erupes da base do Pico, (mistrio de S. Jorge por exemplo) cobertas por um pequeno lquen, a urzela, que se propaga em vastas extenses cinzentas, dando a impresso duma lepra que corri a terra, dum mundo morto e amortalhado. Sucedem-se os montes cada vez maiores, formando ao lado barreira inacessvel, com rasgos cor de chumbo de alto a baixo. Isto no me larga e oprime-me. Acompanha-me o paredo que nenhuma luz capaz de arrancar ao negrume cada vez mais espesso. Nem uma planta! S montes sempre maiores e mais speros. A luz diferente, mais cinzenta, e o fundo tremendo e cor de lousa requeimada parece esperar imvel que este planeta acabe de apodrecer.B"A   `    `                < <  A#" Absorvo-me na extraordinria paisagem mineral, no panorama que saiu intacto das entranhas do fogo. Nem um sinal de vida -extenses mortas, calcinadas, inteis, cuja beleza exterior consiste principalmente na linha, na slida arquitectura dos montes erguidos at ao cu em perfis severos, na solido e na cor que os vestem, no esforo de quem despreza todos os pormenores inteis para mostrar descarnado a Deus o seu sofrimento. Aqui as pedras passaram todas pelo incndio e assim clamam tisnadas e imveis. Produto dum parto monstruoso, a ilha foi devorada at ao ponto de fundir. a dor. a dor do mundo exposta a nossos olhos, imobilidade diante de nossos olhos -a dor descarnada e solitria, muda e trgica, sem um vu, sem um farrapo, sem um grito. S dor.B"F    `    <   ` `     <           A#x" s chapadas negras sucedem-se as chapadas fnebres, aos rasges avermelhados, onde parece que lavra ainda o incndio, as escrias acabadas de derreter, ao minrio de tons azulados e sombrios as fragas em atitude de desespero, os buracos dilacerados at ao ntimo. No houve piedade, no houve um momento de suspenso naquela tortura imensa e calada: tudo, desde a poeira at montanha, passou pelo mesmo inferno e ainda fumega no ltimo estertor.B"+   `  `   `   < `     A#" No consigo tirar os olhos do panorama tremendo, do panorama que um pesadelo donde extraio no sei que prazer indefinido. Tudo se despenha em catadupas de p negro, ou fundido dum s jacto nas paredes lisas e azuladas, negras com arabescos mais escuros que parecem caracteres indecifrveis -petrificadas em cores mais ricas, dum negro cor de sangue, fundidas e entranhando-se umas nas outras at chegarem ao fundo cinzento. Um abismo -um tropel -um campo de destroos. E sobre o caos cinzento.B"2      `      `    <    D A#C " E isto no nos larga. Chega a impor-se a nossos olhos e fascina-nos a ossatura despida de toda a carne, no pela impresso de monstruoso ou de atormentado, mas pela beleza intelectual, pela beleza superior e grave que a das almas.B"      `    A##*" aqui que a luz dos Aores atinge talvez a perfeio. Nada que a distraia -s o mesmo tom no vasto quadro feito com a mesma cor, variada at ao infinito em nuances delicadas. Sobre o cinzento do mistrio paira o cimento absorto do cu -sobre a pedraria escorre o cimento das nuvens. Ao longe o paredo imenso reala a severidade do panorama excepcional. Todas as pedras que a cadeia de ferro vomitou foram cobertas de cinza, que amortalhou este mundo espectral. uma paisagem abstracta, uma paisagem morta. No s a cor do cu, que a mesma de todas as ilhas - a cor da pedra - um vago sentimento de terror - o cadver que se conservou intacto e que criou bolor. No h uma deformao. Ao contrrio. H uma beleza nova que preciso encontrar -mas depois de encontrada nunca mais nos larga...B"K           <                  d A#1," Para l, muito para longe, superfcies dum cinzento muito mais escuro e campos s de pedra com flores cor de mosto -tudo parado, quieto, imobilizado. No se ouve o pio duma ave, no se v reluzir o fio dum regato. O mundo morreu todo cinzento. A prpria luz esquisita desfalece. E sempre nos acompanha ao lado o monte ttrico, que vomitou esta lava em cacho, que parece ferver coberta de cinzento. Debalde se caminha dum e de outro lado da estrada o mistrio persegue-nos em silncio. s vezes as pedras tm o feitio de vagas dum mar encapelado que petrificou em cinzento com espumas tona. A urzela avana sempre, cobre tudo, montes, pedras, ferro, taludes da estrada, ficando tudo da mesma cor e na mesma uniformidade. uma das coisas mais belas que conheo no mundo -a viso dum planeta onde seres e coisas foram comidos do p, deixando vogar para sempre no ter o fantasma cinzento e mudo. Esta viso acompanha-nos e persegue-nos at s Lajes, perdida na base dum monte to espesso que mete medo. J agora ningum me tira dos olhos este extraordinrio Pico, a duas cores, cinzento e negro, e presidindo, como uma grande figura no meio do oceano, a todo o arquiplago dos Aores. B"n `     <    <      < `         <                   A# " B" A#" Casinhas negras aglomeradas, uma grande solido e uma grande tristeza. A costa forma baa, fechada dum lado por um desconforme penedo. Lajes a terra dos baleeiros -seis armaes, duzentas pessoas empregadas na pesca. As montanhas cercam-na e impelem-na para o mar. A casa do vigia fica l no alto, num moinho abandonado, num stio que se chama a Terra da Forca... Tudo aqui cheira a baleia e est besuntado de baleia, tudo o que se come sabe a baleia, que derretida em grandes caldeires para lhe extrarem o leo. Pergunto:B"2 ` `    `  `    <       d A#29" -Mas vocs no sentem isto? este cheiro horrvel?B"  A#:A" -Este cheiro, cheira-nos sempre bem. sinal de dinheiro.B"`   D A#8-" Nem reparo na ermidinha, que foi a primeira, dizem, que se fundou na ilha. Estaco com surpresa no meio da povoao diante duma catedral gtica por concluir, erguendo pelos ares a ossada negra feita de lava. Um padre realizou neste ermo uma construo desproporcionada para a terra -todo o sonho desproporcionado -e isolada entre montes. Ergueu-lhe sobre fortes alicerces as muralhas enormes at l acima. Todo o dia lhe viam a sotaina agitada no alto, a ajudar os pedreiros como um pedreiro -ou -ou -oupa -empurrando as lascas negras. Pediu dinheiro a toda a gente, aos da Amrica, aos ricos, aos pobres, para realizar aquela massa em ogivas abertas, onde toda a povoao ficaria sumida num canto. Gastou o seu e o alheio. Trabalhou como um negro. No teve durante toda a sua vida outra ideia, outra ambio nem outro interesse. E quando aquilo chegou l acima, prestes a concluir-se, morreu de repente -e a catedral ficou para sempre naquele ponto, abandonada e desabitada, sem telhado, carcaa morta e negra erguida em frente do mar, e separada da terra por montes espessos que ameaam submergi-la. Moram l as aves marinhas... Aquilo foi um sonho e nenhum sonho se chega a concluir -o sonho no cabe no mundo.B"q            `  <      <  < `   <          `    `    ` A#" Agora completo o quadro: com os montes, hirtos e negros por trs, neste fundo extraordinrio, neste panorama dilacerado, parto duma imaginao estranha, parado e cinzento, que fica bem aquela vida dum dia e duma noite, o grotesco de fantasmas vociferando de porta em porta, com as bocas escancaradas de riso. Esta ilha negra e disforme apoderou-se dos meus sentidos. Tudo o que a princpio me repelia, o negrume, o fogo que a devora, o mistrio, tudo me seduz agora. O Pico a mais bela, a mais extraordinria ilha dos Aores, duma beleza que s a ela lhe pertence, duma cor admirvel e com um estranho poder de atraco. mais que uma ilha - uma esttua erguida at ao cu e amoldada pelo fogo - outro Adamastor como o do cabo das Tormentas.B"I         `      <         `     h A#@ " Apago todas as tintas do quadro: s quero o Pico diante de mim, negro e dramtico, rodo da cinza que h-de acabar por devorar seres e coisas, deixando-o a prumo no cu, com a carcaa da catedral ao abandono na praia... B"` <   `     D A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " A PESCA DA BALEIAB"d A# " B" A# " B" A# " B" A#6." L de cima do poleiro o vigia ergueu-se de salto, deu sinal de baleia vista com o bzio e todos os homens desataram a correr para as canoas. Nas Lajes, noutro dia, saa o enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido -ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacristo, a cruz e a caldeira -iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus -e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou s o padre com latim engasgado e o caixo no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristo, de abalada, at praia. Baleia! baleia!... Deixam um casamento ou um enterro em meio, um contrato ou uma penhora, as testemunhas e a justia, e correm desesperados a arrear baleia. No cais do Pico e nas Lajes ningum se afasta da praia. Esto sempre espera do sinal e com o ouvido escuta, os homens nos campos, as mulheres nos casebres. E enquanto falam, comem ou trabalham, l no fundo remi sempre a mesma preocupao. So to apaixonados que at este cheiro horrvel, que faz nuseas e que se entranha na comida e no fato, lhes cheira sempre bem. B"s         <  <      @      <          ` <       ` `     A# " -Baleia! baleia!B"@ A#X?F " E toda a populao acode aos barcos. Vejo daqui a fiada de casas beira da estrada, o cais de embarque com o gorduroso barraco de madeira, tudo negro, enfumado e ftido, e por toda a parte, nas pedras escorregadias e na gua azul, vrtebras, carcaas boiando e restos ensaguentados que cheiram a podre que tresandam.B"            A#"" -Nosso Senhor v com eles!B" A#5<" -Nosso Senhor lha d sem perigo! -dizem as mulheres.B"`  A#$mt" -O po do meu Jos vai na canoa -grita outra, debruada para os homens que empurram o barco a toda a pressa.B"     A#"" -E aquela canoa no larga?B" A#$" -Est espera do trancador.B" A#-" J um grupo de velhos, com a mo enconchada sobre os olhos, espreita para o largo, a ver se descobre os esguinchos de vapor que o bicho resfolga.B" <     A#*," O mar desmaia, mais etreo que o cu, diluindo pouco a pouco no azul o doirado das nuvens. Uma luz difusa estremece no arrepio da superfcie. uma manh delicada -um pedao de cu azul claro que se no distingue do mar azul claro. Ao fundo vapores esparsos, direita flocozinhos brancos por cima de S. Jorge, e para o largo pastadas grossas e imveis que a primeira luz da manh ilumina. Acol um farrapo de nvoa embrulhou-se na gua dum azul quase cinzento e no a larga: o Faial, a distncia, uma mancha transparente, e o Pico passa a meus olhos por diferentes gradaes, desde o azul nascido ao violeta. Nvoas prendem-se aos calhaus negros, aos montes dramticos, ou derretem-se de repente na gua em rpidos chuveiros. No cu h um azul entre as nuvens to ensaboado que mal se distingue, um azul entre nuvens azuis estendidas, com interstcios mais claros, e logo por cima pequenos estratos amontoados... Mas tudo isto desvanecido, tudo isto atravs da neblina quase a desaparecer. uma manh para se respirar, devagarinho. O mar ainda neblina, o cu todo neblina; s anda algum azul misturado ao branco e alguma luz que se coa pelas nuvens... B"n    < <         <        `           d           h A# " B" A#[b<" A canoa voga suspensa na atmosfera e outras l vo adiante fora de remos. Duas iaram as velas... Um barco destes quase um mvel ao mesmo tempo delicado e resistente, muito bem construdo de tbuas leves de cedro, pregadas com cavilhas de bronze sobre as cavernas de carvalho americano -esguio como um peixe e leve como uma casca, para escorregar sobre as guas. Metem-lhe dentro sete homens, o arpo e a lana, para atacar um bicho cuja massa pode ser avaliada em cem toneladas, e que, depois de ferido, se vira s vezes contra as canoas e at contra navios do seu tamanho. Ainda a semana passada um cachalote reduziu um barco a cisco e matou trs homens, pondo-se de p no mar com a boca aberta cheia de dentes de palmo . O que vale que a baleia um bicho muito tmido. Pode, com o leque da cauda, cobrir e abafar uma canoa -e tudo a assusta. So poucas as que atacam, mesmo depois de feridas; mas h machos solitrios que chegam a atrever-se com navios maiores do que eles, metendo-os no fundo focinhada. As baleias velhas isolam-se pela dificuldade em encontrar pasto que lhes chegue: mastigam no mar incessantemente como bois a pastar na erva. As novas viajam em grupos de vinte e trinta. um espectculo majestoso encontrar pela manh um bando de baleias, resfolgando pelas ventas - um espectculo do princpio do mundo... Um pouco de neblina -mar azul... L vo com o dorso de fora e lanando de quando em quando um esguicho de gua vaporizada. De repente, quase ao mesmo tempo, mostram os lombos luzidios a escorrer... uma coisa que faz parar o corao, um quadro imenso e duma frescura extraordinria.B"`              `   `          <       <     ` <  `  ` `    <           A#r" Pastam. Seguem sempre a mesma rota procura das carnes gelatinosas que devoram; dos cefalpodes, lulas e polvos, que se lhes pegam e as sugam, entre braos que as envolvem e aoitam, sempre mastigando coisas esbranquiadas a escorrer-lhe da boca. So os grandes devoradores dos monstros que na gua glauca esperam a presa como sacos coroados de tentculos, moles e horrveis, movendo volta da mitra a coroa de rpteis.B"&       <  <      A#}8" Isoladas ou em grupos, seguem a sua rota at frica, regressando pelo mesmo caminho. Esperam-nas os baleeiros e perseguem-nas, chegando a ponto de serem escassas no arquiplago e s reaparecendo depois que os americanos abandonaram a pesca, e os leos minerais substituram o leo animal, que empregado hoje nos instrumentos de preciso. Nos ltimos tempos voltaram muitos cachalotes aos Aores: num dia vi cinco na baa do Porto Pim, no Faial, cinco bichos de ferro zincado, barbatana curta e grossa e cauda horizontal apartada ao meio como a cauda da andorinha. Pus-me a olhar para aqueles monstros desconformes e macios, de cabeorra quadrangular, que o tero do corpo e onde no h nada que preste. Na baleia no a barriga que maior e mais grossa - a cabea; da para baixo vai arredondando e diminuindo at cauda, horizontal, enorme e luzidia. Os olhos pequeninos preciso procur-los, porque mal se distinguem da pele, e infelizmente para elas, esto colocados de forma que s vem para os lados. Os baleeiros chegam-se facilmente pela cauda -a questo no fazer barulho -porque tm o ouvido muito fino e ouvem pela pele: sentem a grande distncia: qualquer rudo inslito as perturba ficando a tremer de susto, at que se lembram de fugir. Na frente da cabea ficam os buracos para resfolgar: ali no entra arpo, a pele muito dura; e por baixo abre a queixada em forma de bico com grandes dentes, que, quando fecha a boca, entram em cavidades da maxila superior.B" `  <     `   `  <    `             <         `   <       `      @ A#|" Este bicho inocente e estpido quase sempre dorme ou digere tona de gua, inerte como um saco cheio... S depois que lhe vi abrir a cabea, melancia preta desconforme e toda de branco rosado pelo lado de dentro, que compreendi bem a baleia. Debalde lhe procurei o miolo. No lugar dos miolos tem um lquido, espermacete, que d doze a quinze barris do melhor leo. Nem preciso ferv-lo: est pronto a servir nos tanques do caco. Por isso se deixa apanhar...B"+            <  <   A#KR" Os baleeiros sabem logo se grande ou pequena, pelo tempo que demora superfcie das guas; a espcie a que pertence, porque as h que s respiram por uma venta. Conhecem quando vai mergulhar, porque mostram primeiro a enorme cauda agitando-a fora da gua; e se so pequenas, porque andam em bandos e aos saltos, tal a sua agilidade. Contam que a me acompanhada pelo filho, que nasce logo com quatro ou cinco metros de comprido, mais fcil de subjugar, chegando o ambaque (baleia preta) a deixar-se matar quando lhe apanham o pequeno: basta feri-lo ao p do rabo e pux-lo para o bote. A me j no o larga e prefere, se no pode fugir com ele metido debaixo da asa, que a acabem s lanadas. Quer dizer: esta coisa monstruosa e zincada, com leo na cabea, no s come e digere, no s dorme e digere - capaz de ternura e sacrifcio.B"N     <   <        <  `              A#R(/2" Creio que hoje s os barcos dos Aores a caam pelo processo primitivo, que muito mais perigoso. Os americanos usam um canho especial e ainda no h muito que grande nmero de barcos se ausentavam das costas da Amrica por largos perodos, navegando pelo Norte do Chile ou nas regies circumpolares, onde a baleia encontra o pasto de que se nutre no mar cheio de organismos infinitamente pequenos, no mar s alimento, em formao como as nebulosas. A baleia apanhada, suspensa, cortada e derretida em grandes caldeires que fumegam a bordo. Essa avantesma besuntada, fedorenta e ressumando leo, todo o dia navega, vomita fumo, e cheira que tolhe, e mais se parece com um aougue ambulante que com um barco. Tudo l dentro pegajoso e escorregadio. Os ganchorros levantam pedaos de baleia, metendo-os nos caldeires, onde fervem e refervem. volta agitam-se homens engordurados at alma, entre labaredas, bando de aventureiros de toda a espcie, equipagem de acaso, malaios e chineses, escorregadios como o navio, caranguejola que vai correndo todos os mares onde se encontra a baleia. No alto dos mastros, em duas barricas, os vigias incessantemente a procuram na gua com culos, enquanto outros mexem e remexem os caldeires, ou, em tbuas amarradas ao costado, cortam, iam, despedaam as banhas do bicho.B"} <  <        `        `                               A# " E isto nunca mais cessa: o navio enche o mar de fedor e de sangue e l dentro a caterva derrete sem cessar, mergulhada em fumaceira, que o vento no dispersa -no pode -ou persegue sempre, matando sempre, como se a sua misso fosse sujar a grande pureza do oceano. O fumo pesado e gordo envolve o navio ensanguentado, que se destaca na manh delicada ou no poente todo de oiro. E mesmo de noite, sob a maravilha das estrelas, aquilo vermelheja e arde, queimando carne e fumegando sempre. E cheira cada vez pior... B"2  <       ` `     <      A# " B" A#AU" O mar cinzento com espaos lisos dum cinzento reflectindo a cor das nuvens, e ao fundo, quase tocando o cu, uma grande superfcie toda azul... Vem o bando por a abaixo num azul que azul e aco. Vm todas do oceano glacial como se viessem da fonte da vida. E sentem a felicidade inconsciente da frescura que as rodeia, da gua azul nascendo em jorros sobre jorros, que lhes comunica energia, vibrando todas com ela. No tm uma arte, uma filosofia, um negcio a tratar. Vivem pela pele, vivem com a gua que vive. Vm aos saltos unidas e cortando o grande mar, nas manhs brumosas, nas tardes de oiro, imensas como o universo e todas de oiro, nos dias de tempestade, que se fizeram para danar tona das ondas furando o cacho branco e vivo -outro cacho ao longe -ou nas tardes de mar calmo, criadas de propsito para boiar e dormir, no oceano e no mundo todo azul, que tambm adormece e repousa. Um bicho isolado bia. Dorme ou digere. Parece um penedo escuro flor das guas... Um ah! Estamos nas primeiras horas da vida. A claridade espelha-se e escorre no dorso escuro e molhado. O barco aproxima-se sem rudo, o arpoador proa, com o arpo erguido e seguro nas duas mos, firme nos ps e na atitude de arremesso. um ferro com setenta e cinco centmetros e dois metros de cabo. Ao lado, no barco, vai a lana, que maior, para acabar este monstro do tamanho dum prdio. Mas o homem impressiona-me ainda mais que a baleia: tremendo, de p, minsculo, com a vida no olhar e nas mos. No barco est tudo calado e ansioso, ningum diz palavra intil: homens, barco, arpoador e arpo, tudo tem o mesmo corpo e a mesma alma. So sete, dominados pela aco, trespassados pelo ar e por este cheiro que penetra pela boca e pelos poros, gerador de energia - um ser nico, s nervos e vontade, caa do monstro e com uma ponta de perigo que seduz -sem falar do negcio, que excelente. Todos ganham: uma baleia d muito leo e o leo d muito dinheiro. s vezes d mbar. Mas h principalmente a necessidade de matar, de lutar (numa vida que mais montona do que em qualquer outra parte -duas vezes montona pelo mar que os circunda e pelos montes que os entaipam), de vencer as contrariedades e os perigos -sentimento com razes no mais profundo da alma humana.B"                <      <             `      `   `            `  <     `           < `   < `      A#YAH " So sete couros secos, decididos, e alguns deles lavrados pelas rugas e com brancas na cabea, e o trancado r mola de ao pronta a distender-se, concentrando toda a energia no olhar e nos msculos. Esperam -ele o momento de lanar o arpo, os outros o de afastarem a canoa no mesmo impulso combinado. um momento nico.B"       `    d A#" J outras canoas se aproximam... Mas antes que lhe tirem a baleia, o trancador lana o ferro. O bicho tem um momento de hesitao e surpresa, como o touro quando lhe cravam as bandarilhas, o que permite ao barco desviar-se num golpe de remos, antes de ser abafado na cauda ou envolvido no redemoinho das guas. No h um segundo de dvida ou um movimento falso. A baleia mergulha entre vagas, com o risco de os arrastar para o fundo, e leva-os numa velocidade de expresso, pelo mar fora porque aquela grande massa duma agilidade espantosa. -Larga! larga! larga a manilha! ... E l vo no curso, entre as guas rasgadas, no grande sulco aberto com violncia, tomando tento na linha.B"A    <      `            `    A#z" As outras canoas ficam a ver navios. s vezes h balbrdia: todos os barcos querem trancar a mesma baleia e dirigem-se-lhe pela cauda, pela cabea, pelos lados; j tem acontecido arremeterem s cegas sobre o bicho, encalharem-lhe no lombo e meterem-lhe o arpo na cabea. Outras vezes um trancador impaciente, vendo fugir-lhe a presa, atira o ferro por cima do barco que est mais perto da baleia para a roubar. o que eles chamam trancar para quebrar.B"+          <       A# " -Larga! larga!B" A#JQ" A baleia mergulhou. Corre agora a linha de manilha americana, muito bem enrolada dentro de duas selhas, e os homens, plidos e imveis, com o corao do tamanho duma pulga, esperam. A baleia pode desaparecer durante vinte minutos. Um deles tem nas mos, para se no cortar, um pano chamado nepa, por onde a corda passa e pelo moiro, pau saliente proa, que chega a fazer fumo com o atrito. s vezes a linha acaba-se quando a baleia mete muito para o fundo. Se est outro perto, fornece-lhe mais linha, seno a baleia perde-se: tm de cortar a manilha ou so arrastados para o abismo.B"7 `           ` ` `        A#"" -L vai a ara! -exclamam.B" A#." A ara o fim da linha, e com pena que eles a vem acabar-se. Passam a ponta de mo em mo, at ao ltimo tripulante, que s a larga com desespero.B" `     A# " -L vai a ara!B" A#M " Pior quando a baleia, ferida, se atira ao barco. Deita-lhe a boca e dilacera-o, voltando-se depois para os homens, de boca aberta como as feras. No outro dia, as canoas que assistiam a este drama queriam lancear o bicho enfurecido, mas os outros, nadando, berravam da gua:B"<   <   `  <   A#7>" - homens, no avancem, que ela mata-nos aqui a todos!B"  A#" Em geral a baleia mergulha, vem tona antes que se acabe a linha, e o que ela mostra primeiro o focinho, para resfolgar. Aproximam-se e do-lhe uma lanada ao p da asa para a sangrarem. Mergulha, reaparece, esgotam-na e tm-na certa quando comea a esguichar sangue pelas ventas. Que viso de espanto entra nesse momento naquela cabeorra? H baleias que conseguem escapar e no esquecem -meses depois atiram-se aos baleeiros. Do-lhe mais lanadas, numa vozearia de triunfo. - nossa! nossa!... -Do corpo, dos pulmes, do corao, saem jorros vermelhos. Vomita. Encarniam-se os homens. Ento aquela grande massa oscila, adorna e morre numa pasta de sangue...B"?          `     `  <    `    A# " B" A#@" Do alto do monte o vigia tem guiado a canoa, acendendo fogueiras para os dirigir com o fumo -para a direita, para a esquerda, para o largo -at encontrarem o bicho, e toda a populao em terra seguiu ansiosa o espectculo.B"        A#!" -J arrearam as velas!...B" A#%," -Trancou a baleia! trancou a baleia!B"  A#.5" -Foi o mestre Francisco que trancou a baleia.B" d A#IP" -Ai, se foi o meu homem que trancou a baleia, hoje um dia de S. Pedro!B"  @ A#/6" E o grito corre de casa em casa pela povoao.B"  A#%," -Trancou a baleia! trancou a baleia!B"  A#4;;" Falta o pior; falta trazer o bicho para terra, o que leva horas, leva o dia. s vezes as canoas so arrastadas para muito longe e preciso puxar a baleia a reboque para a costa. E segue o resto; falta decep-la, cortar-lhe a manta em pedaos para derreter nas caldeiras. Compe-se a canoa, leva-se ao ferreiro o arpo todo torcido. Os cais escorregam besuntados, o barraco deita um fumo pegajoso e ftido; no mar boiam carcaas podres; por toda a parte h ossos de baleia e tripas informes. L de dentro, da cozinha infernal, saem baforadas, clares e fumaceira. As povoaes tresandam a gordura, porque at o fogo das caldeiras se alimenta com vrtebras e torresmos de baleia. A gente passa e v uma cabeorra escura aberta a machado ou um monstro estendido com homens em cima, que o retalham com o ferro largo encabado num pau, enquanto outros, cheios de gordura e de sangue, remexem nos intestinos, onde s vezes se encontra uma fortuna. Duma que vi morta no cais do Pico tinham retirado trinta quilos de massa escura, mbar, que valia muitos contos de ris. Por toda a parte vasilhas ensebadas, barris de leo, montes de ossos, resduos de lenha e toucinho branco cortado em bocados. Um guindaste tira da gua um enorme pedao de baleia. Mais cheiro, mais fumo, naquele aougue monstruoso. Mais fartum... Os homens mal se distinguem, l no fundo do barraco imundo, remexendo com grandes colheres nos caldeires, e outros carregam mantas de banha a escorrer gordura. Clares vermelhos ( o leo que arde e a carne que rechina) iluminam figuras estranhas. At o mar est escarlate.B"            `    `    <    `      <            <     `    `        h A#n" Verde e negro, verde e cinzento, entre torresmos negros. Vida prodigiosa de nvoas, clares vagos e esparsos, tintas delicadas que se entranham umas nas outras, e s vezes um pedao de mar azul-cinzento que me prende e fascina. Mas no me sai dos olhos a posta gorda de carnia e o cheiro a fartum no me larga o nariz, nem aquele navio besuntado que corre o mar, deixando um rasto de fumo e de sangue... B"&   <       <     A# " B"