{\pwi, TahomaCourier New/=  =@UUh ######=#####"######## ######w#X#e## >## A# #$#{## U#&# #L###*Z#W#p#)#p#### ######### \#####R# ##!# # c#S# # ,# F##### N## # ##z##A# " Ar do MarB" D A# " B" A#" Joaquim Canas CardimB" A# " B" A#+" A publicao do excerto Ar do Mar, extrado do livro Na Esteira do Nordeste, foi gentilmente autorizada por Maria Beatriz Drummond Cardim.B"  `    A# " B" A#=D" 1997, Maria Beatriz Drummond Cardim e Parque EXPO 98. S.A.B"    A# " B" A# " ISBN 972-8396-24-4B" A# " Lisboa, Novembro de 1997B"` A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " AR DO MARB" D A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#=" Vamos agora apanhar um pouco de ar do mar. Tambm na superfcie lquida marinha fui caador. Para tanto, adquiri duas espingardas de fogo central, de calibre vinte e de culatra mvel, da marca Hurricane-Meteor. B" <  `  `  ` A#fw~" O projctil era constitudo por um arpo, dividido em duas partes distintas, uma vara que entrava dentro do cano e o arpo propriamente dito que se acoplava extremidade desta vara. Este conjunto pesava cerca de oitocentos gramas e o cartucho, depois de disparado, que impulsionava o projctil, era como disse de calibre vinte, s com plvora e por isso extremamente curto.B"&       `      <  A#X_" Cada espingarda dava um tiro de cada vez e para que o tiro disparado correspondesse eficcia desejada, havia duas pequenas hastes do lado direito da espingarda onde se bobinava uma linha de nylon de quatro milmetros de espessura. As hastes distanciavam-se uma da outra cerca de quarenta centmetros e muito embora elas estivessem fixadas no sentido vertical em relao arma, sempre que o tiro era disparado, elas, por um mecanismo acoplado ao gatilho, ficavam flutuantes, permitindo que a linha bobinada presa a dois pequenos olhais que havia no arpo sasse em conjunto no momento do disparo. B":    <   <        <        A#el" O que fazia a compresso dentro do cano da espingarda e muito perto do cartucho, era uma anilha rudimentar de sola, feita por mim a canivete, porque por cada tiro que se dava ficava destruda, por isso eu tinha que ter sempre uma boa reserva numa lata. A anilha em referncia no podia estar muito justa dentro da alma do cano, nem muito frouxa, porque no primeiro caso representaria um enorme recuo que nos podia atirar para o fundo do barco ou inclusivamente para dentro da gua; e no segundo caso representaria uma ineficcia total para o potencial do projctil, fazendo-o cair muito perto da borda do barco. B"<`      <      < <   d  <    <  A#" Das espcies que eu procurava atirar para capturar, eram na sua maioria constitudas por um mamfero cetceo, conhecido vulgarmente por boto, que em Frana tem o nome de marsouin e no mais do que uma variedade de golfinho. Tambm atirei s toninhas, aos albafazes, ou olho-branco, conhecido por tubaro vaca, pertencente sua famlia, mas no possuindo dentes que pudessem pr em perigo qualquer ser humano. Igualmente atirei a roazes, designadamente queles que, vivendo quase sempre nos esturios dos rios, como o nosso rio Tejo, faziam pequenos passeios at costa do Estoril. Tambm foram minhas vtimas alguns espadartes, que a partir de certa altura deixei de atirar por determinado motivo que oportunamente explicarei. B"D       <           `         A#X>E " Todos os tiros que fazia a estas espcies eram praticamente feitos superfcie da gua, ou mesmo fora de gua quando alguns dos mencionados cetceos davam o seu habitual salto para de novo mergulharem. Eram tiros extremamente difceis e com consequncias imprevisveis. A distncia variava entre trs e doze metros. B"!     `   <      A#{" No caso dos cetceos era necessrio, quando o tiro partia e acertava, estarmos muito atentos ao desbobinar da linha da espingarda que por sua vez na sua extremidade estava ligada a outra ainda mais forte e bem desembaraada no fundo do barco, para poder acompanhar o arranque que a vtima fazia uma vez atingida, comeando a rebocar-nos se o seu ferimento no fosse mortal, ou ento sendo por morte imediata a confuso era muito menor, e a captura mais fcil.B"-`              `  <  A#YAH " Era praticamente uma caa baleia em miniatura, porquanto os botos no pesavam mais do que cento e quarenta a cento e sessenta quilos. Quando ficavam s feridos e j estavam cansados, para lhes acabar com o sofrimento extinguia-os com uma bala certeira de calibre vinte e dois de uma carabina que tinha sempre a bordo. B"!         `    A#K  " Caava-se esta espcie baleando e aguardando pela direco do mergulho que viessem a aflorar superfcie em local para onde nos tnhamos deslocado com o barco previamente, por intuio, ou ficvamos espera parados que qualquer uma dessas presas nos aparecesse. B"  `     `     A#$" Era um tiro muito difcil por ter de se observar as regras elementares no disparo e evitar que a linha, quando projectada, se prendesse a um brao, ou p, ou at a qualquer parte do barco; mas muito mais difcil era o tiro s toninhas, que s poderia ser realizado perseguio paralelamente manada e em alta velocidade, das quais apenas capturei trs, sendo duas da mesma manada e um double, porque atirei com as duas espingardas, uma aps a outra, acertando-lhes e atando as extremidades das linhas correspondentes a cada arpo certeiro uma outra e colocando bias de superfcie para melhor localizar e evitar um reboque descontrolado do barco, uma vez que cada qual se dirigia na sua direco. Acabei por as recuperar e traz-las mortas para bordo, o que representou um momento pico pela forma como foi conseguido. A outra que capturei foi de forma isolada e, consequentemente, deixei-me rebocar, dando-lhe a maioria de cabo possvel para evitar que se soltasse. B"Z  `              <     < d    ` `   <      A#g{" Qualquer destes mamferos cetceos, uma vez atingidos pelo arpo, so difceis de escapar; a sua estrutura ssea era muito forte e como o arpo tem na extremidade duas guias que depois de entrar no corpo do animal se abrem por traco, normalmente nenhum destes trofus se perde, ao contrrio do que sucede com os espadartes por serem peixes e o seu esqueleto ser cartilagneo. B"&   `   `      <   A#r" Caando espadartes, estes representavam para mim um valioso trofu para alm do seu valor gastronmico, mas emocionalmente ficavam muito quem das presas que capturei e descrevi anteriormente. O espadarte era por mim procurado superfcie das guas, sonolento, nos fins de Agosto e grande parte do ms de Setembro. O mar tinha que estar absolutamente calmo para se ver a extremidade das suas barbatanas, dorsal e caudal. B"(                 A#^U\ " Quando os localizvamos distncia, aproximvamo-nos com toda a prudncia para que no despertassem com facilidade, uma vez que a razo de estarem superfcie se devia a terem-se superalimentado, afastando-se das profundezas para apanhar -quem sabe -um pouco de sol, embora o corpo fusiforme ficasse submerso, mas visvel de muito perto. B"!          `  @ A#$&" O tiro devia ser efectuado de preferncia lateralmente, pondo claramente em risco sermos observados pela viso lateral do referido peixe, mas mais eficaz do que um tiro de frente ou de cauda, porque o seu alvo era menor como se pode deduzir. O tiro, para ser eficaz, tinha de ser disparado com um desconto em funo da sua barbatana dorsal, por medida visual e a mais dois teros dessa medida para baixo da linha de gua onde se via a barbatana, porque caso contrrio o tiro passava-lhe por cima e no o atingia. Devia-se isto ao facto da refraco da gua nos provocar um erro tremendo se atirssemos praticamente ao que estvamos a ver, porque ele nos parecia perto da superfcie, quando estava mergulhado mais de meio metro. Os processos seguidos para a sua captura eram completamente diferentes dos utilizados para os golfinhos; o peixe atingido dirigia-se para o fundo rapidamente e tnhamos de lhe dar o mximo de cabo para evitar que se desprendesse por fora da traco que se fazia no cabo no momento da sua descida em velocidade tresloucada. B"_           <    `       <   <  <          ` A#M " Cheguei a ter de desenrolar cerca de noventa braas de cabo, e na sua extremidade colocar um bido de cinquenta litros vazio, para no perder o seu local. O bido era pintado de cores berrantes para melhor localizao, embora o persegussemos sem nunca o perder de vista. B"     `  `   A#LS" No trajecto dessas noventa braas estavam pequenas bias de cortia pintadas de branco e vermelho, no s para dificultar um pouco a descida do peixe para as profundezas, mas tambm para caso ele morresse mais rapidamente ou se soltasse, as referidas bias servissem de localizao para a sua recuperao, ou apenas para o conjunto do projctil e linha que era bastante caro. Lembro-me de uma vez um espadarte ter-se desferrado e uma dessas bias que estava bem pintadinha, s pela frico da gua e presso subaqutica, quando veio ao de cima no trazia qualquer reminiscncia de tinta.B"7   <   `        <   <    < A#|" O processo de captura era bem diferente daquele com que se procedia com os mamferos cetceos; tnhamos que aguardar com pacincia que o peixe morresse no fundo do mar e s depois de experimentarmos a linha, puxando-o vagarosamente e no sentindo qualquer traco para o fundo, que continuvamos lentamente a pux-la at que se comeava a vislumbrar transparncia da gua o nosso trofu que tanto desejvamos. O peixe, quando era metido a bordo estava morto. B"-       `           A#8" Esta variante de caa e especialmente ao espadarte, pratiquei-a durante poucos anos. Dois factos, para mim de grande relevncia, fizeram-me abdicar quase que simultaneamente deste desporto. B"<        h A#Za*" Quanto ao espadarte, havia acesa polmica em jornais e revistas de caa mencionando o meu nome, porque na opinio dos pescadores conceituados, mais conhecidos por pescadores desportivos, o espadarte no devia ser caado, mas sim pescado, com o que concordava, mas nas nossas guas ainda ningum tinha conseguido pescar nenhum, nem ao corripo, nem profundidade com isca, com grandes carretos, cana e linhas apropriadas. Quando fiz a declarao para os rgos de informao de que quando fosse pescado desportivamente o primeiro espadarte (porque as barcas de Sesimbra apanhavam com arpo manual vrios indivduos desta espcie), renunciaria a este tipo de caada. Um grande pescador desportivo muito conhecido conseguiu-o e eu de imediato cumpri a minha palavra, ficando apenas a caar botos at que tambm me apareceu o dia no e desisti de tudo. Uma fmea desta espcie, j morta e dentro do meu barco, deu luz um feto, que nasceu vivo; ainda lhe fiz a circunciso umbilical e consegui chegar com ele vivo ao Aqurio do Dafundo, mas morreu dias depois e ento renunciei definitivamente a este tipo de caa.B"i       <    <   `  `            <        <      A#W^" Antes de terminar, quero contar dois casos que foram verdadeiramente picos e nicos. B" `  `   A#pw" O primeiro, foi porque ao fim da tarde, em Cascais, arpoei um roaz que mais tarde vim a saber que pesava 1200 quilos. Fui rebocado de popa at Carcavelos, o que me ia afundando o barco, tal era a sua fora, e a, por a linha ter encostado a algumas rochas, partiu-se, tendo perdido o arpo completo e grande parte da linha. O roaz prosseguiu na sua rota e eu voltei para o Clube Naval de Cascais. No dia seguinte pus um anncio no Dirio de Notcias, dando alvssaras para que se algum pescador encontrasse o roaz a dar costa moribundo me telefonasse. Eu tinha apenas por objectivo recuperar o arpo e apreciar o animal. B":    ` <   < `      <        A#)0" No dia seguinte publicao do anncio, alguns amigos meus responderam-me de brincadeira, que tinham o roaz l em casa. Um at me perguntou se o roaz se chamava Roaz da Silva, at que me chegou a chamada desejada. Era da Costa de Caparica, onde o roaz se encontrava exposto em plena praia e onde os martimos cobravam dez tostes por pessoa para o ver de perto, tendo instalado uma grande corda quadrangular para que ningum se aproximasse a mais do que o necessrio. Dei mil escudos de recompensa, o roaz foi desmanchado, mas primeiramente pesado. B"5       <  `   `         A#pw" O outro caso passou-se ao largo do cabo da Roca, com o qual me assustei verdadeiramente. De sbito, vejo quatro monstros marinhos muito perto do meu barco e dada a sua dimenso nem sequer tentei aproximar-me porque sabia da ineficcia da minha linha, a qual tinha sido experimentada por mim e cuja traco no suportava mais do que cinco mil quilos. Eles deveriam ter muito mais. Eram quatro lindos exemplares de roazes de bandeira, conhecidos no estrangeiro por orca epolard ou orca gladiator, como denominada por grandes investigadores martimos e estudada profundamente por Mr. Bird no seu livro Bird no Plo Sul. B":  @    <           <      A#{" Um destes grandes animais tinha uma enorme ferida dorsal, certamente produzida por grande luta que tivera, e dada a sua enorme capacidade respiratria que permite a esta espcie permanecer debaixo de gua cerca de vinte minutos sem respirar, conseguem em pequenos grupos afogar uma enorme baleia, que no tem capacidade respiratria para mais de cinco minutos em imerso, com o nico objectivo de comer a lngua e deixar todo o resto do corpo como despojo. B"+ <     < `         < A#k" Segundo Mr. Bird, trata-se do nico animal marinho mamfero cetceo, que, se puder, ataca o homem. Os seus dentes enormes, do tamanho de grandes bananas e em mais do que uma fileira, so altamente perigosos e o mesmo Mr: Bird afirma que nas superfcies geladas dos plos perfuram o gelo a tentar encontrar algum urso ou foca que por acaso descuidadamente esteja deitado sobre o gelo flutuante. B"&   <     <  `      A#&" Tive muita sorte, porque uma destas orcas passou a rasar por debaixo do meu barco sem o ter virado, mas entortou-me de tal maneira o veio do hlice que s consegui chegar a Cascais muito vagarosamente e com o perigo de no chegar por estar muito afastado da costa. O barco que sempre utilizei nestas digresses era feito de aglomerado de madeira e envernizado, com motor a gasolina dentro de bordo, com a potncia de 180 HP, que consumia 25 litros de gasolina por hora, velocidade de trinta e cinco a quarenta milhas quando era necessrio. B"2    `                 A#D " Mais tarde utilizei uma pequena traineira que mandei construir, mas rapidamente cheguei concluso de que no era eficaz e necessitava sempre de levar a reboque o meu gasolina para ter maior facilidade de manobra e inverso de marcha. B"<       <  A#" A carne dos botos e das toninhas tinha bom aproveitamento, bem como os espadartes. A carne dos primeiros era equivalente carne da baleia, mas mais tenra e por isso de valor comercial assaz razovel, entregando o produto da sua venda na lota aos meus arrais e por vezes Misericrdia de Cascais. Com os espadartes, os resultados financeiros eram muito superiores, mas nunca fiquei com um centavo do produto da sua venda, reservando-o sempre para os fins que mencionei anteriormente. B"0<   <            `    A##" Assisti a vrias lutas marinhas, designadamente entre o tubaro-martelo e o peixe-frade, verdadeiramente sangrentas, mas o espadarte, a despeito da sua enorme espada, que eu saiba s causou uma vtima humana, que foi em Sesimbra quando era puxado para bordo de uma traineira e que devido a duas foras concorrentes, constitudas pelo puxar do pescador e o impulso que o peixe deu ao exalar o ltimo suspiro, fez com que acidentalmente a espada frontal do espadarte entrasse pela barriga dentro do pescador, que veio a falecer no hospital. B"5 `    ` <   `       <     A#8" Noutros rumos, mas apenas na qualidade de observador numa tripulao, tomei parte durante oito dias na caa baleia. Foi durante a ltima Grande Guerra Mundial, mais propriamente em 1942. B"  <     A#" Embarquei em Sesimbra, no Persistncia, que deslocava trezentas toneladas e fazia parte de um trio de barcos de uma companhia piscatria, que tinha em Tria o seu plano inc1inado para desmanchar as baleias, cujo aproveitamento certamente conhecido por todos e quele tempo extremamente rentvel. Os outros dois barcos chamavam-se Ruth e Alt e havia ainda um rebocador que servia para levar as baleias capturadas por qualquer desses barcos para o cais do plano inclinado de Tria. B"-            `   <   A#~" Andmos a mais de quarenta milhas da costa. No tombadilho do Persistncia estavam pintadas as cores da nossa bandeira nacional e luzes de cdigo para demonstrar que pertencamos a um pas neutral. No podamos utilizar receptores ou transmissores de rdio, mas to-somente uma pequena galena donde recebamos instrues de um vigia que estava no cabo Sardo e que de binculo em punho nos informava, tanto quanto possvel, da zona mais adequada para encontrar baleias. B"0          < <   ` <  <  D A#4" Durante esta semana embarcados vi mais de cem baleias, podendo algumas ser repetidas; nunca vi nenhuma isolada, cheguei a v-las aos pares e por vezes quatro ao mesmo tempo.B"        A#k" Quando inicivamos a sua perseguio tresmalhavam-se, como natural, e o mestre da caa decidia a qual se poderia tentar atirar em funo da sua dimenso, por haver uma lei que proibia que se capturassem baleias com menos de vinte metros de comprimento e duzentas e cinquenta toneladas de peso. Por este facto sempre se escolhia a maior ou se rejeitavam por no terem as propores adequadas. B"&`    `    ` `  `    A#h" proa do barco havia um canho de calibre quatro e meio, que tambm disparava por plvora, mas o seu projctil era constitudo pelo arpo propriamente dito e uma carga explosiva na ponta final, para, uma vez dentro do animal, rebentar e abrir as hastes terminais; pesava ao todo trinta e dois quilos em vez dos oitocentos gramas que pesava o arpo completo das minhas espingardas. B"&`      `         A#_\c " A eficcia do tiro rondava a distncia entre a proa do barco e o animal num mximo de vinte metros, o que representava ser a baleia um animal de muito boa vontade para oferecer a sua vida e s correr esse risco muito perto do barco. Por isso, muitos fracassos ocorreram, porque a maior parte das vezes o artilheiro no tinha hiptese de disparar. B"!          <   A#9" O quadro tcnico para a caa da baleia era constitudo pelo comandante do barco, o mestre da caa, que no meu barco era aoriano, o artilheiro e o vigia, que ia quase sempre no cesto da gvea. B"      `  A#u" O primeiro tiro que nos foi possvel disparar apanhou de raspo a cabea de uma grande baleia, arrancando-lhe a mandbula e no ficou presa. O bater da sua cauda na gua e o remoinho que fez volta do barco foi de tal envergadura que julgmos ser o ltimo dia da nossa vida; at a gua entrou nos pores vinda de cima do tombadilho. Por casualidade nenhum de ns foi parar ao mar, com excepo do gato de bordo que morreu afogado. B"(   `            @ A#:" Errmos um cachalote ao quarto dia de faina e na mesma noite arpomos ao entardecer uma enorme baleia que, segundo opinio do comandante do barco, tinha sido um erro porque a noite se aproximava. B"< ` <  <    A#o" A baleia arpoada pelo dorso no morreu. O cabo de sisal que se desenrolou j tinha mais comprimento do que quatrocentos metros e no incio da sua desbobinagem tinha que estar a ser regado com mangueira para evitar as fascas que saltavam por frico de cabo contra cabo no enorme guincho onde estava bobinado. Assim andmos toda a noite sem dormir, na expectativa de que a baleia cansasse, o que no aconteceu.B"(   < `    `        h A#RY" Com o motor do barco parado andmos horas e horas deriva, rebocados pela baleia, at que ao raiar da manh um contratorpedeiro alemo perguntou por sinais luminosos de cdigo, por que estvamos constantemente a mudar de rumo. O comandante do contratorpedeiro, depois de inteirado do que se estava a passar e como estava de proa entre o nosso barco e a baleia e queria atravessar rapidamente, ordenou-nos que cortssemos imediatamente o cabo para que no viesse a ensarilhar-se no seu hlice, ao que tivemos que obedecer, perdendo uma presa que deveria vir a render mais de trezentos contos. B"7 <                     A#G " Ainda no refeitos do que tinha acontecido na noite e madrugada, no dia seguinte, por volta do meio-dia, com vaga larga assistimos a um duelo entre um avio stuka alemo e uma traineira inglesa armada. A luta foi curta e no houve vtimas a lamentar.B"          D A#m" Assisti ao espectculo mais fabuloso que se possa imaginar, que a corte e cpula entre um casal de baleias. Elas saem na vertical de dentro do mar, em corpo inteiro, como dois foguetes e em pleno ar existe uma aproximao bem calculada dos rgos genitais, a ponto de quando caem na gua quase sempre o acto est consumado, mas tm sempre que repetir esta proeza se no o conseguirem primeira vez. B"(   `   ` <      <   A#!" Tambm muito curioso descrever como nos apercebemos da aproximao, perto do barco, da baleia que perseguimos. O pescador aoriano chamava-lhe a vem gua verde. A razo era simples. A aproximao da baleia superfcie na zona equivalente ao seu corpo, dava uma transparncia gua diferente da restante, fazendo um risco esmeralda como se fosse um local menos profundo, enquanto o pescador aoriano, de joelhos, quando a via surgir superfcie, pedia a Nossa Senhora que ela desse mais do que um bufinho para ter tempo de dar ordem ao artilheiro para disparar. Normalmente, no era primeira respirao que se atirava, quase sempre se aguardava pela segunda ou terceira, visto a primeira atrapalhar o artilheiro, dado que o buraco respiratrio da baleia no alto da cabea, ao abrir a sua vlvula saa ar quente que pelo contacto com a superfcie da gua mais parecia um enorme repuxo.B"S    <  `                           A#I  " Muitas vezes a baleia s dava dois ou trs bufinhos e como no estava em boas condies para ser atirada, o mestre da caa ou da pesca, em vez de soltar um palavro, s dizia: pacincia. Os pescadores e caadores de baleias aorianos so muito educados. B"  <        h A#acj " At que chegou o dia, o penltimo da nossa digresso, em que se conseguiu arpoar e apanhar uma baleia. Media vinte e trs metros e pesava cerca de trezentas toneladas, tendo-lhe sido iada a cauda com um guindaste e o focinho com outro, para lhe podermos comear a insuflar o ar comprimido, atravs de lanas prprias, necessrio para ela poder flutuar. B"!<         <    A#SZ" O cheiro que as baleias exalam da sua vlvula respiratria qualquer coisa de nauseabundo, mas curiosamente uma espcie de gelatina que cobre toda a sua pele, um dos melhores produtos que conheo para lavar seja o que for. No cheira mal e um detergente de primeira ordem. Colhemos vrios baldes dele para lavarmos a roupa e as mos, como autntico sabonete lquido. Entretanto, o rebocador contactou-nos por galena, veio recolher a nossa baleia para nos libertar os movimentos, levou-a para Tria e ns regressmos a Sesimbra e a nossa ltima refeio teve de ser extremamente racionada. B":<      <     <  <     `    ` A#@ " Assim se passaram oito dias no alto mar, que recordo com grande saudade os momentos fantsticos que vivemos e sobretudo porque mais dois companheiros, que comigo fizeram parte dessa tripulao, j faleceram h muito tempo. B"     `    A#S,3 " difcil de imaginar e de descrever, independentemente do perigo em que andmos, das belezas de que desfrutmos. As auroras e os crepsculos foi o que mais me impressionou. Eram momentos em que o mar se apresentava na sua imensido e quietude como um gigante silencioso e aparentemente inofensivo. B"     d      A#ZFM " Os saltos de alguns peixes que por vezes saam muito fora de gua, as primeiras aves marinhas que apareciam logo ao raiar da manh e antes que as tarefas de bordo comeassem a ter a sua maior expresso, vinham-nos saudar com o seu bom-dia, enchendo-nos de esperanas, eliminando o silncio da noite por vezes bem angustioso. B"!    `      `    A#4" As cabriolas dos peixes e os voos airosos das variedades de gaivotas e alcatrazes tambm ao cair do dia se repetiam como se viessem despedir-se de ns at ao dia seguinte. B"  ` ` `   h A#" S uma nica noite foi passada na companhia de outros barcos quando nos aproximmos mais de terra, por coincidir terem sido detectados naquele local vrios cardumes de sardinha e estarmos j nas nossas guas territoriais, muitas traineiras ali estacionaram, lanaram os seus cercos e ento foi por ns presenciado um fenmeno invulgar. Por estarmos estacionados durante algum tempo entre os barcos de pesca e a terra, deu-nos a sensao momentnea de que a terra estava do lado oposto realidade. B"0 < `  ` `               A#s" As vozes dos pescadores, as luzes dos barcos de pesca, que eram muitos e algumas telefonias tocando para os distrair, davam a sensao de termos nossa frente uma pequena aldeia em que toda a sua populao passava a noite acordada e a terra que nos parecia o mar em toda a sua imensido, porque apesar de estarmos em guas em que o perigo da guerra no existia, para o nascente no se via qualquer luz nem vida aparente. B"(                h A#" Tambm recordo que numa tarde em que havia um pouco de nevoeiro ter passado a uma certa distncia do nosso barco, uma enorme manada de falsas orcas, nome por que so designados estes mamferos cetceos, por serem de muito menores dimenses do que a orca gladiator. Estes animais em fria desordenada, mataram enorme quantidade de peixes na sua passagem, subaproveitando-os, porquanto superfcie apareceram enormes bocados de variedades piscatrias, tais como corvinas, pescadas, etc., a boiarem, que estavam todas mutiladas. B"2 `  `         <  <       A#NU " Este tipo de golfinho tambm descrito pelo cientista Bird de uma forma exaustiva e at certo ponto macabra. medida que vo nascendo e j no necessitam da companhia das mes, juntam-se em grupos de idades semelhantes e, ao que parece, percorrem todos os mares do nosso planeta. A sua vida relatada como sendo proporcionalmente efmera, porquanto quando atingem a maturidade e se reproduzem, o ciclo de agrupamentos novos prossegue, e aos grupos velhos advm-lhes uma nostalgia que os leva ao suicdio colectivo. Assim, j deve ter sido observado por muitas pessoas que vo ao cinema, em jornais de actualidades, grupos destes monstros marinhos lanarem-se sobre as praias sem quererem voltar para o mar, apesar de muitos guardas costeiros com competentes cordas os puxarem e meterem dentro de gua. Voltam sempre para terra para morrerem. B"P          ` <           `          h A#s" Depois de permanecerem algumas horas sobre a areia, dada a sua estrutura ssea que foi calculada pela Natureza para suportar a dimenso do seu corpo, mas dentro de gua, uma vez que estacionam em terra e apesar de poderem respirar livremente, falta-lhes o meio aqutico para diminuir o seu peso e consequentemente as costelas comeam a cravar-se-lhes nos pulmes, provocando-lhes hemorragias que lhes trazem a morte desejada.B"+    `           <  D A#H " Pessoalmente nunca constatei este fenmeno; quero-me referir ao suicdio colectivo e no sua passagem desencabrestada por esse mar fora como se estivessem a cumprir uma obrigao, de darem a volta do Mundo, conhecendo todos os mares e depois morrerem. B" <      <  d A#K  " Claro que isto leva anos a acontecer, porquanto s se suicidam depois de adultos e de procriarem e no com facilidade em tempo que se percorre os mares de todo o nosso planeta, havendo um certo sincronismo entre o tempo que levam a percorr-los e a sua maturidade. B"        d    A#" Ao finalizar estes apontamentos sobre a caa martima de superfcie, cumpre-me mais uma vez mencionar que ela s se torna vivel em dias de mar calmo, com ou sem vaga larga e por este facto s escolhida como data e poca ideal os fins de Agosto e ms de Setembro, que quando h praticamente ausncia de vento de qualquer quadrante, permitindo-nos ver, por vezes a grandes distncias, uma pequena rolha de cortia a flutuar abandonada por qualquer barco na sua passagem, juntamente com outros detritos. B"2  <       <  `       ` d A#gz" Os ventos continentais, designadamente do quadrante de nordeste, comeam a ser pouco frequentes e de uma maneira geral s tornam o mar encapelado at poucas milhas da costa, tendo constatado muitas vezes que ao afastar-me de barco, embora com um pouco de mar encapelado motivado pelo referido vento, a cerca de cinco a seis milhas praticamente no h vento nesta poca do ano. B"&<          `     A# " B"