{\pwi, TahomaCourier New/=  =@6?######6#####"###################### ###6# ##5##r##########5#)# ##!#u###!g#I#'##;##l##,#0##&# #$######.#(#(# #!###E######### ## ## # # # ## #####"######\#"#2#!#$###)######'####A#" A Terra Fora do StioB" A# " B" A#" Maria Gabriela LlansolB" A# " B" A#8" A publicao de A Terra Fora do Stio e de O Presente Eplogo, extrados, respectivamente, dos livros Pregos na Erva e Da Sebe no Ser, foi gentilmente autorizada por Maria Gabriela Llansol.B" `        A# " B" A#6=" 1997, Maria Gabriela Llansol e Parque EXPO 98. S.A.B"   A# " B" A# " ISBN 972-8396-31-7B" A# " Lisboa, Dezembro de 1997B"` A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#" A TERRA FORA DO STIOB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#y" O mar acabara para os olhos de Macrio, naquela noite. A areia frgil tambm acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela eroso, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que os peixes morriam e o amor, s vezes, principiava. Pousava nas mulheres o cheiro do mar, impregnava-as at aos ossos atravs das saias e das blusas, de modo que nos seus corpos se abraavam ondas solidificadas de gua. B"(               < A#p" Na mesa, a candeia luzia para os copos, para os pratos lisos da sopa, iniciais como pias de baptismo. Sagrava o jantar, fechava-o no nicho da sua luz hermtica de azeite. Ana emparedava-se em imobilidade e em silncio, enquanto as crianas, volta da toalha franjada engoliam, vorazes, o caldo quente das primeiras colheres. Falavam rpidas, entre si, unidas pelo gozo da sopa, alheias aos adultos quase ausentes. B"& `              A#$" -Hoje levaste uma bofetada. B" A# " -No me doeu. B" A##" -Gosto daqueles rebuados. B" A# " -Os do papel azul? B" A#!" -No, os do papel verde. B" A# " -Deixei cair um ao mar. B"` A# " -Onde estavas? B"@ A# " -No barco? B"  A# " -No rochedo. B" A#" -Guardaste os papis? B" A#6=" -Guardei. Tenho um verde, um encarnado e outro azul. B" ` A#C " Depois do jantar deitaram-se ao acaso nas duas camas que lhes eram destinadas. No para dormirem, mas para rebolarem sobre as cobertas, ultrapassarem as orlas dos colches e escorregarem, maneira de peixes, para as tbuas do cho. B"   <     @ A#2" Macrio aperfeioava entre os dedos um cilindro de papel e de tabaco. Paula apareceu janela, cortada pelo peito, com o louro dos cabelos reprimido pelo leno preto. B"    <  A#5<" -Ana, emprestas-me um pcaro de azeite? - perguntou.B" < A#" Cheirava a peixe, s suas visceras, s suas escamas, ao seu sal. A janela enquadrava um pedao da noite (mar igual ao rochedo, rochedo igual areia, areia igual s casas). O escuro sobrepunha-se ao leno, e ento quase poderia crer-se que era a noite que desataria os cabelos de Paula. Tinha sido um dia de nvoa inconstil, deitada por cima das casas como um sombrio mar suspenso -a ilha apertara-se entre dois mares com todas as direces cortadas pelo mesmo fatdico cinzento aqutico. Por olhar Paula, Macrio respirava um perfume vazado no interior do seu prprio corpo, no o desvendado perfume martimo, mas o odor do campo aberto em vegetao indecifrvel. B"<         <           `   ` A#%ry" -No berrem - disse para as crianas (porque as crianas no paravam e esfrangalhavam com gritos a sua apario).B"     A#2" Ana pegou na bilha do azeite e inclinou-a, a custo, sobre o pcaro. O azeite resvalou numa tira espessada pelo frio, de luz quase extinta, e encheu-o at aos bordos. B"   `   A# " - tarde - lembrou Ana. B"` A#q" Duas das crianas pegaram numa bacia, deitaram nela gua tirada do cntaro e colocaram-na sobre o soalho, entre as camas. Despiram os casacos. As suas camisolas cavadas apareceram, furadas por buracos atravs dos quais as suas costas se avistavam recortadas em formas incertas. Mas os buracos, porque a carne das crianas floria leve, numa pureza de pele e de sangue, no provocavam a costumada impresso de misria. B"(  `              A#!" -Bem hajas -disse Paula. B" A#," Ouvia-se o mar, como em quase todos os pontos da ilha, o mar que desde a infncia lhes colara bzios nos ouvidos e sal nas plantas dos ps. B"      A##*" -No entras? - perguntou Macrio. B"`  D A##*" -No. Tenho a loua para arrumar. B"`  D A#5<" -Eu tambm tenho a loua para arrumar - ciciou Ana. B"  A#)0" -So muitos pratos. Eles no te ajudam? B"   A# " -s vezes. B"  A#9" As crianas tinham, acabado de se lavar. Deitaram-se nas suas camas, a olhar na mesa a luz esvaziada e, mais alm, a janela que j no guardava Paula, mas o branco enigma do nascimento do dia. B"       A#!(" -Lavaram-se mal - censurou Ana. B"  A#&u|" Despejou a bacia, impeliu devagar a areia que aderira ao seu fundo e limpou com um pano a gua entornada no soalho. B"    `   A#" As crianas riam. Macrio abriu a porta para o quintal, com o seu riso a empurrar-lhe as costas. Ao fundo, a capoeira espalhava emanaes -de esterco, de talos apodrecidos na lama -que se sobrepunham melopeia das ondas. Macrio imaginava-se no campo, sob o abrigo da terra contnua, sem rochedos a precipit-lo, a cada instante, na viso do mar. De cada lado do quintal havia uma casa: as casas de Elisa e de Paula, de telhados curtidos, como a de Macrio, de espao e de tempo. B"-                  A#" Na cadeira de palha, Paula esperava Macrio. Via-o da janela, encostado capoeira, a camuflar com a sua placidez o amor de todas as noites. Via tambm, mais perto, o gato de Elisa que tinha os olhos fendidos de fulgor verde, de pedao de vitral partido encastoado em preto. A sua presena era inslita, como a de todos os gatos numa paisagem campestre. As suas ris brilhavam com luz prpria -e eram superiores aos vitrais -, mas colada sua mesma superfcie, sem distncia -e eram inferiores aos vitrais. B"0       `            A#gn!" Do quarto, Elisa contemplava, de vez em quando, as duas chamas estticas que substituiriam com vantagem porque no se apagavam, a da lamparina de azeite em frente de Santa Ana a ensinar a ler Nossa Senhora. (Macrio entrou. O gato entrou depois. Paula sorria. O gato assistiu sua trivialidade de movimentos, apenas raros para quem os fazia.) Era um grupo de madeira pintada em que havia uma evidente desproporo entre o adulto e a criana. Elisa detestava as vestes de pau, hirtas sob os seus dedos, para alm das quais no pressentia o esboo consolador dos corpos, mas o corao da madeira informe. Assentava sobre uma peanha com ornatos que prolongavam, pela sua brandura, a expresso dos glbulos de vidro que eram os olhos da Virgem e de Santa Ana. Sobre o seu colo abria-se, em ngulo raso, um livro espesso, com as duas pginas trespassadas de linhas obscuras.B"S       <                     <     D A#I" Elisa pegou numa bacia, meia de farelos e, s escuras, dirigiu-se capoeira. Apoiou-a na cintura para, com a mo livre, tactear o trinco. Percebiam-se os vultos das aves enegrecidas pelo seu afastamento transitrio da luz e inchadas pelo apartar nocturno das penas. O arame da rede, unido ao escuro, privava a capoeira de lados. Elisa entrou, de espduas dobradas, comprimida pelo telhado de zinco, a respirar o calor sujo dos poleiros. Confortava-a O resguardo da rede em que no se introduzia, defendido pelos excrementos e os corpos das galinhas, o odor espacial do mar. Sentou-se numa pedra. A janela de Paula continuava iluminada. Se, de repente, ela ou Macrio destrancassem a porta e o gato sasse -o nico a andar s claras nas trevas -, perguntar-lhe-ia: O que viste? Deu com um p no alguidar que balouou sem entornar os farelos. tarde correra na orla do mar, por debaixo do voo das gaivotas, atrs de uma galinha que fugira. Os seus ps achatavam a praia com pegadas hmidas e frias. Macrio levava de rastos uma rede e dissera: Pelo feitio das pegadas na areia, os homens eram todos iguais. Elisa apanhara a galinha, que esvoaava nos seus braos. Ofereces-me esse peixe?, perguntara Macrio. No, respondera Elisa. Ofereo-te Paula. Macrio largara as redes e dera-lhe uma bofetada. Elisa sentira os calos dos seus dedos aderirem-lhe face e depois despegarem-se-lhe da pele. Comeara a chover uma chuva remota, mar transubstanciado apenas pela sua asceno. Subira o plano inclinado da pedra, por entre as chamas geladas dos rochedos. Passavam caixas com peixes espalmados a comungarem a sua ordem pstuma. A galinha tinha um corao vivo (era um prazer, na ilha, uma mo enterrada num corpo de plo ou de penas). Transpusera a casa de Macrio depois de ter dito: Boa tarde, Ana. Voltara atrs e dera-lhe a galinha. Deixara-a, de patas atadas, no centro da mesa, Ana agradecera-lhe com um princpio de consolao a gastar-se-lhe nos olhos.B"     <         `  `  `               `   `       `         d           <         ` A#'." Saiu da capoeira e bateu porta de Ana. Estava apenas encostada, como a deixara Macrio. As crianas dormiam margem da luz de azeite, surpreendentes na sua imobilidade. Ana deitara-se na cama grande, a meio do colcho. Ocupava metade do seu lugar, metade do de Macrio, de vela prpria noite. Matava os gestos comuns quando se aquietava entre os lenis, ressuscitava-os quando vestia a primeira pea de roupa. Dentro em breve a luz apagada converteria o quarto em vcuo disponvel, onde as crianas e as mulheres representariam os seus sonhos. B"5         <  <  d       @ A# " -O teu pai est no mar? B"` A#;B" -Est -disse Elisa. -No gosto de dormir em casa sozinha. B"` <  D A##" -Fazes bem -respondeu Ana. B" A##ls" Desviou o corpo para a parede e Elisa deitou-se, ao comprido, vestida, sobre o lugar despojado de Macrio. B"     A# " B" A#,3" Macrio empurrou o barco. Meia hora depois despenhou as redes no mar. O nevoeiro permanecia, agarrado ao cu e s guas mveis, a comunicar-lhes a sua lgida solido. Por debaixo e roda do barco, Macrio tinha a certeza de que milhares de peixes se esquivavam, mas a sua presena em fuga no o acompanhava. Na mo, mesmo vivos, eram frios e a sua pele escamosa, coberta de visco, era uma pele para escorregar e no para persistir. Esboos de gaivotas piavam. Os seus pios zarpavam o cu imediato e anunciavam por cima do nevoeiro uma outra consternao.B"7  `            `        A#>0" Macrio gritou. O ar era surdo ou fechava os seus gritos numa cpsula. Acercava-se cada vez mais dos seus olhos uma mortfera espessura. Acendeu um fsforo e o peso da nvoa quase lhe interceptou a luz. O barco balouou e vazou-o no mar (um copo a vazar o seu contedo num tanque). Macrio contraiu-se, de medo e de frio, e pensou: Por agora estou salvo. Ops o corpo ao mar e, sobretudo, escurido. Bracejou, procura da carne lquida das ondas, e do sentido da ilha, no seu ondear oculto. Comeou a viagem dolorosa em que os braos e as pernas tinham de vestir a resistncia da madeira e comportar-se como remos. Era uma viagem sem paisagem, atravs da ausncia. Macrio apavorava-se nela, agudamente servo de si prprio. Media, braada a braada, a gua que o exilava da ilha, at que os joelhos tocaram os rochedos e as casas apareceram, levantadas ao alto sobre a neblina. Ultrapassou as rochas e estendeu-se no princpio da praia, desamparado como uma concha. Ao inspirar, a areia aderia-lhe s mucosas das narinas, pontiaguda e incmoda. O cabelo e o rosto pingavam. O stio em que repousava a cabea, pouco a pouco encharcado, tornou-se compacto. Macrio recomeou a respirar. A areia j no esvoaava para lhe tapar o nariz. B"x` `   `                 <    d        < <       `    `   A#" Ouviu ento a voz de Elisa: Macrio, e sentiu as suas mos desconhecidas espalmarem-se-lhe nas costas. Voltou o corpo. Elisa vestia de preto, semelhana de quase todas as mulheres da ilha. O decote circular e um pouco afastado do pescoo era um osis de brancura que vertia inesperada nudez sobre o seu luto. Macrio levantou-se. A roupa unia-se-lhe pele. Ela cobriu-o com o seu xaile, tecido em l e em calor, de franjas cerradas. Macrio agarrava-se-lhe aos ombros, molhava-lhe o vestido preto com a sua gua salgada. B"2         `    <      ` A#&-" Elisa bateu porta. Ana veio abrir. B"  A# " -O que foi? B"  A#$+" Elisa desatou o abrao de Macrio. B"  D A#" -Deixo o xaile -disse. B"< A##" -Bem hajas -respondeu Ana. B" A#&" Elisa viu o seu olhar intil. B" A# " B" A#8" Era uma manh de sol, sol de mar, de luz e sal. Os gritos das crianas -Ol, ol, oli -convergiam, a acabar-se, para a Escola. Barcos amarravam areia o seu instinto desumano de partida. B"     <  A#.5" -O Inverno acabou -disse Macrio. -Ainda bem.B"`  A#(/" -Foi um Inverno frio -respondeu Elisa. B"  A#(/" -Um Inverno duro -acrescentou Macrio. B"  D A#L " Ia um pouco adiante. De vez em quando parava ou olhava para trs, a estimular os passos mais vagarosos de Elisa. Derramava em si prprio a silhueta traada com firmeza em tecido negro, porque no trazia xaile. Tinha olhos castanhos, limitados, e por isso quase fartos. B"   `    `     A#!(" -Uma vez deste-me uma bofetada. B"  h A#" -No queria bater-te. B" A#-" Os vestgios dos seus ps marcavam uma fronteira ao mar, mas as guas no a respeitavam. As pegadas alagavam-se, cobertas de seixos e de limos. B"  < < `  A#EL" -Estamos quase no fim da praia -disse Elisa. -A mar comea a subir.B"`   A#" Macrio olhou para trs, a verificar se a distncia j os ocultava ou ainda os descobria. Passou um brao em redor dos ombros de Elisa. A gua rasava-lhes os tornozelos, a perfumar-lhes os ps. Voltaram a cabea para a direita e viram o cu e o mar, as duas profundidades inversas, repletas da cor uma da outra. Rochas eram o sinal do fim da praia e do incio da falsia. Sentaram-se na areia pesada que, todavia, comungava a leveza do sol. A mar subia, inadivel. E a blusa de Elisa fez-se ao mar. B"0  <       @ <         A# " B" A# " B" A# " B" A# " O PRESENTE EPLOGOB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " Numa noite B"  A#$" (antiga medida itinerria), B" A# " o besante, B"  A# " que adquirira B" A# " uma cor B"  A# " paralela B" D A# " do verde, B"  A# " dotou-se B" D A# " de um fulgor B" A# " de ousadia, B"  A# " ou ostentao, B" A# " e subindo vigia B" A#$" nos dedos imateriais do ser B" A#%" (imagem apropriada do sopro) B" A#")" que o insuflava de determinao, B"  A# " assemelhou-se, B" A# " pouco a pouco, B" A##" a um grito de terra firme. B" A# " B" A#" Visto pela vigia, o mar, em plena ondulao, transformou-se em nosso guarda e, alm dele, no havia horizonte. Foi o bastante para que Juan confessasse que sempre o intrigara a nossa herana errante e martima e que, de um momento para o outro, pressentia que o prprio ermo martimo nos ia reter para sempre. Parecia que framos atrados a uma vaga imvel, e Juan pediu-me que eu lhe transmitisse O besante, convencido de que se o trocssemos com o mar, seramos soltos em terra firme. B"2 @ < `   `   `     ` <   `  A#\c" No encontrei palavras minhas para o dissuadir, e um pensamento arcaico respondeu por mim: B"     D A#")" O mar e a terra no so humanos, B"<  D A#29" tratam todos os seres como se fossem funmbulos. B"  A#!(" O espao entre a terra e o mar, B"  A#$+" no se assemelha ao fole da forja? B"  A# " Por dentro, est vazio, B"` A#" mas nunca se esvazia. B" A#)0" Quanto mais o accionam, mais ele sopra. B"   A#" Quanto mais se fala, B" A##*" mais cerrado o nosso labirinto. B"   A#" Mais vale que o homem B" A#%" repouse no interior do fole. B" A#'." E conclu, para que me compreendesse: B"  A#" -No foi o mar, Juan, B" A#" mas o seu movimento, B" A#+" que nos foi dado em herana. B"