{\pwi, TahomaCourier NewÐ/à=ð      â=â@8™™wÖ@####+#######"############9##>#8#<#4#:#<#=#8#2#<#6#8#4#7#<#=#9#2### #v#ò#8´#-œ#;##ð#ÿ#0#ò#P#' #Ÿ#%Ø#S—#Bâ# #x# #,#6œ# #Å#§#Ÿ##Í#Ù#?#Ì# (#®#À#Í#7º#Ò# #¬#‰## J#+#“#.Þ#g#>v#œ# k#o#4#i##´#u#Ü# +# L#Å#m#Õ#"#‡#: #n#t##x#Ž#¦#W#º#œ#z#]# ý#{# A#s#Ê##£#Ï#g#:# K#:#—#q##¿#Í#¿#r#¯#}# ã#º#T# Z#‡# 6##y# -#–#!##A# ÿÿ"åæ Capitania de São VicenteÄB"` A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ José de AnchietaÄB"@ A# ÿÿ"åæ ÄB" A#+2ÿÿ"åæ Actualização de texto de António Lampreia.ÄB"` d A# ÿÿ"åæ ÄB" A#$ÿÿ"åæ © 1997, Parque EXPO 98. S.A.ÄB"ð A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ISBN 972-8396-23-6ÄB"ˆ A# ÿÿ"åæ Lisboa, Novembro de 1997ÄB"` A# ÿÿ"åæ ÄB" A#")ÿÿ"åæ Versão para dispositivos móveis: ÄB"`   A#$ÿÿ"åæ 2009, Instituto Camões, I.P.ÄB"ð A# ÿÿ"åæ ÄB" A#  ÿÿ"åæ ***ÄB"l A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ CAPITANIA DE SÃO VICENTEÄB"` A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A# ÿÿ"åæ ÄB" A#9@ÿÿ"åæ Ao Padre Geral de São Vicente, ao Último de Maio de 1560ÄB"ô   A# ÿÿ"åæ ÄB" A#>Eÿÿ"åæ Descrição das coisas naturais da Capitania de São Vicente. – ÄB" ð H A#8?ÿÿ"åæ Divisão das partes do ano. -Tempestades. - Disputa com ÄB"¨ ð A#<Cÿÿ"åæ um feiticeiro. - Enchentes dos rios. - Saída dos peixes. – ÄB"¨  H A#4;ÿÿ"åæ Boi-marinho. - Narração de uma tempestade no mar. –ÄB"¨ ` A#:Aÿÿ"åæ Entrada dos peixes. - Sucuriúba. - Jacaré. - Capivara. – ÄB"ô   ° A#<Cÿÿ"åæ Lontras. - Caranguejos. - Modo indígena de curar o cancro. ÄB"„ `   A#=Dÿÿ"åæ - Jararaca, cascavel, coral e outras serpentes. - Piolho de ÄB"  A#8?ÿÿ"åæ cobra. - Aranhas. - Tatoranas. - Panteras. - Tamanduá. ÄB"¬ `  h A#29ÿÿ"åæ -Anta. -Preguiça. - Gambá. - Ouriços. -Macacos. -ÄB"ð Ð A#<Cÿÿ"åæ Tatu. - Veados. - Gatos-monteses, gamos e javalis. - Lhama ÄB"d < d A#6=ÿÿ"åæ do Peru. - Bicho da taquara. - Formigas. - Abelhas. –ÄB"ð ` A#8?ÿÿ"åæ Moscas e mosquitos. - Papagaios, beija-flores e outros ÄB"ô „ ü A#4;ÿÿ"åæ pássaros. - Guará e outras aves marinhas. -Aves de ÄB"¨ ` A#7>ÿÿ"åæ rapina. - Anhima. - Galinhas silvestres. - Mandioca e ÄB"ð „ A#<Cÿÿ"åæ «Yeticôpe» – Erva viva. - Árvores medicinais. - Pinheiros. ÄB"„ ô  Œ A#=Dÿÿ"åæ - Raízes Medicinais. - Pedra elástica. - Conchas e pérolas. ÄB"ð ô  D A#9@ÿÿ"åæ - Espectros nocturnos ou demónios. - Raras deformidades ÄB"` d Ô A#29ÿÿ"åæ entre os Brasis. - Criança monstruosa. -Um porco ÄB"¨  A# ÿÿ"åæ hermafrodita. ÄB"ø A#  ÿÿ"åæ ÄB"$ A# 'ÿÿ"åæ A paz de Cristo seja connosco. ÄB"Ð  h A#fv}ÿÿ"åæ Pelas tuas cartas, que há pouco nos chegaram às mãos, vimos, Reverendo Padre em Cristo, que desejas (para que se atenda ao voto e desejos de muitos) que escrevemos acerca do que suceder connosco que seja digno de admiração ou desconhecido nessa parte do mundo. Conformando-me com tão salutar mandado, cumprirei diligentemente, quanto me for possível, a prescrita obrigação.ÄB"&„ Ì „  Ì „ ô ¨ „ ô  ¨  ô  h A#…òùÿÿ"åæ Em primeiro lugar certamente (o que fiz de passagem nas anteriores cartas) tratarei desta parte do Brasil, chamada São Vicente, que dista da Equinocial vinte e três graus e meio medidos de nordeste a sudoeste, na direcção do sul, na qual a razão da aproximação e do afastamento do Sol, as declinações das sombras e como se fazem as diminuições e crescimentos da Lua, não me é fácil explicar; por isso, não tocarei nessas coisas, nem vejo nela razão para que sejam diferentes do que aí se observa. ÄB"0ð ¨ Ì  ` Ì ð < ¨ „  „ ð  Ì ¨ ð   D A#u´»8ÿÿ"åæ Na divisão, porém, das partes do ano é coisa inteiramente diversa: são na verdade de tal maneira confusas, que não se podem facilmente distinguir, nem marcar o tempo certo da Primavera e do Inverno: o sol produz com os seus cursos uma certa temperatura constante, de maneira que nem o Inverno é demasiadamente rigoroso, nem o Verão incomoda pelo calor; em nenhuma quadra do ano faltam os aguaceiros, pois de quatro em quatro, de três em três, ou de dois em dois dias, uns por outros, alternadamente, se sucedem a chuva e o sol; costuma contudo em alguns anos a cerrar-se o céu e a escassearem as chuvas, de tal modo que os campos se tornam estéreis e não dão os costumados frutos, não tanto pela força do calor, que não é excessivo, como pela carência de água; algumas vezes, também, pela muita abundância de chuvas apodrecem as raízes que temos para alimento. Os trovões no entanto fazem tão grande estampido, que causam muito terror, mas raras vezes arremessam raios; os relâmpagos lançam tanta luz, que diminuem e ofuscam totalmente a vista, e parecem de certo modo disputar com o dia na claridade; a isto se juntam os violentos e furiosos pegões de vento, que sopra algumas vezes com ímpeto tão forte, que nos leva a juntarmo-nos alta noite e corrermos às armas da oração contra o assalto da tempestade, e a sairmos algumas vezes de casa para fugir ao perigo de sua queda; vacilam as habitações abaladas pelos trovões, caem as árvores e todos se aterram. ÄB"Œ Ì ¨  ¬ `  ð ô „ Ì ð ð `  ð ` ô ð  ` ¬  ð ô ð ð  „ „ Ð  ð ` Ì < Ð ð   ð Ì ô  < „ `  ¨ < ¨  ô ð ô  D A#/œ£-ÿÿ"åæ Não há muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do Sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então o vento sul a envolver pouco a pouca a terra, até que, chegando ao Nordeste, de onde quase sempre costuma vir a tempestade, caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra. O que porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dançar e beber como se tudo estivesse em completa tranquilidade. ÄB"qÌ ð ð < ¬ ð ð ð „  ¨ ¨ ô ¨ ð < ð Ì „ Ð „ ¬ „ ð „  Ì „ ` ` ` ð ¨ < ð < Ì Ð <   < ¨ „ ` A#Ž;ÿÿ"åæ Vou entretanto referir um facto, que por si mesmo julgarás se mais digno de dor do que de riso; lamentarás certamente a cegueira e escarnecerás da loucura. Poucos dias depois de se passarem estas coisas, numa certa aldeia de índios, a que vim com alguns sacerdotes aplicar a medicina da alma e do corpo a um enfermo, encontrámos um feiticeiro de grande fama entre os Índios, o qual, como o exortássemos muito que deixasse de mentir e reconhecesse um só Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, depois duma (por assim dizer) longa disputa, respondeu: "Eu conheço não só Deus, como o filho de Deus, pois há pouco, mordendo-me o meu cão, chamei o filho de Deus que me trouxesse remédio; veio ele sem demora e, irado contra o cão, trouxe consigo aquele vento impetuoso, que soprou há pouco para que derrubasse as matas e vingasse o dano que me causara o cão». Assim falou ele, e respondendo-lhe o sacerdote: «Tu mentes!», não puderam conter o riso as mulheres já cristãs às quais ensinámos as coisas da fé, escarnecendo de certo da estultícia do feiticeiro. Omito outras coisas porque não são para aqui; menos aquilo que não fora fora de propósito para adverti-lo, nem a frase «tu mentes» parece proferida com menos reverência, pois os Brasis não costumam usar de rodeio algum de palavras para explicar as coisas; assim, a palavra «mentes» e outras nesse sentido são ditas sem ofensa alguma; pelo contrário, pronunciam claramente, sem nenhum vexame, as palavras que significam os órgãos secretos de um e outro sexo, a coabitação, e outras da mesma natureza. ÄB"”„ <  ¨ < ` ` Ì  „ ð  ð ð Ì ð ¨ ð ` Ì  Ì ð ¨ ô ð  Ð ` ð Ì ` ð ¨ ð ð ¨ ` „ ¨ ` Ì ¨ < ¨ ¨ Ì  ð „ Ì ¬ ô  <  ô   h A#Œÿÿ"åæ A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende; porque, quando lá é Primavera, aqui é Inverno, e vice-versa; ambas, porém, são de tal modo temperadas, que não faltam no tempo de Inverno os calores do sol para contrabalançar' o rigor do frio, nem no estio, para tornar agradáveis os sentimentos, as brandas aragens e os húmidos chuveiros, posto que esta terra, situada (como já disse) à beira-mar, seja regada em quase todas as estações do ano pelas águas da chuva. ÄB"5 ` Ì „ ¬ ð  Ì  „ ð Ì Ð < Ð „ < ` ` Ì  h A#Äð÷ÿÿ"åæ Todavia, em Piratininga, que fica no interior das terras, a 30 milhas do mar, e é ornada de campos espaçosos e abertos, e em outros lugares que se lhe seguem para o Ocidente, a natureza procede de tal maneira que, se os dias se tomam extremamente cálidos por causa do calor abrasador (cuja maior força é de Novembro a Março), a vinda da chuva lhes vem trazer refrigério: coisa que aqui acontece agora. Para explicar isso em breves palavras: no Inverno e no Verão há grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores do sol, de sorte que ou precedem de manhã ao estio, ou vêm à tarde. Na Primavera, que principia em Setembro, e no estio, que começa a vigorar em Dezembro, as chuvas caem abundantemente, com grande tormenta de trovões e relâmpagos.ÄB"Fð ð < ð ð ` ð „ ¨ ¨   ` ¨  Ì  ¨ Ì Ì ` ` Ì Ì Ì ¨ ô  Œ A#Èÿÿÿ"åæ Então, há não só enchentes de rios, como grandes inundações dos campos; nessas ocasiões, uma imensa multidão de peixes, que saem da água para pôr ovas, deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas, e compensam por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão dos rios. Assim, este tempo é esperado com avidez, como alívio da passada carestia: a isto chamam os Índios pirâcema, isto é, «a saída dos peixes»; porquanto, duas vezes cada ano, quase sempre em Setembro e Dezembro e algumas vezes mais frequentemente, deixam os rios e metem-se pelas ervas em pouca água para desovar; mas no estio como é maior a inundação dos campos, saem em mais consideráveis cardumes e são apanhados em pequenas redes e até mesmo com as mãos, sem apresto algum. ÄB"F  ð   Ì Ì ð „   „  ô ¨ ð ð ` ˆ „ Ì Ì Ì   „ ` „ A#”07ÿÿ"åæ Finalmente, os grandes calores do Verão são moderados pela muita abundância de chuvas; no Inverno, porém (passado o Outono que, começando em Março, acaba numa temperatura agradável), cessam as chuvas; a força do frio torna-se horrível, sendo maior em Junho, Julho e Agosto; nesse tempo vimos muitas vezes não só as geadas espalhadas pelos campos a queimarem árvores e ervas, como também a superfície da água toda coberta de gelo. Então esvaziam-se os rios e baixam até ao fundo, de sorte que se costuma apanhar à mão, entre as ervas, grande porção de peixes. ÄB"7 Ð Ð ` „ `   ` ` ð ð  ð Ð <  ð  ð ¨   A#…òùÿÿ"åæ Aos 13 de Dezembro, completando o Sol sua carreira em Piratininga, chega a maior altura; esse dia, que é muito longo e em que não há declinação alguma de sombras, dura 14 horas e não passa além do Sul; daí, porém, volta para o Norte, em cuja retirada soi ser mais rigoroso o calor e febres agudas com dores de lado molestam os corpos. O undécimo dia de Junho, que é curtíssimo, e no qual o Sol está muito afastado de nós, dura (segundo creio) cerca de dez horas desde o romper do dia até o ocaso. ÄB"0¬ ô ` ¨ Ì ð Ì Ì  ¨ „ ` ô ð Ì Ì  Ì d A#PWÿÿ"åæ Até aqui falámos do movimento do tempo; passo agora a tratar de outras coisas. ÄB" < „ A# ''ÿÿ"åæ Há um certo peixe, a que chamamos «boi-marinho», os Índios denominam-o iguaraguâ, frequente na Capitania do Espírito Santo e em outras localidades para o norte, onde o frio ou não é tão rigoroso, ou é algum tanto diminuto e menos que entre nós; é este peixe de um tamanho imenso; alimenta-se de ervas como o indicam as gramas mastigadas presas nas rochas banhadas por mangues. Excede ao boi na corpulência; é coberto de uma pele dura, assemelhando-se na cor à do elefante; tem junto aos peitos uns como dois braços, com que nada, e por baixo deles tetas com que aleita os próprios filhos; tem a boca inteiramente semelhante à do boi. É excelente para comer-se, não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe: da sua gordura, que está inerente à pele e mormente em tomo da cauda, levada ao fogo faz-se um molho, que pode bem comparar-se à manteiga e não sei se a excederá; o seu óleo serve para temperar todas as comidas; todo o seu corpo é cheio de ossos sólidos e duríssimos, tais que podem fazer as vezes de marfim. ÄB"b` ¨  „ ¨ „ ` ¨ ¨ < Ì ¨ ð ð  Ì Ì < ð „  Ì ð ô ð ô „ ` ð ¨ ð  ð  ð Ì ` ¨ ¨ A#0Ÿ¦ÿÿ"åæ Convém relatar aqui algumas coisas que vêm a propósito e que, escritas há mais de dois anos, pelo mau êxito da incerta navegação, julgo não terem chegado aí. ÄB"Ì ð  < ð ˆ A#þØß%ÿÿ"åæ Tendo eu e quatro irmãos saído da cidade do Salvador (que também é chamada Baía de Todos-os-Santos), depois de fazermos 240 milhas por um mar tranquilo à feição do vento, chegámos a uns bancos de areia que, estendendo-se para o mar na distância de 90 milhas, e oferecendo uma como muralha em linha recta, tornam difícil a navegação; aí deitando a cada passo a sonda, gastámos todo o dia, e fundeada a embarcação, pelo meio de estreitos canais entrincheirados por montes de areia, por onde se costumava navegar; no dia seguinte, porém, reunidos felizmente todos à tarde, os marinheiros, julgando-se já livres de perigo, tranquilizaram-se e não pensaram mais nele, quando de repente, sem ninguém o esperar, o leme salta fora dos eixos e encalha o navio; sobrevem ao mesmo tempo uma repentina tempestade de vento e aguaceiros, que nos atira para apertados estreitos; o navio era arrastado sulcando areias e, por causa dos frequentes solavancos, temíamos que se fizesse todo em pedaços. ÄB"]` Ì  Ì ¨ „ ð Ì   < Ì ¨  Ì `  ð „ ¨ d Ì d <   ¨ ð Ì  Ì Ì ð <  ð  ° A#.—žSÿÿ"åæ Entretanto, levados para um lugar baixo e inclinando-se a embarcação toda para um lado, lembrámo-nos de implorar o socorro divino, expondo as relíquias dos santos, que connosco trazíamos, e lançando às ondas um Agnus Dei, aplacou-se a tormenta; caímos em um pego mais fundo, onde, deitando-se a cada passo a âncora e colocado o leme em seu lugar próprio com pequeno trabalho e com grande admiração de todos nós, esperávamos ficar tranquilos até o romper da aurora. Era um lugar fechado de todas as partes por cachopos e montículos de areia e somente para o lado da proa havia uma estreita saída; quando no entanto se começava a descansar, eis que tudo se perturba na ameaçadora escuridão da noite, os ventos sopram com violência do sul, caem imensos aguaceiros, e, revolvido em todos os sentidos, o mar abalava violentamente a embarcação, a qual, já gasta pelo tempo, pouca resistência oferecia: aberta embaixo para as ondas, estava tudo coberto d'água; esgotava-se o porão em cima para as chuvas quatro ou cinco vezes por hora e, para dizer a verdade, nunca se esvaziava; ninguém podia conservar-se a pé firme, mas andando de gatinhas e para dizer corriam uns pelo tombadilho, outros cortavam os mastros, aqueloutros preparavam as cordas e amarras: neste comenos, a lancha, que estava atada à extremidade do navio, foi arrebatada pelo mar, partindo-se o cabo que a prendia; então começámos todos a tremer e a sentir veemente terror: via-se a morte diante dos olhos; toda a esperança de salvação estava posta em uma corda e, quebrada esta, a nave ia inevitávelmente despedaçar-se nos baixios que a cercavam pela popa e pelos lados; corre-se à confissão: já não vinha cada um por sua vez, mas dois a dois e o mais depressa que cada qual podia. Em uma palavra, fora fastidioso contar tudo que se passou, rompeu-se a amarra: «Está tudo acabado!» gritaram todos. Todavia, no meio de tudo isso não deixávamos de confiar com toda a fé em Deus, se bem que cada um contasse com certeza morrer ali, e mais curasse salvar a alma do que o corpo; confiávamos não só nas relíquias dos santos, como também no patrocínio da Santíssima Virgem Maria, na véspera de cuja apresentação tinham acontecido estas coisas. ÄB"ÐÌ   ¨ ¨ „ ô ¨ Ì  ` Ì   < ð Ì ð ô   „ ô ¨   ð Ì ô <  ¨ Ì  Ì Ì ` ð „ ` ð ¨  Ì <  „ ¨ „ Ð ` ` „ „ ð < ð `  ¨ ` ð ¨ `  Ð  Ì  ¨ Ì ` ` Ì ð Ð  ¨ < Ì ð <   A#ÁâéBÿÿ"åæ Muitas vezes (creio) nos veio isto ao pensamento; a mim, decerto, e muita consolação me dava a ideia de que, naquela mesma ocasião, muitos dos nossos irmãos que andavam por diversas regiões, tinham todos o espírito alçado para Deus e cujas orações, subindo à presença divina, pediam auxílio para nós outros, e que, por seus suspiros e gemidos, finalmente movida, a divina piedade pudesse trazer-nos os benefícios da sua costumada misericórdia. Entretanto, não nos servindo das velas nem de auxílio algum humano, éramos levados sãos e salvos pelo meio dos escolhos, para onde a corrente nos arrebatava, e esperando a todo o momento que se despedaçasse a embarcação, expostos à chuva, flagelados por tremenda tempestade, vendo a morte a cada instante, passámos toda aquela noite sem dormir. Ao romper do dia, recobrando algum alento, consertámos da melhor maneira as velas e, procurando a terra, desejávamos ao menos encalhar o navio na praia; mas, levados por uma corrente mais favorável do que esperávamos, chegámos a um porto bastante seguro, habitado por índios, onde nos acolheram eles benignamente, e nos trataram com humanidade. Finalmente, quão grande fora a misericórdia do Senhor para connosco, a qual não duvidamos que nos fosse propícia, não só pelos merecimentos e preces da bem-aventurada Virgem, como dos santos, cujas relíquias trazíamos connosco, ficou bem manifestado pelo desgraçado naufrágio de outro navio que nos precedera, o qual, depois de ter saído para lugares de vau, impelido por um vento próspero, arrebatado todavia não só pelo vento sul, mas também pela violência do mar, encalhara na praia e se despedaçara; com seus aparelhos e utensílios nos ressarcimos dos que havíamos perdido, e concertámos o nosso já meio despedaçado navio. ÄB"¥ ¨ Ì <   ð ð  „ ¨ `   Ì Ì ð ` ð Ì ô ¨ ¨ ô  < Ì ð Ì „ ð ¨ ¬     ð ð < ð Ì ˆ Ì Ð <  ` Ì Ì  Ì ð  ð ¨ ð ¨  < ô ¨ ð ` „ ü A#Ë ÿÿ"åæ No dia seguinte ao da nossa arribada, visitando eu com alguns irmãos as habitações dos índios, foi-nos apresentada uma criancinha quase prestes a expirar e falando nós a seus pais para baptizá-la, eles anuíram de boa mente a isso; baptizámo-la, e algumas horas depois foi levada para o Céu. Feliz naufrágio que conseguiu tal resultado! Aí demorámo-nos oito dias por causa dos ventos contrários que reinavam; e como pouca provisão nos sobrasse para o resto da viagem, lançaram os marinheiros a rede ao mal" e colheram de um só lanço dois dos tais bois-marinhos, os quais, apesar de serem tão grandes não romperam a rede, quando um só deles era suficiente para rasgar e despedaçar muitas redes: e assim, provendo-nos com fartura a munificência divina, fizemos o resto da viagem. ÄB"KÌ ¨ Ì ¬ ¨ „ ð Ì d    d ¨ Ì ¨ ð ð ð ð ¨ ¨ ð  ` ¨ <  ¨   A#&xÿÿ"åæ Falo, porém, disso só de passagem; torno de novo ao propósito e, como começara a fazer menção de peixes, prosseguirei. ÄB" ` ¨ ð < ø A#L ÿÿ"åæ Em certa quadra do ano apanha-se uma infinita quantidade de peixes; a isso os Índios chamam pirá-iquê, isto é, «entrada dos peixes»; porquanto vêm inúmeros deles de diversas partes do mar, entram para os lugares estreitos e de pouco fundo do mar, a fim de porem as ovas. ÄB"  ð Ì  ð ¨    A#,–,ÿÿ"åæ O que vou agora referir é admirável, mas unanimemente comprovado e verificado por notória experiência: dez ou doze dos maiores sobem à tona d'água como exploradores e olhando e examinando o lugar todo, se porventura lhes fazem alguma ofensa, voltam, como que pressentindo a traição, para conduzir a outra parte o seu rebanho. Se porém (o que já foi acautelado, para que com certeza nenhum mal façam aos que têm de entrar) tudo lhes parece estar em segurança e vêem que o lugar é apropriado, introduzem, voltando, uma inúmera multidão de peixes por estreitas entradas (pois que já todo o sítio está cercado, deixando apenas uma pequena abertura, a qual se pode com facilidade fazer, por causa da pouca porção de água); encurralados aí, e embriagados com o suco de um certo lenho que os Índios chamam timbó, são apanhados sem o mínimo trabalho muitas vezes mais de doze mil peixes grandes. Isso é de tal sorte comum em muitos lugares que, quando os apanham em abundância, os deixam atirados na praia. Os peixes são mui saudáveis nesta terra e podem-se comer todo o ano sem prejudicar a saúde, e até na doença, sem receio da sarna, que aqui não existe em parte alguma. ÄB"n„ Ì Ì Ì  ¨ ð ` ð < `  ¬ ` ð ð Ì ˆ < ô  ð  Ì ð Ì „ ˆ ð „ Ì ð  ð ð Ð ô ð  Ì  `  ø A#oœ£6ÿÿ"åæ Encontram-se no interior das terras cobras a que os Índios denominam sucuryúba, de maravilhoso tamanho: vivem quase sempre nos rios, onde apanham para comer os animais terrestres, que amiúde os atravessam a nado; saem porém às vezes para a terra e os acometem nos atalhos, em que costumam correr daqui para ali. Não é fácil acreditar-se na extraordinária corpulência destas cobras; engolem um veado inteiro e até animais maiores; isto tem sido observado por todos; alguns dos nossos irmãos o viram com espanto, e até um deles vendo uma serpente a nadar no rio, pensou que era um mastro de navio. Dizem que não têm dentes e só se enroscam nos animais, matam-os introduzindo-lhes a cauda pelos ânus, e triturando-os com a boca os devoram inteiros. A este respeito contarei coisas estupendas e não sei se serão críveis, mas, tanto os Índios, como os portugueses que passaram muitos anos de sua vida nesta parte do globo, uno ore as afirmam. Estas cobras engolem, como disse, certos animais grandes, que os Índios chamam tapiiara, de que tratarei ao diante; como porém o seu estômago não os pode digerir, caem por terra como mortas, sem poderem mover-se, até que apodreça o ventre juntamente com a comida: então, as aves de rapina rasgam-lhes a barriga e a devoram toda com o seu conteúdo; depois as cobras, disformes, meio devoradas começam a reformar-se, crescem-lhes as carnes, estende-se-lhes por cima a pele, e voltam à antiga forma. ÄB"‡ð  < ¨ Ì  „  ¨ ð ¨   „ Ì  Ì   ð Ì ` Ì d „ Ì ô „ ð „  `  ¨ ô Ì < ¨ ð Ì ð ` ð < „ ð ¨ Ì „  < ¨ < ü A#‹ ÿÿ"åæ Há igualmente lagartos que vivem do mesmo modo em rios, e a que chamam «jacaré». São estes animais de excessiva corpulência, de modo que podem engolir um homem; cobertos de escamas duríssimas e armados de agudíssimos dentes; passam a vida na água; às vezes sobem até as ribanceiras onde acontece serem mortos enquanto dormem, não todavia sem bastante custo e perigo, como sucede com o elefante. As suas carnes, que são boas de comer-se, cheiram a almíscar, máxime nos testículos, que é onde está a maior força do cheiro. ÄB"2¨ ð ð ¨ ` < ¬ < ð ð < ô ð ð Ì ð  Ð  < A#zÅÌÿÿ"åæ Há também outros animais do género anfíbio, chamados capiyuára, isto é, «que pastam ervas», pouco diferentes dos porcos, de cor um tanto ruiva, com dentes como os das lebres, excepto os molares, dos quais alguns estão fixos nas mandíbulas e outros no meio do céu da boca; não têm cauda; comem ervas, donde lhes provém o nome; são próprios para se comer; domesticam-se e criam-se em casa como os cães: saem para pastar e voltam para casa por si mesmos. ÄB"-Ì ` < Ð  ¨ Ì ð ð ` ¨ ¨ ¨  ` ` <   A#²§®ÿÿ"åæ Há muitas lontras, que vivem nos rios, das suas peles, cujos pêlos são muito macios, fazem-se cintos. Há também outros animais quase do mesmo género, designados no entanto por nome diverso entre os Índios e que têm idêntico uso. Há pouco tempo tendo um índio atravessado com a flecha a um deles e saltando na água para apanhá-lo, apareceu uma multidão de outros que estavam debaixo d'água, acometeram-no com unhas e dentes, de tal maneira, que trazendo com dificuldade o que havia morto, saiu quase em pedaços, e passaram-se muitos dias primeiro até que lhe sarassem as feridas. Estes animais são quase pretos, pouco maiores que os gatos, munidos de dentes e unhas agudíssimas. ÄB"?ð „  ¨   „ „ ð < ð < ` ¨ „  „ <  „   Ì ` ð A#°Ÿ¦ÿÿ"åæ Seria fastidioso referir os géneros dos caranguejos, e suas variedades e diversas formas. Deixo de falar dos que são terrestres, que vivem em cavernas subterrãneas, que para si mesmos cavam; Em toda a parte são frequentes excepto entre nós; de cor verde-mar e muito maiores do que os aquáticos. Alguns dos aquáticos estão sempre debaixo d'água: a natureza deu-lhes os últimos braços planos próprios para nadar; os mais cavam cavernas para si nos braços de mar (mangues); destes, alguns têm as pernas vermelhas e o corpo negro; outros são um tanto azulados e cheios de pêlos: outros ainda têm duas cabeças, uma quase do tamanho do corpo todo e outra proporcional a este. ÄB"?Ì ¨ ¨ ¨     „ ð ð  ¨ ¨ Ì Ì Ð   ¨ Ì ô  ô ô A#Žÿÿ"åæ O «cancro» (que é aí de tão difícil cura) é facilmente curado aqui pelos Índios. Dão a essa doença o mesmo nome que entre nós; curam-na, porém, deste modo: aquecem ao fogo um pouco de barro bem amassado, com que se fazem vasos, e tão quente quanto a carne possa suportar o aplicam aos braços do cancro, os quais morrem pouco a pouco, e tantas vezes repetem este curativo até que, mortas as pernas, o cancro se solta e cai por si. Isto foi há pouco provado com experiência em uma escrava dos portugueses, a qual sofria desta doença. ÄB"2Ì ¨  ¨ `  ¨ ¨ ð   <   ð „  ˆ ¨ ø A#<ÍÔÿÿ"åæ Até aqui tenho falado dos animais que vivem na água; tratarei agora dos terrestres, alguns dos quais são desconhecidos dessa parte do mundo. Primeiramente direi das diversas espécies de cobras venenosas. ÄB"„ ¨ ˆ ð   ` ˆ A#Ùàÿÿ"åæ Algumas, chamadas «jararacas», abundam nos campos, nas matas e até mesmo nas casas, onde muitas vezes as encontramos: a sua mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas, posto que se lhe possa aplicar remédio e evitar algumas vezes a morte. Isto acontece com certeza entre os Índios: se forem mordidos uma só vez e escapam à morte, mordidos daí por diante, não só não correm risco de vida, como sentem até menos dor, o que tivemos mais de uma vez ocasião de observar. ÄB"-d `  ð ô Ì Ì ` ` ð ð ð Ì ¨ ¨ Ì < ô A#˜?Fÿÿ"åæ A outra variedade denominam bóicininga, que quer dizer «cobra que tine», porque tem na cauda uma espécie de chocalho, com o qual soa quando assalta alguém. Vivem nos campos, em buracos subterrâneos; quando estão ocupadas na procriação atacam a gente; andam pela grama em saltos de tal modo apressados, que os Índios dizem que elas voam; uma só vez que mordam, não há mais remédio: paralisam-se a vista, o ouvido, o andar e todas as acções do corpo, ficando somente a dor e o sentimento do veneno espalhados pelo corpo todo, até que no fim de vinte e quatro horas se expira. ÄB"7Ì ¨ ð < ` ð  ¨  ð ˆ „ Ì Ì < ¨ „ „ Ð Ì „ ` A#;ÌÓÿÿ"åæ Entretanto, quase todos os índios torram ao fogo e comem dessas cobras e de outras, depois de lhes tirarem a cabeça; assim como também não poupam os sapos, lagartos, ratos e outros animais desse género. ÄB"¨  ¨ `  ¨ ð   A#R(/ ÿÿ"åæ Há também outras admiravelmente pintadas de várias cores, de preto, de branco, de encarnado semelhante ao coral, as quais os Índios apelidam ibibobóca, isto é, «terra cavada», porque elas no rojarem fendem a terra à maneira de toupeiras; estas são as mais venenosas de todas, porém, mais raras, ÄB"@ ¨ ¨ Ð   <  Ð ð ¨  ° A#4®µÿÿ"åæ Há também outras que são denominadas pelos Índios bóiguatiára, isto é, «cobras pintadas», por causa das suas diversas variedades de pintura; estas são igualmente mortíferas.ÄB"` ` ð     Œ A#8ÀÇÿÿ"åæ Há também outras quase semelhantes, chamadas «jararaca» e também bóipeba, isto é, «cobras chatas», porque, quando feridas contraem-se e ficam mais largas; a mordedura dessas é também mortal. ÄB" ô ð `  ` ð  A#|ÍÔÿÿ"åæ Há ainda outras, que se chamam bóiroiçanga, isto é, «cobras frias», porque a sua mordedura comunica ao corpo um grande frio; estas, conquanto maiores do que as outras, são menos venenosas (por isso que não causam a morte); têm toda a boca armada de dentes agudos, o que não se dá com as outras, pois as outras têm apenas quatro dentes curvos, tão subtis e ocultos que, se não se observa com cuidado, poder-se-á supor que os não têm; neles é que está a peçonha.ÄB"-< Ì ð Ì  Ì Ì ¨ < ¨ ð „ „ ð < Ì <   A#wºÁ7ÿÿ"åæ Todas estas, porém, excepto as que são venenosas, das quais há, não só grande cópia, mas também grande diversidade, são tão frequentes que não se pode viajar sem grande perigo: vimos cães, porcos e outros animais sobreviverem, quando muito, seis ou sete horas à mordedura delas. Não raro temos caído em semelhantes perigos, tendo-as encontrado muitas vezes correndo pelos caminhos de um lado para o outro em alguns povoados, a que nos tem chamado o nosso dever. Uma vez, voltando eu para Piratininga de certa povoação de portugueses, para onde a obediência me fizera ir com outro irmão a ensinar a doutrina, encontrei uma cobra enroscada no caminho; fazendo primeiramente o sinal da cruz, bati-lhe com o bastão e matei-a. Pouco depois começaram três ou quatro pequenos filhos a andar pelo chão; e admirando-nos de onde aqueles que antes não apareciam tinham saído tão de repente, eis que começaram a sair outros do ventre materno: e sacudindo eu o cadáver, apareceram outros filhos ainda em número de onze, todos animados e já perfeitos, excepto dois. Ouvi também contar, por pessoas dignas de crédito, de uma outra em cujo ventre foram encontradas mais de quarenta. Todavia, no meio de uma multidão tão grande e frequente delas, o Senhor nos conserva incólumes, e confiamos mais nele do que em contraveneno ou poder algum humano; só descansamos em Jesus, Senhor Nosso, que é o único que pode fazer com que nenhum mal soframos, andando assim por cima de serpentes. ÄB"ŠÌ „ < ` Ð ¨ „ Ì ð Ì „ ¨ ð Ì ¨ Ì Ì Ì „  Ì ð „ Ì  < < ` ` ˆ  < ð ` Ì < ` ` ¬  ¨ „ ¨  < ô  ô  Ì „ ð ð ð  A#}ÒÙÿÿ"åæ Há também outras como pequenos escorpiões, que habitam em certos montes de terra feitos pelas formigas: a estas chamam os Índios bóiquíba, isto é, «cobras de pés pequenos», piolhos de cobras; são vermelhas, pouco maiores que aranhas: têm duas cabeças, como os caranguejos, e a cauda recurvada, na qual têm uma unha também curva, com que ferem. Não matam, mas incomodam extraordinariamente, de maneira que a dor que produzem não passa antes de vinte e quatro horas. ÄB"-ô ` Ì ð ` ð „ ð   ð ¨   D < ô Ì  A#P& ÿÿ"åæ O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas, outras cor de terra, outras pintadas, todas cabeludas; julgarias que são caranguejos, tal é o tamanho do seu corpo: são horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer diante de si veneno. ÄB" ð Ì Ð ¨ d ð Ì ð „ ô A#3¬³ÿÿ"åæ Um certo animalejo do género dos vespões, inimigo destas, persegue-as encarniçadamente, mata-as com o ferrão, leva-as para pequenos buracos que cava para si, e aí as come.ÄB"ð ð   „ Ì A#k‰ÿÿ"åæ Há aqui umas aranhas de género diverso, tendo também um nome diferente do destas, e que exalam muito mau cheiro: são frias por natureza, não saem das Casas, senão quando o sol está muito ardente; por essa razão os que bebem delas, pois as mulheres brasílicas muitas vezes soem preparar bebidas envenenadas, são acometidos de um excessivo frio e tremor; para isso o vinho é excelente remédio. ÄB"&< ð ð  ô   ¨ ` ¨ Ì Ì  Ì ¬ A#Íÿÿ"åæ Há outro bichinho quase semelhante à centopeia, todo coberto de pêlos, feio de ver-se, de que há vários géneros, diferem entre si na cor e no nome, tendo todos a mesma forma. Se alguns deles tocarem no corpo de alguém, causam uma grande dor que dura muitas horas; os pêlos de outros (que são compridos e pretos, de cabeça vermelha) são venenosos e provocam desejos libidinosos. Os Índios costumam aplicá-los às partes genitais que assim incitam para o prazer sensual; incham elas de tal modo que em três dias apodrecem, donde vem que muitas vezes o prepúcio se fura em diversos lugares, e algumas vezes o mesmo membro viril contrai uma corrupção incurável: não só se tornam eles feios pelo aspecto horrível da doença, como também mancham e infeccionam as mulheres com quem têm relações.ÄB"K< ð „ ` ð ð ð Ì „ Ì ð  ` <  „ ô Ì ô ` ¨ Ì ð Ì Ì < ` ð `  D A#ÛJQ ÿÿ"åæ Encontram-se também entre nós as panteras, das quais há duas variedades: umas são cor de veado, menores essas e mais bravias; outras são malhadas e pintadas de várias cores: destas encontram-se em todos os lugares; os machos, pelo menos, excedem no tamanho a um carneiro, embora grande pois as fêmeas são menores; são em tudo semelhantes aos gatos e boas para se comerem, o que experimentamos algumas vezes são de ordinário medrosas e acometem pela retaguarda; dotadas porém de grande força, com um só golpe das unhas ou uma dentada dilaceram tudo quanto apanham; escondem as presas debaixo da terra, segundo afirmam os Índios e aí as vão comendo até consumirem. São de extrema ferocidade, o que, conquanto possa ser comprovado por muitos factos, que sucessivamente e de quando em quando se dão, bastará referir dois ou três para mostrá-lo. ÄB"P „  „ `   ð   „ Ð ð  ð Ì „ < ¨ Ð ô Ì „  Ì  ¬  < ` ð @ A#“+2ÿÿ"åæ À beira de um rio, estando alguns cristãos descansando uma noite em pequenas cabanas, dormia um índio debaixo da cama, ou antes na rede de um, que aqui se suspende sustentada por duas cordas; eis que sobrevém um tigre alta noite e agarrando-o por uma perna que por acaso tinha estendida, arrebatou-o, não podendo a multidão, que ali se achava reunida, arrancar-lho das garras e dos dentes; o que aconteceu com muitos outros, que as mesmas onças arrebatam no primeiro sono do meio de muita gente; deste facto poderiam ser apresentados muitos testemunhos. ÄB"5¨ Ì ô ` ð < ð Ì ˆ  ¨ ¨ Ì „ ¨ ð  Ì ` „ Ð A#m“šÿÿ"åæ Quarenta homens armados de balas, arcos e lanças, tencionando matar um tigre que tinha feito muitos estragos trucidando com grande ferocidade e devorando a muitos, a fera, não se temendo de tão grande força de homens armados, acometeu a um deles, e matá-lo-ia com as unhas enterradas pela cabeça e pelo peito, se, dirigida, com a ajuda do Senhor, ao coração uma flecha não a tivesse deitado por terra. ÄB"&¨  ¨  <  ` Ì   ð Ì „ ` Ì A#@Þå.ÿÿ"åæ Passando dois índios por um caminho perto de Piratininga, por onde sempre vamos e voltamos, saiu-lhes ao encontro uma pantera e investiu contra ambos; um dos homens fugiu, o outro, repelindo os ímpetos da fera, combateu valorosamente não só com flechas, mas também com a agilidade do corpo até que trepou em uma árvore, porém, nem mesmo este meio é bastante seguro contra tais feras, pois são dotadas de grande destreza; esta ficou junto da árvore, vendo se achava alguma subida; labutou toda a noite (porque isso se passou quase ao entrar do sol), e bramiu, até que, subindo à árvore, ou derribou o homem, ou ele mesmo cansado de tão grande luta e cheio de pavor, caiu. Em baixo era um lugar alagadiço, coberto de lodo, no qual ele ao cair se afogou, de maneira que não pôde ser apanhado pela fera, a qual gastou debalde o resto da noite em diligências para tirá-lo dali; afinal cansada, deitou-se. Ao amanhecer, chegando os outros, que já tinham vindo inutilmente na véspera em auxílio do homem, mataram a fera, que já não podia mover-se mais pelo excessivo trabalho que tivera, e acharam-lhe no ventre o dedo polegar do referido índio, que se supõe que ela devorara quando ele subia à árvore: viam-se ainda nesta os vestígios das suas unhas. ÄB"sÌ  <        ¨ ð ô Ì ¨ Ì „  ð „ `    ð Ì ð ¨ ð  ð  ` ¨ Ì ð ¨ `  ` ` ð Ì  Ì ü A#"gnÿÿ"åæ Existem aqui também outros animais (querem que sejam leões), do mesmo modo ferozes, porém mais raros. ÄB" ¨ „ ô Ì A#¦v}>ÿÿ"åæ Há também outro animal de feio aspecto a que os Índios chamam tamanduá. Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira. As suas cerdas, que são negras entremeadas de cinzento, são mais rijas e compridas que as do porco, máxime na cauda, que é provida de cerdas compridas, umas dispostas de cima a baixo, outras transversalmente, com as quais não só recebe, como rechaça os golpes das armas; é coberto de uma pele tão dura que é difícil de se atravessar pelas flechas; a do ventre é mais mole. Tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis; a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi) a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca e esta é a sua refeição ordinária: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente. As patas dianteiras são robustíssimas, de grande grossura, quase iguais à coxa de um homem, as quais são armadas de unhas muito duras, uma das quais principalmente excede em comprimento às de todas as demais feras; não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria: quando acontece ser atacado pelos outros animais senta-se e, com as patas dianteiras levantadas, espera o ataque, de um só golpe penetra-lhes as entranhas e mata-os. É saborosíssimo; dirias que é carne de vaca, sendo todavia mais mole e macia. ÄB"›„ ð ð ð  ð Ì „  „ ¨ ¨  ð ` Ô ` „ ð „ ` Ì ð ` Ð Ì  „ Ì ð Ì Ì ¨ Ì Ì  ð   <  ð ð  „  ¨ ¨ ` ¨ Ì ð ð ð `  ` Ì „ Ì „ ü A#/œ£ÿÿ"åæ Há outro animal, bastante frequente, próprio para se comer, chamado pelos Índios tapiíra e pelos espanhóis anta; julgo que é o que em latim se chama alce. ÄB"„ ¨ Ì „ ¨ ô A#ãkr ÿÿ"åæ É uma fera semelhante à mula, um pouco mais curta de pernas; tem os pés divididos em três partes; a parte superior do beiço é muito proeminente: de cor entre a do camelo e a do veado, tendendo para o preto. Levanta-se-lhe pelo pescoço, em vez de crinas, um músculo desde as cruzes até a cabeça, com o qual, como é um tanto mais alto, arma toda a fronte e abre caminho por espessos bosques separando os ramos daqui e dali. Tem a cauda muito curta, desprovida de crinas; dá um grande assobio em vez de grito; de dia dorme e descansa, de noite, corre de um lado para outro; nutre-se de diversos frutos, e, quando não os há, come as cascas das árvores. Quando perseguida pelos cães, faz-lhes frente a dentadas e coices, ou lança-se ao rio e fica por muito tempo debaixo d'água; por isso vive quase sempre perto dos rios, em cujas ribanceiras costuma cavar a terra e comer barro.ÄB"P  ð < „ Ì <  ð ð  Ì  Ì ¨ „ ¨ ð  Ì  ð ð ¨  ð ð ð Ì „ „ ð A#$ovÿÿ"åæ Do seu couro, endurecido apenas pelo sol, os Índios fabricam broquéis completamente impenetráveis às flechas. ÄB" ` ¨ d Ì  ° A#Õ4;ÿÿ"åæ Há outro animal que os Índios chamam aig e nós «preguiça», por causa da sua excessiva lentidão em mover-se; na verdade preguiçoso, pois é mais vagaroso que um caracol; tem o corpo grande, cor de cinza; a sua cara parece assemelhar-se alguma coisa do rosto de uma mulher; tem os braços compridos munidos de unhas também compridas e curvas, com que o dotou a natureza para poder trepar em certas árvores, no que gasta uma boa parte do dia e alimenta-se das suas folhas e rebentos: não se pode dizer, ao certo, quanto tempo leva em mover um braço; tendo porém subido, ali se demora finalmente até que consuma a árvore toda; passa depois para outra, algumas vezes também antes de chegar ao cume; com tanta tenacidade se agarra no meio da árvore, com as unhas, que não se pode arrancá-lo dali, senão cortando-lhe os braços. ÄB"K ð ¨ ` ¨  ¨ `  Ì Ì ` „  ð   ð Ì ` Ì ð „ „ „   „  ` A#£ipÿÿ"åæ Há também outro semelhante a uma pequena raposa e ao qual os Índios chamam sarigué, que exala muito mau cheiro e gosta muito de comer galinhas; tem na parte inferior da barriga uma espécie de saco dividido de cima a baixo, em que estão escondidos os seios, e entrando para ele os filhos quando os pare, agarra cada um em sua teta e dali não saem até que, não precisando mais do auxílio materno, possam ficar em pé e andar por si; mas antes, depois da morte da mãe, só com muita dificuldade podem ser arrancados vivos das suas tetas. Já matámos muitas e entre elas uma com sete filhos encerrados na mencionada bolsa. ÄB"<ð ð  ` Ð  < Ì ¨  Ì Ì „ ð ` ¨ ð ¨ ô „ ¨ < Ð ˆ A#‰ÿÿ"åæ Existem também certos pequenos animais do género dos ouriços, cobertos de cerdas compridas e mui agudas, pela maior parte sobre o pálido, pretas na ponta, as quais, se tocarem em alguma coisa, principalmente carne, entram pouco a pouco por' si, sem ninguém as empurrar; as mulheres brasílicas costumam servir-se delas para furarem as orelhas, sem sentirem dor. Eu vi um couro dobrado, de não pequena grossura, trespassado de lado a lado no espaço de uma noite por uma cerda desse modo introduzida por si mesma. ÄB"2ô ¨ `  ` „ Ì @ ð ¨ < ð ð  ¨ ô  Ì ð  A#5´»ÿÿ"åæ Há uma infinita multidão de macacos, dos quais se contam quatro variedades, todas elas mui próprias para se comer, o que muitas vezes provámos; é comida mui saudável para doentes.ÄB"Ì ð   ð `   A#fu|ÿÿ"åæ Vivem sempre nos matos, saltando em bandos pelos cumes das árvores, onde se, por causa da pequenez do corpo, não podem passar desta árvore para aquela que é maior, o chefe da tropa, curvando um ramo, que ele segura com a cauda e com os pés, e segurando outro macaco com as mãos, dá caminho aos restantes, fazendo uma espécie de ponte, e assim passam com facilidade todos. ÄB"#< ` Ì `  ` ` „ Ì  Ì  „  A#?Üãÿÿ"åæ As fêmeas têm mamas como as mulheres; os filhos pequenos agarrados sempre às costas e ombros das mães, correm daqui para ali, até que possam andar sozinhos. Contam-se deles coisas maravilhosas, que omito por incríveis. ÄB"Ì ð ð  ` „ ¨ „ A#S+2 ÿÿ"åæ Existe também outro animal muito comum entre nós, chamam-no «tatu», que habita pelos campos em covas subterrâneas, e quase semelhante aos lagartos pela cauda e cabeça. Tem o corpo todo coberto da parte de cima por uma concha muito dura, impenetrável às flechas, semelhante à armadura de um cavalo. ÄB"¨  ð ô ô ð Ì  ¨ ` Ì   A#[LS ÿÿ"åæ Cava com muita velocidade a terra para se esconder; quando se mete em sua toca, se não lhe arrancares a perna, debalde te cansarás em puxá-lo para fora: agarra-se à terra com as conchas e os pés com tanta força que, embora lhe segures a cauda, mais fácil será destacar-se esta do corpo, do que a ele da cova: é de delicioso sabor. ÄB"!Ì < Ì <  ð Ì ` Ì Ì Ì < ü A#:ÅÌÿÿ"åæ Dois géneros há de veados; uns como os nossos de chifres; estes, são, porém, raros, outros, de cor branca, sem chifres e que nunca entram nos matos antes pastam sempre em magotes pelas planícies. ÄB"¨ ô Ì  <  <  Œ A#$mtÿÿ"åæ Há abundante multidão de gatos monteses muito ligeiros, de gamos, de javalis, dos quais há várias espécies. ÄB" ` Ð  ð  h A#~ÕÜÿÿ"åæ Longe daqui no interior da terra, para os lados do Peru, a que chamam Nova Espanha, há umas ovelhas selvagens, iguais às vacas no tamanho, cobertas de uma lã branca e linda, das quais se servem os Índios para levar e trazer cargas, como jumentos. Um dos nossos irmãos, que andou muito tempo por aqueles lugares, afirma que, não só vira comer, mas também comera da carne delas. Trata-se largamente dessas ovelhas nas crónicas do Peru, vulgarmente escritas em espanhol. ÄB"+¨   < Ì Ì  ¨  ` < Ì  `    A#‘")ÿÿ"åæ Nascem entre as taquaras certos bichos roliços e compridos, todos brancos, da grossura de um dedo, aos quais os Índios chamam rahú, e costumam comer assados e torrados. Há-os em tão grande porção, indistintamente amontoados, que fazem com eles um guisado que em nada difere da carne de porco estufada; serve não só para amolecer o couro, mas também para comer-se. Destes insectos uns se tornam borboletas, outros saem ratos, que constroem a sua habitação debaixo das mesmas taquaras, outros porém transformam-se em lagartas, que roçam as ervas. ÄB"5` < ð ` ð ¨  < „ Ì ` Ì ð ô  < ¨ ð  Ì Ð A#*‡Žÿÿ"åæ Encontram-se muitos outros animais de diversos géneros, que entendi dever omitir, por não serem dignos de saber-se, nem de contar-se. ÄB" ¨ ð   ˆ A#‹ :ÿÿ"åæ Seria muito difícil representar por palavras as diversas espécies de formigas das quais há várias naturezas e nomes; o que, di-lo-ei de passagem, é muito usual na língua brasílica, por isso que dão diversos nomes às diversas espécies e raras vezes os géneros são conhecidos por uma denominação própria; assim, não há nome genérico da formiga, do caranguejo, do rato e de muitos outros animais; das espécies, porém, que são quase infinitas, nenhuma deixa de ter o seu nome próprio, de maneira que com razão te admirarias de tão grande cópia e variedade de palavras. No entanto, das formigas só parecem dignas de comemoração as que destroem as árvores; estas são chamadas «içâ»; são um tanto ruivas, trituradas cheiram a limão; cavam para si grandes casas debaixo da terra. Na Primavera, isto é, em Setembro, e daí em diante, fazem sair o enxame dos filhos, quase sempre no dia seguinte ao de chuva e trovoada, se o sol estiver ardente; os pais vão adiante e, correndo com a boca aberta de um lado para outro, enchem todos os caminhos, e pregam mordidelas mais cruéis do que em outro qualquer tempo, até fazer sangue; seguem-lhes os filhos com asas, de corpo maior, e logo voam à procura de novas casas para si, tão numerosos muitas vezes que formam uma nuvem no ar; em qualquer parte que caiam cavam imediatamente a terra, construindo cada um a sua habitação; depois, porém, de pouco tempo morrem, e de seu ventre geram-se inúmeros outros filhos, de maneira que não admira que haja tão grande multidão de formigas, quando de uma só nascem tantas. ÄB"‘¬ Ì   Ì ¨ ¨ „ „ Ð ˆ Ì < ¨ <  ` ¨ ð ¨ ð ð  Ì ô ð ð ð ¨ ô ¨ < Ì  ¨ ð   Ì  ð ð „ ð Ì ¨ ¨ ` ð „ ð ð `  < ð <   A#¤nuÿÿ"åæ Para ver quando elas saem de suas cavernas juntam-se as aves, juntam-se os Índios, que ansiosamente esperam este tempo, tanto homens como mulheres; deixam as suas casas, apressam-se, correm com grande alegria e saltos de prazer para colher os frutos novos, aproximam-se das entradas dos formigueiros e enchem de água os pequenos buracos que elas fazem, onde estando, se defendem da raiva dos pais e apanham os filhos que saem das covas, e enchem os seus vasos, isto é, certas cabaças grandes, voltam para casa, assam-nas em vasilhas de barro e comem-nas; assim torradas, conservam-se por muitos dias, sem se corromperem. ÄB":ð ¨ ¨  ` ` ¨ Ì ` ¨  ð ð  ð ð  ð Ì Ì ¨ ¬ Ô A#et{ÿÿ"åæ Quão deleitável é esta comida e como é saudável, sabêmo-lo nós, que a provámos. Mas umas aves semelhantes às andorinhas, das quais há três variedades, aglomeram-se quase sem conta no ar, e cortam pelo meio com admirável celeridade aquelas formigas que saem voando, devoram-lhes os ventres, deixando a cabeça com as asas e pernas, e assim acontece que mui poucas escapam. ÄB"# ð  ¬  ` ` Ð ð „ `  ¨ ` A#¬—ÿÿ"åæ Encontram-se quase vinte espécies diversas de abelhas, das quais umas fabricam o mel nos troncos das árvores, outras em cortiços construídos entre os ramos, outras debaixo da terra, donde sucede que haja grande abundância de cera. Usamos do mel para curar as feridas, que saram facilmente pela protecção divina. Havendo, porém, como disse, muitas espécies de mel, falarei unicamente de um, que os Índios chamam eiraaquãyetâ, quer dizer, «mel de muitos buracos», porque estas abelhas têm muitas entradas nas colmeias. Logo que se bebe deste mel, toma todas as juntas do corpo, contrai os nervos, produz dor e tremor, provoca vómitos e destempera o ventre. ÄB"?`   ` ˆ Ì ` ð  ¨ „ ¨ „ ` ` Ì ¨  Ì „  Ì ð ð  h A#fxÿÿ"åæ Há pelo mato grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem cruelmente, máxime no Verão, quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e subtilíssimas; furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça com a qual se dispersam. ÄB"#ð  ð ð  ð ô  „ `  ¨ ¨ ¬ A#lŽ•ÿÿ"åæ Outros chamados mariguî, e que habitam à beira-mar, são uma praga terrível; são tão pequenos que mal os podes perceber com a vista; és mordido, e não vês quem te morde; sentes-te queimar e não há fogo em parte alguma; não sabes de onde te veio repentinamente semelhante incómodo; se te coças com as unhas, maior dor sentes; renova-se e aumenta por dois ou três dias o ardor que deixaram no corpo. ÄB"&¨ ð Ì „ ` ¨ ¨ ð „ „ ð ` ð ` ¬ A#²¦­ÿÿ"åæ Em verdade, não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores. Os papagaios são mais comuns aqui do que os corvos, e de diferentes espécies, todos bons para se comerem; alguns deles produzem prisão de ventre; outros imitam a voz humana; outros há que, comendo o milho quando está granado, voam em bandos e quando estão nesse trabalho, fazem de maneira que, quando descem para comer, fiquem sempre um ou dois no alto de uma árvore, como de vigia, os quais, espiando o lugar por todos os lados, em vendo alguém aproximar-se, tocam rebate e fogem todos; mas se não houver perigo algum, quando os outros fartos sobem, descem os vigias por sua vez para comer. ÄB"?  Ì „ Ì ¨ ð ` Ì  Ì „ ð ð „ ð  Ì ` ¨ ð ` < Ì Ð A#W^ÿÿ"åæ Há também avestruzes que não podem voar por causa do extraordinário tamanho do corpo. ÄB" ð < „ ü A#7ºÁÿÿ"åæ Há ainda outros passarinhos, chamados guainumbî, os mais pequenos de todos; alimentam-se só de orvalho; desses há vários géneros, dos quais um, afirmam todos, que se gera da borboleta. ÄB"ð Ì ˆ Ì  ð  A#/œ£ÿÿ"åæ Há outro pássaro semelhante ao corvo, parecido com o ganso por causa do bico, o qual mergulhando nos rios, está muito tempo debaixo d'água a comer peixes. ÄB"Ì ` ¨ ¨ ` < A#'zÿÿ"åæ Há também outro, de menor corço, mas, quando sacode as asas faz tanto barulho, que as árvores parece que caem por terra. ÄB" „ ð Ì ¨  Œ A# ]dÿÿ"åæ Há ainda uma ave marinha, por nome «guará», igual ao mergulhão, porém de pernas mais compridas, de pescoço igualmente alongado, de bico comprido e adunco; alimenta-se de caranguejos e é muito voraz. Passa por uma metamorfose, como que perpétua, pois na primeira idade cobre-se de penas brancas, que depois se transformam em cor de cinza, e, passado algum tempo, tornam-se segunda vez brancas, de menos alvura todavia das da primeira; por fim ornam-se de uma cor purpúrea lindíssima; estas penas são de grande estimação entre os Índios, que se usam delas para enfeitar os cabelos e braços em suas festas. ÄB"<  ¨ ¨ ð ˆ ð ð ô ¨ <  ð < ô ` ð < ¨  ð  `   A#Hý ÿÿ"åæ Há ainda outra ave marinha semelhante à adem, que, em lugar de asas, tem pequenos membros, vestidos de macia penugem; tem os pés quase na cauda, de maneira que não podem sustentar o corpo e só lhe servem para nadar, quando ela não pode voar nem andar. ÄB"¨ ¨ Ì ¨ ð „ ð   A#g{‚ÿÿ"åæ Das aves de rapina há muitas espécies, das quais algumas são de tal tamanho que matam e despedaçam até veados, máxime uma, para a qual, quando está no ninho não só seus pais que têm com ela particular cuidado, mas todas as outras aves que vivem da rapina, trazem comida como a um príncipe: têm isto consigo, que mesmo que passem muitos dias sem comer, mal nenhum isso lhes faz. ÄB"#ð Ì ð ` ` Ì „  Ì ð ô  ¨  A#YAH ÿÿ"åæ Ouvi falar de outro género ainda de aves de presa, a qual, quando está aquecendo os filhotes recém-nascidos no ninho, que constrói no mais alto da árvore, e o caçador sobe para tirá-los, não voa, mas, abrindo as asas para protegê-los, conserva-se imóvel, consentindo antes que a apanhem, do que em desamparar os filhos. ÄB"¨ „ Ì  Ì Ì ð „ `  Ð  A#eszÿÿ"åæ Há outra ave que se chama «anhima», muito grande; quando grita parece o zurrar de um asno. Tem em cada asa como que três cornos, um também na cabeça, iguais aos esporões dos galináceos, porém muito mais rijos; quando acossada pelos cães, não foge, ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar; antes os afugenta, ferindo-os gravemente com as asas assim armadas. ÄB"&„ < ð Ì ` ð ` < Ì ô < ¨ Ð ð  D A#;ÊÑÿÿ"åæ Há ainda galinhas silvestres, das quais se contam três espécies: perdizes, faisões e outras aves todas cor de púrpura, outras verdes, outras pardacentas, vistosas na sua multíplice variedade de cores. ÄB" `  ` < ð Ì  h A#!ÿÿ"åæ Isto quanto aos animais. ÄB"„ A#q£ªÿÿ"åæ Das ervas e árvores não quero deixar de dizer isto, que as raízes a que chamam «mandioca», de que nos utilizamos corno alimento são venenosas e nocivas por natureza, se não forem preparadas pela indústria humana para se comerem; comidas cruas matam a gente, assadas ou cozidas comem-se; todavia, os porcos e os bois as comem cruas impunemente; se porém beberem o suco que delas se espreme, incham de repente e morrem. ÄB"( ð ¬   <  „ < ð ð ð Ì Ì Ì ˆ A#<ÏÖÿÿ"åæ Há outras raízes chamadas yeticopê, semelhantes ao rabão, de agradável sabor, muito apropriadas para acalmar a tosse e molificar o peito. A sua semente, que se assemelha a favas, é um violentíssimo veneno. ÄB"„ ` ¨   ð <  A#bgnÿÿ"åæ Entre outras, há aqui certa erva espalhada por toda a parte e que muitas vezes vimos e tocamos, a que chamamos «viva», porque parece ter tal ou qual sentimento: pois, se a tocares de leve com a mão ou com qualquer outra coisa, imediatamente as suas folhas, fechando-se sobre si mesmas, se juntam e corno que se grudam; depois, daí a pouco tornam a abrir-se. ÄB"#Ì „ `  <   ð „  ð ` Ì ¬ A#—:Aÿÿ"åæ Das árvores urna parece digna de notícia, da qual, ainda que outras haja que destilam um líquido semelhante à resina, útil para remédio, escorre um suco suavíssimo, que pretendem seja o bálsamo que a princípio corre corno óleo por pequenos furos feitos pelo caruncho ou também por talhos de foices ou de machados, coalha depois e parece converter-se em uma espécie de bálsamo; exala um cheiro muito forte, porém suavíssimo e é óptimo para curar feridas, de tal maneira que em pouco tempo (como dizem ter-se por experiência provado) nem mesmo sinal fica das cicatrizes. ÄB"5 ¨ ð < ¨ Ì ð Ì < < Ì  ð ð „ ¨  ` ð  @ A#[KR ÿÿ"åæ Há também outras árvores que enchem por toda a parte os esteiros do mar, onde nascem, cujas raízes, algumas brotadas quase do meio do tronco, outras do ponto em que os ramos que rebentam se dirigem para cima, quase do comprimento de uma lança, se inclinam pouco a pouco para a terra, até que ao fim de muitos dias chegam ao chão. ÄB"ð ¨  ô „ ¨ ð Ì ð  ` ð A#—:Aÿÿ"åæ Na povoação que se chama Espírito Santo é muito comum uma certa árvore muito alta, cujo fruto é admirável. Este é semelhante a uma panela, cuja tampa, como que trabalhada a torno, com que está pendente da árvore se abre por si mesma quando está maduro: aparecem então dentro muitos frutos semelhantes a castanhas, separadas por delgadas tiras como interpostos septos, muitíssimo agradáveis ao paladar. O vaso ou urna, em que estão encerrados, não é menos duro que a pedra, e pode-se facilmente julgar do seu tamanho pelas castanhas que contém, que passam de cinquenta. ÄB"7` ð ð ð ¨ Ð Ì ¨   Ì ` ¬ ¬ ` Ì Ì „ ð Ì „  Œ A#n—žÿÿ"åæ Há, além disso, pinheiros de altura estupenda; propagam profusamente ocupando o espaço de seis ou sete milhas. Os Índios dão aos seus frutos, por antonomásia, o nome especial de ibá, isto é, «fruto» (nome aliás comum aos demais frutos); são compridos como os nossos, mas muito maiores, de casca mole, semelhantes à amêndoa das castanhas. Os lugares que ficam para o setentrião não produzem destas árvores. ÄB"&ð ¨ <  „  ð ð <   „ „ Ì „ A#%qxÿÿ"åæ Há diversas árvores de frutos excelentes para comer-se, muitos de suavíssimo cheiro, e de mui deleitável sabor. ÄB"  „ ð Ì A#,–ÿÿ"åæ Úteis à medicina não há só muitas árvores, como raízes de plantas; direi, porém, alguma coisa, máxime das que são proveitosas como purgantes. ÄB"¨ Ì „ ð Ð  Œ A#x¿Æÿÿ"åæ Há uma certa árvore, de cuja casca cortada com faca, ou do galho quebrado, corre um líquido branco como leite, porém mais denso, o qual se se beber em pequena porção relaxa o ventre e limpa o estômago por violentos vómitos: por pouco, porém, que se exceda na dose, mata. Deve-se, enfim, tornar dele tanto quanto caiba em urna unha e isso mesmo diluído em muita água; se não se fizer assim, incomoda extraordinariamente, queima a garganta e mata. ÄB"+ð  ` ¨ Ì ¨ „  ¨ ð Ì ¨ ð Ì   d A#<ÍÔÿÿ"åæ Há uma certa raiz, abundante nos campos, utilíssima para o mesmo fim; raspa-se e bebe-se misturada com água; esta, se bem que provoque o vómito com bastante violência, todavia bebe-se sem perigo de vida. ÄB"ð   ð  Ì ð A#8¿Æÿÿ"åæ Há também outra, chamada vulgarmente marareçô; as suas folhas parecem as do bordo, a raiz pequena e redonda, que se come assada ou bebe-se esmoída com água, exposta por uma noite ao sereno. ÄB"`   Ì „  ô A#eryÿÿ"åæ Descobriu-se ultimamente outra, que é tida em grande estima e com razão. Esta é oblonga e delgada, contundida e deixada de infusão em água pelo espaço de uma noite, bebe-se de manhã sem dificuldade, não causa náusea, nem produz fastio; desembaraça, porém, o ventre com abundante fluxo, que cessa logo que se tome algum alimento, o que é comum às de que falei há pouco. ÄB"#` Ì ¨  ð „ Ð  ¨ ð ` ð  Ð A#4¯¶ÿÿ"åæ Há, além destas, várias outras que servem muito para soltar o ventre, quanto para o prender. Excepto os frutos de certas árvores, quase que nenhum remédio eficaz se encontra.ÄB"< ð ð ð ð `  D A#h}„ÿÿ"åæ Até nas pedras se encontra o que admirar e com que exaltar a omnipotência do supremo e óptimo Deus, máxime em uma que serve para afiar espadas; mas tem isto de maravilhoso, que qualquer parte dela que tocares com as mãos se torna flexível como o couro e a moverás como coisa apertada por um nó, de maneira que não parece uma pedra só, mas sim muitas reunidas por diversas juntas. ÄB"#ð  Ì ¨  ð Ì ð „ Ì  ð ð   A#Aãê ÿÿ"åæ Encontram-se em certo rio habitado pelos inimigos, a umas 50 milhas de Piratininga, muitas conchas, nas quais se criam certas pedrinhas transparentes, que querem sejam pérolas: têm o tamanho do grão-de-bico e algumas maiores. ÄB"„ ¨ d ð „ ð Ì „ d A#7ºÁÿÿ"åæ Isto é quanto me ocorre dizer das árvores, plantas e pedras. Acrescentarei agora poucas palavras acerca dos espectros nocturnos ou antes demónios com que costumam os Índios aterrar-se. ÄB"  Ì ¨ ð ð ¬ A#T[ÿÿ"åæ É coisa sabida e pela boca de todos corre que há certos demónios, a que os Brasis chamam «curupira», que acometem aos Índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os Índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos curupiras que não lhes façam mal. ÄB"7 „ „  ¨ ¨ < ¨ Ì  ð „ ` Ì Ì ð  ð ð Ì ð ` A#_Za ÿÿ"åæ Há também nos rios outros fantasmas, a que chamam Igpupiára isto é, que moram n'água, que matam do mesmo aos Índios. Não longe de nós há um rio habitado por cristãos, e que os Índios atravessavam outrora em pequenas canoas, que fazem de um só tronco ou de cortiça, onde eram muitas vezes afogados por eles, antes que os cristãos para lá fossem. ÄB"!„ < Ì ¨ ð  „ <  Ì  ð ð A#j‡Žÿÿ"åæ Há também outros, máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer «coisa de fogo», o que é o mesmo como se se dissesse «o que é todo fogo». Não se vê outra coisa senão um facho cintilante correndo daqui para ali; acomete rapidamente os Índios e mata-os, como os curupiras: o que seja isto, ainda, não se sabe com certeza. ÄB"&ð „  ` < ¨ ð Ì ¨ „  ð Ì   D A#V6= ÿÿ"åæ Há também outros espectros do mesmo modo pavorosos, que não só assaltam os Índios, como lhes causam dano; o que não admira, quando por estes e outros meios semelhantes, que longo fora enumerar, quer o demónio tornar-se formidável a estes Brasis que não conhecem a Deus, exercer contra eles tão cruel tirania. ÄB"  Ì Ì ¨  Ì ð  ` ô  D A#¬—ÿÿ"åæ Destes Brasis direi, em último lugar, que quase nenhum se encontra entre eles afectado de deformidade alguma natural; acha-se raramente um cego, um surdo, um mudo ou um coxo, nenhum nascido fora de tempo. Todavia, há pouco tempo, em uma aldeia de índios, a uma ou duas milhas de Piratininga, nasceu uma criancinha, ou antes um monstro cujo nariz se estendia até ao queixo, tinha a boca abaixo deste, os peitos e as costas semelhantes ao lagarto aquático, cobertas de horrendas escamas as partes genitais perto dos rins; a qual seu pai, assim que nasceu, fez enterrar viva. A esta morte condenam também os que suspeitam terem sido concebidos em adultério. ÄB"A< <  < < ð ¨  Ì Ì d < < ô  < ˆ  ô Ì ¨ < ð  ` „ A#'y€ÿÿ"åæ Não é talvez menos para admirar o ter nascido em Piratininga um porco hermafrodita que, segundo creio, ainda está vivo. ÄB" < ` Ð „ ` A#T-4 ÿÿ"åæ Narrei essas coisas brevemente, como pude, posto que não duvides que haja muitas outras dignas de menção que são desconhecidas a nós, ainda aqui pouco práticos. Rogamos entretanto aos que achem prazer em ler e ouvir estas coisas, queiram tomar o trabalho de orar por nós e pela conversão deste país. ÄB"¬ ð ` < ð < ð  Ì ð ¨ Ø A#.–ÿÿ"åæ Escrito em São Vicente, que é a última povoação dos Portugueses na Índia Brasílica voltada para o sul, no ano do Senhor 1560, no fim do mês de Maio. ÄB" ô Ð   @ A#!(ÿÿ"åæ O mínimo da Companhia de Jesus. ÄB"` ü A# ÿÿ"åæ åæÄB" ‚ ‚