{\pwi, TahomaCourier New/=  =@S## ##u##+#####"#################^##*t#5# P## c# 2####%#:#4########1#"#$####8####,#.##F# #B###:#k#+####B######-#$###!# #@##$#G# #g#o#####g#E###:#"###6##5#m##3# ###}#####'####F# # #^# ##:############# #z##G#(##h#;#`##K####+#A# #2#C#Z#!#0#M###+#Z#3# #(##:#]### 0#T#4###M#f#H#L##%# #.#!##3#$#q#c#I#A#e#"#I#?#2#y#(#K##.#o##D###B#### #b#@#####%#8#6# =##!##1#$##'#'# # ##9#D#r##1#4#+#)###C##d##*#~#~#9#7###*## # # 0##K#2##/# #### #e#>#3####V#>#"#/###=#+####E# ####(#/############ #)## c## ### F##B# ##%#{###s#B#8#I# #1#8#-##.# #I# #8#(#*###!# #+#(####!### ### #j#7###8#J#C#5#!##<#_###>#2##f###B##3#<# ##B#]##3#J#$#o#9##### I#7##f#<#U#8##s##<#~##!####X#7##x##7######!## #E#<#&#(#)#C#9# # ##b#!#f# #3# #j###8###Y####h#)##C###)##[#####=#######8###{#######,#/#8##%#### J#$# ##)### =#D#d#>#7##& ###### #:##A# " ContrabandistaB" A# " B" A# " Jorge AmadoB"  A# " B" A#&u|" A publicao dos excertos aqui publicados, extrados do livro Mar Morto, foi gentilmente autorizada por Jorge Amado.B"       A# " B" A#+2" 1998, Jorge Amado e Parque EXPO 98. S.A.B"  A# " B" A# " ISBN 972-8396-45-7B" A#" Lisboa, Maro de 1998B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " CONTRABANDISTAB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " ContrabandistaB" A# " B" A# " B" A#^e" Agora o filho comeava a andar, brincava com barcos que o velho Francisco fazia. Abandonados num canto, sem um olhar do garoto sequer, um trem de ferro que Rodolfo trouxera, o ursinho barato que Lvia comprara, o palhao que era presente dos tios de Lvia. O barco feito de um pedao de mastro que o velho dera valia por tudo. Na bacia onde Lvia lavava roupa ele navegava sob os olhares encantados do garoto e do ancio. Ia sem leme, ia sem guia, por isso nunca alcanava um porto, ou ficava parado no meio da gua, ou andava sem destino. O menino falava na sua lngua que lembrava a de Toufick, o rabe:B":`             <       ` `  A# " -Vov, f pet.B" A#%t{*" O velho Francisco sabia que ele queria que a tempestade desencadeasse sobre a bacia. Como Iemanj, que fazia o vento cair sobre o mar, o velho Francisco inchava as bochechas e desencadeava o nordeste sobre a bacia. O pobre barco rodava sobre si mesmo, andava ao lu do vento rapidamente, o garoto batia palmas com as mozinhas sujas. O velho Francisco inchava mais as bochechas, fazia o vento mais forte. Assoviava imitando aquela cano de morte do Nordeste. As guas da bacia, calmas como as de um lago, se agitavam, ondas varriam o barco, que terminava por se encher de gua e afundar lentamente. O garoto batia palmas, o velho Francisco via sempre com tristeza o barco ir ao fundo. Apesar de ser uma miniatura, feita pelas suas prprias mos, era de qualquer maneira um saveiro que afundava. As ondas da bacia serenavam. Ficava tudo como se fosse um lago. O saveiro no fundo virado de um lado. O garoto metia a mo na bacia e trazia o barco. O brinquedo recomeava e assim criana e velho passavam a tarde, debruados sobre uma miniatura do mar, sobre um saveiro em miniatura, sobre o verdadeiro destino dos homens do mar e dos barcos.B"i           < `         `          `           A#j5" Lvia olhava com medo o urso, o palhao, o trem abandonados. Nunca o garoto fizera o trem descarrilar no passeio da casa. Nunca fizera o urso matar o palhao. Os destinos da terra no lhe interessavam. Seus olhos vivos seguiam o pequeno saveiro na sua luta contra a tempestade que saa das bochechas do velho Francisco. O urso, o palhao, o trem abandonados. Uma vez uma esperana encheu o corao de Lvia. Foi no dia em que Frederico (se chamava Frederico) largou a bacia em meio mais furiosa tempestade e foi procurar o palhao. Quando o encontrou, pegou nele com cuidado. Lvia seguia atenta. Teria ele se cansado das tempestades e naufrgios? Teria somente se interessado pela sorte do bote enquanto aquilo era uma novidade? Voltava agora, cansado, para os outros brinquedos esquecidos? Mas no. Ele levou o palhao para o barco. Queria era transform-lo em mestre de saveiro, um mestre de saveiro bem esquisito, na verdade, com aquelas bombachas amarelas e azuis. Mas aparece tanto marinheiro de estranhas vestimentas que ningum se admiraria de um vestido de bombachas. E daquele dia em diante todas as vezes que o saveiro naufragava, o palhao (lutara contra a tempestade at ao ltimo momento) se afogava, morria como um mestre de saveiro. No fundo da bacia seu corpo de pano inchava como se estivesse cheio de siris. O garoto batia palmas, ria para o av. Francisco ria tambm, o brinquedo recomeava.B" d      ` <  <   `  `            ` <                `        < A#\PW " Naufragou tanto o barco, tantas vezes se afogou o seu mestre, que o pano foi apodrecendo e um dia ele ficou aleijado de uma perna. Mas um homem do mar no pede esmola. E o estranho marinheiro de bombachas continuou a lutar contra as tempestades com uma perna s, encostado no mastro do seu barco. O garoto dizia para o velho Francisco:B"!`   `    <     @ A# " -Bab meu ele.B" A#acj " O tubaro tinha comido a perna dele, o velho Francisco entendia. Depois comeu a cabea, que se desprendeu do corpo no meio de uma tempestade braba. E mesmo sem cabea (era o marinheiro mais estranho de todos os mares) continuou no leme do seu saveiro, atravessando com ele as tempestades. O garoto ria, o velho ria. Para eles o mar amigo, doce amigo.B"!`  `      `     A#U29 " S Lvia no ria. Olhava o urso, o trem abandonados. Para ela o mar inimigo, o mais terrvel dos inimigos. E os homens que vivem no mar so como aquele palhao de bombachas amarelas e azuis, que a sorte fez marinheiro: mesmo sem perna, mesmo aleijado, lutava contra a fria do mar, sem um gesto de dio.B"            A#3" O garoto e o velho riam. A tempestade soprava furiosa sobre a bacia, o barco corria ao sabor do vento, o marinheiro sem cabea e sem perna procurava governar seu saveiro.B"        A# " B" A# " B" A#%" O Roncador tinha-se transformado no Paquete Voador e fora pintado de novo. Tambm se fizeram necessrias novas velas e o barco ficou um dos mais velozes do cais da Baa. Dr. Rodrigo entrara com a metade para Guma pagar quando terminasse o pagamento da outra parte a Joo Caula. Foi dividida essa parte em dez prestaes mensais. O dinheiro que tinha em casa ele empregou no conserto do barco. E se atirou ao mar, com firmeza. O ano de prazo que pedira a Lvia, para conseguir algum dinheiro com que entrar como scio do tio dela, ele o estendeu a dois anos. Porm no fim do primeiro ano ainda devia quase tudo a Joo Caula e no comeara sequer a pagar a parte do Dr. Rodrigo. A vida para os canoeiros e mestres de saveiro tinha piorado muito. Alm de haver pouca carga, era poca de paradeiro, as tabelas estavam muito por baixo, devido s lanchas de gasolina que faziam o transporte mais rpido e mais barato. Pouco dinheiro se ganhava e o cais nunca ouvira tanta maldio.B"] < ` <  <            `     `     `     < `    A#:" Lvia j desanimara de conseguir que Guma abandonasse a vida do mar nesse ano. Trabalhava agora para que ele pudesse pagar o que devia, pudesse ficar com o saveiro livre. Joo Caula andava em cima, as prestaes estavam atrasadas, Joo Caula tambm no ia bem com os bateles que comprara. Dr. Rodrigo no reclamava, mas Joo Caula vivia em cima deles, quase no saa da porta de Guma, ia esper-lo de volta das viagens. Porm no eram muitas as viagens agora. Os mestres de saveiro e os canoeiros passavam grande parte do tempo na frente do cais do Mercado comentando a vida difcil, o paradeiro do fim do ano. Quando no, iam matar as mgoas no Farol das Estrelas, onde seu Babau ainda fiava cachaa, anotando os dbitos num caderno velho de capa esverdeada. Guma estava aceitando todas as viagens, mesmo quando s havia carga para levar, aceitava mesmo viagens pequenas para Itaparica, mas nem assim sobrava dinheiro no fim do ms para dar a Joo Caula. Lvia ajudava o velho Francisco no conserto das velas. Passava grande parte do dia curvada sobre o pano grosso da vela rebentada pela tempestade, a agulha na mo. Mas quase todo esse trabalho era fiado, que as coisas estavam ruins para todos os da beira do cais. Estavam to ruins que os estivadores falavam mesmo em entrar em greve. Guma vivia procurando servio, fazia as viagens o mais rpido que podia, para ficar com o fregus. Vrios mestres do saveiro venderam seus barcos e pegaram outros trabalhos no porto: docas, navios de longo roteiro, transporte de malas e objectos de viajantes.B"        <     `     < `   ` `     <     `          `   `         `   A#4;" E, como pouco tinham que fazer, cantavam e bebiam. B"`  A# " B" A# " B" A# " B" A#%" -Seu Joo Caula teve aqui...B" A#j" Guma sacudiu o saco de viagem na cama. Olhou o filho, que brincava com Francisco. Era fim de ms e ele prometera pagar alguma coisa a Joo Caula. Mas no tinha sobrado nada, essa ltima viagem rendera uma ninharia, era uma viagem a Itaparica. O menino brincava junto a bacia de gua. Guma no quis jantar, saiu logo. No tinham passado ainda cinco minutos quando Joo Caula bateu na porta:B"#      `        A#"" -Guma chegou, sinh Lvia?B" A#&" -Chegou mas j saiu, seu Joo.B"`  A#18" Joo Caula ainda olhou desconfiado para dentro:B"< ` A#")" -No sabe pra que lados se botou?B"  A#$+" -No sei, seu Joo. Tava l dentro.B"  A# " -Ento boa noite.B"d A#" -Boa noite, seu Joo.B" A#4" Joo Caula desceu a rua puxando o bigode. Candeeiros nas casas iluminavam salas pobres. Um homem ia entrando embriagado numa delas e Joo Caula ouviu uma mulher que dizia:B"`       A#8?" - assim que tu chega, no ... Como se no bastasse...B"  A#2" No cais grupos conversavam. Joo Caula perguntava por Guma. No o haviam visto. Na frente do Mercado, porm, algum informou que Guma estava no Farol das Estrelas.B"    `  A##" -T esquecendo as mgoas...B" A# " Outro perguntou:B"@ A#,3" -Como t indo com teus batelo, Joozinho? B"  A#.5" -Como podia t indo? Quem que t indo bem? B" d A#" Aquilo s d despesa...B"< A#FM" Continuou a sua caminhada. Encontrou Dr. Rodrigo que descia fumando. B"  @ A# " -Boa noite. B"  A#BI" -Boa noite, doutor. Eu at queria dar duas palavras a vosmec... B"    A# " -Que , Joo? B" A#1" - a respeito daquela doena da patroa. Vosmec foi l uma poro de vez, botou ela em p. Abaixo de Deus foi vosmec que salvou ela. E eu no lhe paguei ainda.B"      A#:A" -No tem nada, Joo. Eu sei que as coisas no vo bem... B"  A##kr" -To ruim mesmo, doutor. Mas o senhor precisa de receber. O senhor no vive de brisa. Logo que melhore... B"     A#+2" -No se preocupe com isso. Eu me arranjo. B"   A# " -Obrigado, doutor. B" A#9" Rodrigo se foi com o seu cigarro. Joo Caula pensou em Guma. Quis voltar (os tempos estavam ruins...), chegou mesmo a virar o corpo, mas tomou uma resoluo e embicou para o Farol das Estrelas.B"`  `    `  D A#" Viu logo Guma numa mesa diante de um copo de cachaa. Mestre Manuel estava com ele. Do alto do seu balco seu Babau olhava com tristeza os fregueses, estava com urna cara de sono. Joo Caula viu mestre Manuel suspender a mo num gesto de desnimo. Ficou quase sem coragem de entrar. Olhou Guma com pena. Os longos cabelos morenos do mestre de saveiro caam-lhe na frente da cara e os olhos pareciam amedrontados. Ele est com medo pensou Joo Caula -e tentou recuar novamente. Mas tinha que pagar aos canoeiros dos bateles e se adiantou. Alguns fregueses do Farol das Estrelas o cumprimentaram. Ele respondia com gestos, se deixou cair numa cadeira junto a Manuel. Este disse: B"?<          <      < ` < <    `  A#BI" -Como vai? -Parecia ter arrancado o cumprimento com dificuldade. B"<   A#!" -Seu Joo... -disse Guma.B" A#>" Joo Caula puxou o bigode, pediu urna cachaa. Mestre Manuel parecia muito desanimado, estava mudo, olhando o interior do copo vazio. E ficaram os trs em silncio algum tempo. Ouviram um fregus gritar num canto: B"   `     A##*" -Olhe se essa pinga sai ou no... B"  A#*" E seu Babau anotando nomes no caderno. De repente Guma levantou o corpo, passou a mo na cabea botando o cabelo para trs e falou: B"  `  <  A#-4" -Ainda nada, seu Joo. As coisas to ruins. B"  A#$+" Mestre Manuel repetiu como um eco: B"  A# " -To ruins... B" A#&" E perguntou em voz mais alta: B" A#!(" -Quanto tempo isso vai demorar? B"  D A#M " Seu Babau olhou, suspendeu a mo do caderno, ficou com o lpis parado no ar. Joo Caula comeou a ouvir a modinha que o cego cantava na porta. Era triste, sem dvida. A modinha vinha devagarinho e ia se apossando de Joo Caula. Mestre Manuel respondeu prpria pergunta: B"  ` `   <    A#@G" -Eu acho que isso nunca mais acaba. E a gente morre de fome... B"    A#4" Seu Babau baixou o lpis. Coou a cabea e sorriu sem saber de qu. Dobrou o caderno e deixou de tomar nota das despesas. Agora encostara a cabea no brao e parecia dormir. B"    `  @ A#$+" -Arriou as velas -comentou algum. B"   A#GN" -To ruins... -disse Joo Caula se referindo aos meses que passavam. B"   A#= " A modinha do cego se arrastava l fora. No se ouvia o rudo de nenhuma moeda pingando na sua lata. Mas ele cantava. E Joo Caula tinha que ouvir aquela modinha mesmo que no quisesse. Guma tornou a falar... B"  `  <   <  D A#"gn" -Tava pra dar a vosmec dinheiro esse ms, mas tou limpo. No fiz nada, no fiz mesmo nada, seu Joo. B" <    A#$ov" Uma mulher entrava, era Madalena. Olhou para as mesas. Ningum a convidou. Ela riu, gritou com sua voz cheia: B" < <    A# " -Tem enterro aqui? B" A#," Quase todos olharam para ela. Mestre Manuel estendeu a mo, j tinham sido amantes. Mas foi por causa de Joo Caula que ela veio para a mesa. B"      A#$" -Me paga uma cachaa, Joo. B" A##" O menino trouxe a cachaa. B" A#"gn" A modinha do cego (falava na pobreza dele, pedia uma caridade) se eternizava l fora. Guma continuou: B"  <   A#EL" -Seu Joo, o senhor vai ter pacincia. Deixar essa coisa melhor... B"    A#" Mestre Manuel duvidou: B"< A##" -E isso melhora algum dia? B" A#:A" Madalena espiou para eles. Depois gritou para seu Babau: B"  A#")" -No bota a vitrola hoje, Babau? B"  A#5" Babau levantou a cabea do brao, olhou em torno, foi dar corda na antiquada vitrola. Um samba comeou a encher a sala. Ainda assim era a modinha do cego que Joo Caula ouvia. B"       A#." -S que tem, Guma, que eu tambm tou atrapalhado. Atrapalhado como o diabo. Tenho trs canoeiros para pagar. Os batelo no tem dado nada, s despesa.B" <     A#6=" Fitou mestre Manuel, depois Madalena abanou as mos: B"  A# " -S despesa... B" A#5<" -Eu sei, seu Joo. Eu tou querendo pagar, mas cad? B"  A#$mt" -Tou sem jeito, Guma. Ou arranjo dinheiro ou tenho que torrar um batelo nos cobres pra pagar as dvidas... B" `   ` A#1" A modinha do cego penetrava apesar do samba. Guma baixou a cabea. Seu Babau voltara a dormir em cima do caderno. Madalena acompanhava a conversa com interesse. B"     ` A#3:" -Tava pensando... -Seu Joo Caula no continuou. B"  A# " -O qu? B"  A#1" -A gente vendia o barco, tu recebia tua parte, eu me arranjava com o resto. Se tu quisesse a gente podia fazer uma combinao, voc vinha trabalhar nos batelo. B" `    < A# " -Vender o Paquete?B" A#(}" A modinha do cego dominava inteiramente o samba. Esse era mais alto, mais forte, porm eles s ouviam o que o cego cantava: B"      A# " B" A#" Tenha d de quem perdeuB"< A# " a luz dos olhos.B"@ A# " B" A#'." Mestre Manuel tambm no compreendia: B"`  A#"" -Vender o Paquete Voador? B" A#&" Madalena botou a mo na mesa: B" A#"" - um barco to bonito... B" A#FM" -Sino, como que a gente vai se arranjar? -Joo Caula perguntava. B"    A# " Repetiu: B" D A# " -Como ? B" D A# ^e" -Seu Joo, espere mais um ms, eu arranjo dinheiro. Nem que tenha que passar fome este ms...B"      A#M " -No por mim, Guma. Eu tambm tenho que pagar. Estava com medo que pensassem que era usura dele. A msica do cego o torturava. -Tu bem sabe que eu no sou capaz de me aproveitar de uma m ocasio pra esfolar um companheiro. Mas a coisa t preta, eu no vejo outro jeito...B"` <     <   `   A# " -Para o ms... B" A#:A" -Se eu no pagar os homens amanh, eles larga as canoas. B"  A#!" Mestre Manuel perguntou: B" A##" -No se pode dar um jeito? B" A# " -Como? B" A##*" -Arranjar um dinheiro emprestado? B"   A#6" Ficaram pensando em quem poderia emprestar. Manuel lembrou mesmo Dr. Rodrigo. Mas tanto Guma como Joo Caula deviam a ele. Foi posto de lado, Joo Caula continuava a se desculpar: B"`   ` `   A#-" -Pergunta pr velho Francisco se sou homem pra essas coisas. Ele me conhece faz muito tempo... (Tinha vontade de pedir ao cego que se calasse.) B"    <  h A#$" Madalena lembrou seu Babau: B" A##*" -Quem sabe se ele pode emprestar? B"   A##" - mesmo... -disse Manuel. B" A#j" Guma os olhava tmido, como que suplicando que eles o salvassem. E Joo Caula continuava a se desculpar, tinha vontade de dar o saveiro de presente a Guma e depois se jogar na gua porque no tinha coragem de olhar os canoeiros atrasados no salrio. Mestre Manuel levantou-se, foi at o balco, subiu, pegou devagarinho no brao de seu Babau. E o trouxe para a mesa. Seu Babau sentou-se:B"&  `    <       `  A# " -O que ? B" h A#'z" Guma coou a cabea. Joo Caula estava inteiramente voltado para a modinha do cego. Foi mesmo mestre Manuel quem falou: B"       A#"" -Tu como vai de dinheiro? B" A#GN" -Quando receber tudo que me devem de cachaa tou rico -riu seu Babau. B"  @ A#(/" -Mas tu tem algum que possa emprestar? B"   A# " -Quanto tu quer? B"d A#"ho" -No sou eu. aqui seu Joo e Guma. -Virou-se para Joo Caula. -Quanto voc precisa com mais pressa? B"    d A#;B" Joo Caula continuava a ouvir o gemer do cego. Explicou: B"`   h A# `g" - para pagar meus canoeiros. Tou com um dinheiro com Guma, tu sabe como as coisas to ruim... B"      A# " Guma atalhou: B" A#KR" -Eu fico devendo, pago assim que arranje um dinheirinho. T tudo difcil. B"  d A#" Seu Babau perguntou: B" A# " -Mas quanto ? B" A#"" Joo Caula fez clculos: B" A#+2" -Com cento e cinquenta eu me arranjava... B"  A#AH" -No tenho nem a metade a. Posso abrir o cofre pra voc ver... B"   A# " Reflectiu: B"  A#29" -Se ainda fosse negcio de cinquenta mil-ris... B"  A#CJ" -Tu no te arranja com cinquenta? -Manuel olhou para Joo Caula. B"   A#Za" -Cinquenta mal vai dar para um. Os cento e cinquenta mil-ris assim mesmo s paga parte. B"  `   A#!(" -Quanto tu tinha que dar, Guma? B"  A#07" -Cem por ms... Mas tou atrasado no pagamento. B"< < A#MT" Seu Babau levantou-se, desapareceu no fundo no botequim. Madalena declarou: B" <  A# " -Se eu tivesse... B" A#)" A vitrola parara. Ficaram em silncio ouvindo o cego. Seu Babau voltou com cinquenta mil-ris em notas de dez e cinco. Deu a Guma: B"      A#+2" -Tu me paga na primeira viagem, t certo? B"<  A#Za" Guma entregou o dinheiro a Joo Caula. Mestre Manuel pousou a mo no ombro de Madalena: B"   `  h A#3:" -Arranje um coronel que empreste cem mil gente. B"<  A# " Ela sorriu: B"  A#(/" -Se arranjar cinco hoje, tou feliz... B"  D A#"" Guma disse a Joo Caula: B" A#:A" -Espere mais uns dias. Vou ver se arranjo pra completar. B"  A# ]d" Joo Caula fez um gesto concordando. Madalena suspirou descansada e comeou a falar muito: B" `    A#)" -Vocs conhece a Joana Doca? Tu conhece, no , Manuel? Pois ela hoje tava na janela quando viu um cara espiando muito. Foi e... B"     @ A#" Mas Guma interrompeu: B" A#T07 " -Vocs sabe que eu no tenho nada tirando aquele barco, que nem meu direito, devo ele quase inteirinho. Devo a voc e ao doutor Rodrigo. Se eu ficar sem o barco o que que deixo pra meu filho? A gente no vive muito, um dia cai um temporal, a gente vai embora. Ainda quem no tem filho nem mulher... B"           A#T[" -Vida desgraada -fez Manuel. -Por isso no quero filho. -A patroa bem que quer... B"  < A#4;" - uma mulher bonita a tua -disse Madalena a Guma. B" ` A# " -Tu conhece ela? B"d A#!" -J vi andando com voc. B" A#MT" A msica do cego continuava na porta. Veio mais cachaa. Joo Caula falou: B"   A#"fm" -Se eu arranjasse mais dez, dava vinte a cada homem... Talvez a gente pudesse ficar mais descansado. B"    d A#HO" -Dez eu arranjo amanh de manh -respondeu Manuel. -A patroa deve ter. B"  d A#LS" -Ela se parece com a mulher que t morando l em casa agora -fez Madalena. B"   A#$" -Tem gado novo em tua casa? B" A#%," -Se aquilo novo... Deus te livre. B"  A# " -Quem ? B" D A#.5" -Uma velhusca. Diz que foi mulher do Xavier. B"  A#!(" -Do Xavier? O mestre do Cabar? B"<   A# " -Desse mesmo. B" A#3:" -Uma vez ele contou umas coisas dela -disse Guma. B"`  A#$+" -Eu tava -concordou mestre Manuel. B"   A#%qx" -Ele gostava um bocado dela. Ela deu o fora nele, ele botou ainda o nome no barco... Ela chamava ele de Cabor. B"  `     A#!cj" -ta sujeito esquisito. -Madalena fez um muxoxo com a boca. -Nunca vi outro. Todo no sei como... B" <   @ A#IP" -Tu era muito amigo de Rufino, no era? -Joo Caula virou-se para Guma.B"   A#AH" -Porque pergunta? Ouviu agora distintamente a cano do cego. B"   D A#"el" -Diz que a que ele matou a mulher, ela tava botando os chifres nele com um marinheiro de um navio. B"    ` A#")" -J ouvi falar -apoiou Madalena. B"  h A#IP" -Tou sabendo disso agora. E se fez foi bem feito. Era um negro direito. B"   A#?F" -No tinha dois canoeiros igual a ele nesse cais -fez Manuel. B"    A#29" Guma ouvia Rufino dizendo: Seu mano, seu mano. B"  A#'y" Mas se consolava porque pensava que Rufino morrera sem saber que ele tambm o trara. Joo Caula encerrava a conversa: B" <      A#(/" -Se fosse eu, matava o cabro tambm... B"  h A#KR" Maneca Mozinha ia entrando. Juntou-se ao grupo, mas falou pr sala toda: B"   A#"" -Vocs sabe o que se deu? B" A#.5" Ficaram esperando. Maneca Mozinha cantou... B"  A#$ov" -Xavier vendeu o barco a Pedroca por uma porcaria, engajou naquele grego que tava com falta de um marinheiro. B" `      A# " -Que t dizendo? B"d A#DK" - como digo. No falou com ningum. Saiu h coisa de meia hora... B"   A##*" -Foi a mulher -murmurou Madalena. B"<  h A#BI" -Diz que a bia dos barco grego uma misera -comentou um negro. B"   h A#3" Saram. Na porta o cego cantava. Estendeu a meia cuia de queijo e Joo Caula deixou cair uma moeda de dois tostes. No compraria fumo para seu cachimbo naquela noite. B"<  <     A# " B" A# " B" A#G " Toufick, o rabe, sofreu um grande abalo com a fuga de Xavier. Um navio entraria dentro de cinco dias com um carregamento grande de sedas de contrabando. Como tir-lo do barco sem um saveiro, sem um mestre em quem confiasse? Explicou para F. Murad: B"        ` A#!bi" -Era um cachaceiro, foi por isso. Sujeito que bebe no serve. Agora vou arranjar um homem srio. B"     A#@G" -Trate de arranjar logo. preciso desembarcar o carregamento. B"   A#;" Toufick veio para o cais. Tratou de indagar com seu Babau das finanas dos diversos mestres de saveiro. Soube do caso da vspera, do emprstimo feito a Guma, da quase venda do Paquete Voador. Perguntou: B"        A#" - um sujeito srio? B" A# " -Guma? B" A# " -Sim. B" A#%," -No h homem mais direito no cais. B"  A#8?" Foi certo para a casa de Guma. Foi Lvia quem atendeu: B"`  A#6=" -Guma saiu mas no demora, seu Toufick. Quer esperar?B"  A#=D " Ele disse que sim. Ficou sentado na sala, rolando o chapu na mo, olhando a criana que nos fundos da casa se sujava numa poa de gua. E Toufick ficou se lembrando do que o Rodolfo lhe dissera certa vez (Toufick o procurara, era credor de uma roupa de Rodolfo, para saber se Guma queria se meter no negcio de contrabando): Meu cunhado no o homem que voc precisa, turco. Dissera que Guma no era homem para se meter em negcios assim. E Toufick pensava se valia a pena estar ali esperando. Tinham que substituir Xavier com urgncia. Guma era o homem indicado: estava endividado, era um dos melhores mestres de saveiro do cais, tinha um barco bom e veloz. Mas teria coragem de se meter naquele negcio? Em escrpulos Toufick no pensou. Levantou-se, espiou na janela. Guma apontava na rua. Quando o viu apressou o passo: B"P`  `   `               `            A#%" -Que h de bom, seu Toufick? B" A#!(" -Queria conversar com o senhor. B"<   A# " -Tou s ordens... B" A#18" Lvia veio espiar l de dentro. Guma perguntou: B"< ` A#$+" -Toma uma cachacinha, seu Toufick? B"  D A#" -Um pouco, quase nada. B"< A#'." -Uma cachaa, Lvia, pra seu Toufick. B"  D A#'." Toufick apontou a criana no quintal: B"  D A# " -Seu filho? B"  A# " - sim. B"  A#-" Lvia veio com a cachaa. Toufick bebeu. Quando Lvia desapareceu no interior da casa, ele chegou a cadeira furada para junto do caixo de Guma: B"      D A#9@" -Desculpe, seu Guma, mas como vai o senhor de dinheiro? B"  A#DK" -No tou indo bem no, seu Toufick. O paradeiro t danado, porqu? B" < @ A#%ry" -Eu sabia. Os tempos esto maus, muito maus. Mas assim mesmo um homem decidido ainda pode ganhar muito dinheiro. B"     A#$" -T a uma coisa difcil... B" A#18" -O senhor no acabou de pagar seu saveiro novo. B"  A#4;" -Tou atrasado. Como que se pode ganhar dinheiro? B"  A#+2" -O senhor j soube que Xavier foi embora? B"   A#)0" -Soube. Foi a mulher dele que apareceu. B"  h A# " -Que mulher? B" A#" -A dele. Era casado. B" A#CJ" -Ento foi por isso. Pois ele trabalhava pra mim, o senhor sabia? B"   A#" -Tinha ouvido dizer. B" A#!dk" -Pois ele deixou Toufick na mo, como vocs dizem. E o trabalho dele era de deixar muito dinheiro. B"    @ A#"" -Recebia os contrabandos. B" A#*1" -Umas encomendas que vinham a bordo e... B"   A#(~" -No gaste sua finura comigo, seu Toufick. Todo mundo no cais t farto de saber. E agora o senhor quer fazer negcio comigo? B"     @ A#(~" -O senhor pode pagar seu saveiro em dois ou trs meses. negcio que d. Pode ganhar de uma vez s at quinhentos mil-ris. B" ` <  `  A#9@" -Mas se a Polcia mete o olho o camarada t naufragado. B"  A#7>" -Como a gente faz nunca se descobre. J se descobriu? B"  A#" Olhou Guma indeciso: B" A#2" -Quarta-feira entra um barco alemo. Traz um carregamento grande. negcio para dar... -Suspendeu a frase. -Quanto ainda est devendo do seu saveiro? Muito dinheiro? B"      A#*1" -Uns oitocentos mil-ris, mais ou menos. B"  A#4" -Pois negcio para dar de uma bolada uns quinhentos mil-ris. Negcio grande, para umas trs viagens do saveiro. Em menos de uma noite voc pode botar mo nesse dinheiro. B"    `  @ A#J  " Agora falava com a cabea bem encostada na de Guma, falava em segredo, como um conspirador para outro. Guma pensava que podia fazer aquele servio uma ou duas vezes, o necessrio para pagar o barco, depois dava o fora em Toufick. Mas o rabe parecia adivinhar: B"    <  `    A#D " -Com dois ou trs negcios voc pode pagar o barco e at dar o fora se quiser. Eu me desaperto, pois estou sem ningum. Voc se livra das dvidas. E demais um ou dois carregamentos por ms. O resto do ms voc viaja, nem d na vista. B"         A#T07 " Toufick ficou esperando a resposta. Guma pensava. Faria aquilo uma ou duas vezes. Pagaria o barco, daria o fora. O prprio Toufick o dissera. No tinha medo. At gostava das empresas arriscadas. Mas temia o desgosto de Lvia se ele fosse preso. Ela j sofria tanto pelo irmo... Ouviu a voz de Toufick. B"   `    < `   @ A#&" -Est precisando de dinheiro? B" A#KR" Viu Joo Caula sem poder pagar aos canoeiros, querendo vender o saveiro: B"   A#29" -Senhor me adianta cem mil-ris? Topo o negcio. B"  A#-" O rabe meteu a mo no bolso da cala, tirou um embrulho de papis. Eram cartas, recibos, vales. E dinheiro misturado com aquela papelada suja: B"  <    A#/6" -Voc sabe onde Xavier desembarcava as sedas? B" < A# " -Onde era? B"  A#$" -No porto de Santo Antnio. B" A#"" -Perto do farol da Barra? B" A# " -Era. B" A# " -T bem. B" D A#"el" Recebeu os cem mil-ris. O velho Francisco entrava. Toufick se despediu, disse em voz baixa a Guma: B"  `   A#>E" -Quarta-feira, s dez horas, esteja com o saveiro preparado. B"    A#3:" O velho Francisco cumprimentou quando ele passou: B"d <   A#" -Bom dia, seu Toufick. B"< A# " Lvia veio saber: B" A#!" -O que que ele queria? B" A#V]" -Saber umas coisas do Xavier, que foi embora. Parece que Xavier ficou devendo a ele. B"   A#>E" O velho Francisco olhou sem acreditar. Lvia ainda comentou: B"   h A#")" -Pensei que ele no sasse mais. B"  A#/6" O filho no quintal chorou. Guma foi busc-lo. B"  A# " B" A# " B" A#=" A noite estava quente sobre a terra. Mas no mar corria uma brisa fresca que dava um dengue aos corpos. No cu de estrelas havia uma Lua enorme e amarela. O mar estava calmo e s as canes que vinham de toda parte cortavam o silncio. Pouco distante do Paquete Voador estava o Viajante sem Porto e Guma ouvia os gemidos de amor de Maria Clara. Mestre Manuel amava no seu saveiro mesmo, atracado ao cais nas noites de lua. O mar prateado se estendia por baixo deles. Guma pensou em Lvia, que a estas horas estaria em casa angustiada. Ela nunca se pudera conformar com a vida dele. Principalmente depois do desastre do Valente, vivia numa eterna agonia, esperando ver Guma chegar morto no fim de cada viagem. Se ento ela soubesse que ele estava de agora em diante metido no contrabando de sedas, nunca mais teria um momento de sossego, porque ao receio da morte no mar se juntaria o medo de uma priso. Guma jura que abandonar o negcio logo que pague o saveiro. Hoje ser a primeira noite e mais tarde ele receber quinhentos mil-ris. Ir pagar tudo que deve a Joo Caula, dir que arranjou emprestado. Depois s restar o Dr. Rodrigo e esse no o importunava. Com duas viagens mais ter pago o barco. Ento ganhar algum dinheiro, vender o Paquete Voador, entrar como scio num armazm com o tio de Lvia. Vender mesmo o Paquete Voador? Depois de tantos sacrifcios para adquiri-lo uma pena vend-lo para ser scio de um pequeno armazm. Deixar o mar, os saveiros, o seu porto. Isso coisa que di a um marinheiro principalmente quando a noite est assim bonita, cheia de estrelas e com uma Lua to bela. J passa das dez horas e Toufick ainda no chegou.B"  `       <          `          `                 `   <    <     `  d A#-+" Guma viu quando o cargueiro alemo entrou. Eram trs horas da tarde, ele estava no saveiro. O cargueiro no atracou, era enorme para o cais, ficou l fora, soltando rolos de fumaa. De cima do Paquete Voador Guma enxergava as luzes do navio. Lvia pensa que Guma j viajou, est cortando agora as guas do rio, levando um carregamento para Mar Grande. Ela o espera ao romper da madrugada. Estar ansiosa, cheia de medo, e quando ele chegar perguntar quando se mudaro do mar. Um armazm... Vender seu barco, deixar seu porto. Pensara nisso quando trara Rufino, quando perdera o Valente. Mas agora no quer. Tanto se morre no mar como em terra, besteira de Lvia. Mas esto cantando agora mesmo aquela velha moda que diz que desgraado o destino das mulheres dos martimos. Guma alisa o casco do Paquete Voador. Veloz como nenhum. Para pegar com ele nesse cais s o Viajante sem Porto. Assim mesmo porque tem um mestre como Manuel. Tambm o Valente era um saveiro bom. No to bom, no entanto, como o Paquete Voador. O prprio velho Francisco, com sua longa experincia de saveiros e embarcaes, dizia que no vira ainda nenhum como este. E agora iria vend-lo...B"l `  `     `             `      ` ` `  <     <  `    ` A#)" Ouve o salto de Toufick. Vem outro rabe com ele. Este traz um cachecol enrolado ao pescoo, apesar do calor. Toufick apresenta. B"      A# " -Senhor Haddad. B"@ A# " -Mestre Guma. B" A#EL" O rabe bate a mo na cabea numa espcie de continncia. Guma diz: B"   h A# " -Boa noite. B"  A##" Toufick examina o saveiro. B" A#" - bem grande, hem? B" A#$" -Maior nesse porto no tem. B" A#(/" -Acho que duas viagens voc leva tudo. B"   A#/6" Haddad assentiu com a cabea. Guma perguntou: B" @ A#" -Vamos largar agora? B" A#&" -Vamos esperar. Ainda cedo. B" A#." Os dois rabes sentaram no madeirame do saveiro e comearam a trocar lngua. Guma fumava silenciosamente ouvindo a cano que vinha do forte velho: B"      A# " B" A#" Ele ficou nas ondas,B" A#" ele se foi a afogar.B" A# " B" A#3" Os rabes continuavam a conversar. Guma se lembrava de Lvia. Ela o pensava em viagens, atravessando a boca da barra a estas horas. De repente Toufick virou-se e disse: B"<       A#" -Bonita msica, no ? B"< A#  " - .B" A# " -Muito linda. B" A#A " O outro rabe ficou calado. Fechou o palet, disse qualquer coisa em rabe, Toufick riu. Guma olhava para eles. A voz se extinguiu no forte velho e puderam ouvir perfeitamente o embolar dos corpos no saveiro de mestre Manuel. B"  `        A#)0" Meia-noite mais ou menos Toufick disse: B"`  A# " -Podemos ir. B" A#acj " Suspendeu a ncora do saveiro (Haddad ficou olhando as suas tatuagens), levantou as velas. O barco, depois da manobra, ganhou velocidade. As luzes do navio apareciam. Recomeou a toada no forte velho. Naturalmente Jeremias cantava para a Lua nessa noite de tantas estrelas. Iam silenciosos no saveiro. J estavam bem perto do navio quando Toufick disse: B"!  <      `     A# " -Pare. B" A#C " O Paquete Voador parou. A uma ordem de Toufick, Guma arriou as velas. O casco do saveiro jogava lentamente. Haddad assoviou de um modo especial. No obteve resposta. Tentou novamente. Da terceira vez ouviram um assovio que respondia. B"          A##" -Podemos ir -disse Haddad. B" A#" Guma tomou os remos e no levantou as velas. O saveiro contornou o navio, foi atracar no seu casco, do lado que dava para Itapagige. Uma cabea apareceu. Conversou com Haddad numa lngua tambm estranha para Guma. Logo desapareceu. Depois veio outro. Nova conversa. Haddad mandou que o saveiro se adiantasse um pouco mais. Foram encostar junto a uma larga abertura. E dois homens comearam a descer peas de seda, que Guma e Toufick iam arrumando no poro do saveiro. No foram perturbados. B"0       ` `  <         A#ZFM " Se afastou lentamente do navio. J longe, depois de ter atravessado o quebra-mar, abriu as velas e correu de lanterna apagada. O vento o ajudava, chegou rapidamente ao porto de Santo Antnio. Apenas as ondas eram bem mais altas, o mar menos calmo. Mas o Paquete Voador era um saveiro grande e resistia bem. Toufick comentou: B"`         <  < A#" -Chegamos depressa. B" A#BI" Homens j esperavam o saveiro. Um deles bem vestido se adiantou: B"   A# " -Tudo bem? B"  A#" -Quantas viagens mais? B"< A#%," -Com este saveiro somente mais uma. B"  h A#'{" -O homem bem vestido atentou em Guma, que ajudava a descarga. As sedas iam para uma casa cujos fundos davam para o porto. B"      A# " - esse o rapaz? B"d A# " -, senhor Murad. B" A#%sz" Guma olhou para o ricao. Era um sujeito gordo, bem barbeado, vestido de preto. Ele botou a mo no ombro de Guma: B"      A#BI" -Rapaz, voc pode ganhar muito dinheiro comigo. andar direito. B"` `  A#8?" Deu mais uma olhadela para o servio, disse a Toufick: B"  A#IP" -Veja que tudo ande direito. Agora vou embora, que Antnio est doente. B"   A#? " Antnio era o seu filho, estudante de Direito. Tinha paixo por aquele filho literato e farrista. Desculpava tudo nele. Gostava de ver o nome do filho nos jornais assinando coisas. Foi por isso que Haddad perguntou: B"`  <        A#18" -Antnio est doente? Faa uma visita para ele. B"  A#8?" F. Murad, antes de sair, ainda tocou no ombro de Guma: B"`  A#-4" -Ande direito comigo, que no se arrepende. B"  A# " -Deixe estar. B" A#.5" O automvel o esperava duas esquinas depois. B" d A#I  " Acabada a descarga, o saveiro voltou. Novamente o poro se encheu de fardos de seda. Guma j tinha perdido a conta de quantos fardos tinham sido desembarcados. Toufick entregou um mao de dinheiro a um dos homens, que o contou luz de uma lanterna de bolso: B"        `  A#IP" -Est certo -disse o que estava por detrs, com uma pronncia horrvel. B"`   A#O" " O saveiro saiu, novamente pegaram o vento, abriram as velas e chegaram sem incidentes ao porto de Santo Antnio. Desta vez Toufick lhe ofereceu um gole de cachaa. O saveiro foi descarregado. Haddad tinha desaparecido dentro da casa. Guma acendeu o cachimbo. Toufick veio para ele: B"     <    ` < A#8?" -Depois lhe aviso quando vou precisar de novo de voc. B"  A#(/" Tirou duas notas de duzentos, lhe deu. B"  D A#*1" -Voc nunca viu esta casa, est ouvindo? B"  A#%" -T falando com um martimo. B" A# " Toufick sorriu: B"@ A#!(" -Bonita cano aquela, no era? B"  A#B " Abotoou o casaco, se meteu pela casa adentro. Guma apertou as duas cdulas na mo. Manobrou o saveiro, partiu na madrugada que rompia. E s no meio da gua sentiu as pernas e os braos cansados. Se estendeu no saveiro, murmurou: B" <  ` <   `  A#+2" -T parecendo que tive medo o tempo todo. B"   A#(/" O farol da Barra piscava na madrugada. B"   A#" Joo Caula lhe disse: B"< A# " -Tu um homem direito. B"` A#1" -Arranjei de emprstimo com o tio de minha mulher. Agora vou pagando a ele. A quitanda tem dado, parece que ele vai botar um armazm. At me chamou para scio. B"    `  A#!(" -J vi ele uma vez em tua casa. B"  A# " -Um homem bom. B" A# " -T se vendo.B" A#@ " Rodolfo apareceu uns dez dias depois. Guma tinha chegado na vspera de uma viagem a Cachoeira, ainda dormia. O velho Francisco sara para fazer umas compras. Rodolfo ficou brincando com o sobrinho, conversando com Lvia: B"  <       A#$" -Tu ainda t muito medrosa? B" A#" -Um dia me acostumo... B"< A# '" -T demorando chegar esse dia. B"  A##jq" Olhou para o sobrinho, que o puxava para ver o saveiro de brinquedo na bacia de gua. Falou para a irm: B"     A#7>" -Tu no queria que ele fosse pr quitanda dos velhos? B"  A# " -Gostava, sim. B" A#" -Pois t em tempo... B" A#8?" -O que que tu t querendo dizer? -perguntou ansiosa. B"  A#JQ" Ele a espiou por debaixo dos olhos. Se ela soubesse ainda sofreria mais: B"   A#CJ" -No por nada. Pelo menino. T crescendo, acaba gostando daqui. B"   A#5<" Ela ainda estava desconfiada, mas serenou um pouco: B"  A#!(" -Pensei que tinha alguma coisa. B"`  A#" De repente perguntou: B" A#<C" -Onde foi que tu arranjou o dinheiro que emprestou a Guma? B" `  A# _f" -Eu? -Mas compreendeu logo. -Eu tinha cavado um troo bom. Ia gastar mesmo aquele dinheiro... B"      A#&" Ela veio alisar a sua cabea: B" A# " -Voc to bom. B"d A#>E" Guma levantava. Enquanto Lvia botava o caf, Rodolfo falou: B"`   A#29" -Tu t metido no negcio de contrabando, no t? B"  A#!" -Como voc veio a saber? B" A#"fm" -Eu sei disso tudo. Uma vez at j vim aqui a mando de Toufick, mas no falei nada de pena de Lvia. B"     A# " -Daquela vez? B" A# " -Sim. B" A#BI" -Mas no vou demorar. tempo de pagar o saveiro. E falta pouco. B"   A#;" -Toma cuidado. Se esse negcio rebentar, um escndalo danado. Com Murad no acontece nada, ele tem mais de dez mil contos, se arranja. Mas o pau vai rolar nas costas dos pobres como tu. Toma cuidado. B"        A#3:" -No demoro nesse negcio. No quero que Lvia... B" < A#<C" -Mais dia menos dia h-de saber. Que dinheiro tu me tomou? B"   A# " Guma riu: B" h A#" -Voc guentou a mo? B" A#BI" -Mas quase me atrapalho. Toma cuidado. Isso um troo perigoso. B" `  h A# ]d" Lvia entrava com o caf e uma talhada de cuscuz. Desconfiou daquela conversa em voz baixa: B"     A#" -Que segredo esse? B" A#3:" -No tem segredo. A gente tava falando do garoto. B" ` A#JQ" -Rodolfo tambm de parecer que voc deve se mudar pra junto de ti tio. B"  d A#$+" -Por causa do menino -fez Rodolfo. B"  D A#$ov" -Deixa eu acabar de pagar o Paquete, negra. Ganho uns cobres, a gente faz o negcio. E agora j t to perto. B"      A#9@" Pegou a mulher pela cintura. Ela se sentou no seu colo: B"  A#" -Tenho tanto medo... B" A#!" Rodolfo baixou a cabea. B" A# " B" A# " B" A#[IP " A segunda vez foi um carregamento pequeno de meias francesas para senhoras e perfumes. Guma recebeu cem mil-ris. Tudo correra bem. Desta vez F. Murad fora no saveiro e tivera uma longa palestra com um cavalheiro do navio. Depois pagou uma grande quantia em dinheiro. Quando voltaram F. Murad lhe disse, fazendo uma cara sria: B"!        <   <  A#7>" -Voc nunca me viu ir a bordo de navio nenhum, rapaz. B" ` A#" -No precisa avisar. B" A#"fm" -Tive sabendo umas coisas de voc. Dizem que um rapaz de coragem. Quanto ainda deve do seu saveiro?B"      A#<C" -Pagando esses cem, fico devendo s trezentos e cinquenta. B"`    A#U\" -Com mais umas poucas viagens voc est com o saveiro livre. Depois vai nos deixar? B" <  A#8?" -Deixar de trabalhar para o senhor? Acho que vou, sim. B"  A# " -Vai? B" A#%sz" -Foi o que disse a seu Toufick. Entrava nisso mas podia sair na hora que quisesse. Entrei s pra pagar meu barco. B"       A#%" -Ningum lhe impede de sair. B" A#<C" -No tenha medo que minha boca no se abre pra contar nada.B"   A#(~" -No tenho medo disso. Sei que voc um rapaz direito. Mas acho que se voc ficasse com a gente podia ganhar muito dinheiro.B"    `  A#&" Botou a mo no ombro de Guma: B" A#!(" -Acha o servio muito perigoso? B"  h A#7" -Tenho mulher e filho. Amanh a Polcia d em cima... (se lembrava das palavras de Rodolfo)... ao senhor no vai acontecer nada. O senhor podre de rico. A coisa cai em cima de mim. B"  `    @ A#$" F. Murad baixou mais a voz: B" A#(" -Voc pensa que ningum sabe que eu contrabandeio? Na Polcia tem gente comprada. Vai ser difcil arranjar um rapaz como voc. B"  `   d A#X_" Continuaram a viagem em silncio. Quando estavam chegando F. Murad ainda o aconselhou: B" < `    A#7>" -Se voc quiser continuar, vai ganhar muito dinheiro. B"  A#$" -Vou matutar. Se decidir... B" A#&x" Toufick lhe avisou que da a um ms chegava um carregamento grande. Talvez ele ganhasse uns duzentos mil-ris ou mais. B"  d    A#p" No outro dia foi levar os cem mil-ris ao Dr. Rodrigo. Ganhara naquela viagem, dissera. Cara no jogo em Cachoeira. Uma roletazinha, fora apostar uns cinco mil-ris, acabara ganhando cento e vinte. E como j acabara de pagar a parte de Joo Caula, vinha pagar a do doutor. Rodrigo, a princpio, no quis receber. Disse que Guma podia estar precisando. Mas Guma insistiu. Quanto antes pagasse o saveiro, melhor. B"( ` <     `       `   A#y7" Saiu dali para acertar uma viagem para Santo Amaro. Ia buscar um carregamento de cachaa. Vivia das viagens, o dinheiro do contrabando era para pagar o saveiro. Depois de tudo pago podia demorar mais um pouco no negcio at ganhar uns quinhentos mil-ris. Ento poderia satisfazer o desejo de Lvia. Iria para a cidade, abriria o armazm com os tios dela. At talvez nem precisasse vender o Paquete Voador. Podia entreg-lo de sociedade a mestre Manuel ou a Maneca Mozinha. Qualquer um deles gostaria de ficar com dois saveiros. Maneca Mozinha, alis, possua era uma canoa. Ficaria bem contente se pudesse tomar conta do Paquete Voador, ganharia muito mais dinheiro. E Guma no precisava se afastar completamente do cais. Poderia vir de vez em quando, dar suas viagens tambm. Continuaria a ser um martimo, a ter interesse no mar, a navegar. Satisfaria Lvia e ficaria satisfeito tambm, no se mudaria por completo. Aquilo que era um bom plano. Mas para realiz-lo tinha que demorar mais tempo no negcio de contrabando para fazer o dinheiro necessrio para entrar corno scio do tio de Lvia. Mais uns meses, urnas tantas viagens, teria juntado o suficiente. Era um negcio rendoso aquele. Pena que tivesse o perigo de acabar de repente e eles todos baterem com os costados na cadeia. Se tudo fosse descoberto, iria ser um escndalo horrvel. F. Murad tinha dez mil contos, as suas costas eram largas, nada lhe aconteceria. Mas a Guma, que mal tinha um saveiro... B"         <     <       <  `  `   `         ` ` `     `            A#" Ele no tinha medo. Se pensava nos perigos do contrabando, era por Lvia e pelo filho. Via o filho brincando junto bacia de gua. Brincava de saveiro. Gostava das coisas do mar, era bem um filho do cais. Quando ele crescer, guiar tambm o Paquete Voador, andar nessas guas. Dir que seu pai foi um dos melhores mestres de saveiro que at hoje apareceram nesse cais, e mesmo quando se mudou para a cidade no vendeu seu saveiro, de quando em vez vinha viajar tambm. Guma passa a mo com carinho no casco do Paquete Voador. B"2   <      `           A#)" Foi olhar o poro. Viu o corte de seda. Tinha-se esquecido completamente daquilo. Na vspera F. Murad dera aquele corte de seda: B" ` < <   A#%" -Para voc dar sua esposa. B" A#8" Com a pressa de ir para casa ele se esquecera da seda. Lvia havia de ficar contente. Ela tinha raros vestidos e vestidos pobres. Agora ficaria com um vestido bom, vestido de senhora chique. B"      <   A#-" Aprontou o saveiro e se dirigiu para casa. Sairia depois do almoo. Lvia o esperava na janela com o filho ao lado. Ele foi logo mostrando a seda: B"<   `   A#!(" -Tinha-me esquecido no saveiro. B"  D A# " -Que isso? B" A# " -Veja... B" D A#EL" Entrou. Ela saiu da janela, botou o filho no cho. Examinou a seda: B"  d A#<C" -Mas isso seda cara -e tinha uma interrogao nos olhos. B"`   A#&-" -Ganhei numa quermesse em Cachoeira. B"   A#(/" -Tu t mentindo. Porque tu no me diz? B"   A#)0" -Dizer o qu? Ganhei na quermesse, sim. B"< @ A#CJ" Ela dobrou a seda. Ficou em silncio um minuto, de repente falou: B"   A#9@" -Pra que tu deixa que eu v saber pela boca dos outros? B"  A# " -Mas o qu? B"  A# " - pior. B" D A# " -Tu t gira... B"d A#!bi" -Tu pensa que eu no j soube? Coisa ruim a gente sabe logo. Tu t metido em contrabando, no ? B" <    A#!(" -Foi Rodolfo que contou a voc? B"  A#"fm" -Faz tempo que no ponho os olhos nele. Mas todo mundo no cais sabe que voc est no lugar de XavierB"    @ A# " - mentira. B"  A#3:" Mas era impossvel negar. Era melhor contar tudo: B"  A#? " -Tu no v que a gente no tinha outro jeito de se desenterrar? Joo Caula j tava querendo vender o Paquete Voador, a gente ficava na mo. Eu tinha que me alugar como canoeiro, nunca que saa do cais como tu quer... B" <   <  `    A##jq" Lvia ouvia em silncio. O garoto veio correndo l de dentro, se agarrou nas saias dela. Guma continuou: B"     A#-" -Tu v... S fiz trs viagens pra eles, j paguei quase todo o saveiro. Com mais um ms tenho o dinheiro para a gente se estabelecer com seu tio. B"      A#" Arrancou com esforo. B" A#8?" -Se tou metido nisso, por causa de voc e do menino. B"  A#." -Eu tenho medo, Guma. No um dinheiro bem ganho. Um dia isso vira, a gente fica na casa do sem jeito. Eu j tinha tanto medo, quanto mais agora... B"   `   D A#/" -Mas dura pouco. Ningum descobre, quem vai descobrir? Mesmo voc pensa que a Polcia no sabe? Pois t farta de saber e de comer dinheiro do seu Murad. B"`     < A#Y`" - capaz de s ser uns dois que sabe, um dia muda, vem um srio de verdade, acaba tudo. B"   A#(" -Nesse tempo no tou mais. No duro mais que uns trs ou quatro meses. Se chegar a isso. o tempo de fazer um dinheirinho... B"      A#*" -Mesmo agora no tem mais remdio -fez ela com desalento. -Mas tu promete que larga logo que possa? Que vai comigo pr cidade alta? B"      A# " -Te garanto. B" A#"ho" Ento ela desdobrou o embrulho da seda. Era uma fazenda bonita. Experimentou em cima do corpo, sorriu: B"     A#)0" -S fao quando voc largar esse scio. B"   A# " -No demora. B" A#CJ" E Guma comeou a contar as peripcias da passagem de contrabando. B"   A# " B" A# " B" A#)0" O novo trabalho no deu a Guma o que Toufick prometera. No viera a quantidade que eles estavam esperando, o sujeito do navio explicava naquela lngua desconhecida para Guma, numa conversa interminvel. Guma s recebeu cento e cinquenta mil-ris. Toufick noticiou que esperava outra carga ainda essa semana. Mas foi quando rebentou a greve dos estivadores. Os mestres de saveiro e grande parte dos canoeiros fizeram causa comum com os homens da estiva. Os estivadores venceram, as tabelas para transporte em saveiro e canoa tambm aumentaram. Mas houve perseguies e um estivador de nome Armando teve de fugir e foi no saveiro de Guma, que saa naquela noite j levando carga pela nova tabela. E na noite estrelada o estivador lhe contou muita coisa. Para Guma no era de noite, era a madrugada que surgia. B"K      `           `             A#" Dr. Rodrigo prestou grande assistncia aos estivadores. Depois de tudo acabado fez um poema, em que terminava dizendo que o milagre que D. Dulce tanto esperava tinha comeado a se realizar. Ela concordou, sorrindo. Estava cada vez mais curva, mas alteou o peito ao ouvir o poema. E sorria feliz. Aprendera uma nova palavra para dizer nas casas pobres do cais. Agora podiam-na chamar de boa e de amiga. Ela sabia como lhes agradecer. Tinha novamente f. Apenas agora era diferente. B"-   <     `     `     A#[b" No cu de Santo Amaro a estrela de Besouro tinha desaparecido. Estava com os estivadores. B" < `   A# " B" A# " B" A##" Guma fez vrias outras viagens para Toufick. Pagou o saveiro. E tomou amizade ao rabe, muito gentil sempre. Haddad era que continuava calado, o cachecol desfiado em volta do pescoo. Murad aparecia raras vezes, s quando tinha algo de mais importante a tratar com homens de bordo. Agora Guma tinha duzentos e cinquenta mil-ris em casa e estava livre de dvidas. Lvia j falava do dia em que se mudariam para a cidade alta, como de coisa muito prxima. Quando ele tivesse ganho um conto de ris podia entrar para a quitanda do tio dela. E descansaria o velho, que j no dava para o trabalho. O saveiro ficaria com Maneca Mozinha, que pagaria todo ms uma certa quantia ao velho Francisco. Lvia quase no tinha mais medo, esperava mais serena, sua agonia diminura de muito. Tudo estava correndo bem nos ltimos tempos. At as tabelas tinham subido, a vida do cais voltara ao normal, tinham conseguido atravessar a crise. B"X       `  <     <          `   < ` <      D A#=" E gostava de ir ao saveiro nas noites em que o filho ia passear na casa dos tios dela. Ficava estirada ao lado de Guma, ouvindo as canes do cais, vendo a Lua amarela, as estrelas inmeras, sentindo a presena de Iemanj, que estirava os cabelos na gua. Pensava que o mar amigo, doce amigo. E sentia pena de Guma, que ia deixar o cais, ia largar seu destino. Mas no venderia o saveiro, uma vez por outra, quando o mar estivesse assim calmo, haveriam de vir passear sobre as guas, olhar as estrelas e a Lua do mar, ouvir essas canes tristes do cais. Amariam ento mais uma vez a bordo do saveiro. As ondas banhariam os corpos, o amor seria ainda melhor. As carnes teriam gosto de gua salgada, os ouvidos ouviriam o murmurar do vento, o gemer dos negros nas violas e harmnicas, a voz de Jeremias cantando no forte velho. S no ouviriam a voz de Rufino porque ele se matara por uma mulata traidora. Olhariam os tubares atravessando a gua, achariam belos os cabelos de Iemanj, a dona dos mares e dos saveiros. Teriam saudades, teriam saudades de tudo. Guma passaria a mo no casco fiel do Paquete Voador. Se recordariam do Valente. Mas a lembrana do filho crescendo nas ruas da cidade, crescendo para um destino melhor, consolaria os coraes do sacrifcio feito. Mas assim mesmo teriam saudades, teriam imensas saudades, como se tm saudades de um ente amado. Porque ningum pode nascer ou morar no mar sem o amar como amante ou amigo. Pode-se amar o oceano com amargura. Pode esse amor ser medo ou dio. Mas um amor que no se pode trair, que nunca se abandona. Porque o mar amigo, doce amigo. E talvez seja o prprio mar a terra de Aioc, que a ptria dos martimos. B"  `      `                   <              `      `              A# " B" A# " B" A# " Terras de Aioc B"@ A# " B" A# " B" A#l" Rosa Palmeiro no traz mais navalha na saia, nem punhal no peito. O recado de Guma a alcanou em terras do penso de ltima ordem onde no pagava porque o proprietrio a temia. Quando o marujo a encontrou e lhe disse: Guma mandou dizer que teu neto j nasceu, ela atirou fora a navalha da saia, o punhal do peito. Antes, porm, se utilizou deles mais uma vez, para arranjar a passagem de volta. B"&    `       <    A#8?" Lvia a recebeu como a uma amiga que no via h muito: B"  A# " -Essa casa sua. B" A#+" Rosa baixou a cabea, se apertou muito contra a criana, que a princpio fugira dela, depois tentou sorrir: -Guma foi um bicho de sorte. B"`  `    A#g{" O garoto perguntou se ela era mulher de Francisco, j que era sua av. Ela pde ento chorar, j no tinha a navalha na saia, o punhal no peito. Vestiu roupas sem espalhafato, sentava na porta da casa com o menino no colo. Havia noites em que ouvia cantarem no cais o seu ABC e o escutava enleada como se fosse o ABC de outra pessoa. S o mar d desses presentes a seus filhos. B"#     `         A# " B" A# " B" A#j" Pela primeira vez Guma ia pegar um temporal na passagem de contrabando. Mas viu que Lvia no estava preocupada (ela andava calma, tudo estava to prximo de acabar) e saiu satisfeito. Toufick esperava no saveiro e desta vez, alm de Haddad, havia um outro rabe jovem. Era Antnio, o filho de F. Murad, estudante e literato, que tivera curiosidade de ver como se passava um contrabando. B"&    <           A#*" As nuvens se acumulavam no cu, o vento soprava furioso. O navio ao largo era vagamente enxergado de bordo do saveiro. Toufick disse: B"      A#&" -Acha que vai haver temporal? B" A# " -Dos brabos... B" A#,3" O rabe virou-se para o filho de F. Murad: B"  A#/6" - melhor o senhor ir para casa, seu Antnio. B"  A#8?" -Deixe disso. Assim at mais gostoso. Fica completo. B"  A#" Voltou-se para Guma: B" A#%," -Acha que vai haver perigo, mestre? B"   A# " -H sempre perigo. B" A# " -Ento melhor.B" A#" O saveiro saiu, porm ainda no haviam chegado ao quebra-mar quando a chuva caiu. Assim mesmo Guma conseguiu arriar as velas e esperar que do navio dessem sinal. Se aproximaram com dificuldade, fora do remo. Toufick estava nervoso, Haddad apertava o cachecol contra o pescoo. Antnio assoviava bancando uma despreocupao que na verdade no sentia. O saveiro encostou o navio, os fardos de seda comearam a aparecer. Mas o trabalho se fazia difcil porque as ondas eram muitas, a chuva caa com violncia e o saveiro subia e descia, se afastava de junto do navio. Afinal concluram o servio, Guma manobrou, atravessaram o quebra-mar, rumaram para o porto de Santo Antnio. B"A        <        <  `    <    D A#[JQ " Mas o vento furioso os puxava. No havia uma embarcao no mar, apenas uma canoa que atracara mesmo no forte velho, sem coragem de continuar a viagem. O vento desviava o Paquete Voador da sua rota. O saveiro ia muito carregado, as manobras se faziam difceis. Guma ia agarrado ao leme, as ondas varriam o barco. Haddad murmurou: B"!         `  <  h A#$+" -As sedas vo chegar inutilizadas. B"  A#L " Procurou umas tbuas com que cobrir o poro. No via a tempestade, no via a morte, s enxergava as sedas se molhando. Guma o olhou com admirao. Toufick ia nervoso, temia pelo filho do patro. Este estava plido e se chegara para o mastro. Certa hora perguntou a Guma: B"   `       A#!" -Acha que a gente morre? B" A#)0" -s vezes a gente escapa. Tudo sorte. B"  A#v" Continuaram em silncio. Iam na rota certa, mas muito para o largo, muito para um mar que no era o dos saveiros. Guma viajava para o mar dos grandes navios, era como se realizasse o seu sonho de viajar para terras distantes, como Chico Tristeza. Viam o farol da Barra iluminando como uma salvao. Mas estavam indo muito para o largo, para um mar desconhecido, aquele mar oceano das histrias das grandes aventuras que contam no cais. B"+             ` `   D A#o" Bem defronte o porto de Santo Antnio. Mas esto muito ao largo, Guma manobra para embicar para o porto. Pouco adiante os arrecifes cobertos de gua. Manobra com felicidade, mas as guas se levantam em ondas colossais, atiram o saveiro para os arrecifes. Estava carregado de mais. Virou como se fosse um brinquedo na mo do mar. Os tubares vieram de alguma parte, eles esto sempre prximos dos naufrgios. B"& `       `     `  A#X=D " Guma viu Toufick se debatendo. Pegou o rabe pelo brao, e jogou nas suas costas. E nadou para o cais. Uma luz fraca brilhava no porto de Santo Antnio. Mas veio uma rstia de luz do farol da Barra e iluminou o caminho para Guma. Olhando para trs, ele viu os tubares em torno do saveiro. E uns braos se agitando. B"  <          A#DK" Deps Toufick na praia e mal se levantava ouviu a voz de F. Murad: B"   h A#!dk" -E meu filho? Meu Antnio? Ele foi com vocs, no foi? V salvar ele. V. Lhe dou tudo que quiser. B"    d A#>E" Guma mal se aguentava em p. Murad suplicava de mos postas: B" <   A#7>" -Voc tambm tem um filho. V, pelo amor de seu filho.B"  A#-" Guma se recordou de Godofredo no dia do Canavieiras. Todos que tm um filho suplicam assim. Ele tambm tem um filho. E se atira novamente na gua. B"   `   D A#  &" com dificuldade que nada. J vinha cansado da travessia difcil, sob o temporal. Depois nadara com Toufick sobre as costas, nadara contra as guas e contra o vento. Agora as foras lhe faltam a cada momento. Mas continua. E chega a tempo de ver Antnio ainda seguro no casco do saveiro que est virado, parecendo o corpo de uma baleia. Pega o rapaz pelos cabelos e recomea a travessia. O mar o impede. Os tubares, que j devoraram Haddad, vm no seu rastro. Guma traz a faca na boca, Antnio seguro pelos cabelos. Na sua frente ele v Lvia, Lvia quase tranquila, Lvia esperando que tudo mude para melhor. Lvia, que tem um filho dele, Lvia, a mulher mais bonita do cais. E os tubares vm atrs, se aproximam, ele esgota as foras. Mesmo Lvia ele no v mais. Sabe apenas que tem que nadar porque leva um filho pelos cabelos, filho de F. Murad ou seu filho, ele no distingue mais. Lvia, Lvia vai na sua frente. As guas do mar so fortes, o vento assovia. Mas ele nada, ele corta as ondas. Leva um filho, ser seu filho? B"_  `  <        `              `   `        < A#<" Perto da areia suja do porto de Santo Antnio ele no aguenta mais. Solta o rapaz. Porm j esto de tal maneira prximos que a gua leva Antnio para os braos de F. Murad, que exclama: "Meu filho! E diz: B" `   `  `  A#" -Um mdico depressa... B"< A#?" Guma quer ir tambm. Mas a rabanada do tubaro o obriga a voltar-se a faca na mo. E luta ainda, inda fere um, o sangue se espalha na gua revolta. Os tubares o levam para junto do casco emborcado do Paquete Voador. B"        A# " B" A# " B" A#G " Algum tempo depois a tempestade serenou. A lua apareceu e Iemanj estendeu seus cabelos sobre o lugar onde Guma desaparecera. E o levou para as viagens misteriosas das terras misteriosas de Aioc, para onde vo os valentes, os mais valentes do cais. B"          A#:A" O vento havia jogado o Paquete Voador na areia do porto. B"   A# " B"