{\pwi, TahomaCourier New/=  =@8 ######-#####"####### ##### ######;#!p# ###[ ########### N#S###6#-# J# # ;#N# ##=#=#(## ###### (# ##$#^#$###G##5z#{#E###### ###*####R#### # ###~#;# 3##'#"#"#M#9# # ### #A#######E#w#^########### ###/###L#)# # A####U## # >### 0#D##4##X### #l# #p#N#U###n##x#g#####`#u#2##[ ### #@##j##G#0#N##5#"## H#t##E# >#S#[### #t#)##P#### #Y##L###f#w#Gg# ########m### ## # <#Y### #)#e# B#P## #s#S#####!N###### ##z##L#R# #*#u####Pc#|#N#j# ###-#X##A# " Mars de MarB"  A# " B" A# " Lusa DacostaB" A# " B" A#2" Mars de Mar resulta de uma compilao de crnicas extradas dos livros A-Ver-O-Mar e Morrer a Ocidente, de Lusa Dacosta, que gentilmente autorizou esta publicao.B"      @ A# " B" A#-4" 1997, Lusa Dacosta e Parque EXPO 98. S.A.B"<  A# " B" A# " ISBN 972-8127-89-8B" A#" Lisboa, Maio de 1997B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " MARS DE MARB"  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " A-VER-O-MARB"  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#i" De que cor este mar, nunca igual e sempre diferente, de ritmos vrios, cadenciado como o bater certo dos remos, inquieto como a ansiedade dos que trazem os afectos sobre as ondas, fervente como um cacho raivoso, quieto, quieto, marginado pela linha, rubra, do crepsculo? De que cor este mar, onde se miram nuvens e gaivotas, onde se esfriam e se apagam as estrelas da madrugada?B"#       <       A#;B" Azul. Azul, como o manto das imagens milagrosas. Azul, como o olhar perdido dos nufragos. Azul da cor da noite. Verde fel. Verde da cor dos limos. Verde da cor dos barcos. Loiro cor de areia, das tranas e do cordame. Ferrugem, cor das ncoras e das redes. Castanho cor do sargao. Palhetado de sol e luz. Irisado, como as escamas dos peixes. Rosa, como certas algas e corais, como a garridice das blusas em dias festivos. Rosa, como as flores de papel do altar do padroeiro. Vermelho da cor das guelras. Sanguneo. Violceo, cor de tinta. Roxo, como uma quaresma lquida. Cinzento. Brumoso de nvoa e mistrio. Metlico, como uma roda de navalhas. Branco de sal e espuma. Branco da cor das velas. Negro, como as faixas das mulheres e o luto das vivas. Sem cor, como a angstia das que no tm sequer um cadver para velar. B"K  `    ` <           <          `  A#pw!" Por ele navegam, sem destino, como bssolas doidas, para l da linha do horizonte, do que a vista alcana, tentando rondar o desconhecido de outras paragens e ilhas, as saudades das noivas, das mulheres, cujo leito arrefece durante os seis meses de safra do bacalhau ou durante anos, espera do emigrante que se foi e no voltou ainda. Nele se perde o olhar do Manuel Neto, todos os dias ancorado na areia, como um barco intil, agora que o genro lhe tirou o comando do Temos F. Indiferente nortada, alheio ao cigarro apagado, longamente se despe de deste mar traioeiro, que lhe roubou trs filhos Trs homens que eram como trs castelos -deixando que os olhos se lhe encham de azul e distncia e se lhe ceguem, de todo, na noite que desce, primeiro arroxeada, como um corao pisado, depois negrume e nvoa, at que uma voz infantil o acorde: B! B! venha cear! B"S    `  `  `   <      <    `       <     A#? " Nele se concentram, teimosamente, enxutos e duros, os pesares da Ftima que h trs meses espera carta e todas as noites tem de amassar a certeza dessa mgoa com a esperana dumas letras, que alentem a sua carne viva. B" <  `      A#5" De que cor este mar, de ondas que se britam nas Pedras do Canto e se desfazem em milhes e milhes de gotas translcidas, frias como lgrimas? De que cor este mar de saudade? B" <   `  @ A# " B" A#u [" - o que lhe digo. O mar tem jardins... Jardins, cheios de bzios, corais e concheirosA areia l to fina como o p do oiro. As rvores so maores que pinheiros velhos e os peixes andam de galho em galho, como aqui os pssaros. Como sei? Ora sei, porque sei. H coisas que a gente sabe com o corao, sem precisar de as ver. Mas olhe, que j uma vez andava com o Joaquim Poixo a pescar a mais de sessenta braas e me saiu enleado na nassa um ramo prufeito, mais lindo que uma palma, vindo dos jardins do mar. Bem olhei para o fundo, bem tentei descobrir, mas qu? Olhos de vivo no profundam segredos. E os mortos, mesmo os que do costa, so mudos como peixes. Aqui h anos perigaram trs homens num barquito ali ao norte, pr Quio, pai, filho e sobrinho. Morreram sem tempo de um padre-nosso, vista de terra, com a boquinha cheia de gua. Passados dias, quando lhes rebentou o fel, o pai e o filho apareceram aboiados, de bruos, enormes, como barris tona. Vieram encalhar aqui nas Pedras do Canto. Mas o outro nunca mais apareceu. As correntezas levaram-no para o alto, para l da Forcada, para l do rumo das traineiras, que andam sardinha. Ningum mais o viu. Ningum mais soube dele. Mas eu futuro que devia ter descido aos jardins do mar, onde o sol no chega e onde no h escurido de bru. Os olhos dos peixes so como farolins e as cores to fortes que alumeiam mais do que o lume, vivo, das estrelas. Os vermelhos espilram como sangue, as brancuras brilham como sal. E as algas so mais verdes do que o milho depois da chuva. E tudo bule, movido pelo vento das funduras, tudo lavado pelo cristal das guas... Ser tolear de velho, ser, e Deus me perdoe se nisto peco, pois sou cristo baptizado, mas se no fosse por ter de morrer com a boca cheia de gua, que morte ruim, no se me dava de ver aqueles jardins. No deve de haver nada mais alindado. Olhe que at no rebotalho que o mar nos atira se conhecem aquelas prufeies. J viu as cores do sargao, quando sai beirada? mais macio que cabelo de mulher. A francelha, ento, uma penugem! E aquele encrespado do botelho? No h coisa semeada por mo de homem que com aquilo tenha comparana. Eu at quando preparo a isca pr faneca cismo naquele azul do mexilho aberto. No h azul d'olhos que lhe faa sombra. Nem os da minha neta Deolinda e mais parecem contas de vidro. Ah! o mar tem lindezas ...mas quem as conhece? Quem se pode gabar de as ter visto com os olhos que a terra h-de comer? B"    <      <     `      `      `   <           <   <     <    `    ` ` < <  <             <  `        <      A# " B" A# " B" A#." Ao deslado da enseada ergue-se, solitria, a pedra. As mars submergem-na, mas todos os dias vem uma hora que descobre sua beleza, hirta, lavada e s. B"    `  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#/" Manh de vento. Limpa de nvoas e de nuvens. Na janela de terra, onde nasce o Sol, coroada de asas. Na janela do mar, onde o Sol se afoga, salina e azul. B"`      A# " B" A# " B" A#\NU " So poucos os colmeiros de sargao que bordejam a estrada, logo acima do acampamento, colorido e bulioso, dos ciganos. Anesa escassa. Por isso se semeiam muitos pelas traineiras e pelos bancos de bacalhau. Ainda outro dia o Joaquim Serrinha, que se me tinha chegado para uma fala de boas-vindas, rematou judiciosamente despedida: B"!   <       `   A#SZ" -I-isto b-boa t-t-terra para se c-comer o ga-g-ganhado, m-mas m p-pr g-ganhar!B"  d   D A#" Felizmente chegaram as mars vivas. E tem havido faina desde o amanhecer. Todos tm querido valer-se da fartura para terem com que culturar a batata do prximo ano. A praia tem estado transformada numa assembleia de famlias at l para o norte, para o Quio, onde a azfama no de barcos nem de nassas -as grandes redes em forma de saca -de que aqui se servem os pescadores de adubo, porque o fundo arenoso, mas de cortios, que habilmente governam entre a penedia, enquanto segam o sargao com o foicinho.B"0     `        <       A#" Hoje um louvor a Deus de barcos, que andam no baloio das ondas. Senhora das Neves. S. Pedro. Sagrada Famlia. Vamos com Deus. E outros. S o Fliz Ventura se quedou, abandonado minha porta. E uma rapariguinha solitria, sem irmos que a tornem me, balana-se numa corda, que lhe passou pela proa. Os rapazes divertem-se fazendo deslizar as canelas, como se fossem trens, sobre os paus rolados. Mas s vezes um ou outro abandona a brincadeira voz imperiosa da me: B"+          `      ` A#6=" - desgraado! Vai pegar na menina que est a chorar!B"  A#-4" -J a vm os nossos! Despacha-te, Antnio! B"  A#[JQ " A areia est toda revolvida pelo vai-e-vem carregado das carrelas que as mulheres, faixa preta a cingir-lhes os rins, transportam afanosamente. J h quem estenda as primeiras colheitas e um ventinho fresco despenteia, nas gravetas, o dourado hmido e marinho do sargao que, assim ao sol, tem a ondulao do cabelo das sereias. B"!    d `  <      A#I " Uma famlia traz um barco para riba, rolando-lhe a quilha ensebada sobre os paus anavalhados com a marca familiar. Outros esperam ainda o regresso dos seus. Mas quase no h palmo de areia que no tenha um talho a enferrujar-se e a acastanhar-se ao sol. B" `  < `     < A#W;B " Almoa-se, em grupos. Carrelas ao alto. Nassas e cordame a secar. Muitos no voltaro a fazer-se s ondas. Gente anfbia, ps nos lameiros e braos nos remos, a tarde vo d-la s leiras. O Maes deu o trabalho por findo. Pita um cigarro e limpa o barco com o vertedouro. Ainda quer ir dar uma olhadela ao milho.B"        `   < A#NU" -Pois que remdio! O dinheiro no chega para enfrentar tudo e a terra com zelo e cuidado sempre d. Sempre so os feijes, as batatas, as couves pr caldo e o milhinho e o po que se forram. Olhe os que s tm a arte! L andam na sardinha e no bacalhau, e se as coisas correm de feio, vm cheios. Mas qu? Enquanto eles por l andam as mulheres e os filhos passam nacidade e at fome. Quando chegam esto empenhados. Tm de comprar o comer e o vestir. No chegam a forrar nada. Depois, sem ocupao, consumem o resto na taberna. O mar no chega para ocupar um homem. s faina de Vero.B"7   ` <   `  `             D A#G " Este o arrazoado do Maes que tem terras, mas os que as no tm? Muitos nem leiras nem barco. So forados a assoldadar-se aos dias e s manhs e, como o ano tem sido falheiro, nem os pobres fazem uma mantinha de sargao com a ajuda do ganha-po.B"         A#n" Fim de tarde. Chegam as primeiras carroas que vm recolher o sargao estendido a secar. De sbito, uma voz rasga a praia: Arga-a-a-a-ao! Arga-a-a-a-ao! como um toque a rebate. Vindas de todos os lados da aldeia acorrem mulheres armadas de ganha-po e graveta. Parece um motim. Metidas na gua at aos peitos, sem medo da viveza das ondas, nem do frio da nortada, dispem-se a arrancar o po ao mar. B"(<        `    <  ` < A#=D" Indiferentes, os das carroas continuam a carregar o sargao que os familiares vo empadelando num jeito, todo agrcola. So os donos dos barcos e das terras. Podem desprezar aquela luta pelo sargao da beirada. Podem deix-la Rosria que tem o homem empregado vai para dezoito meses. F, Elisa, Ftima que deve na farmcia e tem a filha cada vez mais desolhada pela desinteria e pela rabugem dos dentes. Os filhos ajudam-nas e s os mais pequenos ficam na areia, embiocados em xailes. Alguns afoitam-se querendo mostrar-se adultos, at que as mes os repreendem: B"5         `           < A#=D" -Arreda da, alma danada! No vs que o mar espanca muito?! B"  A#(/" -Cor---lia! Cor---lia! Pr trs! B"  h A#" O Sol est a desaparecer sobre o mar, oleoso, castanho e violceo, grosso ainda de ondas altas. As mulheres so, agora uma chusma escura, da cor dos penedos. J poucas carroas esto na praia. Todos se apressam para a ceia. A nortada torna-se mais fria. Passam, tambm, as primeiras mulheres de regresso. Derreadas pela enorme corcunda do ganha-po a escorrer, transformadas em animais de quatro patas, de tal maneira a carga as fora a inclinarem-se. Assim vo at casa, pois aquele migalho nem vale a pena ser estendido na areia, secam-no soleira. As guas comeam a morrer e embatem j com menos fragor na Forcada. Em breve o sargao desaparecer. Passa outra mulher. Uma outra. Outra ainda. Procisso de animais, baos, na contraluz.B"D`      ` `  `  `             `   A#E " O mar cada vez mais uma quietao carregada de sombras que a nortada parece acumular. Os barcos e os remos, ao alto, ganham uma imobilidade esttica e nocturna. Pela praia, deserta, galopa um potro novo, que dois ciganos incitam na corrida.B"   `    `   A##" No tarda que a luz nasa. B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#R(/ " Era neta e filha de pescadores. As suas razes, como as das algas, estavam naquela imensido de guas sem fim. Rosina sabia o mar como os seus dedos. Seu regalo eram as conchinhas, estrelas, ourios, tintureiros, buzinas, que marcavam o rasto das ondas, onde, paciente, descobria seus tesouros. B"     <       A#L " Seus brincares as fontes, os corguinhos, os jardins da mar vaza, transparentes de areia lavada e quieta, riscados por cardumes gelatinosos, onde floriam, roxas, vermelhas, verdes, as anmonas e o mexilho, aberto, oferecia o ferrete, azul, das suas conchas naufragadas.B"            A#5" Quando ia ajudar a varar o barco, o av entregava-lhe a gamela das fanecas, que no iam lota, as da ceia. E, quando no caminho de casa, ele lhe pegava ao colo, Rosina pedia: B"     <  A#$+" -Vocemec no me leva ao mar, av? B"  A# ^e" -Tu s da terra. O nosso Quim que se h-de afazer a ir connosco, quando deitar mais corpo. B"     A#$+" - av, mas eu tambm queria ir... B"  A#0" E o av ria daquela teimice de menina. Rosina amuava: j to espigada e fazedeira e ningum a tomava a srio... hora da ceia, esquecida do amuo, insistia: B"     @ A#$" - av, como o mar longe? B" A#GN" -Como queres tu que seja, rapariga! Como o daqui. Azul, sempre igual. B"   A#" Aquilo dizia o av para lhe calar a boca e poder falar vontade com o pai das ms pescarias e do tempo. O av no era mentideiro e sabia que o mar no era sempre azul. E ento o mar cinza, pescoo de pombo? E o mar branco, asa de gaivota? E o mar lombo de ruivo, ao entardecer? E o mar azul, azuis muitos, de mexilho aberto? E o mar verde, verdes limos? Perigos teria. Havia de ter, pois sempre rezavam pelos que andavam sobre as ondas. E mars havia que no eram mars de mar, quando o av e o pai rondavam a praia, se sentavam ao p do barco, mas no se faziam s ondas, que rebentavam, ferventes, na enseada do sul, toldada pela ceguido da nvoa. B"<     `                   A#gz5" Depois clareava. Longe, passavam os navios, ao rs da linha, em que o mar tocava o cu. Que haveria para alm? Nisso cismava Rosina. Deixara, porm de fazer perguntas. noite, fechava-se, como uma anmona, quando se lhe toca e punha-se a sonhar. Fantasiava a outra margem da imensido, onde molhava os ps beirada. A barranha do penedo seria loura, como um favo. Lapas empenachadas de limo e botelho abririam boquinhas sfregas, com o movimento das ondas, midas, de flor branca, empurradas por um ventinho brincalho, que despenteasse as guelras vermelhas e denteadas das algas. Cardumes de peixes viriam comer-lhe mo, como pintos. E brincaria aos quatro cantinhos com as pulgas que eternamente jogam aquele jogo no areal. Todas as noites, como quem acrescenta um beijinho novo fiada de antigo colar, afeioava aquele sonho. Partia, numa barca de espumas feita, a todo o vento, para a outra margem do mar, para o longe sem fim, de alm e distncia. Todas as noites deixava a enseada, as camas de sargao, estendidas a secar e se fazia s ondas e ao sonho. Como encontraria o caminho? Ora, as estrelas subiriam tona para lhe indicar seu rumo, sem norte nem sul. E se friasse? Os peixes ruivos ou as fanecas lhe trariam um xalinho, arrendado, de choro do mar, para agasalho e acabaria por chegar outra margem, cheia de rochas-grutas, onde o seu nome: Rosina-ina-ina, som de bazio ficasse. B"<     <       `       ` <    < <      <    `   `    `    <       A#'{" Quando o av e o pai fumavam, cismentos, a menina desdobava, lenta, o novelo dos sonhos e partia na sua barca de espumas. B"      A#EL" E todas as noites adormecia, antes de chegar outra margem do mar. B" <  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#=" Duas pancadas, conforme o combinado. Vi o relgio. Cinco menos um quarto. Quando a me da Rita e eu samos para a noite, a nortada varria um mar cinzento de espuma batida, mas no as estrelas, altas e claras. B" `   <    A# " -Bom dia! B" h A#" -Bom dia! Boa pesca! B" A#r" Eram os que partiam para a faneca, na escurido. Os ces dormiam ainda, mas a Rita j nos esperava. E, como a Clemncia no tinha aparecido desandmos, ambas para o norte a cham-la, pois pegavam a trabalhar s seis e at Pvoa era um estiro. A Clemncia bem o sabia e no demorou. Agora era andar a passo certo. Chegadas ao cruzeiro metemos a uma azinhaga -a do rio das cavaleiras que parecia um roteiro de estrelas. B"(   <  `      `     A#*1" - No se podem contar preveniu a Rita. B"< d A#" Pois no, eram tantas! Mas no era isso explicou: contar estrelas fazia crescer cravos nas mos, conforme acreditava a credulidade dos seus quinze anos, to causticados no trabalho. duma famlia onde se trabalha duro e no tinha hesitado em aceitar aquele servio, apesar da hora e das caminhadas, para ajudar ao po comum. Ao meu lado, aconchegava-se na mantinha, que trouxera: acha que fria e que o tempo a pede. Em A-Ver-O-Mar diz-se: Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno e s vezes a nortada parece confirm-lo. nossa frente segue outro grupo, pois so cerca de vinte as contratadas pela cmara para varrerem as ruas no ms em que os banhistas tomam a praia de assalto. A Rita conta: quatro do sul, quatro da beira da igreja, treze do norte, afinal vinte e uma, ao todo. B"I     `      <            ` `     A#" As casas escurecem a noite escura, mal lavada pelo caiado, bao, das paredes. J na estrada nacional, ouvem-se os sinos de Amorim: a primeira missa. Raros faris sangram o empedrado. s vezes, por espao breve, acompanha-nos o baguinho de luz das lanternas das carroas, que passam a caminho da praa. J entrada da Pvoa colhe-nos um cheiro a po quente e como que uma mancha, luarenta, de farinha, logo escurecida pelos vultos, embuados, porta da igreja, ainda fechada. O casario dorme. E as luzes acesas dos candeeiros, ao rs das rvores dum jardim, tornam o cu distante. ali que tm de apresentar-se. Um grupo corre e as saquitas dos almoos oscilam e alegram a madrugada. B"D <     < `        `         <    A#" Surgem com as vassouras ao ombro a Maria da Graa, que tem cinquenta anos e vai para os lados do cemitrio, a Joaquina Machado, tambm de cinquenta anos e a filha, Josefina, de dezassete. Para a Av. Mouzinho, a Carolina Rodrigues e a filha Dores de vinte e dois. a Ana Torres de dezasseis, a Maria Vitria de quinze, a Irene da Conceio de vinte e quatro, a Zulmira Sencadas de dezoito, a Lourdes de vinte e nove e outras que se espalharo por essas ruas. A Rita e a Clemncia partem para a Junqueira. Acompanho-as. E as vassouras comeam a arranhar aquele tnel, deserto, onde bia um cheirinho a po sado do forno, que quase se pode trincar nos dentes. Tenho a certeza que a Rita mais pequena que a vassoura. B"A   `              <        ` A#RY" -E j ma trocaram. Esta, agora, mais ao meu tamanho, mas no sou a mais nova...B"`   A#." A mais nova a B1andina, que tem catorze anos e anda na praia do peixe no grupo da Maria do Alvio, a mais velha: sessenta e seis anos, to gastos! B"   <    A#" -Quem fez a Pvoa? Os pescadores. Aquele que alm est (aponta a esttua do cego do Maio) salvou muita gente de morrer afogadinha, mas que boga?! A Pvoa j no dos pescadores. Nasci aqui e aqui fui criada e fui botada fora. O prdio, onde morava, na Rua latino Coelho, foi vendido prs ricos, prs praiantes, e escorraaram-nos: uns prs Caxinas, outros pra Matosinhos. Eu que j no tenho ningum fui pr Abremar, pr p duma sobrinha. A sina que me toca andar, desta idade, a varrer ruas. Tanta gente a dormir, de nascente a poente, e ns prqui a esgadanhar uma cdea seca! -E mostra o po de vspera, que traz no bolso do avental para o desjejum. Um po a que falta uma bucha, que repartiu com uma criana. B"D       <            <         A# " -Quanto ganha? B" A#? " -Vinte cinco mil-rise ela (com o dedo espeta a Blandina) que ainda no tem dezoito, ganha s vinte. Isto devia de ser botado a um jornal a ver se nos chega a reforma! -Ri-se. Um riso trgico, descrente e desdentado. B"    `  `    A#O  " s seis e meia, as estrelas empalidecem e o meio anel, dourado, da lua, azula-se e esfria. As vassouras levam na frente bilhetes de camionete, de automotora, invlucros de cigarros, nacionais e estrangeiros, bocados de jornal, cascas de banana, de melancia, pauzinhos de sorvete. B"       `    D A#" Os vendedores de melo, que dormiram ao relento, abrigados por uns caixotes e um guarda-chuva, sacodem o sono e o inconforto da vida. O emadeirado das barracas e dos toldos veste-se de riscas azuis, verdes, vermelhas, cor de canela. Passam carroas de sargao. Passam, caem as sete na torre de S. Jos, as primeiras banhistas, as que se banham vestidas, agarradas corda, sentadas ou de joelhos, aos gritinhos, sob a vigilncia do banheiro -cus, como h trinta anos na infncia!...B"-          <   <      A#9" A estas horas a Rita e as companheiras j varreram a Junqueira, a Rua do Paredo, a Rua dos cafs. Devem andar no Passeio Alegre. Outras na Rua Serpa Pinto, na Avenida dos Banhos ou na estao. B"       A#(~" Algumas comem o po com o presigo de peixe, trazido nas saquitas, ao fundo da esplanada. a pausa das oito para o desjejum. B"     d A#;B" Que iro fazer, quando forem dispensadas daquele servio? B"  A#U3: " -Isto no certo trabalho de pouco mais e menos, no presta! A gente no tem emprego, porque se tivesse j se sabe que ningum deixava o que tem pelo que lhe vem! Temos que nos agarrar. Roubar que no! -afirma a Maria do Alvio. -Olhe, esfolhar milho, que vem a o tempo, lavar casas, o que calhar... B"  <      <   A#7" A maior parte, como a Blandina e a Ana Torres, voltaro ao sargao. A Vitria e a Maria da Graa ao campo. A filha da Joaquina costura. A Clemncia vai tentar a fbrica da sardinha. B" `    `  A#'." E aquele dinheiro a que o destinavam? B"   A#")" - para a minha me, diz a Rita. B"  A#")" - para a cdea! afirmam outras. B"`   A#MT" -Pouco ele nem chega a luzir! Vai para quem se deve -queixa-se outra voz. B"`   A#9@" -Pra que h-de ser? A gente come ao som do que ganha... B"  A#B " Por essa uma hora, voltaro, a p, para A-Ver-O-Mar. E a Rita com os seus quinze anos, maneirinhos, ter de fazer mais duas caminhadas, quando vier vender lota a faneca, o ruivo, ou o badejo que o pai e o irmo tiverem pescado. B"         D A#I  " Que lhe dar a vida como prmio? O amor fsico, que ter de pagar, como a me, com a dor de dezoito filhos e a angstia de ter perdido dez? Um trabalho que, comea com estrelas e madrugada, e afinal as no tira do lixo? Amanh um novo dia. E a Rita sorri. B"`           A#." Mar chozinho. guas azuis de tinta entornada. A vela, vermelha, do Monelhas que anda faneca, como um erro marcado na massa compacta dum ditado. B" `      A#x" Por entre os penedos, assomam as cabeas castanhas, ruas ou aafroadas dos lenos, da Lisabete, da Cintra, do o, da Jlia, que andam ao botelho. O trabalho do menino pouco, mas quem o desperdia louco, e o botelho corre a trs mil-ris o quilo. Por isso, quando a Lisabete e a Jlia, numa tentao, se distraem a apanhar uma estrela ou a perseguir um caranguejo entre os limos, a Cintra corta, cerce: Olhaide que eu depois digo me! B"+     <  `   ` < `     A#B " O Nelo e o Beto gozam a sua liberdade de homens pequenos e botam traineiras de lata. Outros chapinam os corpos brancos e nus, nas poas soalhentas, alheios nvoa que o Quim faz nascer com seus mugidos, longos, de ronca da Pvoa. B"    `   ` @ A#AH" Enquanto ajeita um gigote de mexilho, para isca, a Zira canta: B"   A# " B" A# " O meu amor JosB"d A#" e eu queria um Joaquim.B"< A#" Com tanto home no mundoB"< A# " Algum h-de ser pra mim.B"` A# " B" A#EL" Um bando de gaivotas perde-se para l do Quio, a caminho do norte. B"   h A#&w~" A noite afeioa as areias, torna-as ondulantes, suaves dunas. D brilho Lua e torna mais polida a lmina das guas. B"   `    A# ^e" -Noite, formosa noite, fala-me, no emudeas! Contenta-me! Diz-me que nasces dos meus olhos! B"   < < A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " MORRER A OCIDENTEB"d A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#G " Penlope incansvel, a madrugada destece a urdidura dos filtros da noite, apaga a magia das sombras, esfria as estreias. Mas no cala o apelo mtico, que sobe dos abismos e se desgarra. Como lamento de ave, ecoa. Paira sobre as guas. Chega at mim.B"    `      A# " B" A# " B" A#:/" Longe no tempo e no fundo do mar, era uma sereia. Espuma de sonho e de impossvel, habitava, sozinha, os abismos azuis. Os seus cabelos, que eram negros como a noite, enfeitava-os ela com escamas de sol e de luar, cadas nas guas que recolhia nas tardes quentes ou nas noites, luarentas e brancas. Entre corais, grutas, misteriosas funduras, vivia livre e feliz, baloiando, nas correntes, o seu corpo de rapariga que era ao mesmo tempo, afuselado, como o dos peixes. A sua alegria danava-a em prados de anmonas, entre o voo borboleteado das raias, esquivando-se ao abrao, frio, dos polvos com quem jogava ao esconde-esconde, naquela imensido do mar, que as montanhas, as vastas plancies de areias finas e as florestas de algas tornavam maior. Tinha seus jardins privados com renques de grgonas, leques de delicadas nervuras, ondulantes, por onde evolucionavam bandos de peixes -semelhando migraes de pssaros que, mudamente, cantassem o silncio. Mas amava acima de tudo o bailado das guas-vivas com suas umbelas translcidas, acesas nas guas, como lunrias dos abismos. E os barcos naufragados, dormidos h sculos no fundo do mar, com o mistrio do mundo dos homens que ela no conhecia e lhe estava vedado.B"v            <        < `    <        <     `    `  <   A#"" Um dia, quando explorava um velho galeo doutras eras e nadava por entre as cmaras, que tinham sido os quartos, encontrou ao levantar a tampa de um ba ferrugento um pedao de gua-fixa, onde um rosto, extraordinariamente belo a olhava. De quem poderia ser? Em redor no havia ningum -s ela e o rosto que parecia mir-la interrogativa mente e com uma boca, coral-vivo, desabrochada e a sorrir. Seria o de uma mulher de antigas idades que ali ficara prisioneira? No, era impossvel. Quando se desviava o rosto desaparecia e o pedao de gua-fixa tornava-se uma lua desabitada. Mas se ela se debruava, curiosa, sobre aquele luar lquido o rosto voltava tambm a debruar-se e a sorrir-lhe, com o voo, nocturno, das sobrancelhas erguendo-se sobre uma palidez, ferida pelo coral-vivo da boca! B"N     <        d ` `     <           A#!" -Quem s tu? -perguntou. B" A#LS" O espelho reflectiu os movimentos da sua boca, mas no os ecos da sua voz. B"  ` A#)0" -s muda? No podes falar? -apiedou-se. B"  A#J  " Com um gesto tentou afagar o rosto e foi nessa altura que reconheceu, dobrados, os movimentos, familiares, da sua mo. Aquele rosto era o dela! Que sensao estranha! E ningum com quem poder partilh-la. Ningum para dizer: -olha! Ningum a quem pedir: -vem! B"  `    `    A#YAH " E o mar que at ali sempre lhe parecera um mundo maravilhoso de infindveis surpresas, tornou-se-lhe, sbito, uma imensido hostil e fria, onde se sentia perdida. Ah! como invejava os peixes! Tinham irmos e irms e passeavam, em bandos, enxameando as florestas castanhas, verdes, rubras, das guas. S ela era sozinha. B"!        < <    D A#" Passou, ento, a vir mais vezes flor do mar invejando as aves, que fugiam na liberdade das suas asas, ou olhando a fixidez das estrelas, como ela presas no azul doutros abismos. Tinha braos e mos, graciosas, mas de que lhe serviam? Ramos, hastes inteis a que ningum se prenderia. Tinha uma boca, mas no havia ningum para chamar ou para beijar. E quando olhava, triste, o pedao de gua-fixa, o espelho no lhe fazia companhia, como que dobrava ainda a sua solido. Nas noites de lua, enquanto penteava os seus cabelos com uma concha denteada -cantava aquela dor de ser sozinha, pois aprendera a transformar, em canto, a sua mgoa. B"<            ` `    ` <     < A#<" Quem poderia ouvi-la? Ningum acreditava j em sereias. E a sua cano, que gemia no vento e na noite, vinha quebrar-se na orla da praia, juntamente com o canto, partido, das ondas e com ele se confundia.B"  ` <  <   A#i" Aquela orla tinha a forma de um crescente largo e aberto. Na ponta sul do crescente havia uma correnteza de penedos -e nessa direco varavam os pescadores os seus barcos. A outra ponta, que se desfiava em enseadas pequenas e bocejantes, terminava duma forma selvagem e ciclpica. Nessa ponta, deserta, havia ninhos de rochas que se erguiam no meio das guas e as gaivotas sobrevoavam. B"#   <        <   A#U\" Na mar vaza, o mar tinha uma ondulao, quase quieta, sem bainha de espumas, de ondinhas curtas que faziam um barulhinho modo e cantante. As guas de azul real ficavam aprisionadas na penedia da beirada, fazendo lantejoular o anil aquoso e escuro das conchas abertas do mexilho naufragado, tornando de cristal os jardinzinhos de algas frisadas, de anmonas e de ourios. Mas quando as ondas cresciam, os cavalos da mar com as suas crinas brancas, soltas ao vento, escarvavam furiosamente o areal, como se quisessem apossar-se da enseada, que se tornava uma corola, viva, de espumas bilradas. B"7          <     <   `    A#+" Nos dias de nvoa, o horizonte cerrava-se perto e fechava as portas do mar, bzio ressoante, mistrio e bruma -a que ningum se atrevia.B"    <   A#K  " Ora nessa praia, vivia um rapaz, rfo de pai e me, que ajudava os pescadores a varar os barcos, e s vezes lhes vendia o peixe. Mas o seu maior gosto era mergulhar nas guas profundas, onde, desde cedo, aprendera a procurar conchas que levava tambm ao mercado. B"       <   A#X>E " Numa manh em que seguia um brilho lucilante afoitou-se mais fundo e ficou com um p preso numa fenda de rocha. Em vo, procurou desprender-se. Debatia-se desesperadamente e j se dava por perdido, quando lhe pareceu ver um rosto entre as algas. Tentou estender os braos. Teria esboado o gesto? Sentia-se morrer... B"      <      h A# " B" A# " B" A#T07 " Ao abrir os olhos, viu-se no ninho de rochedos que se erguiam no meio do mar, para alm do extremo norte da enseada. Quem o teria libertado? Quem o teria arrastado at ali? O seu p, ainda dorido, sangrava, mas estava salvo. Respirava o ar marinho e forte. Via, de novo, a orla nua e familiar da praia. B" `  `  <    `   h A#DK" Foi, ento, que ouviu uma voz tilitante e grcil, vinda das guas. B"   A# " -Sentes-te bem? B"@ A#4;" -Sinto -e ergueu, rpido a cabea. Mas quem s tu? B" ` A# " -Sou uma sereia... B" A#X_" E o rapaz reconheceu o rosto que vira entre as algas, quando estava a perder o flego. B"  ` `   A##" -Foste tu que me salvaste? B" A#*" A sereia acenou que sim e os cabelos choveram-lhe sobre o rosto, escondendo aquela palidez que o rosa-coral dos lbios fazia sangrar. B"   `   A#P ' " -Lembro-me, agora -continuou o rapaz -mas como estava quase a perder os sentidos pensei que eras uma viso. Entre as algas, moventes, com o teu rosto e os teus cabelos a flutuar parecias uma estranha flor irreal. E depois eu pensava que tu no existias, julgava que eras um sonho meu... B" `      <    A##ls" -E sou -disse a sereia. Existo por que tu me sonhas. S quando deixares de sonhar-me, deixarei de existir. B" <     D A#N " O rapaz no comentou aquelas estranhas palavras. Sentia-se realmente dentro de um sonho, apesar da manh j ter aberto todo o leque da sua luz. O Sol ia alto. Os homens que tinham partido para a pesca, de madrugada, no tardariam a regressar. Essa certeza chamou-o realidade.B"        <  A#$pw" -Os barcos no tardaro a entrar na enseada. Preciso de regressar aldeia. Mas gostaria de te voltar a ver... B"   < <  A#NU" -Quando puderes mergulhar, de novo, estarei tua espera -prometeu a sereia. B"   A#U\" E desapareceu nas guas, que se fecharam sobre ela, maternas e suaves, como lbios. B"   <   A#r" Os dias que se seguiram passaram vagarosos para a impacincia do rapaz. Enquanto consertava as redes e esperava que a sua ferida cicatrizasse pensava constantemente naquele mundo submerso que, sbito, ganhara um rosto. E custavam-lhe aqueles crepsculos, lentos, que cintavam o horizonte de fogo, tornavam rseas as areias da beirada e demoravam a arrastar a noite com a sua malha de estrelas e a esperana de um amanh. B"(<        `   `     A##" Finalmente o amanh chegou.B" A#nu" Apenas os barcos partiram na madrugada e se perderam na direco do norte o rapaz comeou as suas tarefas e, mal as deu por findas, dirigiu-se para o extremo mais selvagem da enseada. Nadou at ao ninho dos rochedos que as gaivotas sobrevoavam. O Sol erguia acima do horizonte a sua crista de fogo, penetrando a terra com os seus espores de luz e iluminando a aldeia. O rapaz estendeu-se sobre as rochas, descansou um pouco e deixou que o Sol lhe revigorasse os membros. Depois, mergulhou nas guas, azuis, profundas e frias. E nadou na direco da gruta, onde tinha ficado preso. Entre as algas a sua amiga esperava-o. B"<        `  `       <    `    A#0" De mos dadas, vieram ao lume d'gua e o rapaz confessou sereia a sua impacincia e o quanto se sentia atrado por aquele mundo submarino que era o dela. B"       A#&x" Havia de mostrar-lho um pouco todos os dias, j que ele no era peixe e no suportaria permanecer muito tempo na gua. B"      A#"gn" -... E depois, no se pode conversar -acrescentou, rindo, festejando a alegria de ter um companheiro. B"  <  < A#:" Felizes, nadaram, fizeram projectos e depois ela veio traz-lo ao ninho rochoso, onde se despediram. A sereia mergulhou e o rapaz nadou em direco praia, pois os barcos no tardariam a regressar. B"         A#:" Ao outro dia, mal os pescadores desapareceram na curva, suave, do horizonte, o rapaz nadou na direco dos rochedos. Mas nem precisou de voltar a mergulhar. O rosto da sua amiga nascia nas guas. B"      <  A# " -Vieste esperar-me?B" A#" Ali estava para cumprir a sua promessa. Ento, a uma velocidade que pareceu vertiginosa ao rapaz, comearam a descer os abismos azuis. Plancies infindveis acompanhavam a curva da terra. Filas cerradas de picos formavam cadeias de montanhas maiores do que as que existiam acima do nvel do mar. Rochas trabalhadas pelas guas, semelhantes a catedrais, erguiam-se majestosas nos seus flancos, abruptos, velhas de milhares de anos, musguentas de lquenes rosa, azul, turquesa, assalmonados. Correntes plcidas, deslocando-se, lentamente, levantavam nuvenzinhas de areia fina que voltavam a cair, chuva dourada, sobre os jardins submersos, onde brincavam peixes-bales, peixes-luas. Um deslumbramento! B"F      < `           <      < `  @ A# `g" Como bolhas, felizes, a sereia e o seu companheiro subiam tona d'gua para o rapaz respirar. B" <   @ A#&u|" - maravilhoso o teu mundo -no se cansava ele de repetir, pois no encontrava palavras medida da sua felicidade. B"    `   A#29" E a sereia ria, por v-lo to encantado e feliz. B"  A#" De novo, voltaram a mergulhar. Passaram renques de coral, azuis-cinza, vermelhos-guelra, brancos-ramagens de sal petrificado. Ali, os cavalos-marinhos com o lequezinho, aberto, das suas barbatanas dorsais, exercitavam um estranho girofl para a frente e para trs, para cima e para baixo, como puxados por elsticos invisveis. As lesmas do mar sem concha pareciam farrapos de algas, flutuando. E a beleza das anmonas a despetalarem-se com o movimento das guas? Eram como flores de sonho. Umas de ptalas curtas e carnudas lembravam chorina, outras longas e filamentosas, estranhas actnias no da cor do fogo como as dos jardins da terra, mas azuis e translcidas de luar coalhado.B"F   d <     <      `             D A#L  [" Agora que a sereia vinha todos os dias esper-lo, depois da partida dos barcos e o levava naqueles voos rpidos e flechados at aos jardins do mar, abriam-se para o rapaz as portas daquele mundo que ele sonhara, mas no sabia. Tornaram-se-lhes familiares os polvos, dormindo confundidos com as pedras, as estrelas-do-mar roxas, amarelo-milho, azuis, sanguneas, deixando-se arrastar pelas correntes, como pedras do caminho a um vento mais forte, as raias, ora borboletas cansadas, ora erguendo-se num voo, rabichado, semelhando papagaios de papel. E que divertida era a carapaa guerreira dos caranguejos com as suas tesouras dianteiras, ameaadoras! s vezes, um exrcito de espadartes avanava, cortando as guas com as espadas, afiadas. Outras um golfinho, pastoreando um rebanho brincalho, dirigindo-se superfcie assobiando pelos irmos, que se atrasavam, cambalhotando. Fitas, danantes, de safios, de moreias, enlaavam-nos, prendiam-nos, por momentos. Atravessavam a cortina gelatinosa de cardumes-bebs, acabados de nascer. Olhavam juntos as bolhas preciosas e flutuantes dos nutilos e em guas menos profundas os caramujos, lavados pelo cristal, movente, das guas. Aquele mundo estava sempre diante dos olhos do rapaz, mesmo quando consertava a redes e o Sol descia no horizonte, estendendo sobre as guas o seu tapete de brilhos. Mesmo, ento, o rapaz lembrava os peixes, abrindo e fechando a boca, lentamente, como se respirassem cansados, com os seus olhos de lpis-lazli, de topzio, negros como alfinetes de nix e as suas barbatanas, penas delicadas de ave, florindo preguiosamente. Sentia-se entre aquela vegetao ora curta, frisada, carnuda e crespa, ora emborbulhada, capilar e filamentosa, ora longa, lanceolada, fendida em delta, plumenta, veludosa, ora viva e desgrenhada, mtica, de cristal e luar. Era como se nadasse entre aqueles tons que iam do castanho-terra aos verdes vidrentos, passando pelos roxos ma cera dos, os coral, os rosa e os violeta. Passavam diante dos seus olhos aquelas formas espiraladas, ovides, de fuso, denteadas e tentaculares, mas sempre levemente boleadas como se todas contivessem o enrolar da onda. Aquelas sombras limosas, fosforescentes, densas e misteriosas, difanas, com transparncias veladas e fantasmais, daquele mundo grcil, sem peso, ondulante. B"` `  `     <      <        `      `       ` <       ` <     <  ` `      <   @        <   <     `  ` d `   ` `    <   A#1" Para agradecer sua amiga a beleza, que ela todos os dias lhe entregava, o rapaz comprou-lhe um presente, no mercado, onde ia vender o peixe e as suas conchas. B"      A#/" E quando, ao p do ninho dos penedos, onde se encontravam, abriu sob as guas a sua mo fechada soltou-se dela um filamento vivo, ondulante e escarlate. B"       A# '" -O que ? -perguntou a sereia. B"   A#@G" uma fita para atares os cabelos, como as raparigas da Terra. B"   A# " -Que linda cor! B"@ A##jq" - a cor do sangue e da vida. A mais preciosa da terra e do mar. a cor dos teus lbios -disse o rapaz. B"    @ A#-" Ento, a sereia ergueu com os braos os seus longos cabelos e ele prendeu com aquele lao de sangue as algas nocturnas, que lhe afogavam o rosto.B"      A#GN" -Nunca mais o tirarei -prometeu. -S quando me transformar em espuma. B" ` < A#07" -E por que havias de te transformar em espuma? B"< < A#NU" -Tudo o que terra voltar terra. Tudo o que gua se tornar em espuma. B"   A#." -Isso no acontecer nunca -afirmou, convicto o rapaz. Tu mesma disseste que eras um sonho. Os sonhos no envelhecem e por isso no morrers nunca. B"     @ A#5<" E foram os dois nadar, felizes, por estarem juntos. B"  A#")" Ao outro dia a sereia disse-lhe: B"   A#/" -Hoje tambm tenho um presente para ti. Vou levar-te s razes mais secretas do mar, onde dormem, ancorados para todo o sempre, os veleiros naufragados. B"  <    A#HO " E de mos dadas, numa vertigem, desceram s guas cada vez mais profundas. Das entranhas das funduras jorravam caudais quentes formando osis que tornavam luxuriantes, como palmeiras, as algas, naqueles desertos subaquticos e sem sol. Ali a luz filtrava-se j dificultosamente e o azul adensava-se, cu nocturno, onde as medusas, oflicas, luas de seda velha, puda e esgarada, flutuavam. E sbito, entre centureas gigantescas, estremecentes e apesar disso irreais, os veleiros surgiram das brumas lquidas, verdoengas, com as suas proas trabalhadas, os seus mastros nus, derrotados e partidos. L estava o velho galeo com as suas cmaras esventradas, que cardumes viajavam. Ali, tinha a sereia aprendido a solido na gua-fixa do espelho. Ali, sabia agora o rapaz a felicidade do sonho -e ambos a alegria de ter com quem partilh-lo. B"P    `          < `  `               A#%t{" O tempo parecia imobilizado por aquele contentamento, igual, que se repetia, mas os dias passavam, irrecuperveis. B"     @ A#6" Numa manh, o rapaz anunciou sua amiga que ao outro dia ia fazer-se s guas e partiria com os pescadores, pois j no era mais um rapazinho e precisava de ganhar o seu sustento. B"    < ` < A#EL" Na terra os alimentos no floriam como no mar?! estranhou a sereia. B"   A#X>E " O rapaz explicou-lhe que a terra tambm florescia em frutos, mas que precisava de ser semeada e tratada para produzir. Havia homens que se dedicavam queles trabalhos, mas ele vivera sempre beira da gua e tinha a paixo do mar. Ia tornar-se pescador. Trocaria depois o produto da sua pesca por alimentos da terra. B"            A#SZ" -Ento, vou deixar de te ver... -disse a sereia, triste. como deixar de existir.B" ` < `   A#[b" -No, no -garantiu o rapaz. -Virei sempre que puder, ao fim da tarde. No te esquecerei. B"      A#:" E assim passou a ser. O rapaz andava em companha, na pesca, ia ao mercado vender o peixe, consertava as redes e a vela, tratava do barco, mas o seu maior gosto era mergulhar e estar com a sua amiga. B"      < A#" -Como vs nada mudou. B" A#O# " E contava-lhe, longamente, o mar sem fim, cinza e bruma, azul e verde, grosso e pesado de guas-vivas, escamoso dos brilhos da superfcie, o esforo para vencer a foice das ondas, o trabalho dos remos e das redes, os perigos que o espreitavam: as tempestades, a nvoa e os rochedos. B"    `       h A#%t{" -Tem cuidado! -recomendava-lhe ela, sempre que vinha traz-lo at onde se despediam. -Preciso de ti para respirar! B"      A#)0" -No te aflijas! Amanh, aqui, estarei! B"`  A#*" E para a sossegar pousava a mo sobre a flor de sangue que lhe atava os cabelos, solenizando com um gesto de jura as suas palavras. B"     < A#PW" O Sol comeava a arrastar sobre as guas o seu manto de brilhos e despediam-se.B"  < A#4" E assim continuaram numa eternidade, sem margens, envolta em maresia e no perfume nupcial e branco dos lrios das dunas -que o rapaz lhe trazia para ela enfeitar os cabelos. B"` ` <      A# " B" A# " B" A#D " Uma tarde a sereia veio, inquieta, espreitar a orla da praia. No era ainda a hora de se encontrar com o seu amigo, mas na raiz dos abismos estava a formar-se um temporal que subia das profundezas, em caches revoltos e ela temia por ele. B"`       <  A#Y`" Os barcos, como receara, no tinham ainda recolhido. Nenhum estava varado na ponta sul. B"  <   A#," As nuvens acastelavam-se, ameaadoras, o vento comeava a rugir e a enraivar-se, como se o cu quisesse dobrar e reflectir a revolta do mar. B"      A#L" Ento, mergulhou novamente e nadou em direco ao largo, espreitando as vagas, altas, espumosas, lequeadas pelo vento. No havia sinais de barco na linha do horizonte. O seu amigo ia ser apanhado pela tempestade no longe e na distncia. Com aflio redobrada, mergulhava para logo em seguida vir espreitar ao cimo das vagas, inquirindo as voltas do mar, escurecido, fervente, tempestuoso. Fitas de luz cortavam o cu que se fendia com fragor. E foi a um claro desses relmpagos que ela avistou o barco, j sem vela e sem governo, a desconjuntar-se, quase a ser engolido pelos vagalhes. Precisava socorrer o seu amigo, pois o corao dizia-lhe que era ele. O vento assobiava e quase lhe arrancava o lao dos seus cabelos empurrando as ondas, cavadas, alterosas que se entrechocavam num rolar surdo e espancado, enquanto ela nadava, rapidamente, na direco do barco que j no conseguiria atingir as guas mais macias e mais protegidas da enseada. Por baixo do cutelo das vagas, tentava ela vencer a distncia que os separava. Mas, quando veio superfcie para poder ser vista pelo rapaz, uma onda atirou-a de encontro quilha do barco, que entretanto se desconjuntara, e lhe rasgou o peito. Apesar da dor lancinante, que a frieza das guas como que anestesiava, tentou manter-se perto dos destroos. O rapaz, perdidos j os companheiros, mantinha-se agarrado cana do leme, mas as guas violentas submergiam-no e sufocavam-no. No verei mais a terra -pensou em deixar de lutar. Foi nessa altura que a sereia conseguiu alcan-lo, tentando mant-lo ao lume d'gua, encostado ao peito, que lhe sangrava com o esforo. A chuva desabara, torrencial. Os relmpagos cegavam-na, o vento fustigava-lhe os cabelos que lhe chicoteavam o rosto. Reunindo as ltimas foras que lhe restavam, pois se sentia morrer e o rapaz desmaiado era um fardo pesado, sorvia o ar, dilatadamente, tentando respirar ainda, tentando conseguir entrar nas guas mais protegidas e menos violentas da enseada... tentando salvar o seu amigo... B"                     `  `       <    `                             `   <   < `  < <   D A# " B" A# " B" A#"fm" Quando abriu os olhos, o rapaz viu-se deitado no extremo norte da praia onde costumavam despedir-se. B" ` <  ` A#&w~" As gaivotas, em terra, pinavam o ar de gritos, como se pranteassem uma dor que as guas, j aplacadas, adormentavam. B"      A#gnG" Lentamente, como se retomasse a custo a conscincia, o rapaz respirou o ar marinho, forte e familiar. E percorreu o corpo com as mos para se sentir. As mos, porm, vieram-lhe encharcadas em sangue que tambm lhe ensopava o peito e a camisa. Curioso, no sentia nenhuma dor, apenas um enorme cansao. Novamente, voltou a correr-se com as mos procura de uma ferida ou golpe que explicasse todo aquele sangue, mas no estava ferido. Tentou, ento, erguer-se e ao faz-lo viu na borda da rocha, quase a ser lambida e levada pelas guas, a fita vermelha que tinha oferecido sua amiga para ela atar os cabelos. Devolvia-lhe o presente?, pensou com uma dor, que o rasgava, medida que compreendia. No, no, no lhe devolvia o presente. Aquele sangue era o dela. Fora ela quem mais uma vez o salvara e o trouxera at ali, ali deixando aquele penhor de amizade a que s ele conhecia o significado. Nunca o tirarei. S quando me transformar em espuma, prometera. Com desespero, compreendeu que desta vez ela tinha pago com a vida a vida dele. E apesar de exausto, mergulhou, sondando o mar e os abismos. Mas, em vo! Sem ela no podia descer at aos jardins mais belos e mais secretos, onde repousaria, antes de se transformar em espuma. Nunca mais a veria. As lgrimas toldavam-lhe a vista da praia, onde certamente todos o dariam por perdido e ningum j o esperava. Que difcil era respirar sem ela! Ento, desesperadamente, do fundo da lembrana e das lgrimas trouxe a sua amiga flor das guas e pareceu-lhe ouvi-la dizer-lhe uma outra vez Existo por que tu me sonhas. No, no, nunca deixaria de a sonhar. Agora, ela era realmente um sonho dele, uma respirao sua. Enquanto ele respirasse ela respirava. Existia nele e por ele. Nunca mais estariam separados. At morte. Ento, a tempestade da sua dor acalmou -asa de vento colhida na nvoa. E o rapaz nadou em direco a terra. B" `    <       < `              `      <  <                 `  `   <  `      ` <     A#C " A tarde caa. E a mar, jade, rosa e anil, recomeava a subir, recobrindo os jardins da mar vaza, apagando os rastos das ondas minguantes. No areal, desfolhavam-se rolos de espuma branca e, sobre as guas, o ltimo voo das gaivotas. B"     `    A# " B" A# " B" A#+" As estrelas furam a noite com mil olhos de fogo debruados sobre as guas. Sondam os abismos? Ou i1udem-se, nos ecos do seu prprio sonhar?B"      A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#$mt" Que pastor d'guas buzina, longamente, chamando ondas e espuma por entre a cerrao e a nvoa da antemanh? B"     A# " B" A# " B" A#A " Vai j alto o dia, mas vestido de cinzas. O vento comea a levedar as ondas que se despenham, grossas de espuma e com cintas de sargao, aboiadas. A velha Olinda l anda entre os poucos praiantes, que a nortada no assustou. B"   `   < <  A#7" -O argao derramou-se mais pr sul, pra l da Fragosa e da Lagoa, onde o mar tem mais achegos e onde ele se prende mais. Aqui menos, mas temos que ir aproveitando o que o Senhor d. B"        A#D " Os velhos no se podem dar ao luxo de o desperdiar. assim que provam que ainda ajudam panela da famlia. E a velha Olinda, que ainda conheci formosa e desempenada, arrasta-se pela beirada, com a graveta, prendendo as fitas fugidias. B" `    d  <  A#W<C " -Que remdio! A velhice muito triste. Ningum nos quer, j no temos prstimo, mas temos boca e por isso andemos com todo o tempo... J pouco posso coa graveta e o ganha-po, as minhas foras gastaram-se. Mas preciso comprar tudo to caro que no se registe... Salve ao menos o Sagrado Corao as nossas almas! B"            A#Y`" Indiferentes aos cuidados humanos, as pombas fazem ao moinho velho uma aurola de asas. B"     A# " B" A# " B" A#M " Mar-cheia. At Santo Andr o mar uma manta revolta de espumas. Um som fraguento que se desdobra pela praia e ecoa pela abbada cinzenta do cu. S esto a descoberto as balizas da enseada: Forcada e Forcadelo. Tudo o mais uma massa inquieta d'gua, que sobe costa acima.B"     `    d A#)0" -Acudide aos barcos! -ouve-se barregar. B"  h A#"el" O Alcindro, o Maiato e a mulher, a Ermelinda e o rapazio tudo vem acautelar aprestos e embarcaes. B" ` <  ` A#YBI " -O mar traz muito mau tempo co ele! Nunca se viu uma maresia de mar assim, neste tempo! Isto foi temporal l fora a muitas milhas daqui e que agora, vem dar costa. um fogo vivo! Num instante como se pus! Rechozinho e acarinhado pela manh e agora, ingole a praia... assim cuma ns, to depressa vivo como morto... B" `       <    A#PW" Os barcos ficam no varadoiro de cima, quase recolhidos ao bafo do meu telhado. B"   A#t" A mar continua a subir, violenta, espumosa, espancada. As ondas formam-se s cinco e s seis, pouco depois da linha do horizonte, explodindo em caches na Forcada, rolando e caindo com um rugido de trovo, entre rexios galopantes, inesperados e falsos. A beirada continua submersa de espumas ameladas incontinncia, inundante, de esperma. A praia erma-se de gente e de vozes. Todos se recolhem a terra, onde o trabalho aperta.B"+`     `    <      ` @ A#M " -Os milhos estavam muito desmedrados, sem calor que os puxasse e agora veio tudo ao mesmo tempo: o serdio e o temporo. Tem sido uma lufa -queixa-se a Maria Repas -e pr qu? Pra se vender tudo por preos de nonada. Os figures da cidade que engordam com o nosso suor! B"`       ` `  A#esz" Sbito o norte comea a varrer a cinza e o mar torna-se leitoso e laminado de sol. O cu abre-se e azula-se, lavado. E o mar azulesce tambm, mais e mais. As espumas tornam-se crinas, selvagens e brancas, duma pureza salina. E aquelas brancuras, insondadas dos abismos ocenicos, submergem momentaneamente Forcada e Forcadelo e espraiam-se numa extenso de quilmetros. B"#<   <     `      A#SZ" -J vaza! J vaza! -grita, atento, o rapazio, que se diverte a negacear as ondas. B"   A#." E a casa-concha, que esteve cercada e foi ilha, deixada agora pela mar, refracta-se, qual miragem, no brao de guas azuis, entradas pelo abremar. B"      D A# " B" A# " B" A#%" No, no o vento da tarde. B" A#NU!" a tua lembrana que se ergue em mim. Tua existncia-sonho, teu perfume-ausncia insinuam-se neste morrer do dia. Na terra, ainda algumas, poucas, coisas te referenciam. Os lrios continuam a florir. E o seu odor, secreto, intenso, sensual, atinge a fmbria das guas, mas a sua carne leitosa apodrece, entre o sargao estendido a secar. Ningum tos leva. Nem tu podes j enfeitar com eles os teus cabelos. As estrelas continuam pregadas na noite, mas muda a tua cano. S o vento a geme longa, longamente -e tu jazes, inacessvel, nos frios parasos do corao do mar. Imensamente fundo. Entre as flores, lunares, das centureas, sempre vivas, como sonhos respirados, dormes tu -a que foste amada, e sobre ti o tempo no tem poder. O meu corao, e s ele, te sabe sob as guas e as espumas, que te sepultam -florao de asas e aloendros...B"S` d   <         `      <      <         A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#1" Longa, longa, longamente, um gemido perfurante, que no finda, incuba-se no nevoeiro, nebulosa algodoada e cinza, que amassa terra e mar. Fria, mas no lubrina. B"     d A#K  " Terra adentro o dia ter comeado, ter, mas no agora que no h fainas e os primeiros praiantes ainda tardaro. Paira uma quietude de antemanh, ainda de pios e de asas adormecidas. S eu e a minha janela, que a nvoa cega, estamos abertas ao marulhado das guas. B"`        `  A#:" A nvoa dissipou-se. Cu azul, transparente -um oceano de luz. Dois bandos de gaivotinhas novas andam a lol, ao sabor das guas mansas e, de vez em quando, erguem-se num voo, baixo, de borboletas. B"`    `     A#'z" Desassossegada, a Natlia espreita o norte, pois o Joaquim no se sofreu mais e saiu com o Cindro e foram pescar cana. B"  `    A#." -J le andava a puxar faz dias... e o mar tem estado muito em modo. Mas cada um teme pelos seus. A esta hora j c deviam de estar. Tardam. J tardam. B"      A#LS" E a Natlia corre novamente a casa, no v o neto acordar e ver-se sozinho.B"   A#RY" Tambm eu fao contas s horas. O Fernandinho deve estar a vir desafiar-me para a beirada. Mal me sento na areia, mete-se logo na gua, donde s sai para me entregar tesouros: estrelas, conchinhas, pedras glicerinadas como sabezinhos de bonecas, amarelinhas como tremoos, ardsias do pas dos anes, luazinhas translcidas, fitas de sargao para as minhas sandlias gregas, ou para colares com pingentes de choro do mar, algas verdes e frisadas para jardinzinhos empedrados, que desenho na areia. J sabe juntar as letras e cresceu, mas no tanto que deixe de chorar, quando o levam de mim.B":`               `    `    A#H " Duas gaivotinhas afoitaram-se a poisar nas dunas do telhado, por breves, brevezinhos instantes, sem tempo de lhes pedir que ficassem. Um barco corta as guas em direco s Pedras do Canto. Sossega, enfim, o corao da Natlia que acorre ao varadoiro. B"    <      A#*1" S o meu companheirinho no aponta ainda.B"  A#fu|" O Sol aguilhoa as areias escaldantes e espelha-se em brilhos no mar liso, liso -como se tivesse sido afeioado plaina. difcil acreditar que este mar de bilhete-postal, com festes de espumas junto aos penedos, possa tornar-se naquele outro de Inverno, convulso e fervente, naufrgio de nuvens, que longe destas costas, muito ao sul de Lisboa, os engoliu para sempre. B"&`           ` < <   A#-" -Como que assim desaparece um navio pesqueiro, sem deixar rasto, nem destroos?! -estranhei eu ao Afonso, o genro do Z, que perdeu dois irmos. B" <      A#*" -Aquelas guas so de temer e posso diz-lo, porque tambm l andei embarcado. O mar cheio de remoinhos, em parafuso, traioeiro. B"      A#" E lembro-me, ento, que em Casablanca lhe chamavam olho de raposa. L ficaram Francisco Figueiredo Marques, Joaquim Sencadas da Torre, Hernni da Silva Andr, Manuel da Silva Andr, Andr Manuel da Silva Serra com os outros companheiros do Driss. Senti sobretudo a dor da Guida, minha vizinha, que envelheceu anos desde Novembro, quando posto de parte o apresamento pela Polisrio, e tendo passado dezanove dias, se perderam as esperanas, se deram por findas as buscas e eles por perdidos. B"0     <    `    `   `   h A#!cjP" -Desabafar?! Desabafar praqu? O desgosto tolhe-me a fala. E ningum est interessado em queixas... Na altura sim, por curiosidade, mas a morte dos oitros esquece depressa. E o meu filhinho s a mim faz falta e ao desinfeliz que deixou sem pai. A mim imparou-me at idadinha de vinte e seis anos e mesmo despois de casado estava sempre a vir ver se eu precisava de uma mozinha, se tinha que comer... Era muito amorvel!...Como foi? Abalramento? Naufrgio? Golpe de mar? Estes supores foram todos escrevidos nos jornais com os retratos deles, alguns de cando eram inda inocentes de primeira comunho, mas os desgostos no cabem em nenhum papel, s no corao da gente. Andemos uns poucos de tempos com o corao nas mos: agora tinde esperana qu'inda esto vivos, logo chorai, porque estaro mortos. E mortos estavam, sepultados nas guas. J l vo nove meses! A televiso deu naquela altura que houve um alevante de mar prquelas bandas. Haveria, mas o certo, certo que Deus no os levou a porto de salvamento, despois que a 25 de Outubro saram de Lisboa. Nunca chegaram a Agadir, onde iam dar comeo faina da pesca ao Largo da Mauritnia. Diz que, era b e ele que estava em prencpios de vida, pois tinha casado h um ano l foi, na esperana de trazer dinheiro limpo, dinheiro forro, por mor de indireitar a vidinha. Mas a sinas e destinos ningum fuge e l ficou na primeira viage, ele e os companheiros, sem tempo de ai ou socorro. Foram ingolidos pelas guas marditas, sem sinal. Nada aboiou, nem tbua, nem balsa salva-vidas, ou corpo. Nada veio deriva. O mar no deu siquer um farrapinho de camisa. L ficaram no profundo sem vir a cho sagrado. Meu filhinho! Minha saudade! Foi o Natal mais negro da minha vida de viva. Sem home, sem filho e sem esperana! Verti muita lgrima. Desafoguei-me em gritos como oitras, mes e vivas. Mas despois sequei. Era s um afrontamento, uma agonia, como se tivesse engravidado novamente, mas de dor. Aquele lugar mesa sempre vazio a olhar para mim. Sozinha. S co desamparo do netinho sem pai e que medida que cresce um retrato vivo que ali est a lembr-lo, sempre a lembr-lo... B"                       <  `             <        `  `    <      <  <          <  `        A#'|" Pobre Guida! J no a verei mais apegada migalha do argao, agora velha, doente e sem um brao de home que a ampare! B"      h A#NU" Falei depois com a Reina sobre as vivas, mas ela sempre realista, comentou: B"` `  A#cjq" -Naquela altura foi um pranto corrido. Tantas vidas ceifadas na flor, pois nenhum era velho. Algumas diziam que se matavam. Mas foram falas, desesperos. Tudo passa. A vida est sempre a cobrir a morte. J h quem ande grvida doutro home e inda no passou um ano que isto foi! Os desgostos no duram sempre. O corpo tem fome todos os dias e mais do que uma vez!B"#           `    A# '" Mar verde, rajado de azuis, com algumas ptalas de rosa, esparsas, agora que a tarde se fina. A praia, quase sem gente, comea a mostrar a ondulao das dunas, a larga concha lquida e a vastido do horizonte, que um veleiro desenha e sublinha. Mas no mais a mesma. No se v uma carreia, um farrapinho de sargao, nem poitas, nem nassas, nem cordame. Da beirada desapareceram a Ermelinda, a Joaquina, a tia Olinda, o Antnio Neto, o Z e o Joaquim Russo, a Guida, a Maria Perica. S trs barcos continuam a resistir e a no querer morrer. B"2           ` < <       A# " B" A# " B" A#5-" Antigamente, ai antigamente, a esta hora subiam na noite, juntamente com as chamas do acampamento, cantigas e sons de viola, que respondiam da terra ao cntico da mar. E as ciganas mais novas, ainda a sonhar a vida, vinham varrer com as suas saias danantes e longas, as espumas da beirada. J no mais assim. Para l do abremar no h burricos regalados daquele verde, cravejado de macela, nem a bomia das carroas, nem fogarus festivos. S o campo de futebol, enquadrado pelo colmeal dos prdios, que bordejam a estrada, corrida dos lumes dos carros, na ida ou na vinda da Pvoa. A noite no mais um convite ao jardim das estrelas. Vai longe o tempo em que eu ninhava no telhado, fechada pela abbada lucilante das estrelas. Agora as luzes da terra fazem esquecer aquelas flores de fogo e a face, misteriosa e dolorida, da lua. Ninho cada vez menos no telhado e recolho-me, cada vez mais, a mim. Como a Guida, que a esta hora est a botar o tero e a sufragar a alma dos seus mortos, que a esperam para l do desconhecido, j que tudo finda menos a morte e a vida que se alimentam uma da outra. Amanh ser outro dia. O Sol nascer como sempre na janela de terra e morrer na janela do mar.B"q       < `    < `  `   `    ` ` <     `    <       <     A#X_" -Solucem-me, guas da mar, solucem-me, porque tambm eu morro um pouco todos os dias! B"   A# " B"