{\pwi, TahomaCourier New/=  =@e######1#####"#############$## #####!#%##(#J####*G## # ?# # "##v##_#{## #Z#t### ## i# # R## ### # ## S#P## ##=##X##}###h###i#g######### #|# # E# V# # # # # # ##H##7# # # ### # # Q# ]# ###b#3## ### *# :# ### ## 4#@####\## ## ##4## #I## #j## # ## &#]####b# ## #O#Y#5# #*###### #q##$##### !#;# L#,#=# $#####-#####n# ;###I# .#{#######e#|# U# ## # #####q#f######## # N## 8##o## 2# # ]#G# H###b###N# W# # ## #k###L#J### #T##A# " O Capito PassanhaB" A# " B" A# " Mrio de CarvalhoB"d A# " B" A#," Os textos aqui publicados foram extrados do livro Contos da Stima Esfera, de Mrio de Carvalho, que gentilmente autorizou a sua publicao.B" `      A# " B" A#18" 1997, Mrio de Carvalho e Parque EXPO 98. S.A.B"  A# " B" A# " ISBN 972-8127-91-XB" A#" Lisboa, Junho de 1997B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " O CAPITO PASSANHAB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#$+" Do problema que o capito Passanha B"  D A#"" houve de resolver quando, B" A# '" em circunstncias atribuladas, B"d  A#"" comandava o Maria Eduarda B" A#" no estreito de Malaca B" A#&" e do bom despacho que lhe deu B" A#"" com a cooperao de todos B" A#!(" ou O enigma da esttua mutilada B"  D A#%," encontrada nos fundos de Shandenoor B"`   A#  " B"$ A# (" H meses, o navio oceanogrfico Scania, pesquisando espcies marinhas entre Samatra e Ceilo, no longe dos baixios a que chamam de Shandenoor, trouxe tona um estranho achado, decerto h muito afundado nas profundas geladas daquelas paragens. Tratava-se de uma esttua de gesso, quebrada em trs partes, representando o corpo de um homem de que nunca se conseguiu encontrar a cabea. As caractersticas da esttua, muito maltratada de corais e algas, com seus braos finos, encurvados e mal pegados ao corpo, suas sugestes de vesturio inidentificvel. seus ps juntos e grandes, lembrando os dos sarcfagos, so actualmente estudadas por uma equipa de especialistas nos armazns do museu de Kuala-Lumpur. Busca-se uma hiptese, minimamente rigorosa, para o aparecimento da esttua naquele ponto e com aquele talhe, diverso de tudo o que conhecido nas civilizaes em volta. Alertados, os esotricos, parasitas do mistrio, escreveram j rios de tinta sobre o que consideram ser o primeiro vestgio do continente desaparecido de Mu.B"dd    <        `                           l A#JQ" Porm, neste particular, como em todas, as coisas no so o que parecem. B"   A#+" Tudo se passou h muito ano, no tempo dos navios veleiros, quando o Maria Eduarda sulcava o estreito de Malaca, no regresso a Lisboa ... B"      A# " B" A# " B" A#GN*" Saltos bruscos do vento anunciaram a samatrada e a bordo tudo se preveniu e conformou-se a mareao para frustrar o rebate da natureza. Ningum contava, todavia, que a tempestade viesse to brava. Durante horas, o Maria Eduarda foi sacudido entre vales, montanhas e tneis lquidos e mesmo a marinhagem mais afeita aos mares do estreito cuidava ser aquela a derradeira tempestade que via e evocava instintivamente as velhas oraes da infncia. O comandante Passanha no se deixou impressionar. Tinha j visto muito mundo, a sua vida estava recheada de contenciosos com a natureza e no era uma samatra vulgar que lhe ia aquentar o sangue-frio. Tanto mais que tinha confiana no navio, lenho rijo, de boas madeiras, h pouco querenado nos estaleiros de Viana. Assim se fez amarrar roda do leme, logo aos primeiros rompantes do vento, e decidiu dar tino marujada, porque o cumprimento rigoroso das ordens, mesmo inteis, boa cura para o medo e a desesperana. Os homens do mar -sabia-o o capito -tm de ter sempre que fazer, em quaisquer circunstncias, ou mais que certo sair dislate. B"i<  `         <                      `         D A#" E foi neste esprito, na maior crise dos mares e dos ventos, quando no meio das pancadas de gua j ningum atinava ao certo se o navio ia ou no submerso, que o comandante mandou que se vazassem no mar os barris de leo e as talhas de azeite carregadas no poro. No ignorava o capito que, no estado daquele mar, nenhum alvio traria a manobra. Mas a verdade que a ideia deu nimo marinhagem que, num frenesi salvador, se obstinou em cumpri-la, agarrada aos cabos de vaivm. Mais tarde, recordando a tempestade, diriam com grande exagero que, no fora aquela ordem do comandante a domar as guas, e elas teriam abafado o navio sem que ningum sobrasse para contar a histria. B"?`      `   `         `       A#B " A tempestade passou, porque da natureza das tempestades passarem. As ondas desistiram dos cus e trs ou quatro repeles secos de vento vieram limpar os ares e deixar um aviso final aos homens para que no se metessem noutra. B"    < <   d A#X?F " No dia seguinte, o Sol veio resplandecer um mar largo e brandamente verde, sob um cu despido de nuvens, pousado, tranquilizador. Mal o contemplaram os marinheiros, que o dia foi dedicado bomba e s tarefas de reparao do aparelho avariado e de limpeza do navio, at que rebrilhasse, em consonncia com a paisagem. B"!      `   `    h A#N " Nisto, um marinheiro deu sinal de vela a estibordo. O imediato indagou com o culo e veio dar parte ao capito. Era um junco em apuros, maltratado da tempestade, com dois mastros em baixo e gua a dar pelas amuras. De bordo, faziam acenos que pareciam, ao imediato, desesperados.B"`    <      A#Q") " O capito hesitou, de mos atrs das costas, se sim, se no, havia de dar salvamento aos chins, que os mares eram inseguros e todos os cuidados poucos. Optou pelo que lhe ditavam o sentimento e os olhares condodos do imediato e da tripulao, mas no ps de lado os ditames da prudncia. B"            A#;" Arrenego de capito que diga "no cuidei", diziam os antigos, e bem lembrado estava o comandante destes e doutros avisos quando, depois de ordenar a manobra de atracao ao junco, disps o seguinte: B" ` <   <   h A#&v}" Que a velha caronada que jazia envolta em esteiras a um canto dos alojamentos fosse trazida para o convs e atacada; B" `  `   D A#," Que o imediato e dez marinheiros, armados de sabres e de machados, se escondessem atrs da amurada, alheta de estibordo, para o que viesse; B" < `     A# _f" Que todas as armas de fogo se dispusessem no convs, carregadas e prontas, ao alcance de mo; B"   ` @ A#'{" Que ningum fizesse alvoroo nem modos de estranheza, para que as manobras, vistas de fora, se mostrassem desacauteladas. B"     @ A#7" E com o mestre calafeteiro ao lado, de mecha acesa, ali promovido a bombardeiro, zelou para que a caronada, disfarada entre rolos de cordame, segurasse sempre o junco na linha de fogo. B"  `    ` A#L  " Muito perto, o junco era um cafarnam de massame, pranchas e canas quebradas, que parecia sem governo, ao som do mar. Alguns corpos, vestidos de vagos trapos rotos, andavam de rojo pelo convs e uma meia-dzia de chins esqulidos fazia sinais lnguidos do tombadilho. B"     `     A#Za" Chegados fala, o capito, por meio do porta-voz, bradou perguntas em portugus, repetidas em ingls de cais, com alguma mistura de palavreado chim e malaio. De bordo do junco levantou-se uma algaraviada incompreensvel, envolta em indiscernvel gesticulao oriental. O comandante deduziu que precisavam de reboque e de alimentos e mandou aprestar latas de corned beef e trs barris de quinto, enquanto se operava a atracagem por lanamento de uma amarra com ancorete. Estava firmemente determinado a manobrar um reboque de popa, no permitindo, em nenhum caso, que algum do junco subisse a bordo. B":  <          ` `    `  ` `  < A#et{" De sbito, dois arpus vieram pelo ar, amarrados a cabos de cairo, e o embate com o junco deu-se mais cedo do que seria de esperar. Um tiro ribombou e abateu um marinheiro que se debruava duma enxrcia, atento manobra. No meio do estralejar das detonaes, uma chusma de chineses, em grande alarido, galgou a amurada e invadiu o convs, brandindo cimitarras e piques. B"#      `    `     A#o" Logo o imediato lhes fez frente, muito de rijo, testa do seu grupo, e todas as armas aprestadas a bordo, num estrondear medonho que encheu o convs de fuma raa, alvejaram a piratagem surpreendida. A luta foi muito sumria e os invasores recuaram de atropelo, despenhando-se os poucos sobreviventes pelo portal que lhes deu entrada, sem cuidarem dos cadveres dos companheiros que ali ficaram prostrados. B"(` `      `   `       A#t" Na confuso de fumos, tiros e urros, o capito lobrigou o imediato seguro a um dos ovns do mastro grande, ps na mesa da enxrcia, a fazer pontaria de revlver para o junco. Nessa altura, um pirata magricela, pendurado nos enfrechates, volteou num gesto largo a cimitarra e logo foi abatido por um dos de bordo. Na confuso, o capito no distinguiu pormenores, mas suspeitou de que o imediato tivesse sido fortemente golpeado. B"(  `    <     `     A#H " Mas j os derradeiros piratas se refugiavam, mal feridos, a bordo do junco, em esbaforida algazarra e estrpito de tiroteios perdidos e, cortadas as amarras a golpes frenticos de machado, o xaveco distanciou-se ao sabor das ondas, obra de trinta braas.B"   `   `    A#2" Das amuradas e gveas do Maria Eduarda, a marinhagem insistia numa fuzilaria cerrada, a coberto dos vapores de plvora que iludiam os disparos incertos dos do junco. B"`  <     A#cip " Ento, o capito viu chegado o momento de usar a caronada. Regulada a culatra pelo calafate, pareceu a todos bem feita a pontaria e logo se chegou a mecha escorva e o tiro partiu, rasante. A granada deu cheio a meia-nau, levantou estilhas, revolveu confuses, fez esvoaar cordames e balouar moites e deixou um rombo hiante e fumarento no convs do junco. B"!  <    <   <  `  A#M " Mais certeiros, menos certeiros, os tiros de caronada sucederam-se at que o pequeno canho ficou quase em brasa, ameaando ruptura, e as granadas apenas levantavam grandes caches de gua, muito para aqum do amontoado catico e inerte do junco, visto j muito distncia. B"         <   A#]RY " O comandante mandou ento que se suspendesse o tiroteio, tornado intil, e deu-se a inventariar danos e baixas. Um pequeno foco de incndio que lavrava junto escotilha dos alojamentos prestes foi abafado a baldes de areia e, para alm de alguns furos e rasges no velame, apenas se registaram arranhes de balas nas amuras e na ponte. B"           < A#:" Meia-dzia de cadveres de piratas seminus que se atravessavam no convs em posturas bizarras foram, sem mais preparos, atirados borda fora, sem que algum curasse de saber se lhes ia sopro de vida. B"        A#Q#* " Sobraram os corpos do piloto e de um marujo lascar, muito passados de golpes, que logo foram cobertos com um oleado. E um marinheiro contrito, muito compungido, veio trazer a cabea do imediato, que fora encontrada debaixo da enxrcia de bombordo, meio escondida por um rolo de cordoa lha. B"         `   A#9" Deu o capito ordens para que se varejasse o navio e se revolvessem todos os esconsos, mesmo os mais absurdos, em busca do corpo que complementava aquela cabea. Mas as pesquisas deram em nada. B"   <  ` `  A#N " Da observao do mar tambm nada resultou. Cada a noite, ainda se avanavam lanternas sobre as guas e se tocava o sino, mais numa demonstrao de reverncia e num descargo de conscincias do que na esperana de que o corpo viesse tona e se oferecesse aos que o procuravam. B"       `   A#J  " Nessa noite, o capito Passanha viria a adormecer com a responsabilidade de dois corpos, alinhados na tolda em padiolas de lona, e de uma cabea sem corpo, disposta sobre um caixo de arroz, entre velas acesas e sob a guarda respeitosa de marinheiros em turnos.B"     `     A#u" O prximo porto de escala, Loureno Marques, a um ms da derrota ronceira do Maria Eduarda, punha de lado a possibilidade de conservao dos corpos para posterior funeral em terra. Alis, pensava o capito, funeral de homem do mar morto no mar quer-se no mar, em conformidade com as regras e praxes da marinharia, e soava como deslustre memria dos finados a ideia de alterar o rumo e desembarc-los em qualquer porto de gentios. B"(   `   `        `  A#]SZ " Acudia, certo, ao capito aquela superstio portuguesa de que os cadveres lanados ao mar no hemisfrio norte flutuam sempre apontados a Oeste, por mais lastro que se lhes amarre, mas o capito j tinha visto muito mar, presenciado muito lanamento e confiava mais nas leis fsicas da imerso dos corpos do que nas lendas dos antigos.B"!         `     A#PW" Porm, assente a cerimnia do lanamento ao mar dos defuntos, um problema de esquiva soluo se apresentava agora ao arguto capito Passanha. Os cadveres dos dois marinheiros, v que no v, deslizariam do passadio para as profundas, envoltos em panos de velas, com duas bigotas de ferro aos ps, encharcados de gua benta pela marujada formada, depois de competentemente lido o Veni Creator. Mas que trato dar cabea do imediato? Inconcebvel a ideia de um pequeno fardo redondo a rebolar pela prancha e a despenhar-se nas guas com um rudo pfio, entre farrapos minsculos de espuma. B":  `        `        < `    A#?" J o sol vermelho daquelas paragens tingia de tons prpura a cabina do capito, quando este tomou a deciso definitiva e irrevogvel. Havia que arranjar um corpo para aquela cabea e proceder dignamente ao lanamento. B" <       A#E " Cedo, na manhzinha seguinte, o capito, homem afeito a decidir sozinho, sem contas prestadas a Deus ou ao Diabo do que lhe ia nas decises. resolveu aconselhar-se com o contramestre e o mestre calafate, os mais graduados que vinham a bordo. B"      <   A#3" E durante a primeira manh os passos dos trs homens, circunspectos, ressoaram entre o traquete e o tombadilho, num passeio compassado de quem sopesa resolues graves. B" < `  <   A#=D" Tratava-se de encontrar meio de dar um corpo condigno cabea do imediato. Rejeitada a sugesto de afeioar a cabea a um fardo de estopas, cordame e desperdcios de velame, por ser material perecvel que mal poderia sofrer a gua, algum lembrou os santos de pau acondicionados no poro, embarcados em Timor. Cortar-se-ia a cabea a um deles e em seu lugar adaptava-se a cabea do imediato. Ao capito no sorriu o alvitre, por vrias razes: porque os santos eram de madeira, com pendor para flutuar, porque o seu tamanho no excedia o cvado e meio, o que desde logo desajustava a cabea e finalmente, porque no considerava trato decente para os despojos do imediato o fornecer-lhe um corpo pintado, envolto em tnicas ou saios garridos, lavrados de ouropis e estrelas de purpurina, muito afeio de roupagem de entrudo.B"N   `   `   @ `    < `          <      A#s" Ento o mestre lembrou que o cozinheiro j tinha sido imaginrio, no Minho da sua juventude, e sugeriu p-lo a trabalhar nas cantarias de mrmore, longas e pesadas, que transportavam para Loureno Marques. Porm, por maior empenho que mostrasse e pressa que desse a malho e escopro, no havia santeiro que despachasse pedra tamanha em menos de um ms, tempo suficiente para corromper os corpos e empestar todo o mar ndico. B"( `                A#^X_" Em todo o caso, chamaram o homem, que l veio, atarantado, desbarretado, a limpar as mos ao avental imundo e a confirmar a impossibilidade da obra em tempo to escasso. E de passeio a trs passou a sorumbtica deambulao a passeio a quatro, com a figura cinzento-esbranquiada do cozinheiro a saltitar, para c e para l, ao lado dos outros.B"#      < <  <      A#t" Ora foi precisamente o tatebitate do cozinheiro quem, depois de muita titubeao e palavras em falso, veio com a sugesto luminosa: gesso, que se fizesse um corpo de gesso de presa. O carpinteiro escavaria um molde de madeira, no que ele, com a sua experincia de santeiro tambm prtico em trabalhos de pau, ajudaria como pudesse, vertia-se o gesso hmido dentro da figura e depois havia s que limar e dar-se-lhe o jeito final. B"+ `  `  <            A#(}" Chamado o carpinteiro conferncia, logo este apreendeu a ideia e se declarou competente e cooperante em todo o necessrio.B"<       A#)" E, disposto no convs um largo fuste de madeira, os dois homens aplicaram-se com grande rumor de marteladas e rangeres de serra. B" `     A#x" O rancho desse dia, amanhado pelo moo de cozinha, veio ainda mais infecto e intragvel que o habitual, mas ningum a bordo protestou, sabedores todos das transcendentes tarefas ora atribudas ao mestre de cozinha. Tambm o capito, que convidou o contramestre e o calafate a almoar na sua cabina, teve boa boca, sentindo-se j aliviado do problema que o atormentava, ao som das pancadas enrgicas com que os dois artistas castigavam a madeira. B"+               `  A#bho" Ao pr do Sol, perante a tripulao formada no convs, o capito podia, enfim, dirigir a cerimnia fnebre. Um a um, os trs corpos deslizaram pela prancha inclinada e despenharam-se solenemente no mar. Cada baque foi sublinhado com um tiro seco de caronada, numa derradeira homenagem aos desaparecidos. De todos estes eventos foi lavrado o competente termo. B"#`  <  < <  `   `    A# " B" A# " B" A#cip" Dizem que na vspera do Juzo Final todos os segredos escondidos sero desvendados e revelados enfim todos os mistrios, como nas paradas finais dos jogos. Ento, seria tambm explicado aos homens o porqu daquele corpo tosco de gesso, talhado ingenuamente, ao modo rstico do Minho, que se encontrava plantado a grande profundidade perto da costa de Samatra. B"# <    `   <   d    A#"gn" Assim, pequei eu, antecipando-me a mostrar desde j o que estava reservado para saberdes muito depois.B" d `    A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A##" Que todos ficassem bem ... B" A# " B" A# " B" A#" Nos meus ltimos dias de frias no arquiplago de Shandenoor vieram procurar-me dois sujeitos escuros, muito magros, bisonhos, que se diziam enviados do rei de Carvangel. Acontecia que ao prncipe lhe tinha dado para a melancolia e passava o tempo a fabricar papagaios de papel colorido, sem nenhum interesse pelas coisas da governao, o que deixava o velho e gotoso monarca preocupado quanto ao futuro do reino. Assim me foram descobrir naquelas ilhas e reclamar os meus cuidados, sem olhar a despesas.B"0` `   `    `       `    A#L " Comecei por recusar polidamente e indicar-lhes um mdico meu conhecido de Bombaim, o Dr. Shantana Lagador, muito reputado em psiquiatria. Mas os homenzinhos no se convenceram. Queriam-me a mim. E durante todo esse dia seguiram-me os passos, como dois ces cabisbaixos. B"  < <       < A#g|" Um deles, soube-o mais tarde, era o prprio primeiro-ministro e o outro um dignitrio importante, portador da espada do rei. ou coisa que o valha. No creio que no caso de inxito lhes estivesse preparada uma recepo particularmente festiva, porque ambos ficavam muito srios quando encaravam a hiptese -decerto remota, diziam -de regressarem ao pas sem a minha companhia. B"#        `      A#G " Fosse por que fosse -e a verdade que nem sempre somos senhores das nossas decises -acabei por tranquilizar os cavalheiros e garantir-lhes que estaria em Carvangel na prxima quinzena, podendo eles, desde j, seguir adiante e levar a nova ao reino. B"` `         A#ZEL " Os homens ficaram jubilosos, agradeceram-me com grande alarde de reverncia oriental e l os levei porta meio contrariado e confundido, quer pela resoluo que acabava de tomar e de que j me tinha arrependido, quer pelas manifestaes de reconhecimento subserviente que me incomodavam, com tanta vnia e beijares de mo. B"     <       A#^V] " Resolvi, pois, ficar mais uns dias em Shandenoor e aproveitar para bisbilhotar algumas ilhas que ainda no conhecia. E durante uma semana, a escalar cumeadas montanhosas cobertas de arvoredo, ou aos baldes, em paraus de aluguer por entre as cavas do mar, nem me lembrei do principezinho neurtico nem da estranha embaixada que me enviaram. B"!    <  <   < `   A#? " Ao cabo deste tempo, soube que tinha perdido a oportunidade de voar para Carvangel ainda nesse ms. As carreiras eram mensais e o ltimo txi areo havia descolado na vspera, alis em condies de navegao precrias. B"     <     A#N " Indicaram-me o ferry-boat em que se transportavam, nesta poca, os trabalhadores sazonais que iam a Carvangel trabalhar nas plantaes de sisai, a largar por um desses dias, e recomendaram-me, no hotel, que falasse pessoalmente ao capito se queria um tratamento mais cuidado. B"  <         D A#> " Soube que ele era portugus, como eu, que se chamava Andrade e que poderia encontr-lo noite razoavelmente sbrio, se comparecesse cedo, num bar do porto chamado O Nctar do Stimo Pingo Luminoso da Lua Cheia. B" <   `     A#L  " Tratava-se de um botequim meio escondido, numa rua miservel, mal assinalado por uma lanterna de papel, imunda, que estremecia ao vento. O capito Andrade sentava-se a uma mesa em que orientais apinhados, luzidos de transpirao, apostavam desvairadamente ao Fan-Tan. B" `    `     A#I  " O capito no pareceu muito entusiasmado em levar-me, e foi de m catadura que me deu alguma ateno, por entre as exclamaes ruidosas dos jogadores. Num falar lento, arrastado, mortio, procurou dissuadir-me e remeter-me para o voo de avio do prximo ms. B"    `      A#N " Era um cinquento pesado, meio calvo, de boca torcida por um eterno cigarro, que vestia um dlman, outrora branco, muito apertado, e se exprimia com uma forte pronncia alentejana, num falar expressivo, em que, de quando em quando, se insinuavam palavras malaias ou chinesas. B"           A#;" O facto de sermos patrcios [ele tinha nascido em Sines, eu em Santiago] e de eu viajar por conta do reizete de Carvangel, mais este que o primeiro, por certo, l o convenceram a alojar-me na sua cabina.B"  <       A#HO" Despediu-me com um aceno mole e voltou ao seu jogo, de olhos a brilhar.B" ` @ A#7" Antes, a rematar o ajuste comigo sobre transporte e alojamento, dissera-me mecanicamente, a propsito de nada, uma frase que eu ainda lhe havia de ouvir muitas vezes durante a viagem: B"      ` A#7>" -Ora pois ento. preciso que todos fiquem bem ... B"  A#D " Quando no dia seguinte, muito cedo, cheguei ao porto, j o ferry-boat, alardeando a sua brancura por entre a massa pardo-castanha dos milhares de sampanas e juncos que coalhavam as guas, pastosas, do rio, roncava o seu terceiro aviso. B"     `   @ A#J " Dentro, retirada logo a prancha do passadio com os protestos de uma multido de clies lazarentos que se apinhavam no embarcadouro, tive de me movimentar por entre um molho apertado de gente seminua, de turbante garrido, aglomerada em todo o espao disponvel. B"<   `       A#N " Ao cimo das escadas que davam para a ponte, cobertas de pessoal alegre e palrador e suas trouxas, que mal deixavam espao para subir p ante p, um sipaio de m catadura, de trabuco pesadssimo a tiracolo, abriu-me uma cancela de ferro, com gestos lentos, cheios de autoridade.B"     `  < <   A#:" Depois veio-me indicar, solene, o camarote do capito, onde arrumei as minhas malas debaixo de um div improvisado, junto a uma janela rectangular que se reflectia onduladamente no tecto de madeira. B"<  `      A#t" Entre a minha precria cama e o beliche do capito mediariam uns vinte centmetros e, para alm de uma escrivaninha de cnfora, atafulhada de papis de bordo, uma prateleira com escassos livros de mareao e um lavatrio de loua colorida, pouco mais cabia na cabina. Por cima do beliche do capito, uma gravura emoldurada, em vidro fosco, muito trabalhado e colorido, continha N. S. dos Navegantes a observar serenamente tudo. B"+     <      <      A#? " Ele, entretanto, encontrava-se na cabina do comando, dirigindo a manobra, decerto complicada pela densidade do trfego indgena que obrigava a muito golpe de roda o piloto grego, e a um silvar quase constante do apito. B"@   <      A#@ " Ao fim de algumas horas passvamos, enfim, o farol do velho forte portugus de Shandenoor, que nos salvou com um tiro de pea, a que respondeu de bordo uma tremenda algazarra, em meio de grande agitar de panos coloridos. B"<  `        A#]QX " O navio ia pouco boieiro, atochado de gente e de fardos. Os embornais quase rasavam a gua, de ondas mansas e espessas do muito aluvio que arrastavam para o mar. O nosso reduto na ponte era relativamente tranquilo, isolado da turba multa que se comprimia no convs e nos pores, de que nos chegavam o alarido e o rumorejar constantes. B"!   `           A#`]d " O percurso demorava uma semana, sem escala, pelo mar nu. Durante esse tempo, pelos primeiros trs dias, o navio no fornecia alimentao e todos os emigrantes teriam de se haver como pudessem. Ao quarto dia, distribua-se quela gente uma sopa de ervas e arroz, em grandes latas. A gua estava racionada a duas canadas por pessoa em toda a viagem. B"!<        `     A#F " Eu era tratado como membro graduado da tripulao. O capito e eu tomvamos as refeies na ponte superior, com o piloto grego, muito moreno, que s falava chins, e o maquinista irlands que sabia tocar canes melanclicas numa gaita-de-beios.B"        d @ A#0" O resto da tripulao, uns oito homens, ou eram sipaios indianos encarregados de manter a ordem, ou moos de convs, clies geis, diligentes e prestveis. B"  `    A#w" Durante os primeiros tempos a viagem correu bonanosa, sem histria. De dia, o capito dava ordens na ponte, de barretina atirada para a nuca, um brao descado sobre o pavs, molemente. Depois do jantar, os trs oficiais jogavam um jogo chins, o Mah Jong, de que logo me escusei, preferindo ler umas notas debaixo de um fanai, enquanto eles praguejavam na ponte em idiomas vrios, entre os estalidos das peas de marfim na mesa desmontvel. B"(   ` `   `      `   A#!bi" No final de cada jogo eu ouvia a voz do comandante, por sobre o estralejar das peas recolhidas: B" `    A#3:" -Ora pois ento. preciso que todos fiquem bem!B"  A#l" O capito, de vez em quando, vinha falar comigo. Lamentava-se de que a viagem fosse montona e desejava-me melhor sorte que este enfado. Sabia muito sobre aquelas paragens, costumes, gentes, tipos. Industriou-me com pormenor sobre os hbitos e protocolos da corte de Carvangel, no deixando nunca de insinuar, disfaradamente, a sua estranheza por me ter prestado a visitar um reizete to obscuro. B"&       `        A#L " Uma vez por outra, eu decidia dar uma volta pelo navio. Aproveitava a altura em que o irlands, j tocado de genebra, descia at s profundas da casa das mquinas e o sipaio lhe abria a porta muito respeitador e orgulhoso do bacamarte com que assegurava a ordem a bordo. B"         `  A#:" O capito no aprovava estas minhas surtidas. No primeiro dia de viagem chegou a opor-se com energia a que eu descesse. Que era para no ver o que eles comiam dizia-me -, para no ficar agoniado. B"        h A#;" Depois houve um parto complicado, e o prprio capito me veio chamar para dar assistncia. Enquanto eu trabalhava, com a ajuda de mulheres escuras e tristes, o capito fumava, olhando os longes do mar. B" <       A#S*1 " -Em todas as viagens nasce pessoal a bordo. s vezes sou eu prprio a assistir, imagine o doutor. Os indgenas tm confiana. Mas este era um caso arrevesado, e ainda bem que o doutor estava. No sei aonde que esta gente quer ir parar, com tanta ninhada. Olhe, preciso que todos fiquem bem. B"      `      A#W:A " E o capito ajudava-me a subir ponte, carregava-me a maleta, segurava a cancela para eu passar, e j depois, no camarote, expendia largas observaes sobre aqueles modos de vida e ouvia deleitado as notcias que eu lhe ia dando do nosso pas natal. Adormecia de repente, depois de um ora pois ento suspirado.B"`            h A#P% " Um dia vi-o muito tenso, de mos crispadas na bitcula, a olhar o horizonte, sobrolho carregado. O grego piloto mascava melancolicamente o que quer que fosse e, de quando em quando, alteava um dos ombros, num tique que lhe no era habitual, tocando as malaguetas com impulsos bruscos. B"     `    <  D A#+" Ao almoo, os trs oficiais mantinham-se silenciosos, tratavam-se cerimoniosamente, interpunham grandes pausas entre as raras palavras. B"      A#i" Perguntei ao capito o que ia no ar. Ele respondeu com um discorrer vago, queixando-se do irlands que, a seu ver, tinha mau feitio quando bebia, no se fazia respeitar pelos dois clies que trabalhavam com ele, e deixava sempre a casa das mquinas coberta de uma camada pegajosa de leo e poeira. Alm disso, tinha mau perder ao jogo confidenciava-me, entre baforadas vivas de genebra. B"&    <     <    <  A#Q#* " Os outros, entretanto, esbugalhavam os olhos, tentando adivinhar uma ou outra palavra da nossa palestra, e quedavam-se muito graves, o grego aplainando vagamente com a faca as rugas da toalha, o irlands assobiando para o lado, enquanto fazia rodar distraidamente um abacate mirrado na mo.B"        <    A#U4; " Percebi que o capito, na sua perlenga, enquanto descascava a fruta com mtodo, escolhia as expresses, ia buscar regionalismos, termos arrevesados, para evitar que os outros compreendessem alguma coisa do que dizamos. E rematou o aranzel, quando o criado ndio, respeitoso, trazia o ch, com um profundo: B"   `   `      h A#@G" -Olhe, doutor, sabe? Isto preciso que todos fiquem bem ... B"    A#," Mas algum tempo depois surpreendi-o sozinho, debruado na amurada, a contemplar as guas. De novo insisti. O que que realmente se passava? B"  <    A#" O comandante riu-se das minhas apreenses. Disse-me que no havia tempestades [samatradas, como ele lhes chamava] nesta altura do ano. Quanto a investidas de piratas, que me foram sugeridas pelos enormes juncos, de tombadilho alteado, que nos cruzavam, eriados de canhes de bronze, o capito garantiu-me que depois do reforo da frota de Lah-Shong os piratas tinham desaparecido daquelas guas. De resto, observava, quem poderia estar interessado em abordar um ferry-boat decrpito cheio de emigrantes mais pobres que Job? Ora os piratas queriam-se era para os ricos viajantes entre Hong-Kong e Macau, para os visitantes milionrios de Bali, capazes de proporcionarem carteiras recheadas e resgates prdigos. Agora ali, naquele ponto, n! E cuspinhava desprezivamente para as ondas. B"N<       <     `                < <  A#" Assim me deixou, sem mais explicaes, e foi reunir-se ao grego, na cabina do comando. Mas o nervosismo continuou durante o resto do dia. O maquinista gesticulou durante todo o jantar, entretendo uma complicada discusso em chins com o grego, que alisava soturnamente o guardanapo, entre os remoques. O capito fazia tamborilar os dedos por sobre a mesa, sonhador, o dlman suado entreaberto sobre o peito, at que deu por finda a discusso com um rugido de impacincia e um murro na mesa. B"0              `     A#_\c" Nessa noite, porm, enquanto deitado na minha desconfortvel cama de campanha tentava decifrar o snscrito tosco de um manuscrito que me havia fornecido o professor Telles Paula, residente em Lah-Shong, com a ajuda de uma multido de dicionrios e livros de notas alinhados sobre o lenol. ainda ouvi at tarde o palavreado spero dos trs homens.B"# @    <        @ A#i" Estranhamente, a bordo ia o silncio. Durante todo o sero no se ouviu o fervilhar habitual da multido, nem os gritos, nem os choros das crianas, nem as conversaes dos velhos, nem as casquinadas das mulheres, nem a algazarra dos homens. Nada. O sipaio de turno passeava tranquilamente na ponte. Ouvia-lhe as botas compassadas no tabuado, por sobre um convs dormente, tranquilo. B"& `               A#N " De manh, acordei num repelo, sobressaltado. Sentado na cama, de corao aos saltos, olhei para cima, para a vigia. Um olho enorme, de ris dourada e raiada de finos veios de sangue, espreitava-me pelo vidro. Precipitei-me para fora do mosquiteiro que rasguei com a brusquido. B" <           A#n" O navio balouava fortemente e l fora soava um grande clamor uivado como se toda a gente gritasse, uma. Vesti-me atabalhoadamente com os movimentos dificultados pelos baldes do barco e pela inquietao de ver que o tal olho descomunal no me desfitava, colado vigia. O olho deslizou e vi escorrerem pelo vidro grossos fios de cabelo louro, solto, e, depois, fugaz, o lbulo de uma orelha gigantesca.B"&            <   A#B " Na ponte concentrava-se toda a tripulao, com excepo dos homens das mquinas. Tinham as mos fixas no pavesame e o olhar fito ao longe. O capito tomou-me pelo brao e, com uma sacudidela seca, intimou-me a que no me mexesse. B"  ` <      A#)" Por toda a extenso do mar, vante do navio parado, espadanando nas guas quietas e escuras, passeava-se um deus, no seu carro. B"      A#4;" Nesse momento deslocava-se, lento, descrevendo um grande arco na nossa frente, obra de cem braas afastado do navio. Estava em p, conduzindo um carro dourado, de que as rodas, raiadas, levantavam caches de gua dum e doutro lado, e que era tirado por dois cavalos marinhos que faziam ondear graciosamente as suas retorcidas caudas de peixe. O corpo do deus, nu, resplandecia e os olhos brilhavam-lhe de um fulgor branco que por vezes se fazia vermelho e frio. Na mo livre alava um tridente, com majestade. Os longos cabelos e barbas louras flutuavam brisa. B"5     `        <    <    A#" Quando o carro do deus estacou na nossa frente e ali, parado, se manteve durante alguns instantes, caiu um grande silncio, expectante, por sobre o navio. Mas logo o carro cresceu, num chispar de chamas rubras, e veio contra o barco. O deus, de tridente bem levantado, avantajou-se pela proa. O corpo agigantado excedia agora a altura da chamin e, no meio de um vento zunidor e dos gritos aterrados da multido, atravessou o navio e foi parar do lado da r, j num tamanho de homem. B"0  <  ` < < <      `   `   A#M " Instintivamente, todos na ponte nos baixmos, passagem daquele vendaval luminoso. O capito, de qupi tombado sobre a nuca, praguejava baixinho, despejando o repertrio desbocado de todos os portos do mundo. No meio das interminveis imprecaes s consegui distinguir: B"      <     A#IP" -Eu bem adivinhava, co'a breca, bem calculava que isto ia acontecer ... B"`  d A#7" O irlndes tinha-se ficado de joelhos e rezava. O grego tossia baixinho, mo perto da boca, olhos de susto. Os marinheiros e sipaios indgenas espreitavam acocorados a monte, num pasmo. B"   `   <  A# " O deus, entretanto, guiava o seu carro, ultrapassando-nos pela alheta de bombordo. Deu vrias voltas em redor do navio, levantando espuma, sempre a fitar em ns os olhos resplandecentes de fria luz. Sensivelmente, este movimento foi-se fazendo cada vez mais rpido, at que se tornou num corropio luminescente, mal discernvel entre borbotes de espuma. Lentamente, o navio entrou a rodopiar, primeiro de mansinho, depois num giro crescente que nos fez agarrar s amuras e levantou um grande alarido de pavor l para baixo. B"2     `  `          <    A#cjq" De novo o deus se ficou, parado, no meio do mar, os seus cavalos em movimentos vagarosos de sustentao tona das guas. O grego e o irlndes, de volta da roda do leme, conseguiram com muito esforo dominar o navio, endireitando-o ao rumo que vinha seguindo. Por um instante, as mquinas reboaram a ajudar a manobra e o navio, a custo, voltou a imobilizar-se. B"#`       `       A#)" Agora de braos cruzados, tridente pousado ao lado, no carro, o deus, de olhos fulgurantes, parecia esperar o que quer que fosse. B"   <   A#L  " -Bom, vamos a isto -resmungou o capito, e fez um sinal ao irlndes para que o acompanhasse. Seguidos por sipaios, de arma engatilhada, os dois homens abriram a cancela e desceram da ponte, para o meio dos emigrantes. Do convs vieram rumores confusos, alguns gritos. B"     `   `  A#A " Interpelei o grego, que, meio dependurado da roda do leme, encolheu os ombros com displicncia. E foi um dos clies, meio enfarruscado de leos e enodoado de massas consistentes, que num portugus torto me deu uma explicao. B"          A# " Quando naquela rota fazia bom tempo, e sensivelmente sempre nas mesmas coordenadas, aparecia uma divindade, como a que agora nos defrontava, que exigia um sacrifcio para que a viagem pudesse prosseguir. Nem sempre, porm, isso acontecia, o que levava certos comandantes a afoitar-se, fiados em que o mar, dessa vez, estivesse franco. Para azar nosso, ali nos vamos encrencados - e julguei discernir, por entre o grande fluxo de palavreado malaio, uma cerrada crtica ao governo do navio de permeio com maldies. B"0  <     <           < A#R&- " O comandante e a sua equipa abriam entretanto a cancela e traziam para a ponte um velho famlico, de longa barba branca, imunda, turbante esfarrapado, que, de olhos em alvo e mos sobre o peito, desfiava uma interminvel ladainha pelos lbios semicerrados, ao jeito dos visionrios orientais. B"   ` `      < A# ]d" Interceptei o capito, passagem, mas ele afastou-me para o lado, impaciente, e resmoneou: B" `     A#+" -O amigo doutor agora no se mete nisto, entendido? E deixa-me conduzir as coisas porque aqui quem manda sou eu. Ora ponha-se manso, sim?B"  `    A#2" E, com os dois si paios, escoltou o velho at junto da amurada, onde o empurraram e deixaram s, a engrolar as suas rezas, frente ao deus que, l longe, aguardava. B"`      A#;" O irlndes, nesse meio tempo, explicava-me laconicamente que o prprio velho se tinha oferecido para ser sacrificado com a anuncia da famlia, pelo que o procedimento se fazia com o consenso de todos. B"        A#!bi" Mas o deus, pelos vistos, no aceitou o oferecimento e rejeitou o sacrfico daquele pobre diabo. B"  `   A# " Num mpeto, tomou e enristou o tridente que, de l de onde ele estava, se veio alongando, alongando e crescendo, deixando uma sombra negra sobre o mar. Fomos todos sacudidos pelo embate do navio com o tridente e segurmo-nos onde pudemos. Depois ouvimos um ranger medonho, como se o navio estalasse por todas as juntas e sentimo-nos levantados no ar, a grande altura. A algazarra, a bordo, transformou-se num urro unssono, de entremeio com gritos agudos, estalidos das madeiras, e o matraquear da hlice rodando em seco. B"2    <           <    ` A#8" Alcandorados s alturas, vamos o deus muito pequeno, l ao fundo, segurando o barco na ponta do tridente. Os olhos fulguravam-lhe dum vermelho vivo que feria o tom esmeralda-verde do mar.B"`  `    < A#? " Depois de algum tempo, foi baixando devagar o navio que aps um embate pesado na gua se ficou a balouar. Na ponte, estvamos todos encharcados. O capito tinha perdido o qupi. Afortunadamente, ningum caiu gua. B"   <   @    A#OV" Quando pudemos levantar-nos j o deus esperava de novo, a umas trinta braas. B"   A#Y`" O capito, irritado, sacudiu o dlman molhado, chamou o irlndes, os sipaios e ordenou: B"     D A#5<" -No haja dvida! preciso ir l abaixo outra vez! B" ` A#I  " Aproveitei a abertura da cancela e passei com o comandante e os outros para a escada, apinhada de indgenas aterrorizados. Movimentvamo-nos com dificuldade ao longo daquele aglomerado, que os sipaios mal conseguiam romper fora de encontres e coronhadas: B"`          A#*1" No percurso, ousei perguntar ao capito: B"   A#<" -Mas o que isto agora? No me diga que vai mesmo fazer a vontade daquele bruxo chamuscado, capito. H que nos portarmos como gente civilizada, c'os diabos! Por quem ! Sacrifcios humanos que no ... B"    `     A#2" O capito parou um instante e olhou para mim, iracundo. A boca tremia-lhe, no esforo para no romper a praguejar inconsideradamente. Volveu-me, com um esgar maligno:B"     <   A#" -Civilizado, hem, doutor? fcil falar, mas eu que tenho a responsabilidade por esta passarada toda que aqui vai. Civilizado, se calhar, foi o checo Minnianic que mandou disparar um tiro de pea contra aquilo e teve o navio desfeito, trituradinho, modo em pedacinhos pequenos salpicados pelo mar. Era isto que o doutor queria? Ou civilizado como o chins Tao Ling que se meteu a fazer um discurso pelo porta-voz, a propor negociaes, e o navio se lhe abrasou todo em fogo e foi ao fundo feito em torresmos? Pois, se preciso sacrificar uma criatura para salvar uma remessa delas sacrifique-se. Isto, sim, que justo. Pelo menos c a minha ideia de civilizao ... B"?           <         `     A#/" E, dizendo isto, olhava para o irlndes, que, muito srio, sacudia a cabea em aprovao, embora s tivesse podido adivinhar o sentido geral do discurso. B"      A#9" Estvamos agora no sujo convs, cheio de gente. De vez em quando, por uma fugaz brecha entre os corpos escuros, encadeava-me o resplendor do deus, faiscando como uma rstea instantnea de sol. B"<    <     A#O# " Passando o olhar em volta, o capito media o crculo de gente que o olhava suspensa, agora em silncio. Corpos e vestes estavam ainda repassados de gua, dos baldes do barco. Restos de espuma borbulhavam com um rudo cavo, pelos embornais, pontuando a expectativa tensa, apavorada. B"     <    <  A#%qx" A custo, o comandante deu uns passos. Aos seus movimentos, todos se comprimiam ainda mais uns contra os outros. B"     A#)" De sbito, o capito levantou o brao e apontou uma adolescente que, aninhada contra a me, nos fitava com grandes olhos de medo. B"     < A#$+" -Tragam-me aquela alm -disse ele. B"  A##" Os dois sipaios adiantaram-se e agarraram brutalmente a jovem por um brao. A me debateu-se e alguns nativos esqulidos gesticularam em volta com ar ameaador. E foi de roldo, no meio de uma grande grita que todos subimos as escadas at ponte. Os sipaios distribuam coronhadas quase ao acaso, o capito de mos abertas, debatendo-se, forcejava contra a mole de gente. Eu defendia-me dos golpes que vinham de todos os lados e tentava, ao mesmo tempo, libertar a rapariga dos sipaios, o que dava um grande e confuso sarilhar de gestos. B"2        `   ` <    ` <   A#" Finalmente chegmos cancela, onde o resto da tripulao, de armas em riste, nos ajudou a passar ponte, custa de alguns lenhos em corpos mais atrevidos. Estvamos todos ofegantes. Mal contida pelas armas aperradas e pelos sabres que os clies brandiam, uma turbamulta parda concentrava-se pelas escadas, insultando-nos, alando gestos ameaadores. Choveram restos de cordoa lha, pedaos de pau, detritos. Entre ns, muito encolhida, a rapariguinha tremia de medo, a cara encardida corrida de lgrimas. B"5 ` <  `    <  `  `         h A#4" Aproveitei a breve pausa, enquanto todos nos entreolhvamos, para me dirigir ao capito, que se me antecipou, limpando o suor com um grande leno vermelho debruado a azul. B"  <    d A#," -Eu j tinha avisado o doutor para que no se metesse nisto. Ai tinha, tinha ... Veja l. Olhe que isto preciso que todos fiquem bem .. . B" <  `   D A#Q!( " Neste momento, a figura do deus, gigantesca, cobria uma grande parte do cu pairando por sobre o navio. De semblante crispado, braos cruzados, parecia continuar espera. O seu carro dourado, entretanto, caracoleava sozinho por entre as guas, conduzido pelos inslitos cavalos de tiro. B"       <   d A#;B" -Oua capito -insisti eu -, voc quer, com um sacrifcio humano, aplacar um deus, mas o que vai fazer, no fundo, sacrificar-nos a todos atravs dessa rapariga. Compreenda a responsabilidade que tem, homem! Essa moa que voc quer entregar quele monstro iluminado est a representar-nos a ns todos. Com ela somos todos, percebe, todos, voc, eu, os passageiros, todos, que pagamos o tributo. Todos ficamos sujeitos vontade daquele figuro desptico, merc do que ele queira. No o autorizo a entregar-me a mim, a entregar esta gente toda na figura daquela moa! B"5     <    `    < `       A#[LS " -Olhe, doutor -e o capito falava muito depressa, alteando a voz. -Olhe, doutor, agora no tenho tempo para doutrinas. Eu c sou um homem prtico, ou no tinha chegado a esta idade. Isto aqui como se fosse a raposa a roer a pata presa, entende? O que preciso que todos fiquem bem, ou pensa que com gosto que dou a catraia? B"            A#,3" E, empertigando-se, de sobrolho derribado: B"  A#=D" -Ora arrede-se para l, se faz favor, ou tmo-la armada ... B"   A#Q$+ " Ainda tentei dar mais razes, argumentar, convencer, mas, a um gesto enrgico do comandante, os dois sipaios levaram a mocinha submissa para o ponto em que antes estivera o velho. A sua pequena silhueta escura, enfezada e encolhida, contrastava com o corpo resplandecente do deus, em fundo. B"      < `  <   A#<" Ento atirei-me para diante, aos gritos. Da balbrdia que se seguiu, apenas recordo o grego, muito fleumtico, pirisca ao canto da boca, a alar uma bigota de ferro sobre mim, que desmaiei com a pancada. B"   `     D A#;" Acordei na cabina com o capito a meu lado, a humedecer-me a testa com um trapo molhado. Demorou algum tempo antes que a cara gorda, mal barbeada, me aparecesse ntida, focada. Ele sorria, prazenteiro: B"<        A#5" -Ento, j arribou? Olhe que tem os ... bem ... a pele dura, doutor. O gajo chegou-lhe forte, hem? Ele manda-lhe pedir muitas desculpas. E, bem v, dadas as circunstncias ... B"       A#7" O navio singrava agora clere, a toda a fora das mquinas, num rudo atroador. Soerguido na cama, com a cabea a latejar, os acontecimentos de h pouco voltavam-me lentamente memria. B"   `   `  D A#-4" Segurei bruscamente o capito por um brao: B"  A##*" -Que se passou? Que da rapariga?B"`  D A#," -Calma, doutor -recomendou o capito com brandura -, no se amofine que ficaram todos bem. A gaiata est rija e s, l em baixo, com os pais. B"      A#~" E, oferecendo-me um cigarro, contou-me que, na altura da zaragata, logo depois de o grego me ter batido, deu-se um grande estrondo nos ares e a apario sumiu-se, de repente, sem deixar rasto. Eles ainda aguardaram um pouco, na ponte, no fosse a avantesma regressar, com as suas exigncias. Mas nada mais se passou e tudo voltou normalidade. O mar estava desimpedido e a rota prosseguia, sem mais percalos, as mquinas muito lanadas para recuperar o tempo perdido. B"-     <  `           A#$nu" -Caprichos l dos cus, ou do que quer que seja comentou o capito encolhendo os ombros. -V-se l saber ... B"     A#W;B " Insisti para que me deixasse ver a moa com os meus prprios olhos. Ele acedeu, cheio de pacincia, e amparou-me at aos primeiros degraus da escada da ponte, de onde pude observar a rapariguita, que dormia tranquilamente enroscada no tabuado, junto a um magote de gente que falava baixo e fumava ervas equvocas. B"      < <   ` ` A#" A viagem durou ainda mais dois dias em que recuperei menos mal do hematoma que a pancada me causou na testa. mesa dos oficiais pouco se falou nos acontecimentos de antes. Em todo o caso, pude apurar que o deus, que, com a minha formao clssica e jacobina, eu tinha identificado vagamente com Posdon, havia sido visto pelo capito e pelo irlndes como uma espcie de S. Pedro, de tnica arregaada, iando o navio na sua rede de pescador, pelos sipaios, como Kli, a deusa sangrenta, com sua multido de braos, sorrindo hediondamente, pelos clies como um imenso drago ondeante e espanador de guas e, provavelmente, por cada um dos passageiros, em conformidade com as suas reminiscncias prprias. B"A                  <      `  A#n" Confesso que no cheguei, enfim, ao cais de Carvangel ostentando o porte digno e impoluto que esperariam de mim os pequenos dignitrios maquilhados e vestidos de compridas tnicas coloridas que me esperavam em terra. Em vez do capacete de cortia, muito decoroso, que decerto queriam ver os surpresos cortesos, rodeava-me a cabea uma compressa de linho, sofrivelmente limpa, mal amanhada pelo capito. B"&          ` < <   A#IP" Este veio despedir-se de mim, com um aperto de mo efusivo, dizendo-me: B"    A#T.5 " -E desculpe se tem alguma razo de queixa. Aconselho-o, na volta, a esperar pelo avio de carreira. J v, doutor, sempre mais cmodo, e, nestas coisas, preciso que todos fiquem bem ... -E, hesitando: -Estive a pensar, sabe, e parece-me que o amigo, no meio disto tudo, se portou a preceito ... B"  `      <   A#'{" Recusei a cadeirinha que os do squito me ofereciam e dirigi-me a p para o palcio, acompanhado da minha vistosa escolta.B"     @ A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#"" As trs notcias do Diabo B" A# " B" A#el" espera de transbordo, um amigo meu atardou-se numa tasca fedorenta de San Pelayo, bebendo tequilla e jogando ao Modelo. O Modelo um jogo de cartas a dois que lembra o Crapaud. Em cada vaza, uma carta lanada obriga a mudar todas as outras dispostas na mesa, pelo que o jogo exige uma sagaz capacidade de clculo. Nessa noite, o meu amigo jogou com o Diabo, que se apresentava sob a forma de um marujo hirsuto, baixo e grosso, de dente de ouro e idioma compsito. O meu amigo sabia que o outro era o Diabo porque chispava fascas o tampo de mrmore sempre que o roavam os cotovelos peludos do seu adversrio.B":       < <    `   <        A#g|" Tanto bebeu o Diabo que entrou a perder e a fazer confidncias. No ltimo jogo, apostou um segredo que sabia e a derrota levou-o a cumprir a indiscrio. Assim, revelou ao meu amigo que, na infinita trama de causalidades que se operam no mundo, trs quadros h to possveis de ocorrer como qualquer outro, desde que certo pequeno evento chame os perigos e solte as catstrofes. B"#<           `   A#^U\ " Poder assim ser que, uma noite, a sampana do mestre pescador Tao Li, a lidar nas guas de Malaca, muito ao largo, arraste uma rede derivante, cujo arraaz, aos baldes pelas areias do fundo, ir deslocar uma carga explosiva de profundidade, lanada em tempos pelo destroyer australiano Glorious Flag, em manobas de fogo real naquela zona. B"!    <  <      ` A#G " Regulada para eclodir a 60 braas de profundidade, a carga no deflagrou ento e foi pousar tranquilamente nas profundezas, entre uma formao de coral e um banco de anmonas, no longe do lugar em que se abre uma ravina abrupta, estreita e funda. B"       `   A#<" Impelida pela rede, a carga deslizar por um ligeiro declive, hesitar entre o encalhar num troo de rocha ou continuar caminho e precipitar-se-, enfim, pela fenda profunda e escura, despovoada de vida. B" `     `  A#> " No tombo, dar de si o mecanismo de exploso, h muito inerte, e a sampana de Tao Li, sacudida pelos borbotes das ondas de choque, cabriolar toa por entre o relampejar das escamas de milhares de peixes mortos. B"          A#H " No tero os chins, porm, muito tempo para se espaventarem, porque os movimentos das guas no se aquietaro. E j um boqueiro, hiante e negro, se abre em redemoinho cada vez mais largo e faz a sua primeira vtima do xaveco pesqueiro e sua companha. B"  <        A#8" que a exploso vir fender a fina parede rochosa que, no fundo do mar de Malaca, d para os imensos refegos ocos da terra, capazes de comportar mil oceanos nos seus cncavos labirintos. B"       A#q" Ento, num rugido medonho, correr o avassalador redemoinho, engolidor de navios e portos, destruidor de faris e diques, arrasador de ilhas e roubador de praias. Todos os oceanos sero sulcados de correntes vertiginosas, em carreiras de escuma, e no sobraro mais navegaes. E todas as guas em tumulto acorrero ao porto em que ficava o estreito de Malaca, para se precipitarem, troando, nas profundas em aberto.B"(  `    `          A#6" Os ares acompanharo o turbilho das guas e por todo o lado se revolvero, em torvelinho, furaces nunca vistos e ventos zunidores zurziro, em correria, arvoredos e edificaes. B"       A#<" Descompassados jogos de presso faro borbulhar vulces insuspeitados, soltar-se- o enxofre pelas fracturas nos campos antes cultivados, a terra enrugar-se- e estremecer a som dos elementos sem norte. B"< <       A#eqx" Cinquenta e dois imensos dias perduraro as convulses. Ao quinquagsimo segundo dia, aquietados os ares e varridos os ltimos restos de nuvens, o Sol vir a brilhar, escaldante, sobre charcos pantanosos, ftidos, de guas paradas e negras, num caldo borbulhante, viscoso de podrides, ao fundo de vales abruptos e limosos, nos stios em que antes verdejavam oceanos. B"#         <  <   A#"fm" Aturdidos, no alto das montanhas, os poucos sobreviventes preparar-se-o para enfrentar os desertos. B"     A# " B" A# " B" A#" Ou pode ser que nas Pampas de Gexficoatl, privadas de chuva por muito ano, a terra grete e os pees se arrastem esqulidos por entre as ossadas brancas dos animais mortos e nas aldeias abrasadas se levantem tumultos urdidos em raiva e fome. O coronel Frank Galahad, comandante da base militar americana de Sanadolor, suspeitar de que para bom sossego das populaes no bastaro os fardos de vveres, nem sempre acertados, avidamente disputados por multides famlicas, que o seu governo haver por bem enviar em bojudas aeronaves. B"5    <             `  `  A#" H muito tempo desterrado naquelas paragens, o comandante ver-se- profundamente afectado por aquela melancolia a que os mdicos chamam neurose das pampas e passar muitos seres insones a interrogar as pedras de gelo do scotch sobre a forma de sair daquilo e tornar de novo s plancies serenas, sem fomes, sem mortes, sem ameaas ao paulatino sossego daquela base perdida, que oxal, pensar o coronel, o continue a ser, para tranquilidade de todos e, sobretudo, sua. B"-      `     <   `    A#}" Um dia, esquadrinhando os campos desolados, crestados do sol, ver ao longe passar uma procisso de gente maltrapida atrs de dois monges de cruz em riste e olhos no cu, ladainhando para que ele se abra. O coronel lembrar as danas da chuva dos ndios do seu pas e lamentar que os descendentes dos ndios das pampas h muito tenham perdido memria das encantaes ancestrais, talvez mais eficazes do que as ingnuas oraes que ora bradam num castelhano cantado. B"0    `   <       <     D A# " E ser talvez por ter posto o pensamento nas vias de comunicao com o que est em cima que ao comandante ocorrer mais tarde, numa evidncia fulminante, uma sobrevivncia longnqua das aulas de West Point. Recordar o velho major Rumbolt Payne, a coxear pausadamente por entre as filas de cadetes sonolentos e a explicar aos berros, como era seu hbito, que depois de uma batalha inevitavelmente chove e nunca ningum conseguiu saber porqu. logo o coronel saltar da cama e decidir pr em prtica o ensinamento. B"2        < <           A#=" Inspirado, naquela exaltao de alma a que no valem as prevenes do bom senso nem as censuras da transgresso, estar, em pouco, o coronel, de mos na ilharga, a meio da parada, perante a tropa estremunhada. B"      <  A#P$ " Gritam-se vozes de graduado em graduado, as fileiras desfazem-se num grande reboar de botas, as sirenes uivam e, abertas as portas, numa azfama alarmada, colunas motorizadas e de p, estrondeando rumor de motores e ladrar de ordens, saem do permetro e vo ocupar um outeiro prximo.B" `   <      @ A#\NU " Ainda vir longe a manh, j todas as armas existentes na base estaro aprontadas, com mim num certo ponto do cu que o coronel h-de determinar, com base em clculos to arbitrrios quanto pormenorizados, ajudado daqueles instrumentos militares foscos e inteis que do apenas a iluso de que se pode pr coisas a mandar em coisas. B"!     < `     `  A#=" Ao romper do Sol ser dada ordem de fogo e a batalha fingida comear, numa deflagrao tremenda, em emaranhada pirotecnia de luminrias corredias, at dois teros das munies da base terem sido consumidas. B"   ` `    A#V8? " Interessantes seriam as imediatas consequncias disto, com o alvoroo das populaes em volta, as crateras abertas na pampa, um campanrio destrudo e um forno de po perfurado, inmeros casos de surdez entre os militares, um co morto e a perspectiva mais que certa de processo marcial para o coronel Galahad. B"< <  <   < `    ` A#" Porm, importa dizer que no chover e que aquela espiral de fumos avermelhados que se deslocar a caminho do mar, no ser por certo a resposta esperada dos cus provocao do coronel que, cessado o fogo e antes de ser detido, perscrutar em vo os ares, na mira de uma gota de gua que seja. Ser, porm, perfurado o ponto em que se geram os tornados e as consequncias no tardaro. Nessa mesma manh, ao largo da costa, assistir-se- formao de um estranho tornado, a partir de um turbilho de nuvens vermelhas no cu. B"2                < <    A#dov" Quem o vir, de bordo de qualquer embarcao, no ter muito tempo para se maravilhar com o fenmeno que, depois de serpentear toa pela tona do mar, de haste mais e mais engrossada por um borbulhar de guas, vir ao encontro do navio observador, contrariando as normas habituais dos tornados, que sempre tendem a fugir das navegaes, e engoli-lo- em dois credos. B"#<     `       <  A#." A trompa, revolvedora de ares e de ondas, muitas outras demonstraes dar de inconformidade com os preceitos a que os tornados acostumaram os homens. B"     < A#U29 " O tnue filamento coleante que a primeira testemunha ver projectar-se no cu h-de estar transformado, pelo meio-dia, numa rotunda coluna de guas, obra de vinte milhas de dimetro, com quatro cargueiros, um palhabote, uma vedeta de costa, dois avies e um balo meteorolgico a chocalharem-lhe no bojo. B"  `   `   `    A#E " Ao meio da tarde, ser j enxergada da costa, onde os habitantes aterrados vero o horizonte emparedado por um muro de gua irisado, movente, fervilhante, de que se poder ouvir o ronco longnquo, e que esconder o Sol duas horas mais cedo. B"      <   A#`]d " Nessa noite, nos portos, verificar-se- que todas as mars vo loucas e que o nvel do mar, basto picado, se situar muitos metros abaixo do normal. As docas ficaro a seco, descobrem-se os lodos em volta dos diques e dos cais e, muito ao longe, nas praias deitadas a perder de vista, abrem-se abismos abruptos, em que as guas, tensas, se agitam. B"!`  `  `         A#ZGN" Correro alarmes por todo o mundo e no faltaro tentativas para entender e debelar a inusitada ocorrncia, que lavrar imparvel e imperturbada, revel a todas as intervenes. Um sistema inteiro de leis fsicas e qumicas suspender a sua rotina, derrocando com fragor, perante a confuso dos cientistas e das universidades. B"#    <  @ `       A#ZHO " Nos dias prximos, num turbilho crescente que envolver terras e ares e nada deixar levantado no seu percurso, os mares sero sugados pela desconforme tromba e o nvel das guas ir progressivamente baixando at que dos oceanos mais profundos restem apenas charcos lodosos e apodrecidos, espera que o Sol os queime e leve. B"! <   ` `   ` < d   A#(" Numa estranha partenognese, um pequeno planeta lquido ir-se- distanciando da terra e deslizar, verde, tombado no infinito. B"      A#(" Ento romper-se- a tromba, num rebate sbito, com uma final asperso de poalha lquida que o Sol e os solos logo absorvero. B"   `  d A#!bi" Os homens, ainda incrdulos, sairo ento dos seus esconderijos e pensaro que fazer do deserto. B"     A# " B" A# " B" A#NU" Ou pode ser que o alquimista de Dassvidnia um dia encontre enfim a palavra. B"   A#^W^ " Desde muito novo, o alquimista dedicou a vida transmutao dos metais, na convico de que ela ocorreria quando fosse pronunciada a palavra certa. E, em frente de um lingote de ferro, pousado na grande mesa do seu velho solar, perto de uma janela donde se alcanam a Lua e os astros e as tempestades, aplicou-se com mtodo ao seu projecto. B"!            ` A#D " Comeou por sries de trs letras, a partir de AAB, ABA, BAA, sem excluir as palavras gastas pelo uso corrente e, uma vez esgotadas as sries, passava meticulosamente s seguintes, registando-as uma a uma, por ordem, em trgidos cadernos. B"         h A#? " Quando, ao fim de muitos anos, as paredes dos sales se encontrarem cobertas de cadernos, contendo o registo das palavras at meio da srie de sete letras, o alquimista pronunciar e lanar ao papel a palavra certa. B"`    ` < `   A#/" Logo ouvir um estalido seco e olhar sobressaltado o lingote de ferro que se manter, porm, tranquilo e inalterado, no seu lugar habitual, sobre a mesa. B" ` <  ` ` A#K  " Um sentimento inquieto de incomodidade levar o velho a esquadrinhar o salo, em busca da origem do rudo. Ento verificar que o vaso de vidro, pousado no peitoril da janela, onde recolhe chuvas e orvalhos, h pouco meio de gua pura, estar agora meio de mercrio. B"  `    <   ` A##kr" Esquecer o velho o trabalho de uma vida, e desprezar a transmutao procurada por aquela que encontrou. B"     A#7" O caderno ficar aberto sobre a mesa, mostrando as sucessivas aproximaes da ltima palavra registada, e o velho dirigir-se-, trpego, para a praia prxima, com o corao em desordem. B"       A#i" A pronunciar a palavra, sentado numa rocha. Reboar por toda a terra um grande estrondo e os cus sero sulcados demoradamente de raios. Quando o alquimista, lanado areia pelo impacte dos elementos, se levantar e olhar de novo o oceano, v-lo- pesado e negro, a brilhar metalicamente ao luar. Destoaro da massa compacta e grossa os reflexos claros dos peixes mortos superfcie. B"&   `     <  ` `     A#LS" No mar de mercrio, os navios adernaro e as aves definharo, tristemente. B"   A#JQ" Consternados, e sem esperar pelo deserto, os homens pensaro em emigrar. B" <  A# " B" A# " B" A#D " Estas, as trs confidncias que o Diabo fez ao meu amigo, antes de se desvanecer, num bar imundo da costa das Amricas. Aqui as reproduzo para que fiquem avisados o pescador Tao Li, o coronel Galahad e o velho alquimista de Dassvidnia. B"   <     @ A#T[" Vem-me, porm, o pressentimento de que, ao ser lida a ltima letra deste texto ... B" @    h A# " B"