{\pwi, TahomaCourier New/=  =@RWol ####\##<#####"##### ########=#B#B#>#E#!#@#D#8#.###0#W#%#l#D#i## ##V#H#,#w##J##1## ## Y#### ##>##4###U## ### ##9#x##7##`###~##{## =## ##0####M###E#v# #:## ##0### # #,#d##& #y#]#$# #=#O#D## ##u#<#*#%# /# #\#/##1# #Z## #### ;#-# ###:##' #W## c# ## ###### c#P##A#B#>##A# " O MarinheiroB"  A# " B" A# " Fernando PessoaB" A# " B" A#\c" A publicao de O Marinheiro foi gentilmente autorizada pelos herdeiros de Fernando Pessoa.B"     A# " B" A#<C" 1997, Herdeiros de Fernando Pessoa e Parque EXPO 98. S.A.B"  A# " B" A# " ISBN 972-8127-84-7B" A#" Lisboa, Abril de 1997B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " O MARINHEIROB"  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " A Carlos FrancoB" A# " B" A# " B" A#=D" Um quarto que sem dvida num castelo antigo. Do quarto v-B"  l A#BI" se que circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixo B"   A#BI" com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. direita, B"   D A#>E" quase em rente a quem imagina o quarto, h uma nica janela, B"    A#EL" alta e estreita, dando para onde s se v, entre dois montes longn-B"   A#!(" quos, um pequeno espao de mar. B"  A#@G" Do lado da janela velam trs donzelas. A primeira est sentada B"    A#DK" em rente janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As B"    A#8?" outras duas esto sentadas uma de cada lado da janela. B"  A#.5" noite e h como que um resto vago de luar. B"`  A# " B" A# " B" A#07" PRIMEIRA VELADORA -Ainda no deu hora nenhuma. B"  A#W^" SEGUNDA -No se podia ouvir. No h relgio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia. B"   A#%," TERCEIRA -No: o horizonte negro. B"  A##ls" PRIMEIRA -No desejais, minha irm, que nos entretenhamos contando o que fomos? belo e sempre falso... B"     A#DK" SEGUNDA -No, no falemos disso. De resto, fomos ns alguma coisa? B"   A#cip" PRIMEIRA -Talvez. Eu no sei. Mas, ainda assim, sempre belo falar do passado... As horas tm cado e ns temos guardado silncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. s vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu no sei por que que isso se d. Mas sabemos ns, minhas irms, por que se d qualquer coisa?...B"#              D A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#V]" A MESMA -Falar do passado... isso deve ser belo, porque intil e faz tanta pena... B"   A#HO" SEGUNDA -Falemos, se quiserdes, de um passado que no tivssemos tido. B"   A#,3" TERCEIRA -No. Talvez o tivssemos tido... B"<  A#&w~" PRIMEIRA -No dizeis seno palavras. to triste falar! um modo to falso de nos esquecermos!...Se passessemos?...B"    d @ A# " TERCEIRA -Onde? B"@ A#JQ" PRIMEIRA -Aqui, de um lado para o outro. s vezes isso vai buscar sonhos.B"   A# " TERCEIRA -De qu? B" A#18" PRIMEIRA -No sei. Por que o havia eu de saber? B"  A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#_Y` " SEGUNDA -Todo este pas muito tristeAquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada minha janela. A janela dava para o mar e s vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu no fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. No sei se era feliz. J no tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...B"!   `       `  ` A#-" PRIMEIRA -Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que a nica de onde o mar se v, v-se to pouco!... O mar de outras terras belo? B"      A#(" SEGUNDA -S o mar das outras terras que belo. Aquele que ns vemos d-nos sempre saudades daquele que no veremos nunca...B"    ` @ A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#>E" PRIMEIRA -No dizamos ns que amos contar o nosso passado? B" `  D A#$" SEGUNDA -No, no dizamos. B" A#4;" TERCEIRA -Por que no haver relgio neste quarto? B"  A#8" SEGUNDA -No sei... Mas assim, sem o relgio, tudo mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si prpria... Quem sabe se ns poderamos falar assim se soubssemos a hora que ? B"<   `    A#r" PRIMEIRA -Minha irm, em mim tudo triste. Passo Dezembros na alma... Estou procurando no olhar para a janela... Sei que de l se vem, ao longe, montes... Eu fui feliz para alm de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que no mas tirassem... No sei o que isto tem de irreparvel que me d vontade de chorar. Foi longe daqui que isto pde ser... Quando vir o dia?...B"(                A#U\" TERCEIRA -Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre, sempre, sempre... B"     h A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#j" SEGUNDA -Contemos contos umas s outras... Eu no sei contos nenhuns, mas isso no faz mal... S viver que faz mal... No rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... No, no vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu no tinha sonho nenhum, mas -me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado... por que no falamos ns dele?B"& <      `       d A# " PRIMEIRA -Decidimos no o fazer... Breve raiar o dia e arrepender-nos-emos... Com a luz os sonhos adormecem... O passado no seno um sonho... De resto, nem sei o que no sonho... Se olho para o presente com muita ateno, parece-me que ele j passou... O que qualquer coisa? Como que ela passa? Como por dentro o modo como ela passa? Ah, falemos, minhas irms, falemos alto, falemos todas juntas... O silncio comea a tomar corpo, comea a ser coisa... Sinto-o envolver-me como uma nvoa... Ah, falai, falai!...B"0            <   <    A#" SEGUNDA -Para qu? Fito-vos a ambas e no vos vejo logo... Parece-me que entre ns se aumentaram abismos... Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente frio por dentro, naquela parte que toca na alma... Eu devia agora sentir mos impossveis passarem-me pelos cabelos... As mos pelos cabelos... o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mos sobre os joelhos. Pausa.) Ainda h pouco, quando eu no pensava em nada, estava pensando no meu passado.B"0       `  <  `    < `    A#9@" PRIMEIRA -Eu tambm devia ter estado a pensar no meu... B"  A#fx" TERCEIRA -Eu j no sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao p da casa de minha me corria um riacho... Por que que correria, e por que que no correria mais longe, ou mais perto?...H alguma razo para qualquer coisa ser o que ? H para isso qualquer razo verdadeira e real como as minhas mos? B"#   `   <        A#" SEGUNDA -As mos no so verdadeiras nem reais... So mistrios que habitam na nossa vida... s vezes, quando fito as minhas mos, tenho medo de Deus... No h vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?...Que pena se algum pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir msicas brbaras que devem agora estar tocando em palcios de outros continentes... sempre longe da minha alma... Talvez porque, quando criana, corri atrs das ondas beira-mar. Levei a vida pela mo entre rochedos, mar baixa, quando o mar parece ter cruzado as mos sobre o peito e ter adormecido como uma esttua de anjo para que nunca mais ningum olhasseB"A`  ` <     `        <      `   @ A#7>" TERCEIRA -As vossas frases lembram-me a minha alma... B"  A#" SEGUNDA - talvez por no serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que no ouo mas que est segredando... Mas eu devo ter vivido realmente beira-mar... Sempre que uma coisa ondeia, eu amo-a... H ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... No o fao porque no vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes que eu tenho medo... impossvel que eles sejam to parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que tm... Se desta janela, debruando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruar-se-ia um momento da minha alma algum em quem eu me sentisse feliz... B"A  `    `        `   `   <      A#`g" PRIMEIRA -Por mim, amo os montes... Do lado de c de todos os montes que a vida sempre feia... Do lado de l, onde mora minha me, costumvamos sentarmo-nos sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta no tinha outras clareiras seno os nossos pensamentos... E os nossos sonhos eram de que as rvores projectassem no cho outra calma que no as suas sombras... Foi decerto assim que ali vivemos, eu e no sei se mais algum... Dizei-me que isto foi verdade para que eu no tenha de chorar... B"7    `                  A#i" SEGUNDA -Eu vivi entre rochedos e espreitava O mar... A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas... Eu era pequena e brbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente parece-me que durmo... Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ningum... O mar era grande demais para fazer pensar nelas... Na vida aquece ser pequeno... reis feliz, minha irm?B"& <        `  `    A#=" PRIMEIRA -Comeo neste momento a t-lo sido outrora... De resto, tudo aquilo se passou na sombra... As rvores viveram-no mais do que eu... Nunca chegou quem eu mal esperava... E vs, irm, por que no falais?B"        A#~" TERCEIRA -Tenho horror a de aqui a pouco vos ter j dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencero logo ao passado, ficaro fora de mim, no sei onde, rgidas e fatais... Falo e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mo, no sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrrio que estivesse com conscincia de si prprio. por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, atravs do mistrio de falar... E afinal, quem sabe se eu sou assim e se isto sem dvida que sinto?... B":  <     `                A#<" PRIMEIRA -Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em ns!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se d por isso... Falai, portanto, sem reparardes que existis... No nos eis dizer quem reis?B"       A#{" TERCEIRA -O que eu era outrora j no se lembra de quem sou... Pobre da feliz que eu fui!... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquilas dos meus dedos... s vezes, beira dos lagos, debruava-me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus dentes eram misteriosos na gua... Tinham um sorriso s deles, independente do meu... Era sempre sem razo que eu sorria... Falai-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma razo para recordar... B"<              `     <      A#~" PRIMEIRA -No falemos de nada, de nada... Est mais frio, mas por que que est mais frio? No h razo para estar mais frio. No bem mais frio que est... Para que que havemos de falar?... melhor cantar, no sei porquO canto, quando a gente canta de noite, uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos... Eu podia cantar-vos uma cano que cantvamos em casa de meu passado. Por que que no quereis que vo-la cante?B"+`                ` A#X=D " TERCEIRA -No vale a pena, minha irm...Quando algum canta, eu no posso estar comigo. Tenho que no poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e que no vivi nunca. sempre tarde demais para cantar, assim como sempre tarde demais para no cantar... B"            h A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#07" PRIMEIRA -Breve ser dia... Guardemos silncio... A vida assim o quer. Ao p da minha casa natal havia um lago. Eu ia l e assentava-me beira dele, sobre um tronco de rvore que cara quase dentro da gua... Sentava-me na ponta e molhava na gua os ps, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos ps, mas no era para as ver. No sei porqu, mas parece-me deste lago que ele nunca existiu... Lembrar-me dele como no me poder lembrar de nada... Quem sabe por que que digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?... B"5     `  `      `   `      A#h" SEGUNDA - beira-mar somos tristes quando sonhamos... No podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que h mil vozes mnimas a falar. A espuma s parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo muito e ns no sabemos nada ... Quereis que vos conte o que eu sonhava beira-mar?B"#    <          A#=" PRIMEIRA -Podeis cont-lo, minha irm; mas nada em ns tem necessidade de que no-lo conteis... Se belo, tenho j pena de vir a t-lo ouvido. E se no belo, esperai..., contai-o s depois de o alterardes...B"     ` <  A#" SEGUNDA -Vou dizer-vo-lo. No inteiramente falso, porque sem dvida nada inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e me e que houvera em mim infncia e outros dias... nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu s pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela... Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que j tinha esse meu sonho... No sei onde ele teve princpio... E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando lua e os navios passam longe devagar... B"<  d                   ` ` ` A#MT" PRIMEIRA -Vejo pela janela um navio ao longe. talvez aquele que vistes... B" `  A#," SEGUNDA -No, minha irm; esse que vedes busca sem dvida um porto qualquer... No podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto... B" `   <  D A#;" PRIMEIRA -Por que que me respondestes?...Pode ser... Eu no vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para no ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes beira-mar... B"      <  A#EL" SEGUNDA -Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longnqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... No vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele no tinha meio de voltar ptria, e cada vez que se lembrava dela sofria, ps-se a sonhar uma ptria que nunca tivesse tido; ps-se a fazer ter sido sua uma outra ptria, uma outra espcie de pas com outras espcies de paisagem, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruarem das janelas... Cada hora ele construa em sonho esta falsa ptria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no cho areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e no reparando nas estrelas. B"N             `                  h A#&v}" PRIMEIRA -No ter havido uma rvore que mosqueasse sobre as minhas mos estendidas a sombra de um sonho como esse!.. B"    <   A#C " TERCEIRA -Deixai-a falar... No a interrompais... Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeo para a poder escutar... Dizei, minha irm, dizei... Meu corao di-me de no ter sido vs quando sonhveis beira-mar... B"  < `      A#:A" SEGUNDA -Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contnuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifcio impossvel... Breve ele ia tendo um pas que j tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se j de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soam ser os crepsculos numa baa do Norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmrio da gua que o navio abria, num grande porto do Sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta... B"5 <       <       <     < A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#07" PRIMEIRA Minha irm, por que que vos calais? B"  A#" SEGUNDA -No se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora materna para os sonhos, mas preciso no o saber... Quando falo demais comeo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadea de mim prpria e sinta demasiadamente o corao. Tenho ento uma vontade lacrimosa de o ter nos braos para o poder embalar como a um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia no pode j tardar... Ser preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?B"0           <        A#j" PRIMEIRA -Contai sempre, minha irm, contai sempre... No pareis de contar, nem repareis em dias que raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabea no seio das horas sonhadas... No torais as mos. Isso faz um rudo como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele to verdadeiro que no tem sentido nenhum. S pensar em ouvir-nos me toca msica na alma...B"&`               A#F " SEGUNDA -Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. medida que o vou contando, a mim tambm que o conto... So trs a escutar... (De repente, olhando para o caixo, e estremecendo.) Trs no... No sei... No sei quantasB"   <   <     A#E " TERCEIRA No faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... No faleis em quantos podem ouvir... Ns nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e vem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro?...B"  < <  `     A#0," SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) Ao princpio ele criou as paisagens; depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matria da sua alma... uma a uma as ruas, bairro a bairro, at s muralhas do cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, -como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordado, atravs do pas que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha j, nessa nova ptria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infncia e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera... nem o pas, nem a gente, nem o seu passado prprio se pareciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?...Causa-me tanta pena falar disto!...Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhosB"n   <    `       <                      `        A#!dk" TERCEIRA -Continuai, ainda que no saibais porqu... Quanto mais vos ouo, mais me no perteno... B"    @ A#?" PRIMEIRA -Ser bom realmente que continueis? Deve qualquer histria ter fim? Em todo o caso falaiImporta to pouco o que dizemos ou no dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister intil como a Vida... B"       ` A#  &" SEGUNDA -Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis ento recordar a sua ptria verdadeira... mas viu que no se lembrava de nada, que ela no existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua ptria de sonho; adolescncia que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que no podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... minhas irms, minhas irms... H qualquer coisa, que no sei o que , que vos no disse... qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vs e que h coisas que so apenas sonhosB"_       <              `    `   `          A#'y" PRIMEIRA (numa voz muito baixa) No sei que vos diga... No ouso olhar para as coisas... Esse sonho como continua?... B" ` `    A# ]d" SEGUNDA -No sei como era o resto... Mal sei como era o resto... Por que que haver mais? B"     A#$+" PRIMEIRA -E o que aconteceu depois?B"  A#@ " SEGUNDA -Depois? Depois de qu? Depois alguma coisa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... Sim, sim... s podia ter sido assim... Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e no estava l o marinheiro... B"  ` <    <  A#=D" TERCEIRA -Talvez tivesse regressado ptria... Mas a qual? B"`   A#OV" PRIMEIRA -Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sab-lo-ia algum? B"      A#DK" SEGUNDA -Porque que mo perguntais? H resposta para alguma coisa?B"`   A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#&u|" TERCEIRA -Ser absolutamente necessrio, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha? B"     A#<C" SEGUNDA -No, minha irm; nada absolutamente necessrio. B"    A#*1" PRIMEIRA -Ao menos, como acabou o sonho? B"` @ A#%" SEGUNDA -No acabou... No sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o no continuo sonhando, se o no sonho sem o saber, se o sonh-lo no esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?... No me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que no sei o que ... Avanam para mim, por uma noite que no esta, os passos de um horror que desconheo... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele sem dvida mais real do que Deus permite... No estejais silenciosas. Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, comea a ir ser dia... Vede: vai haver o dia real... Paremos... No pensemos mais... No tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que est no fim dela?.. Tudo isto, minhas irms, passou-se na noite... No falemos mais disto, nem a ns prprias... humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.B"]  `  <                < `         `       A#T/6 " TERCEIRA -Foi-me to belo escutar-vos... No digais que no... Bem sei que no valeu a pena... por isso que o achei belo... No foi por isso, mas deixai que eu o diga... De resto, a msica da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez s por ser msica, descontente...B"           A#D " SEGUNDA -Tudo deixa descontente, minha irm... Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo... De eterno e belo h apenas o sonho... Por que estamos ns falando ainda?... B"         A#\c" PRIMEIRA -No sei... (olhando para o caixo, em voz mais baixa)... Por que que se morre? B"     A#/6" SEGUNDA -Talvez por no se sonhar bastante... B"  A#(" PRIMEIRA - possvel... No valeria ento a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?... B"   <   A#18" SEGUNDA - No, minha irm, nada vale a pena ... B"  A#J  " TERCEIRA -Minhas irms, j dia... Vede, a linha dos montes maravilha-se... Por que no choramos ns?...Aquela que finge estar ali era bela, e nova como ns, e sonhava tambm... Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?... B" `  @   `   ` A#Za" PRIMEIRA -Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e j sabe para que servem os sonhos...B"   <  D A# " B" A# " (uma pausa)B"  A# " B" A#9" SEGUNDA -Talvez nada disto seja verdade... Todo este silncio e esta morta, e este dia que comea no so talvez seno um sonho... Olhai bem para tudo isto... Parece-vos que pertence vida?...B"      < A#," PRIMEIRA -No sei. No sei como se da vida... Ah, como vs estais parada! E os vossos olhos so tristes, parece que o esto inutilmente... B"  <    A#W;B " SEGUNDA -No vale a pena estar triste de outra maneira... No desejais que nos calemos? to estranho estar a viver... Tudo o que acontece inacreditvel, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo... Vede, o cu j verde. O horizonte sorri ouro... Sinto que me ardem os olhos de eu ter pensado em chorar... B"`          `  A#-4" PRIMEIRA -Chorastes, com efeito, minha irm.B"`  A#F " SEGUNDA -Talvez... No importa... Que frio este? O que isto?...Ah, agora... agora!...Dizei-me isto... Dizei-me uma coisa ainda... Por que no ser a nica coisa real nisto tudo o marinheiro, e ns e tudo isto aqui apenas um sonho dele?...B"     ` <   A#" PRIMEIRA -No faleis mais, no faleis mais... Isso to estranho que deve ser verdade... No continueis... O que eis dizer no sei o que , mas deve ser demais para a alma o poder ouvir... Tenho medo do que no chegastes a dizer... Vede, vede, dia j... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes s no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola... No penseis, no olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se medida que se coloram... Se nada existisse, minhas irms?...Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?...Por que olhastes assim?...B"?         `                D A# " B" A#:A" (No lhe respondem. E ningum olhara de nenhuma maneira.)B"  A# " B" A#  '" A MESMA Que foi isso que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, j no tenha tanto medo como dantes... No, no... No digais nada... No vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me no deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devamos j ter acabado de falar... H tempo j que a nossa conversa perdeu o sentido... O que entre ns que nos faz falar prolonga-se demasiadamente... H mais presenas aqui do que as nossas almas... O dia devia ter j raiado... Deviam j ter acordado... Tarda qualquer coisa... Tarda tudo... O que que se est dando nas coisas de acordo com o nosso horror?... Ah, no me abandoneis... falai comigo, falai comigo... falai ao mesmo tempo do que eu para no deixardes sozinha a minha voz... Tenho menos medo minha voz do que ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando...B"b   <            `   <     `  ` <             h A#W^" TERCEIRA -Que voz essa com que falais?... de outra... Vem de uma espcie de longeB"   A#" PRIMEIRA -No sei... No me lembreis isso... Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo... Mas j no sei como que se fala... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo, tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes... Comeo a sentir que o esqueo, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles...B"0     <     < `   <     h A#acj " TERCEIRA (para a SEGUNDA) Minha irm, no nos deveis ter contado esta histria. Agora estranho-me viva com mais horror. Contveis e eu tanto me distraa que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que vs, e a vossa voz, e o sentido do que dizeis eram trs entes diferentes, como trs criaturas que falam e andam. B"!         < <   A#F " SEGUNDA -So realmente trs entes diferentes, com vida prpria e real. Deus talvez saiba porqu... Ah, mas por que que falamos? Quem que nos faz continuar falando? Por que falo eu sem querer falar? Por que que j no reparamos que dia?... B"        ` A#" PRIMEIRA -Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas j no sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que algum possa agora bater quela porta. Por que no bate algum porta? Seria impossvel e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que que tenho medo... Que estranha que me sinto!...Parece-me j no ter a minha voz... Parte de mim adormeceu e ficou a ver... O meu pavor cresceu, mas eu j no sei senti-lo... J no sei em que parte da alma que se sente... Puseram ao meu sentimento do corpo uma mortalha de chumbo... Para que foi que nos contastes a vossa histria? B"A         `  <               h A#M " SEGUNDA -J no me lembro... J mal me lembro que a contei... Parece ter sido j h tanto tempo!...Que sono, que sono absorve o meu modo de olhar para as coisas!...O que que ns queremos fazer? O que que ns temos ideia de fazer? J no sei se falar ou no falar... B"          A#z" PRIMEIRA -No falemos mais. Por mim, cansa-me o esforo que fazeis para falar... Di-me o intervalo que h entre o que pensais e o que dizeis... A minha conscincia bia tona da sonolncia apavorada dos meus sentidos pela minha pele... No sei o que isto, mas o que sinto... Preciso dizer frases confusas, um pouco longas, que custem a dizer... No sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? B"+  `       <       @ A#4" SEGUNDA -No sinto nada... Sinto as minhas sensaes como uma coisa que se sente... Quem que eu estou sendo?... Quem que est falando com a minha voz?... Ah, escutai...B"       A#&" PRIMEIRA e TERCEIRA -Quem foi?B"  A#w" SEGUNDA -Nada. No ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vs supussseis que ouveis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir... Oh, que horror, que horror ntimo nos desata a voz da alma, e as sensaes dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em ns pede o silncio e o dia e a inconscincia da vida... Quem a quinta pessoa neste quarto que estende o brao e nos interrompe sempre que vamos a sentir? B"+<       `    ` < <     A#y" PRIMEIRA -Para que tentar apavorar-me? No cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que mos pega e mos vela. Pesam-me as plpebras a todas as minhas sensaes. Prende-se a lngua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas s outras as ideias de todos os meus gestos. Por que foi que olhastes assim?... B"+         <        h A#acj " TERCEIRA (uma voz muito lenta e apagada) -Ah, agora, agora... Sim, acordou algum... H gente que acorda... Quando entra algum tudo isto acabar... At l faamos por crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo... dia j... Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irm, que s vs sois feliz, porque acreditais no sonho...B"!             A#PW" SEGUNDA -Por que que mo perguntais? Por que eu o disse? No, no acredito... B" `  A# " B" A#AH" Um galo canta. A luz, como que subitamente, aumenta. As trs ve-B"    A#BI" ladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras. B"    A#>E" No muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia. B"`   A# " B"