{\pwi, TahomaCourier New/=  =@ccFr###########"##### ##########g# #'##5#C#)##9# #N# # #{##]#4#W#o#V#\# ### 2# # #.####|#<#~##$# ####9#/#<##$# ##D#E#@#?#s#v# $#0# ##S### #g#######&##,##W###\############# ## P#/##F#i## ##*##4#i#<##u##m##1####K# ##'# T#[##!##### ####### ###### #3# ##o#K#$#2#+####W##H#>####R####_##E#t#x#o### #&### ### ####&# ### #j# # #`##M#C##n#(#m##W# #<##8##2# V##,#0#{##O##:# ## E###A#A##!##1## a##### #####/# # (#!|#!##C###(##u# 4# ##F#4#B###3### ### #####&#.## ### #j#(###f# ##<#D#3##c###W# ###J#,#-#"## K##X###c#############9#;@#?o# #h #=v############A#" O Mar No tem CancelasB" A# " B" A#&" Joaquim Pedro Celestino SoaresB"<  A# " B" A#@" A publicao de A Fragata Prola, A Presa, O Combate, Naufrgio e O Mar No tem Cancelas, extrados do livro Quadros, Navais (edio do Ministrio da Marinha), foi gentilmente autorizada pela Comisso Cultural de MarinhaB"        A# " B" A#$" 1997, Parque EXPO 98. S.A.B" A# " B" A# " ISBN 972-8396-22-8B" A# " Lisboa, Setembro de 1997B"` A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " O MAR NO TEMB" A# " CANCELASB"  A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " A FRAGATA PROLAB"@ A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#bgn" Nos ltimos dias de Dezembro de 1820, recolhia-se a fragata Prola de ter com boiado vrios navios ao sul das ilhas de Cabo Verde, por causa dos corsrios e ter feito longo cruzeiro nos Aores e costa de Portugal, deixando de prosseguir na caa corveta Herona, que era de muito melhor p e tinha entrado para o estreito depois de disparados alguns tiros. B"#      `    `    A#J  " Fez-se o ponto, achava-se a fragata 14 milhas ao su-sudoeste da Roca; todos esperavam ter o ferro no fundo antes da noite, defronte de Belm. O vento era sul a su-sueste , levantando-se barras grossas do sudoeste a oeste. Dera o gajeiro parte de navio ao sul. B"   `        A#'." - da gvea, j vs que embarcao ? B"<  A#%" -Sim, senhor; brigue-escuna. B" A#5<" Subiram alguns oficiais acima das peas e disseram: B"  A#CJ" -Ei-la ali, estava cosida com a terra do cabo e vai agora no mar. B"    A#)0" -Que horas so? -pergunta o comandante. B"   A#" - mais de uma hora. B" A#9@" -Atravesse a gvea: esperemos um pouco a ver o que faz. B"  A#H " Pusemos a gvea sobre e o navio, depois de ir no mesmo bordo coisa de dez minutos, virou, botando em cheio para ns; tendo navegado quase outros dez, ao que pareceu para nos reconhecer, tornou a virar e meteu de l, cingindo o vento no bordo do sudoeste.B"         A#NU" -Ser aquilo algum corsrio? -disse o comandante para o capito-de-fragata . B"   A#G " -Ser -respondeu este -, mas que se lhe h-de fazer nestas alturas? Acabmos o nosso cruzeiro, temos apenas mantimentos para quinze dias a meia rao, Inverno, daqui a bocado noite, e o tempo mostra a uma carranca do oeste que no para graas. B"     `   <   A#C " -Mostre o que mostrar -replicou o primeiro -, se ainda hoje ou amanh aquele navio fizer alguma presa, que diro de ns em Lisboa? Porque no entra? Que anda fazendo com aqueles bordos? suspeito e devemos desenganar-nos. Ala braos. B"    <     A#'{" Havia refrescado o vento de maneira que, quando a fragata ps no outro bordo e orou, custava-lhe a aguentar os joanetes. B"      h A#," -Amura a vela grande, caa a draiva; manda meter a artilharia de sotavento dentro para a fragata se adriar melhor: obras de joanetes na mo. B"  < ` ` d A# ]d" A fragata levava-se bem, mas ia com os batentes das portas e a abatocadura debaixo de gua. B"     A#4;" -Marinheiro do leme, olha para o pano, no toques. B"  A#W^" Teramos andado obra de 5 a 6 milhas, rompeu a trovoada fortssima, forrando-se tudo. B"   A#$ov" -Arria joanetes, carrega, abafa; carrega a vela r, chega para o estingue grande, punho de sotavento em cima. B"     A#V]" A fragata no podia mais, porque a trovoada tinha crescido e o vento era fortssimo. B"  <    A#\c" -Arria a bujarrona, carrega a vela grande; arria gveas, mete a gata dentro, mestre Leite. B"     A# " -Senhor! B" D A#" -Gveas aos segundos. B" A#5" Foi a arriar-se a bujarrona, mas fez-se em tiras; o vento calou duro, muito duro, travessia do oeste a os-noroeste, com aguaceiros de pedra, sem se ver mais navio, nem terra. B"  <     A#U29 " -O tenente da tropa que atraque a artilharia a ficar com peitos de morte, meta os culos e pregue travesses, isto j. Mestre Leite, em acabando de rizar, bote abaixo as vergas dos joanetes e acachape os mastarus, que no fiquem muito arriados para poder iar as gveas: vamos, antes que chegue a noite. B"<     <       A#K  " O gajeiro de proa, que tinha ido para o lais do velacho, arrebenta-lhe o impunidoiro, cai com a cabea em cima do ferro de BB, deixa os miolos e foi-se pela borda fora: a gata desferra-se e atira com o gajeiro entre as bitculas: no deu um ai e ficou para sempre. B"           A#M " Deram seis ampulhetas, no se via nada; o comandante desce do degrau, enfurna pela escada da meia-laranja, o imediato, Silveira da Mota, fica ao catavento e a fragata vai seguindo bastante em duas gveas arriadas e traquete, fazendo proa do norte. Chega o cabo do quarto. B"  <        A#.5" -Senhores oficiais cmara, fique o piloto. B" @ A#<" Estava o comandante com a carta em cima da mesa, o criado Manuel Domingues segurando uma das suas pontas e um castial, e o comandante com outro na mo; assim que entrmos, retirou-se o criado e ele disse: B" ` <      A#" - quase noite, no se descobre a terra, menos se vero faris, no se pode cometer a barra, precisamos aguentar-nos fora at pela manh; ao meio-dia demorava a Roca ao nor-noroeste, catorze milhas, andaramos trs a s-sueste, estivemos de gvea sobre meia hora, fomos outra meia no mar andando quatro milhas, temos gasto meia hora em rizar, botar vergas dos joanetes abaixo e arriar mastarus, tendo cado agora e o tempo que estivemos atravessados talvez trs milhas, o que, tudo somado, d pouco mais ou menos a mesma posio do meio-dia: o vento de rajadas, entre oeste e os-noroeste, seguindo neste bordo com bastante pano, podemos montar a Roca; no outro bordo perdemos em virar em roda, variao e abatimento, vamos ficar ensacados, digam a sua opinio. B"I             `  < `  `    `       D A#(" Ouviram-se todos e concordaram em seguir com a mesma amura; e se o vento escasseasse depois, encalharamos na Praia das Mas. B"      A#'|" -Bem, tudo para cima: Senhor Silveira , mande pregar os encerados nas escotilhas; sirvam-se pela escada da praa de armas. B"    ` @ A#<C" Subiram todos, o comandante foi para o catavento e mandou: B"    A#(~" -A seus postos, quatro marinheiros para o leme, chega para as adrias, ia gveas; amura a vela grande; chega para a escota. B"  `    A# " Diz o imediato: B"@ A#$+" -A fragata no pode com esse pano. B"  A#Q#* " -H-de poder -replicou aquele , o mar grosso e sem a vela grande no se aguenta o navio para barlavento, no podemos desprezar um dcimo; s sete horas devemos estar livres de perigo ou encalhados; caa; um oficial superior para a escota e o estingue na mo para carregar se for preciso.B"           A#r" Tudo assim se fez, sem ningum dar palavra. Logo que acabou de caar-se a vela grande, a fragata veio para o l, adernando toda e metendo a trincheira de estibordo debaixo de gua: chaleiras de balas, cabos e gente que no estava agarrada, tudo caiu a sotavento; um mar embarcou pela amura e levou a trincheira, algumas balas rolando pela tolda e castelo caem ao convs , partem pernas e braos a soldados e marinheiros. B"(             <   A# " -Homem ao mar! B" A#9@" No se lhe pde acudir, ningum se largou donde estava. B"< <   A#/6" Quando passou a refrega, chamou o comandante. B"`  A#<C" -Todo o mundo para barlavento; bote a barca; quanto deita? B"   A# " -Sete milhas. B" A#$+" -Veja bem, torne a deitar; quanto? B"   A# '" -Sete milhas e quatro dcimos. B"  D A# " -Abate muito? B" A#DK" -No senhor, fica a esteira pela alheta, no chega quarta e meia.B" `  A#EL" -Andar assim; s sete devemos ter montado a Roca: onde est a proa? B"    A#@G" -Norte quarta do noroeste, com a rajada chega quarta e meia. B"   A#?F" -No preciso grivar, deixe-a seguir, sem arribar da quarta. B"    A#%sz" Andmos assim at tocarem seis ampulhetas, cavalgando as ondas de uma banda outra da fragata; diz o comandante: B"     A#&v}" -A Roca j fica pela popa, falta a Berlenga, se o vento no escassear, havemos diminuir de pano antes da meia-noite. B"       A#Q$+ " Neste momento veio outra onda imensa que fez adornar a fragata, at assentar a trincheira da tolda na gua; quando adriou ouviu-se um forte estico; era o escaler dos turcos de estibordo, que, enchendo-se dela, tinha arrebentado talhas e funda e l ia pelo mar fora. Grita o homem do leme: B" ` <     <    A#07" -O leme d muita fora, a roda no quer andar! B"  A# " -Que dizes? B"  A#" -O leme est parado. B" A#SZ" -Senhor Silveira, v l abaixo com o mestre e um carpinteiro ver o que tem o leme.B" < `   A# " Chega o calafate e diz: B"` A#!" -H muita gua na bomba. B" A#D " -Isso no nada -responde o comandante, sempre senhor de si -, temos as amarras talingadas e gua que entra pelos escovns e bateria, vai do convs coberta e talvez ao poro: toque bomba, se no bastarem duas, toque a todas quatro. B"         A#"gn" Voltou o capito-tenente Silveira, dizendo que o leme no girava e parecia muito afastado do cadaste. B" `    A#0" -Dem talhas cabea e atraquem-no para vante: vo governando assim, pondo gente que acuse a voz do piloto, para andar com o leme a bombordo ou estibordo. B"<    < < A#:" Esta situao era na verdade horrvel, no devamos estar meia milha longe da terra e se a fragata ficasse sem governo ia de encontro s pedras, sem esperana de salvao para ningum. Davam oito. B"   `  `   A# " -Onde est a proa? B" A#&" -Nor-noroeste por barlavento. B" A# " -Ento j oeste? B" A# " -Sim, senhor. B" A#&-" -Andar assim, folgado. Bote a barca. B"  A# " -Oito milhas. B" A#,3" -Bem, daqui a bocado poderemos desvelejar. B"  A#" As refregas e a pedra que chovia no deixavam olhar para o horizonte, mas os relmpagos e a enxofria do escarcu que alagava a fragata bem nos mostrava a curvatura dos mastros e dos mastarus todos a sotavento. Nesta ocasio vem uma serra de gua que alagou o navio todo, o qual adormeceu por mais de um minuto, cai-lhe a maior refrega que ainda no tnhamos sentido, arrebenta o brao do traquete, parte-se a verga de encontro ao estai e fica pendurada pelos laises nos punhos do velacho. Com esta falta de pano proa a fragata adriou, mas vindo a vento, caiu a r e deu uma culapada que julgmos ir logo a pique, embarcando o mar por todas as bandas.B"<  `                     @ A#W^" -Carrega a vela grande, arria gveas, ia a vela de estai do traquete contro, contro. B"   A#+" Tudo assim se fez, a fragata arribou e tornou a seguir; deram seis ampulhetas, tnhamos andado 53 milhas, estvamos ao norte da Berlenga! B"      h A#p" Passados onze dias entrou a fragata em Lisboa com trs homens de menos, perdidos naquela noite; alguns com pernas, outros com braos quebrados e toda a gente com cara de fome, tendo andado a um quarto de rao e um quartilho de gua, depois de suportar uma tormenta que lhe fez partir todos os machos do leme, menos o ltimo de baixo, a verga do traquete, um escaler de menos, as trincheiras e quase todo o pano.B"(       <    <  <   A#_\c" O comandante dela era o Sr. Manuel de Vasconcelos, todos os seus oficiais eram soldados e discpulos da Academia, menos um, que, faltando-lhe o curso matemtico, tinha muita prtica e havia entrado de criana para a Marinha, seguindo com honra os postos desde sargento-de-mar-e-guerra at primeiro-tenente; este oficial era o bom camarada Frana. B"&   ` `  <  <        A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " A PRESAB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# '" Pela tarde do dia 19 de Setembro de 1820, navegava a escuna Maria Teresa, a sotavento da fragata Unio, na costa de Angola, em procura de uns corsrios que haviam apresado diferentes navios do comrcio, roubando outros e posto em consternao os povos daquela provncia, sendo o mais temvel e afamado deles um brigue de vinte peas, bem tripulado e veleiro. O vento assoprava bonanoso, a fragata menos andadora do que a escuna, ia ficando a r e o comandante desta, para no passar a proa do outro mais antigo, mandara atravessar o velacho. B"5<        d  <           D A#" Era isto perto da baa de Luango, onde, por prtica havida com o Mafuca em Cabinda, constava achar-se o brigue pirata. O vento foi enfraquecendo e j quase que nem levantava o catavento de penas. Fez a fragata sinal de fora de vela escuna, o comandante mandou marear o velacho, largar joanete e gafe de tope e iar a giba, seguindo em demanda do ancoradouro; perto do pr do Sol. pde descobri-lo, at que ao anoitecer deu vista de embarcao nele surta, que parecia brigue. A fragata fundeara desgovernada e a escuna que era navio fino, com as bafagens, tinha avanado obra de 12 a 15 milhas, at que de todo elas morreram, fundeando tambm para no se sotaventar. B"?                     `   ` A#\PW " Estava calma podre, o cu leve, o mar estanhado; rendeu-se o quarto, puseram-se vigias dobradas e toda a gente ficou em cima, cobrindo-se as armas por causa da cacimba. Correram quatro ampulhetas sem toque de sino, ou grita de alerta, conversando o comandante mansamente com o oficial acerca da embarcao suspeita, quando este diz: B"!     `    <    A#/6" -Parece-me que ouo a modo de bater de remos! B" @ A#2" -Isso sonho -responde o primeiro -, estamos doze a quinze milhas da fragata e talvez mais da terra, mas o que for soar, escutemos; de que lado pareceu que remavam? B"      A#FM" -Do lado da terra, na direco donde ao anoitecer marcmos o brigue. B"   A##ip" Chegaram-se para a trincheira e com efeito ouviram muito ao longe a bulha compassada dos remos na gua. B"     A#6" -Acima gente, acima -diz o comandante -, silncio, pega em armas, presto, leva rumor, no quero ouvir ningum, prolonga pela amurada, escorva, e tudo esteja pronto primeira voz. B"   `   @ A#@ " Escutaram de novo, o bater dos remos foi-se percebendo melhor, at que finalmente se enxergou o vulto negro da embarcao. Ouviu-se o sussurro de vozes, cessando a boga, e imediatamente perguntarem pela buzina em ingls: B"          A# " - do navio! B" A#*1" -Que dir? -responderam na mesma lngua. B"  A# " -Que navio esse? B" A#4;" -Uma escuna de guerra inglesa; que escaler esse? B"  A##ip" -Do brigue espanhol que est fundeado terra; que embarcaes so aquelas que fundearam antes da noite?B"     A#<C" -So da conserva desta escuna: venha a bordo esse escaler. B"   D A#" Bateu remos, endireitou para a escuna, prolongou-se com o portal, subiu uma pessoa que conduziram cmara; e no entanto saltam dez ou doze homens ao escaler, apoderam-se dele e fazem subir a sua guarnio surpreendida. Era gente e embarcao do brigue, que com o seu primeiro piloto vinham no se sabe se roubar a escuna, julgando-a mercante, ou tomar lngua, supondo-a inglesa: o certo foi que os prisioneiros puseram-se a bom recato e os portugueses dispondo-se para combater logo que pudessem. B"0      `     <     <   A#&u|" Antes do raiar da aurora, comeou a sentir-se uma aragem de oeste a os-sudoeste; assim que calou diz o comandante: B"  < d   A#2" -Mestre! Vamos a suspender, nada de apito e acusem as vozes devagar: chega para as barras, vamos, vira de longo, pouca bulha, que logo teremos ocasio de falar alto. B"     < A#$mt" Comearam a virar ao cabrestante, sentindo-se apenas o baque dos linguetes, at que o mestre disse da proa: B"  `    A# " -Est a pique!B" A#18" O comandante sobe ao degrau de estibordo e diz: B"  A#6" -Caa o velacho, ia a vela grande, ia a bujarrona, larga as carregadeiras do traquete; ala traquete e velacho a estibordo, ia bem a pique; volta; vira ao cabrestante, de longo. B" `  `  < < A#4" Ps-se o ferro em cima, a escuna fez cabea e foi puxando para o l quanto lhe dava o vento, fazendo proa do sul, quarta do sueste, onde lhe demorava o brigue ao anoitecer. B" <    `   A#" Despontou o sol claro e viu-se ento o pirata, que estava envergando a vela grande; logo que concluiu esta faina, caou gveas e joanetes que tinha iadas, largou a amarrao numa lancha que tinha borda e deitou em cheio para a escuna, forcejando at com as velas de entre mastros, para travar combate antes que a fragata pudesse proteg-la. Pelas nove horas achava-se fala, porm a barlavento, pois navegava largo e a escuna de bolina. Um homem de casaca, em p na trincheira, diz com grande arrogncia:B"0<  `    <         <    A#KR" -Mande-me j o escaler para bordo e o meu oficial, seno meto-o no fundo. B"  d A#A " Esta ameaa foi seguida de injrias, mostrando os morres acesos e muita gente de taifa, arribando, logo aps, como que para abordar a escuna. O comandante desta evitou o golpe, acenando ao homem do leme que orasse e dizendo:B"          A# " -Fogo! B" A#'." Toda a artilharia se disparou a um tempo e a escuna ps no outro bordo. Do brigue responderam igualmente e mais uma descarga de fuzilaria, porm o seu fogo no produziu o efeito que era de esperar, achando-se a escuna j em direco oblqua, ao mesmo tempo que todos os tiros dela fizeram grande estrago ao inimigo, que tinha cometido o erro de comear a aco com todo o seu pano largo. Muitos cabos se lhe cortaram, braos e estingues, principalmente os do traquete, que ficou empandeirado, fazendo porm muito fogo em grande desordem e alarido. O comandante da escuna, aproveitando-se daquele descuido, deixou-se ficar um pouco a r do brigue, e da o bateu a ponto de que, s dez horas, ele arriou a sua bandeira espanhola, em consequncia dos muitos feridos e grande avaria que j tinha na mastreao.B"K                    <           A#]T[ " Cessara o fogo da escuna, tambm maltratada e com dezasseis feridos, comeando a saltar gente ao escaler apresado para se apoderar do brigue, quando este, tendo-a pelo travs, ia novamente a bandeira e rompe num fogo vivssimo. A esta traio inesperada os portugueses enfurecem-se, o comandante manobra oportunamente e d a voz de fogo. B"! <            A#[b" -Fogo alto ao arvoredo; ala traquete e velacho, larga as espingardas, firma as pontarias. B"      A#" Os tiros empregam-se todos, de parte a parte havia a mesma vontade, porm a escuna ganhara melhor posio, e to bem tudo se executou que o pirata, desesperando do sucesso, procurou encalhar. O comandante evita-lhe a fuga, seguindo com a escuna e atravessando-lha na proa, donde, descarregando toda a sua artilharia, o tratou de maneira que lhe caram as gveas sobre as pegas, faltas de adrias e rompendo-lhe o pano todo. Ento o pirata arriou a bandeira e amainou a bujarrona e joanetes. B"- `    <   <          A#!(" s onze e meia os portugueses, vitoriosos, tomavam posse de um belo e grande brigue, armado com vinte peas de 12, tripulado com uma valente e numerosa companha de setenta pessoas de todas as naes; cheio de riquezas, com trinta e sete mil duros de prata e muito ouro, conseguindo-se este feito com uma escuna artilhada apenas com catorze caronadas de 12 e sessenta e cinco praas de guarnio; devido isto no s ao valor dos nossos marinheiros e soldados se no inteligncia e percia do seu comandante. o Sr. Isidoro Francisco Guimares. B"5d `               ` d    A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " O COMBATEB" D A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#)" Tinha-se acabado de observar o Sol, o tempo estava claro, o geral fraco, ns com todo o pano de bolina, andando 3 milhas e meia. B"      A# " Grita o gajeiro grande: B"` A# " -Navio! B"  A# " -Por onde diz? B" A#"" -Pela alheta de bombordo. B" A#0" Deu-se parte ao comandante, que estava pondo o ponto na carta, o qual pouco depois subiu ao tombadilho, correu com a vista o horizonte e falou para a gvea: B"      A##" -Onde demora a embarcao? B" A# " -Na alheta de bombordo. B"` A# " -Como vai? B"  A#3:" -V-se pela proa, vem como ns e j se v melhor. B" < A#A " s duas tinha entrado bastante, porque do tombadilho se lhe descobriam as gveas, que eram de navio grande. Foi-se aproximando, tocaram seis ampulhetas, o oficial do quarto subiu s arreigadas da gata e diz para o comandante: B"         A# " -Parece-me um fragato! B"` A#$ov" O comandante subiu dois ou trs enfrechates, ps o culo cara, esteve coisa de cinco minutos, desceu e diz: B"    < A#KR" - fragata, anda bem, ao pr do Sol est connosco; mande apressar a ceia. B"  d A#$+" O oficial voltou para o catavento: B"<   A#29" -Ronda! Chamar o cozinheiro; como vamos de ceia? B"  A#+2" -Falta pouco, daqui a bocado pode-se dar. B"  A# " Tocaram sete. B" A#$" -Mestre apite a rancheiros. B" A# " Distribuiu-se. B" A#W^" -De longo -diz o oficial -que h outras fainas entre mos; vamos, mexer os queixos. B"   A#-" s quatro horas j do tombadilho se via bem o casco da fragata. ela orou. mostrando bandeira inglesa. firmada com plvora seca. Diz o oficial: B"       A#HO" - inglesa. estava visto. aquele pano. aquele andar; e quer falar-nos. B"  @ A#>E" Responde o comandante. assim com uma espcie de reticncias: B"   A#0" - inglesa .... e quer falar-nos! ... Ice l a bandeira e firme-a com bala -e para o homem do leme: -Cheio mais. anda uma quarta largo do vento; aonde est? B" <  `   A#%" -Ao sul. quarta do sudoeste. B" A#" -Anda ao su-sudoeste. B" A#RY" Passeou duas ou trs vezes at grinalda e na ltima diz ao ouvido do imediato: B"   A#:" -Senhor Silva , desa cmara e veja aquele saco de ofcios. amarre-lhe bem a boca. meta-lhe dentro duas balas e mande-mo pr ao p do cata vento -e para o oficial de quarto: -Mande tocar a postos. B"<         A#0" O capito-tenente no tardou muito j fardado. seguido do marinheiro que trazia o saco. entregou-o ao comandante. que o ps junto do degrau; e este diz-lhe:B"       A#&" -Fique aqui, que eu j venho. B" A# _f" Desceu, voltando dentro de cinco ou seis minutos com os seus melhores uniformes, dizendo-lhe: B"   `  A#+" -Hoje temos funo, devemos vestir-nos de gala; parece-me que o senhor Silva tinha tempo de se arranjar melhor, se o ba estivesse mo. B"   `   A#EL" -Est, sim, senhor, e como h tempo, sempre envergarei outra farda. B" `  A#%t{" -Faz bem, que elas no so para outra coisa, e hoje parece-me que isto vai a valer; Senhor Lacerda , faa o mesmo. B"  ` `   D A#fx" O Sol ia a mergulhar-se, o capito-tenente a desembocar da meia-laranja para o convs, quando uma bala de 18 arromba o tombadilho, vai partir a braola da escotilha grande e quebra uma perna ao chefe da ltima pea de vante. Era da fragata que, achando-se a alcance, arriou a bandeira que trazia, iou a francesa, dando fogo ao cachorro de proa e mais a duas peas da amura. B"#       <    <   A#$ov" -Ento era inglesa? -diz o comandante para o tenente Lacerda. -Aquele pano, aquele andar; e queria falar-nos?!B"     A# " Responde este: B" A# " -Parecia-me ... B"@ A#I " -E a mim no: da gvea de proa, bota o cutelo fora; mestre, vamos tambm com a barredoira e cutelos dos joanetes, ala seco, e gata a estibordo, grande e gvea a bombordo, ala traquete e velacho; cheio mais, mais; assim, no passar do rumo para bombordo. B"   `   `    A#&-" Chegou-se para o imediato e diz-lhe: B"  D A#)" - preciso aproveitar o mximo andar da corveta, a fim de ver se lhe levamos alguma vantagem, que duvido; a fragata anda muito! B" <     A# " Responde este: B" A#K  " -Quem sabe se tambm com o vento pelo travs, como agora vamos, ser o mesmo; o pior a Lua, que se ela nascesse tarde, ou fosse a noite escura, poderamos escapar-lhe (olhando para a fragata); anda como um pssaro! Veja como entra, botando ns talvez sete milhas! B"    <     <   A#%" -Bote a barca; quanto deita? B" A# " -Sete e dois. B" A#O# " -Escorrega menos mal com o pouco vento que faz, porm aquela anda mais de nove; para navio grande bem fino! Mande distribuir uma praa de aguardente por cabea e outra tanta a numa tina com o dobro de gua, ao p do cabrestante, para matarem a sede: daqui a bocado est connosco. B"      ` <    h A#" Neste tempo outra bala da fragata cruza por entre os mastros, rompe o traquete e corta os patarrases do pau da bujarrona; e outra, e outra sem cessar, que cortam o estai grande e a vela no lais de bombordo, rompendo a barredoira. Passaram-se os dois cachorros para r, servindo de guarda-lemes, respondendo-se com eles ao inimigo, e botou-se mais em cheio; o Sol era posto havia bocado, a Lua cobriu-se e o vento acalmou de maneira que o pano batia de encontro ao arco, da gvea; o mar chico, quase estanhado, e a corveta apenas deitando 2 milhas. Da fragata oravam para fazerem fogo por brigadas, tornando a prosseguir a caa, pelo que algum tanto se demorava.B"<     `  <  <              ` A#<" Escureceu de todo, mas assim mesmo distinguia-se perfeitamente o inimigo, que navegava nas mesmas guas; seriam seis e meia estava na alheta, a menos de meio alcance; ento o comandante diz para a gente: B"     <   A#" -Ateno! Vamos entrar em combate, o inimigo grande, mas que fosse maior, no me metia medo: aquela bandeira que ali est (e apontou para o penol) portuguesa, num escaler que ela estivesse havamos de defend-la. O que recomendo, pois, silncio e nada de confuso; sei que ningum faltar ao seu dever, a bordo deste navio no conheo nenhum fraco, por isso, voz de fogo, disparar toda a artilharia e depois cada um trate de servil' bem a sua pea; o alvo grande, no se pode errar. Mestre, vamos a meter a barredoira e cutelos dentro, carregando tambm os papa-figos pancada; larga a bateria, ficando s os chefes de pea e porta-cartuchos; chega para os cabos, e ala de longo quando cantar o apito. B"A           <             ` < A#&-" O mestre apitou para a gvea grande. B"   A# " -Senhor? B" D A#" -Cutelo e pau dentro. B" A#" Apitou para a de proa. B"< A# " -Senhor? B" D A##jq" -Cutelos e pau dentro, uma: obras da barredoira, cabos da vela grande e do traquete; est tudo pronto. B"     A# " -Apite. B"  A#E " Apitou, carregou-se tudo como por encantamento, ficando a corveta em gveas e joanetes. Ento aproximou-se a fragata que, ao prolongar-se com a corveta a tiro de pistola, carregou papa-figos e joanetes, dizendo-se de seu bordo em espanhol: B"         A# `g" - da corveta, arria a tua bandeira, que esta fragata francesa e de quarenta e quatro peas. B"   `  A#$" O comandante respondeu-lhe: B" A#MT" -Esta corveta portuguesa, no arria a bandeira a ningum; arria tu a tua. B"   A#CJ" -Arria (dizem de l) que no te fao mal, seno meto-te no fundo. B"   A# " -No arrio: fogo! B" A#$nu" Toda a artilharia se disparou ao mesmo tempo, a corveta parece que saltou fora da gua, enchendo-se de fumo. B"     A#(/" -Fogo vontade, fogo, mas vivo, vivo. B"   A#mt" Com efeito era um nunca acabar; da fragata como que tardaram trs ou quatro minutos, porm rompeu com uma descarga geral, continuando o fogo por brigadas inteiras. Da corveta sustentava-se admiravelmente, sem grande prejuzo; porque, sendo pequena e rasa e a fragata alterosa, e estando alm disto a tocar-se com os lais das vergas, ficava ela debaixo da bateria, cujas pontarias salvavam a borda, no lhe ofendendo o casco e empregando-se toda a munio no arvoredo. De mais a mais, o fumo que se tinha condensado pelo pouco vento ou calma que reinava encobria a corveta, ocultando a sua verdadeira posio ao inimigo. B"<<  <    `  <  `              D A#?" Assim se bateram por espao de cinco quartos de hora que, sendo perto das oito, j os mastarus e vergas empachavam o convs, ficando toda desmantelada. O comandante, vendo diminuir o fogo, diz para o capito-tenente: B"       ` A#W^" -Senhor Silva, porque afrouxa o fogo? Essa brigada do portal est muito mal servida! B"  <   D A#E " -No pode estar melhor, senhor, venha ver; a vela grande, a gvea e cabos de joanete tudo aqui veio cair, que ningum capaz de mover uma pea e proa acontece o mesmo; a vontade no falta, ningum daqui arredou p, mas tudo est empachado. B"<         A#<C" -Esta boa, ento visto isso no pode jogar a artilharia? B"  A# " -No, senhor. B" A#8?" -Est bem, leva mo, chega tudo c para r; est tudo? B"  A# " -Sim, senhor! B" A#29" -Bem. Temos cumprido a nossa obrigao, enquanto B"  A#^V] " as peas puderam jogar, todos trabalharam, agora que o convs est empachado com o pano, cabos e vergas, nada se pode fazer; a nossa bandeira vai arriar-se, porm creio que isso nos no causar vergonha: agradeo guarnio e mais camaradas o modo por que se conduziram; assim era de esperar de portugueses. Senhor Silva, arrie a bandeira. B"! `     `    <   A#" Da fragata falaram: B" A#,3" -Venha a bordo o escaler com o comandante. B"  A#07" -No possvel porque todos esto arrombados. B"  A#g{" Demorou-se algum tempo, vindo por fim um da fragata com o seu imediato para capito de presa, o qual para entrar o portal se demorou bastante, sendo mister acabar de cortar a vela grande que o cobria. Embarcou o comandante e oficiais subiram para a fragata; e quando, ao entrar na tolda, aquele foi entregar a espada ao comandante inimigo, este, oferecendo-lhe a mo, diz-lhe: B"#       < <     @ A#+" -Um oficial que se bate com tanta honra no deve largar a espada; sois um valente e hbil marinheiro, vinde comigo e o vosso estado-maior. B"   < @  A#OV" Conduziu-os cmara, e ali, dirigindo-se a toda a sua oficialidade, diz-lhe: B"  < A#:" -Convido-vos a beber um copo de moscatel sade deste bravo comandante e de toda a sua intrpida guarnio; confessai que nenhum de vs, nem eu, espervamos de navio to pequeno tamanha temeridade. B"   `      A#:A" Beberam todos, e ele, pegando noutra garrafa, continuou: B"  A#P ' " -Quem visse uma corveta ao p de uma fragata no daria nada por ela; porm, depois de presenciar o combate que sustentou, honrar-se-ia da aco; por isso que de novo vos convido a beber um copo de Madeira sade do soberano que governa o pas cujos cidados o sabem defender to bem. B"   `        A#," O comandante da corveta, pedindo licena para agradecer, bebeu e repetiu o brinde pela glria das armas francesas e concluso de paz geral. B"`      A#ZEL " Ao amanhecer, via-se a corveta apenas em paus reais, como um bote, ao p da fragata, com todo o seu pano e aparelho por cima da borda arrombada, ou de rojo na gua, admirando-se todos de no ter ido a pique. Formou-se a guarnio, amarraram dezasseis marinheiros e soldados s culatras das peas, dizendo-lhes o comandante: B"!     `        A#)" -Vo ser castigados na presena dos seus inimigos para maior vergonha; so uns cobardes. E virando-se para o comandante da corveta:B"      A#8" -No so franceses, nem quero saber a sua ptria; estes vis abandonaram a bateria primeira banda com que vs respondestes minha intimao; fogo, e rijo, que lhes rasguem bem as carnes. B"  <     A#AH" Cada um levou cem aoites, depois do que disse aos portugueses: B" <  A#AH" -Na verdade, ningum esperava semelhante arrojo da vossa parte! B"   A#6" -Era minha obrigao -responde o comandante. Os nossos artigos de guerra mandam que a bandeira no se arrie seno na ltima extremidade, e o caso extremo s chegou uma hora depois. B"  `     A#!(" -Mas se eu vos metesse a pique? B"`  A#"" -L estava a posteridade. B" A#18" Recolheu-se cmara com o estado-maior, fez conselho acerca da sorte da corveta, havendo opinies de a meter no fundo, ou queim-la, sendo impossvel dar-lhe um destino conveniente; porm, ocorreu a ideia de que, indo a fragata de cabos adentro, tamanho acrscimo de gente causaria embarao na longa viagem, por falta de mantimentos. Portanto, concluram por tirar-lhe as armas e apetrechos, entregando-a guarnio se quisesse capitular, prometendo no pegar em armas contra a Frana at ser trocada, ou concluso da paz. Isto proposto e aceite, passaram os franceses a bordo da corveta, lanaram-lhe a artilharia ao mar, recolhendo na fragata bandeiras, plvora, armas, munies, cartas, instrumentos blicos e nuticos, deixando apenas uma s bandeira, uma agulha e um oitante de pau para procurarem a terra. B"N            `     <    < <         A#" Duas semanas depois entrava na Baa um pequeno navio de trs mastros, em guindolas, cheio de rombos, sem artilharia, mas de flmula, surgindo no ancoradouro dos navios de guerra, com geral espanto dos martimos daquela cidade! Era a corveta Andorinha, de vinte e quatro caronadas de 18, e cento e vinte praas de guarnio, cujo comandante, o intrpido Incio da Costa Quintela, tinha tido a audcia de a expor por espao de cinco quartos de hora ao fogo da fragata francesa Chiffone, de 44; e que, batendo-se denodadamente com foras to disparatadas, soube conservar a honra da sua bandeira, posto que arriando-a na presena do inimigo, no dia 19 de Maio de 1801. B"?                     ` <   A#aah " Decorreram trs dcadas, e um pequeno navio de trs mastros e vinte e seis caronadas, com todo o seu pano e artilharia, e tambm de flmula, mas no a topetar, foi surgir perto dos navios de guerra em Brest ... Era a corveta Urania, que, encontrando-se com uma fragata francesa perto dos Aores, arriou a sua bandeira sem disparar um tiro!! ... 1831 . B"!             A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " NAUFRGIOB" D A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#E/" No dia 4 de Abril de 1807 cruzava no estreito de Gibraltar, entre a ponta da Europa e a Mina de Ceuta, a fragata S. Joo Prncipe, com a fragata Golfinho e o brigue Lebre, tendo ficado a nau Vasco, que era o navio-chefe, surta em Poenta Maiorca. A comisso da esquadra reduzia-se a obstar sada dos argelinos para o oceano. O vento assoprava do sueste, fresco com seus salseiros, o mar grosso bastante, o cu escuro e cobrindo-se cada vez mais. Depois do meio-dia levantou-se o mar, vaga rebentava em flor, o vento assobiava rijo e o horizonte ficou curto e medonho; pelo que de bordo da Golfinho fizeram sinal de gveas aos segundos. s quatro horas o tempo estava pssimo, dando indcios de crescer para a noite; os aguaceiros caram com mais fora e o sueste mais duro; as fragatas e o brigue mal podiam aguentar os papa-figos, sendo mister de quando a quando carregar-se o punho grande. Em uma das sotas em que ficou menos escuro fez a fragata Golfinho sinal de arribar Baa de Jeremias. O Lebre reconheceu logo e foi botando em cheio; o encarregado dos sinais a bordo da S. Joo deu parte ao comandante que o Lebre j ia arribado, porm que a Golfinho continuava no mesmo bordo com sinais iados, talvez espera que esta fragata fizesse o mesmo. Respondeu: B"v                ` <    `           ` `          ` ` `   A#M " -No reconhea, quem tem medo traz um co; se o comandante da Golfinho receia o tempo, que arribe, quanto a mim hei-de conservar-me no meu lugar: esta vida no para todos, se o Senhor Garo vem c para estas arribadas, melhor fizera se ficasse em Lisboa; no reconhea. B"   `    `  < A#R(/ " A Golfinho demorou-se, deu um tiro de pea para advertncia, porm no se fez caso dele, at que arribou seguindo o Lebre, fazendo-se a bordo dos trs navios muitos comentrios pouco lisonjeiros ao orgulhoso, inconsciente e insubordinado comandante, que recusava obedecer a uma ordem to justa. B" d    < `   ` `  A#|!" Continuou a S. Joo no mesmo bordo do norte, carregando a vela grande depois que ficou s, virando no sul s oito e continuando a bordada at meia-noite. Rendeu-se o quarto, ps-se outra vez no bordo do norte, tambm com pouco pano, porque com efeito o vento era fortssimo e a fragata s com muito risco suportaria a vela grande na amura; mas o risco era dos maiores e ela necessria para o navio no cair como ia fazendo, impelido pelo vagalho e a corrente. O comandante conservou em cima as vergas e mastarus de joanetes; no s para ostentar valentia, se no para caar os argelinos que pudessem aparecer; e por isso com tal pendor a fragata aguentava menos, seguia menos e rolava mais, tendo trs ou quatro quartas de abatimento. s sete ampulhetas (trs horas e meia) foi o oficial do quarto perguntar ao comandante se queria virar antes dele rendido, ou com toda a gente em cima. B"S     <         `  `  `     `    `      A#!(" -No, senhor; como vai o tempo? B"`  A#:" -O mesmo, ou pior, nem sei como, quando cai o aguaceiro as gveas ficam inteiras; o prtico diz que precisamos virar, porque a fragata segue pouco e abate muito, estando ns j bastante ensacados. B"       A#CJ" -O prtico um tolo, no sabe o que diz; quanto deita a fragata? B"    A# " -Trs milhas. B" A#" -Continue na bordada. B" A#(/" Subiu aquele e o prtico pergunta-lhe: B"`  A# " -Vamos virar? B" A#&u|" -Nada, talvez o queira fazer depois do quarto rendido; por ora mandou seguir a bordada; tambm as oito no tardam . B"     A#U4; " -Deus queira que antes disso no acontea alguma desgraa; forte teima de homem, tomara j que subisse o senhor capito-de-fragata, a ver se ele resolve o comandante; no temos tempo a perder e bom seria que o chamassem antes das oito; senhor tenente, veja se ele vem, diga-lhe que estamos em muito perigo. B"   <        A#H " -Abaixo no vou, nem mando, que no quero roda de poltro, onde os outros morrerem, morro eu tambm; veja a essa ampulheta, mexa com ela, a ver se corre mais depressa; a areia est hmida, e pra, d-lhe quatro safanes; voc est pior que uma galinha. B"  <        A##" O prtico apertou as mos. B" A#FM" -Valha-me Deus, daqui a bocado o que ser de mim e desta gente toda! B"<   A#4;" Desceu ao convs, chegou-se sentinela da cmara. B"  A#BI" -Sacuda esse demnio, ande, que talvez seja a ltima que o faa. B"    A# " -Est a acabar. B"@ A#" Deu uma sacudidela. B" A#3:" -Cabo do quarto, acabou-se a ampulheta; so oito! B"  A# " Subiu o cabo: B" A##" -Senhor tenente, so oito! B" A# " -Toque. B"  A#$" -Ronda! Oito, corra o sino. B" A# " Veio toda a gente. B" A#P ' " Subiu o capito-de-fragata, logo, pois era activo e hbil e tinha sido acordado s trs horas pelo prtico, avaliando bem qual a situao do navio; mas esquivando-se de dizer nada ao comandante, por lhe conhecer a insolncia e rusticidade. Rendeu-se o quarto, tornou o prtico a instar. B"       < `    A#)" -Senhor. olhe que vamos encalhar. depressa. porque j o tempo no muito; ai. meu Deus! Meu Deus. no torno a ver a minha casa! B" <     A#|" E tornava a apertar as mos ao p do capito-de-fragata. como louco. O vento assobiava. a chuva caa. os troves e relmpagos continuavam e a gente de folga no se retirava. como para acudir ao perigo: nestas ocasies solenes. a multido previdente e observadora. aproveita qualquer coisa que a pode salvar e conhece quem a pessoa capaz disso; pelo que no se arredavam do imediato, cuja inteligncia e audcia eram notrias; este. por disfarce, pergunta: B"+     `        <   ` A# " -Onde est a proa? B" A#"" -Nordeste quarta de este. B" A#&-" -No est mau caminho para Estepona! B"  h A#.5" -Bote a barca; quanto deitou na ltima hora? B" @ A#/" -Trs -responde o tenente. que entregara o servio. Eu mesmo a deitei; olhe onde deixa a esteira. fica aqui pelo portal! Nem que estivssemos de capa! B"      A#F " -Belo, tudo isto para o norte. porque a vaga atira com ela para sotavento: Senhor guarda-marinha, d parte ao senhor comandante que o prtico diz ser tempo de virar no sul: diga-lhe que a fragata rola muito e informe-o do estado da atmosfera. B"  <         A#!" Desceu o guarda-marinha. B" A#" -Senhor comandante! B" A# " -Que ? B"  A##jq" -O Senhor capito-de-fragata diz que o prtico quer virar; o mal muito grosso e o tempo cada vez pior. B"   `  A#(/" -Chame l o senhor capito-de-fragata. B"  A# " Desceu este. B" A##" -Ento que quer o prtico? B" A#"fm" -Diz que j se devia ter virado; e que no virando quanto antes vamos encalhar; o tempo est mau ... B" `    A#P$ " -Ento o prtico profeta? Tambm temos Bandarras c a bordo? Para haver de tudo, haja mais isso. Continue com a mesma amura, que ainda h muito mar para correr; se ele tem medo, que passe para bordo da Golfinho, que talvez o Garo goste de conselhos; c por mim no preciso deles. B"      `    A#<" Francisco Maximiano, pois era ele, que grandes brios animavam, pouca ateno deu ao ltimo perodo, porque partira quando o comandante disse continue, e ao embocar pela meia-laranja, ferrando os dentes: B"        A#<C" -Co! Tanta gente sacrificada sem proveito, por estupidez! B"  A#DK" Foi para o degrau sem dizer palavra e o prtico torna a perguntar: B"    A#3:" -Ento, senhor capito-de-fragata, nada de virar? B"   A# " -Nada, deixe ir. B"d A#!cj" -Ai que desgraa! No arribou, por desfeitear o outro, e agora no vira por teima; maldito navio! B"     A#1" O mestre, que havia muito se achava ao p do cabrestante, advertido pelo prtico, cheio de susto apesar de ser marinheiro velho e valente, chegou-se ao imediato.B"      A#/" -Ento, senhor capito-de-fragata, morreremos aqui todos sem mais nem menos? Nunca tive medo de nada quando preciso expor-me, mas agora sem necessidadeB"     <   A#W^" -Basta! Se tem alguma observao a fazer desa cmara, que l est o comandante ... B"     A# " -Mas ... B" D A# " -Tenho dito! B" A#r" Tudo ficou mudo; porm chegando-se para a amurada, juntos do degrau, para acudirem primeira voz, transidos de frio e susto; quando se sente um choque extraordinrio, uma pancada nunca ouvida, um estalar medonho, superior s refregas do furaco que assoprava e logo aps outro ainda maior, precedido de uma vaga que atirando com a fragata acima das pedras lhe faz deitar os mastarus e vergas de joanetes pela borda fora. B"(   `    `         A#JQ" -Misericrdia! Encalhou!... Encalhou! -Gritam na coberta: -Misericrdia! B"   A#0," Quem estava em baixo no pde subir ao convs, a fragata cara sobre o portal de bombordo, entrando-lhe a gua at braola da escotilha grande; tudo era desordem, tudo alarido, ningum atinava com o que fazia, tudo era escurido, gua e vento. As vagas encapelavam por cima do costado, e iam levando quanto estava na tolda; antenas, mastarus e gente, a qual ia sendo esmagada pelos pedaos de escaleres desfeitos; pelos madeiros de que se destacavam mastros e vergas que se partiam e jogavam uns contra outros, seguros por alguns cabos! Este horror mais se aumentou, se isso foi possvel, com a separao da fragata em duas metades, ficando o castelo e bailus muito afastados da tolda. O comandante falava, ningum o atendia; e cada qual procurava salvar-se, mas perecendo no meio das vagas; outros, agarrando-se a alguma carreta de estibordo, esperavam que amanhecesse, mas l vinha a onda que a desatracava, esmagando com ela os miserveis que a tinham procurado para abrigo: tudo era destroo e morte; quem caiu ou se deitou ao mar foi por este engolido ou arrojado praia e envolto na areia pela ressaca, que toda espuma acabava de sufocar quem tinha ali chegado com vida! B"n  `              <      `     `       <    `      A#6-" Por milagre o soldado Galro da brigada tornou p, seguro a um remo, corre praa, d aviso, a populao de Gibraltar acorda, sabe o caso, corre toda praia de Estepona, com archotes, cabos e quantas coisas supem necessrias para acudir aos nufragos; o dia amanhece escuro, corno a noite, porm com suficiente claridade para alumiar aquela horrorosa cena. O comandante da nau inglesa Malta acode com parte da sua gente, lana-se s ondas amarrado a um cabo, agarra este e aquele; em terra alam o cabo, salva trs ou quatro; o seu exemplo seguido por vrios oficiais corajosos, que fazem outro tanto. O chefe Scarnichia salta igualmente com quanto tem a bordo da Vasco e vai socorrendo aqueles que conseguem chegar vivos ao rolo da praia. O espectculo era horrendo, dezenas de cadveres jaziam pela areia, ali abandonados pela mar vazante, outros flutuavam envoltos na espuma, membros dispersos apareciam aqui e ali; mas o que causava maior lstima era ver ainda um cento de infelizes apinhados sobre os dois pedaos da fragata, acenando e pedindo socorro, sem se lho poder levar, desprendendo-se um ou outro, impelido pela onda, que logo o engolia. No meio desta ansiedade, do todos um grito: B"q       <     `     `           `       `  `        A#")" -Ai, que l se submergiu a proa! B"  A#2" Uma vaga impetuosssima desfaz o castelo e dispersa os seus madeiros que, cheios de pregos, vo ferindo e dilacerando os desgraados que nadam em procura da terra. B"<   `  <  A#[KR " Na parte restante da tolda e popa achava-se o causador desta catstrofe, bem como alguns oficiais e marinheiros, todos esperando a morte, e vendo o modo de escapar-lhe. O generoso e valente Francisco Maximiano ia a lanar-se ao mar, seguro a dois pedaos de cortia da trincheira que apanhara, quando o tenente Figueiras lhe diz: B"!   d       `   D A#:" - Francisco, tu sabes nadar e eu no, nem este filho; tu podes escapar, porm ns morreremos ambos; se tu me desses essa cortia, decerto escaparia eu e este inocente, que no posso largar aqui. B"  `     A#X_" O rapazinho segurava-se ao pai e este ao cabrestante, para no ser levado pelas ondas. B"     A#*" -Pois sim, toma l, ainda que eu morra no fao falta a ningum e tu ests carregado de famlia; deixa cair o pequeno que eu o agarro.B"    ` ` A#" -Deus te dar o pago! B" A#!cj" -Larga-te e deixa-te ir sem te importar mais nada, que a onda te levar praia; eu te acompanho. B"      A#" Lanaram-se todos trs gua, ele e mais os dois, mas Deus no quis salvar a todos, somente o homem generoso teve o prmio da sua boa aco, os outros chegaram a ela mortos, o pai abraado com o filho! Das trezentas e cinquenta praas que havia a bordo s quatro horas da manh, quando eram oito apenas existiam cento e cinquenta, tendo perecido duzentas neste horrvel naufrgio. Scarnichia e o comissrio-geral da esquadra, o Sr. Joo Baptista da Silva, ajudados pelas primeiras pessoas de Gibraltar, tinham feito cozer nas casas mais prximas galinhas e vaca para acudirem aos extenuados de foras, agasalharam os feridos, vestiram os nus, forneceram roupa aos que a tinham molhada e deram-lhes toda a sorte de consolao. A fragata desapareceu logo depois. B"I`           ` <     `          `   A#x" Mal que os nufragos puderam caminhar, dirigiram-se praa: a procisso era edificante, quando entraram na igreja catlica a dar graas, tudo foram lgrimas e soluos, mulheres, homens, crianas, pobres e ricos tudo chorava, pois nunca ali se tinha visto coisa mais lastimosa; olhando o povo com rancor para o homem soberbo e ignorante, cujo endurecimento e maldade fizera tantas vtimas, para Rodrigo Jos Ferreira Lobo, que tambm escapara! B"+ `   `         <    h A#" Este oficial no era terico, nem mesmo tinha outros estudos; pertencendo, no sei porqu, casa dos Marialvas e devendo a um deles, quando governador da Baa, a sua passagem para a Marinha; de capito de artilharia, que era da mesma provncia, galgou os postos at chegar ao de capito-de-mar-e-guerra e comandante de uma fragata excelente que perdeu. E tal patrocnio tinha que, quando o conde de Anadia, ento ministro da Marinha, deu parte ao prncipe da perda dela, disse-lhe: B"-        <      ` `  d A#6" -Real senhor, perdeu vossa alteza uma boa fragata e duzentos homens; porm, sirva-lhe de consolao o haver-se salvado o seu comandante, um dos melhores oficiais da Marinha real!!! B" ` <     A#" Foi mandado responder a conselho, mas como seria a sentena, quando o ministro mostrava tal interesse? Saiu absolvido e nomeado logo comandante da fragata Minerva! Passados trs anos, em 1810, iava ele o seu pavilho de chefe no tope da nau Vasco, comandando a esquadra do estreito; e no mesmo stio, em claro dia e vista de todos os habitantes de Gibraltar, envergonhou ainda mais a bandeira portuguesa, deixando de tomar, por ignorncia ou cobardia, as fragatas argelinas, atribuindo as suas faltas e culpas aos honrados comandantes dos outros navios da esquadra, mormente ao muito digno Jos Joaquim Xavier de Velasco, comandante da fragata Amazona, que ele comprometeu e desgraou B"A<    `   `  <      < `     ` `   ` A#" O MAR NO TEM CANCELASB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#r" Na manh do dia 7 de Maro de 1827 largou da barra da Aguada para Lisboa a charrua Maia e Cardoso. Seu comandante havia ponderado ao Governo provisrio que a viagem naquela poca era arriscada, pois comeava o Inverno e poucas esperanas podia ter de montar o cabo em um navio de mau p, contra mono e na fora dos noroestes. O Governo desprezou as justas ponderaes por ele feitas, terminando com a estpida resposta:B"+ <    ` `           D A#4" -O mar no tem cancelas; j l vai o tempo das mones, agora navega-se para toda a parte sem receio de coisa nenhuma; saia, que a provncia no pode com a despesa do navio. B"     `  A#9" Saiu, a charrua tinha recebido bastante carga, no s do produto das fazendas que conduzira de Lisboa, como a pertencente aos desembargadores Lousada e Miranda e a outros passageiros, de que vinha cheia. Passou a linha para o sul, com trinta e cinco singraduras, que j era m viagem, estendendo-se esta ao nmero de setenta e nove dias para chegar costa do Natal, que foi a 25 de Maio. Perto da ponta do Padro, deram-lhe calmarias com fora de correntes para o norte, que naquela paragem, e tal tempo, so ordinrias, comeando-lhe a assoprar o sueste de rajadas, como despedindo-se, at lhe saltar proa. Com efeito no dia 26 rondou para sul e no seguinte, 27, calou duro do noroeste, sendo mister aguent-lo de capa. A charrua sempre foi navio ronceiro e de mau governo, tendo alm disso uma boca desproporcionada, pelo que mais conveniente seria aproveitar a sua rijeza de borda, regendo pano; e bem o conseguiria, bordejando pouco distante da costa, para merc das correntes, que viram ao noroeste quando a mono muda, passar o cabo. Para proceder assim, era indispensvel uma guarnio disciplinada, oficiais activos e, mais que tudo, um enrgico comandante que se fizesse obedecer e respeitar: Joaquim Epifnio de Vasconcelos, sendo alis homem honrado, faltavam-lhe as qualidades prprias do militar martimo e era sumamente frouxo; a bordo da charrua todos mandavam e por isso falaram e puseram de capa, corno coisa que exigia menos ateno e dava menos fadiga, embora o navio sofresse. B"    d     <                <  `         `   `       `           h A#@G;" Declarou-se o noroeste duro, cresceu o mar, o horizonte cobriu-se, a vaga cruzou-se e a charrua, no meio daquelas vagas imensas, atirava consigo horrivelmente at que, numa das cabeadas, s vinte e duas horas do dia 28, partiu o leme, levando este a segunda e quarta fmeas e aluindo com o seu choque toda a parte inferior da almeida, a ponto de entrar um grande jorro de gua pelo gio, que subia no poro, a cinquenta e oito e sessenta polegadas por hora! Tudo a bordo foi confuso, todos queriam coisas diversas, cada qual dava a sua opinio e o barco sem governo, matroca, atravessado ao mar, que o cobria: ora metendo o gurups e a proa debaixo de gua, ora caindo a bombordo, a ponto tal que o sino tangia sem ningum lhe mexer. Pranto das senhoras, pragas dos marinheiros, censuras dos desembargadores, advertncias dos oficiais de transporte; de maneira que nunca se tinha visto maior anarquia dentro de outra embarcao de guerra, com a qual os perigos aumentavam e a necessidade de acudir-lhe se tornava mais urgente. Ala braos por aqui, tesa por acol, carrega a mezena, carrega a rebeca, larga o velacho; mas a charrua no arribando, na mais crtica de todas as posies, merc das ondas e do vento! A gua no poro, cada vez mais, tocava-se redondo s quatro bombas, sem ela diminuir, pegaram nos gamotes, em que todos trabalharam, no havendo nesta laboriosa faina diferena de classes; e s depois de aturadssima diligncia se foi vencendo a maior fora, alijando-se parte da carga ao mar, no s por estar arruinada e cheia de avaria, como para ficar a embarcao mais boiante.B"                 <   <                      `   `    `     `    ` A#ov?" Lembrou o capito-tenente Pussich a vulgar espadela, meteram mos obra, mas de tal modo nisto se houveram que, por sua pssima estrutura e desapropriada colocao, nunca chegou a fazer servio, levando-se em tentativas inteis e disparatadas at ao dia 30. A todas as horas se esperava que o mar engolisse o navio ou que este abrindo, pelo choque das ondas, fosse logo a pique. Um tenente mandava alar o brao grande, o comandante largar o velacho, o capito-tenente o traquete, o mestre a vela de estai de proa, repetindo-se estas e outras vozes, sem um pensamento fixo e sem que a charrua variasse de posio! Os navios tm sido por vezes comparados ao cavalo fogoso, que s obedece ao cavaleiro destro; assim um oficial instrudo ao catavento parece dominar as vagas e imprimir a sua vontade quela admirvel mquina, que em todas as circunstncias obedece sua imperiosa voz! O Maia e Cardoso no respeitava o cavaleiro, nadava tona de gua, o seu elevado tombadilho e salientes alforges ofereciam resistncia ao vento, igual a uma vela r; e por isso para ele arribar logo se devera ter picado o mastro da mezena, o que nunca se chegou a fazer. No dia 30 o mestre e oficiais de proa lembraram a construo de um leme de pega, cuja madre fosse o mastaru do velacho; esta ideia, bvia e sempre seguida, abraou-se avidamente, todos fizeram quanto dele dependia para o seu acabamento, que terminou no dia 4 de Junho; mas o temporal era ento medonho, o frio intenso, a saraiva retalhando as mos e o rosto de quem a suportava, as rajadas fortssimas e o escarcu furioso, a cuja vista muitos iam desfalecendo, exaustos de nimo e foras. B"                          `    `  < `            ` `       `  <  < < ` @  @ A# " Os camarotes daquele navio eram, e hoje ainda so, no convs, r do mastro grande; nos dois fronteiros ao mastro da mezena, em que vinham o desembargador Lousada com sua famlia, e o ex-contador Possolo e sua jovem esposa, se colocaram as correntes e talhas de atracar a pega ao cadaste; atravessando-se de bombordo a estibordo pelas portas deles, a verga de sobresselente da gvea com outras talhas fixas nos laises para ajudar a governar por fora. Mas por isso que as portinholas estavam abertas, tal fora de gua entrava por elas que ningum podia trabalhar, inundando-se todo o navio! O desalento era geral e quase que nem se atreviam a mover um brao! Finalmente conseguiu-se no dia 8, com incrvel fadiga e risco, calar o leme e dispor convenientemente o seu aparelho. B"K               `  <   `      `    h A# h" Graas a Deus que j governa! Estamos salvos! O leme gira bem! E com efeito o Maia e Cardoso arribou, deu a alheta ao mar e ps a proa a s-nordeste, puxando-se logo com traquete e velacho para o canal de Moambique. As senhoras e at os homens choravam de alegria, a vaga na alheta afrontava menos a embarcao, dando-se em consequncia disso ordem a fazer alguma coisa de cozinha, pois havia uma semana que nada se tinha comido quente. Porm, com este bom sucesso no findaram as atribulaes e perigos dos trezentos e dez viandantes, os quais no vendo nem portas nem cancelas em todo o oceano, viam apenas, e isso bastava, que ele, embravecido, lhes preparava a morte, ora elevando s nuvens o desconjuntado navio, ora sepultando-o no centro de serras de gua, que de todos os lados ameaavam engoli-lo! O caso foi que, ou a obra no fora feita com a necessria solidez, ou a fora das ondas era muito superior a todos estes meios provisrios de governo, uma vaga apodera-se dele, faz tudo pedaos e deixa o navio em situao mais arriscada que dantes, tendo agora a bater-lhe no costado os restos do tal leme, presos pelas talhas e correntes. Picaram-se estas e aquelas, e eis de novo o Maia e Cardoso matroca, j correndo para o sul, j para o norte! No dia II ensaiou-se a factura de outro leme de toros de amarra, o qual ficou pronto a 14, mas nesse dia era to medonho o tempo, tais os balanos e tanta a gua dentro do navio, que apenas trataram de tapar o buraco da enora do leme e as duas portas por onde saa a verga, com colches e tabuado, a fim de se esgotar o poro. Alijou-se mais carga ao mar; a riqueza de uns, o remdio e o fruto de grandes economias de outros l foram pela borda fora, para a salvao de todos. No dia 20, achando-se ento em trinta e cinco graus sul e pouco mais a oeste da baa de S. Francisco, abonanou alguma coisa o vento, puderam botar o leme fora e governar com ele menos mal. Nestas alturas, a vaga de uma grandeza que ningum faz ideia, seno vendo-a, e a violncia do vento pega nela com tanto mpeto, que nenhum navio lhe pode resistir muitas horas, admirando como o Maia e Cardoso suportou aquele combate sem se desfazer! Outros navios, corridos em rvore seca ou em velacho sobre a pega, passavam por ele; mas no lhe dando, nem podendo dar auxlio, no meio de uma tormenta que os ameaava com igual sorte. A marinhagem, excitada pelos passageiros que de tudo murmuravam, comeou a desatender os seus prprios oficiais, sendo necessrio prender ordem da rainha o desembargador Lousada, mais turbulento, para restabelecer a disciplina e infundir algum respeito aos oficiais de transporte que, censurando sempre, por sua ignorncia da profisso, as coisas mais acertadas que ali se fazem, tinham demasiados motivos para exercer a sua maledicncia.B"       < `   <   < `        d             `    `    <          <        `     `        <    `     <    <  `      `        A#v}=" No dia 21, enfim, prouve a Deus que o leme pudesse trabalhar, obedecendo logo o navio e arribando para este, mas em que estado?! Todo o seu aparelho e pano perdidos, as costuras abertas, a popa arrombada, as perchas fora, quase toda a carga lanada ao mar e a restante cheia de avaria; e a guarnio e passageiros meios mortos de fadiga, privaes e susto! O bom e dbil comandante que, no meio destes desastres, tinha sobre seus ombros a imensa responsabilidade de uma arribada, em que todos os descontentes lhe serviriam de testemunhas de acusao, foi-se definhando fora de desgostos, sucumbindo no fim de cento e vinte e oito dias de viagem, quando ia a embocar o canal de Moambique. Recaiu o comando no capito-tenente Torquato, o qual entrou com a charrua naquele porto passada uma semana, completando-se ento cento e quarenta dias de viagem de Goa. Ali fabricou e fez novo leme, custando infinito o arranjo de outras fmeas em lugar das perdidas, que se deveram s diligncias do tenente Cardoso, que as fez fundir, chegando com este auxlio a Lisboa passados quinze meses, no dia 4 de Junho de 1838. Seus prejuzos foram imensos, quer pblicos, quer particulares, sofrendo a sua guarnio muitas privaes e muito risco de vida, os passageiros muitos incmodos, desgostos e despesas, e a arma da Marinha muito descrdito. E tudo isto porque gente alheia cincia das coisas navais julga e decide os objectos martimos, que nunca compreendeu, nem compreender, sacrificando ignorantemente avultada poro da Fazenda Pblica; e a fazenda e a vida de bons servidores do Estado, declamando, com crassa fatuidade, Que o mar no tem cancelas !B" <         <         `           `  <                      <        A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B"