{\pwi, TahomaCourier New/=  =@\\b####j##?#####"######### ######1=##+#p#C##_#_#y#<# #a#r## #}#!|## # #F#;#-### R#+##h#$#*#&##I#_###w#-# #)R##D #n#:##^#:#?#]#+z#n#v5 # #Q-###?###FN#7## #5##A#" O Senhor dos NavegantesB"< A# " B" A# " Ferreira de CastroB" A# " B" A##jq" A publicao de O Senhor dos Navegantes foi gentilmente autorizada pelos herdeiros de Ferreira de Castro.B"     A# " B" A#?F" 1998, Herdeiros de Ferreira de Castro e Parque EXPO 98. S.A.B"   A# " B" A# " ISBN 972-8396-39-2B" A#!" Lisboa, Fevereiro de 1998B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " O SENHORB"  A# " DOS NAVEGANTESB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#X=D1" Branca, airosa, pequenita, erguida sobre o tope de uma colina, a Capela do Senhor dos Navegantes divisava-se de longe, como um farol. E a ela, mais do que uma luz que brilhasse na noite atlntica, os pescadores enviavam esperanas e desesperos quando em graves riscos se viam nas cavas e lombas do mar. Porque ficava alta, ao fim de ngreme, pedregoso carreiro, raras gentes l iam, salvo em dia de festa, com morteiros e filarmnica, uma vez cada ano. Fascinado pela sua solido e largueza panormica, eu encontrara, porm, maneira de a atingir, naquelas tardes de Estio, sem me fatigar. Para subir s montanhas, um livro vale mais do que um bordo -e, com um livro sob o brao, punha-me a caminho. Logo que as pernas se cansavam, sentava-me e lia, enquanto os melros iam cantando nas velhas rvores da encosta. Sem o livro, pequeno seria o meu repouso e continuaria a ascenso antes de refeito, que a tendncia de quem anda, leve rodas, leve hlices ou apenas, modestamente, os ps com que nasceu, , j se sabe, chegar com brevidade ao ponto de destino -mesmo que nada tenha l que fazer. Com um livro, outra coisa. Sendo bom, prende-nos mais tempo do que os braos de uma mulher e s desejamos interromper a sua leitura no final de um captulo ou em pargrafo onde possamos retom-la facilmente. Entretanto, as pernas recobram foras.B"{        <                     `     <      <        < A#" Naquela tarde, quando cheguei ao adrozito do Senhor dos Navegantes, demorei-me a contemplar o mar vasto que dali se descortinava, ento muito sereno, com suas velas graciosas e fugidias. Em baixo, estendia-se a grande praia semi-selvagem. direita, rompendo de entre um pinhal e com o seu verde contrastando, espaireciam casitas modernas, todas faceiras e coloridas, ao passo que, da banda oposta, aglomeravam-se as barracas dos pescadores, em forma de ilha sobre a areia e to velhas, negras e rodas pelos anos como se fossem as mesmas que deixaram ali os primeiros habitantes do litoral. Dir-se-ia que o tempo parara do lado onde se trabalhava rudemente ao sol, muitas vezes de colaborao com a morte, para se activar apenas naquele onde se descansava sombra tranquila dos pinheiros.B"K  `    `    `  < `    `       `      h A#0+" Aps esse longo olhar de amor com que todos os dias eu envolvia o oceano, a terra e o cu, sentei-me e dispus-me a ler, como de costume. Logo, porm, que abri o livro, um rumor veio de dentro da capela. Surpreendido, voltei-me e notei que a porta estava semiaberta. Era a primeira vez que isto me acontecia. At ento, eu encontrara sempre ali o maior silncio, um abandono total, com esse sabor potico, fino, voejante, que parece destilado pelo ar e prprio das ermidas que padroam as montanhas. Agora, os rumores continuavam. Senti passos e vi um homem transpor a porta. Trazia os braos fechados sobre numerosos ex-votos -barcos de cera e pequenos quadros, ingnuas pinturas feitas sobre madeira. Ao dar comigo, estacou, contrariado; teve, em seguida, uma expresso incerta, logo um movimento de indiferena, por fim dirigiu-se para o extremo do adro. Desse lado, o flanco da colina descia quase a pique, at um matorral que se estendia l em baixo. Era um terrvel despenhadeiro e, para defesa de quem vinha ao Senhor dos Navegantes, haviam construdo um murozito, que, da banda de dentro, formava bancada em semicrculo. Ali o homem se sentou, a uns quatro metros de mim. B"l `     <   ` ` `           `          `           A#$pw" Descontente com a sua presena inoportuna, eu ia baixar, de novo, os olhos sobre o livro, quando ele me disse: B"      A#CJ" -Provavelmente, o senhor pensa que sou um ladro... No verdade?B"`   A#!" certo que eu havia pensado isso, um momento antes. Havia mesmo avaliado as suas foras em relao s minhas e concludo que talvez ele me vencesse, em caso de luta. No que fosse mais novo; devia ter uns cinquenta anos maltratados, enquanto eu no chegara ainda aos trinta; mas o seu corpo era mais robusto e os braos muito mais possantes do que estes, to franzinos, de que eu me servia para pegar no livro. Os seus olhos no precisavam de culos, ao passo que os meus, sem auxlio de vidros no me permitiriam dar dois passos seguros, mesmo para fugir. E embora as linhas fsicas dele no se mostrassem rudes, o fato que trazia, gasto, poeirento, e no sei mais o qu do seu todo, sugeriam a ideia de homem habituado a trilhar as estradas do mundo, de varapau na mo, ao assalto da vida. B"I      `       <                A# _f" Hesitei, talvez, alguns segundos a responder-lhe, porque ele, antes de me ouvir, acrescentou: B" <  <  A# _f" -No, no sou um ladro. Isto -e apontava os ex-votos -pertence-me. Eu que no os mereo... B"  <   h A#'y" Definitivamente perturbado, respondi, enfim, qualquer coisa, no me recorda o qu, uma necedade por certo, e ele voltou:B"      A#<C" -O senhor no de c, pois no? Est a veranear na praia? B" <  A# " -Estou. B"  A#!ah" -Logo vi. A gente da terra no tem tempo para vir ler aqui para cima. Bem lhe basta o trabalho. B"      A#%ry" No entendi logo se ele falava assim para me ser desagradvel ou simplesmente para demonstrar a sua perspiccia. B" < `    A#(" Os seus olhos voltaram a fixar-me. Pareceu-me ver neles um lume de ternura, mas senti-me novamente humilhado ao ouvi-lo dizer: B" ` `    A#G " -O senhor esteja sua vontade. Eu no me demoro. E no tenha medo de mim. No fao mal a ningum. Todos ns, certo, j algum dia fizemos mal -e eu fiz um grande mal, mas isso foi h muito ano... -A sua voz repetiu, de modo profundo: -H muito anoB"     `  <   A#(}" - claro que no tenho medo -declarei, num tom frio. Na verdade, porm, eu enervara-me. Tornei a abrir o livro e fingi ler. B"      A#|!" O homem calou-se. Vergado sobre os ex-votos, as suas mos iam desfazendo os barcos de cera e arremessando-os para o abismo, para o saral que havia l no fundo. Deles reteve apenas a extremidade de um mastrozito com a sua bandeirola, que fez voltejar na ponta dos dedos, com o sorriso de meiguice que se tem para as coisas frgeis, e logo enfiou na botoeira do casaco. Depois, estendeu o brao, agarrou uma pedra e deu-se a partir os quadros onde se viam embarcaes de pesca em luta com o mar embravecido e o Senhor dos Navegantes de p sobre nuvens. Todos eles tinham datas, algumas seculares, e legendas de reconhecimento, com muitos erros ortogrficos e mal desenhadas letras. O homem lia-as antes de despedaar as pequenas tbuas onde elas estavam inscritas e, em seguida, lanava os destroos l para baixo, para o mesmo lugar dos barquitos de cera. Entretanto, parecia falar sozinho: B"S                 <                A#3" -Nunca salvei ningum... Ningum! Eu bem o desejaria fazer, mas j no tinha fora para isso. Se estes se livraram da morte, foi apenas por circunstncias favorveis... B"`       A#F " Levantou-se e voltou a entrar na capela. Pensei ser o momento de me retirar. Ele ia julgar que eu era cobarde, mas isso no me importava. Verdadeiramente, disse a mim prprio o que busco nesta colina sossego e sossego, hoje, no existe aqui.B" <     ` `   A# " Antes, porm, de eu haver tomado uma deciso definitiva, o homem surgiu, novamente, no adro, com outra braada de ex-votos. Eram, agora, mos, seios, cabeas e ps de cera. Ou por falta de pacincia para os desfazer um a um ou por lhe ser anojoso partir aqueles smiles de membros humanos, que lhe acordariam, porventura, remotas supersties, ele acercou-se do murozito e lanou os ex-votos, de uma s vez, para as profundidades do desfiladeiro. Depois, quedou-se um momento, como eu fizera antes, a contemplar o oceano. B"2          ` <  `        A#FM" -O senhor gosta disto? -perguntou, voltando-se ligeiramente para mim.B" <  A#;B" Isto bonito -respondi-lhe. um magnfico panorama... B"  A#-4" Tornou a olhar o mar e a terra, lentamente. B"`  A#o" -Sim, no feio... -murmurou. -Podia ter sado muito melhor, mas, enfim... J os Romanos gostavam deste stio. Ningum o sabe ainda, seno eu, mas a verdade que houve aqui um crasto. Olhe, acol, esquerda, antes de se entrar no adro, se algum escavar, encontrar restos de sepulturas... E praia, l em baixo, chegaram a vir muitas galeras... Existia, ento, um pequeno porto, que o tempo assoreou... B"&           `    A#4" Surpreendiam-me os seus conhecimentos e a propriedade com que falava. Tentei examin-lo melhor, mas o homem encontrava-se novamente de costas, sempre de olhos fixos ao longe. B"<   `   @ A#]RY " -Efectivamente -disse-me, depois -se olharmos bem para a terra, para o mar e para o cu e se pensarmos na grande variedade de seres que h no mundo e em todo este admirvel equilbrio planetrio, parece-nos que estamos perante um milagre. No assim? A si tambm no lhe parece o mesmo, quando pensa, por exemplo, nas vidas submarinas? B"!              A#+2" -Sem dvida, o mundo muito variado e... B"  A#" Ele interrompeu-me: B" A#bho" -Eu sei que todos os homens pensam, sobre isto, mais ou menos o mesmo. Um simples insecto, que encontramos num monte e que podemos facilmente esmagar com o p, se ele no fugir, capaz de levar-nos a meditar sobre o mistrio da criao, capaz de arrastar o nosso pensamento por caminhos obscuros que, momentos antes, no tnhamos sequer admitido percorrerB"#          <    h A#$+" O homem interrogou-me bruscamente: B"  A#*1" -O senhor o que ? Qual a sua profisso? B"   A#&-" Eu disse-lha e ele pareceu contente: B"  h A#2" -Ah, muito bem! Ento pode compreender... No verdade que o mundo parece feito por uma imaginao portentosa? Por uma inteligncia que nenhum homem pode igualar? B"    `  A#IP" -Algumas vezes tenho reflectido sobre isso... -confessei, modestamente. B" `  A# _f" -A est! -exclamou ele. -A est! Mas o senhor engana-se! Pelo menos, engana-se em metade... B"   `  h A#0" Aproximou-se mais de mim. Eu estava sentado, ele de p; eu tinha de olh-lo de baixo para cima e sempre com receio de que estendesse as mos e me dominasse. B"      A#/" -Ora diga-me uma coisa... Nunca lhe pareceu que essa inteligncia havia ficado a meio do seu trabalho? Que no tinha ido at onde parece que pretendia ir? B"      A#&w~" -No sei. A nossa razo tem limites. Para alm da nossa razo podem existir outras razes, que no so explicveis... B"      A#-4" -Era a, justamente, onde eu queria chegar! B"  A#A " Ao dizer isto, o homem sentou-se ao meu lado, dobrando-se levemente para a frente, com os braos apoiados nas pernas e as mos juntas. A sua voz adquiriu, ento, um murmurejar de confidncia e de quem no sente pressa alguma: B"      <   A#RY)" -Tudo correu muito bem, a princpio declarou, como se continuasse uma narrativa interrompida. -Eu tinha um poder infinito. E uma imaginao para alm de todos os prodgios. At eu me admiro, hoje, disso. Bastava pensar uma coisa e o meu pensamento materializava-se rapidamente, adquirindo forma e vida. A minha fantasia no encontrava limite algum e os habitantes das profundidades deste mar que estamos vendo o atestam. um prazer que o senhor no conhece tornar realidade o prprio absurdo. Mas, nesse tempo, tambm eu no sentia esse prazer; eu no fazia ideia alguma do que era absurdo e do que era lgico, do que era belo e do que era feio, do que era bom e do que era mau. Estas definies s se estabeleceram mais tarde, justamente quando surgiram os limites... Eu criava, criava, como num delrio. E no h dvida de que a minha principal obra foi isso a que os homens chamam o Universo, a mecnica celeste, o Infinito... Os senhores andam, com a vossa cincia, a colocar l algumas balizas, mas trabalho mais difcil do que se quisessem remover com uma colher de ch a terra de uma montanha...B"g      <  `             `   < @         <       A#-" Enquanto ia falando, o homem olhava para o cho, como se no desejasse ver nos meus olhos o efeito das suas palavras. Depois, mudou o tom de voz: B"   <    A# D" -Um dia, porm, senti-me decadente. As aves, por exemplo, so um indcio do meu declnio. No sei se o senhor viajado, se conhece a sia e a Amrica, as grandes florestas tropicais onde h aves maravilhosas. Mas se no conhece, no importa; tem visto isso, pelo menos, nos livros com estampas multicolores. Parece-lhe -no verdade? -que h uma diversidade deslumbrante, uma fantasia inesgotvel no mundo das aves. Pois no assim! Se observar bem, ver que no assim. A minha imaginao havia j comeado a diminuir, comeava j a aproximar-se do que viria a ser a imaginao dos homens. Criei um pssaro e os outros foram apenas variantes. Utilizei o primeiro modelo e fi-lo de todos os tamanhos, desde a avestruz, to grande que pode ser cavalgada, at o colibri, que, de minsculo, se confunde com um insecto. A seguir, fi-lo de todas as cores e com todas as combinaes de cores. Depois, em vez de criar, pus-me a exagerar determinadas parcelas do que j havia feito. E cheguei, assim, at a caricatura da minha prpria obra. A algumas das aves limitei-me a esticar-lhes as pernas, as caudas ou os bicos, de tal forma que estes ficaram grotescos e muito maiores do que o corpo. A outras dei-lhes uma amplitude de asas de que no careciam ou deixei-lhes apenas uns simples cotos. Variei-lhes, tambm, o fulgor dos olhos e a composio dos seus gorjeios, deixando umas eternamente mudas e obrigando outras a cantarem at na hora da morte. Mas tudo isso eram simples pormenores, porque, no fundo, a ave, a ideia fundamental, eram a mesma. Eu parecia um desses artistas que realizou, certo dia, uma descoberta feliz e passou, depois, o resto da vida a lutar desesperadamente para dar a iluso de que no se repetia, quando, em realidade, no fazia outra coisa seno plagiar-se a si prprio... B"` <       <     <  `        `             `   `  <          <     `             A#$nu" O homem calou-se subitamente e, soerguendo a cabea, olhou-me pela primeira vez, desde que se havia sentado. B"  <   A#:A" -O senhor est a pensar que sou um louco, no verdade? B"  A#4" Foi ento que, por meu turno, baixei os olhos, admitindo de novo que ele poderia, em qualquer momento, lanar-me por cima do murozito de resguardo, como fizera aos ex-votos.B"  `  <   D A# ^e" -No, senhor. Estou a ouvi-lo com muito interesse. O que acontece que se vai fazendo tardeB"     A#:A" Ele examinou atentamente o cu, como se medisse o Tempo: B"  A#?F" -No, tarde no ... So apenas cinco horasD c um cigarro. B"`   D A# ]d" Passei-lhe o mao, meteu-lhe os dedos, riscou, devagar, um fsforo, soltou o fumo e tornou: B"   `   A#'z+" -Com o mundo vegetal aconteceu a mesma coisa. O que uma rvore? O que uma planta? Uma raiz metida na terra. Para evitar a monotonia, tive de dar variedade s folhas, s flores, aos frutos e aos aromas. Mesmo aos troncos. Mas, apesar de tudo, sempre uma raiz metida na terra. Ora no era isso que eu queria. Eu no queria o mundo submetido a uma repetio perptua. Eu desejava que ele se modificasse constantemente. O senhor j pensou que poderiam perfeitamente existir bosques areos e que o homem deveria andar no fundo dos mares ou no espao celeste com tanta facilidade como anda aqui na terra? O senhor no v que os homens esto todos os dias a procurar corrigir os defeitos do meu trabalho? O que um avio ou um escafandro seno um remendo minha obra? Mesmo os que me adoram, passam a vida a discordar de mim e a tentarem emendar o que eu fiz. Quando imploram as minhas graas para as suas infelicidades, no fazem, no fundo, outra coisa do que censurar-me, pois o que uma splica seno uma revolta que no se pode exteriorizar? -Sorriu vagamente e ajuntou. -S no me amaldioam porque ainda me julgam mais forte do que elesB"l      < `                     ` <              D A#$nu" Voltou a calar-se. Depois, calcou o cigarro, ainda quase inteiro, e, com um tom doce, melanclico, confessou:B"    < A#5 < v" -Eles tm razo, coitados! Sucumbi antes de realizar integralmente a minha obra. O que devia ser mutvel tornou-se imutvel e as leis que ficaram a reger o mundo so impiedosas. Eu s me lembrei de criar o homem muito tarde. J havia feito os outros animais, j havia mesmo esgotado toda a fantasia no exagero dos pormenores, quando me ocorreu uma outra variante. A minha tendncia fora, at a, dar aos bichos quatro apoios sobre a terra ou sobre as rvores. Pois bem! Aos novos seres eu daria, como s aves, apenas duas patas. Mas o senhor no pode imaginar o que senti ao ver de p, entre os outros, o novo casal. Eu estava a criar o canguru e to impressionado fiquei que lhe pus logo mais dois embries de pernas e deixei-o incompleto para todo o sempre. No meio dos outros bichos, que se moviam alegremente, com jubilosos rudos na manh da sua vida, o homem e a mulher, nicos que eram verticais, dir-se-iam dois pinguins entre um bando de pssaros chilreantes. Ele olhava ao longe, sem saber como orientar-se. Mostrava-se to triste, to incerto no seu destino, que tive de repente pena dele. Porque fora talhado ao alto, o seu prprio sexo se apresentava menos oculto do que o dos outros animais e parecia vex-lo. No ocaso do meu poder, eu comeava a atribuir, por fraqueza imaginativa, diferentes funes a um mesmo rgo. Para as aves bastara-me um tubo de vazo; para os outros viventes criei, inutilmente, dois -e ao segundo impus uma dupla utilidade. Quando verifiquei o erro, era demasiado tarde: dali em diante, a prpria vida humana brotaria de um cano de esgoto. Assim, a piedade que eu sentia pelo homem ia-se tornando cada vez maior. Hesitei um momento e decidi: a este que eu me darei. a este que eu darei o que ainda resta de grande em mim. E fundi a minha decadncia, o crepsculo da minha potestade, naquele melanclico animal. Foi outro erro, o meu maior erro. O homem ficara com todas as aspiraes de um deus e no era completamente deus. Surgiram, devido a isso, inmeros conflitos. O homem queria ser eterno como o deus que ele guardava dentro de si e era, pelo contrrio, to efmero como os outros animais. Queria ser feliz, impelido por aquela obscura reminiscncia de quando uma parte dele me pertencia a mim, sua divindade, e havia de passar milnios sobre milnios a lutar para ser feliz, sem nunca o poder ser por muito tempo. S o era integralmente por alguns minutos e justamente quando fecundava novas dores humanas. Eu havia-o deixado to desamparado e com tantos problemas a resolver, que a prpria caverna, em vez de ser apenas um ponto de partida, foi, ao contrrio, um ponto de chegada -a sua primeira conquista. O mundo ficara imperfeito e o homem com uma nsia de perfeio impossvel. O mundo ficara incompleto, injusto e sem finalidade visvel e o homem deu-se a lutar para que o mundo tivesse para ele tudo aquilo que o mundo no tinha. Quando no pode lutar de outra maneira recorre s hipteses. So as hipteses que o tm amparado desde que ele vive. Eu sinto remorsos, creia, por tudo quanto fiz... Sinto especialmente remorsos por tudo quanto no cheguei a fazer.B"'      ` `    <    `    `               `           ` `   <      <  `     `    `   `     < `           `    `                   ` `        A#M " O meu interlocutor levantou-se, meteu as mos nos bolsos e caminhou, como opresso, at a extremidade do muro que nos protegia do abismo. Vi-o olhar l para baixo, para os destroos dos ex-votos, vi-o, depois, estender a vista at ao mar e, em seguida, voltar-se para mim: B"    `   <    A#-4Q" -Ento, eu prprio comecei a lutar tambm contra a minha obra. claro que, ao fundir-me no primeiro homem, fiquei mortal como ele. Mas gozo, ao contrrio dos outros, o privilgio de guardar memria das muitas vidas que tenho vivido. Lembro-me de tudo desde o comeo do Tempo, desde que fiz o mundo. E nisso est o meu principal sofrimento, porque a memria, para quem praticou o mal, , como se sabe, o maior castigo que existe. Sofro ainda porque os homens levam, s vezes, milhares de anos para acreditar no que evidente. Quando lhes digo a verdade, eles maltratam-me. Quando lhes grito, por exemplo: O mundo est mal feito e preciso, dentro das vossas possibilidades humanas, corrigir o mundo -os mais fracos, os mais ingnuos, ficam a olhar para mim, duvidosos ainda sobre se ou no verdade o que lhes digo, enquanto os mais fortes mandam imediatamente perseguir-me. Se, para me defender, declaro: Tenho a certeza de que est mal feito, pois fui eu prprio quem o fez ento consideram-me louco, bruxo, herege, visionrio, e perseguem-me da mesma maneira. Poucas vezes tenho morrido na cama, como morrem os generais e a maioria dos outros homens. Ao contrrio, tenho sido esquartejado, queimado vivo, crucificado, enforcado, fuzilado, guilhotinado, electrocutado e gaseado. A cada uma das minhas vidas foi sempre aplicada a moda a que cada poca e cada povo obedecem para matar os seus inimigos. Disso no tenho que me queixar... acrescentou com um sorriso. -H pouco, contei-lhe que, ali, entrada do adro, se encontra um velho cemitrio romano. Decerto, o senhor no acreditou. Compreendo perfeitamente: no seu lugar, eu tambm duvidaria. Mas pode ter a certeza de que estou l... Ou, se j no existe resduo algum do meu corpo de ento, deve estar l, pelo menos, uma fbula que eu usava nesse perodo. Enterraram-me ali depois de me terem supliciado brutalmente, s por eu haver dito que, como criador que fora do mundo, vivia a penitenciar-me do meu tremendo erro. Eles julgaram que eu pretendia, com isso, ser mais importante do que o imperador de Roma e liquidaram-meB"      <  <         <      `  <   <   <    <          `    < <                  `             A#9" Um bando de gaivotas ladeou a colina, sobrevoando a praia. A luz ia diminuindo de intensidade e dando cores suaves aos arredores da capelinha, ao prprio adro, onde a voz do homem prosseguia: B"    <     A#" -Se eu lhe contasse o que observei e sofri atravs dos Tempos! Mas nunca mais acabaria e vejo que o senhor est com pressaO que me valeu nos ltimos sculos foi a interveno da tipografia. Sem isso, teria sofrido ainda mais, dado que as minhas ltimas vidas passei-as, quase inteiramente, nas prises. Assim, sempre arranjo alguma coisa para ler. Tenho lido muito, muito; desde h quatrocentos anos quase no fao outra coisa. Por um lado, a leitura distrai-me, leva-me a esquecer a cadeia; por outro, tortura-me, pois pelos livros dos homens que eu vejo, sobretudo o drama que criei... Ultimamente, l no manicmio, s queriam dar-me livros optimistas, livros em prol. Os mdicos afirmavam que essas obras no me despertariam ideias sombrias... Mas eu protestei imediatamente... B"K    `    ` ` <         ` `         d A#?F" -Ah, o senhor esteve no manicmio? perguntei, de modo tmido. B"<    A#" -Estive -respondeu-me ele, com naturalidade. -No tenha medo de me ofender, pois desde o princpio adivinhei que o senhor pensa que eu sou um louco. No me ofende nada... Todos tm pensado de mim a mesma coisa, j lhe disse. Estive e l estaria ainda se, ontem, no tenho conseguido fugir. Estava l ia j para oito anos. E sabe porqu? Porque, um dia, entrei numa igreja e gritei aos crentes que se encontravam ajoelhados: No vos resigneis, pois o mundo que eu fiz muito imperfeito e, portanto, precisa mais do vosso esforo do que da vossa resignao. Imperfeito h-de ele ser sempre e vs tambm; contudo, em muita coisa podeis aperfeioar o mundo e a vs prprios. Mas no de joelhos que o fareis; de p e a lutar! Quem vos fala j foi Deus e sabe por que fala assim B"I  `   <       <          <        A#/" O homem olhou-me, como se, desta vez, lhe interessasse conhecer a minha reaco. Vendo que eu continuava calado, teve um sorriso melanclico e continuou: B"   < <  A#NUF" -O que fui dizer! S as imagens dos santos ficaram impassveis... Mas o Cristo, no altar-mor, parecia contemplar-me meigamente, com um ar secreto de cumplicidade. Dos fiis, uns olhavam para mim, escandalizados, outros faziam esforos para no se rir... Junto do altar da Senhora dos Aflitos encontrava-se, ajoelhada, uma pobre mulher, a nica que, naquela manh, estava ali com verdadeira uno. Ela tinha um filho morte e no tinha recurso algum, nem para o mdico, nem para os medicamentos -para nada. Viera ali pedir ao cu que lhe salvasse o filho, pois era o cu a ltima esperana que lhe restava. Senti tanta pena por essa me infeliz, que me aproximei do altar, estendi os braos para a imagem da Senhora dos Aflitos e tirei-lhe do pescoo um dos muitos cordes de oiro que os devotos lhe haviam oferecido. Quis entreg-lo mulher, dizendo-lhe: Vende-o e vai a correr chamar o mdico! Mas a mulher, depois de limpar as suas lgrimas, encarou-me com repugnncia, como se eu fosse o prprio diabo -e recusou o cordo. Teimei: Despacha-te seno o teu filho pode morrer! Ela continuou a recusar e a olhar-me com desprezo. Ento, sempre com piedade por ela e pelo filho, resolvi mentir: Anda! Pega l! No tenhas escrpulos! Eu sou o instrumento de que Nossa Senhora dos Aflitos se serviu para te ajudar. Ela hesitou um momento. Olhou a imagem, olhou para mim, mas no cheguei a saber se se havia decidido a aceitar aquilo. A igreja enchera-se de gritos: louco! louco! ladro! ladro! Quer roubar a Nossa Senhora dos Aflitos! Um polcia que estava tambm ajoelhado, levantou-se, avanou para mim, tirou-me o cordo e p-lo, de novo, ao pescoo da imagem. Depois, ordenou-me que sasse na sua companhia... O senhor est a ver o que aconteceuSe, ontem, no apanho um guarda distrado e no salto o muro, no estaria agora aqui a falar consigo... B"<     @  d              <     <              ` `     `      `   `  ` `  `   d  <   ` d A#7>" Ofereci-lhe outro cigarro. Ele recusou-o com um gesto.B"  A#4" -So horas de nos irmos embora -disse, empregando O plural, como se estivesse certo de que eu partiria, com ele, do Senhor dos Navegantes. Realmente, eu deixara de o temer. B"<       A#L " Atravessmos o adro. Ao passarmos junto do local que ele me dissera haver sido um cemitrio romano, vi-o deter-se. Os seus olhos pareciam buscar, sob as plantas silvestres, um determinado stio. Encontrou-o, decerto, porque vergando a cabea, gritou para dentro da terra:B"<    < <      A#5<" -C estou! Ouves? C estou e vou continuar a lutar! B" < A# " B"