{\pwi, TahomaCourier New/=  =@ss V#########"##################%#*#;A#& #z#######3[#0#L#T#5#(?######3E#B#+#EL#$#(-##&##0#-# X######D #\####F=####'#&#%#$##### N#7#2'#@#+#%######H#0 #2H#3[#>f##P#:&#7#2c####!#5######5#0###A#V]" Sermo de Santo Antnio aos Peixes Pregado na cidade de S. Lus do Maranho em 1654B"   A# " B" A#" Padre Antnio VieiraB" A# " B" A#$" 1996, Parque EXPO 98. S.A.B" A# " B" A# " ISBN 972-8127-78-2B" A#" Lisboa, Maro de 1997B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " SERMO DE SANTOB" A# " ANTNIO AOS PEIXESB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#  " IB"$ A# " B" A# " B" A#" Vos estis sal terrae B" A# " B" A# " B" A#%" Vs, diz Cristo, senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que faam na terra o que faz o sal. O efeito do sal impedir a corrupo, mas quando a terra se v to corrupta como est a nossa, havendo tantos nela que tm ofcio de sal, qual ser, ou qual pode ser a causa desta corrupo? Ou porque o sal no salga, ou porque a terra se no deixa salgar. Ou porque o sal no salga, e os pregadores no pregam a verdadeira doutrina, ou porque a terra se no deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe do, a no querem receber. Ou porque o sal no salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra, ou porque a terra se no deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem que fazer o que dizem; ou porque o sal no salga, e os pregadores se pregam a si e no a Cristo, ou porque a terra se no deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servil a Cristo, servem a seus apetites. No tudo isto verdade? Ainda mal. B"]<           `       `      <        `     A#*1" Suposto pois que ou o sal no salgue ou a terra se no deixe salgar, que se h-de fazer a este sal e que se h-de fazer a esta terra? O que se h-de fazer ao sal que no salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab hominibus : Se o sal perder a substncia e a virtude, e o pregador faltar doutrina e ao exemplo, o que se lhe h-de fazer lan-lo fora como intil para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a no pronunciara? Assim como no h quem seja mais digno de reverncia e de ser posto sob"e a cabea que o pregador que ensina e faz o que deve, assim merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos ps o que com a palavra ou com a vida prega o contrrio. B"K `         `    `   `  <       `     A#AH;" Isto o que se deve fazer ao sal que no salga. E terra, que se no deixa salgar, que se lhe h-de fazer? Este ponto no resolveu Cristo, senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resoluo do nosso grande portugus Santo Antnio, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resoluo que nenhum santo tomou. Pregava Santo Antnio em Itlia, na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento so dificultosos de arrancar, no s no fazia fruto o Santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe no tirassem a vida. Que faria neste caso o nimo generoso do grande Antnio? Sacudiria o p dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas Antnio, com os ps descalos, no podia fazer esta protestao; e uns ps, a que se no pegou nada da terra, no tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria por ventura a prudncia ou a covardia humana; mas o zelo da glria divina, que ardia naquele peito, no se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o plpito e o auditrio, mas no desistiu da doutrina. Deixa as praas, vai-se s praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e comea a dizer a altas vozes: J que me no querem ouvir os homens, ouam-me os peixes! Oh! maravilhas do Altssimo! Oh! poderes do que criou o mar e a terra! Comeam a ferver as ondas, comeam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos; e, postos todos por sua ordem com as cabeas de fora da gua, Antnio pregava, e eles ouviam. B"   `        < `          `   `     ` `    `     `       < `      `      A#  &" Se a Igreja quer que preguemos de Santo Antnio sobre o Evangelho, d-nos outro. Vos estis sal terrae: muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo Antnio vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra, Santo Antnio foi sal da terra e foi sal do mar. Este o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas h muitos dias que tenho metido no pensamento que nas festas dos santos melhor pregar como eles que pregar deles. Quanto mais que o sal da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna to parecida de Santo Antnio em Arimino, que fora segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja e noutras, de manh e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito slida, muito verdadeira, e a que mais necessria e importante a esta terra, para emenda e reforma dos vcios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vs o sabeis, e eu por vs o sinto. B"_                 `  `   < `      `   `      A#gz" Isto suposto, quero hoje, imitao de Santo Antnio, voltar-me da terra ao mar, e j que os homens se no aproveitam, pregar aos peixes. O mar est to perto que bem me ouviro. Os demais podem deixar o sermo, pois no para eles. Maria quer dizer Domina maris: Senhora do mar. E posto que o assunto seja desusado, espero que me no falte com a costumada graa. Ave Maria. B"#   <           A# " B" A# " B" A#  " IIB"H A# " B" A# " B" A#" Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes!? Nunca pior auditrio. Ao menos tm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e no falam. Uma s coisa pudera desconsolar ao pregador, que serem gente os peixes que se no h-de converter. Mas esta dor to ordinria, que j pelo costume quase se no sente. Por esta causa no falarei hoje em cu nem inferno: e assim ser menos triste este sermo do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre lembrana destes dois fins. B"-    `        <   `   A#_[b3" Vos estis sal terrae. Haveis de saber irmos peixes, que o sal, filho do mar como vs, tem duas propriedades, as quais em vs mesmos se experimentam: conservar o so, e perserv-lo, para que se no corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregaes do vosso pregador Santo Antnio, como tambm as devem ter as de todos os pregadores. Uma louvar o bem, outra repreender o mal; louvar o bem para o conservar, e repreender o mal para preservar dele. Nem cuides que isto pertence s aos homens, porque tambm nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Baslio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis et quae prosequenda sunt imitatione . No s h que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, seno tambm que imitar e louvar. Quando Cristo comparou a sua Igreja rede de pescar: Sagenae missae in mare , diz que os pescadores recolheram os peixes bons e lanaram fora os maus: Collegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt . E onde h bons e maus, h que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermo em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vcios. E desta maneira satisfaremos s obrigaes do sal, que melhor vos est ouvi-las vivos que experiment-las depois de mortos. B"           `     `     <         `         <      <  `     A#L0" Comeando, pois, pelos vossos louvores, irmos peixes, bem vos pudera eu dizer que, entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vs fostes as primeiras que Deus criou. A vs primeiro que s aves do mar, a vs primeiro que aos animais da terra, e a vs primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia e domnio de todos os animais dos trs elementos, e nas provises em que o honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut proesit piscibus maris et volatilibus coeli et bestis universoeque terrae . Entre todos os animais do mundo, os peixes so os mais, e os peixes os maiores. Que comparao tm em nmero as espcies das aves e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparao na grandeza o elefante com a baleia? Por isso Moiss, cronista da Criao, calando os nomes de todos os animais, s a ela nomeou pelo seu: Creavit Deus cete grandia . E os trs msicos da fornalha de Babilnia o cantaram tambm como singular entre todos: Benedicite, cete, et omnia quoe moventur in aquis, Domino . Estes e outros louvores, estas e outras excelncias de vossa gerao e grandeza vos pudera dizer, peixes; mas isto l para os homens, que se deixam levar destas vaidades, e tambm para os lugares em que tem lugar a adulao, e no para o plpito.B"x  ` `                  `       `      <    < `    `     A#L" Vindo, pois, irmos s vossas virtudes, que so as que s podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos aquela obedincia, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e aquela ordem, quietao e ateno com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo Antnio. Oh! grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confuso para os homens! Os homens perseguindo a Antnio, querendo-o lanar da terra, e ainda do mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vcios, porque lhes no queria falar vontade e condescender com seus erros, e ao mesmo tempo os peixes em inumervel concurso acudindo sua voz, atentos e suspensos s suas palavras, escutando com silncio e com sinais de admirao e assenso (como se tiveram entendimento) o que no entendiam! Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens to furiosos e obstinados, e no mar os peixes to quietos e to devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens no em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razo, e no aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razo sem o uso, e os peixes o uso sem a razo. Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoo que tivestes aos pregadores da palavra de Deus, e tanto mais quanto no foi s esta a vez em que assim o fizestes. Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os homens lanaram-no ao mar, a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu levou-o s praias de Ninive, para que l pregasse e salvasse aqueles homens. possvel que os peixes ajudam salvao dos homens, e os homens lanam ao mar os ministros da salvao? Vede, peixes, e no vos venha vanglria, quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo terra. B"                   < `        @ <     < `       <      ` `  `  <      `       <  <    < `   A#5T" Mas porque nestas duas aces teve maior parte a omnipotncia que a natureza (como tambm em todas as milagrosas que obram os homens), passo s virtudes naturais e prprias vossas. Falando dos peixes, Aristteles diz que s eles, entre todos os animais, se no domam nem domesticam. Dos animais terrestres o co to domstico, o cavalo to sujeito, o boi to servial, o bugio to amigo ou to lisonjeiro, e at os lees e os tigres com arte e benefcios se amansam. Dos animais do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem connosco, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o aor nos ajuda e nos recreia; e at as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem a mo de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrrio, l se vivem nos seus mares e rios, l se mergulham nos seus pegos, l se escondem nas suas grutas, e no h nenhum to grande que no fuja dele. Os autores comummente condenam esta condio dos peixes, e a deitam pouca docilidade ou demasiada bruteza; mas eu sou de mui diferente opinio. No condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e me parece que, se no fora natureza, era grande prudncia. Peixes, quanto mais longe dos homens, tanto melhor: trato e familiaridade com eles, Deus nos livre! Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, faam-no muito embora, que com suas penses o fazem. Cante-lhes aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhes ditos o papagaio, mas na sua cadeia; v com eles caa o aor, mas nas suas pioses; faa-lhe bufonerias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o co de lhe roer um osso, mas levado onde no quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios doirados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os lees lhe comem a rao da carne que no caaram no bosque, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vs, peixes, longe dos homens, e fora dessas cortesanias, vivereis s convosco, sim, mas como peixe na gua. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda esta verdade; o qual vos quero lembrar, porque h filsofos que dizem que no tendes memria. B"   ` <          `      `   `  `    `       <               <        `      <     `  ` `  `       `  D A#h5" No tempo de No sucedeu o dilvio, que cobriu e alagou o mundo; e de todos os animais, quais livraram melhor? Dos lees escaparam dois, leo e leoa, e assim dos outros animais da terra; das guias escaparam duas, fmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam; antes, no s escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque no morreram tambm os peixes? Sabeis porqu? Diz Santo Ambrsio: porque os outros animais, como mais domsticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicao com os homens; os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as guas fossem venenosas e matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na fora daquelas ervas com que, inficionados os poos e lagos, a mesma gua vos mata; mas como o dilvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados, ao mundo pelos pecados dos homens, foi altssima providncia da Divina Justia que nele houvesse esta diversidade ou distino, para que o mesmo mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal; e que por isso os animais que viviam mais perto deles foram tambm castigados, e os que andavam longe ficaram livres. Vede, peixes, quo grande bem estar longe dos homens! B"   <        <              `       < <    ` < < ` <           ` A#?F(" Perguntando um grande filsofo qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou tambm Santo Antnio, e foi este um dos benefcios de que vos exortou a dar graas ao Criador, bem vos pudera alegar consigo que, quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa de seus pais e se recolheu ou acolheu a uma Religio, onde professasse perptua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir e se esconder dos homens, mudou o hbito, mudou o nome, e at a si mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinio de idiota, com que no fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu com seus prprios irmos no Captulo Geral de Assis. Dali se retirou a fazer vida solitria em um ermo, do qual nunca sara, se Deus como por fora o no manifestara; e por fim acabou a vida em outro deserto, tanto mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens. B"d     <                      <   <  <    `    A# " B" A# " B" A#  " IIIB"l A# " B" A# " B" A#ZEL3" Este , peixes, em comum o natural que em todos vs louvo, e a felicidade de que vos dou o parabm, no sem inveja. Descendo ao particular, infinita matria fora e se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirvel em cada um de ns. De alguns somente farei meno, E o que tem o primeiro lugar entre todos, como to celebrado na Escritura, aquele santo peixe de Tobias, a quem o Texto Sagrado no d outro nome que de grande, como verdadeiramente o foi nas virtudes interiores, em que s consiste a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o Anjo S. Rafael, que o acompanhava; e descendo a lavar os ps do p do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em aco de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o Anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. F-lo assim Tobias, e perguntando que virtude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o Anjo que o fel era bom para sarar da cegueira, e o corao para lanar fora os demnios: Cordis ejus particulam, si super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus Doemoniorom et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur .B" `                `   `  `     < `               `   `    $ A#B" Assim o disse o Anjo, e assim o mostrou logo a experincia, porque, sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demnio, chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do corao, fugiu dali o mesmo demnio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias o Velho, e lanou os demnios de casa a Tobias o Moo. Um peixe de to bom corao e de to proveitoso fel quem o no louvar muito? Certo que, se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, pareceria um retrato martimo de Santo Antnio. Abria Santo Antnio a boca contra os hereges, e enviava-se a eles, levado do fervor e zelo da f e glria divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias, e assombravam-se com aquele homem, e cuidavam que os queria comer. Ah! homens, se houvesse um anjo que vos revelasse qual o corao desse homem, e esse fel que tanto vos amarga quo proveitoso e quo necessrio vos ! Se vs lhe abrsseis esse peito e lhe vsseis as entranhas, como certo que haveis de achar e conhecer claramente nelas que s duas coisas pretende de vs, e convosco: uma alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lanar-vos os demnios fora de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos demnios perseguis vs? S uma diferena havia entre Santo Antnio e aquele peixe: que o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo Antnio abria a sua contra os que se no queriam lavar. Ah! moradores do Maranho, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas entranhas; vede, vede este corao. Mas, ah! sim, que me no lembrava! Eu vos no prego a vs, prego aos peixes. B"                 `    `        <  `  `                `    ` `   < < `    `    A#-+" Passando dos da Escritura aos da histria natural, quem haver que no louve e admire muito a virtude to celebrada da r mora? No dia de um Santo menor, os peixes menores devem preferir a outros. Quem haver, digo, que no admire a virtude daquele peixinho to pequeno no corpo e to grande na fora e no poder, que, no sendo maior de um palmo, se se pega ao leme de uma nau da ndia, apesar das velas e dos ventos e do seu prprio peso e grandeza, a prende e amarra mais que as mesmas ncoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh! se houvera uma rmora na terra que tivesse tanta fora como a do mar, que menos perigo haveria na vida e que menos naufrgios no mundo! Se alguma rmora houve na terra, foi a lngua de Santo Antnio, na qual como na rmora se verifica o verso de S. Gregrio Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed viribus omnia vincit . O Apstolo Santiago, naquela sua elo quentssima Epstola, compara a lngua ao leme da nau e ao freio do cavalo. Uma e outra comparao juntas declaram maravilhosamente a virtude da rmora, a qual, pegada ao leme da nau, freio da nau, e leme do leme. E tal foi a virtude e fora da lngua de Santo Antnio. B"l    `  `  `  `          <    <   `  <  `        `    A#LSE" O leme da natureza humana o alvedrio; o piloto a razo: mas quo poucas vezes obedecem razo os mpetos precipitados do alvedrio! Neste leme, porm, to desobediente e rebelde, mostrou a lngua de Antnio quanta fora tinha, como rmora, para domar e parar as frias das paixes humanas. Quantos, correndo fortuna na nau Soberba, com as velas inchadas do vento e da mesma soberba, que tambm vento, se iam desfazer nos baixos, que j rebentavam por proa, se a lngua de Antnio, como rmora, no tivesse mo no leme, at que as velas se amainassem, como mandava a razo, e cessasse a tempestade de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na nau "Vingana .. , com a artilharia abocada e os botafogos acesos, corriam infunados a dar-se batalha, onde se queimariam ou deitariam a pique, se a rmora da lngua de Antnio lhes no detivesse a fria, at que composta a ira e o dio, com bandeiras de paz, se salvassem amigavelmente? Quantos, navegando na nau "Cobia .. , sobrecarregada at s gveas, e aberta com o peso por todas as costuras, incapaz de fugir nem se defender, dariam nas mos dos corsrios com perda do que levavam e do que iam buscar, se a lngua de Antnio os no fizesse parar, como rmora, at que, aliviados da carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? Quantos, na nau Sensualidade .. , que sempre navega com sarrao, sem sol de dia nem estrela de noite, enganados do canto das sereias, e deixando-se levar da corrente, se iam perder cegamente ou em Sila ou em Caribdes, onde no aparecesse navio nem navegante, se a rmora da lngua de Antnio os no contivesse, at que esclarecesse a luz, e se pusessem em via? Esta a lngua, peixes, do vosso grande pregador, que tambm foi rmora vossa, enquanto o ouvistes, e porque agora est muda (posto que ainda se conserva inteira), se vem e choram na terra tantos naufrgios.B"      <  `                 <    <          <                    `  `    `     A#$" Mas para que, da admirao de uma to grande virtude vossa, passemos ao louvor ou inveja de outra no menor, admirvel igualmente a qualidade daquele outro peixinho, a que os Latinos chamaram torpedo. Ambos estes peixes conhecemos c mais de fama que de vista; mas isto tm as virtudes grandes, que quanto so maiores, mais se escondem. Est o pescador com a cana na mo, o anzol no fundo e a bola sobre a gua; e em lhe picando na isca a torpedo, comea a lhe tremer o brao. Pode haver maior, mais breve e mais admirvel efeito? De maneira que num momento passa a virtude do peixinho da boca ao anzol, do anzol linha, da linha cana e da cana ao brao do pescador. Com muita razo disse que este vosso louvor o havia de referir com inveja. Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem lhe pusera esta qualidade tremente em tudo o que pescam na terra! Muito pescam, mas no me espanto do muito; o que me espanta que pesquem tanto e que tremam to pouco. Tanto pescar e to pouco tremer!B"Z    `     ` <                  <        A#-4(" Pudera-se fazer problema: onde h mais pescadores e mais modos e traas de pescar, se no mar ou na terra? E certo que na terra. No quero discorrer por eles, ainda que fora grande consolao para os peixes; basta fazer-se a comparao com a cana, pois o instrumento do nosso caso. No mar pescam as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas!): pescam as ginates, pescam as bengalas, pescam os bastes e at os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois possvel que, pescando os homens coisas de tanto peso, lhes no trema a mo e o brao? Se eu pregara aos homens e tivera a lngua de Santo Antnio, eu os fizera tremer. Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um sermo de Santo Antnio, e as palavras do Santo os fizeram tremer a todos, de sorte que todos tremendo se lanaram aos seus ps, todos tremendo confessaram seus furtos, todos tremendo restituram o que podiam (que isto o que faz tremer mais neste pecado que nos outros), todos enfim mudaram de vida e de ofcio, e se emendaram. B"d   < <  `  `    ` <   `  <  <   < `  <       `      @ A#>" Quero acabar este discurso dos louvores e virtudes dos peixes com um que no sei se foi ouvinte de Santo Antnio e aprendeu dele a pregar. A verdade que me pregou a mim, e se eu fora outro, tambm me convertera. B"      `  A#&" Navegando daqui para o Par (que bem que no fiquem de fora os peixes da nossa costa), vi correr pela tona da gua de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que no conhecia; e, como me dissessem que os portugueses lhes chamavam quatro-olhos, quis averiguar ocularmente a razo deste nome, e achei que verdadeiramente tm quatro olhos, em tudo cabais e perfeitos. D graas a Deus -lhe disse -e louva a liberalidade da sua divina Providncia para contigo, pois s guias, que so os linces do ar, deu somente dois olhos, e aos linces, que so as guias da terra, tambm dois; e a ti, peixinho, quatro. Mais me admirei ainda, considerando nesta maravilha a circunstncia do lugar. Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar, nas praias daquelas mesmas terras vastssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes h tantos sculos? Oh! quo altas e incompreensveis so as razes de Deus, e quo profundo o abismo de seus juzos! B"_  <   <      d  <        <    d <             A#" Filosofando, pois, sobre a causa natural desta providncia, notei que aqueles quatro olhos esto lanados um pouco fora do lugar ordinrio, e cada par deles unidos como os dois vidros de um relgio de areia, em tal forma que os da parte superior olham direitamente para baixo. E a razo desta nova arquitectura porque estes peixinhos, que sempre andam na superfcie da gua, no s so perseguidos dos outros peixes maiores do mar, seno tambm de grande quantidade de aves martimas, que vivem naquelas praias; e, como tm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direita mente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes. B"I       <              ` <   <     A#H0" Oh! que bem informara estes quatro olhos numa alma racional, e que bem empregada fora neles, melhor que em muitos homens! Esta a pregao que me fez aquele peixinho, ensinando-me que, se tenho f e uso de razo, s devo olhar direitamente para cima, e s direitamente para baixo: para cima, considerando que h cu, e para baixo lembrando-me que h inferno. No me alegou para isso passo da Escritura; mas ento me ensinou o que quis dizer David em um, que eu no entendia: Averte oculos meos, ne videant vanitatem : Voltai-me, Senhor, os olhos para que no vejam a vaidade. Pois David no podia voltar os seus olhos para onde quisesse? Do modo que ele queria, no. Ele queria voltados os seus olhos de modo que no vissem a vaidade, e isto no o podia fazer neste mundo, para qualquer parte que voltasse os olhos, porque neste mundo tudo vaidade: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas . Logo para no verem os olhos de David a vaidade, havia-lhos de voltar Deus de modo que s vissem e olhassem para o outro mundo em ambos seus hemisfrios; ou para o de cima, olhando direita mente s para o cu, ou para o de baixo, olhando direitamente s para o inferno. E esta a merc que pedia a Deus aquele grande Profeta, e esta a doutrina que me pregou aquele peixinho to pequeno. B"x    <             < <    `    `  <   <        `         A#>-" Mas ainda que o cu e o inferno se no fizeram para vs, irmos peixes, acabo e dou fim a vossos louvores, com vos dar as graas do muito que ajudais a ir ao cu e no ao inferno os que se sustentam de vs. Vs sois os que sustentais as Cartuxas e os Buacos, e todas as santas famlias que professam mais rigorosa austeridade; vs os que a todos os verdadeiros cristos ajudais a levar a penitncia das Quaresmas; vs aqueles com que o mesmo Cristo festejou a sua Pscoa, as duas vezes que comeu com seus discpulos depois de ressuscitado. Prezem-se as aves e os animais terrestres de fazer esplndidos e custosos os banquetes dos rios, e vs gloriai-vos de ser companheiros do jejum e da abstinncia dos justos. Tendes todos quantos sois tanto parentesco e simpatia com a vaidade, que proibindo Deus no jejum a pior e mais grosseira carne, concede o melhor e mais delicado peixe. E posto que na semana s dois se chamam vossos, nenhum dia vos vedado. Um s lugar vos deram os artrlogos entre os signos celestes; mas os que s de vs se mantm na terra, so os que tem mais seguros os lugares do cu. Enfim, sois criaturas daquele elemento, cuja fecundidade entre todos prpria do Esprito Santo: Spiritus Domini foecundabat aquas .B"q<    `           <                           ` `  A#X_ " Deitou-vos Deus a bno, que crescsseis e multiplicsseis; e para que o Senhor vos confirme essa bno, lembrai-vos de no faltar aos pobres com o seu remdio. Entendi que no sustento dos pobres tendes seguros os vossos aumentos. Tomai o exemplo nas irms sardinhas. Porque cuidais que as multiplica o Criador em nmero to inumervel? Porque so sustento dos pobres. Os solhos e os salmes so muito contados, porque servem mesa dos reis e dos poderosos; mas o peixe que sustenta a fome dos pobres de Cristo, o mesmo Cristo o multiplica e aumenta. Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pes do deserto multiplicaram tanto que deram de comer a cinco mil homens. Pois, se os peixes mortos, que sustentam a pobres, multiplicam tanto, quanto mais e melhor o faro os vivos! Crescei, peixes, crescei e multiplicai, e Deus vos confirme a sua bno. B"P   `   <             `       <  ` <   A# " B" A# " B" A#  " IV B"l A# " B" A# " B" A# D" Antes, porm, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi tambm agora as vossas repreenses. Servir-vos-o de confuso, j que no seja de emenda. A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vs, que vos comeis uns aos outros. Grande escndalo este, mas a circunstncia o faz ainda maior. No s vos comeis uns aos outros, seno que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrrio, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, no bastam cem pequenos, nem mil, para um s grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, proeversisque cupiditatibus facti sunt veluti pisces invicem se devorantes: Os homens, com suas ms e perversas cobias, vm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. To alheia coisa , no s da razo, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidados da mesma ptria, e todos finalmente irmos, vivais de vos comer. Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escndalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quo feio e abominvel , quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, l do mar para a terra. No, no; no isso o que vos digo. Vs virais os olhos para os matos e para o serto? Para c, para c; para a cidade que haveis de olhar. Cuidais que s os tapuias se comem uns aos outros; muito maior aougue o de c, muito mais se comem os brancos. Vedes vs todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer s praas e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as caladas, vedes aquele entrar e sair sem quietao nem sossego? Pois tudo aquilo andarem buscando os homens como ho-de comer, e como se ho-de comer.B"             <      ` `     ` `          `   `       `      ` `    `     `   < <  A#\c" Morreu algum deles: vereis logo tantos sobre o miservel e despeda-lo e com-lo. Comem-no os herdeiros; comem-no os testamenteiros; comem-no os legatrios; comem-no os acre dores; comem-no os oficiais dos rfos e os dos defuntos e ausentes; come-o o mdico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador, que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher que de m vontade lhe d para mortalha e lenol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o no comeu a terra, e j o tem comido toda a terra. B":     < < `   <  <       `    A##" J se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matria de sentimento. Mas, para que conheais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que tambm os vossos homens se comem vivos, assim como vs. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamim? Porque me perseguis to desumanamente, vs, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne? Quereis ver um Job destes? Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o esto comendo. Come-o o meirinho, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda no est sentenciado e j est comido. So piores os homens que os corvos. O triste que foi forca, no o comem os corvos seno depois de executado e morto; e o que anda em juzo, ainda no est executado nem sentenciado e j est comido.B"X     ` <   <   <     `  `                A#" E para que vejais como estes comidos na terra so os pequenos, e pelos mesmos modos com que vs vos comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam, ut cibum panis ? Cuidais, diz Deus, que no h-de vir tempo em que conheam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade? E que maldade esta, qual Deus singularmente chama a maldade, como se no houvera outra no mundo? E quem so aqueles que a cometem? A maldade comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem so os maiores, que comem os pequenos: Quis devorant plebem meam, ut cibum panis.B"? < `      `    ` `     ` <    `   A#=DF" Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas coisas, quantas so as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens no s o seu povo, seno declaradamente a sua plebe: Plebem meam; porque a plebe e os plebeus, que so os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na repblica, estes so os comidos. E no s diz que os comem de qualquer modo, seno que os engolem e os devoram: Qui devorant: Porque os grandes que tm o mando das cidades e das provncias, no se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, seno que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: no como os outros comeres, seno como po. A diferena que h entre o po e os outros comeres, que para a carne h dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porm o po comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto o que padecem os pequenos: so o po quotidiano dos grandes; e assim como o po se come com tudo, assim com tudo e em tudo so comidos os miserveis pequenos, no tendo nem fazendo ofcio em que os no carreguem, em que os no multem, em que os no defraudem, em que os no comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis. Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeas estais todos dizendo que no, e com olhardes uns para os outros vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustia e maldade. Pois isto mesmo o que vs fazeis. Os maiores comem os pequenos; e os muito grandes no s os comem um por um, seno os cardumes inteiros, e isto continuadamente, sem diferena de tempos, no s de dia, seno tambm de noite, s claras e s escuras, como tambm fazem os homens.B"         `    `    <       `    <        <      `    `  `        `       @   <    A##" Se cuidais, porventura, que estas injustias entre vs se toleram e passam sem castigos, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim tambm por seu modo as castiga em vs. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e, quando menos, ouvireis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miserveis remeiros delas que os maiores que c foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruram; porque toda a fome que de l traziam a fartavam em comer e devorar os pequenos. Assim foi. Mas se entre vs se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vo com eles a Portugal e tornam para os mares ptrios, bem ouviriam estes l no Tejo que esses mesmos maiores que c comiam os pequenos, quando l chegam acham outros maiores que os comam tambm a eles. Este o estilo da Divina Justia, to antigo e manifesto, que at os Gentios o conheceram e celebraram: B"X    `     <   <  <    `                 A# " B" A#'." Vos quibus rector maris, atque terrae B"`  A#&-" Jus dedit magnum necis, atque vitae, B"  A#%," Ponite inflatos, tumidosque vultus: B"   A#$+" Quidquid a vobis minor extimescit, B"   A##*" Major hoc vobis Dominus minatur . B"<  h A# " B" A#  " B"$ A#NU " Notai, peixes, aquela definio de Deus: Rector maris atque terrae -Governador do mar e da terra, para que no duvideis que o mesmo estilo, que Deus guarda com os homens na terra, observa tambm convosco no mar. Necessrio logo que olheis por vs e que no faais pouco caso da doutrina que vos deu o grande doutor da Igreja Santo Ambrsio, quando, falando convosco, disse: Cave ne dum alium insequeris, incidas in validiorem : Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o comer, no se ache na boca do mais forte, que o engula a ele. Ns o vemos aqui cada dia. Vai o xaru correndo atrs do bagre, como o co atrs da lebre, e no v o cego que lhe vem nas costas o tubaro com quatro ordens de dentes, que o h-de engolir de um bocado. o que com maior elegncia vos disse tambm Santo Agostinho: Proedo minoris fit proeda majoris .B"P   `   <    `      `      <        <  A#7" Mas no bastam, peixes, estes exemplos, para que acabe de se persuadir a vossa gula, que a mesma crueldade que usais com os pequenos tem j aparelhado o castigo na voracidade dos grandes. J que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que daqui por diante sejais mais repblicos e zelosos do bem comum, e que este prevalea contra o apetite particular de cada um, para que no suceda que, assim como hoje vemos a muitos de vs to diminudos, vos venhais a consumir de todo. No vos bastam tantos inimigos de fora e tantos perseguidores to astutos e pertinazes, quantos so os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de vos pr em cerco e fazer guerra por tantos modos? No vedes que contra vs se emalham e entralham as redes; contra vs se tecem as nassas; contra vz se torcem as linhas; contra vs se dobram e farpam os anzis; contra vs as fisgas e os arpes? No vedes que contra vs at as canas so lanas e as cortias armas ofensivas? No vos basta, pois, que tenhais tantos e to armados inimigos de fora, seno que tambm vs de vossas portas a dentro o haveis de ser mais cruis, perseguindo-vos com uma guerra mais que civil, e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse j, irmos peixes, e tenha fim algum dia esta to perniciosa discrdia; e pois vos chamei e sois irmos, lembrai-vos das obrigaes deste nome. No estveis vs muito quietos, muito pacficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava Santo Antnio? Pois continuai assim e sereis felizes.B"     <        `           <     `      `        <           < A#R'.2" Dir-me-eis (como tambm dizem os homens) que no tendes outro modo de vos sustentar. E de que se sustentam entre vs muitos que no comem os outros? O mar muito largo, muito frtil, muito abundante, e s com o que bota s praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro dele. Comerem-se uns animais aos outros voracidade e sevcia, e no estatuto da natureza. Os da terra e do ar, que hoje se comem, no princpio do mundo no se comiam, sendo assim conveniente e necessrio para que as espcies de todos se multiplicassem. O mesmo foi, e ainda mais claramente, depois do Dilvio, porque tendo escapado somente dois de cada espcie, mal se podiam conservar, se se comessem. E finalmente no tempo do mesmo Dilvio, em que todos viveram juntos dentro da Arca, o lobo estava vendo o cordeiro, o gavio a perdiz, o leo o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se acaso l tiveram essa tentao, todos lhe resistiram e se acomodaram com a rao do paiol comum, que No lhes repartia. Pois se os animais dos outros elementos mais clidos foram capazes desta temperana, porque o no sero os da gua? Enfim, se eles em tantas ocasies, pelo desejo natural da prpria conservao e aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vs tambm; ou fazei a virtude sem necessidade, e ser maior virtude. B"}                    `   < <   `      `    `   ` <         D A#@" Outra coisa muito geral, que no tanto me desedifica, quanto me lastima, em muitos de vs, aquela to notvel ignorncia e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedao de pano cortado e aberto em duas ou trs pontas, lana-o por um cabo delgado at tocar na gua, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, at que, assim suspenso no ar, ou lanado no convs, acaba de morrer. Pode haver maior ignorncia e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida! Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. No vo-lo nego. D um exrcito batalha contra outro exrcito, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuos e das espadas, e porqu? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade, entre os vcios, o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Pe por isca nas pontas desses piques, desses chuos e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hbito de Malta, ou verde, que se chama de Aviz, ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, no reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vs. O que engoliu o ferro, ou ali ou noutra ocasio, ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vs, posto que me parece que no foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque c no Maranho, ainda que se derrame tanto sangue, no h exrcitos nem esta ambio de hbitos. B" `           <     `   <       <   `     <               `         <     D A#(+" Mas nem por isso vos negarei que tambm c se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignoradamente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranho, e com qu? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lgeas, com quatro panos e quatro sedas, que j se lhe passou a era e no tem gasto. E que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra; d-lhe uma sacadela e d-lhe outra, com que cada vez lhe sobe mais o preo; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos; e ali ficam engasgados e presos, com dvidas de um ano para o outro ano e de uma safra para outra safra, e l vai a vida. Isto no encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roa, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? No o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapearias, nem as pinturas, nem as baxelas, nem as jias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem rua. E para isso se matam todo o ano!B"l <                 <    ` `    `    ` <           A#%" No isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro est que sim; nem vs o podeis negar. Pois se grande loucura esperdiar a vida por dois retalhos de pano quem tem obrigao de se vestir, vs, a quem Deus vestiu do p at cabea, ou de peles de to vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem nem gastam com o tempo nem se variam ou podem variar com as modas, no maior ignorncia e maior cegueira deixares-vos enganar, ou deixares-vos tomar pelo beio com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo Antnio, que pouco O pde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moo e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cnego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda e com aquele pano pescou ele muitos, e s estes se no enganaram e foram sisudos. B"]`    <              `  ` `                A# " B" A# " B" A#  " VB"$ A# " B" A# " B" A#H" Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vs. E, comeando aqui pela vossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram a riso como a ira. possvel que, sendo vs uns peixinhos to pequenos, haveis de ser as roncas do mar? Se com uma linha de coser e um alfinete torcido vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque no ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada tem pouca lngua. Isto no regra geral; mas regra geral que Deus no quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha to boa espada, que ele s avanou contra um exrcito inteiro de soldados romanos; e, se Cristo lha no mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco. Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado Pedro, que, se todos fraqueassem, s ele havia de ser constante at morrer, se fosse necessrio; e foi tanto pelo contrrio, que s ele fraque ou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. Antes disso j tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no Horto que vigiasse; e vindo da a pouco ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido que no s o acordou do sono, seno tambm do que tinha brasonado Sic non potuisti una hora vigilare mecum ? Vs, Pedro, sois o valente que haveis de morrer por mim, e no pudestes uma hora vigiar comigo? Pouco h, tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasio, sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmos roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quo pouco fundamento tendes de brasonar, nem roncar.B"  `    `              `            <   `              `          ` <            A#K 0" Se as baleias roncaram, tinha mais desculpas a sua arrogncia na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas baleias no seria essa arrogncia segura. O que a baleia entre os peixes era o gigante Golias entre os homens. Se o rio Jordo e o mar de Tiberades tm comunicao com o Oceano, como devem ter, pois dele manam todos, bem deveis saber que este gigante era a ronca dos Filisteus. Quarenta dias contnuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel. sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo que fim teve toda aquela arrogncia? Bastou um pastorzinho com cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; e quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho calar e imitar a Santo Antnio. Duas coisas h nos homens que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifaz roncava de saber: Vos nescitis quidquam . Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo ? E ambos contra Cristo. Mas o fiel servo de Cristo, Antnio, tendo tanto saber, como j vos disse, e tanto poder, como vs mesmos experimentastes, ningum houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais brasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho brado. B"x     `         < <           `            <    `  `    A#ZHO2" Nesta viagem, que fiz meno, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado tambm aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque, sendo pequenos, no se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhe pegam aos costados, que jamais os desaferram. De alguns animais de menos fora e indstria se conta que vo seguindo de longe aos lees na caa, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, to seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande no pode dobrar a cabea nem voltar a boca sobre o que traz s costas, e assim lhe sustenta o peso e mais a fome. Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos portugueses o navegaram; porque no parte Viso-Rei ou Governador para as Conquistas, que no v rodeado de pegadores, os quais se arrimam a ele para que c lhe matem a fome, de que l no tinham remdio. Os menos ignorantes, desenganados da experincia, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados merc e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar. B"}              <          `   `   <    `    `    d        A#_[b3" Rodeia a nau o tubaro, nas calmarias da Linha, com os seus pegadores s costas, to cerzidos com a pele que mais parecem remendos ou manchas naturais que os hspedes ou companheiros. Lanam-lhe um anzol de cadeia com a rao de quatro soldados: arremessa-se furiosamente presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a al-lo acima, bate fortemente o convs com os ltimos arrancos; enfim, morre o tubaro, e morrem com ele os pegadores. Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ter Apstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o Anjo a Jos no Egipto, e disse-lhe que j se podia tornar para a ptria, porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino: Defuncti sunt enim qui qurerebant animam Puer . Os que queriam tirar a vida a Cristo Menino eram Herodes e todos os seus, toda a sua famlia, todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois possvel que todos estes morressem juntamente com Herodes? Sim; porque em morrendo o tubaro, morrem tambm com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui qurerebant animan Puer . Eis aqui, peixinhos ignorantes e miserveis, quo errado e enganoso este modo de vida que escolhestes. Tomai exemplo nos homens, pois eles o no tomam em vs, nem seguem, como deveram, o de Santo Antnio. B"          `        `       `        < `     `   `      <   A#fm>" Deus tambm tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est . Peguem-se outros aos grandes da terra, que eu s me quero pegar a Deus. Assim o fez tambm Santo Antnio; e seno, olhai o mesmo Santo e vede como est pegado com Cristo, e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois ali o pegador; e parece que Cristo, porque o menor sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se to pequenino, para se pegar a Antnio. Mas Antnio tambm se fez menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue que todos os que se pegam a Deus, que imortal, seguros esto de morrer como os outros pegadores. E to seguros, que ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu, s morreu para que no morressem todos os que se pegassem a ele. Bem se viu nos que estavam j pegados, quando disse: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire : Se me buscais a mim, deixai ir a estes. E posto que deste modo s se podem pegar os homens, e vs, meus peixinhos, no, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que, quando se chegam aos grandes e se emparam do seu poder, no se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. L diz a Escritura daquela famosa rvore, em que era significado o grande Nabucodonosor, que todas as aves do cu descansavam sobre seus ramos, e todos os animais da terra se recolhiam sua sombra e uns e outros se sustentavam de seus frutos; mas tambm diz que, tanto que foi cortada esta rvore, as aves voaram e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas no de tal maneira pegados que vos mateis por ele, nem morrais com eles.B"< `      <    <  < ` <        < <  <     `      `         `          <  < <   D A#" Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram quele peixe grande, e porqu. O tubaro morreu porque comeu, e eles morreram pelo que no comeram. Pode haver maior ignorncia que morrer pela fome e boca alheia? Que morra o tubaro porque comeu -matou-o a sua gula; mas que morra o pegador pelo que no comeu, a maior desgraa que se pode imaginar! No cuidei que tambm nos peixes havia pecado original! Ns, os homens, fomos to desgraados, que outrem comeu e ns o pagmos. Toda a nossa morte teve princpio na gulodice de Ado e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraa! Mas ns lavamo-nos desta desgraa com uma pouca de gua, e vs no vos podeis lavar da vossa ignorncia com quanta gua tem o mar.B"F  <             ` d   <         A#,P" Com os voadores tenho tambm uma palavra, e no pequena a queixa. Dizei-me, voadores, no vos fez Deus para peixes? Pois por que vos meteis a ser aves? O mar f-lo Deus para vs, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com o nadar, e no queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos no conheceis, olhai para as vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que no sois ave, seno peixe, e ainda entre os peixes no dos melhores. Dir-me-eis, voador, que vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros do vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas por isso haveis de fazer das barbatanas asas? Mas ainda mal, porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo. Quisestes ser melhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino que todos. Aos outros peixes do alto, mata-os o anzol ou a fisga; a vs, sem fisga nem anzol, mata-vos a vossa presuno e o nosso capricho. Vai o navio navegando e o marinheiro dormindo, e o voador toca na vela ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca; ao voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que voar por cima das antenas e cair morto! Grande ambio que, sendo o mar to imenso, lhe no basta a um peixe to pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vede, peixes, o castigo da ambio. O voador f-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que tenha os perigos da ave e mais os de peixe. Todas as velas para ele so redes, como peixe, e todas as cordas laos, como ave. V, voador, como correu pela posta o teu castigo. Pouco h, nadavas vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convs, amortalhado nas asas. No contente com ser peixe, quiseste ser ave, e j no s ave nem peixe; nem voar poders j, nem nadar. A natureza deu-te a gua; tu no quiseste seno o ar, e eu j te vejo posto ao fogo. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o voador no quisera passar do segundo ao terceiro, no viera a parar no quarto. Bem seguro estava ele do fogo quando nadava na gua, mas, porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-lhe a queimar as asas.B"             < < `   <               `  <   `     <   `                         `  `      @ A#&-:" vista deste exemplo, peixes, tomai todos na memria esta sentena: Quem quer mais do que lhe convm, perde o que quer e o que tem. Quem pode nadar, e quer voar, tempo vir em que no voe nem nade. Ouvi o caso de um voador da terra. Simo Mago, a quem a arte mgica, na qual era famosssimo, deu o sobrenome, fingindo-se que ele era o verdadeiro filho de Deus, sinalou o dia em que nos olhos de toda Roma havia de subir ao cu; e com efeito comeou a voar mui alto; porm a orao de S. Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que ele, e caindo l de cima o Mago, no quis Deus que morresse logo, seno que, nos olhos tambm de todos, quebrasse, como quebrou, os ps. No quero que repareis no castigo, seno no gnero dele. Que caia Simo, est muito bem cado; que morra, tambm estaria muito bem morto, que o seu atrevimento e a sua arte diablica o mereciam. Mas que de uma queda to alta no rebente, nem quebre a cabea ou os braos, seno os ps? Sim, diz S. Mximo, porque quem tem ps para andar e quer asas para voar, justo que perca as asas e mais os ps. Elegantemente o Santo Padre: Ut qui paulo ante volare tentaverat, subito ambulare non posset, et qui pennas assumpserat, plantas amitteret . E Simo tem ps, e quer asas; pode andar, e quer voar? Pois quebrem-se-lhe as asas, para que no voe, e tambm os ps, para que no ande. Eis aqui, voadores do mar, o que sucede aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se o mar tomara exemplo nos rios, depois que caro se afogou no Danbio, no haveria tantos caros no Oceano.B"    `            `   `      `   `       ` `     <     `      `      A#t7" alma de Antnio, que s vs tivestes asas e voastes sem perigo, porque soubestes voar para baixo e no para cima! J S. Joo viu no Apocalipse aquela mulher, cujo ornato gastou todas as suas luzes ao firmamento, e diz que lhe foram dadas duas grandes asas de guia: Datoe sunt mulieri aloe dure maquilhe magnoe . E para qu? Ut volaret in desertum : Para voar ao deserto. Notvel coisa, que no debalde lhe chamou o mesmo Profeta grande maravilha. Esta mulher estava no cu: Signum magnum apparuit in coelo, mulier amicta sole . Pois se a mulher estava no cu e o deserto na terra, como lhe do asas para voar ao deserto? Porque h asas para subir e asas para descer. As asas para subir so muito perigosas; as asas para descer muito seguras; e tais foram as de Santo Antnio. Deram-se alma de Santo Antnio duas asas de guia, que foi aquela duplicada sabedoria, natural e sobrenatural, to sublime, como sabemos. E ele que fez? No estendeu as asas para subir, encolheu-as para descer, e to encolhidas que, sendo Arca do Testamento, era reputado, como j vos disse, por leigo e sem cincia. Voadores do mar (no falo como os da terra), imitai o vosso santo pregador. Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem servir de asas, no as estendais para subir; por que no suceda encontrar com alguma vela ou algum costado; encolhei-as para descer, ide-vos meter no fundo em alguma cova; e se a estiverdes mais escondidos, estareis mais seguros.B"    d         `      < `      <   `  `     <    `       <   `     A#acj2" Mas j que estamos seguros nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos l o irmo polvo, contra o qual tm suas queixas, e grandes, no menos que S. Baslio e Santo Antnio. O polvo com aquele seu capelo na cabea, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele no ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansido. E debaixo desta aparncia to modesta, ou desta hipocrisia to santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja Latina e Grega que o dito polvo o maior traidor do mar. Consiste esta traio do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas coisas a que est pegado. As cores, que no camaleo so gala, no polvo so malcia; as figuras, que em Proteu so fbula, no polvo so verdade e artifcio. Se est nos limos, faz-se verde; se est na areia, faz-se branco; se est no lodo, faz-se pardo; e se est em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que o outro peixe, inocente da traio, vai passando desacautelado, e o salteador, que est de emboscada dentro do seu prprio engano, lana-lhe os braos de repente, e f-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? No fizera mais; porque nem fez tanto; Judas abraou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo o que abraa e mais o que prende.B"}                 `            `         `   <   ` <     A#t" Judas com os braos fez o sinal, e o polvo dos prprios braos faz as cordas. Judas verdade que foi traidor, mas com lanternas adiante; traou a traio s escuras, mas executou-a muito s claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traio e roubo que faz luz, para que no distinga as cores. V, peixe aleivoso e vil, qual a tua maldade, pois Judas em tua comparao j menos traidor.B"(                 A#" Oh! Que excesso to afrontoso e to indigno de um elemento to puro, to claro e to cristalino como o da gua, espelho natural no s da terra, seno do mesmo cu! L disse o Profeta, por encarecimento, que nas nuvens do ar at a gua escura: Tenebrosa aqua in nubibus aeris . E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento e no gua, a qual em seu prprio elemento sempre clara, difana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir, nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem pblico um monstro to dissimulado, to fingido, to astuto, to enganoso e to conhecidamente traidor!B"A            `   `          < A#" Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo que tambm nelas h falsidade, enganos, fingimentos, embustes, ciladas, e muito maiores e mais perniciosas traies. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, tambm pudreis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito prpria; mas pois vs a calais, eu tambm a calo. Com grande confuso, porm, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois o no posso negar. Mas ponde os olhos em Antnio, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento, ou engano. E sabei tambm que, para haver tudo isto em cada um de ns, bastava antigamente ser portugus, no era necessrio ser santo. B"K                 `   < <   `   <    A#!" Tenho acabado, irmos peixes, os vossos louvores e repreenses, e satisfeito, como vos prometi, s duas obrigaes de sal, posto que do mar e no da terra: Vos estis sal terrae. S resta fazer-vos uma advertncia, muito necessria para os que viveis nestes mares. Como eles so to esparcelados, e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem e do costa muitos navios, com que se enriquece o mar, e a terra se empobrece. Importa, pois, que advirtais que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes ficam excomungados e malditos. Esta pena de excomunho, que gravssima, no se ps a vs, seno aos homens; mas tem mostrado Deus por vezes que, quando os animais cometem materialmente o que proibido por esta lei, tambm eles incorrem, por seu modo, nas penas dela e no mesmo ponto comeam a definhar, at que acabam miseravelmente. B"S                 `                A#m5" Mandou Cristo a S. Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe que tomasse acharia uma moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro, do preo dele e dos outros podia fazer o dinheiro com que pagar aquele tributo, que era de uma s moeda de prata, e de pouco peso. Com que mistrio manda logo o Senhor que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro que os demais? Ora estai atentos. Os peixes no batem moeda no fundo do mar, nem tm contratos com os homens donde lhes possa vir dinheiro: logo, a moeda que este peixe tinha engolido era de algum navio que fizera naufrgio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor que as penas que S. Pedro ou seus sucessores fulminam contra os homens que tomam os bens dos naufragantes, tambm os peixes por seu modo as encorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro que engoliram atravessado na garganta. Oh! que boa doutrina era esta para a terra, se eu no pregara para o mar! Para os homens no h mais miservel morte que o morrer com o alheio atravessado na gaf1:anta, porque pecado de que o mesmo S. Pedro e o mesmo Sumo Pontfice no podem absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de que no so capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal, como neste caso, se materialmente, como tenho dito, se no abstm dos bens dos naufragantes. B"                    `         <       <   `   ` `    <      A# " B" A# " B" A#  " VIB"H A# " B" A# " B" A#i5" Com esta ltima advertncia vos despido, ou me despido de vs, meus peixes. E para que vades consolados do sermo, que no sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolao mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levtico. Na lei eclesistica, ou ritual do Levtico, escolheu Deus certos animais que lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excludos do sacrficio. E quem duvida que esta excluso to universal era digna de grande desconsolao e sentimento para os habitadores de um elemento to nobre que mereceu dar a matria ao primeiro Sacramento? O motivo principal de serem excludos os peixes foi porque os outros animais podiam ir vivos ao sacrifcio, e os peixes geralmente no, seno mortos; e coisa morta no quer Deus que se lhe oferea nem chegue aos seus altares. Tambm este ponto era mui importante e necessrio aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh! quantas almas chegam quele altar mortas, porque chegam e no tm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai muitas graas a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor no chegar ao sacrifcio que chegar morto. Os outros animais ofeream a Deus o ser sacrificados; vs oferecei-lhe o no chegar ao sacrifcio; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e a vida; vs sacrificai-lhe o respeito e a reverncia. B"         @  <  `              < `         <  <              A#M0" Ah! peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora no tomar a Deus nas mos, que tom-lo to indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheo muitas vantagens. A vossa bruteza melhor que a minha razo, e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo; mas vs no ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vs no ofendeis a Deus com a memria; eu discorro, mas vs no ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vs no ofendeis a Deus com a vontade. Vs fostes criados por Deus para servir ao homem e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a Ele, e eu no consigo o fim para que me criou. Vs no haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o no ofendeste. Eu espero que o hei-de ver; mas com que rosto hei-de aparecer diante de seu divino acatamento, se no cesso de o ofender? Ah! que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vs, pois, de um homem que tinha as minhas mesmas obrigaes, disse a Suma Verdade que melhor lhe fora nascer, ou no nascer homem: Si natus non fuisset homo ille . E pois os que nascemos homens respondemos to mal s obrigaes de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graas a Deus pelo vosso. B"x `     <                                `         d A#" Benedicite, cete, et omnia que moventur in aquis, Domino. Louvai, peixes, a Deus, os grandes e os pequenos; e, repartidos em dois coros to inumerveis, louvai-o todos uniformemente. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espcies. Louvai a Deus, que vos vestiu de tanta variedade e formosura. Louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessrios para a vida. Louvai a Deus, que, vindo a este mundo, viveu entre vs e chamou para si aqueles que convosco e de vs viviam. Louvai a Deus, que vos conserva; louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que o fim para que vos criou; e assim como no princpio vos deu sua bno, vo-la d tambm agora. men. Como no sois capazes de glria nem graa, no acaba o vosso sermo em graa e glria. B"I                       ` <    @ A# " B"