ruíram da refeição, 

  re­ti­raram os seus véus, puser­am-​se a jog­ar à bo­la. 

  Co­man­da­va a melo­dia Nausí­caa de alvos braços. 

  Tal co­mo Ártemis lançado­ra do dar­do de­sce pelas 

  [mon­tan­has, 

  pe­lo ex­ten­so Taige­to ou pe­lo Er­iman­to, 

  en­can­ta­da com os javalis e as corças velozes, 

  e com ela brin­cam as nin­fas campestres, fil­has 

  de Zeus de­ten­tor da égide, para deleite de La­tona, 

  mas, aci­ma de to­das, a deusa er­gue a cabeça e o ros­to,

  fá­cil de re­con­hecer, en­tre tan­ta for­mo­sura ... 

  -As­sim se dis­tin­guia en­tre as aias a virgem in­dómi­ta. 

  (VI, 85-109) 

  O des­per­tar de Uliss­es

  Mas quan­do chegou a ho­ra de voltar para casa, 

  de­pois de atre­lar as mu­las e do­brar as lin­das roupas,

  out­ra coisa re­solveu Ate­na de ol­hos garços, 

  para Uliss­es des­per­tar e ver a donzela gra­ciosa, 

  que o guiaria à cidade dos varões da Feá­cia. 

  Lo­go a prince­sa atirou a bo­la para uma aia, 

  a aia não a apan­hou, e caiu na cor­rente pro­fun­da. 

  Soltaram um grande gri­to. Acor­da o di­vi­no Uliss­es, 

  sen­ta-​se e hesi­ta no seu coração e es­píri­to: 

  «Coita­do de mim, a que par­agens dos mor­tais eu 

  [abor­dei? 

  Serão eles in­so­lentes, sel­vagens e sem justiça, 

  ou serão hos­pi­taleiros e de es­píri­to temente aos deuses? 

  Co­mo chegam até mim vozes fres­cas de donze­las, 

  de nin­fas, que habitam das mon­tan­has as al­turas 

  ou as nascentes dos rios, e os pra­dos verde­jantes? 

  Ou estarei eu já per­to dos home­ns dota­dos de fala? 

  Vou in­ves­ti­gar e saber do que se tra­ta.» 

  De­pois de as­sim falar, saiu do ma­to o di­vi­no Uliss­es, 

  e com a mão ro­bus­ta cor­tou na es­pes­sa flo­res­ta 

  um ramo com fol­hagem, para en­co­brir a sua vir­il­idade.

  Avança, tal o leão das mon­tan­has, fi­ado na sua força, 

  que cam­in­ha, fusti­ga­do pela chu­va e pe­lo ven­to. 

  Lam­pe­jam-​lhe os ol­hos, ao perseguir bois e ovel­has 

  ou corças sel­vagens: o ven­tre o im­pele

  até a at­acar carneiros e en­trar em casa cer­ra­da. 

  -As­sim Uliss­es in­ten­ta jun­tar-​se às donze­las 

  de be­las tranças, ape­sar de es­tar nu. A ne­ces­si­dade ur­gia. 

  Mostrou-​se-​lh­es to­do su­jo e mal­trata­do pe­lo mar. 

  Ate­morizadas, fu­gi­ram ca­da uma para seu la­do, até às 

  [mar­gens 

  al­tane­iras. Soz­in­ha fi­cou a fil­ha de Al­cínoo. Ate­na 

  [in­su­flara cor­agem 

  no seu es­píri­to, e ex­tir­para o me­do dos seus mem­bros. 

  Fi­cou para­da em frente dele. Hes­itou Uliss­es, 

  se havia de abraçar os joel­hos da donzela gra­ciosa, 

  ou se de longe im­plorá-​la com palavras do­ces co­mo mel,

  que lhe en­si­nasse o cam­in­ho da cidade e desse que ve­stir. 

  Com estes pen­sa­men­tos, pare­ceu-​lhe ser mel­hor

  im­plorá-​la de longe com palavras do­ces co­mo mel, 

  não fos­se a donzela irar-​se, se lhe abraçasse os joel­hos. 

  (VI, 110-147)

  Uliss­es e Nausí­caa 

  E lo­go pro­feriu es­tas palavras, do­ces e cati­vantes: 

  «Eu te su­pli­co, prince­sa: és deusa ou és mor­tal? 

  Se tu fores al­gu­ma deusa, das que habitam o vas­to céu, 

  a Ártemis te com­paro, à fil­ha do grande Zeus, 

  pe­lo as­pec­to, a es­tatu­ra e a for­ma! 

  Se aca­so és mor­tal, das que habitam so­bre a ter­ra, 

  fe­lizes mil vezes são teu pai e tua mãe ven­eráv­el, 

  fe­lizes mil vezes os teus ir­mãos! Por tua causa o coração 

  se lh­es in­un­da sem­pre de jú­bi­lo, 

  quan­do vêem en­trar na dança este for­moso reben­to. 

  Mas fe­liz, mais que to­dos, em seu coração, aque­le que 

  [vencer os de­mais 

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