Title: Contrabandista
Author: Jorge Amado
CreationDate: Wed Jun 24 14:48:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Apr 22 03:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Con­tra­ban­dista

  Jorge Ama­do

  A pub­li­cação dos ex­cer­tos aqui pub­li­ca­dos, ex­traí­dos do livro Mar Mor­to, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Jorge Ama­do.

  © 1998, Jorge Ama­do e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-45-7

  Lis­boa, Março de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  CON­TRA­BAN­DISTA

  Con­tra­ban­dista

  Ago­ra o fil­ho começa­va a an­dar, brin­ca­va com bar­cos que o vel­ho Fran­cis­co fazia. Aban­don­ados num can­to, sem um ol­har do garo­to se­quer, um trem de fer­ro que Rodol­fo troux­era, o ursin­ho bara­to que Lívia com­prara, o pal­haço que era pre­sente dos tios de Lívia. O bar­co feito de um pedaço de mas­tro que o vel­ho de­ra valia por tu­do. Na ba­cia onde Lívia lava­va roupa ele nave­ga­va sob os ol­hares en­can­ta­dos do garo­to e do an­cião. Ia sem leme, ia sem guia, por is­so nun­ca al­cança­va um por­to, ou fi­ca­va para­do no meio da água, ou an­da­va sem des­ti­no. O meni­no fala­va na sua lín­gua que lem­bra­va a de Toufick, o árabe:

  -Vovô, fá petá.

  O vel­ho Fran­cis­co sabia que ele que­ria que a tem­pes­tade des­en­cade­asse so­bre a ba­cia. Co­mo Ie­man­já, que fazia o ven­to cair so­bre o mar, o vel­ho Fran­cis­co in­cha­va as bochechas e des­en­cadea­va o nordeste so­bre a ba­cia. O po­bre bar­co ro­da­va so­bre si mes­mo, an­da­va ao léu do ven­to rap­ida­mente, o garo­to ba­tia pal­mas com as mãoz­in­has su­jas. O vel­ho Fran­cis­co in­cha­va mais as bochechas, fazia o ven­to mais forte. Asso­vi­ava im­itan­do aque­la canção de morte do Nordeste. As águas da ba­cia, cal­mas co­mo as de um la­go, se ag­itavam, on­das var­ri­am o bar­co, que ter­mi­na­va por se encher de água e afun­dar lenta­mente. O garo­to ba­tia pal­mas, o vel­ho Fran­cis­co via sem­pre com tris­teza o bar­co ir ao fun­do. Ape­sar de ser uma miniatu­ra, fei­ta pelas suas próprias mãos, era de qual­quer maneira um saveiro que afun­da­va. As on­das da ba­cia ser­enavam. Fi­ca­va tu­do co­mo se fos­se um la­go. O saveiro no fun­do vi­ra­do de um la­do. O garo­to metia a mão na ba­cia e trazia o bar­co. O brin­que­do re­começa­va e as­sim cri­ança e vel­ho pas­savam a tarde, de­bruça­dos so­bre uma miniatu­ra do mar, so­bre um saveiro em miniatu­ra, so­bre o ver­dadeiro des­ti­no dos home­ns do mar e dos bar­cos.

  Lívia ol­ha­va com me­do o ur­so, o pal­haço, o trem aban­don­ados. Nun­ca o garo­to fiz­era o trem descar­ri­lar no pas­seio da casa. Nun­ca fiz­era o ur­so matar o pal­haço. Os des­ti­nos da ter­ra não lhe in­ter­es­savam. Seus ol­hos vivos seguiam o pe­queno saveiro na sua lu­ta con­tra a tem­pes­tade que saía das bochechas do vel­ho Fran­cis­co. O ur­so, o pal­haço, o trem aban­don­ados. Uma vez uma es­per­ança encheu o coração de Lívia. Foi no dia em que Fred­eri­co (se chama­va Fred­eri­co) largou a ba­cia em meio à mais fu­riosa tem­pes­tade e foi procu­rar o pal­haço. Quan­do o en­con­trou, pe­gou nele com cuida­do. Lívia seguia aten­ta. Teria ele se cansa­do das tem­pes­tades e naufrá­gios? Teria so­mente se in­ter­es­sa­do pela sorte do bote en­quan­to aqui­lo era uma novi­dade? Volta­va ago­ra, cansa­do, para os out­ros brin­que­dos es­que­ci­dos? Mas não. Ele lev­ou o pal­haço para o bar­co. Que­ria era trans­for­má-​lo em mestre de saveiro, um mestre de saveiro bem es­quisi­to, na ver­dade, com aque­las bom­bachas amare­las e azuis. Mas aparece tan­to mar­in­heiro de es­tran­has ves­ti­men­tas que ninguém se ad­mi­raria de um vesti­do de bom­bachas. E daque­le di