a em di­ante to­das as vezes que o saveiro naufra­ga­va, o pal­hação (lu­tara con­tra a tem­pes­tade até ao úl­ti­mo mo­men­to) se afo­ga­va, mor­ria co­mo um mestre de saveiro. No fun­do da ba­cia seu cor­po de pano in­cha­va co­mo se es­tivesse cheio de siris. O garo­to ba­tia pal­mas, ria para o avô. Fran­cis­co ria tam­bém, o brin­que­do re­começa­va.

  Naufragou tan­to o bar­co, tan­tas vezes se afo­gou o seu mestre, que o pano foi apo­drecen­do e um dia ele fi­cou alei­ja­do de uma per­na. Mas um homem do mar não pede es­mo­la. E o es­tran­ho mar­in­heiro de bom­bachas con­tin­uou a lu­tar con­tra as tem­pes­tades com uma per­na só, en­costa­do no mas­tro do seu bar­co. O garo­to dizia para o vel­ho Fran­cis­co:

  -Babá meu ele.

  O tubarão tin­ha co­mi­do a per­na dele, o vel­ho Fran­cis­co en­ten­dia. De­pois comeu a cabeça, que se de­spren­deu do cor­po no meio de uma tem­pes­tade bra­ba. E mes­mo sem cabeça (era o mar­in­heiro mais es­tran­ho de to­dos os mares) con­tin­uou no leme do seu saveiro, atrav­es­san­do com ele as tem­pes­tades. O garo­to ria, o vel­ho ria. Para eles o mar é ami­go, é doce ami­go.

  Só Lívia não ria. Ol­ha­va o ur­so, o trem aban­don­ados. Para ela o mar é in­imi­go, o mais ter­rív­el dos in­imi­gos. E os home­ns que vivem no mar são co­mo aque­le pal­haço de bom­bachas amare­las e azuis, que a sorte fez mar­in­heiro: mes­mo sem per­na, mes­mo alei­ja­do, lu­ta­va con­tra a fúria do mar, sem um gesto de ódio.

  O garo­to e o vel­ho ri­am. A tem­pes­tade so­pra­va fu­riosa so­bre a ba­cia, o bar­co cor­ria ao sa­bor do ven­to, o mar­in­heiro sem cabeça e sem per­na procu­ra­va gov­ernar seu saveiro.

  O Ron­cador tin­ha-​se trans­for­ma­do no Pa­que­te Voador e fo­ra pin­ta­do de no­vo. Tam­bém se fiz­er­am necessárias no­vas ve­las e o bar­co fi­cou um dos mais velozes do cais da Baía. Dr. Ro­dri­go en­trara com a metade para Gu­ma pa­gar quan­do ter­mi­nasse o paga­men­to da out­ra parte a João Caçu­la. Foi di­vi­di­da es­sa parte em dez prestações men­sais. O din­heiro que tin­ha em casa ele em­pre­gou no con­ser­to do bar­co. E se atirou ao mar, com firmeza. O ano de pra­zo que pedi­ra a Lívia, para con­seguir al­gum din­heiro com que en­trar co­mo só­cio do tio dela, ele o es­ten­deu a dois anos. Porém no fim do primeiro ano ain­da de­via quase tu­do a João Caçu­la e não começara se­quer a pa­gar a parte do Dr. Ro­dri­go. A vi­da para os ca­noeiros e mestres de saveiro tin­ha pi­ora­do muito. Além de haver pou­ca car­ga, era época de pa­radeiro, as tabelas es­tavam muito por baixo, de­vi­do às lan­chas de gasoli­na que fazi­am o trans­porte mais rápi­do e mais bara­to. Pouco din­heiro se gan­ha­va e o cais nun­ca ou­vi­ra tan­ta maldição.

  Lívia já de­san­imara de con­seguir que Gu­ma aban­donasse a vi­da do mar nesse ano. Tra­bal­ha­va ago­ra para que ele pudesse pa­gar o que de­via, pudesse ficar com o saveiro livre. João Caçu­la an­da­va em cima, as prestações es­tavam atrasadas, João Caçu­la tam­bém não ia bem com os batelões que com­prara. Dr. Ro­dri­go não recla­ma­va, mas João Caçu­la vivia em cima de­les, quase não saía da por­ta de Gu­ma, ia es­perá-​lo de vol­ta das vi­agens. Porém não er­am muitas as vi­agens ago­ra. Os mestres de saveiro e os ca­noeiros pas­savam grande parte do tem­po na frente do cais do Mer­ca­do co­men­tan­do a vi­da difí­cil, o pa­radeiro do fim do ano. Quan­do não, iam matar as má­goas no Farol das Es­tre­las, onde seu Babau ain­da fi­ava cachaça, an­otan­do os débitos num cader­no vel­ho de ca­pa es­verdea­da. Gu­ma es­ta­va acei­tan­do to­das as vi­agens, mes­mo quan­do só havia car­ga para levar, aceita­va mes­mo vi­agens pe­que­nas para Ita­pari­ca, 