Tá de­mor­an­do chegar esse dia. 

  Ol­hou para o so­brin­ho, que o pux­ava para ver o saveiro de brin­que­do na ba­cia de água. Falou para a ir­mã: 

  -Tu não que­ria que ele fos­se prà qui­tan­da dos vel­hos? 

  -Gosta­va, sim. 

  -Pois tá em tem­po... 

  -O que é que tu tá queren­do diz­er? -per­gun­tou an­siosa. 

  Ele a es­pi­ou por de­baixo dos ol­hos. Se ela soubesse ain­da sofre­ria mais: 

  -Não é por na­da. Pe­lo meni­no. Tá crescen­do, aca­ba go­stan­do daqui. 

  Ela ain­da es­ta­va de­scon­fi­ada, mas sere­nou um pouco: 

  -Pen­sei que tin­ha al­gu­ma coisa. 

  De re­pente per­gun­tou: 

  -Onde foi que tu ar­ran­jou o din­heiro que em­prestou a Gu­ma? 

  -Eu? -Mas com­preen­deu lo­go. -Eu tin­ha cava­do um troço bom. Ia gas­tar mes­mo aque­le din­heiro... 

  Ela veio al­is­ar a sua cabeça: 

  -Você é tão bom. 

  Gu­ma lev­an­ta­va. En­quan­to Lívia bo­ta­va o café, Rodol­fo falou: 

  -Tu tá meti­do no negó­cio de con­tra­ban­do, não tá? 

  -Co­mo você veio a saber? 

  -Eu sei dis­so tu­do. Uma vez até já vim aqui a man­do de Toufick, mas não falei na­da de pe­na de Lívia. 

  -Daque­la vez? 

  -Sim. 

  -Mas não vou de­mor­ar. É tem­po de pa­gar o saveiro. E fal­ta pouco. 

  -Toma cuida­do. Se esse negó­cio reben­tar, é um es­cân­da­lo dana­do. Com Mu­rad não acon­tece na­da, ele tem mais de dez mil con­tos, se ar­ran­ja. Mas o pau vai ro­lar nas costas dos po­bres co­mo tu. Toma cuida­do. 

  -Não de­moro nesse negó­cio. Não quero que Lívia... 

  -Mais dia menos dia há-​de saber. Que din­heiro tu me to­mou? 

  Gu­ma riu: 

  -Você guen­tou a mão? 

  -Mas quase me atra­pal­ho. Toma cuida­do. Is­so é um troço perigoso. 

  Lívia en­tra­va com o café e uma tal­ha­da de cus­cuz. De­scon­fiou daque­la con­ver­sa em voz baixa: 

  -Que seg­re­do é esse? 

  -Não tem seg­re­do. A gente ta­va fa­lan­do do garo­to. 

  -Rodol­fo tam­bém é de pare­cer que você deve se mu­dar pra jun­to de ti tio. 

  -Por causa do meni­no -fez Rodol­fo. 

  -Deixa eu acabar de pa­gar o Pa­que­te, ne­gra. Gan­ho uns co­bres, a gente faz o negó­cio. E ago­ra já tá tão per­to. 

  Pe­gou a mul­her pela cin­tu­ra. Ela se sen­tou no seu co­lo: 

  -Ten­ho tan­to me­do... 

  Rodol­fo baixou a cabeça. 

  A se­gun­da vez foi um car­rega­men­to pe­queno de meias france­sas para sen­ho­ras e per­fumes. Gu­ma re­ce­beu cem mil-​réis. Tu­do cor­rera bem. Des­ta vez F. Mu­rad fo­ra no saveiro e tivera uma lon­ga palestra com um cav­al­heiro do navio. De­pois pagou uma grande quan­tia em din­heiro. Quan­do voltaram F. Mu­rad lhe disse, fazen­do uma cara séria: 

  -Você nun­ca me viu ir a bor­do de navio nen­hum, ra­paz. 

  -Não pre­cisa avis­ar. 

  -Tive saben­do umas coisas de você. Dizem que é um ra­paz de cor­agem. Quan­to ain­da deve do seu saveiro?

  -Pa­gan­do ess­es cem, fi­co de­ven­do só trezen­tos e cin­quen­ta. 

  -Com mais umas pou­cas vi­agens você es­tá com o saveiro livre. De­pois vai nos deixar? 

  -Deixar de tra­bal­har para o sen­hor? Acho que vou, sim. 

  -Vai? 

  -Foi o que disse a seu Toufick. En­tra­va nis­so mas po­dia sair na ho­ra que quisesse. En­trei só pra pa­gar meu bar­co. 

  -Ninguém lhe im­pede de sair. 

  -Não ten­ha me­do que min­ha bo­ca não se abre pra con­tar na­da.

  -Não ten­ho me­do dis­so. Sei que você é um ra­paz di­re­ito. Mas acho que se você fi­cas­se com a gente po­dia gan­har muito din­heiro.

  Botou a mão no om­bro de Gu­ma: 

  -Acha o serviço muito perigoso? 

  -Ten­ho mul­her e fil­ho. Aman­hã a Polí­cia dá em cima... (se lem­bra­va das palavras de Rodol­fo)... ao sen­hor não vai acon­te­cer na­da. O sen­hor é po­dre de ri­co