. A coisa cai é em cima de mim. 

  F. Mu­rad baixou mais a voz: 

  -Você pen­sa que ninguém sabe que eu con­tra­ban­deio? Na Polí­cia tem gente com­pra­da. Vai ser difí­cil ar­ran­jar um ra­paz co­mo você. 

  Con­tin­uaram a vi­agem em silên­cio. Quan­do es­tavam chegan­do F. Mu­rad ain­da o acon­sel­hou: 

  -Se você quis­er con­tin­uar, vai gan­har muito din­heiro. 

  -Vou matu­tar. Se de­cidir... 

  Toufick lhe avi­sou que daí a um mês chega­va um car­rega­men­to grande. Talvez ele gan­has­se uns duzen­tos mil-​réis ou mais. 

  No out­ro dia foi levar os cem mil-​réis ao Dr. Ro­dri­go. Gan­hara naque­la vi­agem, dis­sera. Caíra no jo­go em Ca­choeira. Uma ro­le­taz­in­ha, fo­ra apos­tar uns cin­co mil-​réis, acabara gan­han­do cen­to e vinte. E co­mo já acabara de pa­gar a parte de João Caçu­la, vin­ha pa­gar a do doutor. Ro­dri­go, a princí­pio, não quis re­ce­ber. Disse que Gu­ma po­dia es­tar pre­cisan­do. Mas Gu­ma in­sis­tiu. Quan­to antes pa­gasse o saveiro, mel­hor. 

  Saiu dali para ac­er­tar uma vi­agem para San­to Amaro. Ia bus­car um car­rega­men­to de cachaça. Vivia das vi­agens, o din­heiro do con­tra­ban­do era para pa­gar o saveiro. De­pois de tu­do pa­go po­dia de­mor­ar mais um pouco no negó­cio até gan­har uns quin­hen­tos mil-​réis. En­tão pode­ria sat­is­faz­er o de­se­jo de Lívia. Iria para a cidade, abriria o ar­mazém com os tios dela. Até talvez nem pre­cisas­se vender o Pa­que­te Voador. Po­dia en­tregá-​lo de so­ciedade a mestre Manuel ou a Maneca Mãoz­in­ha. Qual­quer um de­les gostaria de ficar com dois saveiros. Maneca Mãoz­in­ha, al­iás, pos­suía era uma canoa. Fi­caria bem con­tente se pudesse tomar con­ta do Pa­que­te Voador, gan­haria muito mais din­heiro. E Gu­ma não pre­cisa­va se afas­tar com­ple­ta­mente do cais. Pode­ria vir de vez em quan­do, dar suas vi­agens tam­bém. Con­tin­uar­ia a ser um marí­ti­mo, a ter in­ter­esse no mar, a nave­gar. Sat­is­faria Lívia e fi­caria sat­is­feito tam­bém, não se mu­daria por com­ple­to. Aqui­lo é que era um bom plano. Mas para re­al­izá-​lo tin­ha que de­mor­ar mais tem­po no negó­cio de con­tra­ban­do para faz­er o din­heiro necessário para en­trar corno só­cio do tio de Lívia. Mais uns meses, ur­nas tan­tas vi­agens, teria jun­ta­do o su­fi­ciente. Era um negó­cio ren­doso aque­le. Pe­na que tivesse o peri­go de acabar de re­pente e eles to­dos baterem com os costa­dos na cadeia. Se tu­do fos­se de­scober­to, iria ser um es­cân­da­lo hor­rív­el. F. Mu­rad tin­ha dez mil con­tos, as suas costas er­am largas, na­da lhe acon­te­ceria. Mas a Gu­ma, que mal tin­ha um saveiro... 

  Ele não tin­ha me­do. Se pen­sa­va nos peri­gos do con­tra­ban­do, era por Lívia e pe­lo fil­ho. Via o fil­ho brin­can­do jun­to à ba­cia de água. Brin­ca­va de saveiro. Gosta­va das coisas do mar, era bem um fil­ho do cais. Quan­do ele crescer, guiará tam­bém o Pa­que­te Voador, an­dará nes­sas águas. Dirá que seu pai foi um dos mel­hores mestres de saveiro que até ho­je apare­ce­ram nesse cais, e mes­mo quan­do se mu­dou para a cidade não vendeu seu saveiro, de quan­do em vez vin­ha vi­ajar tam­bém. Gu­ma pas­sa a mão com car­in­ho no cas­co do Pa­que­te Voador. 

  Foi ol­har o porão. Viu o corte de se­da. Tin­ha-​se es­que­ci­do com­ple­ta­mente daqui­lo. Na véspera F. Mu­rad de­ra aque­le corte de se­da: 

  -Para você dar à sua es­posa. 

  Com a pres­sa de ir para casa ele se es­que­cera da se­da. Lívia havia de ficar con­tente. Ela tin­ha raros vesti­dos e vesti­dos po­bres. Ago­ra fi­caria com um vesti­do bom, vesti­do de sen­ho­ra chique. 

  Apron­tou o saveiro e se di­rigiu para casa. Sairia de­pois do al­moço. Lívia o es­per­ava na janela com o fil­ho ao la­do