. Ele foi lo­go mostran­do a se­da: 

  -Tin­ha-​me es­que­ci­do no saveiro. 

  -Que é is­so? 

  -Ve­ja... 

  En­trou. Ela saiu da janela, botou o fil­ho no chão. Ex­am­inou a se­da: 

  -Mas is­so é se­da cara -e tin­ha uma in­ter­ro­gação nos ol­hos. 

  -Gan­hei nu­ma quer­messe em Ca­choeira. 

  -Tu tá mentin­do. Porque tu não me diz? 

  -Diz­er o quê? Gan­hei na quer­messe, sim. 

  Ela do­brou a se­da. Fi­cou em silên­cio um min­uto, de re­pente falou: 

  -Pra que tu deixa que eu vá saber pela bo­ca dos out­ros? 

  -Mas o quê? 

  -É pi­or. 

  -Tu tá é gi­ra... 

  -Tu pen­sa que eu não já soube? Coisa ruim a gente sabe lo­go. Tu tá meti­do em con­tra­ban­do, não é? 

  -Foi Rodol­fo que con­tou a você? 

  -Faz tem­po que não pon­ho os ol­hos nele. Mas to­do mun­do no cais sabe que você es­tá no lu­gar de Xavier…

  -É men­ti­ra. 

  Mas era im­pos­sív­el ne­gar. Era mel­hor con­tar tu­do: 

  -Tu não vê que a gente não tin­ha out­ro jeito de se de­sen­ter­rar? João Caçu­la já ta­va queren­do vender o Pa­que­te Voador, a gente fi­ca­va na mão. Eu tin­ha que me alu­gar co­mo ca­noeiro, nun­ca que saía do cais co­mo tu quer... 

  Lívia ou­via em silên­cio. O garo­to veio cor­ren­do lá de den­tro, se agar­rou nas sa­ias dela. Gu­ma con­tin­uou: 

  -Tu vê... Só fiz três vi­agens pra eles, já paguei quase to­do o saveiro. Com mais um mês ten­ho o din­heiro para a gente se es­ta­bele­cer com seu tio. 

  Ar­ran­cou com es­forço. 

  -Se tou meti­do nis­so, é por causa de você e do meni­no. 

  -Eu ten­ho é me­do, Gu­ma. Não é um din­heiro bem gan­ho. Um dia is­so vi­ra, a gente fi­ca na casa do sem jeito. Eu já tin­ha tan­to me­do, quan­to mais ago­ra... 

  -Mas du­ra pouco. Ninguém de­sco­bre, quem vai de­sco­brir? Mes­mo você pen­sa que a Polí­cia não sabe? Pois tá far­ta de saber e de com­er din­heiro do seu Mu­rad. 

  -É ca­paz de só ser uns dois que sabe, um dia mu­da, vem um sério de ver­dade, aca­ba tu­do. 

  -Nesse tem­po não tou mais. Não duro mais que uns três ou qua­tro meses. Se chegar a is­so. É o tem­po de faz­er um din­heir­in­ho... 

  -Mes­mo ago­ra não tem mais remé­dio -fez ela com de­salen­to. -Mas tu prom­ete que larga lo­go que pos­sa? Que vai comi­go prà cidade al­ta? 

  -Te garan­to. 

  En­tão ela des­do­brou o em­brul­ho da se­da. Era uma fazen­da boni­ta. Ex­per­imen­tou em cima do cor­po, sor­riu: 

  -Só faço quan­do você largar esse só­cio. 

  -Não demo­ra. 

  E Gu­ma começou a con­tar as peripé­cias da pas­sagem de con­tra­ban­do. 

  O no­vo tra­bal­ho não deu a Gu­ma o que Toufick prom­etera. Não viera a quan­ti­dade que eles es­tavam es­peran­do, o su­jeito do navio ex­pli­ca­va naque­la lín­gua de­scon­heci­da para Gu­ma, nu­ma con­ver­sa in­ter­mináv­el. Gu­ma só re­ce­beu cen­to e cin­quen­ta mil-​réis. Toufick noti­ciou que es­per­ava out­ra car­ga ain­da es­sa se­mana. Mas foi quan­do reben­tou a greve dos es­ti­vadores. Os mestres de saveiro e grande parte dos ca­noeiros fiz­er­am causa co­mum com os home­ns da es­ti­va. Os es­ti­vadores vence­ram, as tabelas para trans­porte em saveiro e canoa tam­bém au­men­taram. Mas hou­ve perseguições e um es­ti­vador de nome Ar­man­do teve de fu­gir e foi no saveiro de Gu­ma, que saía naque­la noite já levan­do car­ga pela no­va tabela. E na noite es­tre­la­da o es­ti­vador lhe con­tou mui­ta coisa. Para Gu­ma não era de noite, era a madru­ga­da que sur­gia. 

  Dr. Ro­dri­go prestou grande as­sistên­cia aos es­ti­vadores. De­pois de tu­do acaba­do fez um po­ema, em que ter­mi­na­va dizen­do que o mi­la­gre que D. Dulce tan­to es­per­ava tin­ha começa­do a se re­alizar. Ela con­cor­dou, sor­