rindo. Es­ta­va ca­da vez mais cur­va, mas al­teou o peito ao ou­vir o po­ema. E sor­ria fe­liz. Apren­dera uma no­va palavra para diz­er nas casas po­bres do cais. Ago­ra po­di­am-​na chamar de boa e de ami­ga. Ela sabia co­mo lh­es agrade­cer. Tin­ha no­va­mente fé. Ape­nas ago­ra era difer­ente. 

  No céu de San­to Amaro a es­trela de Be­souro tin­ha de­sa­pare­ci­do. Es­ta­va com os es­ti­vadores. 

  Gu­ma fez várias out­ras vi­agens para Toufick. Pagou o saveiro. E to­mou amizade ao árabe, muito gen­til sem­pre. Had­dad era que con­tin­ua­va cal­ado, o cachecol des­fi­ado em vol­ta do pescoço. Mu­rad apare­cia raras vezes, só quan­do tin­ha al­go de mais im­por­tante a tratar com home­ns de bor­do. Ago­ra Gu­ma tin­ha duzen­tos e cin­quen­ta mil-​réis em casa e es­ta­va livre de dívi­das. Lívia já fala­va do dia em que se mu­dari­am para a cidade al­ta, co­mo de coisa muito próx­ima. Quan­do ele tivesse gan­ho um con­to de réis po­dia en­trar para a qui­tan­da do tio dela. E des­cansaria o vel­ho, que já não da­va para o tra­bal­ho. O saveiro fi­caria com Maneca Mãoz­in­ha, que pa­garia to­do mês uma cer­ta quan­tia ao vel­ho Fran­cis­co. Lívia quase não tin­ha mais me­do, es­per­ava mais ser­ena, sua ag­onia dimin­uíra de muito. Tu­do es­ta­va cor­ren­do bem nos úl­ti­mos tem­pos. Até as tabelas tin­ham subido, a vi­da do cais voltara ao nor­mal, tin­ham con­segui­do atrav­es­sar a crise. 

  E gosta­va de ir ao saveiro nas noites em que o fil­ho ia passear na casa dos tios dela. Fi­ca­va es­ti­ra­da ao la­do de Gu­ma, ou­vin­do as canções do cais, ven­do a Lua amarela, as es­tre­las in­úmeras, sentin­do a pre­sença de Ie­man­já, que es­ti­ra­va os ca­be­los na água. Pen­sa­va que o mar é ami­go, é doce ami­go. E sen­tia pe­na de Gu­ma, que ia deixar o cais, ia largar seu des­ti­no. Mas não vende­ria o saveiro, uma vez por out­ra, quan­do o mar es­tivesse as­sim cal­mo, have­ri­am de vir passear so­bre as águas, ol­har as es­tre­las e a Lua do mar, ou­vir es­sas canções tristes do cais. Amari­am en­tão mais uma vez a bor­do do saveiro. As on­das ban­hari­am os cor­pos, o amor se­ria ain­da mel­hor. As carnes teri­am gos­to de água sal­ga­da, os ou­vi­dos ou­viri­am o mur­mu­rar do ven­to, o gemer dos ne­gros nas vi­olas e har­móni­cas, a voz de Jeremias can­tan­do no forte vel­ho. Só não ou­viri­am a voz de Rufi­no porque ele se matara por uma mu­la­ta traido­ra. Ol­hari­am os tubarões atrav­es­san­do a água, achari­am be­los os ca­be­los de Ie­man­já, a dona dos mares e dos saveiros. Teri­am saudades, teri­am saudades de tu­do. Gu­ma pas­saria a mão no cas­co fiel do Pa­que­te Voador. Se recor­dari­am do Va­lente. Mas a lem­brança do fil­ho crescen­do nas ruas da cidade, crescen­do para um des­ti­no mel­hor, con­so­lar­ia os corações do sac­ri­fí­cio feito. Mas as­sim mes­mo teri­am saudades, teri­am imen­sas saudades, co­mo se têm saudades de um ente ama­do. Porque ninguém pode nascer ou morar no mar sem o amar co­mo amante ou ami­go. Pode-​se amar o oceano com amar­gu­ra. Pode esse amor ser me­do ou ódio. Mas é um amor que não se pode trair, que nun­ca se aban­dona. Porque o mar é ami­go, é doce ami­go. E talvez se­ja o próprio mar a ter­ra de Aiocá, que é a pá­tria dos marí­ti­mos. 

  Ter­ras de Aiocá 

  Rosa Palmeirão não traz mais naval­ha na sa­ia, nem pun­hal no peito. O reca­do de Gu­ma a al­cançou em ter­ras do pen­são de úl­ti­ma or­dem onde não pa­ga­va porque o pro­pri­etário a temia. Quan­do o maru­jo a en­con­trou e lhe disse: «Gu­ma man­dou diz­er que teu ne­to já nasceu», ela atirou fo­ra a naval­ha da sa­ia, o pun­hal do peito. Antes, porém, se uti­li­zou de­les mais uma vez, para ar­ran­jar a pas­sagem de vol­ta. 

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