ívia a re­ce­beu co­mo a uma ami­ga que não via há muito: 

  -Es­sa casa é sua. 

  Rosa baixou a cabeça, se aper­tou muito con­tra a cri­ança, que a princí­pio fu­gi­ra dela, de­pois ten­tou sor­rir: -Gu­ma foi um bi­cho de sorte. 

  O garo­to per­gun­tou se ela era mul­her de Fran­cis­co, já que era sua avó. Ela pôde en­tão chorar, já não tin­ha a naval­ha na sa­ia, o pun­hal no peito. Vestiu roupas sem es­pal­hafa­to, sen­ta­va na por­ta da casa com o meni­no no co­lo. Havia noites em que ou­via cantarem no cais o seu ABC e o es­cu­ta­va en­lea­da co­mo se fos­se o ABC de out­ra pes­soa. Só o mar dá dess­es pre­sentes a seus fil­hos. 

  Pela primeira vez Gu­ma ia pe­gar um tem­po­ral na pas­sagem de con­tra­ban­do. Mas viu que Lívia não es­ta­va pre­ocu­pa­da (ela an­da­va cal­ma, tu­do es­ta­va tão próx­imo de acabar) e saiu sat­is­feito. Toufick es­per­ava no saveiro e des­ta vez, além de Had­dad, havia um out­ro árabe jovem. Era An­tónio, o fil­ho de F. Mu­rad, es­tu­dante e lit­er­ato, que tivera cu­riosi­dade de ver co­mo se pas­sa­va um con­tra­ban­do. 

  As nu­vens se acu­mulavam no céu, o ven­to so­pra­va fu­rioso. O navio ao largo era vaga­mente enx­er­ga­do de bor­do do saveiro. Toufick disse: 

  -Acha que vai haver tem­po­ral? 

  -Dos bra­bos... 

  O árabe vi­rou-​se para o fil­ho de F. Mu­rad: 

  -É mel­hor o sen­hor ir para casa, seu An­tónio. 

  -Deixe dis­so. As­sim é até mais gos­toso. Fi­ca com­ple­to. 

  Voltou-​se para Gu­ma: 

  -Acha que vai haver peri­go, mestre? 

  -Há sem­pre peri­go. 

  -En­tão mel­hor.

  O saveiro saiu, porém ain­da não havi­am chega­do ao que­bra-​mar quan­do a chu­va caiu. As­sim mes­mo Gu­ma con­seguiu ar­ri­ar as ve­las e es­per­ar que do navio dessem sinal. Se aprox­imaram com di­fi­cul­dade, à força do re­mo. Toufick es­ta­va ner­voso, Had­dad aper­ta­va o cachecol con­tra o pescoço. An­tónio asso­vi­ava ban­can­do uma de­spre­ocu­pação que na ver­dade não sen­tia. O saveiro en­cos­tou o navio, os far­dos de se­da começaram a apare­cer. Mas o tra­bal­ho se fazia difí­cil porque as on­das er­am muitas, a chu­va caía com vi­olên­cia e o saveiro subia e de­scia, se afas­ta­va de jun­to do navio. Afi­nal con­cluíram o serviço, Gu­ma manobrou, atrav­es­saram o que­bra-​mar, ru­maram para o por­to de San­to An­tónio. 

  Mas o ven­to fu­rioso os pux­ava. Não havia uma em­bar­cação no mar, ape­nas uma canoa que atracara mes­mo no forte vel­ho, sem cor­agem de con­tin­uar a vi­agem. O ven­to desvi­ava o Pa­que­te Voador da sua ro­ta. O saveiro ia muito car­rega­do, as manobras se fazi­am difí­ceis. Gu­ma ia agar­ra­do ao leme, as on­das var­ri­am o bar­co. Had­dad mur­murou: 

  -As sedas vão chegar inu­ti­lizadas. 

  Procurou umas tábuas com que co­brir o porão. Não via a tem­pes­tade, não via a morte, só enx­er­ga­va as sedas se mol­han­do. Gu­ma o ol­hou com ad­mi­ração. Toufick ia ner­voso, temia pe­lo fil­ho do pa­trão. Este es­ta­va páli­do e se chegara para o mas­tro. Cer­ta ho­ra per­gun­tou a Gu­ma: 

  -Acha que a gente morre? 

  -Às vezes a gente es­capa. Tu­do é sorte. 

  Con­tin­uaram em silên­cio. Iam na ro­ta cer­ta, mas muito para o largo, muito para um mar que não era o dos saveiros. Gu­ma vi­aja­va para o mar dos grandes navios, era co­mo se re­al­izasse o seu son­ho de vi­ajar para ter­ras dis­tantes, co­mo Chico Tris­teza. Vi­am o farol da Bar­ra ilu­mi­nan­do co­mo uma sal­vação. Mas es­tavam in­do muito para o largo, para um mar de­scon­heci­do, aque­le mar oceano das histórias das grandes aven­turas que con­tam no cais. 

  Bem de­fronte é o por­to de San­to An­tónio. Mas es­tão muito ao largo, Gu­ma manobra para em­bicar para o por­to. Pou