co adi­ante os ar­recifes cober­tos de água. Manobra com fe­li­ci­dade, mas as águas se lev­an­tam em on­das colos­sais, ati­ram o saveiro para os ar­recifes. Es­ta­va car­rega­do de mais. Vi­rou co­mo se fos­se um brin­que­do na mão do mar. Os tubarões vier­am de al­gu­ma parte, eles es­tão sem­pre próx­imos dos naufrá­gios. 

  Gu­ma viu Toufick se de­ba­ten­do. Pe­gou o árabe pe­lo braço, e jo­gou nas suas costas. E nadou para o cais. Uma luz fra­ca bril­ha­va no por­to de San­to An­tónio. Mas veio uma rés­tia de luz do farol da Bar­ra e ilu­mi­nou o cam­in­ho para Gu­ma. Ol­han­do para trás, ele viu os tubarões em torno do saveiro. E uns braços se ag­itan­do. 

  De­pôs Toufick na pra­ia e mal se lev­an­ta­va ou­viu a voz de F. Mu­rad: 

  -E meu fil­ho? Meu An­tónio? Ele foi com vocês, não foi? Vá sal­var ele. Vá. Lhe dou tu­do que quis­er. 

  Gu­ma mal se aguen­ta­va em pé. Mu­rad su­pli­ca­va de mãos postas: 

  -Você tam­bém tem um fil­ho. Vá, pe­lo amor de seu fil­ho.

  Gu­ma se recor­dou de God­ofre­do no dia do Canavieiras. To­dos que têm um fil­ho su­pli­cam as­sim. Ele tam­bém tem um fil­ho. E se ati­ra no­va­mente na água. 

  É com di­fi­cul­dade que na­da. Já vin­ha cansa­do da trav­es­sia difí­cil, sob o tem­po­ral. De­pois nadara com Toufick so­bre as costas, nadara con­tra as águas e con­tra o ven­to. Ago­ra as forças lhe fal­tam a ca­da mo­men­to. Mas con­tin­ua. E chega a tem­po de ver An­tónio ain­da se­guro no cas­co do saveiro que es­tá vi­ra­do, pare­cen­do o cor­po de uma baleia. Pe­ga o ra­paz pe­los ca­be­los e re­começa a trav­es­sia. O mar o im­pede. Os tubarões, que já de­vo­raram Had­dad, vêm no seu ras­tro. Gu­ma traz a fa­ca na bo­ca, An­tónio se­guro pe­los ca­be­los. Na sua frente ele vê Lívia, Lívia quase tran­quila, Lívia es­peran­do que tu­do mude para mel­hor. Lívia, que tem um fil­ho dele, Lívia, a mul­her mais boni­ta do cais. E os tubarões vêm atrás, se aprox­imam, ele es­go­ta as forças. Mes­mo Lívia ele não vê mais. Sabe ape­nas que tem que nadar porque le­va um fil­ho pe­los ca­be­los, fil­ho de F. Mu­rad ou seu fil­ho, ele não dis­tingue mais. Lívia, Lívia vai na sua frente. As águas do mar são fortes, o ven­to asso­via. Mas ele na­da, ele cor­ta as on­das. Le­va um fil­ho, será seu fil­ho? 

  Per­to da areia su­ja do por­to de San­to An­tónio ele não aguen­ta mais. Sol­ta o ra­paz. Porém já es­tão de tal maneira próx­imos que a água le­va An­tónio para os braços de F. Mu­rad, que ex­cla­ma: "Meu fil­ho!» E diz: 

  -Um médi­co de­pres­sa... 

  Gu­ma quer ir tam­bém. Mas a ra­bana­da do tubarão o obri­ga a voltar-​se a fa­ca na mão. E lu­ta ain­da, in­da fere um, o sangue se es­pal­ha na água re­vol­ta. Os tubarões o lev­am para jun­to do cas­co em­bor­ca­do do Pa­que­te Voador. 

  Al­gum tem­po de­pois a tem­pes­tade sere­nou. A lua apare­ceu e Ie­man­já es­ten­deu seus ca­be­los so­bre o lu­gar onde Gu­ma de­sa­pare­cera. E o lev­ou para as vi­agens mis­te­riosas das ter­ras mis­te­riosas de Aiocá, para onde vão os va­lentes, os mais va­lentes do cais. 

  O ven­to havia jo­ga­do o Pa­que­te Voador na areia do por­to. 

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