mas nem as­sim so­bra­va din­heiro no fim do mês para dar a João Caçu­la. Lívia aju­da­va o vel­ho Fran­cis­co no con­ser­to das ve­las. Pas­sa­va grande parte do dia cur­va­da so­bre o pano grosso da vela reben­ta­da pela tem­pes­tade, a ag­ul­ha na mão. Mas quase to­do esse tra­bal­ho era fi­ado, que as coisas es­tavam ru­ins para to­dos os da beira do cais. Es­tavam tão ru­ins que os es­ti­vadores falavam mes­mo em en­trar em greve. Gu­ma vivia procu­ran­do serviço, fazia as vi­agens o mais rápi­do que po­dia, para ficar com o freguês. Vários mestres do saveiro vender­am seus bar­cos e pe­garam out­ros tra­bal­hos no por­to: do­cas, navios de lon­go roteiro, trans­porte de malas e ob­jec­tos de vi­ajantes.

  E, co­mo pouco tin­ham que faz­er, can­tavam e be­bi­am. 

  -Seu João Caçu­la teve aqui...

  Gu­ma sacud­iu o saco de vi­agem na ca­ma. Ol­hou o fil­ho, que brin­ca­va com Fran­cis­co. Era fim de mês e ele prom­etera pa­gar al­gu­ma coisa a João Caçu­la. Mas não tin­ha so­bra­do na­da, es­sa úl­ti­ma vi­agem ren­dera uma nin­haria, era uma vi­agem a Ita­pari­ca. O meni­no brin­ca­va jun­to a ba­cia de água. Gu­ma não quis jan­tar, saiu lo­go. Não tin­ham pas­sa­do ain­da cin­co min­utos quan­do João Caçu­la ba­teu na por­ta:

  -Gu­ma chegou, sin­há Lívia?

  -Chegou mas já saiu, seu João.

  João Caçu­la ain­da ol­hou de­scon­fi­ado para den­tro:

  -Não sabe pra que la­dos se botou?

  -Não sei, seu João. Ta­va lá den­tro.

  -En­tão boa noite.

  -Boa noite, seu João.

  João Caçu­la de­sceu a rua puxan­do o bigode. Can­deeiros nas casas ilu­mi­navam salas po­bres. Um homem ia en­tran­do em­bria­ga­do nu­ma de­las e João Caçu­la ou­viu uma mul­her que dizia:

  -É as­sim que tu chega, não é... Co­mo se não bas­tasse...

  No cais gru­pos con­ver­savam. João Caçu­la per­gun­ta­va por Gu­ma. Não o havi­am vis­to. Na frente do Mer­ca­do, porém, al­guém in­for­mou que Gu­ma es­ta­va no Farol das Es­tre­las.

  -Tá es­que­cen­do as má­goas...

  Out­ro per­gun­tou:

  -Co­mo tá in­do com teus batelão, Joãoz­in­ho? 

  -Co­mo po­dia tá in­do? Quem é que tá in­do bem? 

  Aqui­lo só dá de­spe­sa...

  Con­tin­uou a sua cam­in­ha­da. En­con­trou Dr. Ro­dri­go que de­scia fu­man­do. 

  -Boa noite. 

  -Boa noite, doutor. Eu até que­ria dar duas palavras a vos­mecê... 

  -Que é, João? 

  -É a re­speito daque­la doença da pa­troa. Vos­mecê foi lá uma porção de vez, botou ela em pé. Abaixo de Deus foi vos­mecê que salvou ela. E eu não lhe paguei ain­da.

  -Não tem na­da, João. Eu sei que as coisas não vão bem... 

  -Tão ruim mes­mo, doutor. Mas o sen­hor pre­cisa de re­ce­ber. O sen­hor não vive de brisa. Lo­go que mel­hore... 

  -Não se pre­ocupe com is­so. Eu me ar­ran­jo. 

  -Obri­ga­do, doutor. 

  Ro­dri­go se foi com o seu cigar­ro. João Caçu­la pen­sou em Gu­ma. Quis voltar (os tem­pos es­tavam ru­ins...), chegou mes­mo a vi­rar o cor­po, mas to­mou uma res­olução e em­bi­cou para o Farol das Es­tre­las.

  Viu lo­go Gu­ma nu­ma mesa di­ante de um copo de cachaça. Mestre Manuel es­ta­va com ele. Do al­to do seu bal­cão seu Babau ol­ha­va com tris­teza os fregue­ses, es­ta­va com ur­na cara de sono. João Caçu­la viu mestre Manuel sus­pender a mão num gesto de desân­imo. Fi­cou quase sem cor­agem de en­trar. Ol­hou Gu­ma com pe­na. Os lon­gos ca­be­los morenos do mestre de saveiro caíam-​lhe na frente da cara e os ol­hos pare­ci­am ame­dronta­dos. Ele es­tá com me­do pen­sou João Caçu­la -e ten­tou re­cuar no­va­mente. Mas tin­ha que pa­gar aos ca­noeiros dos batelões e se adiantou. Al­guns fregue­ses do Farol das Es­tre­las o cumpri­men­ta­ram. Ele re­spon­dia com gestos, se dei