xou cair nu­ma cadeira jun­to a Manuel. Este disse: 

  -Co­mo vai? -Pare­cia ter ar­ran­ca­do o cumpri­men­to com di­fi­cul­dade. 

  -Seu João... -disse Gu­ma.

  João Caçu­la pux­ou o bigode, pediu ur­na cachaça. Mestre Manuel pare­cia muito de­san­ima­do, es­ta­va mu­do, ol­han­do o in­te­ri­or do copo vazio. E ficaram os três em silên­cio al­gum tem­po. Ou­vi­ram um freguês gri­tar num can­to: 

  -Ol­he se es­sa pin­ga sai ou não... 

  E seu Babau an­otan­do nomes no cader­no. De re­pente Gu­ma levan­tou o cor­po, pas­sou a mão na cabeça botan­do o ca­be­lo para trás e falou: 

  -Ain­da na­da, seu João. As coisas tão ru­ins. 

  Mestre Manuel repetiu co­mo um eco: 

  -Tão ru­ins... 

  E per­gun­tou em voz mais al­ta: 

  -Quan­to tem­po is­so vai de­mor­ar? 

  Seu Babau ol­hou, sus­pendeu a mão do cader­no, fi­cou com o lápis para­do no ar. João Caçu­la começou a ou­vir a mod­in­ha que o cego can­ta­va na por­ta. Era triste, sem dúvi­da. A mod­in­ha vin­ha de­va­gar­in­ho e ia se apos­san­do de João Caçu­la. Mestre Manuel re­spon­deu à própria per­gun­ta: 

  -Eu acho que is­so nun­ca mais aca­ba. E a gente morre de fome... 

  Seu Babau baixou o lápis. Coçou a cabeça e sor­riu sem saber de quê. Do­brou o cader­no e deixou de tomar no­ta das de­spe­sas. Ago­ra en­costara a cabeça no braço e pare­cia dormir. 

  -Ar­riou as ve­las -co­men­tou al­guém. 

  -Tão ru­ins... -disse João Caçu­la se referindo aos meses que pas­savam. 

  A mod­in­ha do cego se ar­ras­ta­va lá fo­ra. Não se ou­via o ruí­do de nen­hu­ma moe­da pin­gan­do na sua la­ta. Mas ele can­ta­va. E João Caçu­la tin­ha que ou­vir aque­la mod­in­ha mes­mo que não quisesse. Gu­ma tornou a falar... 

  -Ta­va pra dar a vos­mecê din­heiro esse mês, mas tou limpo. Não fiz na­da, não fiz mes­mo na­da, seu João. 

  Uma mul­her en­tra­va, era Madale­na. Ol­hou para as mesas. Ninguém a con­vi­dou. Ela riu, gri­tou com sua voz cheia: 

  -Tem en­ter­ro aqui? 

  Quase to­dos ol­haram para ela. Mestre Manuel es­ten­deu a mão, já tin­ham si­do amantes. Mas foi por causa de João Caçu­la que ela veio para a mesa. 

  -Me pa­ga uma cachaça, João. 

  O meni­no trouxe a cachaça. 

  A mod­in­ha do cego (fala­va na po­breza dele, pe­dia uma cari­dade) se et­erniza­va lá fo­ra. Gu­ma con­tin­uou: 

  -Seu João, o sen­hor vai ter paciên­cia. Deixar es­sa coisa mel­horá... 

  Mestre Manuel du­vi­dou: 

  -E is­so mel­ho­ra al­gum dia? 

  Madale­na es­pi­ou para eles. De­pois gri­tou para seu Babau: 

  -Não bo­ta a vit­ro­la ho­je, Babau? 

  Babau levan­tou a cabeça do braço, ol­hou em torno, foi dar cor­da na an­ti­qua­da vit­ro­la. Um sam­ba começou a encher a sala. Ain­da as­sim era a mod­in­ha do cego que João Caçu­la ou­via. 

  -Só que tem, Gu­ma, que eu tam­bém tou atra­pal­ha­do. Atra­pal­ha­do co­mo o di­abo. Ten­ho três ca­noeiros para pa­gar. Os batelão não tem da­do na­da, só de­spe­sa.

  Fi­tou mestre Manuel, de­pois Madale­na abanou as mãos: 

  -Só de­spe­sa... 

  -Eu sei, seu João. Eu tou queren­do pa­gar, mas cadê? 

  -Tou sem jeito, Gu­ma. Ou ar­ran­jo din­heiro ou ten­ho que tor­rar um batelão nos co­bres pra pa­gar as dívi­das... 

  A mod­in­ha do cego pen­etra­va ape­sar do sam­ba. Gu­ma baixou a cabeça. Seu Babau voltara a dormir em cima do cader­no. Madale­na acom­pan­ha­va a con­ver­sa com in­ter­esse. 

  -Ta­va pen­san­do... -Seu João Caçu­la não con­tin­uou. 

  -O quê? 

  -A gente ven­dia o bar­co, tu re­ce­bia tua parte, eu me ar­ran­ja­va com o resto. Se tu quisesse a gente po­dia faz­er uma com­bi­nação, você vin­ha tra­bal­har nos batelão. 

  -Vender o Pa­que­te?

  A mod­in­ha do cego domi­n