a­va in­teira­mente o sam­ba. Esse era mais al­to, mais forte, porém eles só ou­vi­am o que o cego can­ta­va: 

  Ten­ha dó de quem perdeu

  a luz dos ol­hos.

  Mestre Manuel tam­bém não com­preen­dia: 

  -Vender o Pa­que­te Voador? 

  Madale­na botou a mão na mesa: 

  -É um bar­co tão boni­to... 

  -Sinão, co­mo é que a gente vai se ar­ran­jar? -João Caçu­la per­gun­ta­va. 

  Repetiu: 

  -Co­mo é? 

  -Seu João, es­pere mais um mês, eu ar­ran­jo din­heiro. Nem que ten­ha que pas­sar fome este mês...

  -Não é por mim, Gu­ma. Eu tam­bém ten­ho que pa­gar. Es­ta­va com me­do que pen­sassem que era usura dele. A músi­ca do cego o tor­tu­ra­va. -Tu bem sabe que eu não sou ca­paz de me aproveitar de uma má ocasião pra es­fo­lar um com­pan­heiro. Mas a coisa tá pre­ta, eu não ve­jo out­ro jeito...

  -Para o mês... 

  -Se eu não pa­gar os home­ns aman­hã, eles larga as canoas. 

  Mestre Manuel per­gun­tou: 

  -Não se pode dar um jeito? 

  -Co­mo? 

  -Ar­ran­jar um din­heiro em­presta­do? 

  Ficaram pen­san­do em quem pode­ria em­prestar. Manuel lem­brou mes­mo Dr. Ro­dri­go. Mas tan­to Gu­ma co­mo João Caçu­la de­vi­am a ele. Foi pos­to de la­do, João Caçu­la con­tin­ua­va a se de­scul­par: 

  -Per­gun­ta pró vel­ho Fran­cis­co se sou homem pra es­sas coisas. Ele me con­hece faz muito tem­po... (Tin­ha von­tade de pedir ao cego que se calasse.) 

  Madale­na lem­brou seu Babau: 

  -Quem sabe se ele pode em­prestar? 

  -É mes­mo... -disse Manuel. 

  Gu­ma os ol­ha­va tími­do, co­mo que su­pli­can­do que eles o sal­vassem. E João Caçu­la con­tin­ua­va a se de­scul­par, tin­ha von­tade de dar o saveiro de pre­sente a Gu­ma e de­pois se jog­ar na água porque não tin­ha cor­agem de ol­har os ca­noeiros atrasa­dos no salário. Mestre Manuel levan­tou-​se, foi até o bal­cão, subiu, pe­gou de­va­gar­in­ho no braço de seu Babau. E o trouxe para a mesa. Seu Babau sen­tou-​se:

  -O que é? 

  Gu­ma coçou a cabeça. João Caçu­la es­ta­va in­teira­mente volta­do para a mod­in­ha do cego. Foi mes­mo mestre Manuel quem falou: 

  -Tu co­mo vai de din­heiro? 

  -Quan­do re­ce­ber tu­do que me de­vem de cachaça tou ri­co -riu seu Babau. 

  -Mas tu tem al­gum que pos­sa em­prestar? 

  -Quan­to tu quer? 

  -Não sou eu. É aqui seu João e Gu­ma. -Vi­rou-​se para João Caçu­la. -Quan­to você pre­cisa com mais pres­sa? 

  João Caçu­la con­tin­ua­va a ou­vir o gemer do cego. Ex­pli­cou: 

  -É para pa­gar meus ca­noeiros. Tou com um din­heiro com Gu­ma, tu sabe co­mo as coisas tão ruim... 

  Gu­ma atal­hou: 

  -Eu fi­co de­ven­do, pa­go as­sim que ar­ran­je um din­heir­in­ho. Tá tu­do difí­cil. 

  Seu Babau per­gun­tou: 

  -Mas quan­to é? 

  João Caçu­la fez cál­cu­los: 

  -Com cen­to e cin­quen­ta eu me ar­ran­ja­va... 

  -Não ten­ho nem a metade aí. Pos­so abrir o cofre pra você ver... 

  Re­flec­tiu: 

  -Se ain­da fos­se negó­cio de cin­quen­ta mil-​réis... 

  -Tu não te ar­ran­ja com cin­quen­ta? -Manuel ol­hou para João Caçu­la. 

  -Cin­quen­ta mal vai dar para um. Os cen­to e cin­quen­ta mil-​réis as­sim mes­mo só pa­ga parte. 

  -Quan­to tu tin­ha que dar, Gu­ma? 

  -Cem por mês... Mas tou atrasa­do no paga­men­to. 

  Seu Babau levan­tou-​se, de­sa­pare­ceu no fun­do no bote­quim. Madale­na declarou: 

  -Se eu tivesse... 

  A vit­ro­la parara. Ficaram em silên­cio ou­vin­do o cego. Seu Babau voltou com cin­quen­ta mil-​réis em no­tas de dez e cin­co. Deu a Gu­ma: 

  -Tu me pa­ga na primeira vi­agem, tá cer­to? 

  Gu­ma en­tre­gou o din­heiro a João Caçu­la. Mestre Manuel pousou a mão no om­bro de Madale­na: 

  -Ar­ran­je um coro­nel que em­preste cem mi