l à gente. 

  Ela sor­riu: 

  -Se ar­ran­jar cincão ho­je, tou fe­liz... 

  Gu­ma disse a João Caçu­la: 

  -Es­pere mais uns dias. Vou ver se ar­ran­jo pra com­ple­tar. 

  João Caçu­la fez um gesto con­cor­dan­do. Madale­na sus­pirou des­cansa­da e começou a falar muito: 

  -Vocês con­hece a Joana Do­ca? Tu con­hece, não é, Manuel? Pois ela ho­je ta­va na janela quan­do viu um cara es­piando muito. Foi e... 

  Mas Gu­ma in­ter­rompeu: 

  -Vocês sabe que eu não ten­ho na­da tiran­do aque­le bar­co, que nem é meu di­re­ito, de­vo ele quase in­teir­in­ho. De­vo a você e ao doutor Ro­dri­go. Se eu ficar sem o bar­co o que é que deixo pra meu fil­ho? A gente não vive muito, um dia cai um tem­po­ral, a gente vai em­bo­ra. Ain­da quem não tem fil­ho nem mul­her... 

  -Vi­da des­graça­da -fez Manuel. -Por is­so não quero fil­ho. -A pa­troa bem que quer... 

  -É uma mul­her boni­ta a tua -disse Madale­na a Gu­ma. 

  -Tu con­hece ela? 

  -Já vi an­dan­do com você. 

  A músi­ca do cego con­tin­ua­va na por­ta. Veio mais cachaça. João Caçu­la falou: 

  -Se eu ar­ran­jasse mais dez, da­va vinte a ca­da homem... Talvez a gente pudesse ficar mais des­cansa­do. 

  -Dez eu ar­ran­jo aman­hã de man­hã -re­spon­deu Manuel. -A pa­troa deve ter. 

  -Ela se parece com a mul­her que tá moran­do lá em casa ago­ra -fez Madale­na. 

  -Tem ga­do no­vo em tua casa? 

  -Se aqui­lo é no­vo... Deus te livre. 

  -Quem é? 

  -Uma vel­hus­ca. Diz que foi mul­her do Xavier. 

  -Do Xavier? O mestre do Cabaré? 

  -Desse mes­mo. 

  -Uma vez ele con­tou umas coisas dela -disse Gu­ma. 

  -Eu ta­va -con­cor­dou mestre Manuel. 

  -Ele gosta­va um bo­ca­do dela. Ela deu o fo­ra nele, ele botou ain­da o nome no bar­co... Ela chama­va ele de Caboré. 

  -Êta su­jeito es­quisi­to. -Madale­na fez um mux­oxo com a bo­ca. -Nun­ca vi out­ro. To­do não sei co­mo... 

  -Tu era muito ami­go de Rufi­no, não era? -João Caçu­la vi­rou-​se para Gu­ma.

  -Porque per­gun­ta? – Ou­viu ago­ra dis­tin­ta­mente a canção do cego. 

  -Diz que aí que ele ma­tou a mul­her, ela ta­va botan­do os chifres nele com um mar­in­heiro de um navio. 

  -Já ou­vi falar -apoiou Madale­na. 

  -Tou saben­do dis­so ago­ra. E se fez foi bem feito. Era um ne­gro di­re­ito. 

  -Não tin­ha dois ca­noeiros igual a ele nesse cais -fez Manuel. 

  Gu­ma ou­via Rufi­no dizen­do: «Seu mano, seu mano.» 

  Mas se con­sola­va porque pen­sa­va que Rufi­no mor­rera sem saber que ele tam­bém o traíra. João Caçu­la encer­ra­va a con­ver­sa: 

  -Se fos­se eu, mata­va o cabro tam­bém... 

  Maneca Mãoz­in­ha ia en­tran­do. Jun­tou-​se ao grupo, mas falou prà sala to­da: 

  -Vocês sabe o que se deu? 

  Ficaram es­peran­do. Maneca Mãoz­in­ha can­tou... 

  -Xavier vendeu o bar­co a Pe­dro­ca por uma por­caria, en­ga­jou naque­le grego que ta­va com fal­ta de um mar­in­heiro. 

  -Que tá dizen­do? 

  -É co­mo di­go. Não falou com ninguém. Saiu há coisa de meia ho­ra... 

  -Foi a mul­her -mur­murou Madale­na. 

  -Diz que a bóia dos bar­co grego é uma mis­era -co­men­tou um ne­gro. 

  Saíram. Na por­ta o cego can­ta­va. Es­ten­deu a meia cuia de quei­jo e João Caçu­la deixou cair uma moe­da de dois tostões. Não com­praria fu­mo para seu cachim­bo naque­la noite. 

  Toufick, o árabe, sofreu um grande aba­lo com a fu­ga de Xavier. Um navio en­traria den­tro de cin­co dias com um car­rega­men­to grande de sedas de con­tra­ban­do. Co­mo tirá-​lo do bar­co sem um saveiro, sem um mestre em quem con­fi­asse? Ex­pli­cou para F. Mu­rad: 

  -Era um cacha­ceiro, foi por is­so. Su­jeito que bebe não serve. Ago­ra vou ar­ran­jar um homem sério. 

  -Trate de ar­ran­jar lo­go. É pre­ciso de