sem­bar­car o car­rega­men­to. 

  Toufick veio para o cais. Tra­tou de inda­gar com seu Babau das fi­nanças dos di­ver­sos mestres de saveiro. Soube do ca­so da véspera, do em­prés­ti­mo feito a Gu­ma, da quase ven­da do Pa­que­te Voador. Per­gun­tou: 

  -É um su­jeito sério? 

  -Gu­ma? 

  -Sim. 

  -Não há homem mais di­re­ito no cais. 

  Foi cer­to para a casa de Gu­ma. Foi Lívia quem aten­deu: 

  -Gu­ma saiu mas não demo­ra, seu Toufick. Quer es­per­ar?

  Ele disse que sim. Fi­cou sen­ta­do na sala, rolan­do o chapéu na mão, ol­han­do a cri­ança que nos fun­dos da casa se su­ja­va nu­ma poça de água. E Toufick fi­cou se lem­bran­do do que o Rodol­fo lhe dis­sera cer­ta vez (Toufick o procu­rara, era cre­dor de uma roupa de Rodol­fo, para saber se Gu­ma que­ria se me­ter no negó­cio de con­tra­ban­do): «Meu cun­hado não é o homem que você pre­cisa, tur­co.» Dis­sera que Gu­ma não era homem para se me­ter em negó­cios as­sim. E Toufick pen­sa­va se valia a pe­na es­tar ali es­peran­do. Tin­ham que sub­sti­tuir Xavier com urgên­cia. Gu­ma era o homem in­di­ca­do: es­ta­va en­di­vi­da­do, era um dos mel­hores mestres de saveiro do cais, tin­ha um bar­co bom e veloz. Mas teria cor­agem de se me­ter naque­le negó­cio? Em es­crúpu­los Toufick não pen­sou. Levan­tou-​se, es­pi­ou na janela. Gu­ma apon­ta­va na rua. Quan­do o viu apres­sou o pas­so: 

  -Que há de bom, seu Toufick? 

  -Que­ria con­ver­sar com o sen­hor. 

  -Tou às or­dens... 

  Lívia veio es­pi­ar lá de den­tro. Gu­ma per­gun­tou: 

  -Toma uma cachac­in­ha, seu Toufick? 

  -Um pouco, quase na­da. 

  -Uma cachaça, Lívia, pra seu Toufick. 

  Toufick apon­tou a cri­ança no quin­tal: 

  -Seu fil­ho? 

  -É sim. 

  Lívia veio com a cachaça. Toufick be­beu. Quan­do Lívia de­sa­pare­ceu no in­te­ri­or da casa, ele chegou a cadeira fu­ra­da para jun­to do caixão de Gu­ma: 

  -De­sculpe, seu Gu­ma, mas co­mo vai o sen­hor de din­heiro? 

  -Não tou in­do bem não, seu Toufick. O pa­radeiro tá dana­do, porquê? 

  -Eu sabia. Os tem­pos es­tão maus, muito maus. Mas as­sim mes­mo um homem de­ci­di­do ain­da pode gan­har muito din­heiro. 

  -Tá aí uma coisa difí­cil... 

  -O sen­hor não acabou de pa­gar seu saveiro no­vo. 

  -Tou atrasa­do. Co­mo é que se pode gan­har din­heiro? 

  -O sen­hor já soube que Xavier foi em­bo­ra? 

  -Soube. Foi a mul­her dele que apare­ceu. 

  -Que mul­her? 

  -A dele. Era casa­do. 

  -En­tão foi por is­so. Pois ele tra­bal­ha­va pra mim, o sen­hor sabia? 

  -Tin­ha ou­vi­do diz­er. 

  -Pois ele deixou Toufick na mão, co­mo vocês dizem. E o tra­bal­ho dele era de deixar muito din­heiro. 

  -Re­ce­bia os con­tra­ban­dos. 

  -Umas en­comen­das que vin­ham a bor­do e... 

  -Não gaste sua finu­ra comi­go, seu Toufick. To­do mun­do no cais tá far­to de saber. E ago­ra o sen­hor quer faz­er negó­cio comi­go? 

  -O sen­hor pode pa­gar seu saveiro em dois ou três meses. É negó­cio que dá. Pode gan­har de uma vez só até quin­hen­tos mil-​réis. 

  -Mas se a Polí­cia mete o ol­ho o ca­ma­ra­da tá naufra­ga­do. 

  -Co­mo a gente faz nun­ca se de­sco­bre. Já se de­sco­briu? 

  Ol­hou Gu­ma in­de­ciso: 

  -Quar­ta-​feira en­tra um bar­co alemão. Traz um car­rega­men­to grande. É negó­cio para dar... -Sus­pendeu a frase. -Quan­to ain­da es­tá de­ven­do do seu saveiro? Muito din­heiro? 

  -Uns oito­cen­tos mil-​réis, mais ou menos. 

  -Pois é negó­cio para dar de uma bo­la­da uns quin­hen­tos mil-​réis. Negó­cio grande, para umas três vi­agens do saveiro. Em menos de uma noite você pode bo­tar mão nesse din­heiro. 

  Ago­ra fala­va com a cabeça bem en­costa­da na de Gu­ma, fala­va em seg­re­do, co­