mo um con­spir­ador para out­ro. Gu­ma pen­sa­va que po­dia faz­er aque­le serviço uma ou duas vezes, o necessário para pa­gar o bar­co, de­pois da­va o fo­ra em Toufick. Mas o árabe pare­cia adi­vin­har: 

  -Com dois ou três negó­cios você pode pa­gar o bar­co e até dar o fo­ra se quis­er. Eu me de­saper­to, pois es­tou sem ninguém. Você se livra das dívi­das. E de­mais é um ou dois car­rega­men­tos por mês. O resto do mês você vi­aja, nem dá na vista. 

  Toufick fi­cou es­peran­do a re­spos­ta. Gu­ma pen­sa­va. Faria aqui­lo uma ou duas vezes. Pa­garia o bar­co, daria o fo­ra. O próprio Toufick o dis­sera. Não tin­ha me­do. Até gosta­va das em­pre­sas ar­riscadas. Mas temia o des­gos­to de Lívia se ele fos­se pre­so. Ela já sofria tan­to pe­lo ir­mão... Ou­viu a voz de Toufick. 

  -Es­tá pre­cisan­do de din­heiro? 

  Viu João Caçu­la sem poder pa­gar aos ca­noeiros, queren­do vender o saveiro: 

  -Sen­hor me adi­anta cem mil-​réis? Topo o negó­cio. 

  O árabe me­teu a mão no bol­so da calça, tirou um em­brul­ho de pa­péis. Er­am car­tas, reci­bos, vales. E din­heiro mis­tu­ra­do com aque­la pa­pela­da su­ja: 

  -Você sabe onde Xavier de­sem­bar­ca­va as sedas? 

  -Onde era? 

  -No por­to de San­to An­tónio. 

  -Per­to do farol da Bar­ra? 

  -Era. 

  -Tá bem. 

  Re­ce­beu os cem mil-​réis. O vel­ho Fran­cis­co en­tra­va. Toufick se de­spediu, disse em voz baixa a Gu­ma: 

  -Quar­ta-​feira, às dez ho­ras, es­te­ja com o saveiro prepara­do. 

  O vel­ho Fran­cis­co cumpri­men­tou quan­do ele pas­sou: 

  -Bom dia, seu Toufick. 

  Lívia veio saber: 

  -O que é que ele que­ria? 

  -Saber umas coisas do Xavier, que foi em­bo­ra. Parece que Xavier fi­cou de­ven­do a ele. 

  O vel­ho Fran­cis­co ol­hou sem acred­itar. Lívia ain­da co­men­tou: 

  -Pen­sei que ele não saísse mais. 

  O fil­ho no quin­tal chorou. Gu­ma foi buscá-​lo. 

  A noite es­ta­va quente so­bre a ter­ra. Mas no mar cor­ria uma brisa fres­ca que da­va um dengue aos cor­pos. No céu de es­tre­las havia uma Lua enorme e amarela. O mar es­ta­va cal­mo e só as canções que vin­ham de to­da parte cor­tavam o silên­cio. Pouco dis­tante do Pa­que­te Voador es­ta­va o Vi­ajante sem Por­to e Gu­ma ou­via os gemi­dos de amor de Maria Clara. Mestre Manuel ama­va no seu saveiro mes­mo, atra­ca­do ao cais nas noites de lua. O mar pratea­do se es­ten­dia por baixo de­les. Gu­ma pen­sou em Lívia, que a es­tas ho­ras es­taria em casa an­gus­ti­ada. Ela nun­ca se pud­era con­for­mar com a vi­da dele. Prin­ci­pal­mente de­pois do de­sas­tre do Va­lente, vivia nu­ma eter­na ag­onia, es­peran­do ver Gu­ma chegar mor­to no fim de ca­da vi­agem. Se en­tão ela soubesse que ele es­ta­va de ago­ra em di­ante meti­do no con­tra­ban­do de sedas, nun­ca mais teria um mo­men­to de sossego, porque ao re­ceio da morte no mar se jun­taria o me­do de uma prisão. Gu­ma ju­ra que aban­donará o negó­cio lo­go que pague o saveiro. Ho­je será a primeira noite e mais tarde ele re­ce­berá quin­hen­tos mil-​réis. Irá pa­gar tu­do que deve a João Caçu­la, dirá que ar­ran­jou em­presta­do. De­pois só restará o Dr. Ro­dri­go e esse não o im­por­tu­na­va. Com duas vi­agens mais terá pa­go o bar­co. En­tão gan­hará al­gum din­heiro, venderá o Pa­que­te Voador, en­trará co­mo só­cio num ar­mazém com o tio de Lívia. Venderá mes­mo o Pa­que­te Voador? De­pois de tan­tos sac­ri­fí­cios para adquiri-​lo é uma pe­na vendê-​lo para ser só­cio de um pe­queno ar­mazém. Deixar o mar, os saveiros, o seu por­to. Is­so é coisa que dói a um mar­in­heiro prin­ci­pal­mente quan­do a noite es­tá as­sim boni­ta, cheia de es­tre­las e com uma Lua tão bela. Já pas­sa das dez ho­ras e Toufick ain