da não chegou.

  Gu­ma viu quan­do o car­gueiro alemão en­trou. Er­am três ho­ras da tarde, ele es­ta­va no saveiro. O car­gueiro não atra­cou, era enorme para o cais, fi­cou lá fo­ra, soltan­do ro­los de fu­maça. De cima do Pa­que­te Voador Gu­ma enx­er­ga­va as luzes do navio. Lívia pen­sa que Gu­ma já vi­ajou, es­tá cor­tan­do ago­ra as águas do rio, levan­do um car­rega­men­to para Mar Grande. Ela o es­pera ao romper da madru­ga­da. Es­tará an­siosa, cheia de me­do, e quan­do ele chegar per­gun­tará quan­do se mu­darão do mar. Um ar­mazém... Vender seu bar­co, deixar seu por­to. Pen­sara nis­so quan­do traíra Rufi­no, quan­do perdera o Va­lente. Mas ago­ra não quer. Tan­to se morre no mar co­mo em ter­ra, é besteira de Lívia. Mas es­tão can­tan­do ago­ra mes­mo aque­la vel­ha mo­da que diz que «des­graça­do é o des­ti­no das mul­heres dos marí­ti­mos». Gu­ma al­isa o cas­co do Pa­que­te Voador. Veloz co­mo nen­hum. Para pe­gar com ele nesse cais só o Vi­ajante sem Por­to. As­sim mes­mo porque tem um mestre co­mo Manuel. Tam­bém o Va­lente era um saveiro bom. Não tão bom, no en­tan­to, co­mo o Pa­que­te Voador. O próprio vel­ho Fran­cis­co, com sua lon­ga ex­per­iên­cia de saveiros e em­bar­cações, dizia que não vi­ra ain­da nen­hum co­mo este. E ago­ra iria vendê-​lo...

  Ou­ve o salto de Toufick. Vem out­ro árabe com ele. Este traz um cachecol en­ro­la­do ao pescoço, ape­sar do calor. Toufick ap­re­sen­ta. 

  -Sen­hor Had­dad. 

  -Mestre Gu­ma. 

  O árabe bate a mão na cabeça nu­ma es­pé­cie de con­tinên­cia. Gu­ma diz: 

  -Boa noite. 

  Toufick ex­am­ina o saveiro. 

  -É bem grande, hem? 

  -Maior nesse por­to não tem. 

  -Acho que duas vi­agens você le­va tu­do. 

  Had­dad as­sen­tiu com a cabeça. Gu­ma per­gun­tou: 

  -Va­mos largar ago­ra? 

  -Va­mos es­per­ar. Ain­da é ce­do. 

  Os dois árabes sen­taram no madeirame do saveiro e começaram a tro­car lín­gua. Gu­ma fu­ma­va si­len­ciosa­mente ou­vin­do a canção que vin­ha do forte vel­ho: 

  Ele fi­cou nas on­das,

  ele se foi a afog­ar.

  Os árabes con­tin­uavam a con­ver­sar. Gu­ma se lem­bra­va de Lívia. Ela o pen­sa­va em vi­agens, atrav­es­san­do a bo­ca da bar­ra a es­tas ho­ras. De re­pente Toufick vi­rou-​se e disse: 

  -Boni­ta músi­ca, não é? 

  - É.

  -Muito lin­da. 

  O out­ro árabe fi­cou cal­ado. Fe­chou o paletó, disse qual­quer coisa em árabe, Toufick riu. Gu­ma ol­ha­va para eles. A voz se ex­tin­guiu no forte vel­ho e pud­er­am ou­vir per­feita­mente o em­bo­lar dos cor­pos no saveiro de mestre Manuel. 

  Meia-​noite mais ou menos Toufick disse: 

  -Pode­mos ir. 

  Sus­pendeu a ân­co­ra do saveiro (Had­dad fi­cou ol­han­do as suas tat­ua­gens), levan­tou as ve­las. O bar­co, de­pois da manobra, gan­hou ve­loci­dade. As luzes do navio apare­ci­am. Re­começou a toa­da no forte vel­ho. Nat­ural­mente Jeremias can­ta­va para a Lua nes­sa noite de tan­tas es­tre­las. Iam si­len­ciosos no saveiro. Já es­tavam bem per­to do navio quan­do Toufick disse: 

  -Pare. 

  O Pa­que­te Voador parou. A uma or­dem de Toufick, Gu­ma ar­riou as ve­las. O cas­co do saveiro jo­ga­va lenta­mente. Had­dad asso­vi­ou de um mo­do es­pe­cial. Não obteve re­spos­ta. Ten­tou no­va­mente. Da ter­ceira vez ou­vi­ram um asso­vio que re­spon­dia. 

  -Pode­mos ir -disse Had­dad. 

  Gu­ma to­mou os re­mos e não levan­tou as ve­las. O saveiro con­tornou o navio, foi atracar no seu cas­co, do la­do que da­va para Ita­pagige. Uma cabeça apare­ceu. Con­ver­sou com Had­dad nu­ma lín­gua tam­bém es­tran­ha para Gu­ma. Lo­go de­sa­pare­ceu. De­pois veio out­ro. No­va con­ver­sa. Had­dad man­dou que o saveiro se adi­antasse um pouco mais. For