am en­costar jun­to a uma larga aber­tu­ra. E dois home­ns começaram a de­scer peças de se­da, que Gu­ma e Toufick iam ar­ru­man­do no porão do saveiro. Não foram per­tur­ba­dos. 

  Se afas­tou lenta­mente do navio. Já longe, de­pois de ter atrav­es­sa­do o que­bra-​mar, abriu as ve­las e cor­reu de lanter­na apa­ga­da. O ven­to o aju­da­va, chegou rap­ida­mente ao por­to de San­to An­tónio. Ape­nas as on­das er­am bem mais al­tas, o mar menos cal­mo. Mas o Pa­que­te Voador era um saveiro grande e re­sis­tia bem. Toufick co­men­tou: 

  -Cheg­amos de­pres­sa. 

  Home­ns já es­per­avam o saveiro. Um de­les bem vesti­do se adiantou: 

  -Tu­do bem? 

  -Quan­tas vi­agens mais? 

  -Com este saveiro so­mente mais uma. 

  -O homem bem vesti­do aten­tou em Gu­ma, que aju­da­va a descar­ga. As sedas iam para uma casa cu­jos fun­dos davam para o por­to. 

  -É esse o ra­paz? 

  -É, sen­hor Mu­rad. 

  Gu­ma ol­hou para o ri­caço. Era um su­jeito gor­do, bem bar­bea­do, vesti­do de pre­to. Ele botou a mão no om­bro de Gu­ma: 

  -Ra­paz, você pode gan­har muito din­heiro comi­go. É an­dar di­re­ito. 

  Deu mais uma ol­hadela para o serviço, disse a Toufick: 

  -Ve­ja que tu­do ande di­re­ito. Ago­ra vou em­bo­ra, que An­tónio es­tá doente. 

  An­tónio era o seu fil­ho, es­tu­dante de Di­re­ito. Tin­ha paixão por aque­le fil­ho lit­er­ato e far­rista. De­scul­pa­va tu­do nele. Gosta­va de ver o nome do fil­ho nos jor­nais assi­nan­do coisas. Foi por is­so que Had­dad per­gun­tou: 

  -An­tónio es­tá doente? Faça uma visi­ta para ele. 

  F. Mu­rad, antes de sair, ain­da to­cou no om­bro de Gu­ma: 

  -Ande di­re­ito comi­go, que não se ar­repende. 

  -Deixe es­tar. 

  O au­tomóv­el o es­per­ava duas es­quinas de­pois. 

  Acaba­da a descar­ga, o saveiro voltou. No­va­mente o porão se encheu de far­dos de se­da. Gu­ma já tin­ha per­di­do a con­ta de quan­tos far­dos tin­ham si­do de­sem­bar­ca­dos. Toufick en­tre­gou um maço de din­heiro a um dos home­ns, que o con­tou à luz de uma lanter­na de bol­so: 

  -Es­tá cer­to -disse o que es­ta­va por de­trás, com uma pronún­cia hor­rív­el. 

  O saveiro saiu, no­va­mente pe­garam o ven­to, abri­ram as ve­las e chegaram sem in­ci­dentes ao por­to de San­to An­tónio. Des­ta vez Toufick lhe ofer­eceu um gole de cachaça. O saveiro foi descar­rega­do. Had­dad tin­ha de­sa­pare­ci­do den­tro da casa. Gu­ma acen­deu o cachim­bo. Toufick veio para ele: 

  -De­pois lhe avi­so quan­do vou pre­cis­ar de no­vo de você. 

  Tirou duas no­tas de duzen­tos, lhe deu. 

  -Você nun­ca viu es­ta casa, es­tá ou­vin­do? 

  -Tá fa­lan­do com um marí­ti­mo. 

  Toufick sor­riu: 

  -Boni­ta canção aque­la, não era? 

  Abotoou o casaco, se me­teu pela casa aden­tro. Gu­ma aper­tou as duas cé­du­las na mão. Manobrou o saveiro, par­tiu na madru­ga­da que rompia. E só no meio da água sen­tiu as per­nas e os braços cansa­dos. Se es­ten­deu no saveiro, mur­murou: 

  -Tá pare­cen­do que tive me­do o tem­po to­do. 

  O farol da Bar­ra pis­ca­va na madru­ga­da. 

  João Caçu­la lhe disse: 

  -Tu é um homem di­re­ito. 

  -Ar­ran­jei de em­prés­ti­mo com o tio de min­ha mul­her. Ago­ra vou pa­gan­do a ele. A qui­tan­da tem da­do, parece que ele vai bo­tar um ar­mazém. Até me chamou para só­cio. 

  -Já vi ele uma vez em tua casa. 

  -Um homem bom. 

  -Tá se ven­do.

  Rodol­fo apare­ceu uns dez dias de­pois. Gu­ma tin­ha chega­do na véspera de uma vi­agem a Ca­choeira, ain­da dormia. O vel­ho Fran­cis­co saíra para faz­er umas com­pras. Rodol­fo fi­cou brin­can­do com o so­brin­ho, con­ver­san­do com Lívia: 

  -Tu ain­da tá muito medrosa? 

  -Um dia me acos­tu­mo... 

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