Title: Dez Quilos de Trutas
Author: Tomaz de Figueiredo
CreationDate: Thu Jun 25 11:11:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 11 11:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Dez Qui­los de Tru­tas

  Tomaz de Figueire­do

  Um Sen­hor Triste e Dez Qui­los de Tru­tas foram ex­traí­dos do livro A Out­ra Cidade.

  © 1998, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-51-1

  Lis­boa, Fevereiro de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  DEZ QUI­LOS DE TRU­TAS

  UM SEN­HOR TRISTE

  Pouco mais po­dia ser do que os­sos e us­ava uns bigodes caí­dos, de tár­taro ou de triste, o sen­hor que en­trou no apead­eiro e fi­cou en­cal­ha­do no corre­dor. 

  Vou adi­antar-​me, porém, pois que, do meu poiso no com­par­ti­men­to e à janela para o mar, só de­pois re­parei que este sen­hor de pre­to ruço, es­co­va­do e as­sim ma­gro us­ava bigodes tac­iturnos. 

  Ia eu ol­han­do o largo de­ser­to de pa­que­tes, mas onde, a pare­cerem tombadas, en­tre cor de ti­jo­lo, e san­grentas, ou bran­cas sim­ples­mente -asas de pás­saro ir­re­al, ou só de cisne -ve­las de lan­cha an­imavam o hor­izonte. 

  Na ourela da cos­ta, por vezes quase rente à lin­ha, areais, se não ca­chopos e mais ca­chopos emergin­do, por ser maré vazia, bril­hantes de glau­co gelati­noso de al­gas en­sopadas. 

  Ah!, o cheiro de mar e este pos­sív­el atavis­mo mar­in­heiro que sem­pre me faz seden­to de mar co­mo de água, quan­do se tem sede! Parece que o mar chama os ne­tos daque­les que afo­gou e lá tem. En­can­ta­men­to? Mis­tério de her­ança na carne? 

  Ia o sen­hor de pre­to volta­do aos pin­heiros, à gan­dra in­defini­da que desse la­do margina­va a lin­ha. Só por is­so notei que us­ava bigodes de tár­taro ou de triste, quan­do o meu fil­ho mais no­vo, que se havia de­scuida­do em anun­ciar uma inadiáv­el ne­ces­si­dade, já, al­iás, sat­is­fei­ta à lei da in­ocên­cia, pas­sou pe­lo corre­dor, a toque de caixa, es­foguetea­do por min­ha mul­her, de­man­dan­do cer­to re­tiro onde a mãe lhe re­me­di­asse o suce­di­do. 

  Es­bar­rou o pe­queno com o sen­hor de pre­to, e foi quan­do este se vi­rou, aci­ma de im­pa­ciente, per­to de fu­rioso, que lhe re­parei nos bigodes de­scon­so­la­dos. Ia eu a lev­an­tar-​me, para de­fend­er o meu sangue, e, nis­to, ao ver um meni­no, a sua ex­pressão al­ter­ada sere­nou, e lo­go pas­sou a mão se­ca, mão de es­quele­to ain­da com veias, pela cabeça do pe­queno. De­pois, vi­rou-​se de no­vo para o pin­hal. 

  De seco, até o pescoço mostra­va descar­na­do, com um rego fun­do a sumir-​se-​lhe pe­lo crânio. 

  Ao tornar o pe­queno, ol­hou-​o fun­da­mente, e, no jeito per­to de in­stin­ti­vo de pas­sar pela cara as costas da mão, en­ten­di que es­ma­ga­va uma lá­gri­ma.

  -Ele, o sen­hor gos­ta de mar!? -atirou-​se a per­gun­tar-​me, num tom muito per­to de quem tira sat­is­fações. 

  -Se gos­to de mar, eu?! 

  Falou quase sem se torcer, de ol­hos sem­pre nos pin­heiros. 

  Nem queren­do re­spon­der -pois a que propósi­to me in­ter­rog­aria, e as­sim a de­spropósi­to, as­sim per­to de à má cara? -a bo­ca adiantou-​se-​me, puxan­do para a iro­nia. 

  -Ora es­sa, e porque não?! Porque não hei-​de gostar!? 

  Mu­dou o tom ríspi­do agres­si­vo. 

  -Pois ox­alá não ven­ha ain­da a ar­repen­der-​se... Eu, tam­bém... 

  Es­tacara o com­boio. Apre­goa­va mex­il­hões e lingueirões uma ra­pari­ga de braços tosta­dos e peitos em búzio, de sereia: de sereia ar­remes­sa­da à pra­ia e ain­da cheirosa a sar­gaços de gru­ta sub­mer­sa, de flo­res­ta mar­in­ha.

  Aqui­lo era o mar. E os mariscos são carne e água de mar. Comen­do-​os, come-​se e bebe-​se mar. 

  Do com­par­ti­men­to, 