e pela cen­tési­ma vez, que pouco menos, o meu fil­ho a quer­er saber: 

  -Ó pai! Ain­da fal­ta muito? 

  An­sioso por chegar à nos­sa pra­ia de sem­pre. Co­mo eu, a gostar de mar, de apan­har conch­in­has, de es­per­ar o que não se es­pera. 

  -Ain­da, ain­da. Ain­da um bom bo­ca­do... 

  -Pois que lhe preste, o mar! -in­sis­tiu o sen­hor de bigodes tár­taros. 

  Atirei o cigar­ro. Dei um pas­so para o com­par­ti­men­to. O com­boio ar­ran­ca­va, e o sen­hor de pre­to, quase im­per­ti­nente: 

  -Não, não se vá em­bo­ra! Há-​de ficar a saber que não gos­to do mar... Sei bem o que pen­sa, que sou um manía­co e um atre­vi­do pen­sam to­dos as­sim, de começo –, e, se eu não fos­se um vel­ho, era ca­paz de me de­scom­por. Se lho leio nos ol­hos!

  Con­cordei, tam­bém com os ol­hos. 

  Teima­va: 

  -É que eu dantes gosta­va de mar, en­tende o sen­hor?! Tan­to co­mo o sen­hor! Quem não gos­ta do mar?! E tive tam­bém um fil­ho, um fil­ho co­mo o do sen­hor, que tam­bém gosta­va do mar... E João, tam­bém, co­mo o fil­ho do sen­hor...

  En­ten­di e sen­ti a dor dis­tante e sem­pre da ho­ra do vel­ho que nem po­dia ver mar, de­cer­to porque lhe afog­ara esse fil­ho. 

  -Al­gu­ma on­da... Acon­tece... 

  Vi­ra­do sem­pre a pin­hais e a ter­ra, o sen­hor de bigodes mur­chos foi-​me con­tan­do uma história muito com­pri­da. 

  Que rison­ho e gor­du­cho não era o seu João! E o re­tra­to dele, que, nesse tem­po, havia para cima de trin­ta anos, era apru­ma­do e va­lente: na­da que se pare­cesse com o fan­tas­ma que eu via ago­ra... As­sim fan­tas­ma, do sofri­men­to, que pouco pas­sa­va dos cin­quen­ta... Acred­itasse eu que ain­da não fiz­era cin­quen­ta e qua­tro anos... Ia fazê-​los... Bem que lhe im­por­tavam lux­os, vaidades...

  O João brin­ca­va na pra­ia... De tão cal­mo e chão que o mar es­ta­va, ninguém a vigiá-​lo... Per­to, muito per­to do tol­do, o João a brin­car com out­ros... 

  -Tra­go sem­pre o re­tra­to dele... Na cigar­reira, e não fu­mo... Deix­ei de fu­mar... A cigar­reira, as­sim co­mo um caixãoz­in­ho de oiro... 

  E de oiro, sim, a cigar­reira! O caixãoz­in­ho de oiro que dizia! 

  -Ve­ja! Ve­ja! 

  Trem­ia-​lhe a mão, ao es­ten­der-​me e abrir-​me o caixãoz­in­ho de oiro es­verdea­do, oiro anti­go, onde quase só uma som­bra amare­la­da anela­va caracóis de ca­be­lo. 

  -O João! O meu João! Os ol­hos que ele tin­ha! Ve­ja os ol­hos que ele tin­ha! E pron­to…E pron­to…E acabou-​se... 

  Arreda­do o grotesco ini­cial do sen­hor de lu­to, apan­hou-​se-​me a gar­gan­ta. Lev­ado pe­lo mar, por al­gu­ma dessas on­das que de súbito alagam tu­do, co­mo se a ver brin­car o meni­no que a morte fixara na in­defini­da in­fân­cia e que, se vi­vo fo­ra, an­daria pela min­ha idade. 

  -Uma ressaca, não? 

  -Antes uma ressaca! 

  De vol­ta ao meu lu­gar e ol­han­do pra­ias que umas nas out­ras se emen­davam -tol­dos gar­ri­dos, nal­gu­mas, ban­his­tas fol­gan­do nas on­das ou to­stan­do ao sol, cri­anças a mol­harem os pés –, acom­pan­havam-​me a história do sen­hor triste que lá seguia no corre­dor. E a ver, co­mo se de carne e ale­gria, em­bo­ra já tão des­ma­ia­do no re­tra­to, o po­bre meni­no mor­to. A vê-​lo, no meu fil­ho, co­mo se ele fos­se. 

  Lá o via tam­bém na areia, ele, o mais pe­queno, brin­can­do com uma nu­vem de out­ros.

  A afun­darem na areia duas bu­ra­cas fun­das. Mineiros, a lig­arem as bu­ra­cas: um túnel. O túnel do com­boio! O túnel do com­boio!

  Era o túnel do com­boio, e de com­boio a servir o João, o que mel­hor cabia e porque só en­gat­in­ha­va. 

  O túnel a aluir, com o com­boio lá den­tro! 

  E os meni­nos a re­mex­erem a areia, a re­mex­erem a 