areia... Os meni­nos a gritarem, e sem o João apare­cer... E sem já atinarem com o sí­tio...

  -Quan­do apare­ceu, es­ta­va mor­to... - dis­sera eu ao sen­hor triste. 

  -Nun­ca mais apare­ceu! -tin­ha-​me re­spon­di­do. 

  Lis­boa, 1942 

  DEZ QUI­LOS DE TRU­TAS

  En­tra­do Jun­ho e em anos sec­os, dão os rios e ribeiros de tru­tas a min­guar, dec1ivosos que são. Min­guam saltos, ca­choeiras, galeiras. En­tram de ficar a nu, par­da­cen­tas de os­sa­da, pene­dias donde se ar­rebatavam e ar­ro­javam, donde es­pumavam. Poços, além e além, vão re­stando, fundões de águas quase mor­tas aonde as tru­tas se recol­hem, lá meti­das em lo­jas e fis­gões, a sus­tentarem-​se do esca­lo, da bo­ga, da pan­chor­ca, do peixe pe­queno e im­pru­dente que lh­es não es­pera a bo­car­ra e a den­tuça, o líqui­do voo de frecha. De­scon­fi­adas, fem­ini­nas, de noite, só, a caçar, saem as tru­tas das suas acol­heitas.

  En­tra­do Jun­ho, quan­do muito, Jul­ho, o pescador artista, o de raça, o da mosca fin­gi­da, o da pluma, pen­dura pela pon­ta o bam­bu in­teir­iço, para não em­pe­nar. Tam­bém daí ser ex­ac­to que o pescador de tru­ta nun­ca pas­sa de po­bre, porque tam­bém na­da mais sabe do que pescar, po­eta das águas cor­rentes e frias que nasceu, quer mor­rer e morre. Se for­mos a med­itar e a con­cluir, porque das paixões não se vive, morre-​se, pos­to que a paixão a úni­ca vi­da dos que nasce­ram vivos, e lá reza um rifão ain­da não recol­hi­do que homem truteiro, nem casa nem pal­heiro. O homem truteiro vive e aca­ba por mor­rer en­tre uma efeméride e uma am­bição. Efeméride, cimo de uma vi­da, a maior das tru­tas grandes que pescou, vai um ano, vão dez, vai um ror de­les, ex­ac­ta­mente a tan­tos de tal, pela tardinha, abaixo das pol­dras de tal e num re­don­do as­som­bra­do por um salgueiro, ou mes­mo à bo­ca do cachão dum moin­ho, quase en­tre as pe­nas da ro­da. Três a qua­tro pal­mos, rés-​vés ... Sete ar­ráteis bem pe­sa­dos... Ne­gra, de cer­ro ne­gro, e que lhe de­mor­ou coisa de meia ho­ra a cansar... Abeirou-​a, por fim, me­teu-​lhe um de­do pela guel­ra e só ar­que­jou num der­radeiro sus­piro, co­mo de uma pes­soa, fi­cou es­ten­di­da na er­va... Uma tal sen­ho­ra tru­ta... E man­da­da de pre­sente ao sen­hor Ad­min­istrador, que a man­dara de pre­sente ao doutor de medic­ina, que a man­dou de pre­sente ao sen­hor Re­itor, que era para a man­dar de pre­sente ao sen­hor Ar­cipreste, mas que ele Re­itor a tin­ha co­mi­do às postas e de es­cabeche, sain­do-​se a diz­er que não se fiz­era o mel para a bo­ca do as­no. Florão de uma vi­da, es­sa tru­ta, so­mente mal em­pre­ga­da...

  Am­bição, e poderá seguir e mor­rer sat­is­feito, a da pos­sív­el próx­ima tru­ta grande, pe­lo menos do taman­ho da out­ra, mas porque não maior? Que as há de doze ar­ráteis e aci­ma, já hou­ve quem as tirasse O Damião do...Toural... O Ze­feri­no do Picão... Tam­bém er­am out­ros tem­pos, mas quer não…

  A tru­ta das tru­tas, es­sa nun­ca chega a tirá-​la -e nem que imor­tal nasci­do –, porque às tru­tas, e aos son­hos não limi­ta a imag­inação. 

  Tu­do is­to, e que na­da é, aos que de tru­tas en­ten­dem e não de­ses­per­am -is­so sim! -de ain­da tirar a ide­al tru­ta grande, para con­tar que na cidade fron­teir­iça apare­cia fre­quente um galego já en­tra­do na idade e de bigodes vir­gens -duas les­mas amare­las e pen­duradas –, truteiro eméri­to, a vender as suas tru­tas: o Gav­ilan, Pepe Gav­ilan y Gav­ilan -Gav­ilan por pai e por mãe, pri­mos car­nais: gav­ião pelas duas ban­das: um gav­ião das tru­tas.

  A gor­ra gale­ga nun­ca a tira­va, nem ao Rei a tiraria, e ver­emos que aci­ma dis­so po­dia acon­te­cer. Um dess­es grandes sen­hores de calças com cuadas s