o­bre cuadas que nos cam­in­hos de Pon­teve­dra, de Lo­bios, de Verin, de onde se­ja Gal­iza, a par e além do Min­ho e de Trás-​os-​Montes, ain­da se topam nas car­reteiras, Grandes da Gal­iza, que des­den­ham sê-​lo de Es­pan­ha: Grandes de Es­pan­ha, pois que não é Es­pan­ha nação mas penín­su­la. Dos que matam fome e sede tan­to ao lorde ex­travi­ado quan­to ao ped­inte an­dar­il­ho, fi­dal­gos. Nascer galego é nascer-​se fi­dal­go, por muito que pos­sa não pare­cer. E sem­pre vem um sinal. En­tendê-​lo é que muito raros. 

  Apare­cia na cidade ra­iana o Pepe Gav­ilan y Gav­ilan, a rog­ar com as suas tru­itas, pois galego fala­va, sem caldeia castel­hana, a ami­gos afregue­sa­dos. 

  Um dess­es, o coro­nel do reg­imen­to de cav­alar­ia, a quem sem­pre trata­va por Dom Pa­co, e Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan, ne­to dum coro­nel carlista mor­to em com­bate, ele o dizia, apes­soan­do-​se e ba­ten­do tacão -a bor­racha das sen­da lhas azuis e ro­tas –, de braços tesos e pro­lon­ga­dos com a bom­baz­ina das pan­talonas. 

  Ia o coro­nel do reg­imen­to pas­sar à reser­va, e, na véspera dessa primeira morte, na de en­tre­gar o co­man­do, ofer­ece­ria uma ceia a to­da a ofi­cial­idade: a de se de­spedir de vi­vo. Uma ceia em que have­ria tru­tas, porém -nis­so tim­bra­va, seu der­radeiro cav­alo de batal­ha -, e na mes­ma a de­spedir-​se o Jul­ho de um ano ex­cep­cional­mente seco: o rio fron­teir­iço já abati­do, já os ribeiros aflu­entes a ne­garem-​lhe águas, de pene­dias cal­vas dos ca­be­los verdes dos ol­heiros ser­ra­nos, so­mente al­gum re­gat­in­ho de voz apa­ga­da cole­an­do en­tre fis­gas de rochas e rente às touças das beiras. 

  O coro­nel que­ria tru­tas, e tru­tas para vinte pes­soas, tin­ham de apare­cer tru­tas, nem que Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan as fos­se cavar nas pe­dras. 

  -Serão pos­síveis, Pepe, aí uns dez qui­los de tru­tas, aí meio qui­lo por cabeça, e já uma mis­éria?...

  Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan coçou a gor­ra. 

  Dez qui­los... Eh! Eh! Dez qui­los de tru­tas... 

  -Dez qui­los, ou aci­ma... Ou aci­ma, Pepe! E o do­bro é que da­va jeito, que os meus ofi­ci­ais, lá es­sa ra­pazi­ada muito com­pe­tente para se pur­gar de véspera! Bem sei que tam­bém há-​de haver cabri­to, e leitão, e pe­ru, e fei­joa­da... Ess­es di­abos têm uma tal moela, um tal bu­cho... Mas o negó­cio das tru­tas é que vem ao começo... E de bu­cho ain­da a dar ho­ras, os pat­ifes... Uns vinte lo­bos... Uma ceia sem tru­tas, Pepe?! Uma ceia sem tru­tas nem é ceia! E tu, des­on­ra­do! Per­di­dos os galões de truteiro-​mor destes rios em dez léguas à ro­da! Sem­pre quero ver! Tu, o rei das tru­tas, des­on­ra­do... A teres de par­tir a cana aos joel­hos... Um mil­itar des­on­ra­do que­bra aos joel­hos a es­pa­da! Um truteiro que­bra a cana! Hein, Pepe?! Ao menos os dez qui­los! 

  Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan med­ita­va, ia-​lhe cor­ren­do ao den­tro do ca­co e da gor­ra o sis­tema hidro­grá­fi­co do seu po­vo, de su pueblo, ia cor­ren­do ca­da les­ma do bigode com os de­dos pen­sativos e cép­ti­cos. 

  Dez qui­los... 

  -Pe­lo menos, Pepe! Pe­lo menos, Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan, Rei das Tru­tas e Adi­anta­do-​Mor do Reino da Gal­iza! 

  Do Reino da Gal­iza, dizia Dom Pa­co muito bem... Porque era um reino, Gal­iza, sim sen­hor... E ain­da es­per­ava o dia... 

  -O dia da in­de­pendên­cia? O da in­de­pendên­cia do Reino da Gal­iza, Dom Pepe?

  E porque não?.. E porque não?.. O seu Reino da Gal­iza... 

  -Pois bem, Dom Pepe de to­dos os Gav­ilanes! E pos­so con­tar com as tru­tas? A tua hon­ra de pescador em peri­go... 

  Eh... Eh... 

  -A tua hon­ra! 

  Até ali, sim, de­fend­era-​a... E, se não an­dara com sorte, po­dia ago­ra, em vez