 de por ali an­dar, pás­saro livre, gav­ião com asas, pe­nar a fer­ros por to­da a vi­da, ou ter mor­ri­do no gar­rote. Porque, em primeiro, a hon­ra. E con­tou. 

  Pois, dessa vez, ain­da no tem­po das tru­tas grandes -tem­po, que tem­po! -vin­ha a con­star que lá num ribeiro de longe an­da­va uma tal sen­ho­ra tru­ta que ninguém ja­mais vi­ra uma as­sim. Já pescadores de muitas ban­das, e mes­traços, re­far­tos de a namorar, e na­da. Vel­ha, muito vel­ha, lá nal­gum dia fer­ra­da e que se pusera ao fres­co do an­zol. Sabi­da, nem se bo­lia, e moscas de to­das as cores a ten­tá-​la. Uma tru­ta en­can­ta­da! En­can­ta­da! Porque não se alarga­va do fundão em que vivia, ou lá pe­lo es­curo ou à tona, à babugem, a bo­tar de fo­ra o focin­ho e o lom­bo -um lom­bo pre­to de carvão – e a abo­car e masti­gar to­do o bi­cho que de­scesse na água, mas a con­hecer o que er­am bi­chos ver­dadeiros e bi­chos fin­gi­dos, arisca, man­hosa e a sumir-​se, de raio, mal que ou­visse uma som­bra. 

  Quis­era ele tam­bém ver co­mo aqui­lo era, mas a es­per­ar a Lua forte, no cres­cente, e um dia de céu en­cober­to e sereno, a ameaçar chu­vis­co. Pre­venido! Ia pre­venido com um ror de pe­nas de ga­lo, da rui­va à de ne­gro-​azul, pe­nas de cal­caré e a mi­la­grosa do cu­co. 

  Chega­do ao ribeiro, ele a per­gun­tar no­vas da tru­ta en­feitiça­da. Moleiros que es­per­avam enredá-​la quan­do as águas av­agassem, mas sem me­do que ele à cana a des­fru­tasse, até a de­san­imarem-​no. Aqui­lo nem era tru­ta, era o di­abo em feitio de tru­ta, e daque­le taman­ho não havia memória. Aí tru­ta para al­cançar uns quinze a vinte ar­ráteis, uma bicha, uma pesca­da. Nas que ele se ia me­ter! Mas fos­se, fos­se! Fos­se, que tor­na­va de beiça. Já out­ros, mais pin­ta­dos, ali tin­ham vin­do e tin­ham ido de beiça caí­da, os lam­bões. Tivesse juí­zo! As­sim ra­paz­in­ho, mal pas­sante dos vinte, se os pas­sara, tivesse juí­zo. Já home­ns de bar­bas ali tin­ham vin­do, to­dos bazó­fias, to­dos treteiros, e ala, em­bo­ra, a darem ao di­abo a car­da­da. 

  Ele, que ain­da se ia ver... Que, no­va­to que era, lhe tin­ham nasci­do os dentes à beira da água e a reparar em co­mo o pai fazia, já vel­ho, esse, até a pescar de ócu­los. 

  Um moleiro, e uma trave de homem, a não se ficar pe­los con­sel­hos de ter juí­zo. A diz­er-​lhe, à risa­da:

  -Pois, se caçares a tru­ta grande, não te es­queças de ma vir mostrar, que eu co­mo-​a crua, com tri­pas e tu­do! Com tri­pas e tu­do, fi­ca saben­do! 

  Dizia-​lhe uma coisa dessas?! Dizia-​lhe tal coisa?! Pois ain­da havia de se ver! 

  Questão de hon­ra, cara­go! Questão de hon­ra! 

  Até que al­cançasse o fundão da tru­ta grande -o chama­do Poço Mau, a pon­tos de haver quem jurasse que fu­ra­do até ao mar, porque lhe apare­ci­am à tona madeiras, co­mo que restos de navios –, pois, até lá chegar, bus­can­do pescar o que pudesse, e nem truti­nha palmeira, qual! Sem perder a fé, en­tre­tan­to, porque lhe pare­cia ou­vir o coração diz­er-​lhe: «Homem, nis­to de tru­tas, é um ar em que tu­do mu­da! Tem fé!»

  Mas na­da, mes­mo na­da. Fal­to já de paciên­cia para mu­dar de pluma, que nem ao cas­tan­ho nem ao pe­drês nem... Era pre­ciso que hou­vesse mais cores do que as que há. Nis­to, e cal­han­do de ol­har para o chão, a ver uma pe­na de gaio, e tão azul que lhe pare­ceu o azul de uma flor, o azul gaiteiro de al­gu­mas blusas de ra­pari­gas de aldeia em dia de Cruz. Se na­da gan­has­se, tam­bém na­da per­dia, e talvez o seu An­jo da Guar­da teria si­do quem lhe vi­rara a vista para aque­la pen­in­ha de gaio. Pescar com pe­nas de gaio, nun­ca ou­vi­ra que se pescasse, mas lem­brou-​lhe que tam­bém havia car­ra­pat­in­hos e bal­bore­tas daque­la co