e­ria ter asas. 

  Chega­do, a bater à por­ta do moin­ho, o out­ro a abrir e a sair. 

  A ap­re­sen­tar a tru­ta, que lhe chega­va do peito aos pés. En­tão!? Ali lha ap­re­sen­ta­va! Era aque­la? Bem aque­la?! Ou ain­da have­ria out­ra maior?! E to­ca ali a comê-​la, em con­ti­nente! Sem sal nem na­da! Só com o tem­pero das tri­pas! De­pres­sa! Uma pres­sa! 

  O out­ro a gabá-​lo, mas na­da ele para ga­bos, para lam­panas. Co­mia, ou não co­mia?! Co­mia, ou não co­mia?! 

  Com mais parabéns, o out­ro, mais em­bo­ras, e ele, cheio de rai­va, ra­bioso, a abrir a naval­ha e a fin­car-​lha à bar­ri­ga. 

  Co­mia, ou não co­mia? Com tri­pas e tu­do! 

  A tru­ta vin­ha a comê-​la o sen­hor Al­caide, que o levara à Pia e aos San­tos óleos, porque o moleiro se lhe botou de joel­hos, sentin­do já na bar­ri­ga a pon­ta da naval­ha e sem que mais pudesse re­cuar, ar­ru­ma­do a uma parede. 

  -Pois aí tens, Pepe! A tua hon­ra! A tua hon­ra de truteiro, out­ra vez, ago­ra! Es­sa história da tru­ta grande já ma con­taste meia dúzia de vezes, uma dúzia! Ar­ran­jas out­ra as­sim, ago­ra, e pron­to! Já dá, já dá muito bem! As­sa­da no forno, com ba­ta tin­has no­vas! E a pen­in­ha... Ar­ran­jas out­ra pen­in­ha de gaio... Man­do-​te matar um gaio, uma dúzia de­les... Fi­cas com pen­in­has de gaio para to­da a vi­da! A tua hon­ra, Pepe! Eu fa­lo à tua hon­ra! Dez qui­los de tru­tas, ou uma tru­ta de dez qui­los, tan­to vale! 

  O Pepe das tru­tas queixou-​se. 

  Bom tem­po, o das tru­tas grandes... E, em Jul­ho, nem das pe­que­nas... E is­so da pen­in­ha de gaio... Nun­ca, nun­ca mais! A primeira e a der­radeira vez em que a uma pluma de pe­na de gaio picara uma tru­ta. Far­to de ten­tar a pen­in­ha de gaio, e de­scoroçoa­do. Um mi­la­gre daque­le dia... Deus a acud­ir-​lhe à hon­ra... 

  Dom Pa­co era ain­da coro­nel de cav­alar­ia. 

  -Pepe, eu não te di­go mais palavra. Só ol­ho para ti!

  Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan, Truteiro-​Mor do Reino da Gal­iza, cedeu. 

  Con­tasse. Con­tasse com as tru­tas Dom Pa­co. A sua hon­ra! 

  Aper­taram-​se as mãos Dom Pa­co e Dom Pepe. 

  Na véspera da ceia e já es­curo, Dom Pepe Gav­ilan y Gav­ilan, de cacifro às costas, à por­ta de ar­mas do reg­imen­to e a per­gun­tar pe­lo co­man­dante. A sen­tinela a apon­tar-​lhe a Sé. 

  -Acolá! 

  Já fo­ra do quar­tel, o sen­hor co­man­dante!? 

  -Na Sé, acolá! Caí­do para o la­do, re­don­do, ho­je, o nos­so co­man­dante! Mor­to, re­don­do, o nos­so co­man­dante! E ago­ra no caixão, acolá, na Sé! 

  O pescador galego, a um tem­po nem que­ria cr­er, mas tam­bém a con­sid­er­ar que com a morte não se brin­ca. 

  Mor­to!

  -Mor­to! 

  À procu­ra de pen­sar al­gu­ma coisa, fi­cou para­do. 

  -Era ami­go dele, do nos­so co­man­dante? 

  Era. 

  Só re­spon­deu is­to e deu costas. 

  Aque­la Sé onde nun­ca en­trara... To­da ar­ma­da de panos pre­tos... Ao cimo, na capela-​mor, e nu­ma es­sa de ouro -pare­cia de ouro! -, o caixão do mor­to. Di­re­itos, co­mo de pe­dra, a ca­da can­to e de es­pa­da nua, qua­tro ofi­ci­ais. Qua­tro tocheiros, de mais per­to, alu­mi­avam o mor­to: uma guar­da de hon­ra de es­padas e out­ra de luzes: as luzes a deitarem fo­go às es­padas. No ve­lu­do de al­mo­fadas, o quépi e a es­pa­da, as medal­has do mor­to, e na mes­ma as luzes a arderem na es­pa­da, nos ouros e nos es­maltes. 

  Sem que tirasse a gor­ra, nele um se­gun­do ca­be­lo -talvez que até dormiria de gor­ra deu o Pepe das tru­tas umas pas­sadas até à cabe­ceira do caixão. 

  Em­bo­ra de ol­hos fecha­dos, o mor­to pare­cia ver, en­ten­der. 

  Pepe, es­ta­ca­do, a ol­há-​lo. E va­garoso, muito va­garoso, a ro­dar para o peito o cacifro, a abri-