Title: Embarque em Brindisi
Author: Agustina Bessa-Luís
CreationDate: Thu Jun 25 15:21:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Apr 08 06:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Em­bar­que em Brin­disi

  Agusti­na Bessa-​Luís

  Em­bar­que em Brin­disi re­sul­ta de uma com­pi­lação de tex­tos ex­traí­dos dos livros Ale­gria do Mun­do I, A Br­us­ca e Con­ver­sações com Dmitri e Out­ras Fan­tasias, de Agusti­na Bessa-​Luís, que gen­til­mente au­tor­izou es­ta pub­li­cação.

  © 1998, Agusti­na Bessa-​Luís e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-46-5

  Lis­boa, Abril de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  EM­BAR­QUE 

  EM BRIN­DISI

  ALE­GRIA DO MUN­DO

  Ju­lo e Pom­pílio 

  To­das as ter­ras litorais do Al­to Min­ho pare­cem emer­gir, co­mo pe­que­nas Atlân­ti­das pe­dregosas e crismadas de ven­tos, do fun­do da sua história ori­en­tal­ista. Foram quase to­das flo­res­centes por­tos onde se ou­via o repique dos marte­los nos es­taleiros e onde o cav­er­name dos lu­gres e dos navios se lev­an­ta­va co­mo uma os­sa­da an­te­dilu­viana en­tre as pare­des dum quin­tal de ar­mador, com lata­da de miú­do ca­cho corín­tio. Porque sucede aos por­tugue­ses mis­tu­rarem, de mente nem ju­di­ciosa nem útil, mas em monção de sim­ples azar, as coisas grandes com as pe­que­nas, as naus e as fig­uras de proa com a caldeira­da de safio. Gente há por aqui que se chama ain­da Pom­pílio ou Ju­lo, que os tem­pos não sub­ornaram ja­mais e que pos­suem, atrás da casa de bar­ro ca­ia­da, uma ofic­ina de bar­cos onde fab­ri­cam, lenta­mente, com in­ter­va­los pingueiros e sono­len­tos, obras-​pri­mas anaval­hadas de si­glas, pin­tadas de rosa e pre­to, com ol­hos ci­clópi­cos na lin­ha de flu­tu­ação. Em monção de azar os tal­ham e saem-​lh­es malaios ess­es ol­hos anti­gos. Donde os copi­am ou recor­dam não o sabem; mas têm a pre­cedên­cia da própria palavra monção, trazi­da pe­los marí­ti­mos por­tugue­ses dos mares das Ín­dias. «O tem­po ou mon­son, co­mo eles o chamam, em que vêm os bar­cos, é o mês de Jul­ho, e per­manecem em Bas­so­ra até fins de Out­ubro, pas­sa­da cu­ja época não po­di­am sair do rio, por causa dos ven­tos con­trários.»  Este sig­nifi­ca­do pas­sou ao por­tuguês monção, adap­tan­do-​o os nos­sos mare­antes ao diz­er «tem­po para nave­gar pera tal parte». Mousin be­rat e mousin tim­or traduz-​se por ven­to do Poente e ven­to do Lev­ante. Is­to in­for­ma um vel­ho livro que por aqui guar­do, propí­cio aos in­ter­reg­nos da in­spi­ração e onde apren­do ciên­cias fab­ulosas e in­teligentes, co­mo a de Sal­vador Ro­ca, au­tor de obras es­ti­madas, en­tre elas a Sanidade del ca­bal­lo e otros an­imales su­je tos ai arte de al­bei­te­ria, ilustra­da con el arte de her­rar.

  Pom­pílio e Ju­lo des­bas­tam tran­quil­amente o pin­heiro e a acá­cia bra­va. São home­ns muito difer­entes e am­bos se dedicam ao mes­mo mester. O primeiro é tar­ta­mu­do e som­brio, tra­bal­ha a ocul­tas, fin­ge-​se umas vezes louco, out­ras vezes ofen­di­do, e ninguém sabe se gan­ha ou perde com os seus be­los bar­cos; não gos­ta de se des­faz­er de­les, mi­ra-​os com des­gos­to trans­por a pal­iça­da de canas da sua hor­ta e pro­jec­ta afundá-​los no rio, enchen­do-​os de pe­dras, vazan­do-​lh­es o flan­co. Odeia os com­pradores, ol­ha-​os co­mo in­imi­gos, e às vezes, com um pouco de vin­ho, con­cede uma das suas obras, com um cuida­do de em­pregá-​la bem, com um es­mero de re­comen­dações, co­mo se, em vez de en­tre­gar um bar­co de pesca ou de sar­gaço, casasse uma fil­ha virgem e bem oura­da. E quan­do en­tra no seu ter­reiro jun­ca­do de ser­rim e las­cas claras, sente no ar o cheiro 