do verniz ou do al­ca­trão, vê no chão as fer­ra­men­tas, os pre­gos tor­tos e que não servi­ram, e uma gal­in­ha que os de­bi­ca com cu­riosi­dade e gu­la, enche-​se de fúria, ameaça matar al­guém e diz: «Gilin­ho, quem te roubou, gilin­ho?», -que as­sim chama o bar­co, seu caixão de can­seiras, sua ar­ca de poderes, sua for­tu­na de leal­dade.

  Ju­lo é um homem arteiro e ra­bi­cho, sabe e usa de vaidades, car­rega de ban­da o boné, é tão le­viano quan­to co­mu­nica­ti­vo. Os seus bar­cos têm uma al­ma de galeras do Ni­lo, quase lh­es ve­mos tol­dos de se­da es­car­late e flâ­mu­las bi­fur­cadas. Mente e ilude a to­da a gente, o vel­ho Ju­lo; vai de noite às matas in­jec­tar com áci­dos as ár­vores para que se­quem e de­pois lhas ven­dam mais baratas. As suas lan­chas são leves e velozes, mas não du­ram, a primeira in­ver­nia as de­scon­jun­ta, e, se lhe atribuem cul­pas, Ju­lo diz: «Faço bar­cos para ri­cos, que servem para tirar re­tratos.» E havia dantes bar­cos en­cal­ha­dos na areia, que se fre­tavam para um pas­seio à bar­ra e que tin­ham es­sa fres­cu­ra con­vida­ti­va e fol­clóri­ca dos bar­cos de Ju­lo. Saltavam nas on­das co­mo ton­in­has, gemi­am os re­mos cor­tan­do a água verde. Um ter­ror, quase uma saudade fa­tal­ista e de­sati­na­da, apon­ta­va-​nos o ol­har para ter­ra; e a grande vela cor de saibro com re­men­dos bran­cos pre­ga­va-​se nos ares pronta a tomar a di­recção das il­has, de Sama­tra ou de Bornéu. Era a autên­ti­ca mousin ker­ing, a es­tação se­ca, ou a monção de Jul­ho, que nos im­pelia nos fi­nos, el­egantes, aven­tur­osos bar­cos de Ju­lo. 

  Porém só os bar­cos de Pom­pílio re­sis­ti­am à es­tação fria e chu­vosa. Mousin din­gin, chamavam-​lhe os ín­dios do ar­quipéla­go malaio. Ess­es sim, er­am bar­cos maciços e solenes, com uma vo­cação de ad­ver­si­dade pe­san­do na ar­mação, vi­gian­do na popa o leme. Que uns não são out­ros. Fab­ri­cam os Ju­los em­bar­cações ribeiras, grande en­feite de rose­tas e cruzes soli­manas; e os Pom­pílios, na tar­ta­mu­da sagaci­dade do seu génio, adereçam aque­les loucos e briguen­tos lanchões pesqueiros que se lh­es vão das mãos artis­tas e do coração sin­istro pelas águas pro­fun­das, de mar em mar.

  Destas pra­ias do Al­to Min­ho am­bos ain­da se pro­duzem os da monção de Jul­ho, os da monção de Out­ubro, am­bos. Apare­cem eles atrás dos case­bres, atrás das sebes de dálias po­dres e de malme­queres que cheiram a açafrão ou que cheiram sim­ples­mente mal. Os bar­cos de Ju­lo e os bar­cos de Pom­pílio - am­bos. 

  Is­to me sug­erem os abri­gos costeiros que foram já lu­gares de fama onde apor­tavam as naus. Riem-​se-​lh­es os ol­hos malaios dos bar­cos novos que ali se aprontam lenta­mente; e o sal­ga­do ven­to so­pra amon­toan­do as ne­gras al­gas. 

  15 de Jul­ho de 1965

  Thubal, O Homem 

  «Mar­avil­hosas são as cousas que dizem os teól­ogos.» Começa as­sim An­tónio Vieira nu­ma das suas orações en­gas­tadas de prudên­cias fan­tás­ti­cas e re­voltosas que lhe valer­am cárcere, pro­ces­so e faina de es­píri­to. Esse formidáv­el homem de le­tras teve de por­tuguês o en­gen­ho fá­cil e do primeiro Adão a arte da des­obe­diên­cia. Muitas são as imag­inações em que se me­teu por praz­er mes­siâni­co e gos­to de con­fundir os pa­stores de leis do seu tem­po. Con­ta ele, supo­mos que com es­cân­da­lo ra­zoáv­el dos home­ns de meias con­ver­sas, que, ten­do Japhet sete fil­hos, o quin­to se chamou Thubal e foi o primeiro por­tuguês do mun­do. Cae­tus Thubal, com a cor­rupção dos anos, deu o que ho­je se chama Setúbal. E con­sta que nesse Thubal se cumpriria o mel­hor da bênção de Noé; o nome proféti­co de Thubal sig­nifi­ca o que parece «homem de to­do 