o mun­do» ,  e is­to sim é es­ta­do, carác­ter e so­lic­itude de por­tuguês. 

  Adi­anta-​se An­tónio Vieira nu­mas di­va­gações que o San­to Ofí­cio atal­hou com comed­imen­to e que out­ras mesas de juí­zo ho­je lhe havi­am de re­bater não com menos reser­va. De tu­do, so­bra-​nos esse Thubal que teve do avô a fan­ta­sia mar­in­heira, a sen­si­bil­idade da vin­ha em­bar­da­da, e não sei que lan­guidez es­treme, en­tre a piedade e o ze­lo, coisas de proveito para a definição de cul­tura. Thubal, com que Japhet quis sig­nificar or­bis ou mun­danus, é ain­da o que vós con­heceis de lento repas­sador dos cam­pos da ter­ra, um homem que con­vive larga­mente e não se aper­feiçoa de­masi­ado nos bens deste mun­do. É por tem­per­amen­to pródi­go, cav­al­heiresco e des­or­ga­ni­za­do; mas vig­ilante em cumprir a sua razão no reino do prováv­el, já que não lança­do a fi­ar-​se nela, mes­mo de­pois de ju­ra­da.

  Thubal, o por­tuguês, vê-​se que nasceu de Japhet que era um moço mur­cho de risos quan­do a piedade lhe to­ca­va o coração. O primeiro habi­tante deste Oci­dente tem ex­ac­ta­mente, co­mo os seus fil­hos, uma cer­ta propen­são costeira, a que­da para se in­sta­lar à beira-​mar e con­stru­ir a es­mo povoações feias, go­to­sas, paradas, que o de­silu­dam de­pres­sa do lu­gar e lhe tragam in­spi­rações ab­sortas doutros azares e cam­in­hos. Não sei se Thubal guardou no sangue a saga do avô, muito pre­cata­do cidadão e de­cer­to ra­zoáv­el corre­dor de aven­turas. Porque o Juí­zo Fi­nal é uma con­stante da mente hu­mana; é o es­ban­ja­men­to do hor­ror per­ante a sat­uração da pe­que­na vileza a que se su­jei­ta o homem quo­tid­iano. E dize­mos: «As­sim o mun­do soço­bra e se afun­da, e na­da so­bre­viverá na in­iq­uidade; mas um jus­to en­tra nu­ma ar­ca que ele próprio con­stru­iu, e per­manece a sal­vo.» As­sim acred­ita­mos no im­perecív­el, leve, re­sistente, ao sa­bor das águas. Thubal imag­ino que her­dou, com o mel­hor da bênção de Noé, aqui­lo de abrir es­taleiro na cos­ta e bar­rar de pez os bar­cos. Lá es­tá Cae­tus Thubal con­stru­in­do eter­na­mente a ar­ca de sal­vação, e beben­do go­ladas de vin­ho morno. Satíri­co e tris­ton­ho, com ol­hos azu­la­dos, pen­sa sem pen­sar, adi­vin­ha sem pr­ev­er o seu Juí­zo Fi­nal.

  Não sei se o con­hecem, o tal, pin­ta­do na Capela Sisti­na. Grandes adama­stores aco­brea­dos pairam nos ares tur­bu­len­tos; os mor­tos ressus­ci­tam, os pecadores pre­cipi­tam-​se, as al­mas eleitas aviz­in­ham-​se do trono de Deus. Miguel Ân­ge­lo tin­ha do homem uma ideia catas­tró­fi­ca; era ain­da um dis­cípu­lo de Savonaro­la pin­tan­do a nudez mon­umen­tal co­mo uma for­ma de in­dig­nação. Onde es­tá Thubal, ou Japhet, marte­lando cuida­dosa­mente as pontes da ar­ca? Não lev­am eles um casal de ca­da es­pé­cie de an­imais? Que es­pé­cies, senão es­pir­itu­ais? Que for­mas, senão pro­postas a mu­dança? Ago­ra paramé­cias, de­pois pom­bas per­feitas. Thubal, o homem, con­tin­ua a con­stru­ir a sua nave que al­ber­gará to­dos os seres da cri­ação. Ali tem guar­ida não só a in­teligên­cia ou a man­sid­ão, co­mo tam­bém o que é as­tu­to e lu­ta­dor; e cer­tas es­pé­cies rasteiras, a toupeira ce­ga e o es­car­avel­ho em­purran­do a sua bo­la de ex­cre­men­to se res­guardam do dilúvio e es­per­am mel­hores dias. Thubal não os es­col­he, guar­da-​os ape­nas co­mo obe­diên­cia e re­speito. O Juí­zo Fi­nal da Capela Sisti­na não de­screve esse lento vog­ar da ar­ca no es­curo dia da sen­tença div­ina; pin­ta com ar­dor a con­de­nação dos pecadores, car­regan­do-​os nos braços dos seus demónios; e vê-​se a chega­da dos jus­tos ao claro trono de luz, re­ce­bidos com di