s­tinção, preparan­do-​se para lavar as mãos das mis­érias dos seus ir­mãos. Thubal, o homem, não es­tá de­cer­to en­tre eles. Es­tá lá em baixo, na cidade onde acam­pou, vin­do do mun­do e através do mun­do, através das suas próprias ruí­nas, procu­ran­do sem­pre, não es­col­hen­do ex­ces­si­va­mente o lu­gar da sua casa, o tem­po do seu ami­go, a no­breza da sua vo­cação. 

  O homem de to­do o mun­do é, de cer­to mo­do, o por­tuguês tími­do e con­cre­to, saudáv­el em res­ig­nar de muitas grandezas, con­vivente mais do que ge­nial, duráv­el mais do que imor­tal. Thubal, o homem, es­tende o juí­zo críti­co à própria fa­tal­idade e vai pre­gan­do as tábuas da ar­ca, en­quan­to a civ­iliza­ção apo­drece, cheira e se abis­ma. Guardara com re­speito um casal de ca­da es­pé­cie, os voadores e os mu­nidos de cas­cos, os que têm es­ca­mas nos ol­hos, os carnívoros, o símio triste, a preguiça que dorme de cabeça para baixo, os monos sábios, as rãs de ven­tre grande e que gri­tam nos char­cos qui­etos. E to­dos, no silên­cio da ar­ca, es­per­am mel­hores dias. Is­so en­quan­to soam os pas­sos de Thubal que trans­porta um pe­queno balde de al­ca­trão, is­so en­quan­to uma clar­idade se apercebe aqui e além e não se perde mais na pro­fun­di­dade dos ol­hos, porque quem vê de­veras a luz não re­con­hece mais a es­curidão. Thubal, o homem de to­do o mun­do, sen­ta-​se no con­vés da sua tosca em­bar­cação e pen­sa em coisas ime­di­atas, no peri­go cor­rente, no riso da mul­her, nu­ma jar­ra de vin­ho. Não sabe se ama tu­do is­so, mas não es­quece, e is­so é im­por­tante. Es­pera en­tre­gar a sal­vo uma es­pé­cie de ca­da casal; para is­so con­stru­iu a ar­ca e an­da à deri­va so­bre os ne­gros mares. Não se lhe pode exi­gir mel­hor.

  19 Agos­to 1965 

  Palamedes 

  Qual­quer dia volto a Náu­plia. Pe­lo cam­in­ho de Ar­gos cheguei lá, e era noite. O forte veneziano es­ta­va ilu­mi­na­do no meio do mar, co­mo um grande bar­co an­co­ra­do. As sereias de Uliss­es de­vi­am nadar em vol­ta dele, ou­via-​se o tri­na­do das suas vozes ves­perais. Na margem nós ficá­mos, num largo po­bre onde a poeira de Ar­gos vin­ha cair, rolan­do pela estra­da da planí­cie se­ca, mor­ta, pisa­da. O forte de Náu­plia fi­cou-​nos na memória co­mo um lu­gar bril­hante, meio sub­mer­so, talvez pou­sa­do no eixo da Atlân­ti­da -um lu­gar in­abor­dáv­el. O bar­queiro, de bigodes mur­chos e grisal­hos, ofer­eceu-​se para nos trans­portar. Mas do forte falaram, e re­peli­ram a nos­sa pre­sença. Pare­cia uma história de Kaf­ka, a grande for­taleza no meio do mar, en­gri­nal­da­da de luzes, com a mul­ti­dão de cri­ados vesti­dos de bran­co; a voz que nos proib­ia a en­tra­da -e nós seden­tos e em­poeira­dos naque­le cais de Náu­plia. Cer­ca dali par­tiu a es­quadra de Agamém­non para Tróia. Tin­ham víveres e vin­ho resina­do, e can­tavam lev­an­tan­do as ân­co­ras. Ve­mos ain­da as mu­ral­has da sua cidadela, donde se de­scorti­navam as planas ter­ras de Ar­gos. 

  Palamedes foi uma figu­ra lendária que não teve as hon­ras de uma tragé­dia. Persegui­do por Uliss­es, que o acu­sou de aliança com os troianos, acabou lap­ida­do em ho­ra de des­graça. Era um sábio, in­ven­tou dizem que o al­fa­beto, o jo­go de xadrez, os pe­sos e me­di­das, o cal­endário e a moe­da. O que não in­ven­tou Palamedes, os chi­ne­ses imag­inaram de­pois. É pos­sív­el que fos­se ele o au­tor do pro­jec­to do cav­alo de Tróia, e que prom­etesse tam­bém aos in­imi­gos o seg­re­do da es­traté­gia dos arg­onau­tas. Esse homem am­bíguo e fan­tás­ti­co, mais grego do que qual­quer dos heróis e semideuses, tem uma di­men­são mais acessív­el ho­je, e so­bre­tu­do ro­manesca. Pode­mos adi­vin­há-​lo 